04 agosto 2010

O dia em que a Clara chegou e eu nasci de novo

Esse é o meu depoimento sobre o parto/nascimento da minha filha Clara.
É um longo depoimento.
Custou-me alguns dias até estar apta a falar sobre ele, tanto porque ainda estou tentando criar um novo esquema logístico de vida, quanto porque tem um componente emocional fortíssimo pra mim. Mas já aviso que a moral da história - se é que se pode chamar assim as conclusões que pude tirar de toda a experiência - vem antes mesmo do depoimento. Aprendi que somos muito mais fortes do que parecemos ser, que somos feitos de garra e persistência, mesmo quem ainda não conhece esse lado; aprendi que flexibilidade é uma das características fundamentais da sobrevivência da espécie; que a vida tem um curso que é só dela e que foge totalmente do nosso controle. Quando nos entregamos à vida, tudo parece mais leve e tranquilo. Lógico que incorporar isso à nossa vida diária é que é o grande desafio, mas ter a consciência de que isso existe pode ser tão importante quanto.
Na quinta-feira passada, dia 29 de julho, recebemos a terceira visita pré-parto das enfermeiras do Hanami, que nos assistiram durante o pré-parto, o parto e, agora, o pós-parto. Dessa vez veio a Vânia. Ela me examinou, viu que a Clara já estava encaixada e que já havia dilatação. Mas constatou que a bebê ainda estava um pouco alta, o que poderia indicar que alguns dias ainda seriam necessários, para que ela pudesse descer. Ela foi embora de casa por volta do meio-dia e a vida seguiu. Eu com um projeto pra terminar e enviar até as 18 horas, mais ou menos. Sentei e continuei o trabalho, lendo artigos, escrevendo, organizando ideias. Por volta das 14:30, senti uma cólica bem forte, como se fosse uma cólica menstrual, instestinal, sei lá que cólica, mas senti. Avisei o marido, que trabalhava ali do lado. "Amor, me deu uma coliquinha", e ele "Vai nascer?!", bem ansioso. E eu "Acho que não, coisa bem leve". Ele: "Eu acho que ela chega hoje". Olhei pra ele e percebi que ele estava intuindo alguma coisa mesmo... Continuei estudando.
Logo mais, somente alguns minutos após, senti outra. Avisei. E daí por diante continuei a sentir cólicas, sem ritmo, mas sentia. Comecei a anotar o horário de cada uma delas, ali meio na surdina. Resolvi avisar quando já tinha anotado 20 episódios, todos sem regularidade. Disse apenas: "Amor... olha, talvez seja melhor enviar a charge ao jornal mais cedo...".
Ele parou o que estava fazendo, olho para mim, ficou me olhando sério por um tempo e disse, finalmente:
"É ela né? A Clarinha vem hoje. Vamos lá, vamos arrumar o ninho. Levanta daí, gata. Vamos lá". Levantei, senti uma dor um pouco mais forte, apoiei na mesa e, enfim, me convenci:
"É a minha filha mesmo. Vem, filha, tô pronta".
Por volta das 18 horas mais ou menos, as contrações continuavam - agora eu já sentia que eram mesmo contrações. Liguei para Vânia, para saber o que eu deveria fazer. Estava muito mais calma do que pensei anteriormente que estaria nessa hora, fruto de todos os meses de preparação prévia, eu acho...
Eu nem acreditava que eram contrações, porque, afinal, todo mundo sempre falava sobre a imensa dor do parto e tudo mais. E não era imenso o que eu estava sentindo não, era absolutamente suportável. Mais do que suportável, era mágico, porque era impregnado do sentimento de que, ali, minha vida mudava para sempre. Se esse era o tal do trabalho de parto, que bom que ele era. Aquilo não era dor. Era outra coisa, para a qual não existia nome...
Estava muito, muito tranquila. Liguei para a Vânia, que me orientou a tomar um banho bem longo, de uns 40 minutos, e observar como ficavam as tais dores, se persistiriam ou se parariam. Fui lá. Eu e meu marido pra debaixo do chuveiro, juntos. O astral e a energia da casa começava a mudar... Tomamos o banho. Choramos. Foi muito emocionante... Não precisávamos conversar. E as contrações continuavam, mesmo saindo do chuveiro. E agora tinham um certo ritmo. Era a Clara que estava chegando... Eu já a sentia ali. Meu instinto havia mudado.
Meu marido fechou toda a casa. Nos sentimos como gatos prestes a parir mesmo. Ficamos dentro de casa como em um casulo. Tudo fechadinho, quietinho, escurinho. Deitamos para descansar e dormimos um pouco. O marido com papel e caneta do lado, marcando as contrações. Mesmo deitada, sentindo aquelas dores que iam e voltavam, ainda me custava crer que eu estava mesmo em trabalho de parto, porque de sofrimento não tinha nada, como as pessoas diziam por aí...
Dormi um certo tempo, soninho que era interrompido por dores que chegavam bem de levinho, como uma ondinha, e atingiam seu ápice como uma grande onda. Lá de cima, do pico da onda, vinha eu, tentando domá-la, esperando que virasse uma ondinha de novo até sumir. Cada uma era anotada por ele. Até o momento em que ele disse:
"Li, elas estão com ritmo. A cada 7 minutos vem uma. Será que não era melhor ligar pra elas (as parteiras)?"
Então ele ligou e informou, e a equipe ficou de sobreaviso, preparada.
Continuei ali com aquelas sensações. Não pensava em como seria, não pensava em nada. Apenas me concentrava para ter força e esperar a próxima, que sempre vinha, e procurava a melhor posição, que NUNCA era ficar deitadinha tranquila esperando. Levantava, caminhava, respirava bem fundo. E entre uma e outra eu pedia mentalmente: "Vem dor, estou te esperando. Vem que sou mais forte que você". E ela vinha... E eu era mesmo mais forte. Aguentava firme, pensava na Clara no meu colo, me enchia de lágrimas, e ela passava, me deixando ali cheia de amor e vontade de ver minha filha.
Quando o intervalo entre as contrações diminuiu para 3 minutos e se regularizou, sentimos que tinha mesmo chegado a hora. Acho que a Iara começou a sentir isso de longe, porque nos ligou exatamente nessa hora, dizendo que estava indo para lá para ver como eu estava...
Dali a pouco (acho que foi dali a pouco, porque na verdade perdi totalmente a noção de tempo), chegaram Iara e Clariana. Mas eu nem estava mais ali... Já estava em algum lugar no além para onde as mães vão esperar a chegada dos seus bebês. Quem ficou foi meu corpo, minha mente já estava longe.
Bom, sei que dali por diante seguiu uma série de preparações logísticas aqui em casa.
A Iara ligou para Vânia e Renata, que se colocaram a caminho, trazendo tudo o que era necessário. Sei que móveis foram arrastados, botijão de gás foi aceso, gente se movimentando no andar de baixo. Sei disso porque de vez em quando eu percebia, porque lá no meu cantinho de paninhos de gata parindo eu continuava imersa naquela experiência incrível.
Naquele momento, passou um grande filme na minha cabeça, no intervalo das contrações. Pensei na minha mãe, que estava longe, nas minhas irmãs e em todo o pessoal que eu amo e que não vive mais aqui conosco, mas do lado de lá da vida. Principalmente na minha irmã Mara e no meu avô. Pedi mentalmente para eles pegarem a Clara pela mão e a conduzirem com segurança até mim...
Bem, posso ir direto pra parte em que toda elas já estavam aqui com a gente, a casa já não tinha mais jeito de casa e, sim, de uma caverninha onde um bichinho estava pra chegar. Eu já estava pronta, minha Clara já estava pronta, a piscina já estava cheia de água quentinha e a madrugada já estava no meio. Era um frio que Deus mandava, mas eu nem sentia. Não me lembro exatamente da sequência de eventos, acredito que o que ficou na minha memória foram os episódios mais relevantes do meu ponto de vista, mesmo que fora de ordem. Entrei na água quente, as meninas se camuflaram de sofás e paredes, o namorado ficou ali comigo, meio que tentando aliviar de algum jeito o desconforto das contrações. E a cada intervalinho lá vinha uma. O que eu mais pensava era: "pronto, essa se foi e não volta mais. A Clara tá mais perto".
Em vários momentos, ali naquela água, eu me via segurando uma corda numa extremidade, e a Clara presa a essa corda na outra extremidade. Cada contração era um puxão que eu dava na corda, trazendo-a pra mais perto de mim.
E as horas foram se passando. E o dia chegou. Enquanto todos tentavam descansar e se aquecer, eu estava li naquele mundinho particular, suando, encalorada, firme e forte. Sempre pensando na corda que segurava a Clara. Só era interrompida em alguns momentos em que elas vinham monitorar a atividade da bebê e minha pressão. Clarinha sempre com fortes batimentos cardíacos que ficavam em torno de 140 e chegavam a quase 150 quando chegava uma contração, sempre bem, sempre forte, nem parecia que era com ela a coisa...
O dia chegou e o cansaço também. E nada da Clara dar a cara. Saí da água e fui descansar, tentar dormir pra recuperar as forças. Já tinha 8 cm de dilatação, o momento parecia estar perto. Deitamos pra descansar, eu e o marido, mas meu sono era interrompido em intervalos de tempo para a chegada de mais uma contração. E foi aí que percebi que esse intervalo não era mais regular... Elas vinham, mas eu não sabia mais quando.
A partir daí, as contrações perderam ritmo. Vinham de vez em quando, nem tão fortes, nem tão produtivas. Perdi a noção do tempo a partir daí. E foi quando eu comecei a sentir, fisicamente, no corpo mesmo, que a Clara não estava descendo, que algo a prendia, parecia que era algo grande que não tinha como sair. Essa minha observação pessoal era confirmada pelo exame que elas faziam em mim: Clara estava alta e, embora eu tivesse dilatação quase suficiente, parecia que ela não descia. Alguma coisa parecia prendê-la mais em cima.
Vânia esteve sempre do meu lado, fazendo tudo o que era possível para ajudar a Clara a descer. Tentamos de tudo, a partir daí, para viabilizar o parto aqui em casa: florais, bola suíça, moxabustão, pontos de acupressão. Clara lá em cima. O cansaço batendo. E o medo que começou a surgir de um encaminhamento... Eu não tinha medo do parto domiciliar. Eu tinha medo do encaminhamento. E foi esse medo quem me boicotou...
Como última cartada, fui caminhar na rua. A caminhada podia ajudar a descida da bebê, nossa última esperança. Horário: devia ser mais ou menos umas 14 ou 15 horas, eu já estava há 24 horas em trabalho de parto e, sinceramente, ficaria quanto tempo mais fosse necessário. Fomos caminhar, eu e meu marido, dando pequenas paradinhas para quando as contrações, agora esporádicas, apareciam. E foi quando eu comecei a sentir que não seria mais em casa que a Clara chegaria... E essa decisão estava cada vez mais forte, sugerida pelas parteiras, rejeitada por mim, mas presente.
Cheguei em casa, sentei sozinha com a Iara, que foi uma grande parceira durante todo o trabalho de parto, pra quem eu olhava quando precisava de um incentivo. Conversamos no quintal, olhamos uma pra outra e foi quase desnecessário falar: vamos pra maternidade. Lá eu poderia tentar mais um pouco o trabalho de parto em busca de um parto normal - embora minha intuição já dissesse que era bom eu começar a preparar meu espírito para um plano B.
Mas como foi difícil a decisão...
Eu o Frank conversamos muito, foi muito difícil mesmo. Mas estava decidido. Estávamos, agora, decidindo pra qual maternidade seguir, em função de várias questões.
Foi quando a Vânia lembrou que a Tânia, também parteira e enfermeira da equipe, estava de plantão em uma delas. Ligaram pra ela, que já estava saindo do seu plantão, e ela disse: pode falar pra ela vir que estou esperando. Subi pra me preparar. E foi quando uma tristeza imensa se abateu sobre mim...

Chorei rios quando me toquei que minha filha não chegaria mais em casa...
Foi um momento muito difícil aquele, muito triste, de muito sofrimento para mim.
Cada item que eu ia colocando na mala, que estava pronta mas precisava ser completada, ia acompanhado de dor e tristeza... Sabia que essa experiência nós não teríamos mais. Pegamos nossas malinhas, e seguimos.
Posso dizer que foi o trajeto mais difícil de toda a minha vida.
Eu sabia que estava indo buscar a Clara, mas sentia uma tristeza profunda e dolorida porque ela não chegaria da maneira como a gente tanto tinha sonhado e para a qual tanto tínhamos nos preparado.
Não entendia o que tinha acontecido... Pensava: o que eu fiz de errado? Porque não consegui? O que está acontecendo lá com ela? Eu não sabia... Sentia-me frustrada e culpada, me entristeci pelo meu marido, que queria essa experiência tanto quanto eu. Mas aí ele, iluminado, falou uma coisa que me fez sair desses pensamentos ruins e repensar o momento:
"Vamos lá, vamos buscar a Clara, vamos buscar o nosso nenê, ela está nos esperando, ela não quis chegar aqui, por algum motivo ela precisa que a gente vá até lá".
E foi a primeira vez que eu me toquei que, daquele dia em diante, tinha mais uma vontade a ser respeitada: a da minha filha.
Cheguei à maternidade ainda muito tristonha. Cabeça baixa e muito medo - principalmente se tratando de uma pessoa que havia desenvolvido um pânico severo de hospital.
Assim que cheguei, deprimida, à maternidade, tudo mudou.
Porque na porta de entrada estava uma criatura me esperando com um sorriso largo e uma cara de quem anunciava a chegada de um voo muito esperado ou de quem estava pra te dar uma ótima notícia. Era a Tânia. Pessoa que se tornou inesquecível na minha vida e na do Frank. E se eu não soubesse que era ela, acharia que era alguém enviado do lado de lá pra me dar força e me reerguer nessa hora difícil - e quem sabe não seja mesmo?
E a Tânia disse: "Você é a Ligia né? Vamos lá buscar a Clara? Já está tudo pronto te esperando. A Dra. Daniela está te esperando também".
Fui me preparar pra entrar no centro cirúrgico - que até então era um amedrontador mundo para mim, que nunca cheguei nem perto, como paciente, de uma agulha, quanto mais de um procedimento inteiro. Eu não contei pra ninguém, mas tremia de medo. Eu, que até então tinha uma espécie de fobia de hospital, estava dentro de um me preparando para uma intervenção. Fiquei ainda mais insegura quando a enfermeira que me preparava pra entrar no centro cirúrgico pediu que eu tirasse brincos e afins, inclusive a medalinha de Santa Clara que eu levava no pescoço.
Me senti muito sozinha nessa hora, muito abandonada...
Me vi num lugar frio, um lugar onde eu nunca quis estar, com uma pessoa que eu não conhecia, para quem eu era apenas mais uma. Fiquei olhando aquela mulher fazer as coisas automaticamente, sem olhar nos meus olhos. Senti-me muito sozinha, ainda que estivesse acompanhada. E foi quando, numa tentativa de mudar aquilo, perguntei o nome dela. E ela disse: "Clara". Olhei bem pra ela e perguntei:
"Você pode me dar um abraço? Estou com medo...".
Ela parou o que estava fazendo, chocada com a pergunta. Deixou os braços caírem ao lado, relaxou a expressão e me viu realmente, pela primeira vez.
E me deu um abraço bem forte e demorado, indo da aparente frieza e indiferença ao envolvimento afetivo, e me disse:
"Você é a mulher que está vindo do parto domiciliar, né? Fique tranquila. Depois que a gente vira mãe, tem que se acostumar com mudanças repentinas. Vamos lá".
Envolveu-me com seus braços e foi me guiando. Eu peguei na mão dela e apertei forte. E ela foi ao meu lado pelo corredor, como se fosse uma amiga. Estando pronta e paramentada, entrei na sala de parto. Apavorada.
E foi quando voltei, mágica e imediatamente, praquele lugar pra onde as mães vão buscar os seus bebês: voltei a sentir as contrações e entendi porque elas reapareceram.
A sala de parto estava toda diferente. Havia uma música tocando, não havia muita luz, as enfermeiras estavam todas me esperando com sorrisos, havia ali uma bola suiça, tudo diferente do que eu havia imaginado...
Vendo que eu não estava entendendo nada, Tânia pegou na minha mão e, com aquela voz doce que ela tem, disse:
"Vamos continuar então o trabalho de parto? E aí eu entendi que elas estavam me esperando para que eu recuperasse minhas forças e tentasse mais um pouco o parto normal". Eu, que pensava que iria diret pra faca, pude continuar o trabalho de parto...
Chegou a Daniela, médica obstetra, e, ao contrário de tudo o que fui imaginando pelo caminho, que talvez fosse recebida por um médico ou uma médica que me encaminharia imediatamente para a cesárea, sem nem querer saber quais eram meus anseios, ela me disse:
"Sei que você vem de um parto domiciliar de mais de 24 horas. Quem aguenta esse tempo, aguenta muito mais. Vamos continuar? Vale muito a pena tentar o parto normal mais um pouco, você está com uma ótima dilatação".
Eu nem acreditava...
Contra tudo o que eu havia ouvido de relatos de partos domiciliares encaminhados, eu havia sido respeitada em minha escolha...
E aí as contrações recomeçaram - pra ver a importância do componente emocional nesse momento, de se sentir respeitada e amparada -, voltei pro mundo de lá.
Contração, contração, contração. Fortes, ritmadas.
E a Clara não descia...
E eu continuava a sentir que ela estava, e alguma forma, presa. Após mais 3 horas, eu voltei pro mundo de cá movida por uma força imensa, por uma intuição fortíssima, e disse: estou me sentindo mal... Foi um momento de extrema angústia. A médica percebeu e decidiu avaliar os batimentos cardíacos da bebê. Os batimentos, que sempre estiveram tão fortes, tão regulares, tão poderosos, agora estavam muito fracos, haviam caído pela metade. Ela me olhou com um olhar de sugestão...
Vendo aquilo, eu perguntei: "Daniela, vamos ter que fazer uma cesárea?".
Meu marido, nessa hora, encheu os olhos de lágrimas e disse: "Mas e você?! Você quer tanto um parto normal..."
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas estava pronta pra uma cesárea se alguém me dissesse que seria a melhor alternativa, e disse pra ele:
"Tudo bem, eu tô pronta, vai dar tudo certo, só quero que tirem a Clara logo, ela precisa sair já, não estou me sentindo bem".
Olhei pra Tânia, em busca de opinião. Tânia disse:
"É uma indicação, sim".
A médica olhou pra mim e disse:
"Ligia, eu também acho que é uma indicação, os batimentos estão muito fracos. Você está pronta?". Obviamente, eu não estava. Mas fiquei em questão de minutos. Não sei o que aconteceu ali...
"Estou pronta. Vamos fazer o que é preciso fazer".
A médica parou do meu lado e segurou a minha mão: "Ligia, você fez tudo o que era preciso. Você aguentou firme 29 horas. Você é muito forte", mas dizia isso com cara de compaixão, como quem estava preocupada com as consequências. E eu disse, forte: "Eu vou superar isso! Eu sei que vou superar! Se é preciso mesmo, manda ver, me corta logo" - era algo automático, eu não me sentia eu. Naquela hora, eu não era mais eu. Não sei o que aconteceu.
Era como se uma força que eu não sabia que tinha tivesse surgido - ou ido embora, não sei. Esqueci de mim naquele momento. Pensei na Clara. Lembro de pensar "Eu vou superar. Eu vou superar. Eu vou superar". E ela disse: "Eu prometo que você não encontrará a cicatriz. Farei o melhor trabalho que puder". E apertou bem forte a minha mão. Como se a cicatriz fosse o meu problema...
E lá fomos nós...
Eu estava segura daquilo, os motivos dados eram plausíveis. Eu, uma mulher com medo de hospital, que nunca havia tomado sequer um ponto, me entreguei, confiei na minha capacidade de recuperação e superação. Não me importava nada no momento, somente fazer com que os batimentos dela voltassem ao normal.
Deitada, olhando para o teto, eu pensava apenas que eu iria superar. Olhei pro meu marido e ele somente me disse: "Você é muito forte". E eu me lembro de dizer: "Fica de olho nela, esteja atento para tudo. Vou fazer o que eu puder aqui comigo, agora", e sinceramente não entendi, naquele momento, o que isso queria dizer.
Dali a poucos minutos, após todos os procedimentos técnicos envolvidos numa cirurgia de grande porte - muitos e variados, sobre os quais eu não sinto nenhuma necessidade de falar, porque são irrisórios frente ao que aconteceu comigo depois -, senti que era a hora e que ela estava pra sair. Juntei a força que eu tinha e falei bem alto: "Quero ela comigo aqui assim que nascer! Ninguém leva pra nenhum lugar. Quero ela comigo aqui".
E então, Tânia me disse: é agora.
E aí eu entendi o "vou fazer o que eu puder aqui comigo". Fiz que a Vânia me sugeriu: fechei meus olhos bem forte. Concentrei todo o meu pensamento e a minha força no meu útero e no meu ventre. Pensei que ela estava saindo de mim como precisava sair, que era isso o que precisava acontecer, que a saúde da minha filha era mais importante do que a minha vontade e que isso deveria ter algum significado que eu não conhecia, que eu não vislumbrava.
Imaginei que ela estava passando pelo canal de parto. E foi tão forte isso que era como se ela tivesse vindo sozinha, sem ninguém tirá-la de lá.
Abri os olhos. Meus pontos de referência eram a Tânia e o Frank, pra quem olhei pra saber se estava tudo bem. Eu só queria saber se estava tudo bem com ela, afinal seu batimentos não estavam normais. No momento em que ela seria retirada, todos disseram, em um clima muito alegre: "E lá vem a Clara!".
De repente, eu olho pro Frank e tá lá ele com uma cara de espanto-espantíssimo. E eu perguntando: como ela tá? Como ela tá? E ele com dois olhos arregaladíssimos e boca aberta, só conseguiu olhar pra mim e dizer, meio paralisado, com as mãos levantadas: Ela é enooooorme! Ela é enoooorme! E eu querendo saber se estava tudo bem com ela. Até que ele relaxa os ombros, olha pra mim e diz: Ela é liiiinda! Ela é liiiiinda! Ela é a sua cara!!
Aí eu respirei fundo e disse: "Obrigada... Obrigada... Ela está bem".
E aí veio um um médico do meu lado, com minha filha no colo, e me disse:
"Taqui, mãe, olha que linda. Olha porque ela não desceu. Olha aqui a cabecinha do seu bebezão!"
E vi a minha filha pela primeira vez. A minha filha linda com uma cabecinha bem redonda.
Clara, toda grandona, nasceu com um perímetro cefálico de pouco mais de 37 cm. Por isso ela não estava descendo. Ela não conseguiu descer mais.
Eu, que sou toda chorona e todos sabem que sou assim, não derramei nenhuma lágrima nessa hora. Fiquei olhando a Clara chorar e disse no ouvindo dela, bochecha com bochecha: "Que bom que você chegou, minha filha. Você é a Clara. Eu sou a mamãe, estamos juntas de novo, não precisa mais chorar. Não fica com medo. Nós fomos muito corajosas, filha". E ela parou de chorar...
Eram quase oito horas da noite do dia 30 de julho.
Meu presente de aniversário havia chegado. E era um presente incrível.

E eu nasci de novo ali naquela mesa.

Quem eu sou agora eu ainda não sei. Ainda estou muito confusa. Tem um turbilhão de coisas se processando dentro de mim. Mas cada vez que eu olho aquele narizinho, aqueles olhinhos puxados e aquela boquinha, parece que ela sempre esteve aqui comigo...

Tudo foi diferente do que eu imaginei. Inclusive ela, que superou todas as minhas expectativas. E me fez começar a achar que sou uma pessoa boa, merecedora de coisas boas na vida. Se não fosse, Deus não me daria um presente desses...
Sei que vou processar tudo o que preciso processar só daqui a um tempo, mas já sinto algo muito importante: vida de mãe é isso também, deixar seus anseios e vontades algumas vezes de lado, confiar no caminho da vida, saber que ela deve ter um propósito maior.
Minha filha chegou.
Agora começam duas vidas.
A dela e a minha nova.
E eu acredito que logo saberei porque precisei passar por tudo isso.
Acredito.

18 comentários :

  1. Oi Lígia!! Faz um tempinho que visito seu blog. Que depoimento mais emocionante... nossa!! Tantos imprevistos, mas no fim deu tudo certo, que bom!
    Felicidades à nova família!
    Clara é uma bonequinha!
    Bjos
    Adriane
    www.myrelentlessmind.blogspot.com

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  2. Que liiiiinnndo Ligiaaa!! Quase chorei lendo!E é claro! Me identifiquei MUITO acho que por isso as anjinhos trataram de nos catar e nos juntar de maneira inusitada...eles devem ter pensado: estas são como se fossem farinha do mesmo saco...
    Que BOM! Que Bom que a Clara chegou e que você está bem e feliz e decidida! Que lindo! AMEI sua história! Tudo de melhor do MUNDo procês tudo!
    Beijãozão!

    obs: nem cridito que a Clarinha tava dentro do saquinho que eu dei no primeiro dia em que este mundo aqui de fora pode dar uma olhada nessa belezura!!

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  3. Tô emocionada amiga! E admirada com a sua força de LEOA! A gente não tem mesmo controle sobre a nossa vida, e no final somos animais mesmo, devemos seguir nossos instintos. Que a Clara seja muito bem vinda! Um beijo grande da tia Rashi.

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  4. chorey.
    tua filha é linda!
    tu és uma linda!
    teu namorado,então,nem comento!

    e vocês merecem,sim, este presente de Deus.
    que a Clara alumeie nossas vidas.
    amo vcs!
    mordidas da tia Rê.

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  5. chorey.
    tua filha é linda!
    tu és uma linda!
    teu namorado,então,nem comento!

    e vocês merecem,sim, este presente de Deus.
    que a Clara alumeie nossas vidas.
    amo vcs!
    mordidas da tia Rê.

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  6. mmmm....acho que era ESSE post que que a minha amiga tava lendo...
    o cisco veio parar no meu olho.
    ai, ai...

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  7. Lígia!!!

    É a Carol, do Mick, guria, que linda a história de vocês, que emocionante... pergunta se a mamãe chorona, manteiga derretida, não tá aqui, se debulhando em lágrimas?

    Já tinha ouvido a história por "outras bocas" mas eles nem de perto me fizeram sentir a emoção que jorra de mim agora!!!!

    Lindo, lindo, lindo!!! Como disseram aí PARABÉNS LEOA!!!
    Um grande beijo,
    Carol

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  8. Adriane, Nani, Leila, Renata, Aline e Carol, muito obrigada pelos comentários.
    Esse foi, sem dúvida, o dia mais importante da minha vida.
    Eu também choro toda vez que releio esse depoimento...

    Obrigada pelas palavras carinhosas de vocês!

    Um grande beijo!

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  9. Oh Amiga,
    que alegria poder compartilhar esse momento maravilhoso com você, mesmo que de longe...mesmo lendo seu post. Mas para mim, é como se eu assisitisse a tudo!
    Parabéns pela sábia atitude de ouvir seu coração. "A mulher sábia edifica o lar!"
    Parabéns, a Clara é linda! que família linda vocês construiram. Isso é só seu e ninguém tasca!
    Felicidades, saúde pra vcs e muito amor!
    Beijos da Ilê

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  10. Ligia, também faz um tempo que sigo teu blog, estou gravidinha de seis meses, nossa menina que depoimento mais lindo, estou chorando com a sua história e fico muito feliz por vocês.

    Deus abençoe a Clara!

    Beijos,
    Rafaella.

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  11. Ligia, não a conheço pessoalmente, mas como criamos afinidades nesse mundo da maternidade, né!?

    São experiências únicas mas sentimentos tão semelhantes de defesa e amor com as nossas crias, que vão além da nossa racionalidade.

    Passei recentemente tb por essa aventura de ser um portal de luz pela quarta vez e te digo que cada emoção é singular a cada chegada triunfante. Seja como tiver que ser, cada qual escreve sua história.

    O mais lindo é saber que são esperados, almejados e amados esses novos seres de Luz, que estão compondo um exército do BEM. Que toda essa força mágica que foi despertada e apresentada a ti como uma nova mulher, agora "MÃE" sirva como o alicerce de saúde, moral, força anímica para sua filhota.

    Desejo que tu te realizes nessa missão de soltar pra vida seu bem maior preparando-a a cada dia mais para que encare o mundo e seu próprio destino!!!


    Parabéns a ti e VIVA á família!!
    Agradeço por compartilhar comigo tb o seu relato!!

    Namaste
    Sil Radha

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  12. Ligia! Grande guerreira, que intuição bem aflorada, muita conexão!
    O seu blog é muito interessante, fala coisa séria descontraídamente. Adorei!
    Esse teu relato me encheu o zóio d'água!

    Luciana mamãe do Ernesto (1 ano e 4 meses)

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  13. Ligia, tenho acompanhado seu blog e hoje fuçando um pouquinho em posts antigos me deparei com seu relato de parto. CHOREI MUITO... Sou mãe de uma linda menininha de 2 meses e desde que ela nasceu nunca mais tinha lido relatos de parto... Também me preparei muito para ter um parto normal humanizado (porém hospitalar), cheguei a ficar 10 horas em TP ativo (contração de 3 em 3 min), mas minha dilatação estagnou em 6cm por cinco horas e minha bebê não descia... Resultado, cesárea necessária. Diagnóstico, desproporção céfalo-pélvica! Foi muito difícil pra mim tudo isso, mas gostei da sua postura frente ao que vc passou, de se sentir forte e corajosa, pois eu me sentia incapaz (de parir naturalmente)... Um beijo e parabéns pelo blog, to simplesmente viciada! Laís.

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  14. Oi Lais! Bem vinda ao blog, que legal que está acompanhando. Muitas novas amigas minhas chegaram assim também. Parabéns pela filhinha, que vocês sejam muito felizes juntas. Para mim também foi difícil. Até hoje me pego rememorando e repensando. Mas o que aconteceu está acontecido, é aprender e fazer diferente.
    Espero que possamos conversar mais.
    Grande beijo!
    E logo passa... mentira, não passa. Mas conseguimos fazer disso uma coisa bonita, se quisermos.

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  15. Oi Ligia, td bem? Lindo relato, viu! Me emocionei muito ao ler. Tbem passei por uma cirurgia cesariana e o que mais me dói ainda hoje é o emcional. Dor fisica passa. Enfim, to viciada na seu blog tbem!!! Eita mulher que escreve bem, que escreve o que precisamos ler!!!! Simplesmente obrigada! Bjao

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  16. Lígia 29 horas de parto sem analgesia! É MUITO MULHER MESSSMO...um parto domiciliar muito bem planejado é lindo, mas mais lindo ainda é ver sua determinação quando precisou escolher a cesárea!
    lindo mesmo.

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  17. Oi Ligia,
    Eu pensei em não comentar, porque, afinal, faz tanto tempo...
    Mas eu preciso te dizer que leio relatos de parto há três meses e pela primeira vez eu precisei parar no meio e me distrair, porque estou no escritório e não consigo conter as lágrimas. Quase me lavei aqui.
    Porque conheço tua luta, e tenho lido teu blog nesses últimos meses e me empoderar.
    Teu relato é lindo e tocante! És realmente muito forte!

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    Respostas
    1. Tamires...
      Obrigada por ter decidido comentar. Esse depoimento foi escrito no calor dos acontecimentos. Hoje, eu tenho um outro relato de parto/nascimento, de posse de tudo o que sei hoje e não sabia naquela época. Mas que ainda me é muito doloroso escrever...
      Espero, um dia, no futuro, ter um terceiro relato pra compartilhar.
      Mas ler seu comentário, depois de tanto tempo, me fez muito bem.
      Obrigada.
      Grande abraço,
      Ligia

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