quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cólicas e enxaquecas: uma possível ligação

Estudo recente sugere a ligação entre episódios de enxaqueca nas mães e cólicas nos bebês.

Talvez uma das coisas mais misteriosas que exista a respeito dos bebês recém nascidos sejam as cólicas. Cercada de mitos, dúvidas, incertezas e muita coisa feita na base da tentativa e erro, as cólicas estão entre as angústias mais comuns das famílias que recebem um novo bebê.
Não existem regras nem padrões: bebê que mama no peito pode apresentar cólica, bebê que se alimenta de fórmula pode apresentar cólica e, embora se associem os episódios a algo que a mãe comeu - no caso das que amamentam -, como derivados de leite, feijão e outros alimentos, não há nada definitivo que possa ser dito sobre isso, uma vez que as crianças reagem de maneiras muito diferentes.
Na verdade, o que se chama de "cólica" são os episódios de choro frequentes que acometem os bebês de até três meses de idade, e que são relativamente comuns. O choro excessivo em uma criança saudável tem sido associado a possíveis problemas gastrointestinais causados por algo que o bebê ingeriu. No entanto, mesmo após mais de 50 anos de pesquisa, nenhuma ligação definitiva foi comprovada entre a cólica infantil e os problemas gastrointestinais, por incrível que pareça.
A preocupação sobre as cólicas infantis vai além de se tentar compreender de onde vêm e o que as causam. Passa por entender os efeitos do choro intenso e prolongado tanto para o bebê quanto para a mãe, pai ou cuidador, inclusive para a prevenção do que é chamado de "síndrome do bebê sacudido", um comportamento de desespero que atinge pais despreparados emocionalmente e que se caracteriza por pegar o bebê e sacudi-lo para que pare de chorar. Infelizmente, ainda que cruel, é um problema real, e pode causar deficiência mental severa, danos cerebrais irreversíveis e até a morte.
É também por isso, mas não só, que muitos grupos de pesquisa tentam entender um pouco melhor sobre o que pode disparar esses episódios dolorosos nas crianças.

Um grupo de neurologistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, constatou, em um estudo feito com mães e seus bebês, que os bebês de mulheres que sofrem de enxaqueca apresentam episódios de cólicas duas vezes mais frequentes quando comparado com os bebês de mulheres que não têm enxaqueca. A pesquisa quis saber se as cólicas poderiam ser sintomas iniciais de enxaquecas futuras. Se forem mesmo, reduzir a estimulação ao qual o bebê está submetido, bem como o nível de luz e ruído, pode ajudar a aliviar e reduzir os episódios de choro, à semelhança do que acontece com a enxaqueca. A pesquisa foi conduzida pela neurologista infantil Amy Gelfand, do Headache Center da Universidade da Califórnia, e os resultados serão apresentados oficialmente em abril deste ano, no 64o. Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia, em Nova Orleans. O grupo liderado pela pesquisadora quer, na verdade, entender o que faz com que os bebês tenham esses episódios de choro intenso, com a finalidade de protegê-los.
Participaram do estudo 154 mães cujos filhos apresentavam picos de choro, diagnosticados pelo pediatra como cólicas. Cerca de 30% das crianças cujas mães apresentavam episódios de enxaquecas também apresentavam episódios severos de cólicas. Os pesquisadores acreditam que a cólica possa ser uma manifestação precoce, uma espécie de precursora da enxaqueca que acontecerá mais tarde na vida.
Assim, os bebês que apresentam cólicas podem ser mais sensíveis aos estímulos ambientais, da mesma maneira que acontece com pessoas que sofrem com enxaquecas.
O próximo passo da equipe será estudar, ao longo de toda a infância, um grupo de bebês que sofreram de cólicas, para ver se desenvolvem outros sintomas que possam ser associados à enxaqueca futura.
O trabalho original contendo essas informações é "Infant colic is associated with maternal migraine", de autoria de Amy Gelfand, Katherine Thomas e Peter Goadsby. Será apresentado dia 25 de abril em Nova Orleans, no evento que mencionei acima.

Essa foi uma informação bastante interessante que recebi via Neuroscience News.
Meu interesse sobre isso vai além da neurociência e passa por nossa própria experiência.
Minha filha teve muitas cólicas durante seus três primeiros meses de vida. Exatamente como mencionei no início do texto, fiz um monte de coisas na tentativa de aliviá-la das dores incômodas, inclusive mudei minha alimentação. Não adiantou.
A única coisa, entre todas as tentativas, que reduzia drasticamente seu desconforto não foi medicamentosa, nem um determinado tipo de alimentação: foi muito colo e sling. Eu a colocava no wrap sling (aquele tipo que é uma larga tira de pano com alguns metros de comprimento, que você amarra em diferentes posições), com a barriguinha colada em mim, cabecinha no meu peito, cantava e ela ia serenando, até que adormecia. Estava sempre disponível e a atendia sempre com carinho e afeto, ainda que estivesse muito cansada.
Não se conhecem ainda as causas das tais "cólicas".
Não se sabe nem mesmo se são cólicas realmente.
Mas, para mim, mais importante do que findar a dor dela, era tentar entender porque ela se sentia assim e se algum aspecto do meu comportamento, das minhas emoções, poderia ajudar a disparar aquilo.
Isso sem falar no aspecto de como lidamos com a dor. Hoje, a dor é vista como algo que deve ser imediatamente combatida. Ninguém quer saber de dor, nem de aprender com ela. É por isso que analgésico, de todos os tipos e para todos os fins, é uma das categorias de fármacos mais vendidas e para a qual tanta verba é destinada pela indústria farmacêutica.
Eu não sou adepta da dor. Mas não tenho pavor dela. E era isso o que eu tentava pensar quando minha filha chorava, incomodada, aparentemente de dor: pensava que a biologia era sábia, que devia haver alguma função biológica naquilo. Que toda dor traz algum tipo de aprendizado, de fortalecimento. Que um bebezinho sentir aquela dor não poderia ser simplesmente um evento ruim, ele deveria, de alguma forma, estar sendo preparado, física ou emocionalmente. Como diz o Dr. Carlos Gonzalez, poderia ser um pedido por mais colo, mais carinho, mais aconchego, então era isso o que eu dava. E sempre que eu me acalmava pensando assim, ela também se acalmava...
Um estudo como esse não é capaz de chegar a uma conclusão definitiva sobre o assunto.
Mas lança mais uma luzinha à questão.
Na verdade, ao meu ver, o problema das cólicas é algo multicausal, multidimensional, e talvez vinculado a fatores para os quais a ciência tradicional ainda não dispõe de instrumentos para medir.
Mas que nós, mães conectadas, sentimos e sabemos quais são...
Ah, apenas para constatação.
Sim, a Clara teve muitas cólicas. E, sim, eu tenho episódios de enxaqueca...

Carnaval sem carnavalices

De carnaval mesmo, nosso carnaval teve pouco ou quase nada. O que acho ótimo, considerando como anda a coisa ultimamente. Mas teve muito de alegria, passeios, verão, amigos e família.
Aproveitamos o feriadão prolongado pra passear bastante e curtir o colinho da tia Livia, que veio de Sampa pra passar esses dias com a gente, matando a saudade da sobrinha que não via desde o aniversário de 1 ano dela, há seis meses atrás. A pobre pegou mais de 18 horas de trânsito na vinda, tínhamos que compensá-la com passeios bem legais e muito colinho mesmo...
Até tentamos ver a apresentação dos blocos de carnaval de Santo Antônio de Lisboa, um lindo bairro turístico e histórico que fica bem pertinho aqui de casa, e pra onde vamos caminhando de vez em quando. Fomos na sexta-feira, mas os blocos atrasaram, Clara ficou com sono e começou a cochilar no sling, eu não consegui programar meu cérebro pra focar só no lado cultural e deixar passar a bizarrice, e acabamos vindo embora antes mesmo do bloco principal. Cheguei em casa constatando: gosto mesmo é de fazer o que faço na maioria dos meus carnavais após os 17 anos: relaxar no meio do mato ou na praia, tranquilidade e, em termos de música, fico com o velho e bom rock and roll Porque, olha, ver o povo vibrando de alegria porque começou a tocar aquela tal música que diz pra delícia que se ele te pega, ai ai ai, definitivamente não é comigo. E pensar que tudo começou na Grécia...
Passamos dias muito gostosos, matando a saudade.
Passeamos de barco, assamos um peixe com amigos, demos muitos mergulhos, curtimos a piscina, tudo isso bem longe da muvuca. Já bastou o fato do carnaval do bairro onde moramos acontecer na rua que é única via de acesso e termos ficado 1 hora e pouco esperando passar o bloco pra podermos ir pra casa, com o carro sendo vandalizado por pessoas possuídas pelo espírito do carnaval, muitos deles sujando, batendo e xingando o carro de quem passava - que só queria ir pra casa - enquanto segurava um bebê no colo ou uma criança pela mão, ensinando pro filho como ser um vândalo em apenas uma lição. Pra depois dizer que o carnaval é uma festa democrática. Não dá pra chamar de festa democrática uma festa que subentende que todo mundo gosta de ouvir sambão no último volume.
Na segundona carnavalesca, fizemos uma trilha-surpresa com a Clarinha slingada, depois de uma breve visita a um bebezinho querido e sua família. Clara dormiu a maior parte da uma hora e meia de trilha, aproveitando o silêncio e a energia do lugar, a despeito das suadas mãe e tia, que não viam a hora de chegar e se jogar na água, principalmente depois que surgiu do meio do nada um cachorro gigantesco com cara de poucos amigos, que nos fez caminhar munidas de dois cajados o restante da trilha.
O único "Será que ele é?" que nos interessou foi a entrevista do cartunista Laerte, na noite de segunda-feira, naquele programa que já foi bom, o Roda Viva. Presença absolutamente subaproveitada pelas fracas perguntas do grupo que o entrevistou, que mais se preocupou em saber como ele se virava pra arrancar os pelos e qual a marca da maquiagem que usava. Laerte mandou muito bem, como sempre, falando coisas bastante importantes como "A revolução feminina foi um marco na história da humanidade. O que não aconteceu foi a revolução masculina" e "Quanto mais a pessoa expõe a própria luta, parece que há um aumento da reação troglodita", coisa que tenho vivido ultimamente... No fim da entrevista, só deu pra perceber que as pessoas não estão sequer preparadas para discutir questões de gênero, quanto mais pra compreender a grande variabilidade que existe naturalmente pela vida.
O realmente importante desse carnaval-sem-carnaval do qual tanto gostei foi ter revisto minha irmã, ter passado tão bons momentos junto com ela, e ter visto minha filha se divertir tanto. Clara brincou muito, toda hora, todos os dias. E vê-la sendo feliz é o que realmente me importa.
Hoje é quarta-feira de cinzas. Dia de tirar a fantasia. Não vou tirar a minha porque na verdade nem a coloquei. Esse negócio de fantasia, de assumir o impossível como real, não é comigo. Minha realidade já é bastante interessante e até que gosto dela, não preciso fantasiá-la.
Foi um carnaval ótimo pra perceber, realmente, que eu não gosto desse carnaval que anda por aí. Cheio de coisa repetitiva, de gente de abadá pulando como vips em cima de camarotes. Acho uó ter camarote onde antes passava o bloco tradicional. Acho uó esse povo achar que pagode e cafonalha é samba. Mas, se tá todo mundo achando que carnaval é isso e que assim é bom, o que se pode fazer? Ah sim, se pode criar um outro tipo de carnaval, como nós fizemos.
Enquanto o carnaval for assim, prefiro a minha humilde diversão de trilhas, barcos, lagoas, praias e piscinas, com uma filha bem sorridente e feliz ao lado.
Como diria a Fernanda Young.
Menos purpurina, Carnaval. A vida é linda, mas a "lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo" é um saco. Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém. Tudo muda no mundo - por que você insiste em continuar o mesmo?
A harmonia vem da evolução, não das alegorias.
Chegou a hora de rodar a baiana pra não atravessar na avenida
Foi um ótimo carnaval pra não curtir o carnaval. Pra ficar off road e fazer um detox. Mas ainda bem que ele só volta no ano que vem. Afinal de contas, aqui não precisamos esperar o carnaval para nos divertirmos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre amamentação, charges e bravas mulheres

Embora eu seja casada com um, minha paixão por chargistas é democrática: Laerte, Glauco (Salve Glauco! Que partiu cedo demais e pra quem escrevi um post aqui no blog...), Nani, Angeli (praticamente uma divindade), Pelicano, Duke e muitos outros, uns muito famosos, outros nem tão conhecidos assim.

E aí que o carnaval tá rolando, tá comendo solto Brasil afora, tá todo mundo comemorando por aí - o quê, ninguém sabe ao certo, mas tá... Alalaô pra você também.
Na sexta-feira pré-carnaval, postei um texto (Peito de fora?! Só se for no carnaval. Não inventa de amamentar em público, sua subversiva) sobre a carnavalesca inversão de valores no nosso Brasil Varonil (expressão muito apropriada) quando o assunto é amamentação, e que rendeu o maior recorde de visualizações que uma postagem já teve nesse blog: 2.148! Esse é, realmente, um assunto detentor de uma força tremenda... É por isso que tanta gente, de tempos em tempos, gosta de cutucar as onças, porque as onças vêm com tudo.
Acho sensacional que um assunto tão fundamental como esse esteja sendo discutido por todos, ainda que também esteja na boca das matildes, que nada sabem sobre a questão, não estão interessadas em saber, mas adooooram dar um pitaquinho e se fazer de entendidas. Tomara que elas também aprendam alguma coisa e passem a incentivar e esclarecer outras pessoas. E, como bem lembrou a Priscilla Perlatti, do Mãe de Duas e uma das Mamatracas, em um comentário feito aqui, quem tem envolvimento ativo com a questão da amamentação e de todos os outros assuntos envolvidos na maternidade ativa tem um papel muito importante na orientação daqueles que não os compreendem bem. Obviamente, na minha opinião, desde que queiram essa orientação... É justamente pensando como ela que esse blog possui cinco abas especificamente dedicadas a discutir mais profundamente os temas gravidez, pré-parto, parto e pós-parto, amamentação, maternidade consciente, medicalização da vida e violência no parto.
Aí ontem, 19 de fevereiro, o grande chargista Pelicano, trabalhando em pleno carnaval, fez essa aqui.

Genial!
Tomara que a mãe do engatinhante dessa charge que, sem palavra alguma, levou o assunto a um grande número de pessoas, possa amamentá-lo também. Porque ninguém merece morrer de sede em frente ao mar, falaí.








E já que o assunto é charge, hoje, antes de sairmos pra aproveitar o feriado de carnaval, eu e Frank fizemos, juntos como mestre-sala e porta-bandeira, essa charge aí ao lado, em homenagem ao grande Laerte. Que, homem, mulher ou transgênero, será sempre um gênio. O pessoal gostou e a charge foi pra capa do Charge On Line em pleno domingão de carnaval!

Alegoria: oito e meio.
Samba enredo: nove.
Evolução: nove e meio.
Comissão de frente: deeeeez!
Um viva ao pessoal que incentiva a amamentação e que promove seu debate com base em argumentos consistentes! Viva as mães e famílias que seguem amamentando! Viva as mães que, mesmo sem terem podido amamentar, reconhecem os muitos benefícios e incentivam outras mulheres!
E um viva mais que especial àquelas bravas mulheres que, contra quase-tudo e quase-todos, dedicaram-se a amamentar seus filhos com amor e desvelo por anos a fio. Que estiveram presentes e conectadas com eles enquanto seus corações mandaram.
Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,a qualquer momento, ele pode voar - Rubem Alves -
Existem mulheres que, sabendo da verdade por trás das palavras do Rubem Alves, cuidam ou cuidaram com desvelo de seus passarinhos até que eles pudessem voar seguros, sem apressar ou encurtar os processos apenas porque os outros os consideravam grandes demais e prontos pra voar.
E pra você, que vive dizendo essas frasezinhas torpes, como "esfregando os peitos na cara dos outros", sai da frente da televisão, larga a globeleza, para de babar na Sapucaí e chega de hipocrisia.

Com admiração e respeito, para Sheila Martins Medeiros, que está vendo seu passarinho voar...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Peito pra fora? Só no carnaval! Não inventa de amamentar em público, sua subversiva.

Uma moça de nome Letícia González  publicou ontem na versão on line de uma revista - que eu não leio por não compartilhar dos mesmos valores - um texto querendo abrir o debate para "quando é ´ok´ amamentar e quando é 'demais' amamentar". Uma pessoa de um grupo de discussão compartilhou e eu fui lá ver, porque o título (Amamentar em público e em qualquer lugar. Tem que poder. Mas precisa?) era daqueles que você lê e pensa: "Ó lá a pessoa querendo os tais 15 minutinhos, sem pauta, com as malas prontas e querendo ir pro carnaval".
No fim do texto, ela lança a pergunta-debate: "Quando é ´ok´ e quando é ´demais´ amamentar?".
Eu li, eu ri e eu comentei.
Vai aqui o comentário, que até o momento em que escrevo não havia sido publicado.
"Olá Letícia. Foi com espanto que li a sua pergunta-debate sobre quando é "ok" amamentar e quando é "demais". Se nós estivéssemos falando sobre usar saias que permitem ver a calcinha, sobre blusas que permitem ver o bico dos seios, sobre revistas Playboys e afins penduradas em bancas, sobre mulheres pagando peitinho na tv, sobre mulheres nuas no carnaval, sobre essas coisas que são supérfluas e totalmente desnecessárias (ainda que ocorram com cada vez mais frequência e com o aval das pessoas), sua pergunta faria sentido. Mas não estamos falando de hábitos ou comportamentos supérfluos, estamos falando de algo que é insubstituível e que nenhum leite artificial ou mamadeira é capaz de repor: amamentação. Que vai muito, mas muito mais além de, como é mesmo que você se refere a ela, "um peito pulando pra fora da roupa". Amamentar um filho é alimentá-lo não só de leite materno, é oferecer a ele entrega, disponibilidade, afeto, contato e segurança. Os peitos de quem amamenta não pulam pra fora da roupa, eles não têm vida própria. Eles são expostos pela mãe para que o filho se alimente. Fome, sede, acontece em todo lugar. É compreensível, portanto, que em todo lugar uma mulher possa amamentar sem ter que se preocupar com a mentalidade curta e doentia das pessoas, que podem olhar para ela como aberrante ou como objeto sexual. Muitas organizações de saúde no mundo estão trabalhando arduamente para que toas as mulheres, homens e famílias se conscientizem de que, sim, é necessário, importante e fundamental amamentar. Amamentar, Letícia, nunca será demais, pelo contrário. O que anda acontecendo é de menos: mulheres que andam se sentindo desconfortáveis porque pessoas se acham no direito de lançar esse tipo de discussão sem embasamento, sobre quando é "ok" e quando é "demais". A Organização Mundial de Saúde, a UNICEF, o Ministério da Saúde, as Secretarias Estaduais da Saúde já responderam e respondem todos os dias a sua pergunta: NUNCA é demais amamentar. Quem se sente incomodado pela prática deveria se questionar sobre os motivos do seu incômodo, talvez com a ajuda de um analista. Isso simboliza uma série de más resoluções psíquicas. Um abraço"
Tá chegando o carnaval. Um monte de mulher vai sambar com as peitolas de fora e o mundo vai achar leeendo. Até a finada Dercy já saiu com as peitolas de fora e o pessoal achou suuuper artístico. Tem um monte de fantasia daquelas que se acoplam peitos de borracha ou de plástico, que geralmente os homens gostam de usar. Mulher não usa muito porque, afinal, a gente já tem, né? Pra nós é tão comum...
Os peitos são fantasias.
E um dos significados de "fantasia" é: imaginação criadora; ficção; coisa que não tem existência real, mas apenas ideal.
Os peitões também são fantasias.
E os seres humanos estão com problemas pra diferenciar o que é fantasia do que é real.
Então é assim: no carnaval, peitão pra fora de mentira pode, tá?
Mas isso é FAN-TA-SIA.
Não queiram tornar os sonhos alheios realidades, mulheres, suas tolas...

Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...

O pessoal da Parto do Princípio criou um monte de marchinha divertida sobre os doutores cesaristas de plantão. Quem vai criar marchinhas bacanas sobre amamentação que não incentive a chupeta e a mamadeira? Hein?
E pro carnaval: todo mundo de peitão de fora, galera!
Menos as mães que amamentam. Porque, né? Isso é demais...


A propósito: aquela imagem ali de cima, do Isso pode, Isso não pode, fui eu mesma quem montou, bem toscamente, pra representar o que eu quero dizer. Aí, algumas horas depois, encontrei essa outra aí ao lado sendo compartilhada, com o mesmo intuito. E comigo na foto (de gorro e óculos), ao lado de outras mães florianopolitanas! Legal! 



"... e não é feliz. Não é feliz" - Balada do Louco (Os Mutantes)

Há 1 ano e 1 mês, eu estava prestes a voltar à minha antiga área de pesquisa científica em nível de pós-doutorado. Minha filha tinha 5 meses e pouco. Eu estava em pânico, triste, deprimida, porque teria que me separar dela pra ir trabalhar, ela tão novinha, sendo amamentada...
Estava numa crise dos infernos, achando que eu teria que optar entre a carreira e o "estar presente" na vida da filha-bebê.
Naquele dia, postei isso, um manifesto revoltoso pessoal cheio de palavrão, típica coisa minha em dia que tô possessa.
Ilustrei o post com essa foto aqui, da deputada italiana Licia Ronzulli, que havia ido há pouco à sessão plenária com sua filha de poucos meses no sling, reivindicando melhores condições de trabalho para as mulheres.
Hoje, 1 ano e 29 dias se passaram desde aquela postagem. Abri minha caixa de e-mails e meu Facebook: seis pessoas diferentes haviam marcado meu nome em links com uma notícia e fotos dela
Era essa outra foto aqui.
A mesma deputada, agora com a filha maiorzinha, no mesmo local, votando. A filha cresceu, e está lá trabalhando com a mãe.
O jornal The Telegraph escolheu essa foto como uma das fotos do dia no mundo (16/02/2012).
As pessoas viram isso e se lembraram de mim. E isso me emocionou.
Foi ótimo eu ter ido atrás da postagem antiga...

Hoje, eu não estou mais naquela área de pesquisa.
Hoje, eu não faço mais pós-doutorado.
Hoje, estou começando tudo de novo.
Hoje, eu não preciso escolher entre uma coisa e outra.
Minha área de pesquisa antiga não me permitia estar com a minha filha enquanto eu trabalhava. Muitas mulheres também possuem profissões que não as permitem "levar o trabalho pra casa", digamos assim. A minha profissão também não me permitia. Então eu mudei de caminho.
Para um que me traz alegria, leveza, sensação de estar trabalhando realmente por um bem comum, sensação de estar aplicando a ciência diretamente no cotidiano e na vida das pessoas. Hoje eu ouço pessoas, eu leio o que as pessoas viveram, eu sinto o que elas sentiram. Leio coisas muito profundas, reflexões, livros filosóficos, autores importantíssimos para a história da ciência médica e biológica. Coisa que eu não tinha tempo de fazer porque precisava ler as dezenas de novos artigos hightechs que saíam por semana sobre meu tema de pesquisa. Essa é, sim, uma crítica à ciência básica: a gente se preocupa tanto com o detalhe que esquece - ou não tem tempo - de colocá-lo num contexto maior.
Estou feliz onde estou, fazendo o que estou fazendo. E, principalmente, com minha filha do meu lado.
Hoje estive numa defesa de mestrado em meu antigo departamento, onde fiz meu doutorado. Vi aquela amiga ali, dando o máximo de si, mostrando seus resultados, fruto do trabalho de 2 anos de pesquisa e dedicação, e me vi há 10 anos atrás. Tudo o que fiz como pesquisadora em farmacologia, neurociência, psicobiologia foi feito com amor, com paixão, com afinco. Eu podia ter feito mais, mas talvez isso me levasse a viver menos todas as coisas que vivi, então estou satisfeita com a maneira como foi.
Pouco antes de ir embora, ainda no prédio, uma pessoa que me conhece dos tempos do primeiro doutorado me parou e disse: "Ô louca, que história é essa que você está fazendo doutorado de novo?!". Estou acostumada com essa reação, embora eu não goste nada dela...
Expliquei tudo, como já expliquei zentas vezes. No fim, ouvi o que eu já ouvi muitas vezes também: "Que bom que você teve a coragem. Eu não teria". Ao que perguntei: "Mas você gostaria de ter?", e a pessoa disse um sonoro "Sim!". Fui embora pensando naquilo. Em como uma pessoa especial daquela passaria a vida inteira num caminho querendo estar em outro, acumulando títulos, prêmios e publicações, mas sem viver o que queria.
Fiquei pensando no livro Um, do Richard Bach (cuja frase da capa é "Seríamos os mesmos se soubéssemos o que nos espera para lá do espaço e do tempo?"), em que o cara tem a oportunidade de se encontrar com várias versões dele em mundos possíveis. A sensação que eu tenho, muitas vezes, é essa: que eu estou me encontrando todos os dias com um eu meu que saiu da possibilidade e se tornou concreto.
Eu não sei onde esse meu novo caminho vai me levar. E sinceramente, não estou me preocupando com isso. Eu passei 15 anos pensando assim, pensando em fazer tais e tais coisas pra melhorar o meu currículo, para que no futuro eu isso ou eu aquilo. Isso ou aquilo nada, ninguém sabe do futuro...
Então hoje eu não penso mais nisso. Eu penso em como estou fazendo as coisas agora. Hoje, finalmente entendi o que o John Lennon queria dizer quando disse que a vida é aquilo que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.
O que me choca é ver o grande número de pessoas, amigos, conhecidos, que dizem também querer ter a coragem de mudar. E que não mudam. Gente que já descobriu um monte de outros talentos, gostos, habilidades, mas que não têm coragem de arriscar.
Pra vocês, caros amigos, eu digo: o que eu estou fazendo não tem nada de sonho romântico. É realidade. Eu não sou louca, eu apenas abri mão de algo que, de certa forma, me limitava, não me permitia ir além.
Tantas e tantas vezes eu tentei ir além nas discussões e me pediram pra me limitar ao assunto...
Tantas vezes me pediram pra me ater nos números, não extrapolar, não pensar em outras possibilidades.
Tantas vezes me pediram para cortar parágrafos com tons mais filosóficos.
Aí um dia eu escrevi um trabalho de qualificação em tom histórico e filosófico, esperando ser avacalhada em praça pública, para ouvir de um grande professor, minutos antes da defesa, que era o melhor trabalho de qualificação que ele já tinha lido ali.
Então, por favor, parem de me chamar de louca. Eu só estou fazendo agora o que eu realmente gosto de fazer. Louco é quem opta pelo hábito no lugar do amor (aproveitando uma outra conversa recente com amigos...).

A Licia Ronzulli está lá na Itália, levando a filha dela pro trabalho, reivindicando melhores condições de trabalho para as mulheres. E eu tô aqui no Brasil, em Florianópolis, trazendo meu trabalho pro lugar onde está minha filha, estudando sobre saúde coletiva.
Ao contrário da deputada, eu não sou ninguém importante.
Mas a escolha que eu fiz e a coragem que eu tive fazem como que eu me sinta importante para mim mesma e para minha filha.
E afinal, o que é mais importante que isso?!
Eu sinto que, de alguma forma, Clara se orgulhará de mim por eu ter mudado tudo, arriscado tudo e vivido dias de indefinições e incertezas, com 33 anos, para, também, poder crescer como profissional sem deixar de estar presente no desenvolvimento dela.
Eu só aceito esse "louca" se ele for adjetivo.
Se for, obrigada. É o que eu desejo pra você também.
Que possa ser louco só um pouquinho na vida, pra ver como é bom.

"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco"
Michel Foucault


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