quinta-feira, 15 de março de 2012

O desrespeito nosso de cada dia

Tu não tá cooperando!
Só entende um pouquinho. Tá tudo ocorrendo bem.
- Bem pra vocês, não pra mim. Tô morrendo de dor. A doutora não tá nem me monitorando...
Exatamente. A doutora tá lá na frente com uma criança grave.
Então faz favor de voltar pra sala agora!!

clique na imagem para ver o vídeo

*******
Isso só virou notícia (de dois dias atrás) apenas porque foi filmado. Mas dezenas (ou centenas?) de gestantes passam por isso com muito mais frequência do que seria possível noticiar.
Ela é uma enfermeira. Não há nenhuma relação de poder estabelecida ali. Pelo menos, não deveria haver, até que ela tentasse estabelecer uma. Isso é desrespeito. Isso é abuso. Isso é assédio moral. Qualquer pessoa que passe por algo assim - não somente gestantes e parturientes - deve pedir o nome desse funcionário e registrar uma queixa. É claro que, em muitas situações, a vítima desse tipo de desrespeito não tem condição física ou emocional de coordenar uma postura de enfrentamento imediato. Também por esse motivo a presença de um acompanhante é assegurada por lei, para que o acompanhante zele pelo bem estar da pessoa a ser atendida.
A presidente Dilma afirmou, em seu discurso sobre o Dia Internacional da Mulher, que o SUS, a partir de agora, vai entrar em contato com mulheres que foram atendidas em seus partos para avaliar a qualidade do atendimento. Não há informações precisas sobre como isso vai acontecer - e se será realmente viável num país de desigualdades como o nosso, e onde grande parte das mulheres ainda não problematizaram as situações de desrespeito como tais. Mas é importante que isso realmente aconteça. Para que um profissional como esse seja punido como se deve.
Porque a ninguém é dada uma autoridade como essa. Não há, em nenhum momento, qualquer condição intrínseca que coloque enfermeiro, médico e paciente em degraus diferentes nas escalas de poder. Assim como há leis que protegem funcionários públicos no exercício de sua função contra procedimentos violentos, há leis que protegem as pessoas em geral contra desrespeitos e uso da força.

Todos os dias, muitos casos de mau atendimento em situações de parto e nascimento são noticiadas, embora a atenção e o destaque que se dê a isso ainda sejam mínimos. Vejam essa.

"Ontem pela manhã, a dona de casa Fatiane Bezerra aguardava a hora do parto sentada numa cadeira de plástico, porque não havia leitos disponíveis. Ela estava com crise hipertensiva, no período final da terceira gravidez, o que configura um caso de risco. “O meu caso é grave, só por isso que estou aqui. Eu já sabia que aqui era assim, complicado, mas não imaginava que era tão ruim, não vou mentir que eu estou um pouco assustada”, desabafou Fatiane. Sílvia Melo também alerta que há uma grande quantidade de cesárias eletivas (com horário marcado) que ocupam os leitos nas maternidades de baixo risco. Casos que poderiam esperar até mais algum tempo, mas só que é mais cômodo para os médicos deixarem tudo com hora marcada, já que eles recebem do SUS pela produtividade.
Para ler mais, clique na matéria "Grávidas sofrem para ser atendidas".

Hoje eu dei uma pequena entrevista para uma emissora de rádio sobre a ação que envolve o Teste da Violência Obstétrica (que já ultrapassou os 1500 preenchimentos e continua suscitando o debate). E foi sobre isso também que falei. É necessário que haja discussão sobre o assunto inclusive a partir de nós, pessoas comuns, gente que conhece gente que já passou por isso, gente que conhece gente que pode passar por isso, gente que se preocupa com a forma como estão tratando de gente como nós.
Sabe aquela pergunta que muita gente arrogante faz?
"Você sabe com quem está falando?!", atribuindo importância a si mesmo apenas por determinada posição que ocupa?
Se há uma situação em que ela pode ser feita com propriedade é essa.
Quando um cidadão for agredido verbalmente da maneira como fez essa enfermeira, é importante que ele pergunte a quem o ofendeu: "Você sabe com quem está falando?!".
Mas a resposta não se baseia em posições ocupadas.
Baseia-se, simplesmente, no reconhecimento dos direitos do ser humano. Que, somente por esse motivo, já é digno de respeito.
Você sabe com quem está falando? Com uma cidadã.
Então baixe o tom da sua voz antes que eu peça o seu nome e te denuncie.
Fica aí a dica de resposta.
Porque é bom que saibam com quem estão falando.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Primeiros resultados da ação - Teste da Violência Obstétrica

Compilação inicial dos mais de 60 blogs - até o momento - participantes desta ação.
Trabalho dedicado e comprometido da Ana Carolina Franzon.

Na semana do dia 08 de março, Ana Carolina Franzon, do blog Parto no Brasil, Fernanda Café, do blog Mamíferas, e eu divulgamos uma ação que aconteceria no próprio dia 08, Dia Internacional da Mulher, que visava sensibilizar a comunidade virtual - que de virtual não tem mais tanto - para a questão da violência obstétrica à qual centenas de mulheres são submetidas.
Assim, no dia 08, nós lançamos, em forma de blogagem coletiva e com o apoio de muita gente, o Teste da Violência Obstétrica, um questionário composto por 15 perguntas de múltipla escolha que visam levantar informações a respeito da assistência ao parto e que colherá respostas até o dia 15 de abril.
Os primeiros resultados dessa ação são altamente positivos e estão indo além da dimensão prevista inicialmente.
Vai aqui um breve e informal resumo desses resultados:
  • o teste atingirá, ainda no dia de hoje, 1500 preenchimentos
  • alcançou esse espantoso número em função, principalmente, de mais de 60 blogs envolvidos, em diferentes áreas da blogosfera (assim que terminarmos a compilação, divulgaremos a lista completa)
  • estão sendo recebidos dezenas de e-mails de pessoas que, ou querem mais informações sobre o assunto, ou querem compartilhar suas histórias, ou querem nos fornecer mais dados sobre o problema, ou apenas reforçar a importância da ação
  • os meios impressos de comunicação também foram mobilizados, e alguns, pequenos, médios e bem grandes, já entraram em contato, embora nossa postura seja bastante cautelosa quanto a isso
  • emissoras de rádio também entraram em contato
  • dezenas de mulheres já demonstraram interesse em participar da pesquisa formal sobre a percepção da mulher que foi vítima da violência obstétrica
  •  foi criada, nesta semana, uma página no Facebook para discussão, problematização e enfrentamento da violência obstétrica, onde são postadas notícias, compartilhamentos de sites e blogs, imagens relevantes e discussões pertinentes
  • muitas pessoas estão levando o debate para além dos limites da internet, gerando discussões em seus próprios grupos de trabalho ou grupos de apoio ao parto e nascimento
  • alunos de cursos da área médica estão se manifestando, compartilhando suas complexas experiências na tentativa da prática de um melhor acolhimento ao parto, mais humano e respeitoso, enquanto são assediados moralmente por seus superiores quando assim o fazem
  • mulheres com as mais diferentes posturas filosóficas estão discutindo a partir de quando as práticas configuram violência, quando não configuram, quando refletem a escolha da mulher, quando refletem apenas a dominância da opinião médica, entre tantas discussões complexas e pertinentes
  • entre outros resultados muito positivos que, no momento, podem ter sido deixados de lado por uma falha de memória.
Fica evidente a força do meio digital na problematização e enfrentamento da violência obstétrica. Fica evidente a necessidade que temos, todos, de mais e melhores informações. E, principalmente, a necessidade de canais diretos e eficazes de denúncia, para que haja a desnaturalização das práticas violentas e desrespeitosas de assistência ao parto. Para que a questão dos direitos reprodutivos sejam, realmente, interpretadas como direitos humanos.
Portanto, quando me perguntam quais são os resultados da pesquisa, eu penso mais nesses resultados práticos e vistos já, agora, no desenrolar dos fatos, que nos próprios resultados numéricos que o preenchimento do questionário irá nos fornecer. Mesmo porquê, embora ele possa ser usado como base, não tem a real representatividade que seria necessária, uma vez que não há controle das respostas.
Esses eram nossos reais objetivos: atingir as pessoas, estimular a discussão, levar a problematização para diferentes meios de comunicação. Mobilizar. Esclarecer. Enfrentar. Desnaturalizar.
Xingar uma mulher em trabalho de parto ou parto, ofendê-la, tratá-la com desdém ou ironia, deixá-la sem suporte, ironizar sua condição, diminuí-la ou desacreditá-la, obrigá-la a procedimentos desnecessários, impedir a presença de acompanhantes, coibir a expressão das emoções são formas de violência.
Não. Isso não é normal. Infelizmente, tem sido de praxe. Mas não é normal. Tem sido comum. Mas não, não é normal.
A Ana Carolina, companheira dedicada à questão, estudiosa, envolvida com afinco, fez um levantamento inicial dos blogs envolvidos na ação e produziu a apresentação que abre essa postagem. Ainda estamos complementando a lista, porque a cada dia, mais blogs participam. Vamos assim, juntos, até 15 de abril.
Nosso agradecimento inicial a todas essas pessoas, à frente de todos esses blogs, pelo apoio a essa ação. Que visa contribuir, de alguma forma, para a melhoria da assistência às mulheres em seus partos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Sobre pais e filhos - para o pai da minha

Estou há alguns dias sem postar tanto em função da grande quantidade de trabalho - realização do Bazar Coisas de Mãe no último sábado, responder as dezenas de e-mails que estão chegando desde o início da ação do Teste da Violência Obstétrica e por conta de textos que precisei enviar de última hora - quanto em função de um triste fato que ocorreu no final de semana, e que mexeu com minha família e comigo.
Há alguns dias, o vovô paterno da Clara fez aniversário. O pai dela, então, ligou para dar feliz aniversário e conversar, já que ele não mora próximo a nós. Pela primeira vez, eu insisti para que deixasse a Clarinha falar. Ele relutou um pouco, dizendo que o pai dele não iria entender, mas eu insisti. Então, colocou o telefone no ouvidinho dela, e ela, bem rapidamente, disse: "Oi uouô!", que é como fala "vovô", e eu pude ouvir, de longe, a alegria dele por ouvi-la, dizendo "Oi Clarinha!" e rindo muito a seguir. Clara seguiu naquele conversê que ela adora, naquela língua misteriosa que a gente ainda não entende, mas que mistura algumas palavras compreensíveis com outras nem tanto. No fim, disse "Tchau, uouô", e soltou um beijo, deixando o vovô bastante feliz. Foi a primeira vez que ela falou com esse vovô e nós ficamos muito felizes.
No sábado, passei o dia cuidando da organização do Bazar. Foi um lindo Bazar, dezenas de amigos foram nos visitar e trabalhamos bastante. Foi um daqueles bem cansativos, mas excelentes, cheios de bons encontros, boas risadas e bons amigos. Frank ajudou no caixa, ajudou com a Clara, como sempre ajuda, e foi um grande trabalho em família, junto com nossa amiga Sheila e com seu filho Caetano também sendo cuidado com a ajuda do pai. Uma pequena amostra de como as novas famílias estão se organizando e de como as coisas têm se tornado melhores quando o pai participa ativamente de tudo. Ao final, já no fechamento de caixa com nossas parceiras, Frank recebeu a notícia: seu pai havia partido. Foi um grande choque, pra ele, em primeiro lugar, e depois para mim e Clarinha. Para a Clarinha porque, como toda criança, é sempre muito sensível às emoções dos pais, além do fato de que ela já não estava muito animadinha durante todo o dia, o que é, por si só, uma coisa rara.
Naquele momento, eu não sabia muito o que fazer, porque tudo o que eu não queria era que ele passasse por uma dor dessas. Então fiz a única coisa que pude: tirei de dentro de mim todo o amor que sinto por ele e o mergulhei nisso. Nessas horas nunca sabemos o que fazer, porque, na verdade, não há nada a ser feito além de dar amor. Muito. Irrestritamente. Para que esse amor minimize, se é que é possível, a dor.
Essa foi a primeira perda que presenciei após a grande que eu e minha família sofremos, há 6 anos e meio atrás, quando nossa irmã partiu. E foi difícil segurar a onda para estar inteira pro meu Frank, porque por muitos anos eu venho fingindo que ela não se foi, que ela está apenas na China, o único lugar que ela quis conhecer e que não conseguiu porque lhe faltou tempo. Minha arritmia voltou com tudo, mal estar e tudo mais. Mas ele, esse homem bacana com quem divido a vida, estava do meu lado e então, por ele, rapidamente eu melhorei.
No domingo à noite, resolvi deixar o trabalho de lado e pegar um filme pra assistir. Perguntei se ele queria assistir comigo, mas ele disse que preferia descansar. Então fui à locadora e peguei o primeiro que vi, do qual nem fazia ideia da história. Eles dormiram cedo e eu, coruja que sou, madruguei. Foi quando coloquei o dvd, às duas e pouco da manhã, que ele do nada acordou. Levantou e veio se sentar ao meu lado. Então, resolvemos assistir juntos ao filme. Para meu desespero, um filme que falava, entre outras coisas, das diferenças existentes entre um pai e um filho. De como um filho passa tanto tempo querendo ser como seu pai para, depois, querer tudo, menos isso. Um filme sobre saúde mental, sobre a condição humana, sobre a importância do apoio da família e do amor de pai e filho como fonte de cura, do reencontro entre pai e filhos. The Beaver, é o nome do filme, com a péssima tradução de Um Novo Despertar, dirigido e atuado por Jodie Foster, juntamente com Mel Gibson. Filminho que eu esperava que fosse simples e despretensioso, mas que não foi tão assim... Terminamos e ele disse: "que hora para assistir isso..." e eu me sentindo o cocô da pulga.
Fomos para a sacada, de onde vemos o mar, e ali eu o deixei desabafar, contar o que precisava contar, conversamos, nos abraçamos e, juntos, vimos o dia nascer, tomando um chazinho pra ajudar a acalmar a mente. Conversamos sobre como ser pais presentes, ligados, conectados, é bom, também, para nós, como filhos que somos, ou fomos. Como isso cura coisas do passado, como isso nos mostra novas possibilidades, como enriquece nossas vidas e ensina uma forma de amor que antes não conhecíamos.
Então fomos dormir com o dia já claro. Felizes, por fim, pela família que estamos montando todos os dias.
Frank é pai de três filhos. A Clara é sua caçula. Cada experiência tem sido diferente, mas disso só ele pode falar, não eu. A única coisa que eu posso dizer é sobre a experiência como pai da minha filha, a caçulinha, Clara. Todos os dias eu penso sobre isso, como eu o admiro pelo pai que ele tem sido, pelo esforço em aprender mais, por se dedicar a ela e estar presente desde seu nascimento. Ele é tão importante para ela quanto eu sou e isso me deixa feliz e tranquila. Mas, mais que isso, me deixa emocionada, porque eu sei que isso não é coisa fácil de se encontrar por aí. Felizmente, tenho a alegria de conviver com mulheres que também vivem essa experiência de pais conectados e presentes, tanto quanto elas próprias, e vejo como isso é benéfico, principalmente para as crianças, mas não só para elas. Também para nós, que podemos ressignificar nossa história e entender melhor coisas que, de outra forma, não entenderíamos.
Nessas horas de perdas importantes, amor talvez seja a única coisa que funcione para acalmar a dor. E quanto mais damos, mais recebemos. Talvez por isso tenha sido relativamente fácil dar a ele esse amor que ele precisou e precisa ainda: porque é isso que ele faz todos os dias por mim e por ela, desmedidamente.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Teste da Violência Obstétrica - Dia Internacional da Mulher - Blogagem Coletiva


Hoje em dia, as pessoas em geral não entendem muito bem o que é o Dia Internacional das Mulheres. Virou uma mistura caricata de Dia dos Namorados com Dia das Mães. Os homens nos parabenizam, nossos filhos também, algumas de nós ganham presentes, flores, bombons e afins. Nada contra, pelo contrário. Também gosto de tudo isso. Mas quero mais.
Proponho, rapidamente, um momento de reflexão sobre qual sua real importância, com a ajuda de uma breve - e muito interessante - historinha da data...
Você sabe como começou esse negócio de se comemorar internacionalmente o dia da mulher?
Errou se respondeu que foi "para homenagear as mulheres que morreram queimadas em uma indústria têxtil nos EUA".
Não foi, não. Isso é o que se diz pra encurtar e história.
O incêndio foi em 1911. E já se comemorava o dia internacional da mulher antes disso. Foi proposto em 1910, por uma mulher de nome Clara. Clara Zetkin. Uma grande mulher de quem hoje se fala muito pouco, ao contrário de seus companheiros de luta Engels, Lênin e Stalin, que muito a admiravam. Amiga de Rosa Luxemburgo, desafiou o nazismo, a polícia e os costumes de sua época, e tudo isso dentro de longos vestidos e debaixo de chamativos chapéus. Ela propôs, em 1910, na I Conferência Internacional de Mulheres, que houvesse uma data internacional para discussão da condição de vida das mulheres. Em 1911, então, passou-se a comemorar o Dia Internacional da Mulher. Mas não em 08 de março. Em 19 de março.

Bom, aí vem a história do incêndio. Seis dias depois da data, em 25 de março de 1911, a fábrica têxtil Triangle Shirtwaist pegou fogo e 146 mulheres,  a grande maioria costureiras, morreram queimadas. O incêndio foi considerado o pior de Nova York até o 11 de setembro.
Então, em 08 de março de 1917, seis anos depois, as operárias russas se rebelaram contra as péssimas condições de vida das mulheres, contra a exploração feminina, contra a entrada de seu país na I Guerra Mundial, foram às ruas e constituíram uma das maiores manifestações já vistas na Rússia e que foi, justamente, o marco inicial da Revolução Russa de 1917.
E hoje comemoramos, em 08 de março, o Dia Internacional da Mulher. Então quando se diz que é uma data de luta, não é papo de ativista não. É, mesmo, uma data de luta.
Uma data criada por socialistas e comunistas e que hoje, nós, as capitalistas selvagens, usamos para muitas outras coisas que não comemorar as nossas próprias conquistas como mulheres.
A data foi esquecida por muito tempo e recuperada pelo movimento feminista da década de 60. Ou seja: feminismo, luta em prol de melhores condições de vida, socialismo, comunismo, ativismo e engajamento. Se você acha o dia internacional da mulher importante, não pode negar todos esses movimentos, nem desdenhar deles, porque eles são a causa da sua vida relativamente livre.
Foi por conta disso tudo, desse percurso histórico que engloba muito mais coisas do que apontei aqui, que hoje a violência contra a mulher é criminalizada. Que não se pode espancar uma mulher, fazê-la de escrava, ridicularizá-la, humilhá-la, sem que se pague por isso. Seria ótimo que todos tivessem bom senso. Mas para os que não o tem, hoje temos leis.
A Lei 10.778 de 24/11/2003 orienta que se notifique compulsoriamente, em todo o território nacional, casos de violência contra a mulher que for atendida em serviços de saúde públicos e privados. Ou seja: o profissional da saúde que atender uma mulher com sinais de violência é obrigado a notificar. Juntamente com essa lei, temos a Lei Maria da Penha, que contempla a violência doméstica e familiar contra a mulher.
Mas temos um grande problema aí.
A Lei 10.778 obriga os profissionais da saúde a notificar casos de violência contra a mulher, quando atenderem mulheres agredidas.
E como é que fica quando são esses profissionais os agressores?
Como fica quando mulheres são agredidas e desrespeitadas dentro de instituições de saúde e, especificamente, no momento de seus partos? Como fica no caso de violência obstétrica?
Muita gente não sabe que isso existe. Outros, consideram que práticas abusivas observadas em situações de parto e nascimento não constituem violência, porque são de praxe. Confundem o que é comum com o que é normal. Outros, ainda, fecham os olhos para a situação, frente à complexidade do problema.
Não dá mais pra fechar os olhos a isso quando centenas de mulheres são desrespeitadas todos os dias em seus partos. E esse é um caminho sem volta. Uma vez que se vê, não dá mais pra fingir que não acontece.
Quando dizemos que a violência obstétrica é uma realidade, estamos partindo de dados confiáveis, científicos, obtidos por meio de pesquisas sérias. O padrão que se vê na assistência ao parto no Brasil é violento. Essa é a realidade. Quem foge disso é exceção. É violência: a ofensa verbal, o descaso, o tratamento rude, as piadinhas, os gritos, a proibição da manifestação das emoções, as violências físicas de todos os tipos, a obrigatoriedade de uma determinada posição, os apelidinhos, a contenção dos movimentos - como divulgado com cada vez mais frequência entre as mulheres detentas, que precisam parir algemadas -,a humilhação intencional e todo tipo de atitude torpe que, sim, acontece. E com muita frequência. Aqui mesmo, no blog, existe uma página sobre violência no parto, com alguns artigos já publicados que mostram um pouco dessa realidade. O prof. Dr. Gustavo Venturi coordenou a pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, que mostrou que 1 a cada 4 mulheres brasileiras diz ter vivido situações de violência em seu parto. Pense que, apenas no período de 2008 a 2010, aconteceram quase 6 milhões de partos, apenas nas instituições públicas de saúde, de acordo com o DATASUS. Calcule, então, quantas mulheres podem ter sido maltratadas e desrespeitadas.
Não dá mais pra dizer que isso não ocorre.
Não dá mais pra fingir que não se vê.
É importante que o governo disponibilize um canal oficial de denúncia. É importante que, nesse cenário político favorável à problematização das condições de vida feminina, com uma Secretaria de Políticas para as Mulheres que promete ser atuante, a sociedade civil se organize e mostre sua intenção. É fundamental que cobremos legislação sobre isso, que se possa punir legalmente o agressor.
Se nós comemoramos o Dia Internacional da Mulher, nós também estamos dizendo que queremos que as mulheres tenham melhores condições de vida. Que possam ser respeitadas e valorizadas. Sempre. Em quaisquer situações.
Muitas mulheres precisam ser ouvidas e suas histórias precisam ser conhecidas.
Nós queremos sensibilizar a comunidade para a triste realidade da violência obstétrica, mostrar que está acontecendo muito mais do que se imagina, mobilizar pessoas.
A violência no parto deixa marcas profundas, das quais muitas mulheres não conseguem se recuperar. Mexe com a forma como a mulher se vê no mundo, com sua auto-estima e auto-confiança.
Não podemos aceitar flores e bombons enquanto nos mandam calar a boca e nos ofendem. Uma mulher que passa por isso é uma mulher mudada para sempre.
Então hoje, 08 de março, nós, dos blogs Cientista Que Virou Mãe, Parto no Brasil e Mamíferas, estamos divulgando, com a ajuda e apoio de dezenas de pessoas, o Teste da Violência Obstétrica.
Um levantamento informal que tem como objetivo levantar dados sobre o tema, mobilizar as pessoas, problematizar a questão e levar esses resultados a uma instância que ajude a incluir, nos serviços oficiais de denúncia, a violência obstétrica como forma de violência contra a mulher.

Para participar, é simples. É só preencher o questionário que vai abaixo e, ao final, clicar em SUBMIT. Não é necessária a identificação.
Ao final, fica o convite à denúncia, no e-mail disponibilizado pela Parto do Princípio, e o convite à participação em uma pesquisa, essa sim formal e de caráter científico, que visa conhecer como a mulher que foi maltratada e violentada em seu parto vê a ocorrência disso, o que ela sentiu, quais foram as consequências dessas terríveis práticas à sua vida. Não é uma pesquisa sobre números. É uma pesquisa sobre sentimentos, valores, emoções, representações, simbolismos. Faz parte do meu trabalho de doutorado em Saúde Coletiva.

Agradeço às dezenas de blogueiros que se envolveram nessa ação (e peço que me enviem os links de suas postagens sobre o assunto, para que eu divulgue). Agradeço às dezenas de pessoas que se disponibilizaram a ajudar ainda que não tenham blogs. Agradeço às companheiras Ana Carolina Franzon e Fernanda Andrade Café pela mobilização comprometida e envolvimento verdadeiro nessa iniciativa. Gente doce e engajada, que sabe que é preciso não perder a ternura jamais.

Abaixo, segue o teste. Caso não consiga visualizá-lo adequadamente, acesse-o por aqui.



Se você é mulher: parabéns por esse dia! Não se esqueça nunca de quem é e da força que tem.
Queira ser sempre bem tratada, bem amada, respeitada, ouvida e considerada.
Olhe-se no espelho e veja que ali tem uma história que não é de anos. É de séculos. De força e de luta na defesa do reconhecimento de que somos seres humanos merecedores de respeito.

"Porque somos mulheres e mães, erguemo-nos contra esse crime. 
Não pensamos apenas nos corpos dilacerados de nossos próximos, 
pensamos também no assassinato de almas (...),
que ameaça tudo quanto semeamos no espírito de nossos filhos, 
tudo o que lhes transmitimos e que constitui 
a herança mais preciosa da cultura da humanidade. 
É a consciência da solidariedade internacional, da fraternidade dos povos.  
Se nós, mulheres e mães, levantamo-nos contra o massacre, 
não é porque, por egoísmo e fraqueza, 
não sejamos incapazes de grandes sacrifícios por um grande ideal. 
Passamos pela dura escola da vida na sociedade capitalista e, 
nessa escola, tornamo-nos combatentes.”
Clara Zetkin (5 de julho de 1857 - 20 de junho de 1933)

segunda-feira, 5 de março de 2012

08 de março - Teste da Violência Obstétrica - Blogagem Coletiva


Os blogs Mamíferas, Parto no Brasil e Cientista Que Virou Mãe, com apoio das blogueiras da Parto do Princípio e em deferência ao Dia Internacional da Mulher, convidam a todas as blogueiras a fazerem parte desta ação em defesa das mulheres, da qualidade da assistência ao parto e contra a violência obstétrica: blogagem coletiva "TESTE DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA".

No dia 08 de março, insira em seu post o Teste da Violência Obstétrica, um teste elaborado para que as mulheres possam avaliar se foram submetidas a alguma forma de violência durante o atendimento em seus partos.
O teste será divulgado, em forma de blogagem coletiva, no dia 08 de março, e ficará no ar até o dia 15 de abril. No dia 30 de abril, divulgaremos os resultados desta pesquisa informal, que tem como objetivo sensibilizar as mídias sociais e outras instâncias para a grave questão da violência obstétrica.
O teste será respondido anonimamente e os dados individuais serão confidenciais.

Precisamos desnaturalizar os maus-tratos na maternidade, buscar formas de reduzir sua aceitação, e também acabar com a impunidade contra este tipo de violência.
Precisamos valorizar nossa integridade física e bem-estar emocional no momento de dar à luz.
Todas as mulheres têm direito a ter um parto com escolhas esclarecidas, respeito à sua individualidade e dignidade.

Se você quiser participar desta blogagem, entre em contato com a gente através do e-mail ligiamsena@yahoo.com.br ou deixe um comentário com seu e-mail.
Enviaremos por e-mail as instruções sobre como inserir o formulário do teste em seu post.

Divulge essa ação! Quanto mais blogs participarem, mais mulheres alcançaremos.

Violência obstétrica também é violência contra a mulher.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...