sábado, 2 de junho de 2012

Uma ilustração feita com amor

Ontem diferentes situações remeteram a uma mesma coisa: a ilustração que o Frank fez para representar minha pesquisa de doutorado. Essa que está aí ao lado.
Vou contar a historinha dela...
Eu comecei a divulgar a pesquisa sobre violência obstétrica que estou fazendo como parte do meu doutorado no dia 25 de novembro de 2011, Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres. Passei aquele dia quase inteiro conectada à internet, participando das atividades virtuais pelo fim da violência de gênero, em um grande esforço de divulgação, juntamente com outras mulheres, principalmente via Twitter, e que fez com que dezenas de mulheres quisessem participar e contar suas histórias.
Eu já sabia que o convite à participação na pesquisa permaneceria linkado aqui no blog e em outros locais por bastante tempo e sentia falta de uma ilustração que pudesse identificá-la. Então, nos dias anteriores à divulgação, pensei em uma forma de tornar sempre visível o convite, uma forma que fosse delicada, colorida, que desse a impressão de acolhimento - tudo diferente do que a pesquisa aborda, que é um tema bruto, cinza e triste. Eu queria que as mulheres se sentissem acolhidas e que, de alguma forma, a situação de vulnerabilidade pudesse ser representada com doçura. Foi então que tive a ideia de representar a gestante, despida, encontrando as mãos do profissional de saúde, esse vestido, com seu jaleco branco - o choque de exposição e vulnerabilidade. Nas minhas ideias, o detalhe maior deveria estar nas mãos: as mãos do profissional voltadas para cima, numa manifestação de doação, de acolhimento, numa postura receptiva, recebendo aquela mulher e seus anseios num momento tão delicado.
Contei ao Frank o que eu pensava, ele foi pro escritório e dali a pouco voltou com o esboço. Falei mais ou menos sobre as cores que eu pensava, que fossem alegres e passassem uma boa sensação.
E assim surgiu essa ilustração, que marca essa etapa da minha vida.
Muitas pessoas começaram a compartilhar pela internet e hoje, cada vez que a encontro, sinto alegria porque sei que, ali, alguém sabe que tem alguém interessado na história vivida por uma mulher. 

Ontem, Clarinha passou um dia bastante desanimadinha, dormiu grande parte do dia bem grudada a mim. Sabe-se lá como, ela pegou uma conjuntivite e na noite de anteontem a levamos ao médico pra confirmar se era isso mesmo, depois do olhinho inchar tanto a ponto de quase fechar. E era mesmo. Toda congestionada e com o olhinho irritado, ficou quietinha o dia todo e, juntas, passamos o dia descansando. Nada a agradava muito - ela, que é tão interessada em todas as coisas.
E então chegou um pacote pelo correio.
Abri e: um moooooonte de coisas fofas!
Eu sabia que uma delas estava a caminho, mas não que eram tantas - e tão lindas.
Um pacote de lindezas crafts, feitas pela companheira, amiga e comadre Bianca Lanu, aquela, co-editora da Parto no Brasil (juntamente com a Ana Carolina Franzon, minha parceira na ação do Teste da Violência Obstétrica), que recebi durante felizes dias aqui em casa e que, depois, fui visitar em Cananéia.
Abri o pacote e, ao ver as corujinhas do bastidor, Clara levantou na mesma hora do ninho que fiz pra ela na sala, deu um sorrisão e disse: "Ó mãe, oúza! A oúza, mãe!". 
Amigo que faz filho da gente sorrir em dia que tá baleadinho ganha terreno cativo no coração da gente, ô! Obrigada, companheira, comadre, pela lindeza que você fez e pelos sorriso no rosto da minha "manguinha chupada", como você chama carinhosamente a minha cria, em função dos seus cabelinhos lisos escorridos...
E no pacote, um presentinho daqueles de encher o coração da cientista apaixonada por mimos crafts: um broche, em tecido de poás (amo), com a ilustração da pesquisa bordada à mão. 
Não é pra ter um treco?! Grata de novo, minha querida.
No fim da noite, mais sorrisos associadas à ilustração. 
Recebi o seguinte e-mail de uma moça lá de Belo Horizonte:
Prezada Ligia,
Gostaríamos de pedir autorização para utilizar a imagem do seu blog (anexo com o título "respeito ao parto") para fazermos camisetas para as mães-militantes comparecerem à Audiência Pública na Assembléia Legislativa de MG sobre o tema de violência obstétrica no nosso estado, que acontecerá em 20/06.

Não só autorizamos, eu e Frank, como nos sentimos muito honrados por saber que mulheres vestirão essa camiseta por uma causa tão nobre. E aproveito para parabenizar o grupo que está organizando pela grande iniciativa.

Também aproveito pra dizer, pegando a deixa: já há algum tempo venho pensando em produzir camisetas com essa ilustração para vendê-las e reverter o dinheiro para a divulgação de ações contra a violência obstétrica. Seja para a impressão de material informativo para distribuição, seja para viabilizar a vinda de profissionais da área para palestras, enfim, ações que possam ajudar a levar a discussão sobre o assunto para outras mulheres e desnaturalizar as tristes práticas que vêm acontecendo dentro das instituições de saúde.
Eu já vinha sondando alguns fornecedores e fazendo orçamentos, mas de maneira meio descomprometida.
Mas com os ocorridos do dia de ontem, decidi: vou fazer.
Em breve divulgo aqui no blog.
Se você quiser uma, já vai se preparando!


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Paulo Freire e as mães

Minha forma de entender o mundo, se eu pudesse categorizá-la (não posso, mas se pudesse), é bastante paulofreireana.
Considero que, como pessoa, eu me formo na minha relação com o mundo. Mundo esse que, por ser composto por situações, e sendo essas situações bastante variáveis, também é muito variável. Se eu me construo por interagir com algo variável, então compreendo que é preciso, também, refletir sobre essas variações e mudanças e, se for preciso, também mudar.
Ação e reflexão: esse é um dos propósitos humanos, segundo Paulo Freire.
Agir e refletir sobre seus atos, de forma que a ação mude e gere uma nova reflexão. Até que, um dia, seu coração pare e você não tenha mais condições de refletir sobre isso. Mas, até lá, agindo e refletindo.
O objetivo desse jogo da vida seria, então, agir, avaliar, aperfeiçoar a ação, agir novamente, reavaliar e vamos que vamos.
E, porque acho que a vida deve ser vivida assim, é assim também que penso a maternidade.
Quando fiquei grávida, por não saber nada sobre isso nem ter muitas amigas mães, achava que as coisas eram meio pré-definidas, que não haviam tantas possibilidades, que havia apenas um lugar para parir, uma só forma de alimentar, um só jeito de transportar o bebê, uma só forma de voltar ao trabalho, aquela coisa que a gente só sabe de ouvir falar, nunca tendo ido muito a fundo. E foi então que, com o crescimento da barriga - que crescia muito menos que minha intuição (essa sim, alcançando proporções inacreditáveis e tomando-me por completo) - descobri que as possibilidades eram muitas.
E qual foi meu deslumbramento frente a essa quase infinidade de formas de viver a vida como mãe, de cuidar de uma nova pessoa, de tornar-me, também, uma nova pessoa! Quão grande foi o meu espanto diante da vida e sua amplitude e sua riqueza, experimentado pelo simples fato de ter me tornado mãe - esse evento biológico, quase corriqueiro, que por tantas vezes é feito sem qualquer tipo de reflexão ativa sobre a busca de possibilidades.
E, desde então, esse tem sido o meu caminho: a busca constante de possibilidades.
Questionar-me, constantemente, sobre "Como posso fazer isso?", "Quais são as possibilidades?", "Será que só assim?", "Será que não consigo fazer diferente?".
E, agindo, refletindo sobre a ação e a readequando quando necessário, tenho estado, geralmente, satisfeita com as escolhas nesse - tão novo, para mim, mas já tão profundamente imerso nele - mundo da maternidade. E é quando a insatisfação aparece que a busca por possibilidades recomeça...
A história de cada um de nós e a história dos nossos filhos são apenas possibilidades, são devires, como diria Paulo Freire. O que talvez tenhamos de concreto são, apenas, os propósitos. A emancipação humana, ao meu ver, passa por termos a liberdade de construir nossas histórias, e contribuir para a construção das histórias dos nosso filhos, não a despeito das inúmeras possibilidades, mas justamente em função delas. Nossa história, ao final do caminho, poderá ser contada então pela análise das escolhas frente às possibilidades e, principalmente, pelo grau de liberdade, ação e reflexão que se pode ter frente a elas. Algo como: "aqui jaz uma mulher que teve tais e tais possibilidades e, usufruindo da liberdade que conquistou como ser autônomo e emancipado, aproveito-as ou as deixou de lado e, em função disso, essa foi a sua história".
Tudo isso pra dizer que estou passando por um momento de possível mudança com minha filha. Ainda que a mudança não se concretize, só pelo fato dela permear meus pensamentos atuais, algo já irá mudar. Ando pensando e repensando alguns fatores que pareciam já estabelecidos, mas que talvez precisem ser revistos. Estou revendo planejamentos anteriores, vendo se eles ainda se justificam, se é preciso fazer alguma alteração.
Acredito que maternidade também é isso: a constante avaliação da nossa prática como mães, de forma que ela reflita aquilo que realmente pensamos e valorizamos, o constante ajuste e reajuste, correções de margens e readequações, para que o que era válido até ontem mas parece não ser mais, possa mudar também.
Se a vida é dinâmica, então os ajustes também precisam ser.
E mãe é essa pessoa que age em sua própria vida e na dos filhos em função dos ajustes, escolhas, ações e reflexões que faz. Que, desenhando, desenha a si própria. Que, olhando aquilo que ajuda a construir, vê a si própria em construção - grande Escher...
Quão boas somos nisso?
O quanto cada uma se dedicar a ser.
Quão boas precisamos ser?
O quanto conseguirmos. Sem dor ou sofrimento.
O quanto conseguirmos. Sem vitimização.
O quanto conseguirmos. Mas com dedicação e empenho ativos.
O quanto conseguirmos, mas sem essa de deixarmos as decisões que dizem respeito somente a nós nas mãos das outras pessoas.
Como mães, nossa opção é progressiva.
Como mães, estamos a favor da vida.
Como mães, é preciso entender o que é equidade para, só depois, termos condições de ensiná-la.
Como mães, não temos outro caminho a não ser viver a nossa opção: ser mãe.
E, assim, "encará-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos".
Depois de ter me tornado mãe, gosto ainda mais de ser gente.
Porque... "inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado" (Paulo Freire).

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Quem tem medo da febre?

Quando minha filha nasceu, eu era a Louca da Febre. Tem o louco de palestra, o louco de hospital, o louco de supermercado,o louco de laboratório de análises clínicas, o louco de trânsito, o louco de bar, o louco de dieta. Eu era a louca da febre.
Quando criança, tive alguns episódios de delírio associado a febre alta. Achava que minha avó tinha virado bruxa e queria me espetar com a agulha, via rolo compressor vindo em minha direção no deserto, enxergava minha mãe com 8 braços e, certa vez, fui perseguida pelo Scooby Doo, o que me causou um grande pânico... E como a gente traz pra vida adulta certas neuroses da infância, tinha medo que isso acontecesse com a Clara.
Então, ao menor sinal de febre, eu dava plantão ao lado dela de termômetro em punho. Checava frequência cardíaca e colocava a mão sobre o peito pra checar respiração (quem nunca?).
Mas essa paranoia desvairada durou pouco, felizmente.
Logo comecei a perceber que aqueles episódios inexplicáveis de febre, que vinham do nada e também do nada partiam, precediam grandes saltos de desenvolvimento, mesmo aqueles que ocorriam fora dos períodos tradicionalmente conhecidos como tais. Após uma febrícula, sempre surgia uma grande novidade no repertório comportamental dela, novidades incríveis.
Então entendi a naturalidade da situação, recuperei a sanidade e desenvolvi aquela habilidade recessiva do cromossomo X, que só acontece em homozigose e se manifesta após a maternidade: a incorporação somática do termômetro. Hoje, não uso mais o termômetro instrumental, aquele digital ou o que tem mercúrio (que é bem perigoso). Meu termômetro é aquele tradicional, antigo e não falha: minha bochecha. Sei exatamente se ela está ou não com febre e de quanto, mais ou menos, ela é. Mais uma para o rol do "bem que minha mãe me avisou que isso iria acontecer...".
Hoje, não surto mais quando o assunto é febre - pelo menos não tanto. Aprendi a valorizar meu dom de cientista também nessas situações: a observação atenta do comportamento e dos sinais. Quando não há qualquer sintoma associado à febre e ela não é assim tão alta, observo, espero passar e, dias depois, - batata! - lá vem a novidade. Obviamente, quando ela não passa, então vamos para uma nova hipótese em busca de uma solução.
Então ontem, o filho da comadre teve a tal febre sem sintoma.
Compartilhei com ela um texto bem bacana que me ajudou na melhor compreensão disso.
E porque é bem interessante - e ajuda a acalmar o coração valente das mães - compartilho aqui também.
É o texto Quem tem medo da febre?, que está disponível no site da Sociedade Antroposófica do Brasil. Uma entrevista com Samir Rahme, médico antroposófico com muitos anos de experiência, publicada na revista Arte Médica, ano III, n.3, novembro de 2002.
Em tempo, um comentário para os loucos de medicamento (aqueles que acham que tudo que não é terapia medicamentosa é radical, imoral ou engorda): é bom saber que, muitas vezes, o tratamento com antitérmico, que geralmente é enfiado goela abaixo aos 5 minutos do primeiro tempo, pode piorar a situação, ao invés de ajudar. A febre é um mecanismo natural de defesa, muitos agentes patogênicos não sobrevivem em temperatura maior que a natural do organismo. Combatê-la assim, sem mais nem menos, é impedir a defesa natural do corpo.
A febre é um dos sintomas mais freqüentes na infância e uma das maiores causas de visitas ao consultório pediátrico. Muitos pais e mães ficam apavorados quando o termômetro começa a subir... Será que é algo grave? Será que esta febre vai causar convulsão? Quem nos responde estas perguntas é Samir Rahme, presidente da SBMA e médico antroposófico com mais de quinze anos de experiência – muitos deles dedicados à compreensão do papel da febre no equilíbrio de nossos processos vitais.
AM. Como você encara a febre hoje? Ela pode ser benéfica e ter uma função específica para o ser humano?
Samir. A febre, em princípio, é sempre boa. Ela tem um papel fundamental na dinâmica do nosso sistema imunológico, ativando a liberação de anticorpos e de outras substâncias de defesa que vão permitir ao organismo lidar com possíveis “invasores”. Hoje sabe-se que é esse mesmo calor que inibe o crescimento de bactérias e aniquila os vírus, ou seja, o calor põe tudo no lugar, renova o organismo. Isso já foi amplamente reconhecido pela comunidade científica tradicional. A cultura do medo da febre e a tendência de combatê-la rapidamente instalaram-se em nossa sociedade nos últimos 50 anos em virtude de uma grande estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Considero esta tendência muito nociva para a nossa saúde. Em minha opinião, a febre é um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da nossa individualidade. Essa é a grande tarefa da febre na nossa vida. E não é à toa que a maioria dos episódios febris ocorre do nascimento até os 7 anos.
AM. Então os médicos antroposóficos valorizam a febre um pouco mais do que o fazem seus colegas da alopatia, certo?
Samir. Certo! Para nós, ela representa a chance de desenvolvimento da verdadeira individualidade e liberdade em relação aos condicionamentos genéticos. Quando as crianças contraem as doenças denominadas exantemáticas, ou seja, que se manifestam por meio da pele, como o sarampo, a rubéola e outras – e que sempre são acompanhadas por febre –, é uma grande oportunidade para o organismo infantil “quebrar” e eliminar as proteínas herdadas, criando novas estruturas a partir de si mesmo. Na Europa, muitas mães ainda cultivam a antiga tradição de levarem os filhos para visitar as outras crianças com doenças exantemáticas com o objetivo de proporcionar uma imunização natural. Mas, hoje em dia, fica cada vez mais difícil para esse pequeno ser usufruir os benefícios que estas doenças “naturais” podem lhe proporcionar. De um lado, temos as vacinas e de outro os antitérmicos...
AM. O calor vivenciado através da febre tem uma função para nós?
Samir. Segundo a Antroposofia, nós, seres humanos, temos um organismo com quatro componentes básicos, que didaticamente chamamos de “corpos”: um corpo físico (terra), um corpo vital (água), um corpo astral ou alma (ar) e um corpo espiritual ou individualidade (fogo). Quando se dá o aumento da temperatura, o que está acontecendo num nível mais sutil, não mensurável por aparelhos, é que a individualidade (o corpo espiritual ou “Eu”) está em seu caminho de conquistar o corpo, está atuando mais de perto, por meio do calor, que é seu elemento natural. O significado do calor ainda é pouco explorado na Medicina, mas já estamos avançando: os mais avançados tratamentos de tumores são feitos com hipertermia.
AM. Como lidar com a ansiedade dos pais?
Samir. O melhor remédio é paciência e conversa. Os médicos devem tentar esta abordagem com os pais, resistindo à pressão. Hoje em dia, tanto na medicina quanto em outras áreas predomina o conceito de FAST(rápido, em inglês), ou sejam, tudo deve ser e ocorrer de maneira rápida, o que não proporciona um desfrutar das situações. Quando lidamos com o ser humano, quanto mais SLOW melhor o resultado e, no caso de afecções do organismo, estamos sempre lidando com a eternidade. Muitas vezes, somos procurados porque os pais já não agüentam mais dar tanto remédio químico para seus filhos, e a reclamação é sempre a mesma: não ficam bons nunca.
AM. E medo da convulsão?
Samir. Poucos pais sabem que as convulsões causadas pela febre ocorrem em apenas 2% das crianças e não dependem da temperatura que a febre alcança, mas da velocidade com que ela sobe. Assim, as crianças propensas a ter convulsões febris poderão ter crises mesmo com febres baixas. Nesta situação, o uso antitérmico está mais que justificado, mas sem nos esquecermos de que estamos lidando com uma minoria.
AM. E como você orienta o tratamento da febre?
Samir. A primeira preocupação do médico é diagnosticar e tratar a doença que provoca a febre, que é apenas um sintoma. Na medicina Antroposófica existem medicamentos naturais, à base de plantas, animais e minerais, que podem ser usados no tratamento das causas da febre. A compressa de limão na panturrilha costuma baixar a temperatura de 1 a 2 graus, sem comprometer o processo como um todo. (Ver receitas abaixo.)
AM. Quais seriam suas considerações finais sobre a febre?
Samir. Vale alertar que numa criança bem nutrida os efeitos de uma febre serão mais bem tolerados do que numa criança desnutrida. Repito que a febre é o remédio mais potente e sábio que existe, devendo ser encarada como uma grande aliada do médico e do paciente. Acho fundamental iniciarmos uma contracultura da febre!

Compressa com rodelas de limão Corta-se um limão em rodelas. Depois, elas são colocadas entre as dobras de um pano e batidas para se extrair o suco. Em seguida, a compressa com as rodelas de limão batidas é aplicada morna na panturrilha e firmemente enrolada com um xale de lã.A compressa de limão pode ser aplicada morna na panturrilha. Um limão é colocado numa vasilha com água suficiente para cobri-lo. É depois cortado e espremido debaixo d’água, fazendo-se diversos cortes na casca para se obter bastante óleo etérico (sumo). Dobra-se um pano de algodão ou linho (pode ser um lenço) de modo que cubra o panturrilha. Molha-se o pano na água com limão, espremendo-o depois com força. Ele é aplicado, sem pregas, ao redor da perna, preso com um pano maior e, em seguida, com um pano de lã firmemente enrolado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mulheres, homens e crianças em marcha pela liberdade - e Xico Sá falando sobre brasileiras que "botaram pra arrombar"

Dia 26 de maio, sábado último, aconteceu em diferentes cidades brasileiras a "Marcha das Vadias 2012".
Muita gente acha esse um nome forte. Vadia.
Mas eu vou dizer o que é forte.
Forte é um homem se sentir no direito de chamar uma mulher de "vaca", por exemplo (é ruim até de escrever, quanto mais de ouvir)...
Forte mesmo é um homem julgar uma mulher porque ela usa um decotão, ou tem um cabelo bem curtinho, ou um cabelo bem comprido, ou usa batom forte, ou fala "como homem", como se existisse forma de homem falar e forma de mulher falar.
Essas coisas não são só fortes, no sentindo de brutais e estúpidas. São atestados de ignorância.
Se você aprendeu com sua família que "uma mocinha faz assim" e "um mocinho faz assado", então você foi criada em um pensamento sexista e, provavelmente, não foi vestida de roupa azul quando pequena, nem teve cabelo curtinho porque isso causava pânico na família.
E isso está impregnado no senso comum e na vida cotidiana.
Mas você sabe o que é a Marcha das Vadias?
É uma manifestação que tem, como base, o respeito à mulher. Incondicional. Mas incondicional mesmo. Não é o respeito à mulher desde que ela faça isso ou aquilo, seja assim ou assado.
Começou assim.
Em 2011, em uma universidade em Toronto, no Canadá,  mulheres foram violentadas sexualmente. E aí um policial veio a público e disse: "As mulheres precisam parar de se vestir como vadias". Isso, além de ignorância, atraso mental e machismo exacerbado, é algo muito grave: é culpar a vítima.
É culpar a mulher pelo fato dela ter sido violentada.
E isso não é assim tão incomum não, pelo contrário. Quantas mulheres já ouviram: "Se vai sair vestida assim, então depois não reclama"?
E aí, pelo mundo todo, começaram as SlutWalks, ou Slut Marchs. No Brasil, a primeira foi em SP, dia 04 de junho de 2011.
Para acabar com a violência sexual, há que se ensinar HOMENS a não violentarem. Não mulheres. Porque não há qualquer comportamento no mundo que dê a um homem autoridade sobre o corpo de quem quer que seja, quanto mais de uma mulher. Viu, senhor doutor? Isso é mostrado muito bem no vídeo do post anterior, na figura do obstetra ali representado.
Então é assim, em poucas palavras.
A forma como uma mulher se veste, fala, vive, sorri, bebe, não bebe, caminha, olha, ama, fica brava, e tudo mais que a caracteriza como uma pessoa singular não é da conta de ninguém, embora tanta gente queira cuidar da vida alheia.
E se uma mulher anda de saia, é porque ela gosta de andar assim. E isso não dá o direito de passar por ela e dizer bobagem.
Não ser submissa - e não ser machão - se aprende - e se ensina - na infância, na forma como as crianças são criadas por suas famílias, pela escola, pela sociedade, pela mídia.
Mas se não se aprendeu lá, sempre é tempo de começar.
Mesmo porquê, nos dias de hoje, se você não quiser aprender isso, é muito provável que vá passar vergonha e constrangimento em público, porque as mulheres estão se empoderando cada dia mais e não levam mais pra casa a ignorância alheia que não lhes pertence.
E é importante ressaltar que não é só nas ruas que as ofensas verbais são direcionadas contra as mulheres. Dentro das casas e instituições também são. E é ali inclusive que mora o perigo...
Se você é mãe ou pai, seu papel é ainda mais importante.
Preste muita atenção no que anda ensinando para seus filhos sobre isso. Que tipo de mensagem você está passando?
Um futuro sem sexismo, sem opressão, sem dominação de uns sobre os outros passa por uma educação rica em respeito.
Agora, tomo a liberdade de postar algumas fotos que estão sendo disseminadas pela internet, com o devido respeito a seus autores. Das centenas de fotos relevantes, essas são apenas algumas que me marcaram. Espero que inspirem outras pessoas a também refletirem sobre o assunto.

Foto de Cecília Santos - Marcha das Vadias SP - publicada em Feminismo na Rede

Marcha das Vadias BH - publicada em Feminismo na Rede (sem autor)

Marcha das Vadias DF - publicada em Feminismo na Rede (sem autor)

Marcha das Vadias Porto Alegre - foto publicada com autorização da doula Maria José Goulart, que a publicou com as seguintes emocionantes palavras: "Maternas Nascer Sorrindo, na Marcha das Vadias! Marchamos orgulhosas, representando as que não puderam estar lá, par dizer que O PARTO É NOSSO! Que queremos parir com prazer, com respeito... Queremos amamentar nossos filhos em público e onde bem entendermos... Pelo protagonismo da mulher! Pelo parto e nascimento com respeito. Pelo fim da violência obstétrica!"

Essa foto SENSACIONAL foi tirada na Marcha das Vadias aqui em Floripa, por Yuri Brah

Marcha das Vadias Florianópolis - Foto de Yuri Brah

Por fim, compartilho essa que, para mim, foi uma das mais especiais, por diferentes motivos. Pela história dessa mulher, pela força que ela tem, por tê-la conhecido na semana passada (quando ela me reconheceu, a partir do Facebook, no CCS- UFSC, permitindo que eu a abraçasse, um abraço que queria ter dado na outra semana, quando conversamos via internet), porque ela está com o filho no colo e o marido ao lado,  segurando a faixa: "Você pode desistir. Eu posso desistir". Laura e sua família. Uma família unida em prol do respeito à mulher.
Marcha das Vadias Florianópolis - Foto de Yuri Brah

Como diz a campanha pela Marcha esse ano, se ser livre é ser vadia, então somos todas.
A começar por Pagu, Luz Del Fuego, Dadá, Leila Diniz, Clarice Lispector e outras célebres brasileiras, sobre quem o sempre genial Xico Sá fala nesse texto aqui, As dez "vadias" históricas do Brasil.



domingo, 27 de maio de 2012

Somos preparadas para o parto. Não para a soberba médica.

Esse vídeo sobre VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA apareceu pela internet nos últimos dias e foi bastante compartilhado.
Embora o conteúdo possa ser abstraído com facilidade, nem todo mundo conseguiu entender o que se fala nele, por ser de língua espanhola.
Mas agora a Marilia Mercer, do GestaLondrina, fez a grande gentileza de traduzi-lo e legendá-lo.
Assista. Vale muito a pena.
Produzido pelo programa argentino "Duro de Domar".
Infelizmente, retrata exatamente o que anda acontecendo com a assistência ao parto. Arrogância e violência que podem acontecer desde as primeiras consultas.
Aproveite e acesse os resultados preliminares do Teste da Violência Obstétrica e veja como de ficção, infelizmente, não tem nada.

"Nunca estaremos preparadas para o sistema de saúde que, seja público ou privado, permite que sejamos atingidas pela violência obstétrica.
Nunca estaremos preparadas para a soberba médica.".

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