quarta-feira, 30 de junho de 2010

Couvade e os adoráveis grávidos



Clara e sua barriga, bem sustentada por nossas mãos
Enjôos.
Tonturas.
Dores de cabeça.
Dores nas costas.
Indigestão.
Vontade exacerbada de comer doces.
Insônia ou hipersônia.
Vontades repentinas de comer uma coisa específica.
Muita fome.
Dores nos dentes.
Aumento da sensibilidade emocional.
Responda rápido: são sintomas do que?
Errou se disse gravidez.
São sintomas de uma condição chamada Síndrome de Couvade. Já ouviu falar? Provavelmente já tenha ouvido sim, embora não com esse nome...
Em termos simples: é quando o grávido, o homem que está esperando o bebê junto com sua mulher grávida, passa a sentir alguns dos sintomas que ela sente. Sem qualquer tipo de brincadeira ou bla bla bla.
O mais interessante é que, além dos sintomas físicos, que mencionei acima, também estão presentes sintomas psicológicos.
Esses dias me toquei que estou ouvindo aqui em casa as queixas que citei no início, repetidas vezes.
Dores de cabeça, dores nos dentes (em ambas as arcadas, uma dor meio difusa), vontade constante de comer, loucura por doces, dores nas costas, dores abdominais... Meu namorado está sentindo isso há algumas semanas.
Fui procurar explicação para isso, conversei com algumas pessoas, li alguns artigos e pimba! Síndrome de Couvade.
Achei adorável isso...
O pico dos sintomas acontece, geralmente, no terceiro trimestre da gravidez, quando ela já vai chegando nos finalmentes, e tendem a desaparecer com o parto. A causa exata ainda não é conhecida, embora seja vista como uma expressão somática da ansiedade do pai que espera o bebê. Também tem a ver com o nível de ligação do grávido com a grávida.
Isso é que é legal... E, na real, eu acho uma coisa bem bacana.
Porque muitas vezes, durante minha gravidez, eu pensei que é um tiquinho injusto esse negócio de só nós, mulheres, sentirmos nosso filhote crescer aqui dentro, mexer, tremer, ter soluços, dar uns trancos. Afinal, os filhotes só foram possíveis graças a um trabalho beeeem conjunto, digamos assim. E eu fico pensando que eles também deveriam ter o direito de sentir gravidez... Então vai ver que a natureza deu o seu jeitinho, com esse lance da Síndrome de Couvade. Lógico que não tem muita comparação, mas não deixa de ser um jeito de participar, de sentir na pele.
Apenas a título de informação. Essa palavrinha esquisita, Couvade, tem origem no termo francês couver, que singnifica incubar, e foi primeiramente utilizado pela Antropologia. Os pesquisadores portugueses Rita Gomez, Isabel Leal e Eurico Figueiredo, em seu trabalho intitulado "Síndrome de Couvade: um estudo exploratório da ocorrência de sintomas em pais-expectantes", dizem uma coisa linda: "esses comportamentos (...) foram geralmente interpretados como comportamento pró-social, significando proteção mágico-religiosa da mãe e do bebê, aceitação da paternidade, reclamação dos direitos de paternidade ou controle social dos sentimentos masculinos em relação à gravidez".
Ai que lindo né? (essa gravidez me deixou boba, boba...)
Bem, diferentes autores afirmam que os sintomas físicos alternam com períodos de instabilidade emocional e sensações de bem estar e, na maioria das vezes, não requerem tratamento. É um fenômeno involuntário, ou seja, o grávido não escolhe ficar assim, ele simplesmente fica.
As estatísticas indicam que um número muito grande de homens sentem esses sintomas e que é maior a incidência quanto maior a ligação emocional que eles desenvolvem com suas grávidas.
Um autor chamado Masoni, inclusive, disse, em 1994, junto com seus colaboradores, que "o pai moderno (...) procura um ritual individual para aceder ao seu estatuto de paternidade". E outros, ainda, dizem que é "uma forma de os homens poderem participar mais completamente do ciclo do nascimento".
Também existem outras teorias para explicar o aparecimento desses sinais. Coisas (das quais não gosto nada nada, por não simpatizar com tais teorias psicológicas) como "inveja do feto", "disputa com o feto", "rivalidade".
Não, não gosto.
Isso aí  me lembra aquela teoria psicológica (freudiana?) de "inveja do pênis". E aí me permito fazer um adendo, saindo um pouco do assunto Couvade.
Inveja do pênis, minha gente?!
Como um ser nascido com um útero, duas glândulas mamárias e uma intuição invejável, como nós mulheres, vamos ter inveja do pênis?!
Mas que ideia...
Da mesma forma, acho muito improvável que os sintomas da Síndrome de Couvade apareçam em virtude de uma hipotética "inveja do feto".
Quem acha isso talvez não tenha tido a linda experiência de ter o pai do seu filho ajoelhado no tapete da sala, pra ficar da altura da sua barriga quando você está deitada no sofá, falando minutos seguidos com a sua filha, chamando ela de "minha filhota", de "filhinha do pai", de "amor da minha vida".
Síndrome de Couvade.
Mais uma coisa linda que eu aprendi, durante a gravidez, que existe...
Mais uma coisa incrível que eu aprendi junto com o namorado.

Foto feita pela Soninha Vill.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Momento interblogs: texto importante da Roberta Lippi

A jornalista Roberta Lippi tem um blog show de bola, o Meu Projetinho de Vida. Ela já tem uma filha, a Luísa, e está grávida novamente, da Rafaela.
Indico a leitura de um texto dela publicado hoje (28 de junho), sobre água com açúcar na maternidade.

... não só por isso, mas por coisas como essa também, que optei pelo parto domiciliar planejado.

Como diz a Roberta, duvido que tenha sido um acaso...

sábado, 26 de junho de 2010

Sonhos sonhos são... Ou não



Sonho.
O que é sonho pra você?
Sonho pra mim é aquele anseio íntimo pessoal. Um desejo, um objetivo, uma meta. Meus sonhos - nessa concepção - são passíveis de serem realizados. Não tenho sonhos alucinatórios, como ficar milionária do dia pra noite, digamos assim. Sonho em ter uma filha saudável, espirituosa e inteligente. Sonho em ter o emprego que lutei tanto pra ter. Sonho em ter o meu canto próprio. Sonho em controlar minha ansiedade e ser uma pessoa mais zen. E em manter minha pequena família feliz, por exemplo.
Sonho, pra mim, também é aquele pãozinho doce que a gente encontra na padaria, e que tem, como ingredientes, um monte de creme, gordura e culpa.
E sonho também é, pra mim, aquela experiência que temos algumas vezes quando estamos adormecidos. E é desse último tipo de sonho que quero falar hoje.
Os sonhos e as experiências oníricas podem ser interpretadas cientificamente sob o prisma de duas áreas diferentes: pela psicanálise, como representações simbólicas pessoais (mais ou menos isso) e pela neurociência, como atividades cerebrais que acontecem fora do período de vigília. O primeiro prisma foi pioneiramente estudado por Freud e, depois, por Jung. O segundo, mais recente, é estudado por muitos neurocientistas que tentam compreender a neurobiologia dos sonhos. Os aspectos neurobiológicos dos sonhos começaram a ser estudados a partir do eletroencefalograma. Esse exame transforma a atividade cerebral em ondas que podem ser registradas graficamente com o auxílio de um equipamento. Durante o sono, temos ondas lentas e ondas rápidas. Grande parte do sono é representado por ondas lentas que, em alguns breves períodos, são interrompidos por ondas rápidas e curtas, que representam a atividade do córtex cerebral (aquela camada superficial do cérebro), e que são acompanhadas por movimentos rápidos dos olhos, mesmo estando fechados. E é nesse período de ondas rápidas e movimentos rápidos dos olhos (o nome daquela banda R.E.M. é inspirado nessa fase) que os sonhos acontecem. Hoje, a neurobiologia já sabe que os sonhos têm uma importante função biológica, relacionada à memória e ao aprendizado. Exatamente como se dá essa função não se sabe ainda. Mas tem gente muito boa estudando isso. Inclusive brasileiros como Sidarta Ribeiro, de quem sou fã, e que é atualmente o chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Clique aqui pra conhecer esse renomado Instituto brasileiro, que anda ensinando gente graúda do exterior a fazer pesquisa.
Bom, em função da minha formação, essa deveria ser a minha concepção principal sobre os sonhos.
Mas não é.
Com certeza os sonhos têm a sua base neurobiológica. Atividades neuronais que produzem a sensação de se estar vivendo coisas que não estamos vivendo na realidade. Mas acredito piamente que os sonhos nos trazem mensagens importantes. Tanto sobre sua personalidade quanto sobre os momentos que se está vivendo. Acho também, nada cientificamente falando, que os sonhos também podem servir, muitas vezes, como canais de comunicação com um outro tipo de linguagem, que talvez não possa ser acessada de outro modo. Um tipo de mediunidade, digamos assim. Tenho essa opinião em função das minhas crenças e das minhas experiências prévias, que acontecem desde a minha infância. Minha família toda sabe que, quando sonho, é bom dar ouvidos... Meus amigos mais próximos também sabem disso. Mas de uns tempos pra cá, esse tipo de sonho tem se rareado e tenho sonhado com coisas mais relacionadas ao dia-a-dia.
Normalmente não sonho com coisinhas fofas, com bichinhos, e coisinhas afins. Sonho com coisas mais práticas, ou participo de conferências e congressos nos sonhos ou tenho sonhos bizarros e absurdos. Desde que fiquei grávida, tive uns 4 sonhos com a minha filha. Sonhei que ela tinha arrancado a plantinha do vaso, que era pra plantinha não sofrer; sonhei que ela tinha aparecido sem a roupa com a qual tinha saído, porque tinha dado a própria roupa pra um "pobrinho, mãe, coitadinho"; sonhei que estava amamentando minha fofa e tive um outro sonho que não gostei muito, mas que representava, a meu ver, uma angústia naquele momento.
Mas o sonho que tive de sexta pra sábado passado foi especial. Não pelo sonho em si, mas pela coincidência que se seguiu e pelo simbolismo.
Sonhei que estava à beira do mar e que, lá do horizonte, veio chegando um grupo muito, muito, muito grande de golfinhos. Nunca tinha sonhado com golfinhos... Eram muitos, uns cinquenta. Eles estavam felizes, pulavam, rodavam, como os rotadores de Noronha. Então eu entrei no mar e eles me rodearam, exibindo-se e dando gritinhos, numa atitude amistosa. Depois eles foram todos embora em direção ao sol poente, com um céu vermelho alaranjado de matar de lindo. Lembro-me que levantei a noite pra fazer xixi, voltei a dormir e continuei sonhando a mesma coisa. Quando acordei, lembrei do sonho inteiro, achei lindo e tals, mas não dei muita importância. Enquanto arrumava a cama, liguei a tv pra ver o que passava. E coloquei num canal que nunca coloco, a TV UFSC. E eis que estava passando um documentário sobre golfinhos na Área de Proteção Ambiental de Anhatomirim.
Aí para tudo.
É muita coincidência.
Parei de arrumar a cama, sentei e fiquei vendo o programa - que, coincidentemente, ainda contava com imagens feitas por um amigo nosso, o Gustavo Cabral Vaz, marido da querida Aline - casal que tem um pé quente tremendo nos jogos do Brasil na copa, inclusive.
Aí fiquei muito cabreira, né? Sonhar com golfinhos e, logo ao acordar, ver um documentário sobre eles? Desci e contei pro namorado o que tinha sonhado e o que tinha acontecido na sequência. E, como eu acredito nas bruxas porque sim, elas existem, fui procurar o significado simbólico de golfinhos em sonhos.
E ficamos todo arrepiados aqui em casa com o que descobrimos.
Achei diferentes sites falando sobre o significado desse tipo de sonho. Os aparentemente mais sérios diziam a mesma coisa.
O significado simbólico da raposa, por exemplo, é servir de guia, é fazer a transição entre a vida e a morte. Ou melhor, entre a vida e o lado de lá. O golfinho também simboliza a transição, também é um tipo de guia. Só que ele faz a transição oposta: ele traz do lado de lá para a vida como conhecemos. Golfinhos simbolizam a transfiguração, trazer à luz, facilitar a passagem, a chegada. Sempre possuem conotação positiva, de abrir a estrada, os caminhos, tanto é assim que, frequentemente, grupos de golfinhos são vistos acompanhando embarcações, como se as estivessem guiando. Encontrei um blog muito interessante, inclusive, que fala sobre os símbolos nos sonhos. Lá eu li que os golfinhos são símbolos clássicos de "passagem". E que também estão relacionados aos impulsos instintivos. "Aquele ou aquela que é guiado(a) pelo golfinho deve convencer-se da relação benéfica e positiva com o seu lado instintivo". O que mais me impressionou foi saber que, de acordo com Jung,o termo golfinho vem do grego delphis. E que o termo grego delphus significa ÚTERO. Ou seja, há uma ligação simbólica entre o animal e o órgão. Me arrepiei até o último pelo do corpo, quando li isso. Fiquei muito impressionada!
Principalmente porque foi justamente num dia em que eu tive uma daquelas crisezinhas, totalmente naturais, de preocupação com o parto, com a hora H, "será que eu vou conseguir", "será que vai dar tudo certo" e dei uma chorada forte, meio que desabafo, no ombro do namorado que, como sempre, me deu o maior apoio. E ainda disse: você é a pessoa mais instintiva que eu conheço. Confia no seu instinto! E aí acho que os golfinhos vieram reforçar o recado...
Com golfinhos ou sem golfinhos, uma coisa é certa: quanto mais eu confiar nos meus instintos, quanto mais eu confiar no meu corpo, a chegada da minha filha será mais tranquila. Ela já está aqui com a gente faz tempo e só está se dando os últimos retoques pra chegar. Enquanto isso, eu fico aqui me preparando. Hoje faço 35 semanas de gravidez. E ontem um monte de gente me ligou perguntando se a Clarinha já estava se preparando pra vir, inclusive minha comadre Livia. Depois que eu me toquei porque todo mundo estava pergutando isso: a lua virou cheia. E essa é a última lua cheia que vivo antes da chegada dela. Acho que ela chega na próxima...
Bem, com certeza os golfinhos apareceram, durante meu sono, no período das ondas cerebrais rápidas, acompanhadas pelos movimentos rápidos dos olhos. Como a ciência ainda não consegue comprovar a veracidade ou não dos simbolismos psíquicos, como proposto por Freud e Jung, eu poderia duvidar dessas representações atribuídas aos golfinhos.
Mas em virtude da minha experiência e, principalmente, do meu instinto, eu prefiro achar que é o eletroencefalograma que ainda não consegue captar tudo o que se passa nessa cabecinha... e nesse barrigão.
Clara está chegando. Minhas ondas cerebrais, em forma de golfinhos, estão me avisando.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Meu namorado artista


Pra quem não sabe, eu tenho a sorte de ter um namorado que é jornalista, chargista e ilustrador.
Hoje ele leu o post anterior ("A grávida que existe em mim saúda a grávida que existe em você") e me deu de presente, totalmente de surpresa (mandado até pelo e-mail), uma ilustração sobre o que eu escrevi.
Quando vi, saiu até uma lagriminha...
E vim aqui colocar a ilustração, pra compartilhar com todo mundo. Taí em cima.
E aí me deu vontade de escrever sobre ele.
Teve uma época que ele ficava meio chateado porque eu o chamava de "o namorado" aqui. Mas agora ele já entendeu que é só jeito de falar... Mesmo porquê, se eu escrevo "Frank", pode ter gente que não faz a associação tão rapidamente (ah tá, Frank é o namorado dela...), mais ou menos isso.
Mas o Frank é muito mais do que um namorado. Ele é parceiro, companheiro, carinhoso e tá todo ansioso pela chegada da Clara. Como eu já mencionei, ele está tão grávido quanto eu e assumiu o grande papel que lhe cabe nessa gravidez, sem essa de ser apenas um "coadjuvante", como outros homens preferem ser durante a gravidez da esposa. Ele é tão principal, tão protagonista nessa quanto a Clara. Curte cada coisinha, vibra por cada conquista, chora no ultrassom, comemora quando saímos da médica, sai pulando, me diverte horrores, pergunta coisas que eu mesma esqueço de perguntar.
E eu ia escrever agora "E o mundo não tá tão acostumado com gente assim". Mas parei e pensei na frase. E acho que, na verdade, quem não estava tão acostumada com gente assim era eu mesma.
Eu nunca tive um namorado como ele.
E, por não conhecer essa realidade, confesso que no início fiquei muito assustada.
Ele cozinha pra mim, cuida da gente (eu e a bebê), traz café na cama, faz surpresinhas, traz docinhos, florzinhas, às vezes dorme no sofá-cama pra barriguda aqui poder se esparramar melhor e sentir menos dor à noite. Me abraça o tempo todo, diz que me ama, é todo grudentinho e mais um monte de coisas.
Antes de escrever isso que acabei de escrever, pensei: acho que não vou escrever, parece muito pedante, muito "seachante". Mas pensei melhor e vi que não tinha porque não escrever, ainda mais porque essa é a primeira experiência que eu tenho assim, desse jeito, na minha vida. Tive outros relacionamentos, com pessoas que não eram más, mas que talvez não soubessem muito da vida naquele momento. Ou não soubessem muito do amor. Café na cama? Jantinha? Surpresinhas amorosas? "Te amo" pra lá, "Te amo" pra cá? Nunca vivi isso. Então acho que tenho direito, sim, de falar... Direito adquirido. É muito legal viver com alguém que você vê diariamente dar o sangue e se virar em mil pra dar conta de tudo. E que ainda te diz: "Fica tranquila. Quando a Clara nascer, você volta a prestar os concursos. A gente vai junto com você, pra dar uma força, e eu cuido dela enquanto você faz as provas".
Então.
Voltando à frase que começou esse texto, pra quem não sabe, eu tenho a sorte de ter um namorado que é jornalista, chargista e ilustrador.
Mas não é por isso que eu tenho sorte.
É porque o Frank, "o meu namorado", é um cara como eu não sabia que existia por aí... Na verdade, nem sei se existe muito mesmo.
E ele tem me ensinado, todos os dias, um pouco mais sobre o que é esse negócio que todo mundo fala que procura: o amor. E eu, que era tão avulsa por aí, acabei ganhando, numa tacada só, uma família muuuuuito legal.
Essa é pra você, namorado!

E a ilustração lá de cima é que nem a Clara: de autoria nossa. Mamãe escreveu e papai desenhou!
Pra entendê-la melhor, é só ler o post anterior...


segunda-feira, 21 de junho de 2010

A grávida que existe em mim saúda a grávida que existe em você


Pode ser que eu esteja muito sensível e sentimental mesmo nessas últimas semanas, pela proximidade da chegada da minha filha. Pode ser que eu esteja realmente sendo meio Pollyana e tals. Mas isso não tira a beleza das experiências pelas quais passei durante a gestação - e passo ainda - envolvendo a participação de outras mulheres. E, também, é bom ficar assim um pouco, quando se é tão prática, objetiva, reta e direta.
Como deve acontecer com muitas outras grávidas (ou não, vai saber...), a gravidez me pareceu o momento em que as mulheres estão mais conectadas. Conhecidas ou desconhecidas. A sensação que eu tenho é que a gente anda na rua e elas nos olham como dizendo: "Vai firme, nega! Força nesse útero!". São olhares de apoio, de identificação, de amizade, de felicidade alheia, de companheirismo. Se eu soubesse desenhar, queria até fazer um desenho disso. De mulheres passando por você e fazendo o tão conhecido sinal de "jóinha", porque é isso que eu sinto. Como se nós, grávidas, fôssemos as maratonistas e as não-grávidas (naquele momento) fossem a torcida. A gente passa correndo e elas vão fazendo sinal de apoio, te entregando garrafinhas de água, sinalizando que também estão te ajudando a sustentar a barriga. E isso tem uma força psicológica muito grande! Às vezes a gente ouve um "ai que linda!", outras vezes um "deve estar pra nascer". Outras vezes, ainda, escapa uma expressão de espanto pelo tamanho da sua circunferência abdominal. Semana passada eu fui ao shopping com uma amiga e duas moças passaram por nós, segurando seus filhos, e comentaram entre si: "Meu Deus, olha o tamanho dessa barriga!". Algumas, menos apegadas a aparências e convenções - felizmente! - não se contentam com o simples olhar e vêm falar com você. Nesse mesmo dia, outra moça veio me perguntar se eram gêmeos ou era um só, mostrando-se muito surpresa em saber que era apenas uma...
Hoje eu fui resolver algumas coisas na rua com o namorado. Estávamos parados na faixa de pedestres quando veio uma senhora certeira em mim, como se me conhecesse de longa data. Parou, sorriu, colocou a mão na minha barriga e perguntou, numa tacada só: "É menina ou menino? Que barriga linda, minha filha!". Desejou uma "boa hora" e foi-se embora, no mesmo ritmo acelerado com que vinha, deixando a gente ali, parados, atônitos, morrendo de rir.
Hoje, conversando, ele me disse que acha que ela veio certa e segura falar comigo por solidariedade, porque "dói só de olhar pro tamanho da barriga". É, não é só de olhar que dói não. Dói mesmo. Minhas costas estão pela hora do nascimento... Mas tudo bem. Vamos que vamos, que agora falta pouco.
E hoje também foi dia de ultrassom da Clara! Eba! Dia de ultrassom é dia de festa aqui em casa. O papai fica todo eufórico e ansioso, canta no chuveiro, nem come no café da manhã, se enche de perfume, conversa com a barriga, falando pra filha pentear o cabelo, passar batonzinho, coisa de gente doida como eu, claro... Com a nossa Clara está tudo ótimo! Muito líquido, cordão longe do pescocinho, placenta no lugar certo. E tá bem grandona! 2 quilos e 600 gramas, 46 cm. Como disse o médico: vai trocando as roupinhas RN porque ela não vai usar... E ainda, brincando, disse: se ela nascer antes, vai nascer proporcional. Se nascer no tempo certo, vai ser daqueles bebês que "se passam". Bom, uma coisa é certa. Entrou, tem que sair!
Enfim, quero dizer que fico muito, muito emocionada com essa ligação que fica evidente entre as mulheres durante a gravidez. Em geral, é uma ligação de muito carinho e amparo. Eu sinto as boas energias das mulheres que passam por mim e me olham com sorrisos e olhinhos que sorriem (como sempre diz meu namorado pra mim...). É como se todas nós estivéssemos unidas por fortes laços, que não são vistos mas se fazem presentes. Perdi as contas de quantas vezes essas desconhecidas passaram por mim e desejaram uma boa hora - e esse é um tema pra outro post. Acho lindo esse negócio de desejar uma "boa hora"!
Sempre fui muito feliz por ser mulher - não que eu tenha alguma coisa contra ser homem. É que do universo masculino eu não posso falar muito, já que não me lembro se já estive na pele de um, em experiências anteriores... Mas essa solidariedade feminina confesso que entrou pro meu ranking das "melhores coisas de ser mulher".
Em tempos de discussões sobre mudanças e quebras de paradigmas, de transição entre um modelo compartimentalizado da realidade para um modelo holístico ou sistêmico, em que se possa ver a vida de maneira integral e não segmentada, é muito, muito bom sentir que você, realmente, faz parte de um todo... E que pessoas tão diferentes e, simultaneamente, parecidas se identificam com você em um determinado momento, a ponto de te lançar um olhar que poderia ser interpretado como: "Tem um pouco de mim aí, e um pouco de você aqui"...
Acho que é isso, mais ou menos, que o tal do "Namastê" quer dizer.

PS: infelizmente, não consegui achar o autor dessa linda ilustração aí em cima...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mulheres que correm como lobas - Para minha amiga Leila

Existem mulheres de todos os tipos. Não dá nem pra fazer uma lista de todos os tipos e subtipos que existem... Dá, apenas, pra mencionar alguns.
Existem as mulheres frágeis, que quebram ao menor revés da vida.
Existem as mulheres falsa-frágeis, que fingem que quebram, mas que são fortes e não sabem.
Existem as mulheres acomodadas, que preferem que todos façam tudo por elas.
Existem as mulheres com problemas para assumir responsabilidades, que tendem a delegar suas principais funções a terceiros.
Existem as mulheres que assumem tudo e mais um pouco, e depois ficam meio doidas pra dar conta, mas gostam assim e dão conta sozinhas.
Existem as mulheres capas de revista, que são lindas, maravilhosas, têm corpaços e parecem bem resolvidas. Se são mesmo, só elas mesmas podem dizer.
Existem as mulheres Amélia, que curtem cuidar da casa, dos filhos, do companheiro, fazer coisinhas lindas pra eles e que são felizes assim.
Existem as mulheres Amélia que não são felizes assim, e vivem reclamando pelos cantos.
Existem as multiuso, que fazem um pouco de tudo, cuidam das crianças sozinhas, da casa, trabalham em jornada dupla, ainda cuidam do corpo, do espírito, lêem livros atuais, são feras no que fazem, mães exemplares, que não sofrem com culpas ou cobranças excessivas - ainda não conheci um ser superior assim, que deve ser de outro plano existencial, mas tudo bem...
Existem as que misturam um pouco de tudo isso e mais um pouco: são frágeis, fortes, capas de revista, corajosas, medrosas, bem-resolvidas, culpadas, dependendo do momento...
Hoje quero falar de mulheres batalhadoras. Que abriram mão de coisas que outras não conseguiram abrir, pra ir em busca de um sonho, de uma meta. Que ficaram longe de suas famílias pra estudar mais, pra se especializar, pra chegar no topo. Que muitas vezes se sentiram sozinhas, em crise, que pensaram em desistir de tudo e, em muitas vezes, se perguntaram: "O que eu tô fazendo da minha vida?". Que viviam com as roupas mais dentro das malas que do guarda-roupa. Que muitas vezes se perguntaram se tudo aquilo valia a pena... Que mudaram de cidade repetidas vezes, pra aproveitar as oportunidades profissionais que apareciam. E que, nessas mudanças, deixaram amigos em lugares distantes, mas fizeram novos.
Quero falar daquelas mulheres que, mesmo sendo doutoras, encararam o desemprego e, meio desesperadas, ficaram sem saber o que fazer. Pois não tinham famílias ricas que pudessem bancá-las quando necessário, nem moravam mais com suas famílias... E aí uma pequena janela se abria, mesmo que minúscula, e elas passavam, pra ter pelo menos uma graninha pra se virar. Que engoliram muitos sapos, a ponto do estômago virar um brejo. Mas que não desistiram. Que persistiram. Sozinhas.

Então eu parei hoje uns minutos só pra escrever esse post em homenagem a uma grande amiga, da turma desse último grupo de mulheres que mencionei, e que hoje conseguiu alcançar seu sonho. Onde queria. Como queria. Do jeito que queria.

Leila, minha amiga querida, nega véia, japa do meu coração, que tive a felicidade de reencontrar em Floripa depois de tantos anos separadas:

VAI QUE É TUA, LEILOCA!

Embora essa seja uma homenagem a uma amiga querida que acabou de realizar um grande sonho, quero dedicá-la a todas as mulheres que eu conheço que fizeram de suas vidas o caminho para a realização de seus sonhos, pessoais e profissionais. Não desistiram ao menor sinal de problema. Foram corajosas e abriram mão de muitas coisas pra seguir em frente. Encararam novas cidades e novos planos sozinhas. Enfrentaram seus medos e desafiaram a si próprias.
Não são mulheres que correm COM os lobos.
Elas são as próprias lobas...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Clara e suas vovós postiças

Carinho é uma coisa que comove.
Saber que uma pessoa dedicou algumas horas da sua vida fazendo algo ligado a você, sem que você nem soubesse... Que, ao invés de fazer suas coisas cotidianas, parou, pensou, planejou, foi atrás de material, fez e ficou lindo... Como diz a propaganda do cartão de crédito, não tem preço mesmo.
A Clara ganhou muitos presentes.
Eu olho no armarinho dela e vejo cada um, lembro de cada pessoa. Amigos queridos, parentes... e pessoas que nem me conheciam.
Isso me comove muito: minha pequena ganhou presentes de pessoas que nem me conhecem -ou que nem me conheciam até então. Ganhou um conjunto lindo de macacãozinho com um saco de bebê, acolchoados, branquinhos com florzinhas miúdas, a coisa mais linda do mundo, da Nani. A Nani é leitora do blog, tem uma filha linda - a Letícia - e compartilha das mesmas sensações, vivências e emoções que eu.
Clara ganhou também dois casaquinhos de lã feitos especialmente pra ela pela Dona Dilma, mãe da Guta Orofino, que também não me conhecia e hoje é uma querida amiga.
Clarinha ganhou, ainda, um outro casaquinho fofíssimo da sogra da minha amiga Karen, feito também pra ela. E tive a felicidade de conhecê-la, por coincidência, outro dia num café. Coisa boa cumprimentar alguém que, de certa forma, já nos conhecia... embora nunca tenha nos visto.

E hoje a Clara ganhou um presente que me tirou o ar, de uma pessoa que eu já conheço a um certo tempo. A Ana Paula começou como minha aluna no laboratório, quando ainda estava na graduação. Agora ela é bióloga formada e, no início do ano, passou na seleção do mestrado lá no nosso laboratório. Hoje, além de aluna, tenho a felicidade de tê-la como uma grande amiga. Conheci a família dela já faz um tempo. E dá pra entender bem porque ela é assim...
Hoje a Clara ganhou uma manta feita especialmente pra ela, pela Lidia, mãe da Ana. A Lidia se preocupou em fazer a manta exatamente das cores do quartinho da Clara... O mais especial de tudo é que a Lidia acabou de ganhar um netinho, o Mateus, que é a coisa mais linda. Então o que me comove, além do trabalho em si, que é maravilhoso, foi a Lidia ter parado, se preocupado e feito uma coisa pra Clara quando poderia estar fazendo pro Mateus, seu neto.
Saber que nossos amigos gostam da gente é uma coisa ótima. Mas saber que eles gostam dos nossos filhos, que nem chegaram, é uma coisa que não tem nome ainda...

Aqui do lado de cá, a Clara tem uma vovó só. É a vovó Fátima, que mora no interior de São Paulo e, por isso, não pôde acompanhar a gravidez ao vivo e a cores, embora saiba de todos os detalhes de longe. E a Clarinha tem também uma vovó do lado de lá, a Célia, mãe do namorado, que infelizmente já se foi e que tá lá preparando a neta pra sua reestréia. E que, com certeza, cuidará dela à distância.

Mas a Clara também tem um monte de vovós postiças. E, embora seja até meio injusto mencionar apenas algumas pessoas (já que tudo o que a minha pequena tem foi fruto do carinho conjunto de um monte de amigos), confesso que as vovós postiças merecem mesmo um destaque. Dona Cecília, que me acompanha aqui em Floripa desde que cheguei e com quem compartilho o nosso almoço mensal; Thereza, minha orientadora e amiga, que sempre pergunta "Como tá a minha neta?"; Mirtes, amiga querida que me acompanha há tantos anos e que nos hospedou tão carinhosamente na loucura do concurso; Sulema, que tem o coração maior que ela própria (e olha que a mulher é alta!), cuidou da gente como filha e neta mesmo e que manda arroz doce "pra Clara" sempre que pode.

É demais isso... Sou uma grande felizarda por tê-las todas por perto, mesmo que longe.

Aí embaixo tem três fotinhos, em homenagem a essas vovós postiças. A primeira é a mantinha feita pela Lidia. A segunda, foi a primeira mantinha que a Clara ganhou, feita pela Sulema. A terceira é outra mantinha, que a Thereza trouxe de sua estadia de estágio sênior nos Estados Unidos.


by Lidia

by Sulema



by Thereza
Uma coisa é certa: frio essa bebezinha não vai passar.
Porque calor humano, aqui, não falta.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Prefiro cabelo branco a neurônio velho

video

"Ah, eu não quero envelhecer", diz a pessoa. "Envelhecer deve ser horrível".

A pessoa que disse isso deve sofrer bastante. Não só porque luta contra algo que não tem como lutar. É missão fadada ao fracasso, crônica de uma morte anunciada literalmente. Mas deve sofrer muito mais por não saber lidar com o fato de que amadurecer é uma coisa ótima. Bom, pelo menos é o que eu acho... Sem metáforas, trabalhando com fatos reais: coma uma banana verde; coma um caqui verde; coma alguma fruta que não se esperou amadurecer. É uma coisa meio esquisita, não tem aquele gosto característico da fruta. Acho que é mais ou menos assim com a gente também.

Bom, como não posso fazer químicas no cabelo, faz tempo que não refaço as luzes da minha juba. Gostei de tê-las feito há uns 2 anos atrás porque fiquei com uma cara menos séria, digamos assim. O que pra mim, que já tenho naturalmente essa cara de brava, é de grande utilidade... Então meu cabelo foi crescendo durante a gravidez e as luzes foram descendo um pouco. Aí minhas amigas entendidas de modas e tendências e nomes que eu nem faço a menor ideia, dizem que estão ótimas as minhas luzes californianas. Tô in e não sabia... Adoro! Sem querer, sem gastar um tostão e simplesmente por não poder fazer química em função da gestação, acabei ficando com luzes californianas. Vê que coisa... E - novidade! - tenho achado repetidos fios brancos na minha cabeça. E isso sim é novidade. Porque nunca tive, até então, cabelos brancos. O que foi uma roleta-russa genética, porque era para ter tido já faz tempo... Minha mãe começou a ter cabelos brancos quando ficou grávida de mim, aos 19 anos. Embora fisionomicamente eu me pareça com meu pai, o corpo, o jeito e a personalidade eu puxei dela, então, por essa lógica, já era para ter cabelos brancos faz tempo também... Mas eles só estão pintando agora, embora quase não sejam vistos, só eu mesma que os encontro. Não tô gostando muito deles não, porque são mais grossos e secos. Então acho que vou pintar assim que puder. Pelo menos nesse momento, e pode ser que isso mude, prefiro cabelos escuros. O que não significa que não vou assumir minha idade. Sou muito, muito tranquila, com esse negócio de idade. Mesmo porquê, a idade não está na idade que se tem, não é? Que coisa mais antiga de se dizer, e tem gente que ainda não entende...

Eu sou bastante vaidosa. E tem gente que nem sabe dessa minha faceta. Mas sou vaidosa porque gosto de estar bonita - que mulher não gosta? Não para aparentar ter menos idade.
Vivo ouvindo que não pareço ter a idade que tenho. Quando pergunto porque pensam assim, as pessoas dizem que é porque eu tenho um jeito maria-criança, um jeito espontâneo de ser. Faço questão de perguntar o porquê, já que esse comentário é realmente ambíguo. Tem gente que não parece ter a idade que tem porque vive fazendo cagada por aí quando se esperaria que não fizesse, em função da experiência que os anos deveriam trazer...

Voltando à pessoa mencionada no início.
Que modo estranho de ver a vida. Ela acha que envelhecer deve ser uma coisa horrível, como se o envelhecer estivesse láááááá na frente. Ela não sabe que o envelhecer acontece todos os dias, todas as horas, todos os minutos, sempre. E acaba não vivendo o processo... Ou, pior. Acaba vivendo da pior maneira possível. Injeção disso, injeção daquilo, procedimento x, y e z, numa tentativa de enganar a vida. E de se enganar também. Aos 30 e poucos anos! Pelamor... Não sou amiga o suficiente dessa pessoa, mas gostaria de dizer pra ela: Filhinha, se liga, amor! Tu já tá velha! Velha no sentido de passada, no sentido de antiquada, no sentido de demodê... Sim, porque não tem coisa mais demodê do que essa luta contra o relógio, essa busca pela eterna juventude, essa tentativa de não ser quem se torna a cada dia. E o pior é que ela nem percebe que cada dia que passa, parece mais envelhecida...

Eu não tenho problemas para envelhecer, felizmente. Gosto muito mais de mim do que gostava no passado. Me curto mais, me permito coisas que antes não permitia, não entro em algumas paranoias. Tenho 31 anos e 11 meses. Feliz com todos eles. Feliz porque serei mãe aos 32. Não tenho mais o corpinho mínimo que vi numa foto ontem junto com meu namorado, de quando morava em Fernando de Noronha, mas também não tenho mais o cerebrinho mínimo daquela época (tá, tô exagerando... nunca tive cerebrinho mínimo não. Mas já fui muito besta nessa vida...).

A Martha Medeiros tem um trecho de babar, que diz o seguinte:
"Estão todos em busca da reversão do tempo. Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se mudança. De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos".
Também penso assim.
A minha juventude, quero é dentro da cabeça. Estimulando minha neurogênese. E isso se faz lendo, rindo, fazendo coisas de criança, brincando com elas, tendo a capacidade de se auto-avacalhar, dançando, cantando, amando. Outro dia, eu e Frank lemos juntos uma frase que amamos. Dizia: "sempre é tempo de se ter uma infância feliz". Não lembro o autor agora, mas procuro depois...

E viva o passar dos anos! Bem vividos!
O vídeo lá de cima é prova cabal disso. Fiquei PAS-SA-DA quando vi! Cortesia da minha amiga Ana Paula Ramos Costa.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O parto de cada uma

Há um tempinho atrás (não me lembro exatamente, acho que há uns 2 meses), o Bom Dia SC, jornal matinal catarinense, apresentou uma matéria que gerou muita polêmica por aqui. Uma médica ginecologista e obstetra afirmou, categoricamente e em rede estadual, que o parto considerado normal era a cesária, porque sentir dor não era uma coisa normal. Que parir em casa, ou de cócoras, ou de qualquer outra forma que não fosse pelo tradicional corte abdominal, era coisa de índia. E que os riscos de um parto normal eram muito maiores que de um parto cesária.
Ói que nonsense essa criatura?
Imagina a minha cara assistindo um troço desse?!
Bem. Faço parte de um grupo de discussões sobre parto normal humanizado e, entre eles, o parto domiciliar, aqui em Florianópolis. Passei a fazer parte quando despertou em mim a vontade de ter minha filha em casa. Nesse grupo são discutidas questões muito pertinentes sobre maternidade, alimentação, tipos de fraldas, dicas úteis para mamães e suas crias. São mulheres com uma visão diferenciada sobre a questão do parto e da maternidade. Nenhuma índia. Quer dizer, minto. Nenhuma que viva diretamente em tribos, ocas, essas coisas. Embora eu saiba que uma índia, pelo menos, existe. Eu. Sou uma típica mistura brasileira: neta de portugueses pelo lado da mãe. Neta de índia pelo lado do pai. Tenho genes indígenas - meus olhinhos puxados, meu rosto redondo e minha tendência a pegar o tacape em caso de perigo não me deixam mentir - embora a personalidade seja totalmente lusitana.
Enfim. Após a matéria infeliz, houve muita agitação no grupo. Pra encurtar a história: como exemplo de mobilização bem feita, foi conseguido direito de resposta também em forma de uma matéria. Que foi transmitida hoje. Com o lindo depoimento da mamãe Roberta Gasparino, que deu à luz ao seu filho Pedro em casa, na água, com a assistência das enfermeiras obstetras do grupo Hanami, e com as excelentes explicações técnicas e, simultaneamente, humanas do Dr. Marcos Leite, um dos excelentes médicos que apoiam o trabalho do grupo.
Linda matéria.
Fiquei muito emocionada.
Na matéria, alguns dados interessantes são apresentados. Brevemente, alguns deles:
- o Conselho Federal de Medicina está iniciando uma pesquisa para estimar o número de cesarianas no país. Médicos responderão a um questionário sobre fatores técnicos e de remuneração sobre a cesariana (ahhhh, que interessante...);
- o Ministério da Saúde calcula que, no país, 43% dos partos sejam cesarianas; nas instituições públicas, esse valor é de 34% e, nas instituições privadas (em que os médicos recebem diretamente dos pais ou das seguradoras o valor devido - IMPORTANTE ISSO -, esse número sobe pra 80% (ahhh, que interessante isso também...));
- a Organização Mundial de Saúde recomenda que as cesarianas não ultrapassem os 15% do total.
Pois então. Uma frase importante dita na matéria, e que também foi dita por mim naquele dia em que uma amiga do namorado disse que tinha coisa que ela preferia nem saber, foi: "a melhor maneira de dar a luz é como a mãe se sente mais a vontade, mais segura pra ter o bebê". Com certeza. Uma pessoa que tenha um real pavor de sentir dor, ou de ter um parto normal, não tem porquê se submeter ao sofrimento do momento que gera, pra ela, uma angústia extrema. Assim como quem não tem medo da dor nem da incerteza do momento não tem porquê se submeter a uma cesariana, apenas porque o médico quer. E, mais importante ainda, umas não devem atacar as outras, apenas porque seus pontos de vista são diferentes. Vivemos na época do arco-íris, como tem sido dito frequentemente na África do Sul, em tempos de Copa do Mundo. E respeito e compreensão é fundamental.
Lembrando sempre que, nesse momento tão importante na vida de uma família, quem manda mesmo é a saúde e bem-estar de quem está chegando ao mundo.
Eu, por exemplo, sonho em ter um parto normal em casa, sem cortes ou anestesias ou ambiente hospitalar. Mas se, quando o avião da Clara chegar, ela quiser que abram uma janelinha pra ela sair, pode abrir. Pode inflar a escada de emergência pra ela se jogar, se for necessário. Pode me cortar sem sustos nem medos. Porque só o que me interessa é ela chegar bem.

Lá em cima está o vídeo com a matéria que passou hoje. Não consegui fragmentá-lo pra anexar só a parte sobre o parto natural. Então, caso você queira ver, arraste o cursor para o tempo 13:50, que é quando começa a matéria.

Pra finalizar: a minha predileção pelo parto normal não é apenas pelo fato de que não gosto de hospitais ou da maneira mecanizada pelas quais as crianças são trazidas ao mundo. Isso, na verdade, é secundário. A minha questão pessoal é: seguir uma mudança de paradigma que dê à mulher a autonomia para decidir o que é melhor pra si; que torne, não só a mulher, mas todas as pessoas, os protagonistas de suas próprias vidas. Abro aspas: "protagonistas não só de sua vida reprodutiva, mas também de seu empoderamento, pra se defender da discriminação e da violência (quaisquer que sejam elas - grifo meu)". Esse trecho foi retirado de um artigo intitulado "Parto humanizado na percepção das enfermeiras obstétricas envolvidas com assistência ao parto", publicado em 2005 e de autoria de Jamile Claro de Castro e Maria José Clapis. Se quiser ler o artigo, é só clicar ali no título dele.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Salve a lente da Soninha!

Encarado o desafio, agora é a hora de ver o resultado do ensaio fotográfico tão protelado.
Confesso: fiquei muito espantada hoje, ao ver algumas das fotinhos que a Soninha Vill me mandou.
E juro que não consegui evitar o "Essa sou eu?!"
Porque quando a gente tá nesse corpãozãoão, tudo o que a gente vê é barriga. Não tem a menor ideia de como está realmente, porque tendemos a ver o espelho também com olhos viciados.
Olha, não vou mentir não. Eu a-d-o-r-e-i !
Foi muito especial fazer esse ensaio fotográfico. Não somente porque ele registra o finzinho da gravidez, mas porque foi feito por uma pessoa que acompanha a vida do Frank por muitos anos e porque, puxa vida, foi num lugar que adoro: as dunas da Joaquina.
Então, esses somos nós: eu, Frank e Clara.











quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um pontinho barrigudo em cima das dunas

O mundo de mãe é um mundo de novidades meeeesmo.
Pensa numa pessoa que não gosta de tirar fotos em público, pensa?
Eu mess.
Mas, eu já disse: a Clara é a Clara.
E pela Clara nóis faiz tudo.
Na verdade é o seguinte.
O namorado tem uma grande amiga, a Soninha Vill. A Soninha é uma fotógrafa daquelas bem poderosas. Pra conhecer o site dela, é só clicar aqui.
E aí ele combinou com ela de fazer um ensaio fotográfico da nossa gravidez. Bom, como a nossa gravidez está acoplada à minha pessoa, o ensaio seria comigo. Mas lógico que isso era só um detalhe...
Nós marcamos e desmarcamos o ensaio uma dúzia de vezes. Por compromissos meus, depois dela, depois porque eu paranoiei e desisti de fazer. Porque quando a gente tá acostumada com um corpo médio com proporções bacaninhas é difícil se acostumar com um corpo ultra de proporções spielberguianas. Enfim. Fiquei meio sem jeito de tirar fotos estando assim grandona e acabei desistindo. Mas aí todo mundo ficou me dizendo que eu iria me arrepender muito de não registrar esse momento tão bacana da minha vida e que a Clara perderia a chance de ver a mamãe oval registrada por lentes profissionais. Ok, jogaram baixo, e eu mudei de ideia.
E, confiando nas palavras da Soninha, que dizia sempre que ficariam ótimas, que eu não precisava me preocupar, encarei o desafio.
Magina? Eu, de modelo?
E vou dizer: foi muuuuuuuuuuuuuito legal. Muito legal! Mas muito legal mesmo!
Fomos num lugar aqui de Floripa que eu adoro, porque me lembro da minha irmã Lenita, que tá gravida do Murilinho. Quando ela esteve aqui, esse foi o lugar preferido dela. Então fomos pras dunas. Fizemos um monte de fotos lá, que a Soninha e o namorado disseram que ficaram duca! Como eles trabalham com isso, com imagens, eu acredito que tenham ficado lindas mesmo. Depois fomos pra praia da Joaquina e finalizamos aqui em casa, no quartinho da Clara.
Olha, eu gostei muito. Muito mesmo. E nem vi o resultado ainda.
Mas que foi uma experiência muito diferente de tudo o que eu já tinha vivido, foi.
Assim que eu estiver com as fotos, eu posto algumas aqui.
Mas, pelo que eles disseram, nem vou parecer um pontinho roliço em cima das dunas. Acho que vai estar mais pra uma bicho grilo cantando Aquarius naquela paisagem a la George Lucas.
E parece que quando tem que ser feito, não tem jeito. São Pedro nos presenteou com um dia maravilhoso, de céu de brigadeiro, pra fazer as fotos. E assim que terminamos, o tempo virou.
Então é isso, vivendo novas experiências antes mesmo da chegada da Clara.
Porque a Clara... ah, já sabe. A Clara é a Clara.
E só tenho que agradecer agora a duas pessoas: Frank e Soninha!
Obrigada, seus lindos, pela linda experiência como modelo barriguda.
Foi muito legal!
Se cuida Gisele. Não sou magra como você, mas no quesito barriga, ganho de longe, hehehe

PS: o dia foi cheio de emoções. Além do ensaio fotográfico, pela primeira vez meu nome foi mencionado na lista das "mamães da vez" do grupo de parto domiciliar. Ai que frio na barriga. Literalmente! Ela tá chegando...

sábado, 5 de junho de 2010

O córtex pré-frontal e os seguidores de Phineas Gage


Essa aqui eu nem ia comentar. Mas está na minha cabeça desde quinta-feira, vira e mexe eu me lembro, vira e mexe penso nisso. Bem, quem acompanha o blog sabe que eu pretendo receber a Clara por parto normal. E quem acompanha um pouquinho mais sabe que eu espero que esse parto normal tenha todas as condições para que aconteça em casa. Tenho meus motivos, estou consciente deles, certa e segura. Ponto final.
Estou de 32 semanas de gestação e, a partir da 37a., começo a fazer o acompanhamento com a equipe que vai me amparar nessa, embora esteja fazendo pré-natal desde a semana seguinte à que soubemos que estávamos grávidos.
Bem, o fato é o seguinte.
Dia desses, eu e o namorado fomos dar uma voltinha, ver a vida, ver gente, e foi ótimo. Aí encontramos umas pessoas e, como sempre tem acontecido, a conversa enveredou pelo tema gravidez, parto, amamentação, enfim. Aí a pessoa me perguntou se eu já tinha marcado a cesária ou se teria o bebê por parto normal. Eu simplesmente disse: não não, vai ser normal. E parei por aí (porque aos 31 anos eu já sei que às vezes é melhor deixar como tá). Mas como o namorado-papai está mesmo gostando da ideia do parto domiciliar, deu os detalhes, disse que nós receberíamos a Clara no quentinho da nossa casa, e perguntou se ela conhecia o grupo Hanami (que é a equipe de parto domiciliar planejado que vai nos atender, já falei delas aqui). Ao que a distinta pessoa - porque é realmente distinta, simpática e, até aquele momento, agradável - rapidamente respondeu, interrompendo o namorado: Não, não. Não conheço e nem pretendo conhecer. Tem coisa que eu prefiro não saber.
Óóó??!!
A conversa continuou como se nada tivesse acontecido.
Mas confesso que fiquei muito chocada com aquele comentário.
Todo mundo tem direito de pensar o que quiser, sou a favor da total liberdade de opinião. Mas todo mundo deveria ter o dever, também, de segurar a sua língua e sua grosseria a favor da boa educação e da boa convivência.
Mesmo porquê, se for assim, falamos-o-que-quisermos-quando-quisermos-pra-quem quisermos, o mundo será um lugar mala e eu, particularmente, seria considerado uma desajustada social ou uma sem noção. Naquele momento, quem me conhece deve imaginar a força que eu fiz pra não mandar uma ali na lata mesmo. Respirei, segurei, mas não pude evitar que meus olhinhos se apertassem (ficando menores do que já são) e que minha sobrancelha esquerda fizesse o famoso ângulo que anuncia: PERIGO: ANIMAL FEROZ COM FOME. Mas como eram conhecidos do namorado e ele não tinha nada a ver com a história, pelo contrário, fiquei miúda. Lógico que o encontro terminou em 2 minutos porque eu apressei com a famosa frase: "Vamintão?". Mas tive que conviver com uma azia medonha durante os dois dias seguintes. Sei que a azia é causada pelo crescimento intenso do útero, que empurra o estômago pra cima, promovendo refluxo e causando azia. Mas que me deu uma sensação que era coisa mal digerida, deu.
Apenas a título de informação: nós temos uma região cerebral chamada córtex pré-frontal. Fica localizada na superfície cerebral, na área bem atrás da testa, vamos dizer assim. Essa parte do cérebro está associado ao controle dos impulsos, ao planejamento, à antecipação de consequências, ao pensamento, à lógica e à adequação dos nossos comportamentos às diferentes situações que vivemos diariamente. O bom funcionamento dessa área é que permite que sejamos seres sociáveis, com habilidade para o tradicional "bom dia, boa tarde, boa noite", que faz com que saibamos como devemos nos portar em diferentes situações. Isso a gente já sabe desde um pouquinho depois de 1848, depois que um cara chamado Phineas Gage teve seu córtex pré-frontal perfurado por uma barra de ferro na construção de uma estrada nos EUA. O cara saiu vivinho, mas virou um mala dosinfernu, que dizia toda sorte de impropérios a quem passasse em sua frente, sem avaliar o ato ou antecipar as consequências.
Claro que a pessoa tem um córtex pré-frontal íntegro e bem funcionante, deve ter sido só um escorregão, ou uma escapulida.
Mas é só pra lembrar: ouvir seu córtex pré-frontal de vez em quando faz bem pra todo mundo. Além de aumentar a longevidade dessas estruturas brancas compostas por polpa, dentina e esmalte que ficam implantadas na mandíbula e no maxilar. Os dentes.
Gente sem noção...
Depois sou eu que falo só o que eu penso...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Making of, sem cortes, de uma gravidez


Ok, ok, a vida de grávida é sublime. É linda. É romântica. É tooodo de bom. É um momento em que você sente que Deus confia em você, vamos dizer assim.
É.
Maomeno.
É mesmo INCRÉÉVEL estar grávida. Bom, eu, pelo menos, tô adorando! É legal demais acompanhar todas essas mudanças punk-rock-metal-pesado que acontecem com a gente e ver que a gente serve pra coisas mais sublimes e nobres do que sair por aí fazendo bizarrice. Que a gente tem capacidade - e talento - pra acolher, nutrir, formar e amar um serzinho à sua imagem e, porque você é uma sortuda, à sua semelhança...
Má vou dizer: tem hora que a gravidez acaba com todo o glamour da pessoa... Tem hora não. Tem horaS. Plural.
Eu já vinha pensando em escrever esse post faz tempo, compartilhando os momentos ORGANIZAÇÕES TABAJARA da minha nova vida. Mas não tinha tido inspiração, ou tempo, ou tempo e inspiração, sei lá.
Agora deu.
Então vamos lá.
Nota importante: os fatos não estão em ordem cronológica...

FATO 1: MEIAS DE NYLON QUE TRAUMATIZAM A PESSOA

O inverno foi chegando e as calças foram desaparecendo em função da circunferência das coxas. E do tamanho da retaguarda. Solução: meias de nylon para usar com vestidinhos. A moça sempre usou tamanho M de meia. Aí pensa: vai servir o G. Vai comprar o G e compra dois lindos modelos modeeeernos e leeeendos. Chega em casa feliz. Coloca a meia. Quase cai tentando enfiar aquele estreito cilindro de nylon num pernão que meu Deus... Depois de suar até molhar o cabelo, desiste. Guarda as meias para um futuro QUEDEUSQUEIRA que esteja próximo. Compra outra meia. "Que tamanho que vc quer, moça?" "GG" "Quê moça?" "GG" "Moça, não tô ouvindo" "GEGÊ PORRA, TÁ SURDA?" A moça ri de cantinho (eu sei que ela quer é deitar e bater no chão de tanto rir, eu sei...) e traz a meia. Chego em casa. Cabem 3 de mim em cada perna... Aí, depois, vc aprende que era só a porcaria da marca... Aquela primeira marca faz tamanhos micro mesmo. E deveria ser processada, a desgraça, por traumatizar uma pobre grávida de primeira viagem. Se bem que, pelo tamanho da mulher, tem que fazer duas viagens, eu acho...

FATO 2: O DIA QUE VOCÊ PERCEBE QUE O MUNDO NÃO É MAIS O MESMO PRA VOCÊ...

Aí um dia vc pega um tênis que adora, senta na cama pra calçar e, de repente... O braço ficou curto ou as pernas que cresceram? Não há meios de alcançar seus membros inferiores. Tinha uma barriga no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma barriga. Você tenta de lado. Além de não conseguir, inflama o ciático e tem uma crise de câimbra num lugar que vc nem imaginava que tinha um músculo... Aí você se rende: FRAAAAAANK. Chama o namorado que, muito carinhosamente, amarra seu cadarço. MAS EU VI O SORRISINHO NA CARA DELE, EU VI. E DEPOIS EU VI QUANDO ELE SE ESCOROU NA PAREDE DA ESCADA PRA SE MATAR DE RIR. EU VI! Não adianta negar, não adianta negar...

FATO 3: LUGARES QUE VOCÊ NÃO VÊ, MAS SABE QUE ESTÃO LÁ PORQUE UM DIA JÁ OS VIU (graças a Deus...)

Não vou falar sobre esse tópico.
Captou?

FATO 4: ACOSTUMANDO-SE COM A NOVA PROPORÇÃO

Até você se acostumar com sua nova quarta dimensão (ou quinta, ou sexta, isso é muito variável...), vai um tempo. Essa aconteceu quando a barriga já estava grandinha, mas ainda não pesava tanto... É como uma presença que você vê, mas só de vez em quando. Aí você lembra - E BEM - que ela está lá quando, cozinhando, você sente uma dorzinha súbita, dá um grito e um pulo pra trás, jogando a colher longe. O que aconteceu, gente? Queimei a barriga... Tá, aprendi. Tô crescendo pra frente.

FATO 5: ENTENDENDO A NOÇÃO DE ACESSIBILIDADE

Eu sempre fui uma fiel e militante adepta das adaptações em prol da acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida. Mas depois que 4 pessoas que estavam comigo passaram por uma fresta em que qualquer ser humano de tamanho razoável consegue passar, enquanto eu tive que dar a volta lá na casa do carvalho porque entalei, passei a achar que É OBRIGAÇÃO DO GOVERNO ADAPTAR LOCAIS PARA TOOOOODO MUNDO. EU DISSE TOOOODO MUNDO. E ainda ter que administrar todo mundo se matando de rir da sua cara de "Não quero ouvir um pio sobre isso"......


FATO 6: EU SEI QUE TÔ GRANDE, TÁ?????


Estava eu na fila de um restaurante quando, na minha frente, uma mulher super bacana com sua mãe e sua filha deixa, graciosamente, para decidir o cardápio quando JÁ está no caixa pra pagar. E eu lá. Com dor nas costas e barriga pesando. Esperando. E a cidadã escolhendo se pedia o bife com molho shoyo acebolado ou se pedia um frango light. Aí a santa da atendente vê a minha cara de "Não tô me aguentando aqui" e diz pra moça: "Moça, enquanto a senhora espera, vou atendendo a próxima porque ela está grávida, tudo bem?" Ao que a simpática pessoa, com cara de intestino grosso, responde (com voz anasalada fica melhor pra entender...): "Mas eu também tô grávida, tá?" (e aponta uma barriguinha que eu tenho certeza até agora que era só de chopp). E a moça do caixa, perdendo a paciência: "QUER COMPARAR???!!!" - gritando... E completa: "ESSA MOÇA ESTÁ DE 9 MESES!!" E você não sabe se simula um desmaio, uma convulsão, se manda as moças à merda ou pede um arroz-feijão-bisteca-e-uma-dose-de-vodca... Eu adoro minha barriga. Amo de paixão a casa da minha Clara. Mas isso não dá o direito de ninguém me olhar como se ela estivesse se projetando para a terceira dimensão, catso! Ainda mais porque eu estava só no sexto mês... Gente indiscreta...

FATO 7: REZE PRA SER BEBÊ, MINHA SENHORA...

Caixa preferencial no supermercado. Fila (tenho uma teoria: coisas bizarras acontecem em filas, fuja delas). Eu de 5 meses e uma barriga considerável. De mau-humor. Aí vem uma senhora daquelas bem xexelentas, louca pra arrumar uma encrenca, saca? Que fica fazendo polêmica falando sozinha, como se o mundo estivesse preocupado em compartilhar da sua revolta íntima por um assunto irrelevante? Já tinha arrumado encrenca com dois, aloca. Não teve outra né? (Por que parece que quando a gente tá de mau humor vira para-raio de gente chata?). Me cutuca no ombro e grita: "Não tá vendo ali não que é caixa preferencial, minha filha?" - falando o "minha filha" sacudindo ozombrinho, saca?. Você já tá por conta do cão (essa quem é Moreiras vai entender bem), mas respira fundo, se vira num pé só e diz: "Olha, eu se fosse a senhora começava a rezar agora pra essa barriga aqui ser só de gases...". Ao que a atendente de caixa grita de lá: "Ê, dona Odete, agora a senhora tomou uma, hã?".

Bem, tenho aqui muitas outras passagens nada glamourosas que minha experiência gravídica me proporcionou. Embora tenham me causado constrangimento, ou saia justa, ou algum tipo de mico, digo e repito: que bom que aconteceram.
Porque todo filme, documentário ou minisérie tem seu making of, né?
Imagine se essa superprodução aqui não teria...
Passaria por mais um monte dessas. Na maior. Literalmente...
E mesmo que um monte de gente diga: CORTA! CORTA! eu digo: NÃO CORTO!

A imagem lá de cima é de um cartunista chamado Minêu e pode ser encontrada em http://mineu.zip.net/arch2006-04-01_2006-04-30.html

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A difícil luta entre meus hemisférios cerebrais


Enquanto eu escrevia o post anterior, feliz da vida com as coisinhas quase prontas da Clara, sofria um dilema horrível e chorava um tantão...
Disse até, no final do outro post, que não conseguia falar sobre o assunto.
Antes mesmo de publicá-lo, chegou um e-mail falando exatamente desse assunto, e eu precisava acusar o recebimento dele.
Aí fui obrigada a falar sobre.
E aproveitei pra escrever aqui também, porque isso ajuda a organizar as minhas ideias. É a minha autoterapia.
Nós temos dois hemisférios cerebrais, o direito e o esquerdo, ambos ligados por uma estrutura chamada corpo caloso. Cada um dos hemisférios parece ser responsável pelo controle de um tipo de função cognitiva, digamos assim. Dessa forma, o hemisfério esquerdo controla funções mais analíticas, como o raciocínio, a organização, a lógica, um pensamento mais racional. Já o hemisfério direito controla funções mais abstratas, ligadas à imaginação, à intuição, à visão global das coisas. A imagem que eu coloquei acima ilustra mais ou menos isso. Existe também o conceito de dominância cerebral nos indivíduos, ou seja, cada pessoa teria um dos hemisférios como sendo o predominante, comandando prioritariamente seu modo de pensar. Seria mais ou menos isso: pessoas com tendências mais emocionais, poéticas, pictóricas, simbólicas, teriam como dominante seu hemisfério direito. Já os mais analíticos, metódicos, organizados, racionais, teriam o esquerdo como dominante. Hoje já se sabe que não é exatamente assim que funciona, embora a ideia geral ainda seja válida. Algumas profissões, inclusive, requerem pessoas que conseguem, justamente, integrar bem as duas capacidades cerebrais, unindo, por exemplo, método e organização à intuição e à visão global. Acredito que um bom cientista deve ter exatamente essa característica...
Enfim.
A questão é: sou um ser que procura equilibrar a função dos dois hemisférios, colocando meu corpo caloso pra trabalhar pra valer, integrando as duas funções - ou procurando fazer isso...
Acontece que de vez em quando dá pau no sistema.
Os hemisférios não se entendem, não chegam a um acordo, brigam ferrenhamente de porrada mesmo e quem sofre com isso sou eu, essa pessoa que fica logo abaixo deles. Nessas brigas, me sinto dividida e tenho grande dificuldade em tomar uma decisão e ir em frente. Consigo ver os prós e os contras de cada lado, analiso globalmente, tento ouvir minha intuição, seguir o coração. É quando meu hemisfério cerebral direito fica feliz. E o esquerdo triste. Aí vem o esquerdo me mostrar a realidade, fazer comparações metódicas, lembrar meus objetivos racionais de toda uma vida, apitar sirenes e alarmes reais. É quando ele fica feliz, e o direito triste. Em geral, eles entram em acordo e apertam as mãos. Mas tem horas que eles brigam feio e dizem que não vão mais discutir o assunto, me deixando aqui em pânico, chorando.
Eles fazem isso de vez em quando comigo.
E é um saco.
Queria ser racional o suficiente pra sair chutando as emoções. Ou emocional o suficiente pra dar uma bica na razão. Mas tenho a maldita mania de ouvir ambas as partes.
Bem, o fato é que enquanto o e-mail estava ali aberto na minha frente me vendo descabelar, eu conversava com a minha mãe e com meu namorado. Ambos me mostrando argumentos, cada um à sua maneira, sobre a decisão que parecia melhor a ser tomada.
Ele me dizia que eu estava pensando na bebê, que não estava sendo irresponsável nem abandonando minha carreira, que outras chances iriam aparecer e tals...
Ela me dizia que concurso é feito carnaval, todo ano tem, mas que cada coisa que eu vou viver com a minha filha não é no mesmo esquema de "todo ano tem". Passou, tá passado, não volta mais.
Aí ela sugeriu que eu respondesse assim o e-mail (porque ela é meio desbocada sabe, muito parecida comigo): "Digníssima comunidade científica: agradeço pelo comunicado mas informo que, nos próximos meses, estarei ocupada, vivendo o que vocês estudam teoricamente, a vida... Beijos e a gente se vê pelaí... Beijos"
É claro que eu não respondi assim né? Mas ri bastante na hora... O que já foi de uma ajuda incrível, porque pelo menos eu parei de chorar momentaneamente.
Deixei o e-mail lá aberto e fui pegar um papel higiênico pra limpar o citoplasma de todas as minhas células que pareciam querer sair pelos buracos do nariz.
Fiquei andando um pouco aqui pela casa, tentando me acalmar, sozinha.
Aí voltei e respondi o e-mail.
Dizendo:

"Gente, estou muito triste por não ir, muito mesmo. Choro cada vez que penso nisso. Mas infelizmente não vou mesmo. Estou grávida de 8 meses. Se eu for, posso estressar muito minha bebezinha. Então não vou. Estou sofrendo muito. Mas com esse sofrimento eu posso conviver. Com o dela não. Se, por acaso, vocês quiserem mais algum professor no ano que vem, por favor me chamem. Prefiro me acabar de chorar aqui do que ouvir o choro dela antes do tempo, com o pulmãozinho chiando. Um grande abraço! PS: por favor, peçam para o professor Amabis deixar o autógrafo dele pra mim que eu pego assim que puder ir pra São Paulo e digam pra ele algo que nunca disse pra ninguém porque acho super brega: EU SOU SUA FÃ! E no próximo, quero uma banca tão poderosa quanto, hein? Porque comigo é assim: ou bate com força pra me quebrar ou não bate. Inté mais vê. Ou não."

Claro que eu não respondi isso... Mas disse que não vou. O que dá na mesma...
Eu poderia discursar agora sobre como estou me sentindo uma ótima mãe tendo ouvido o hemisfério direito. Sobre como isso está me fazendo sentir responsável e amável e exemplável (criação minha essa). Mas não vou.
Porque estou me sentindo uma bosta...
Esse sentimento bostístico é influência do meu hemisfério esquerdo, que sempre tentou ser dominante na minha vida, sei disso... No momento, ele tá puto e se retirou. Se trancou no quarto e disse que não vai sair por um tempinho... que é pra eu nem tentar falar com ele. Mas eu conheço esse cara de longa data. Daqui a pouco ele melhora e sai querendo organizar tudo de novo. E mandar em mim. Sei lá, acho que ele é leonino.

Ó, não deixe de ver o videozinho abaixo, aí no outro post...

Protetores de pais e de berços

video
Eu queria ter escrito isso ainda na semana passada, mas foi uma correria aqui preparando um curso sobre a neurobiologia da memória e o envelhecimento cerebral nos idosos.
Agora que passou, dá pra falar...
Pronto!
Tá quase tudo pronto!
No final da semana passada me atraquei com as roupinhas da Clara e, no melhor estilo "mamãe-faz-tudo", passei, dobrei e organizei tooooodas elas. Passei dos dois lados as roupinhas, te mete? Quem diria... Logo eu, que só compro roupa que não amassa pra não ter que viver os emocionantes momentos de passar roupa (eca!). Porque eu tenho plena e total convicção de que esse lance de ter que passar roupa faz parte do kit "provas e expiações" com o qual nosso mundo veio equipado. Os detentos em prisões deveriam ser OBRIGADOS a passar a roupa da população, como pena alternativa.
Mas a Clara é a Clara. Não vai chegar e vestir um troço pra parecer que foi gerada dentro de uma garrafa, né? De toda dobradinha já chega ela...
Agora entro naquele quartinho e lá está o armariozinho dela, de janelinhas de vidro, onde dá pra ver tudo dobradinho e arrumadinho.
E essa semana, que estou entrando no oitavo mês, acho que só por precaução, vou arrumar uma malinha pra ela... Que coisa né? A guria nem nasceu e já tá lá a mãe arrumando a malinha pra viagem dela... Bom, se puxar pra mamãe nisso como puxou no narizinho, será a primeira de muitas arrumações de malinhas.
Confesso que não estou muito a vontade com essa situação de arrumar a malinha. Tô muito contrariada com isso. Mas é melhor prevenir do que sair correndo pra separar uma roupinha pra ela e ela acabar vestindo uma coisa toda descombinada. Tudo, menos minha pequena bocuda descombinar, vâmo combiná? Mas tô sentindo uma resistência feroz nessa coisa de arrumar malinha... Sei lá que medo é esse. Acho que é porque não quero que ela chegue antes da hora. Quero que ela aproveite na íntegra a estadia aqui no meu eu interior...
Mesmo porquê, ainda falta terminar as lembrancinhas, comprar umas coisinhas e, principalmente, comprar o protetor de berço.
Sim, falta o protetor de berço.
É que eu estou muito indignada com os preços desses troços. 300, 400, 600 reais?
Vai te catar, meu filho!
Sabe quanta coisa a gente pode fazer pra ela com essa grana? Quanta gente não tem isso por mês? Pára né! Eu tenho dó de gastar dinheiro assim... Coisa de pobre mesmo, assumo, esse apego. Você ouve a pessoa dizendo "ai que dó gastar esse dinheiro" e é como se ouvisse a sirene apitando: "POBRE! POBRE! POBRE!".
Brincadeira (do jeito que o povo tá doido hoje, é melhor eu ser clara e dizer que é brincadeira, senão já vem militante do politicamente correto querendo me processar...).
Bem, mas falta o protetor do berço. Branquinho, com bordinhas em poá vermelhinho.
Tô fazendo uns orçamentos aí.
Mas ela não pode chegar antes do protetor de berço.
Está proibida de chegar antes do protetor de berço.
Sem protetor de berço, muitos acidentes podem acontecer.
Com a Clara.
Com o Frank.
E comigo.
Não entendeu?
Então assista o vídeo lá em cima que vc vai entender...
Ainda bem que minha mãe me entende e me mandou esse vídeo aí, falando da EXTREMA importância do protetor de berço, hehehehe...
Assista! Não perca!

Tá, confesso também: tô falando do protetor de berço pra não falar de outro assunto.
Não tô conseguindo ainda falar sobre o fato de que não irei pra São Paulo na semana que vem... Mas depois falo sobre isso...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...