Pense em como estava sua vida há 1 ano atrás. Pode ser que você tenha vivido muita mudança, mas também pode ser que sua vida tenha seguido o curso de maneira tranquila, sem muitos sobressaltos. Ainda que você tenha vivido muita transformação e muitos momentos de crescimento, nada é comparável ao que vive uma criança, principalmente as bem novinhas.
Com certeza, você não dobrou ou triplicou de peso - vai por mim! Ainda que sua cartucheira esteja transbordante e sua borda de catupiry esteja bem recheada, que você esteja preferindo dar tchau com a sobrancelha que com os braços, no melhor estilo "oi, coméquivai?" mexendo só a cabecinha, ainda assim seu peso não dobrou.
Ainda que você tenha se tornado vegetariano nesse último ano, ou tenha decidido comer carne, sua vida alimentar não foi assim tão revolucionada a ponto de você conhecer um sabor diferente por dia.
Ainda que você tenha se tornado ginasta olímpico ou mestre de yoga, com certeza você não descobriu os infinitos movimentos de seu corpo e toda a potencialidade dele.
E, com toda a certeza do mundo, você não deixou de andar sobre duas pernas para andar em quatro apoios - a não ser que você tenha lido muito Kafka ou esteja passando por problemas psiquiátricos.
É também por isso, mas não somente, que eu admiro tanto os bebês e os respeito tanto.
Porque eles mudam muito em pouco tempo. Muito. Muito mesmo. Eles nascem muito pequenos e em 1 ano duplicam ou triplicam seu peso, duplicam seu tamanho, aprendem palavras, percebem seus gestos, conhecem suas habilidades, inserem-se no mundo, experimentam coisas novas, comidas novas, uma vida nova.
E aprendem a andar.
Ah! Como eu gostaria ter mantido intacta a memória do dia em que dei meu primeiro passo independente, não metaforicamente falando. Como eu gostaria de lembrar do que senti quando coloquei um pezinho à frente, sustentei-me em meu próprio corpo, e levei o outro pé adiante sem perder o equilíbrio, não metaforicamente falando. Como eu gostaria de ter em mim esse sentimento de "Caramba! Eu me movi usando só dois dos meus quatro membros!". Como eu gostaria de me lembrar do momento em que percebi que, usando apenas dois membros para me locomover, eu teria os outros dois livres para carregar coisas, alcançar coisas. Como eu gostaria de saber o que senti quando percebi que podia ir e vir e planejar e alcançar.
Como bióloga, valorizo muito o ato de caminhar sobre duas pernas. Como cidadã, valorizo muito que se possa continuar a caminhada, tendo condições ideais para isso, ainda que as duas pernas tenham sido substituídas por duas rodas. Sei como foi importante para nossa espécie esse ato. Foi quando nos colocamos sobre duas pernas, e não mais quatro, que nossos olhos, antes quase laterais, passaram a se deslocar um em direção ao outro, assumindo uma posição mais frontal. Não tente fazer isso em casa, estou falando de milhões de anos de sabedoria biológica evolutiva. Foi quando nos colocamos sobre duas pernas e levantamos o tronco que vimos quanta coisa existe acima de nossas cabeças, acima de nossa própria existência como ser. Foi quando percebemos que podíamos alcançar o que antes era inalcançável. E levar coisas, e buscar coisas, e transportar nossas coisas para outros lugares. Foi quando conseguimos carregar nossas crianças no colo. E foi, também, quando nossa bacia foi se estreitando, diminuindo o canal de parto e se tornando um pouco mais difícil, quando comparado aos demais mamíferos ainda quadrúpedes, o momento do parto. Eis aí uma das origens da hipervalorizada dor do parto, desculpe-me quebrar sua ilusão mostrando que Eva não tem nada a ver com isso (já falei sobre isso, inclusive, aqui, vale a pena ler)... Andar de forma bípede nos ajudou a melhorar nossa habilidade motora, nos trouxe possibilidades de novos horizontes, talvez como antes ainda não tivesse acontecido, de maneira ainda mais importante que quando nosso polegar se tornou opositor e nos permitiu pegar as coisas, pinçá-las, fazer delas instrumentos.
Mas foi também quando nos colocamos sobre duas pernas e levantamos nosso tronco que, ao contrário de valorizar quanta coisa existe acima de nossas cabeças, passamos a olhar para baixo e subestimar a capacidade dos que, para nossa nova consciência como ser e em função de um fraco julgamento, não eram tão bons como nós por não caminharem como nós. Pode ter sido aí, também, com o auxílio de nosso neocórtex recentemente desenvolvido, que nos tornamos seres arrogantes, destrutivos para os outros, destrutivos para nós mesmos.
Por esse motivo é tão importante que nos lembremos, sempre, de mais olhar para cima e lembrar de nossa pequenez, e menos olhar para baixo como supervalorizando nosso relativo alcance. Ao olhar para baixo, agora sim metaforicamente falando, que possamos lembrar de quanto ainda existe acima de nós e nos colocar ali embaixo também, solidários, participantes, cooperativos.
Quando o sociólogo e filósofo Edgar Morin, autor do incrível "Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro" - que tive a grata oportunidade de ler quando trabalhava com formação continuada de professores em metodologia de ensino de ciências da natureza - afirma que o hominídeo se diferencia do chimpanzé não pelo peso do seu cérebro nem por suas aptidões intelectuais mas, sim, pela locomoção bípede e a posição vertical, eu posso compreender o que ele quer dizer. Não. Ele não está falando do componente motor da locomoção bípede. Ele está olhando para o futuro e analisando tudo o que nos foi permitido alcançar em função do andar bípede. E concordo com ele... Com certeza, nosso cérebro precisou de milhões de anos para chegar ao ponto de favorecer o andar bípede. Mas com mais certeza ainda, foi o andar bípede que estimulou a formação de novas redes neuronais, novas conexões e ligações entre áreas cerebrais que ainda não estavam tão ligadas assim... E embora, evolutivamente falando, isso tenha levado centenas de milhares de anos em nossa espécie biológica, existe um momento em que podemos ver isso acontecendo praticamente a olho nu: em nossas crianças, em nossos filhos em crescimento.
Um bebê que começa a caminhar de maneira independente está passando por muitas mudanças, mas passará ainda mais a partir de então. Seu cérebro se rearranja, bem como se rearranja a sua percepção do mundo, sua percepção de limites e de capacidade, e por isso é tão importante uma orientação familiar consciente nessa etapa. É uma revolução. Penso que esse é um "compacto evolutivo", que todos vivemos em cerca de dias, meses e anos. Por isso uma criança que começa a andar merece ser tão amparada, tão orientada, tão protegida e receber o máximo de atenção possível. Não é um momento fácil para ela...
Eu me preparei para esse momento com minha filha, lendo, me informando, estando conectada a ela. Eu sabia que ela exigiria mais de mim a partir dessa fase. Sabia que as noites que suscederiam seus primeiros passos independentes seriam acompanhadas de muitos acordares, de um sono possivelmente agitado, de alguns momentos possivelmente conflituosos para ela porque, afinal, são dezenas de novas percepções e centenas de novos rearranjos cerebrais. Mas isso era teórico pra mim porque, afinal, minha filha era, ainda, uma pessoa engatinhante.
Até hoje...
No dia das crianças, após um churrasco para o qual fomos convidados por minha comadre, madrinha da Clara, reunimos um grupo de mães e pais aqui na pracinha da Lagoa no que chamamos de Slingada, para celebrarmos juntos o dia das crianças, divulgar o uso do sling como forma afetuosa de carregar os filhos e marcar de maneira singela a Semana Internacional de Babywearing e Incentivo ao Uso de Slings. Caminhamos em cerca de 20 a 30 pessoas pela Lagoa. Coisa linda ver aquele bando de gente carregando seus filhos bem juntinho, coisa linda ver um monte de criança feliz, no dia das crianças. Paramos num café onde aproveitamos para bater um papo, trocar experiências, compartilhar um fim de tarde bem bacana.
E foi quando a Clara, essa pessoa que adora eventos, festividades e atenção - salve a raça leonina! -, com o testemunho de um monte de amigos, começou a andar... Quando a vi trocando passinhos sem apoio, independente, paralisei.
E a única reação que tive, além dos olhos cheios d'água, foi olhar pro pai dela, levantar os braços e dizer, junto com ele, "Nosso bebê cresceu...". E-m-o-c-i-o-n-a-n-t-e. Os amigos comemoraram junto com a gente. Algo inesquecível. E eu ganhei um abraço de uma companheira de maternar, que viveu há pouco a mesma experiência, e que me disse: "Bem vinda ao grupo das mães que agora correm com seus filhos".
Clara começou a engatinhar no meio da conferência sobre Mulheres e Gêneros nos Espaços Públicos e Privados Brasileiros, 1 dia depois de iniciar minha nova jornada.
E começou a andar no dia das crianças de 2011.
No momento em que escrevo, percebo claramente, mais uma vez, os benefícios de ir ativamente em busca de boas informações. Como disse, eu me preparei para essa nova conquista dela. Eu estava consciente de que ela poderia passar por uma certa agitação natural, decorrente dessa nova mudança. Então hoje, pra mim, não há espanto pelo fato dela ter acordado, até agora, 6 vezes desde que foi dormir, em apenas 2 horas. Nem pelo fato de ter acordado chorando assustada em 2 dessas vezes, nem por parecer um pouco aflita. Sei que a vidinha dela está mudando radicalmente, seu cérebro está em plena transformação, ela está processando física e emocionalmente um tantão de novidades.
Então eu e o pai dela temos ido lá atendê-a com muito amor, respeito e admiração pelo seu crescimento. Acho que ela sentiu nossa tranquilidade e acabou se tranquilizando também.
Filha querida, bem vinda ao mundo dos seres bípedes. Você vai cair algumas vezes, não vou te iludir. Mas estarei em todas pra te proteger, ainda que esteja longe. Não se esqueça nunca de que, embora agora você pareça muito alta para quem esteve sobre quatro apoios, ainda falta um infinito a alcançar.
E tenha calma pra voar.
Aquele que quer aprender a voar um dia, precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar; ninguém consegue voar só aprendendo vôo (Nietzsche).
Ouça sua mãe: eu tentei muito e não deu certo. Tive que voltar pra aprender a caminhar todas as vezes em que me atirei loucamente, às vezes com uma asinha quebrada, às vezes não sentindo nem a perninha, nem o biquinho, nem nada... Mas nunca deixei de tentar.
E se tiver pedra no caminho, filha, ou gente se fingindo de pedra, lembre-se sempre de que você é um passarinho!
E que eles passarão!
Feliz seu dia, minha caminhante!
4 comentários:
Ô post lindo!!!! Parabéns Ligia pela filha incrível que vcs tem. Desde a primeira vez que conheci ela (na lagoa, buscando a cesta, lembra?) me encantou o jeito doce e suave com que me olhou. E acredito que não foi coincidência que os primeiros passos foram justamente na minha frente... O Theo chegou e a primeira pessoa que pensei em ligar (e liguei) foi pra vcs. Certeza que temos muito que aprender com ela ainda....
ô Ligia, feliz por vocês! Era tanta gente e tanta gente nova lá ontem que só no final foi que o Frank nos falou que ela tinha aprilhiendido aquele dia a andar. Sim, porque é incrível ver como nossos filhotes fazem as coisas pela primeira vez como já tivessem feito aquilo a vida inteira. É como a sensação que muitas mães têm, entre as quais eu me incluo, de que nossos filhos chegam e é como se eles estivessem conosco há mil anos!!!! Parabéns e alegrias pra Clara!
Ligia, como vc escreve lindo, mulher!!!! Fiquei emocionada!
Parabéns pela filha caminhante. E prepare as pernas, vc tornar-se-á uma mamãe sombra, rsrsrs.
Ai, gente, muito obrigada... Foi um dia tão especial, só de me lembrar da carinha dela caminhando sozinha pela primeira vez me dá até um nó. Muito obrigada pelo apoio. Quantos momentos incríveis a gente passa como mãe, né? Estou muito feliz!
Grande beijo a todas!
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