domingo, 12 de maio de 2013

A maternidade e o encontro com o outro: trocando sombras por gente

"A Natividade" - George de La Tour
Cópia em aquarela por Simone de Fáveri
"Obrigada, minha amiga, pela companhia nesse caminho de maternidade". 

E foi assim, com essa frase dita enquanto me entregava como presente a reprodução da tela "A Natividade" de George de La Tour feita em aquarela por Simone de Fáveri que minha amiga mais especial, companheira de estrada desde que nossos filhos nasceram, me fez refletir sobre tudo o que me aconteceu desde que minha filha chegou.

A maternidade veio como bússola na minha vida, como fiel da balança, como foco, potencialização e estímulo ao meu desenvolvimento como pessoa. 
Mas não é sobre nada disso que quero falar. 
Quero é falar sobre o encontro com O OUTRO que a maternidade me propiciou.
Sobre como a experiência de ter gerado, dado à luz e continuamente criar um ser humano trouxe "o outro" para minha vida e o inseriu definitivamente em meu raio de visão. 
De repente, sem que eu planejasse, diferentes pessoas estavam inseridas em minha vida e eu na delas, mediadas não somente pela tela de um computador, mas principalmente por uma questão única, embora compartilhada: as diferentes experiências como mães.
Vivemos, como mães, tantas e diferentes coisas. E ainda assim somos tão semelhantes. Vivemos vidas tão singulares e, ao mesmo tempo, tão plurais.
Ontem senti isso na pele de maneira explícita. 
Emocionei-me diversas vezes em função disso. Cheguei a chorar ao receber o abraço da amiga cuja frase abre esse texto. E tudo porque a companhia de outras mães me emociona, me toca, faz da minha experiência de maternidade algo grandioso e, ao mesmo tempo, sublime.
Estivemos juntas, ontem, em mais um encontro do nosso Coisas de Mãe, que já se tornou ponto de encontro e referência em maternidade ativa aqui em Florianópolis, fruto do nosso trabalho dedicado e absoluta crença em seus princípios. Um encontro planejado com cuidado, atenção e amor para acontecer na véspera do dias das mães e, assim, também prestar nossa homenagem a tantas mães que nos acompanham já há quase três anos. 
E a quantidade de situações repletas de emoção e amor que vivi desde então foi algo realmente especial. A começar pela oportunidade que tive de estar ao lado da Thelma de Oliveira, autora do Livro da Maternagem, para conduzir um bate-papo maravilhoso, divertido e profundo sobre como é absolutamente impossível ser mãe. Impossível. Sobre como a tarefa materna exige que uma mulher esteja preparada em mais de 50 diferentes áreas, e bem preparada. E sobre como, frente a essa impossibilidade, o caminho que a torna possível é a cooperação, o companheirismo, o sentimento de "aldeia". Pensamento que nos leva à velha e sábia frase: "É preciso uma aldeia toda para criar uma criança" (vou publicar o texto dela sobre isso em breve). O bate-papo transcorreu livre, leve e solto, com muitos pais e mães oferecendo suas experiências e compartilhando suas angústias. Terminou com muitos abraços e declarações emocionadas, algumas das quais não vou esquecer tão cedo.

De tudo, três momentos me marcaram demais: dois abraços recebidos, um gesto do meu marido e uma frase da minha filha.

Dos abraços

O primeiro foi o que veio após a frase da abertura deste texto. Ela é minha amiga há alguns anos, nos conhecemos quando nem imaginávamos que seríamos mães. Logo engravidou e trouxe ao mundo um bebê da forma mais respeitosa possível, que se transformou em um menino incrível que hoje é o amigo-irmão da minha filha. Eles estão crescendo juntos, se amam verdadeiramente e isso me emociona, porque foi ela quem me apresentou o mundo da maternidade ativa e do parto com respeito. Antes dela, eu nada sabia sobre nascimentos. Depois dela, uma porta se abriu em minha vida, porta que tratei logo de atravessar. Ela é especial: tem uma alma boa, um coração tranquilo, é serena e ponderada. Ela é brisa suave. Eu sou o vento de Iansã. Ela é inspiração. Eu sou expiração. Ela se acha desorganizada. Eu tenho quarto planetas em virgem. Ela é yin e eu sou yang. E ainda assim, tudo o que nos dispomos a fazer dá certo, é harmônico, nos entendemos e a comunicação é tão fácil que beira a telepatia. Somos amigas, nossos filhos são inseparáveis e nossos maridos se adoram. Ela faz parte da pequena aldeia que me ajuda na criação da minha filha e sei que sem ela e sua companhia tudo seria muito mais difícil. Então receber dela esse abraço em agradecimento pela companhia na maternagem me emocionou tanto que eu não consegui segurar a emoção... Porque ela é mais que uma amiga, é uma companheira de vida e me ensina tanto, todos os dias, sobre filhos...
O segundo foi um abraço inesperado entre tantos que recebi no dia de ontem de pessoas que eu sequer conhecia, embora me conhecessem tanto. Mas esse foi especial porque, além do caráter inesperado, foi dado por alguém que eu já conhecia e que tem muito mais experiência que eu no quesito maternidade, que tem muito mais dicas para dar e histórias para contar, mas que fez questão de ir me abraçar e dizer palavras de carinho. Trocamos um abraço bem forte, bem sincero, ela se foi e eu fiquei pensando: "Caramba... ela tem tanto a me ensinar...". E foi quando me toquei de uma coisa fundamental da maternidade que é a admiração no outro do que sabemos que temos em  nós. Acredito verdadeiramente que quando admiramos alguém, admiramos a nossa potencialidade demonstrada no outro. Qualquer coisa, assim, de simpatia
SIMPATIA: palavra que vem do latim Simpathia e que significa "comunhão de sentimentos", ou do grego Sympatheia, "capacidade de sentir o mesmo que o outro". 
Somos simpáticos a ideias nas quais identificamos um pouco de nós mesmos. Somos simpáticos a pessoas que, de alguma forma, também se parecem conosco. Por isso, quando alguém me abraça assim,  sinto-me feliz, porque achar-se parecido é uma forma belíssima de simpatia.

De um gesto de amor

Em todos os eventos que organizamos, meu marido e minha filha estão junto. E isso só é possível porque ele torna possível. Ele cuida da Clara com um desvelo e uma dedicação incríveis - sempre foi assim. E participa de tudo com entusiasmo e alegria. Sempre ouço comentários elogiosos de outras pessoas pela forma como ele exerce a "paternagem", embora por uma grande injustiça esse termo não exista. Ele aproveita tudo, todas as possibilidades, para inserir-se e à Clara nas atividades. Ontem deram um show na oficina Slingar e Dançar, feita em homenagem ao dia das mães.
Então, já no final do evento, ele veio se despedir com ela porque sairiam para fazer "não sei o que". Eu perguntei que não sei o que era esse, mas ele desconversou. E como o conheço até pelo avesso, sabia onde ele estava indo: providenciar um presente, o tal do "presente de dia das mães", como se tudo o que ele faz já não fosse homenagem suficiente... Mas enfim, foi. Mais tarde, enquanto eu conversava com minha mãe para contar que eu e Clara também tínhamos um presentinho pra ela, pai e filha chegam com uma cesta cheia de presentes cheirosos, lindos, maravilhosos, com um bilhete que continha o seguinte trecho:
"Para a mamãe ficar bem linda, perfumada, 
charmosinha e fantástica!"
Sim, letra do Palavra Cantada, dupla que minha filha muito carinhosamente chama de "Vira Galinha". Dentro da cesta, além dos mil e um presentes cheirosos, havia um ainda mais especial: uma Kombi amarela toda estilizada, com jeitão de motorhome (ele sabe do meu plano futuro de ter um e viver viajando e me apoia nisso a ponto de querer também...). Mas o especial não estava no presente. Estava no motivo pelo qual ele o escolheu. Ele queria algo que lembrasse uma mãe, que fosse especial como uma mãe, que uma mãe especial gostasse. Então decidiu entrar numa loja onde nunca mais havia entrado e na frente da qual sequer passava, por ter sido a loja preferida de sua mãe, que faleceu há alguns poucos anos. Ele e sua mãe eram verdadeiros amigos e parceiros e ele a admirava profundamente. Hoje em dia, fala sobre ela com muita emoção e saudade. Sinto muitíssimo por Clara e eu não a termos conhecido... Ele venceu o bloqueio, entrou na loja e escolheu para mim o que ela mais gostava... Sentiu o cheiro que ela gostava... Venceu a saudade. E trouxe para mim... Um monte de coisas cheirosas e cheias de significado. Dizendo que "por mim ele havia feito isso e entrado naquela loja que ela tanto amava, para que eu soubesse o quanto me ama". Assim, pá!, uma declaração de amor em pleno dia das mães...
E você aí pensando que só o Manoel Carlos sabe emocionar... 

Da frase sincera de uma filha

E no meio da correria do evento, minha filha aparece com um amiguinho pela mão, enquanto o pai dela conversava com o pai do amigo. Clara vem pertinho de mim, abraça minha perna e diz: "Mãe, esse é meu amigo. Essa é minha mãe (e me mostra pro amigo). Ela faz bazar coisas dchimãe. Ela é muito legal, não acha?". Me dá um beijo e sai correndo. E me deixa ali com a maior cara de babaca do mundo. Olhei para a pessoa que conversava comigo e perguntei: "Você viu isso?!". E a pessoa caiu na gargalhada...
Uma filha de quase 3 anos que vem mostrar a mãe para o amigo?! Isso é que é homenagem...

Essa tal maternidade...
Que me faz encontrar tanto com O OUTRO. O outro conhecido, o outro desconhecido, o outro amigo, o outro família, o outro companheiro, o outro ser que me foi confiado para amar e educar. O outro e sua importância. Para além do EU e sua singularidade, O OUTRO e sua pluralidade.
O outro que lê um blog. O outro que faz parte do grupo de maternidade. O outro que curte uma fan page. O outro que assiste uma aula dada. O outro que se mobiliza por uma causa. O outro que se identifica com você. O outro com o qual você se identifica. O outro com o qual você compartilha a vida de mãe. O outro com o qual você compartilha a vida do mesmo filho. O outro que te desperta amor. O outro que te ajuda a criar seu filho. O outro que te deu à luz. O outro que, com tantos outros, forma uma aldeia onde você cria seu filho com amor, respeito e consciência crítica. O outro que é o oposto do isolamento e solidão.

Talvez tenha sido por isso que ajudei a idealizar uma ação que terminou no vídeo que segue abaixo. Uma ação onde uma aldeia inteira de mães presta uma homenagem a um "outro" muito especial, alguém que é como a si próprio embora tão diferente: as mães.

Que você tenha um feliz nosso dia.
E que em sua experiência de maternidade, você transforme suas sombras em encontros com gente!





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os 7 mitos sobre trabalhar em casa

Alguns já sabem da historinha que antecede o que vou postar aqui hoje, mas como ela pode ser um
estímulo a tantas outras pessoas, vale a pena ler de novo.
Logo depois que minha filha nasceu, uns dois meses depois, dois projetos de pós-doutorado que eu havia escrito ainda na gestação foram aprovados. E na sequência. 
Murph e sua legislação perversa...
Eu com um bebê de dois meses e recém entrada no mundo da maternidade, cheia de descobertas, dúvidas, incertezas e ocitocina.
E de contas a pagar...
Então aceitei começar um desses projetos de pesquisa, ainda que em horário alternativo de trabalho, e encarei o desafio de reiniciar o trabalho e a pesquisa mesmo tendo um bebezinho bem pequeno. Vou resumir: muito sofrimento, muita dor, leite empedrando, falta total de sono, saudade que me consumia, sobrecarga para meu marido, qualidade de vida zero e, enquanto isso tudo rolava... uma profunda mudança de valores acontecia dentro de mim. 
Cinco meses depois: chutei tudo, virei a mesa, entornei o caldo, pendurei o antigo diploma e saí correndo pelada pela rua cantando "My sweet Lord". Não, essa última parte é mentira. Mas é que para muitos dos meus amigos, teria sido menos louco eu realmente fazer isso do que fazer o que fiz - frase real dita por alguém de quem gosto muito.
Estava findada uma etapa bonita, amada e muito importante da minha vida. E começava uma nova... Cheia de coisas a serem desbravadas, de assuntos a serem dominados, de conceitos a serem estudados. Começar do zero é foda, não vou usar o equivalente não palavresco. Mas te dá a incrível sensação de liberdade que só alguém com muita, muita coragem, sente. Eis aí algo do qual me orgulho: não ter permanecido em um caminho conhecido e aparentemente seguro, e onde eu não estava feliz, apenas por comodismo e medo de tentar o novo. 
Sem que eu percebesse ou  planejasse, eis que surgiu então, em minha vida, uma nova forma de trabalho. Algo que eu não havia planejado, nem sequer pensado sobre ou sonhado um dia: trabalhar em casa. O tal do home office. E só percebi que isso estava realmente acontecendo alguns meses depois, com o carro já em movimento. 
Hoje eu sei: foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo depois do nascimento da minha filha. Fazer o que amo fazer, no conforto da minha casa, sem precisar perder tempo com deslocamento e, melhor de tudo, tendo minha filha e meu companheiro ao lado... não, eu realmente não esperava por algo que fosse tão afim ao meu relógio biológico prioritariamente noturno, ao meu gosto, ao que valorizo. Profissionalmente, hoje posso dizer que estou feliz e satisfeita e que, ao contrário do que um dia achei, o doutorado não é apenas uma fase a ser transposta na vida. Ele é uma fase profissional muito boa e importante, por si só. 
Em meu primeiro doutorado, esse foi um erro: achar que aquela era apenas a ponte para outra fase. Hoje não acho mais. Hoje vivo o doutorado e a área em que pesquiso como uma real vocação e um fim em si mesmo. Não o estou usando para galgar uma posição futura. Faço-o pela imensa satisfação de estudar esse tema e contribuir para a mudança da realidade. 
Vivo hoje uma vida que é o oposto do que eu sempre imaginei que viveria, do que sempre almejei e do que pensei que fosse acontecer. Eu realmente achava que encararia uma rotina de 8 horas diárias no ambiente da academia e via isso como a única forma de fazer ciência e de pesquisar. Pois hoje sei que não, que há inúmeras possibilidades. E, paradoxalmente ao que eu imaginava, hoje produzo dezenas de vezes mais do que produzia quando estar nos laboratórios e na universidade era regra inviolável. E sou grata a todas as ferramentas de que dispomos hoje e que tornaram tudo isso possível.
Trabalho em quatro frentes diferentes (doutorado, empreendedorismo materno com o Bazar Coisas de Mãe, escrevendo para editoras e no blog - hoje o blog também representa um trabalho importante, em função do fluxo que acabou, sem que eu também esperasse, movimentando). De todas essas frentes, o doutorado é, para mim, a mais significativa, embora eu ame todas. E o que é maravilhoso: toco todas a partir de casa. Vou para a universidade quando realmente necessário e, por esse motivo, aproveito integralmente meu tempo quando estou lá, ao contrário do que acontecia antes, quando a obrigatoriedade de estar ali me desmotivava e me fazia perder tempo. Em casa, trabalho prioritariamente nas madrugadas, dividindo meu tempo entre todas as tarefas, mas priorizando o doutorado, que é a menina dos meus olhos.
Muita gente me pergunta como foi que tudo aconteceu e como adaptei minha vida a isso, mas infelizmente não tenho uma receita a dar. Tudo foi acontecendo. Hoje tenho uma base de trabalho funcional, completa, e uma rotina estabelecida que procuro seguir. Se é tranquilo? Nada. Nem um pouco. É aquela coisa de fazer tudo ao mesmo tempo agora, principalmente porque tem filho participando de tudo isso e com filho é tudo muito imprevisível. Mas vale a pena cada segundo. Escrevi sobre o que é trabalhar em casa lá no Minha Mãe Que Disse, caso você queira ler, está aqui ("Vem pra casa você também: quando a casa, o escritório e os filhos estão todos no mesmo lugar").

Para finalizar: hoje me interesso, inclusive, por estudar essa coisa de home office. Vivo lendo a respeito ou conversando sobre isso com meus amigos. Eu e a Bianca, do blog Parto no Brasil, que também trabalha em casa, inclusive queremos reunir as mulheres em torno da discussão desse tema, em tom de compartilhamento de experiências e inspiração a outras pessoas, quem sabe entre esse mês e o mês que vem, avisaremos nos blogs.
Então hoje, encontrei uma matéria bacaninha sobre trabalhar em casa lá no Universia. Trouxe-o para cá porque o achei muito interessante. É para quem tem algumas dúvidas ou preconceitos com relação ao home office e para estimular a discussão sobre o assunto.

Por Universia, em 08/05/2013

A matéria original utilizou essa imagem. Mas, na boa?
Ela não representa em nada a minha realidade de trabalho em casa.
Seria ótimo e eu até tento. Mas não, não rola...
Isso é muito Manoel Carlos na cabeça da pessoa...
Acha que trabalhar em casa pode ser mais produtivo? Confira alguns mitos e verdades sobre o famoso home office e a melhor maneira para lidar com essa situação

Um levantamento divulgado pela Car Insurance, organização norte-americana de seguradoras, avalia que a qualidade de vida de funcionários que trabalham de casa é normalmente maior. O estudo apontou muitos benefícios para a saúde dos trabalhadores e para o meio ambiente. Mesmo com esta constatação, muitos empregadores continuam acreditando em certos mitos sobre o famoso home office.
Se você deseja flexibilizar os seus horários de trabalho e ter mais qualidade de vida, confira alguns mitos sobre trabalhar em casa:
Mitos sobre trabalhar em casa: 1. Profissionais perdem muito tempo com internet, mensagens de texto e redes sociais
O fato de passar horas na internet ou nas redes sociais não significa falta de produtividade. De acordo com a pesquisa da Universidade Nacional de Singapura, os profissionais que navegam na internet durante o horário de trabalho têm um melhor desempenho e são mais produtivos. Ao contrário do que muitos chefes acreditam as pessoas também gastam tempo com essas coisas no escritório.

Mitos sobre trabalhar em casa: 2. Os funcionários podem ser desonestos fora do escritório 
Os profissionais podem ser desonestos em qualquer lugar. Você pode prender uma pessoa dentro de um escritório durante todo o expediente e, mesmo assim, ela pode não cumprir as suas funções. Lembre-se: não é o ambiente que faz a pessoa serem desonestas, mas as suas atitudes.

Mitos sobre trabalhar em casa: 3. Empregados que trabalham em casa são mais difíceis de serem encontrados 
Com as novas opções de tecnologia no mercado, isso não é verdade. Você pode muito bem trabalhar em casa e conversar com o seu chefe via smartphones, tablets e laptops. Assim como no escritório, os funcionários ficam disponíveis em todos os momentos.

Mitos sobre trabalhar em casa: 4. Os funcionários não conseguem se comunicar com outras pessoas na empresa 
Mais uma vez, as tecnologias de comunicação estão disponíveis para essa finalidade. Para manter todos os funcionários conectados, você pode usar um telefone, mídias sociais, Skype, Google Hangouts ou qualquer tecnologia para reunião virtual.

Mitos sobre trabalhar em casa: 5. Os funcionários não podem participar de brainstorms 
Esqueça esse conceito de que as melhores decisões ou ideias vêm da cafeteria. Um brainstorming pode acontecer em qualquer lugar. Na verdade, os melhores ambientes para ser realizar esse tipo de reunião são fora do ambiente de trabalho.

Mitos sobre trabalhar em casa: 6. Os profissionais trabalham menos horas 
Os funcionários que trabalham em casa não têm o seu tempo controlado, na realidade, eles acabam trabalhando mais horas que os outros.

Mitos sobre trabalhar em casa: 7. Trabalhar em casa é como um período de férias 
Trabalhar em casa não é um período de férias. E muitas vezes, isso pode ser até mais estressante. Trabalhar em casa tem os seus benefícios, mas você também encontra muitas distrações que não estão presentes no seu ambiente de trabalho. E isso pode atrapalhar muito o seu rendimento.

Postei isso hoje ao final das atividades a que me propus no dia, depois de organizar minha mesa para o dia seguinte, ouvindo My Sweet Lord, tomando um chazinho e calçando pantufas de botinha que comprei pra trabalhar no inverno. Coisas do home sweet office...
Não... Não troco.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Beleza feminina

Será que eu já escrevi aqui sobre beleza feminina?
Bom, sobre aquela beleza de casquinha, aquela que funciona tal qual revestimento cerâmico que recobre um cimento riscado, com certeza não.
Essa de ficar valorizando o superficial, de julgar pela beleza externa, não é e nunca foi a minha praia - embora conheça muita gente que nada com verdadeiro  e indisfarçado prazer maquiavélico por tais águas...  Gente que se satisfaz destilando veneno analisando a beleza alheia e que nada tem de muito interessante a fazer na vida.
Mas sobre aquela beleza fruto da busca pelo autoconhecimento, da beleza fruto da superação dos desafios, da beleza advinda do empoderamento e da busca pelo domínio das rédeas da própria vida, daquela beleza, jinga e malemolência que só tem quem já ralou muito para ser quem se é, sim, escrevo sempre sobre.
Mulher nenhuma é mais bonita que aquela que batalha verdadeiramente por sua vida. Nenhuma. Essa tem um brilho típico no olhar. Tem um viço de pele que nada tem a ver com cremes anti-idade. Tem um rebolado orgulhoso e altivo de quem já deu vários, muitos bailes na vida. Tem um olhar de sobrancelha levantada de quem diz: "Você, benzinho... Não. Você não me engana com esse teu papinho".
Isso sim é beleza.
Se você acha Luana Piovani linda, é porque não a viu pessoalmente.
Ele é mais que linda: é uma diva.
Mas acha que precisa defender o senso comum...
Então estava eu navegando pelo Facebook ontem quando me deparo com uma foto curiosa.
Luana Piovani e seu companheiro brincando na praia. O que me chamou a atenção: a cara de feliz dele,
como quem brinca com alguém de quem gosta e que não quer ser molhado pela água fria. Achei divertida aquela imagem.
A mim, transparecia diversão. Amor e diversão.
Foi então que li o texto linkado abaixo da foto.
Não,  eu não havia notado qualquer coisa além da imagem de aparente diversão. Eu não havia dado valor a celulites ou qualquer outra coisa além de um sorriso feliz de homem que brinca com quem gosta.
Boba eu? Não. Não boba. Mas é que celulite... gente... só não tem celulite na bunda quem não tem bunda ou quem acha que o photoshop é vida real.
E todo mundo tem bunda.
Até minha filha de 2 anos sabe disso.
Entrou hoje comigo em uma loja e gritou lá dentro: "Mãe, tem uma coisa na sua bunda!", assim, bem alto.
Era um pedaço de fita crepe que surgiu sei lá de onde. Todo mundo olhou. Pra nós, não pra minha bunda. Se tivessem olhado pra minha bunda, paciência... todo mundo tem. Todo mundo tem bunda, todo mundo que quer amor de verdade tem bunda, já diria os Titãs.
Bom, mas aí fui ler o texto linkado abaixo da imagem e... nossa! Que texto maravilhoso!
Então hoje eu apenas compartilho aqui esse texto.
E sem comentários adicionais, porque o cara deu um banho.
Está na seção CULTURA, do O Globo.

LUANA PIOVANI NÃO GOSTOU
Por Joaquim Ferreira dos Santos

Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas
Luana Piovani leu a crônica da semana passada, um carinho sobre as mulheres que estão fora do padrão da beleza em cartaz. Não gostou. Criticou a sugestão do colunista para que o programa “Superbonita”, do qual é apresentadora, fizesse, na contramão do poema “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes — aquele da beleza é fundamental —, um especial pacificador sobre a bobagem de se reprimir uns centímetros a mais nos culotes e outras aflições daquelas que o mundo tacha como feias. Luana Piovani respondeu pelo seu tambor preferido, o twitter:
“Sugestão declinada. Teremos sim programa para como se livrar deles. Precisamos de audiência e ninguém vai assistir a um pgm que incentive a inércia no duvidoso. Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos pq no planeta q moro, homem tá mais vaidoso q a gente.”
Daí que peço licença aos leitores para hoje escrever diretamente a Luana, uma das mais completas e perfeitas traduções em 2013 do poema de Vinicius.
Querida Luana,
A versão mais bonita de uma mulher é aquela que aprendemos a admirar e, se me permite a simplicidade de incorporar a linguagem twitter, ter tesão. Vamos colocar a língua para fora e deixar escapulir o Einstein que nos habita. Esse negócio de “bunda mole” é muito relativo. Eu conheci uma moça que poderia ser enquadrada nessa categoria e, no entanto, noves fora a suposta flacidez, era linda. Ela se movimentava como uma dessas garças que o Vinicius fazia pairar sobre as árvores de suas poesias, um pescoço de dois metros, e aquilo era um espetáculo de soberba tão deslumbrante que só agora, Luana, provocado por suas palavras, percebo que talvez ela pudesse estar nessa categoria calipígia que você desdenha como um downgrade. No entanto, tal moça tinha borogodó. A soma do quadrado dos seus catetos dava o quadrado de uma hipotenusa fantástica. Fomos felizes assim. Eu estive ali, pertinho, e longe de qualquer acidez crítica, era-lhe só reverência e vassalagem.
De homem eu entendo, Luana, e não sou bobo de desdenhar da carne dura, da pele macia, da bunda desenhada a compasso e outros clássicos da mulher bonita. Mas nem sempre é possível tamanha poesia numa hora dessas. Tenho certeza que havia dois Vinicius de Moraes. Um sentava à escrivaninha, no tempo da caneta tinteiro, e escrevia sobre a necessidade de que os seios tivessem “uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca” e pudessem “iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas”. Outro Vinicius andava pelas ruas. Seguia as mulheres com os olhos, súdito servil em lhes encontrar outros tipos de graça. Era capaz de, diante de alguma de seios de expressão divertidamente cubista, pedir o favor de que lhe caíssem nas mãos, róseos, plúmbeos, da cor do azeviche ou do maracujá, e fizessem o favor apenas de apagar a dor, aquietar o espírito e pôr ordem na correria insana de uma vida de resto sem sentido.
Definitivamente, Luana, vida real é outra coisa. Não cabe na pauta do ótimo “Superbonita”. Ninguém precisa ser super em nada. Assim como você, também acredito que todos temos a nossa melhor versão e precisamos incentivá-la, mas o que se vê em geral é a tentativa de obrigar todas as mulheres ao mesmo padrão. Fazê-las correr obrigatoriamente atrás do cabelo chapinhado, das pernas musculosas e dos peitos com a centimetragem de uma bomba que vai daqui até o pé da página, mas apontando para o alto, claro, prestes a estourar nos olhos do freguês. Há quem dê preferência, mas existem homens com desejos mais sutis. Eu, a propósito, sou das antigas, e aproveito o ensejo para cantar Noel, aquele do “há tantas santas no mundo, que vivem fora do templo, santas de olhar tão profundo, você, por exemplo, você, por exemplo”.
Nada contra a mulher bonita. Desde a primeira que eu vi, aquela com dois baldinhos na lata do Leite Moça, eu dedico boa parte do meu tempo a trazê-las para dentro das minhas retinas, jamais fatigadas com tamanho espetáculo. Eu só queria dizer, Luana, que homens têm um padrão mais elástico do que o recomendado na pauta do programa. Podemos, sim, curtir uma “barriguinha, a testa giga” e outras delícias a serem declaradas no próximo programa como esteticamente incorretas. Mulheres são desdobráveis, dizia a linda poeta
Adélia Prado, e eu, mundano, já que a nossa pauta é outra, completo — elas são capazes de se redesenharem com um jeito de falar, uma maneira de silenciar ou uma promessa de queima de fogos ao se oferecer. Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas. Temos a força, como quer o desenho animado, mas ainda a espada da fantasia, a poesia da imaginação.
Qual de nós, diante daquele sorriso maliciosamente desengonçado, pediria, antes de se apaixonar, para avaliar, se duro ou com estrias, o bumbum da Diane Keaton?


No mínimo, o cara assistiu a  "Alguém tem  que ceder" e se apaixonou pelo filme tanto quanto eu...
No mínimo, o cara se apaixonou ou conviveu com alguém cuja celulite estava tão presente quanto o borogodó. 
Que me desculpem as "lindas apenas".
Mas borogodó e tesão, mesmo que com celulite, são fundamentais.




domingo, 5 de maio de 2013

Dia das Parteiras - Parteiras tradicionais e uma homenagem especial

Imagine escrever um livro sobre o que você mais gosta. Um amor que despertou juntamente com o
maior de todos eles. Um livro escrito em um chalé, fruto de muitas saídas a campo, de atividades, oficinas e muita pesquisa. Imagine um livro fruto de ter vivido o parto pelo qual tanto se batalhou e que foi escrito enquanto seu filho crescia ali, do seu ladinho. Essa escritora é a Bianca Lanu. Esse filho é o Rudá. E o livro é o Parteiras Caiçaras.
E por que estou escrevendo isso hoje, 05 de maio? Porque hoje é o Dia da Parteira

Muito felizmente, tenho muitas amigas parteiras. Amizades frutos da minha busca por um parto respeitoso e do meu envolvimento com o respeito ao parto e nascimento e contra a violência obstétrica. Todas parteiras contemporâneas, parteiras urbanas. Infelizmente, nenhuma parteira tradicional...


Então, esse livro foi, para mim, um encontro. Um encontro com a tradição, com a essência, com minhas origens (sou neta de índios e de portugueses que viviam em aldeias), com a essência do parto onde a mulher era a verdadeira protagonista. Um encontro com a época onde o parto era um evento essencialmente feminino, um encontro com relatos de mulheres sábias e fortes, um encontro com a época onde do parto nasciam as comadres e, sobretudo, um encontro com a busca de uma pesquisadora por entender e conhecer aquele que, durante tanto tempo, foi o único modelo de nascimento. 

O livro Parteiras Caiçaras foi escrito em home office. Essa forma que muitas de nós conhecemos de trabalhar: em casa, junto aos filhos, dividindo tempo entre tantas tarefas simultâneas e diferentes estímulos. Foi escrito com Rudá indo para as entrevistas, para as saídas de campo, para as comemorações de Dia da Parteira e para as produções do lançamento. Junto com sua mãe.

Bianca conheceu o vasto mundo do parto primeiro pelo contato com a gestação da Iara, filha da Ana Carolina Franzon (que ela muito carinhosamente, e em função de uma amizade de muitos anos, chama de Aninha e com quem, hoje, divide a autoria do blog Parto no Brasil - ambas minhas amigas muito queridas), e depois pela gestação de próprio filho, Rudá.

Rudá, filho de Bianca Lanu, autora de Parteiras Caiçaras, e Clara,
minha filha, em nosso encontro em Cananeia-SP em
março de 2012. 
Rudá é o filho caçula de Bianca e nasceu de um parto vaginal após uma cesárea prévia (VBAC) com o amparo de uma parteira, e que a transformou para sempre. Depois de viver um VBAC, de tanta superação e de lutar tanto por um parto digno e respeitoso, o ativismo foi seu caminho natural. Em dezembro de 2009, ela e Ana Carolina lançaram o blog Parto no Brasil e em 2010 Bianca enviou a proposta do livro, com a ideia de coletar relatos das parteiras tradicionais da região onde vive, em Cananeia-SP.

O livro representa sua busca incessante pela valorização dos saberes ancestrais e do papel das parteiras tradicionais. Desde 2007, ela, que é cientista social, vem trabalhando com comunidades tradicionais e durante suas pesquisas antropológicas já havia se deparado com elas, antes mesmo de parir Rudá. Após seu parto empoderador e de seu posterior caminhar como aprendiz de parteira, lançou um outro olhar à parteria tradicional, que deixou de ser de fora para dentro, como o expectador comum, para se transformar em um olhar de dentro para fora.
"Apesar desse forte movimento pela humanização do parto, as parteiras tradicionais sofrem pela falta de reconhecimento, pela desvalorização. É como se o saber empírico delas não tivesse notoriedade, mostrando o quanto nossa sociedade é cartesiana e tecnificista. Os anos de prática, as intercorrências, a transmissão oral do saber, de uma parteira mais experiente, não tem valia, inclusive para muitos grupos do movimento. E quando elas são destaque, sempre é como uma senhorinha, de lenço na cabeça, pitando cachimbo, como se essa fosse a figura das parteiras tradicionais apenas. Somos muitas! E de diferentes áreas, formações e num caminhar permanente, de aprendizado, estudo, reflexão e entrega. Não é um 'curso' que forma uma aprendiz de parteira, mas suas vivências, acompanhamentos, trocas. Ninguém sai por aí partejando a Deus dará sem ter embasamento técnico, e cada parto te ensina algo, te faz outra" - diz Bianca.

Além de antropóloga e co-editora do blog Parto no Brasil, Bianca também é educadora perinatal. Seu projeto Parteiras Caiçaras foi realizado na Ilha de Cananeia, no Vale do Ribeira, litoral sul paulista, e buscou registrar o levantamento das parteiras tradicionais caiçaras, das áreas insulares e continentais, resgatando técnicas e saberes na arte de partejar.
Com o apoio da Secretaria de Cultura, do Governo do Estado de São Paulo, por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC) - 2010, contou ainda com um panorama da assistência obstétrica no país, além de outros textos de autores como Ric Jones, Sônia Lansky, Ticiana Nonato, pelo Projeto Trabalhando com Parteiras, do Ministério da Saúde, entre outros. O prefácio é de Ana Carolina Franzon, que é jornalista e mestre em Saúde Pública e há, ainda, seu próprio relato de parto domiciliar planejado após uma cesárea.

Além da publicação, a iniciativa participou de um seminário em Bauru, das comemorações pelo Dia da Parteira em Cananeia, de uma Oficina de Bordados - Arpillera, de lançamentos em Cananeia-SP, em Florianópolis, no Bazar Coisas de Mãe, e em Bauru-SP, sendo divulgado, desde então, e disponível para download em: http://issuu.com/parteirascaicaras/docs/parteiras_cai_aras. A arte gráfica da capa contou com as telas chilenas Arpilleras, uma técnica têxtil usada durante a ditadura de Pinochet para retratar a opressão vivida por muitas mulheres e suas famílias. 

Para mais informações sobre o livro, basta acessar a página Parteiras Caiçaras no blog Parto no Brasil. E porque eu adoro esse livro e o recomento a todos que se interessam pelo parto e seu estudo, também o disponibilizo para compra aqui, na página Livros

Eu e Bianca decidimos publicar hoje esse texto no Cientista Que Virou Mãe como forma de homenagear todas as parteiras que conhecemos. Todas as parteiras urbanas e contemporâneas que conhecemos e admiramos e que muito nos têm influenciado em nossa busca pela democratização do acesso a um parto cheio de respeito e sem violência. Mas, também, às parteiras tradicionais. Essas  mulheres que têm, desde sempre, garantido nascimentos sem violência pelo interior do país e em comunidades onde os valores tradicionais ainda são preservados e onde a hegemonia médica tecnocrática ainda não os esmagou. O livro é exatamente isso: a valorização desse saber. E todo mundo que valoriza realmente o movimento de humanização precisa lê-lo, como forma de conhecer esse trabalho tão fundamental.

Como esse livro especial da Bianca está muito relacionado com o início do blog Parto no Brasil, fui
até lá para ver como foi que tudo começou... E encontrei uma linda epígrafe. Copiei a página e trouxe para cá.


Para mim, as parteiras são isso. Mulheres que ajudam outras mulheres a encarar, com coragem e confiança em si mesmas, esse rio poderoso com que todas obrigatoriamente nos deparamos para nos tornarmos mães: o parto.

******
Aproveito o momento para fazer uma homenagem especial.
Quem opta por um parto domiciliar enfrenta algumas dificuldades. De aceitação da escolha pela própria família; de preconceito por outras pessoas que não conhecem essa forma de nascer e, ainda que não conheçam, se sentem à vontade para criticar; financeira, para reunir o valor necessário para o pagamento da equipe que dará assistência. Precisa enfrentar a resistência de tantas pessoas, os olhares de reprovação e, muitas vezes, declarações que desincentivam e nada contribuem. Hoje, dia da parteira, às 00:26, nasceu em São Paulo um bebê chamado Théo. Nasceu em casa, na água, amparado por uma parteira. Sua mãe lutou muito para conseguir trazê-lo ao mundo da maneira como acreditava ser mais respeitoso, mais íntimo, sem qualquer possibilidade de sofrer violência ou qualquer outra forma de desrespeito às suas escolhas e integridade corporal. Lutou sozinha, ela e seu filho ainda em sua barriga. Encheu-se de coragem e colocou no ar, via mídias sociais, um pedido de ajuda financeira a todos que quisessem ajudá-la a custear seu parto domiciliar, a tradicional vaquinha. Muita gente envolvida com a questão a ajudou de alguma maneira. Na semana que passou, ela publicou em sua página pessoal no Facebook sua ansiedade e angústia na espera por Théo, dizendo que estava se preparando de todas as maneiras, mas que Théo ainda não tinha dado sinais de que queria chegar. E, ainda que estivesse desabafando, não a pouparam de palavras de desincentivo e desmotivação, apelando para a tal da apavorante, cruel, monstruosa, assassina "dor do parto", dizendo que ela não iria conseguir. Ela conseguiu. Superou todas as dificuldades, confiou em si mesma e em sua equipe e deu à luz ao Théo, do jeito que havia sonhado todos esses meses. E no dia da parteira. Então aproveito esse texto sobre parteiras para essa homenagem especial à Natacha Orestes! Natacha, parabéns por sua coragem no enfrentamento dos obstáculos e por ter se dedicado tão ativamente a conhecer o parto domiciliar como forma de nascimento respeitoso. E, como não poderia deixar de ser, aproveito para deixar registrada aqui também toda minha admiração pela parteira que amparou Théo em sua chegada: Ana Cristina Duarte. Mulher que admiro há bastante tempo, que me inspira em meu trabalho contra a violência e que me enche de esperança. De esperanças preciosas...
Já estivemos juntas em momentos especiais, como a vinda de Laura Gutman ao Brasil e na sessão especial de apresentação do filme O Renascimento do Parto. 
Quem sabe um dia também estejamos juntas em um outro momento ainda mais especial...

Viva as parteiras! Essas mulheres que, como diz a camiseta da parteira que auxiliou Bianca, ajudam mulheres a enfrentar com coragem o jeito que escolheram de serem felizes.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

A menina, o amor e a conquista do espaço... (e um convite mais que especial)

Certa tarde, Clara, minha filha, estava brincando entre o quintal e a sala, entrando e saindo dezenas de vezes, quando se irritou seriamente com alguma coisa e atirou longe um objeto, com raiva. Nervosa, começou a chorar muito, um choro sentido, de lágrimas escorrendo pelo rostinho triste. Eu estava por ali ao lado, fazendo algumas coisas na casa. Deixei o que estava fazendo e fui conversar com ela. Perguntei o que tinha acontecido e ela não queria falar. Então disse: "Filha, será que você não está com sono?". "Acho que sim, mãe", ela responde para minha grande surpresa. "Não acha melhor ir lá na cama tirar um soninho?". Ela parou de chorar, eu a abracei, enxuguei seu rostinho e ela foi caminhando, por si só, até o quarto e se atirou na cama, a cama de casal onde, ao lado, em uma caminha auxiliar, ela dorme durante as noites. Corrijo-me: onde ela dormia... 
Então fui atrás para aconchegá-la, tirar o sapatinho, fechar uma das persianas. Abaixei-me, dei um beijo e fui arrumá-la na cama, quando ela, bem delicadamente, me disse: "Eu já sei sozinha, mamãe". "Já sabe sozinha o que, filha?". "Eu já sei dormir sozinha". Ela estava simplesmente me dizendo que já sabia dormir e que o sono viria sozinho. Assim, de maneira bem simples, estava me dizendo que eu não precisava estar ali...
Então dei-lhe um beijinho, disse que a amava, saí e encostei a porta.
Fui à sacada e pensei: "Ela já sabe dormir sozinha...". Minha filha estava me mostrando que estava pronta para a conquista de seu próprio espaço...

Desde que ela nasceu, nós compartilhamos nosso quarto. Aconteceu sem qualquer planejamento: durante a gravidez nós montamos um quarto lindo para ela, com berço e tudo mais. Mas ela nunca dormiu sequer uma noite por lá e, com o tempo, desmontamos tudo. Dormir com a gente foi uma escolha natural, instintiva, que foi feita pelos inúmeros benefícios que fomos observando durante o percurso. Bom para a amamentação, bom para a qualidade do nosso sono (de todos), bom pelo afeto e amor durante toda a noite, bom para aumentar nossa união, bom para transmitir-lhe segurança durante as noites e para ajudar a tornar o sono dela mais tranquilo e melhor. Ela não teve crises de choro inexplicadas durante a noite, eu nunca precisei me deslocar para amamentá-la, seu pai nunca precisou levantar no frio para acolhê-la. Dormimos, durante esse tempo, em diferentes formatos: carrinho ao lado da cama, junto na mesma cama, bercinho auxiliar ao lado da cama, adotamos a cama no chão (que adoramos) e, por fim, há mais de 1 ano, dormíamos com ela ao lado, em uma caminha auxiliar. Não foi um movimento feito por mim, a mãe, ao contrário do que algumas pessoas pensam, que isso é coisa da mãe e que o pai vai no embalo. Não. O pai dela sempre preferiu assim e sempre disse que não conseguia imaginá-la, tão pequena, tão novinha, dormindo longe da gente. Foram incontáveis noites em que eu, indo dormir depois deles, os encontrei agarrados e trocando cafunés. Hoje, eles são absolutamente próximos e parceiros e sei que o fato de estarmos sempre juntos, inclusive durante as noites, contribuiu para isso.  Se você quiser saber mais sobre cama ou quarto compartilhado, já dei algumas entrevistas sobre isso e escrevi sobre o assunto aqui também. Dá uma lida no texto "Cama compartilhada: por que é bom e seguro?", vai te tirar muitas dúvidas.

E eis então que, agora, eu acabara de ouvir da minha filha que ela já sabia dormir sozinha...
Talvez fosse a hora de montar um quarto de dormir só dela...
Ela já tinha um quarto de brincar (veja aqui), que montei para que percebesse que havia outros lugares de dormir além do quarto em que dormia com sua mãe e pai, além de servir como um lugar onde ela podia brincar nos momentos em que quisesse ficar sozinha - crianças também gostam de ficar sozinhas algum tempo, é importante para elas, é quando a criatividade aflora de maneira mais forte e onde elas criam mundos, reorganizam pensamentos e dão significado às brincadeiras. Mas ele funcionava junto com o escritório do papai e, embora ela gostasse, não era seu quarto de dormir. 

Fiquei com aquilo na cabeça três dias, esperei chegar o fim de semana e então, em um sábado, eu, ela e seu pai saímos para procurar algumas coisas que pudéssemos utilizar para organizar seu quartinho novo. Saímos sem ideia definida, esperando as coisas se mostrarem. Não seriam necessárias grandes aquisições: eu queria manter a ideia de cama ao nível do chão, prateleiras da altura dela em armarinhos pequenos onde os brinquedos pudessem estar organizados e à vista, cores claras, que transmitissem tranquilidade e, o mais importante: que ela se sentisse bem e tivesse espaço. E que fosse um espaço bom, amplo, não apertado, onde ela pudesse levar os amigos e brincar, dançar e bagunçar à vontade. O objetivo não foi passá-la para seu quarto novo mas, sim, oferecer claramente a ela a possibilidade e respeitar seu movimento. Se quisesse ficar com a gente, ótimo, seria sempre bem vinda. Se quisesse dar mais um voo e conquistar seu próprio território, ele estaria ali para ela, gostoso, arrumadinho, saudável, acolhedor.
E então começamos...

Em um domingo, eu mesma fiz toda a reorganização, tendo minha pequena ao lado, como sempre. Dando conselho, perguntando o que eu estava fazendo e porque estava "bagunçando tudo". E foi quando eu disse: "Filha, mamãe está montando um quarto novo. Um quarto grande, cheio de brinquedos, com livrinhos e tudo que você gosta".
E então, essa menina faladeira e curiosa, perguntou: "Meu quarto, mãe?".
Sim, minha filha... Seu quarto.
E quando eu disse "Seu quarto" foi que a mágica aconteceu. Ela deu um pulinho com os braços esticados e gritou "Obaaaaaaa! Meu quartooooo!", e saiu correndo pela casa. Daqueles momentos que marcam mais que tatuagem... Quando você relembra toda a trajetória e sente que tudo está valendo a pena.

Para que ela tivesse um quarto bacana, espaçoso, reorganizamos a casa e mudamos de quarto. Assumimos o quarto menor como sendo o do casal - o que, diga-se de passagem, ficou muito mais aconchegante. Nós, os adultos, não precisamos de tanto espaço quanto ela precisa e, além do mais, temos todo o restante da casa para curtir. Mas quarto de criança é um reino. É uma aventura. É um lugar mágico de sonhos e criações. Esse lugar merece ser espaçoso. Abrimos mão muito felizes do quarto maior. 

Sem essa de temas, acabamos escolhendo, com a ajuda dela, acessórios muito aconchegantes: um edredon de nuvens, organizadores branquinhos, clarinhos, um tapete em tons de azul claro e lilás e, no fim, o quarto está, aos poucos, tomando forma, em tom azul e branco que lembra o céu com suas nuvens. Passei um domingo inteiro de feriado, 21 de abril, mudando livros e mais livros de um quarto para o outro, mudando móveis, arrastando armário junto com o pai dela, prendendo coisa no teto, reorganizando brinquedos e tornando ambos os quartos aconchegantes. Exatamente como fizemos quando ela ainda estava na barriga - sem saber que ela nunca usaria aquele quarto porque era ao nosso lado que ficaria. 

Ao final do processo, já no fim da tarde, ela tirou um longo cochilo. Quando acordou, eu já estava quase terminando. Então a chamei para ver como havia ficado, embora ainda não tivesse arrumado a cama e dado os toques finais. Ela entrou, olhou ao redor e bem objetiva, disse: "Hmmmmm, ainda não tá pronto, mãe". Tome, besta. Dei aquela gargalhada sonora e expliquei que ainda não estava pronto mesmo. Ela saiu para brincar e eu continuei. A noite chegou e, enfim, terminei. Arrumei sua caminha bem aconchegante, sem qualquer pretensão de que ela dormisse ali já naquela noite. Estiquei o tapete novo, acendi o abajur e coloquei na tomada a borboletinha de luz que ela mesma escolheu. E então a chamei. Ela veio correndo. 

Clara simplesmente parou na porta do quarto e, arregalando os olhos, disse: "Mããããe, quiéisso?! Um quarto de nuvens?!", muito espantada pela mudança e novidade. Eu expliquei que sim, era um quarto de nuvens, onde ela podia brincar e cantar e dançar sempre que quisesse. Olhou para a cama e disse: "Minha cama, mãe?". "Sim, filha, sua cama. Você gostou?". E lá foi ela de novo, gritou "Obaaa" e começou a dançar e correr pelo quarto. Entrou num frenesi de cantar "Meu quarto, meu quarto, meu quarto!", numa alegria sem fim. 
Eu daquele jeito... Feliz até não poder mais. 

Eu estava vendo ali na minha frente, estampado, a conquista do próprio espaço. O sentimento de valorização de algo novo, de seu, de próprio, uma fase importante do desenvolvimento, a identificação de si como parte à parte, embora integrada. "Meu quarto", "eu tenho um quarto"... Isso tem uma simbologia diferente para as crianças que compartilham o quarto com seus pais e que, com o andar da carruagem, passam para seus quartos. E, justamente por isso, tendem a valorizá-lo mais, a dar mais importância àquele espaço, porque foi uma conquista fruto de seu crescimento. É por isso, então, que esse medo que as pessoas têm de que as crianças que dormem com os pais podem se tornar crianças inseguras, dependentes, grudadas e que nunca dormirão sozinhas é absolutamente infundado. A conquista de seu próprio espaço é algo muito significativo para elas, o que faz com que a transição tenda a ocorrer espontaneamente. Claro que não é uma regra que todas as crianças seguirão. Pode ser mesmo que algumas crianças sintam muito a transição, mas então talvez não seja a hora... No que eu acredito? Em intuição, em instinto e em sensibilidade. Em ler os sinais que ela está transmitindo e acompanhar suas demandas.

Só que tudo isso, para mim, embora fizesse total sentido, era apenas teórico até então.
Entrou e correu para sua cama, gritando:
 "Obaaa! Meu quartooo!"
Até que, naquele momento, eu estava vendo tudo aquilo acontecer. Tal qual um livro texto de comportamento humano. Tal qual a teoria do apego realmente prevê: crianças criadas com apego seguro tendem a se lançar mais, a serem mais seguras, a conquistarem seu espaço. Bingo.
Sinceramente, eu não havia arrumado todo aquele quartinho gostoso para que ela dormisse lá naquela noite. Acreditava que haveria uma espécie de transição ritualística ou sabe-se lá o que.
Quer saber o que aconteceu?
Aconteceu que ela se apressou para tomar banho, durante o banho só falava no quarto, se trocou dizendo "Que lindo, mãe. Que lindo, pai" e, depois que escovou os dentes.... correu para sua própria caminha, em seu próprio quartinho e... disse "Boa noite, mamãe". 
E tá lá a mãe estatelada na porta, paralisada. "Vai dormir no seu quartinho, filha?". "Vou mãe, meu quarto". 
Nada mais me restou, então, além de aconchegá-la, cobri-la e deitar ao lado para cantar uma música até que dormisse. Estou lá eu, fazendo um cafuné quando, uns 10 minutos depois, ela simplesmente se vira e diz: "Pode ir, mamãe".
Ui. Deu até uma fisgada no peito. 
Dei um beijo, e fui. Cheguei na sala, me sentei e.... fez-se um silêncio aqui dentro.


Porque eu havia esquecido que tinha mais alguém a ser adaptado, que precisava de uma transição, talvez ritualística. Eu. Do nada, do dia para a noite, eu passaria a dormir sem ela. Foram 2 anos, 9 meses e 21 dias dormindo juntinho. Total vínculo mãe-filha. E ela não estaria mais comigo naquela noite. Compartilhei o que estava sentindo com o pai dela. Ele olhou pra mim e disse: "É. Tá crescendo", e me deu um abraço. Sem choro, sem crise, sem nada. Simplesmente foi. Dormiu a noite inteirinha, sem acordar, sem nos chamar, tranquila. E assim tem dormido há 13 dias. Foram 13 noites felizes, tranquilas, de sono ininterrupto. Eu demorei mais para me adaptar do que ela, com certeza. Fiquei uma semana dormindo meio sobressaltada, com medo de que me chamasse e eu não ouvisse. 
E então hoje, durmo relaxada. Feliz. Em meu quarto novo. Nova fase. Estamos todos crescendo.
Estou fazendo para ela um monte de coisinhas para enfeitar o quarto. Estão quase todas prontas. E uma pessoa está fazendo para mim mais alguns acessórios. Com amor e carinho, para uma menina que está crescendo sem dor e sem choro. Naturalmente.

Então, esses dias, ela foi dormir e me pediu que ficasse para cantar uma música, porque "o sono não tá vindo pra mim, mãe". Comecei a cantar uma canção que adoro e que acho que tem tudo a ver com maternidade: 
"(...) Cabe o meu amor... Cabem três vidas inteiras. Cabe uma penteadeira. Cabe nós dois. Cabe o meu amor. Essa é a última oração pra salvar seu coração. Coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor...". 
Ela virou para mim, me abraçou, me deu um beijo e dormiu profundo...

Então eu vou aproveitar esse post, que fala exatamente sobre amor de mãe, sobre coração, sobre amor mesmo, para te chamar a cantar com a gente essa mesma canção especial.
A Kalu Brum, do Mamíferas, que agora integra o Vila Mamífera, pensou em fazer algo todo mundo junto para o dia das mães, me perguntou o que eu achava, eu disse que achava que tinha que ser uma coisa musical, mas não acertávamos na música. E foi depois dessa noite que eu descrevi ali em cima que sugeri a música ORAÇÃO, da Banda Mais Bonita da Cidade. E ela topou na hora. 

Então queremos te convidar pra fazer isso com a gente. 
Nós estamos reunindo mulheres, crianças, companheiros, avós, amigos, todo mundo, para celebrar o dia das mães com música, amor e sem apelo comercial. Será um presente coletivo a todas as mães por seu dia. 
Para participar é bastante simples: basta cantar (você, seus filhos, seu companheiro, seus amigos, seus familiares, quem você quiser) a música ORAÇÃO, da Banda Mais Bonita da Cidade (que você pode assistir ali embaixo) e filmar caseirinho. Filme com a web cam, ou com o celular ou máquina fotográfica. 
E depois nos mande! Veja na imagem todo mundo que está participando dessa ação e para onde você deve enviar seu vídeo. Nós vamos juntar os melhores trechos de todos os vídeos em um único e vamos dar de presente a todas as mães. 
É uma ação para celebrar o amor. Para cantar quanto amor cabe em um coração.
No meu coração, no momento, cabe um amor infinito por uma menina que acaba de conquistar seu próprio espaço. 
Cabem nuvens, e bichinhos, e livrinhos e muita bagunça.
Cabe uma penteadeira, cabe nós duas, cabem três vidas inteiras. 
Cabe o meu amor...



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