quarta-feira, 26 de maio de 2010

Essa gente que sonha acordada


De onde eu fico sentada trabalhando, dá pra ver um pedacinho da rua e, num plano mais superior, dá pra ver um barranco cheio de capim e marias-sem-vergonhas da rua de cima. Eu fico aqui na minha bancada de trabalho, no quarto, estudando, escrevendo e digitando, com um monte de prateleiras abarrotadas de livros um pouco acima de mim. Do lado direito, a porta da sacada fica aberta, de forma que eu consigo ver esse barranco, umas árvores e, no momento, as bandeirinhas da Festa do Divino. Eu estava aqui bem concentrada quando a ouvi gritando: "Mãe! Mãe! Mãe!". Parei de escrever o projeto sobre as bases neurobiológicas do transtorno de estresse pós-traumático e fui lá na sacada ver o que era. Era a Clara. Ela estava toda suada e suja de terra. Estava lá no barranco com as crianças, tentando plantar mudinhas de um mato que eles pegaram na rua. "Que tá fazendo mãe?". Expliquei que estava terminando o projeto e ela me pediu pra descer. Desci, peguei um copo de água e levei pra ela no quintal. Aproveitei pra dar um agarrão naquela coisinha suada-fedida-cheia-de-terra falando sem parar sobre a muda do mato que tinha plantado. Antes de sair correndo, ainda olhou pra mim e disse: ó, eu acho que o projeto vai ficar muito legal. E fala pro papai que já plantei o araçá. Ti amo mãe. E saiu correndo...

Se eu sonhei?
Sim... de uma certa forma...

Se sonho também for aquilo que a gente quer pra nossa vida e se esforça pra ter, sim. Sonhei.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coitada da Sofia...

Eu precisei fazer uma escolha muito difícil nessa semana que passou.
Me descabelei um tanto de vezes, na angústia de não saber se estava fazendo certo ou errado. Se a escolha atrapalharia ou facilitaria a minha vida. Se eu estava abrindo mão de algo ou me apoderando de algo. Mas tomei a decisão, escolhi e fui firme nela.
E aí, antes de dormir um dia desses, peguei uns livros pra folhear... E achei esse texto da Martha Medeiros.
O título dele é "Sorte e escolhas bem feitas"

"(...)
Felicidade depende basicamente de duas coisas: sorte e escolhas bem feitas.
Tem que ter a sorte de nascer numa família bacana, sorte de ter pais que incentivem a leitura e o esporte, sorte de eles poderem pagar os estudos pra você, sorte por ter saúde. Até aí, conta-se com a providência divina
(não concordo totalmente. Acho que até aí, conta-se também com a dedicação, o trabalho e o esforço dos nossos pais...). O resto não é mais da conta do destino: depende das suas escolhas. Os amigos que você faz, se optou por ser honesto ou ser malandro, se valoriza mais a grana do que a sua paz de espírito, se costuma correr atrás ou desistir dos seus projetos, se nas suas relações afetivas você prioriza a beleza ou as afinidades, se reconhece os momentos de dividir e de silenciar, se sabe a hora de trocar de emprego, se sai do país ou fica, se perdoa seu pai ou preserva a mágoa pro resto da vida, esse tipo de coisa.
A gente é a soma das nossas decisões, todo mundo sabe. Tem gente que é infeliz porque tem um câncer. E outros são infelizes porque cultivam uma preguiça existencial. Os que têm câncer não têm sorte. Mas os outros, sim, têm a sorte de optar. E estes só continuam infelizes se assim escolherem
."

Eu tive a sorte de nascer numa família de creizi pípul. Gente doida, mas gente bacana. Tive a sorte de ter pais que sempre incentivaram a leitura e o esporte. Tive a sorte deles pagarem meus estudos até quando puderam - e muitas vezes depois de não poderem mais... Eu tive a sorte de ter saúde. E tenho ainda.
Quando comecei a fazer escolhas por mim mesma, acho que as fiz bem (bom, pelo menos nunca nada de grave-gravíssimo me aconteceu).
Tive - e tenho - amigos bacanas, me livrei dos não tão bacanas, procurei usar apenas a boa malandragem (aquela que não prejudica nem a você nem ao outro - espero ter conseguido meu intento...), valorizo a grana na medida do saudável e tive muitos bons momentos na vida em plena crise financeira, corro sempre atrás e não desisto dos meus projetos, enfim, procuro fazer escolhas que não me levem ao assassinato ou ao suicídio, mesmo que metafóricos.
Mas momentos de escolhas, embora tenham dado certo, nunca foram muito fáceis pra mim...
Quer me ver desejando que um buraco se abra abaixo de mim é dizer: "Escolhe!"
Pra mim, esses momentos nunca foram fáceis. Esse muito menos.
Hoje, segunda-feira, 24 de maio, enquanto escrevo aqui, eu poderia estar na estrada rumo a Assis, interior de SP, pois estou inscrita em um concurso pra professor da UNESP que acontecerá entre os dias 26 e 28.
Não fui.
Desisti.
E eu nunca desisti de nada...
De nenhum desafio.
Essa foi a primeira vez na minha vida.
Mas quando vejo o motivo da minha desistência, penso que não desisti. Penso que só mudei a minha estratégia. E as minhas prioridades.
Estou com 7 meses e meio de gravidez. Meu corpo está cada dia mais dono de si mesmo e com vontade própria. E a Clara pode chegar, teoricamente, a qualquer momento.
Não posso mais voar. Teria que encarar 10 horas pra ir, 3 dias de estresse pesado, mais 10 horas pra voltar. 5 dias depois, eu teria que encarar tudo novamente, porque teria um concurso engatado no outro. E a Clara poderia sofrer nessa... Com meu estresse, com meu cansaço, com meu desgaste. E ao invés de ficar lá dentro os 9 meses inteirinhos, se preparando, vindo prontinha, ela poderia chegar antes. E eu nunca me perdoaria por isso. Então, fiz uma escolha. E escolhi a minha filha. Escolhi sem dar ouvidos a ninguém, somente ao meu coração, porque todo mundo pode dar a opinião que quiser... só você saberá o peso da escolha na sua vida. Ninguém viveu o mesmo que você, cada um tem uma história particular e o que deu certo pra um pode dar totalmente errado pra outro.
Foi muito angustiante o processo.
(se você acompanhasse meu processo de formação desde o início, entenderia o motivo da angústia; ainda mais aliado ao momento que estou vivendo agora...), mas agora estou tranquila, segura e feliz.

Estou inscrita em outro concurso, que acontecerá dia 07 de junho.
Ainda não decidi. Estou em processo.
E sobre esse, ainda está muito, muito, muito difícil decidir.
Essa noite sonhei que ela já tinha nascido. Que era bem cabeludinha, bem pequenininha, tinha uma boquinha bem vermelha e estava mamando no meu peito...
Talvez seja ela tentando me ajudar a decidir.

Eu tive a sorte de ter tido tudo aquilo que mencionei... Quero que a Clara tenha a mesma sorte. Que, no momento, passa pelas minhas escolhas. Como saber se estou escolhendo o certo? Nesse momento, "escolhi" um critério:
"Quando minha escolha é consciente, nenhuma repercussão me assusta. Quando não é, qualquer comentário me balança". (José Eustáquio)

E agora começa uma semana lotada de coisas pra fazer, sem tempo pra nada. Parecer de tese, projeto pra enviar, curso pra preparar.
Mas estou feliz por ser assim.
Fui eu mesma que escolhi!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A menina do quarto ao lado

Ao lado do meu quarto tem um outro quarto que andava meio quietinho.
Mas de um tempo pra cá, a movimentação por lá tem aumentado.
Em diferentes sentidos.
E hoje será a primeira noite em que um bercinho dormirá lá...
O berço é uma coisa linda.
Mas estava muito abatidinho ali, tão vazio...
Aí o papai deu a ideia: "vamos colocar lençolzinho, travesseirinho e cobertorzinho pra ver como vai ficar?"
Fizemos.
E ficamos ali mais de uma hora. Babando. Corujando. Só imaginando que logo logo a menina do quarto ao lado estará por ali...
Mas o bercinho ainda estava muito vazio.
E aí a gente chamou reforços.
E chegaram a Marinha e a Maggie Simpson pra não deixá-lo tão vazio.
Elas são as primeiras bonecas da Clarinha.
A Marinha foi o papai quem deu e a Maggie foi a tia Audrey, amiga do papai.
E enquanto elas ficaram lá, esperando pela dona do quarto, a mamãe foi mexer em todas as roupinhas e tudo o que ela já tem.
Horas de arrumação.
Clara tem roupa suficiente para 3 crianças. Cobertor para 4. Amor para um mundo delas...
E ontem ganhou mais um presentão: o carrinho de passeio.
Quem deu? Ah, foi o padrinho, o tio Jonny, quase-irmão da mamãe.
Falando com a mamãe ontem, ele disse: ó, vão lá escolher o carrinho que eu quero dar pra minha afilhada! Mamãe ficou toda emocionada (pra variar o repertório).
Essa menina que mora no quarto ao lado, embora ainda esteja dentro de mim, já é uma criatura muito privilegiada.
Cheias de coisas, num mundo onde tantos têm tão pouco.
Mas ela é a Clara.
E, como Santa Clara, ela nem precisaria de tudo isso.
Porque a menina do quarto ao lado é uma menina muito especial.
E já tem o mais importante: muito amor, por todos os lados.
E a mãe e o pai dela já deviam estar usando os babadores que ela ganhou hoje da tia Ana e da vovó Thereza...

Que admirável mundo novo, esse... Tá loco.

PS: segunda-feira eu continuei sentindo umas dores que comecei a sentir sábado. Fui à clínica falar com o médico de plantão. Contrações. Mas o útero estava fechadinho, nada de assustador. Ele sugeriu medicamentos endovenosos tanto para diminuir as contrações quanto para "preparar o pulmãozinho da Clara". Mas em casa de ferreiro... às vezes nem entra espeto. Não. Nada de remedinho pra alterar nada da Clara. Tem coisa muito mais eficaz a se fazer. Cheguei em casa e tive uma conversa com ela. Fizemos um acordo. Eu diminuo o meu esforço e o meu desgaste. Ela fica até o fim lá dentro. Bom, pela melhoria dos sintomas, ela aceitou o acordo na hora, porque tem estado bem mais tranquilinha. Ela confia na mamãe. E eu respeito muito a confiança dela. Por isso, a mamãe doutora revisou os planos e tomou decisões. Não foram decisões fáceis não, pelo contrário, foram muito difíceis de serem tomadas. Mas quem não muda de caminho é trem, como dizia a camiseta de um amigo. E sobre essas decisões, falarei em outro momento.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Chá de Clara

Sábado teve o chá de bebê da Clarinha...
Na verdade não foi um chá não, foi uma reunião de amigos.
Foi muito emocionante ver todos aqueles amigos reunidos pra curtir a quase chegada da Clara e pra nos ajudar a completar o que falta pra chegada dela. Um monte de gente do bem, de gente legal, de gente bacana.
Foi muito bacana, embora eu pudesse ter aproveitado mais, se não fossem umas dores muito chatas que senti o tempo todo...
A Clara ganhou um monte de coisa linda, um monte de coisa útil e muita gente que não esteve presente fisicamente, esteve presente em intenção.
Destaque para a Dona Dilma, mãe da Guta (que já mencionei por aqui) que, com 81 anos anos e sem nem nos conhecer, está sempre mandando coisinhas pra Clarinha.
Destaque também para a sogra da minha amiga Karen. Mandou pra Clara um casaquinho liiiiindo de doer de tricô e ainda está bordando uns lençóizinhos (obrigada Ká e Daniel!).
Outro destaque foi para uma pessoa que, mesmo sem nunca ter me visto, veio de Santo Amaro da Imperatriz pra nos conhecer e pra apresentar sua filhinha Letícia. A Nani me conheceu lendo o blog e começamos a trocar ideias sobre babies e gravidez por e-mail. Pois não é que essa querida veio, com marido e filha e tudo, nos prestigiar? Tem coisa que não tem preço mesmo. Agora eu te espero aqui pra um café, Nani, pra gente ter tempo de conversar melhor!
Mais destaques: Maria Rosa, Brunitchas, Miguel, Bruno e Marina, cinco coisicas que levaram alegria pra festinha, filhos dos amigos. Adoro festa com muita criança!

Bom, tudo teve destaque, tudo.
Ainda não consegui mexer nas coisas que a Clara ganhou, por conta dessas dores que mencionei, e porque tenho que preparar um curso sobre neurobiologia das deficiências mentais para quarta-feira, então estou correndo contra o tempo.
Mas assim que eu melhorar um pouquinho, vou lá organizar toda aquela maravilhada de coisa e montar uma listinha, pra agradecer aqui a todos que nos ajudaram com tanto amor e carinho.
Mas já sei que tem por lá um CDzinho que acho que vou ouvir já já, que a Clarinha ganhou e que vai fazer o maior sucesso por aqui. Pink Floyd para crianças... É mole?? É pra fazer mamãe chorar mesmo... Os queridos Rogério e Ana, amigos do papai, deram pra Clarinha. Porque bom gosto musical a gente traz de berço mesmo...

Bom, agora vou lá, preparar o curso.
Passei apenas pra deixar um beijo e um abraço daqueles bem apertados para cada amigo que esteve presente, com meu agradecimento mais profundo.
É tão bom, tão emocionante, ver o carinho com que tanta gente está esperando a Clara junto com a gente...
Ai. Melhor eu parar. Senão eu vou chorar.
O dia tá meio nublado e chuvoso. Fico muito xoxinha...
Obrigada gente querida!
Beijos a todos!

Lá em cima, desenhinho feito pelo papai para o chá da Clarinha...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Clara - "Nós mesmos que fizemos"

Oi pessoal aí do lado de fora.
Eu sou a Clara!
Tenho 1,5 kg e quase 40 cm.
Já tenho cabelinho e já estou de cabeça pra baixo, só engordando e esperando a hora de sair...
Aqui tem bastante espaço, porque o útero da mamãe é grande. Também tem bastante água, estou bem confortável.
Eu me mexo bastante, sou uma bebê feliz.
Tenho duas bochechonas imeeeensas, que faz até um fundinho no meu rostinho.
Um narizinho igualzinho ao da mamãe.
E uma boquinha bem grandona.
Uma das minhas mãozinhas eu coloco de vez em quando no meu rostinho.
A outra fica fechadinha do lado da minha barriguinha, bem fechadinha, igual à da bisa Alice.
Estou feliz aqui.
Daqui a pouco eu vejo vocês.
Enquanto isso, vocês me vêem aí...
Meu papai, quando me viu assim, gordinha, chorou muito.
A mamãe chorou ontem à noite quando, lá na minha casa, eles se deitaram no sofá e ficaram me vendo na TV, e o papai ficou falando que eu sou a cara dela... Meus pais são muito fofos. Eles dão gritinhos e dizem: ohhhhhhhhh.... aiiiiiiiii.... óóóóólhaaaa. Eles são muito queridos, estão muito babões e cada vez mais unidos esperando por mim.
Mas chega de falar.
Ói eu aí!

Narizinho da mamãe. Boquinha bem grossinha. Também, né?

Aqui eu ainda estava um pouco tímida...

Mas aí comecei a me soltar... Abri um bocão e falei alguma coisa, mas ninguém me ouviu. Tem muita água aqui, sacomé...

De vez em quando eu penso na vida...


E faço um denguinho, pra matar a minha mãe do coração...

Bem, essa mãozinha bem fechadinha eu aprendi com a minha bisa Alice. Eu sempre converso com ela e ela me deu essa dica aí... Disse que é pra economizar sempre, só gastando pra estocar papel higiênico e óleo de cozinha. Não entendi muito, mas...

Bom, agora eu vou nanar... Fiquei meio cansadinha com esses flashes.

Tchau amigos!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mães reais

Eu cheguei de viagem na sexta-feira, deitei e ressuscitei ao segundo dia. Que caiu num domingo. Dia das mães.
Cheguei exausta, física e mentalmente, com os pés inchados e uma dor lancinante nas costas.
Cheguei triste também, por não ter conseguido nesse concurso...
Voltei triste porque isso significa que, aos 8 e 9 meses de gravidez, ainda terei 3 pela frente...
Voltei com aquela tristeza que se tem quando se tem medo de não conseguir. De, talvez, não conseguir agora. Por simples limitação física...
Aquela tristeza que mistura cansaço físico, com cansaço psíquico, com cansaço de tudo acumulado. Passei dois dias só chorando, de cansaço mesmo. Sabe criança que tá exausta no final da noite, tá com sono, mas não quer deixar de brincar pra dormir e começa a chorar e nem sabe por quê? Assim...
Aí vem a mãe da criança e diz: filha, você pode ir dormir, não tem problema (minha mãe fazia isso comigo). E aí a criança vai dormir.
Meu namorado fez isso comigo, na sexta-feira: vai dormir, vai descansar, você precisa descansar.
E eu fui...
E dormi sexta e o sábado praticamente inteiro.
Sobre o concurso: infelizmente não foi nesse... Simplesmente porque aconteceu o que eu pedi durante todo o processo: que ele fosse justo. E ele foi muito justo. Em primeiro lugar ficou uma pessoa absolutamente preparada para ocupar o cargo. Tão preparada que, inclusive, já é professor da UNESP. Mas não é por isso que eu sei que ele é preparado. É porque eu acompanhei uma parte da formação dele. Porque nós viemos do mesmo lugar. Porque nós fomos muito amigos durante a graduação. E não vou esquecer do que eu senti quando vi que um grande amigo disputava a mesma vaga comigo... Sisteminha lazarento esse.
Mas se pra mim não deu, pra ele deu. E uma parte de mim está muito feliz por isso. Porque essa vaga, agora, está em ótimas mãos. Sorte dos alunos que o terão como professor. E porque também, a verdade seja dita, ele sofreu uma injustiça tremenda na última seleção e essa TINHA que ser dele.
A minha tristeza não era nem uma tristeza real. Era mais um desespero mesmo.
Desespero porque agora, obrigatoriamente, terei que encarar todos os demais concursos com minha barriga quilométrica...
E um emendado no outro. Um no fim de maio, outro no início de junho, e outros dois que estão abrindo inscrição agora.
E essa fase é realmente MUITO difícil. Muito difícil.
Num dos intervalos do concurso, encontrei um outro candidato. Eu nunca o tinha visto na vida. Mas de repente era como se fôssemos amigos e nos entendêssemos. Principalmente quando, num desabafo, ele respirou fundo, olhou pra mim e disse: "Puxa vida, como é difícil esse período né? Quanta dificuldade a gente tem que passar, justamente por termos estudado tanto?". E me contou que esse já é o 6o. concurso que ele tenta. Casado, com família, sem grana... E tudo porque a gente estudou muito. E ele deu um suspiro que continha tudo o que gostaria de dizer, mas que não disse. E foi como se eu tivesse ouvido tudo.
É, colega. Como é difícil...
Se já é muito difícil tendo uma barriga retinha, imagina com um barrigão de 7, 8, 9 meses...
É, mas realmente ninguém disse que seria fácil...
Outro dia uma amiga disse - acho que já comentei aqui - que a Clara já está lá com a mochilinha dela pronta para as viagens. Ela sabe que a mamãe e o papai ainda vão pegar a estrada mais umas 2 vezes, no mínimo (enquanto ela ainda está na barriga), pra mamãe ir para os concursos. Sim, porque agora o papai vai junto. Meu namorado vai tirar uns dias de férias pra ir comigo, porque agora estou um pouco insegura de ir sozinha. Completei 7 meses de gravidez ontem. Teoricamente, agora começa a contagem regressiva. O duro é que a gente não sabe até quanto vai essa contagem...
Bom, mas aí eu acordei no domingo.
Fazendo 7 meses de gravidez.
Meu primeiro dia das mães.
Acordei e sininhos tocaram na sacada. Um mordomo veio me servir em bandeja de prata. Os lençóis de linho foram dobrados pela auxiliar doméstica. A lagosta ficou pronta exatamente ao meio dia. Massagistas relaxaram meus pés com cremes franceses e decoctos alemães e o mundo acordou rosa e músicas acompanhavam o meu caminhar.
Claro que não.
Porque eu sou uma mãe real.
Sou uma mãe que dá valor a outras coisas.
Sou uma mãe que terá que se adaptar às mil e uma utilidades sem muita gente pra ajudar.
Então ontem a noite eu parei pra pensar em como tinha sido meu primeiro dia das mães.
E foi ótimo (embora eu tenha ido dormir gemendo de dor nas costas...).
E por que, no fim das contas, foi ótimo?
Porque acordamos cedo. Eu ainda meio mal, chorosa...
Mas aí começamos. Tiramos tudo dos armários. Chegou o marceneiro. Ele desmontou o guarda-roupa com a ajuda do namorado que, com a ajuda do vizinho, desceu o sofá-cama de um dos quartos, que agora foi pra sala. Pó pra todo lado. Roupa espalhada em todos os cantos. Aí o marceneiro foi embora. Começa a guardar coisa. Roupa que não acaba mais. Trocentos pacotes de fralda. Arruma aqui, arruma ali, aspirador, namorado pendurado na escada, em meio à charge que precisava dar conta.
No fim da noite, dor nas costas da namorada e alergia do namorado.
Mas o resultado: a Clara já tem um quarto...
E o quarto da Clara já tem cheirinho de nenê.
Clara tem um quartinho só pra ela, que a mamãe e o papai fizeram.
Ainda tá uma bagunça, mas daqui a pouco eu vou pra lá, dar continuidade à arrumação.
E assim foi meu primeiro dia das mães.
Chateada por não ter conseguido passar no concurso.
Feliz por ter uma filha.
Feliz por ter um namorado que me apoia nessa doideira toda de vai pra lá, volta pra cá, com a nossa filha na bolsa do canguru, e que acredita em mim.
Feliz porque agora a Clara terá onde dormir.
Feliz porque eu sou uma mãe real.
E tive um feliz dia das mães, no fim das contas....

A Renner andou exibindo um comercial-homenagem aí, pelo dia das mães. E eu confesso que não tinha gostado muito, não, porque toca numa parte muito delicada para muitas mulheres, que querem tanto ser mãe e infelizmente não conseguem tão facilmente.
Mas hoje eu já não desgosto tanto do comercial, porque eu o entendi de um outro ponto de vista agora.
Mães reais não desistem mesmo. De ser mãe. De ser uma boa profissional. De atingir seu objetivo. De alcançar seu sonho. De chegar lá.
Mães reais são assim: elas choram mesmo. Elas ficam chateadas mesmo. Elas se sentem uó do borogodó muitas vezes. Sentem angústia, se apavoram, raspam com a unha. Mas depois elas vão lá arrumar as coisas pras crias; depois elas vão lá, preparar um curso pra dar; depois elas vão lá, marcar uma reunião pra mais tarde, porque conseguiram um encaixe no ultrassom...


Feliz dia das mães atrasado. Para as mães de verdade. Inclusive para as que ainda não têm filhos.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Coisa boa é... o interior de São Paulo

Coisa boa é você saber pelos vizinhos que o Corinthians fez gol, porque todo o bairro explode de alegria.
Coisa boa é você ouvir a vizinhança tocando "Salve o Corinthians" no último volume porque o time fez gol... e o pessoal saindo de suas casas pra cantar, mesmo antes do jogo terminar.
Coisa ridícula?
Pode ser mesmo...
Mas que eu dei um sorrisinho deitada no sofá, no melhor estilo gato da Alice, dei... Seguido de uma respiração nostálgica bem profunda. Fazem 5 anos que eu não ouço isso...
Coisa boa também é você ter um monte de padarias deliciosas com coisas maravilhosamente recém-saídas do forno, praticamente uma em cada esquina.
Coisa boa é não ser a única a pronunciar aquele R beeeem de caipira, e ouvir todo mundo falando assim.
Coisa boa é ouvir o trem passando ali embaixo.
Coisa boa é todo mundo puxando conversa, sendo simpático e te servindo bem, nos estabelecimentos comerciais.
Coisa boa é você olhar a cidade de cima e ver que, felizmente, ainda existem mais casas e mais árvores, no lugar de prédios megalomaníacos e de madames andando com seus Pugs pela calçada.
Coisa boa - e essa deveria entrar no quesito COISA ÓTIMA - é ver esse céu daqui.
Quem já viu sabe que não estou mentindo. Hoje me lembrei porque eu vivia no quintal, sentada olhando pra cima e escrevendo no meu caderninho (que eu tenho até hoje).

... eu adoro Floripa, essa terra que com tanto amor me recebeu.

Mas não posso negar que eu amo mesmo é o interioRR de São Paulo.
Essa terra onde tem festa de inauguração até pra lanchonete da rodoviária e onde você ainda vê o pessoal sentado em suas cadeiras na calçada, proseando.
Essa terra em que cruzar duas vezes com a mesma pessoa na mesma rua já dá motivo pro sorriso e pro bom dia, seguido de um início de conversa.

Ah... que saudade que eu estava dessa paulistanidade...

E agora vou até mudar de canal pra ver o jogo, porque o povo da vizinhança já tá todo na rua de novo, cantando o hino do Corinthians...
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