quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Minha homenagem à Maria (e também ao José)
Todo ano tem Natal, todo ano os comerciais televisivos são iguais, todo ano tem luzinhas nas casas, promoções nas lojas, panetone nos supermercados, frutas secas, castanhas e assados. Todo natal tem papai noel, tem enfeites nas portas e gente pensando no que vai fazer nessas datas festivas de fim de ano. Todo ano tem comércio funcionando até dez da noite ou meia-noite, tem sorteio de carro nos shoppings, tem aumento da gasolina nos postos, tem programa do Roberto Carlos. O natal acaba, passa um ano inteirinho, com coisas totalmente diferentes, e aí chega o natal de novo. Com seus comerciais, seus sorteios de carro, suas luzinhas, amigos secretos, e, claro, seus muitos papais noéis. Seus papais noéis com suas sacolas abarrotadas de presentes comprados à vista ou em 12 vezes sem juros, com a primeira só pra depois do carnaval; presentes baratinhos ou caros, presentes luxuosos ou simples, mas cheio de presentes.
É, tá parecendo que vai começar uma daquelas conversas metendo o pau no capitalismo natalino e na distorção dos valores dessa data em prol da comercialização de tudo o que é vendável. Mas não vou começar nada não, a despeito da minha opinião...
Hoje nós fomos passear aqui na cidade da minha mãe, que é uma cidadezinha do interior paulista. Nem pequena, nem grande, mas uma cidade de interior. Clara encontrou novamente um papai noel e, novamente, foi receptiva: esticou o bracinho e pegou, da mão dele, uma bala. E saímos andando... ela feliz e contente - mesmo a bala tendo sido tirada depois da mão dela pelo papai, pra evitar que ela a colocasse na boca antes do tempo.E aí eu fiquei pensando num e-mail que recebi essa madrugada, e que ainda não respondi porque quero responder com calma, de uma amiga dizendo como foi pra ela esse ano de 2010. Numa parte do e-mail, ela diz que nesse ano ainda não tinha visto nenhum presépio nas decorações de natal, só papais noéis... E eu pensei: caramba, também não vi!! Aí pronto, bastou. Fui dormir as 4 da manhã, também pensando nisso (não fui dormir às 4 porque fiquei pensando nisso, mas contribuiu muito). Tomei banho na madruga pensando nisso, na história de Jesus e tal.
Aí hoje, durante o nosso passeio, fiquei uns momentos sozinha com a Clara (namorado no caixa eletrônico tentando pagar uma fatura e irmã sentada num banco) e fui olhar as decorações em busca do presépio perdido. Nada. Procurei, procurei, nada. Entrava na loja, a moça perguntava "posso ajudar?" e eu procurando o presépio. Numa delas eu até perguntei: moça, vocês têm algum presépio na decoração? Quero mostrar pra minha filha. E nada... Só papais noéis com aquelas roupas totalmente sem sentido nesse calor paulista e seus sacos cheios.
Até que, finalmente, achei um presépio em uma loja, bem exposto na vitrine como decoração. Parei, mostrei pra Clara e contei pra ela uma história:
"Olha filha, um presépio. Aquele ali é o papai, aquela é a mamãe e aquele é o nenê que nasceu. Ele nasceu nesse lugar cheio de bichinhos, porque a mãe dele teve que fugir. Ela fugiu porque tinha um cara mau que queria matar todos os bebês. Então ela foi embora e, ao invés dele nascer na casa deles, como os bebezinhos nasciam naquela época, ele nasceu ali no meio da palha e dos bichinhos. Mesmo a mamãe dele não querendo que ele nascesse num lugar como aquele, ele precisou nascer lá. Foi preciso, pra salvar a vida dele. Mas não teve problema nenhum essa dele nascer onde ela não queria. Porque, mesmo assim, esse nenê cresceu, aprendeu um monte de coisa, se tornou um cara muito bacana, muito amoroso, ajudava as pessoas e foi um adulto muito, muito decente. Ele foi o cara mais decente que já pintou por essas bandas, há muitos anos atrás. E é por causa dele, só dele, que hoje a gente tem um monte de papai noel andando pelas ruas. Filha, esse era um bebê que também nasceria em casa, mas não pôde. A mamãe dele correu pra ajudá-lo a sobreviver. Ainda bem, né?"
Quando terminei de contar a história, olhei pra Clara sentada de frente no sling e lá estava ela com seu tradicional bico. Que ela só faz quando está prestando muita atenção em alguma coisa. Arrisco até a dizer que, de alguma forma, ela entendeu toda a história... e o porquê da mamãe tê-la contado.
Então, como diz a musiquinha, é natal. Data em que se comemora o nascimento de Jesus. O natal desse ano será o meu primeiro como mãe mesmo, porque o natal de 2009 não foi nada legal pra mim. Eu estava muito apreensiva, triste, com medo, de repouso, porque havia tido um descolamento de placenta e minha gravidez estava em grande risco.
Mas nesse natal taí a minha Clara, linda, forte, saudável, tranquila, pacífica. E, embora o natal seja a comemoração do nascimento de Jesus, nesse natal eu vou comemorar outra coisa. Vou comemorar o nascimento da família, vou comemorar a existência de bravas mães, que mudam seus planos para que seus filhos nasçam bem e saudáveis; mães que largam tudo e vãosimbora para que seu filho nasça e não corra perigo; mães que vivem adversidades momentâneas mas que, mesmo assim, criam e cuidam de seus filhos com amor e integridade. Vou comemorar também a existência de pais porretas. Porque, vâmo combiná? José foi um pai porreta! Pensa?! Primeiro, aceitar a ideia doida da mulher de fugir grávida. Depois, fugir com uma mulher grávida de 9 meses e ajudá-la, sozinho, no trabalho de parto. E isso tudo, minha gente, sabendo que o filho era do Espírito Santo, por favooooor! Pai porreta esse hómi e não se fala mais nisso. Beijo pro José!
Então, nesse natal, com minha filha nos braços, ou melhor, um pouco nos meus braços, um pouco nos braços do pai porreta dela, de quem ela herdou o biquinho, quero desejar um feliz natal a todos, mas, principalmente, às mães incríveis que eu conheci esse ano e que mudaram todos os seus planos pela segurança de seus filhos. Eu queria dar nomes aqui, mas para não expô-las, não darei. Mas sei que cada uma vai saber que é dela que estou falando - também.
Feliz natal a todas as mães porretas que fogem do perigo, que topam parir fora de casa pela segurança da cria, que aprenderam com a primavera a se deixar cortar e a voltar sempre inteiras (como já disse a Cecília Meireles), que passam adversidades de cabeça erguida e firme, que recebem como seus, os filhos de outras mães que não puderam (ou não quiseram) ser mães, e que zelam pelos seus filhos, mesmo que eles não cheguem nem perto da santidade.
Amanhã, à meia-noite, meu brinde emocionado vai pra vocês! Mães corajosas, mães conscientes, mulheres que vivem dois, três, quatro tipos de parto em um!
Feliz natal amigas!
Sei que para muitas de nós, esse natal não terá nada de igual aos outros. Embora lá fora tudo pareça igual... Quem sabe chegue o dia em que, além dos infinitos papais noéis espalhados pelas ruas, carregando sacos cheios de presentes comprados, encontremos também muitas "Marias" na rua, celebrando o natal e carregando, apenas, seu filho nos braços.
Embora esse post seja uma homenagem de natal a todas as mães, eu o dedico à minha irmã Lenita, mãe do Murilo, mãe porreta do caramba!
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6 comentários:
Li, querida! Obrigada por compartilhar um texto lindo! São sempre 'vivos' intensos e carregados de verdade!!!
Que vcs tenham um natal lindo!! Não tenho dúvidas que terão... Adoramos vcs!!!
Pila, Cris e Yanne
li... que post bom de ler... acho que vou ler de novo, e de novo... Feliz natal!
beijos
Eita, me fez chorar! Quando eu crescer quero escrever assim!! Beijos e um lindo Natal!!
eu que de maria mãe de deus só tenho a santidade....
adorei ler este post, porque agora eu tenho meu josé...
um josé que me traz lanchinhos e está louco pra me ver parindo numa manjedoura ali na maternidade.
e tem tb os três reis magros, bem magrinhos, como diz a bruna... que são os amigos que vibram e nos enchem de alegria (tipo vcs).
um beijo
Nossa Ligia, chorei!!
Lindo, lindo, e o mais incrível é que mais uma vez você postou algo em que eu estava pensando muuuito!!
Tenho cuidado bem da minha cicatriz com aquela pomadinha que vc falou, e cada vez que passo ela parece que me sinto mais forte, mais corajosa, mais poderosa por ter vivido a experiência de deixar-me cortar por amor.
Pela primeira vez passei a noite do dia 24 em casa (na casa da minha mãe, mas sem ela, que foi para a ceia na casa da família do marido dela), optamos por ficar só nós, nossa pequena família, celebrando o nascimento de Jesus e do Caio. Foi lindo,me senti preenchida de paz enquanto ouvia o barulho das festas lá fora.
Obrigada por tantas emoções que você sabiamente transforma em palavras.
Beijos,
Elisa, Léo e Caio
Poxa Lígia, que honra fazer vc refletir a respeito desse assunto. Adorei o post e fiquei feliz de saber que a Clara curtiu a história do nascimento de Jesus, que cá entre nós é melhor que qualquer historinha de papai noel. Quando falei da decoração era mais a de shopping mesmo, quase sem presépios, mas em outros lugares vi presépios lindos e sinceramente, quer momento mais bonito e singelo do que o nascimento de um bebê??!! Sendo Jesus então..nem se fala! Tirei várias fotos e depois quero compartilhar com vc.
Bjo grande e felicidades pra todos nós!
Gabi e família
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