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| "A Natividade" - George de La Tour Cópia em aquarela por Simone de Fáveri |
E foi assim, com essa frase dita enquanto me entregava como presente a reprodução da tela "A Natividade" de George de La Tour feita em aquarela por Simone de Fáveri que minha amiga mais especial, companheira de estrada desde que nossos filhos nasceram, me fez refletir sobre tudo o que me aconteceu desde que minha filha chegou.
A maternidade veio como bússola na minha vida, como fiel da balança, como foco, potencialização e estímulo ao meu desenvolvimento como pessoa.
Mas não é sobre nada disso que quero falar.
Quero é falar sobre o encontro com O OUTRO que a maternidade me propiciou.
Sobre como a experiência de ter gerado, dado à luz e continuamente criar um ser humano trouxe "o outro" para minha vida e o inseriu definitivamente em meu raio de visão.
De repente, sem que eu planejasse, diferentes pessoas estavam inseridas em minha vida e eu na delas, mediadas não somente pela tela de um computador, mas principalmente por uma questão única, embora compartilhada: as diferentes experiências como mães.
Vivemos, como mães, tantas e diferentes coisas. E ainda assim somos tão semelhantes. Vivemos vidas tão singulares e, ao mesmo tempo, tão plurais.
Ontem senti isso na pele de maneira explícita.
Emocionei-me diversas vezes em função disso. Cheguei a chorar ao receber o abraço da amiga cuja frase abre esse texto. E tudo porque a companhia de outras mães me emociona, me toca, faz da minha experiência de maternidade algo grandioso e, ao mesmo tempo, sublime.
Estivemos juntas, ontem, em mais um encontro do nosso Coisas de Mãe, que já se tornou ponto de encontro e referência em maternidade ativa aqui em Florianópolis, fruto do nosso trabalho dedicado e absoluta crença em seus princípios. Um encontro planejado com cuidado, atenção e amor para acontecer na véspera do dias das mães e, assim, também prestar nossa homenagem a tantas mães que nos acompanham já há quase três anos.
E a quantidade de situações repletas de emoção e amor que vivi desde então foi algo realmente especial. A começar pela oportunidade que tive de estar ao lado da Thelma de Oliveira, autora do Livro da Maternagem, para conduzir um bate-papo maravilhoso, divertido e profundo sobre como é absolutamente impossível ser mãe. Impossível. Sobre como a tarefa materna exige que uma mulher esteja preparada em mais de 50 diferentes áreas, e bem preparada. E sobre como, frente a essa impossibilidade, o caminho que a torna possível é a cooperação, o companheirismo, o sentimento de "aldeia". Pensamento que nos leva à velha e sábia frase: "É preciso uma aldeia toda para criar uma criança" (vou publicar o texto dela sobre isso em breve). O bate-papo transcorreu livre, leve e solto, com muitos pais e mães oferecendo suas experiências e compartilhando suas angústias. Terminou com muitos abraços e declarações emocionadas, algumas das quais não vou esquecer tão cedo.
De tudo, três momentos me marcaram demais: dois abraços recebidos, um gesto do meu marido e uma frase da minha filha.
Dos abraços
O primeiro foi o que veio após a frase da abertura deste texto. Ela é minha amiga há alguns anos, nos conhecemos quando nem imaginávamos que seríamos mães. Logo engravidou e trouxe ao mundo um bebê da forma mais respeitosa possível, que se transformou em um menino incrível que hoje é o amigo-irmão da minha filha. Eles estão crescendo juntos, se amam verdadeiramente e isso me emociona, porque foi ela quem me apresentou o mundo da maternidade ativa e do parto com respeito. Antes dela, eu nada sabia sobre nascimentos. Depois dela, uma porta se abriu em minha vida, porta que tratei logo de atravessar. Ela é especial: tem uma alma boa, um coração tranquilo, é serena e ponderada. Ela é brisa suave. Eu sou o vento de Iansã. Ela é inspiração. Eu sou expiração. Ela se acha desorganizada. Eu tenho quarto planetas em virgem. Ela é yin e eu sou yang. E ainda assim, tudo o que nos dispomos a fazer dá certo, é harmônico, nos entendemos e a comunicação é tão fácil que beira a telepatia. Somos amigas, nossos filhos são inseparáveis e nossos maridos se adoram. Ela faz parte da pequena aldeia que me ajuda na criação da minha filha e sei que sem ela e sua companhia tudo seria muito mais difícil. Então receber dela esse abraço em agradecimento pela companhia na maternagem me emocionou tanto que eu não consegui segurar a emoção... Porque ela é mais que uma amiga, é uma companheira de vida e me ensina tanto, todos os dias, sobre filhos...
O segundo foi um abraço inesperado entre tantos que recebi no dia de ontem de pessoas que eu sequer conhecia, embora me conhecessem tanto. Mas esse foi especial porque, além do caráter inesperado, foi dado por alguém que eu já conhecia e que tem muito mais experiência que eu no quesito maternidade, que tem muito mais dicas para dar e histórias para contar, mas que fez questão de ir me abraçar e dizer palavras de carinho. Trocamos um abraço bem forte, bem sincero, ela se foi e eu fiquei pensando: "Caramba... ela tem tanto a me ensinar...". E foi quando me toquei de uma coisa fundamental da maternidade que é a admiração no outro do que sabemos que temos em nós. Acredito verdadeiramente que quando admiramos alguém, admiramos a nossa potencialidade demonstrada no outro. Qualquer coisa, assim, de simpatia.
SIMPATIA: palavra que vem do latim Simpathia e que significa "comunhão de sentimentos", ou do grego Sympatheia, "capacidade de sentir o mesmo que o outro".
Somos simpáticos a ideias nas quais identificamos um pouco de nós mesmos. Somos simpáticos a pessoas que, de alguma forma, também se parecem conosco. Por isso, quando alguém me abraça assim, sinto-me feliz, porque achar-se parecido é uma forma belíssima de simpatia.
De um gesto de amor
Em todos os eventos que organizamos, meu marido e minha filha estão junto. E isso só é possível porque ele torna possível. Ele cuida da Clara com um desvelo e uma dedicação incríveis - sempre foi assim. E participa de tudo com entusiasmo e alegria. Sempre ouço comentários elogiosos de outras pessoas pela forma como ele exerce a "paternagem", embora por uma grande injustiça esse termo não exista. Ele aproveita tudo, todas as possibilidades, para inserir-se e à Clara nas atividades. Ontem deram um show na oficina Slingar e Dançar, feita em homenagem ao dia das mães.
Então, já no final do evento, ele veio se despedir com ela porque sairiam para fazer "não sei o que". Eu perguntei que não sei o que era esse, mas ele desconversou. E como o conheço até pelo avesso, sabia onde ele estava indo: providenciar um presente, o tal do "presente de dia das mães", como se tudo o que ele faz já não fosse homenagem suficiente... Mas enfim, foi. Mais tarde, enquanto eu conversava com minha mãe para contar que eu e Clara também tínhamos um presentinho pra ela, pai e filha chegam com uma cesta cheia de presentes cheirosos, lindos, maravilhosos, com um bilhete que continha o seguinte trecho:
"Para a mamãe ficar bem linda, perfumada,charmosinha e fantástica!"
Sim, letra do Palavra Cantada, dupla que minha filha muito carinhosamente chama de "Vira Galinha". Dentro da cesta, além dos mil e um presentes cheirosos, havia um ainda mais especial: uma Kombi amarela toda estilizada, com jeitão de motorhome (ele sabe do meu plano futuro de ter um e viver viajando e me apoia nisso a ponto de querer também...). Mas o especial não estava no presente. Estava no motivo pelo qual ele o escolheu. Ele queria algo que lembrasse uma mãe, que fosse especial como uma mãe, que uma mãe especial gostasse. Então decidiu entrar numa loja onde nunca mais havia entrado e na frente da qual sequer passava, por ter sido a loja preferida de sua mãe, que faleceu há alguns poucos anos. Ele e sua mãe eram verdadeiros amigos e parceiros e ele a admirava profundamente. Hoje em dia, fala sobre ela com muita emoção e saudade. Sinto muitíssimo por Clara e eu não a termos conhecido... Ele venceu o bloqueio, entrou na loja e escolheu para mim o que ela mais gostava... Sentiu o cheiro que ela gostava... Venceu a saudade. E trouxe para mim... Um monte de coisas cheirosas e cheias de significado. Dizendo que "por mim ele havia feito isso e entrado naquela loja que ela tanto amava, para que eu soubesse o quanto me ama". Assim, pá!, uma declaração de amor em pleno dia das mães...
E você aí pensando que só o Manoel Carlos sabe emocionar...
E você aí pensando que só o Manoel Carlos sabe emocionar...
Da frase sincera de uma filha
E no meio da correria do evento, minha filha aparece com um amiguinho pela mão, enquanto o pai dela conversava com o pai do amigo. Clara vem pertinho de mim, abraça minha perna e diz: "Mãe, esse é meu amigo. Essa é minha mãe (e me mostra pro amigo). Ela faz bazar coisas dchimãe. Ela é muito legal, não acha?". Me dá um beijo e sai correndo. E me deixa ali com a maior cara de babaca do mundo. Olhei para a pessoa que conversava comigo e perguntei: "Você viu isso?!". E a pessoa caiu na gargalhada...
Uma filha de quase 3 anos que vem mostrar a mãe para o amigo?! Isso é que é homenagem...
Essa tal maternidade...
Essa tal maternidade...
Que me faz encontrar tanto com O OUTRO. O outro conhecido, o outro desconhecido, o outro amigo, o outro família, o outro companheiro, o outro ser que me foi confiado para amar e educar. O outro e sua importância. Para além do EU e sua singularidade, O OUTRO e sua pluralidade.
O outro que lê um blog. O outro que faz parte do grupo de maternidade. O outro que curte uma fan page. O outro que assiste uma aula dada. O outro que se mobiliza por uma causa. O outro que se identifica com você. O outro com o qual você se identifica. O outro com o qual você compartilha a vida de mãe. O outro com o qual você compartilha a vida do mesmo filho. O outro que te desperta amor. O outro que te ajuda a criar seu filho. O outro que te deu à luz. O outro que, com tantos outros, forma uma aldeia onde você cria seu filho com amor, respeito e consciência crítica. O outro que é o oposto do isolamento e solidão.
Talvez tenha sido por isso que ajudei a idealizar uma ação que terminou no vídeo que segue abaixo. Uma ação onde uma aldeia inteira de mães presta uma homenagem a um "outro" muito especial, alguém que é como a si próprio embora tão diferente: as mães.
Que você tenha um feliz nosso dia.
E que em sua experiência de maternidade, você transforme suas sombras em encontros com gente!











