Talvez uma das coisas mais misteriosas que exista a respeito dos bebês recém nascidos sejam as cólicas. Cercada de mitos, dúvidas, incertezas e muita coisa feita na base da tentativa e erro, as cólicas estão entre as angústias mais comuns das famílias que recebem um novo bebê.
Não existem regras nem padrões: bebê que mama no peito pode apresentar cólica, bebê que se alimenta de fórmula pode apresentar cólica e, embora se associem os episódios a algo que a mãe comeu - no caso das que amamentam -, como derivados de leite, feijão e outros alimentos, não há nada definitivo que possa ser dito sobre isso, uma vez que as crianças reagem de maneiras muito diferentes.
Na verdade, o que se chama de "cólica" são os episódios de choro frequentes que acometem os bebês de até três meses de idade, e que são relativamente comuns. O choro excessivo em uma criança saudável tem sido associado a possíveis problemas gastrointestinais causados por algo que o bebê ingeriu. No entanto, mesmo após mais de 50 anos de pesquisa, nenhuma ligação definitiva foi comprovada entre a cólica infantil e os problemas gastrointestinais, por incrível que pareça.
A preocupação sobre as cólicas infantis vai além de se tentar compreender de onde vêm e o que as causam. Passa por entender os efeitos do choro intenso e prolongado tanto para o bebê quanto para a mãe, pai ou cuidador, inclusive para a prevenção do que é chamado de "síndrome do bebê sacudido", um comportamento de desespero que atinge pais despreparados emocionalmente e que se caracteriza por pegar o bebê e sacudi-lo para que pare de chorar. Infelizmente, ainda que cruel, é um problema real, e pode causar deficiência mental severa, danos cerebrais irreversíveis e até a morte.É também por isso, mas não só, que muitos grupos de pesquisa tentam entender um pouco melhor sobre o que pode disparar esses episódios dolorosos nas crianças.
Um grupo de neurologistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, constatou, em um estudo feito com mães e seus bebês, que os bebês de mulheres que sofrem de enxaqueca apresentam episódios de cólicas duas vezes mais frequentes quando comparado com os bebês de mulheres que não têm enxaqueca. A pesquisa quis saber se as cólicas poderiam ser sintomas iniciais de enxaquecas futuras. Se forem mesmo, reduzir a estimulação ao qual o bebê está submetido, bem como o nível de luz e ruído, pode ajudar a aliviar e reduzir os episódios de choro, à semelhança do que acontece com a enxaqueca. A pesquisa foi conduzida pela neurologista infantil Amy Gelfand, do Headache Center da Universidade da Califórnia, e os resultados serão apresentados oficialmente em abril deste ano, no 64o. Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia, em Nova Orleans. O grupo liderado pela pesquisadora quer, na verdade, entender o que faz com que os bebês tenham esses episódios de choro intenso, com a finalidade de protegê-los.
Participaram do estudo 154 mães cujos filhos apresentavam picos de choro, diagnosticados pelo pediatra como cólicas. Cerca de 30% das crianças cujas mães apresentavam episódios de enxaquecas também apresentavam episódios severos de cólicas. Os pesquisadores acreditam que a cólica possa ser uma manifestação precoce, uma espécie de precursora da enxaqueca que acontecerá mais tarde na vida.
Assim, os bebês que apresentam cólicas podem ser mais sensíveis aos estímulos ambientais, da mesma maneira que acontece com pessoas que sofrem com enxaquecas.
O próximo passo da equipe será estudar, ao longo de toda a infância, um grupo de bebês que sofreram de cólicas, para ver se desenvolvem outros sintomas que possam ser associados à enxaqueca futura.
O trabalho original contendo essas informações é "Infant colic is associated with maternal migraine", de autoria de Amy Gelfand, Katherine Thomas e Peter Goadsby. Será apresentado dia 25 de abril em Nova Orleans, no evento que mencionei acima.
Essa foi uma informação bastante interessante que recebi via Neuroscience News.
Meu interesse sobre isso vai além da neurociência e passa por nossa própria experiência.
Minha filha teve muitas cólicas durante seus três primeiros meses de vida. Exatamente como mencionei no início do texto, fiz um monte de coisas na tentativa de aliviá-la das dores incômodas, inclusive mudei minha alimentação. Não adiantou.
Não se conhecem ainda as causas das tais "cólicas".
Não se sabe nem mesmo se são cólicas realmente.
Mas, para mim, mais importante do que findar a dor dela, era tentar entender porque ela se sentia assim e se algum aspecto do meu comportamento, das minhas emoções, poderia ajudar a disparar aquilo.
Isso sem falar no aspecto de como lidamos com a dor. Hoje, a dor é vista como algo que deve ser imediatamente combatida. Ninguém quer saber de dor, nem de aprender com ela. É por isso que analgésico, de todos os tipos e para todos os fins, é uma das categorias de fármacos mais vendidas e para a qual tanta verba é destinada pela indústria farmacêutica.
Eu não sou adepta da dor. Mas não tenho pavor dela. E era isso o que eu tentava pensar quando minha filha chorava, incomodada, aparentemente de dor: pensava que a biologia era sábia, que devia haver alguma função biológica naquilo. Que toda dor traz algum tipo de aprendizado, de fortalecimento. Que um bebezinho sentir aquela dor não poderia ser simplesmente um evento ruim, ele deveria, de alguma forma, estar sendo preparado, física ou emocionalmente. Como diz o Dr. Carlos Gonzalez, poderia ser um pedido por mais colo, mais carinho, mais aconchego, então era isso o que eu dava. E sempre que eu me acalmava pensando assim, ela também se acalmava...
Um estudo como esse não é capaz de chegar a uma conclusão definitiva sobre o assunto.
Mas lança mais uma luzinha à questão.
Na verdade, ao meu ver, o problema das cólicas é algo multicausal, multidimensional, e talvez vinculado a fatores para os quais a ciência tradicional ainda não dispõe de instrumentos para medir.
Mas que nós, mães conectadas, sentimos e sabemos quais são...
Ah, apenas para constatação.
Sim, a Clara teve muitas cólicas. E, sim, eu tenho episódios de enxaqueca...
















