segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Crianças e educação: a escola e as escolhas

Clara e Helena, brincando-aprendendo juntas. Helena nasceu 2 semanas antes da Clara e é filha da Cecília, uma das autoras de um site que está me fazendo pensar muito.


Ter filhos é um convite irrecusável que a vida nos faz para aprender coisas que nunca aprenderíamos de outra maneira e a rever os próprios conceitos e posturas. Da mesma maneira que eu não sabia nada sobre gestação, partos, tipos de partos e alternativas à tradicional hospitalização e me voltei totalmente a aprender ativamente sobre isso, lendo, pesquisando, conversando com quem sabia, ouvindo outros lados e outras vozes, quebrando meus próprios preconceitos e me despindo de paradigmas obsoletos, também estou fazendo isso a respeito de educação. Clara tem 1 ano e 2 meses e desde que eu me vi mãe, com ela se desenvolvendo dentro de mim, penso em que tipo de educação eu quero lhe proporcionar, para que ela tenha condições de desenvolver todas as sua potencialidades de maneira integral. Eu já sabia que ela não iria cedo para nenhuma creche ou escolinha, porque sempre quis que eu e o pai dela estivéssemos presentes em sua formação inicial. E porque, pra falar bem a verdade, não estou preparada emocionalmente para isso. As pessoas são diferentes, suportam melhor ou pior determinadas coisas, e eu simplesmente não consigo pensar na ideia de ver minha filha numa creche ou escolinha tão pequena, ainda bebê, sem nem saber a andar e falar ainda. Pra quem pensa que nós temos recursos financeiros que nos permitem essa abnegação, pensou errado, não temos. Eu abri mão de muita coisa pra estar com ela mais tempo e estar mais presente. E continuo abrindo. Não é um caminho nada fácil, nem muito tranquilo. Mas estou certa dele.
Durante a semana que passou, fui convidada por um colega da nova turma de doutorado em Saúde Coletiva a participar de uma iniciativa incrível, que não havia visto ainda em nenhuma turma acadêmica da qual participei, e que diz muito sobre o perfil das pessoas com quem estou estudando: um dia de convívio. Um dia de atividades e interações fora da sala de aula, para nos conhecermos além do "aluno". Fui com minha pequena família e foi uma das experiências mais bacanas que tive nos últimos tempos: eu, Frank e Clara com meus novos colegas da minha nova área de atuação. Eu sempre estive envolvida (até a raiz dos cabelos) com atividades sociais dos grupos dos quais participei, isso não é novidade. A novidade foi participar de uma junto com filha e marido. Foi sensacional e estou grata não sou pelo convite, como pela tarde deliciosa que passamos. Um dia lindo de sol, almoço e um pequeno sarau. Chegamos meio tímidos - eu com Clara no sling, ela única criança, Frank único marido - e fomos recebidos com todo amor e solidariedade, com um surpreendente passe (passe mesmo, energético) de início que nos deixou muito contentes. Fizemos um pequeno sarau onde cada um levou algo que considerava importante, dentro do tema "Promoção de Saúde" pra compartilhar.
Aí chego no ponto que queria. Uma das colegas levou um livrinho supostamente infantil chamado Lolo Barnabé. Muitas pessoas devem conhecê-lo, mas eu nunca tinha ouvido falar. Sensacional. Uma história envolvente, em que o autor fala de maneira muito simples de um assunto extremamente complexo: como foi que chegamos no ponto onde chegamos. E o que precisamos fazer para voltar e recomeçar. Imperdível. Andei discutindo com outras mães a questão da (má) qualidade da grande maioria das histórias infantis e esse livro é um alento para quem busca literatura de boa qualidade para as crianças, juntamente com autores como Rubem Alves, Clarice Lispector, entre outros, que também já escreveram para os pequenos. Cheguei em casa e fui procurar na internet. Felizmente encontrei um blog que é simplesmente a reprodução do livro inteiro, com as ilustrações originais. Tá aqui: Lolo Barnabé, é só clicar. Vale a leitura do início ao fim.
E aí juntei o início dos meus questionamentos sobre tipos de educação com o que li no livro e as perguntas começaram a surgir... Quando, como e por que foi que começamos a escolarizar nossos filhos? Quando foi que eles passaram a ir a outras instituições para serem supostamente "educados"? Quando foi que a casa, o lar, deixou de ser o local do aprendizado, do conhecimento, da educação? O que estava acontecendo historicamente na época em que isso começou a ser feito? Por que as crianças começaram a serem levadas às escolas?
E, obviamente, cheguei por meu próprio caminho questionador a uma pergunta que algumas amigas já fazem a um certo tempo e que estão se dedicando a estudar melhor: é realmente necessário inserir nossos filhos no esquema "tradicional" de educação? Aquela educação passiva, disciplinadora, herdeira da estrutura militar, em que as crianças são mais tolhidas do que estimuladas a terem suas habilidades plenamente desenvolvidas? Não sei... É isso que quero saber agora. Assim como fui atrás de alternativas e possibilidades de melhores formas de trazer minha filha ao mundo, pretendo também conhecer um pouco melhor as possibilidades de educação. Não rejeito a escola "tradicional" (por falta de palavra melhor) de maneira nenhuma, mesmo porque isso seria negar meu próprio caminho. Mas quero saber: o que mais existe? Quais as melhores formas, mais humanistas, mais naturais, de educar?
Quando optamos por trazer gente ao mundo de maneira diferente, mais humana, conectada, intuitva, consciente, implicitamente optamos por fazer todas as demais escolhas com a mesma parcimônia e consciência.  Eu sempre soube que, se um dia tivesse filhos, faria de tudo para que eles não estudassem em escolas como essas que vemos a cada 50 metros, com seus sinais de recreio, seus uniformes, suas carteiras militarmente enfileiradas e suas formas de avaliação estanques, antiquadas, estagnadas como água parada. Sou professora e nunca dei aula dessa maneira "parada no tempo". Ainda que as escolas ou universidades nas quais dei aula assim pedissem, sempre fui da turma subversiva e ajo de maneira que meus alunos me vejam como parceira e não como detentora de um falso saber do alto de um falso pedestal.
Hoje, quero ir um pouco além. Quero saber: quais são as escolas que existem? Quais são as escolhas que existem? A escola precisa ser, obrigatoriamente, uma instituição externa? Quero realmente saber isso. Tenho sido indiretamente estimulada a pensar sobre isso. Senti uma resistência feroz no início, tanto que nunca me pronunciei. Mas justamente por nunca ter conseguido me pronunciar, percebi que eu mesma tenho essa dúvida.
Agora pense como, pra mim, será um aprendizado complexo: eu passei toda a minha vida dentro de instituições de ensino. Maternal, Jardim I, Jardim II, Pré-Primário. 1a., 2a., 3a., 4a., 5a., 6a., 7a. e 8a. séries do ensino fundamental. Mais 1o. 2o. e 3o. anos do ensino médio. Mais um ano de cursinho pré-vestibular concomitante ao 3o. ano. Mais 4 anos de graduação. Mais 2 anos de mestrado. Mais 4 anos de doutorado. E agora sigo por mais 4 - se tudo der certo. Uma vida absolutamente escolarizada, institucionalizada, primeiro por imposição e depois por livre escolha. Foi, para mim, um caminho bonito. Não tenho lembranças muito ruins do meu processo de escolarização, exceto por uma professora de matemática chamada Sandra que me hostilizava, dizia claramente que preferia outros alunos a mim e chegou a dizer que eu não daria em nada. Uma pessoa patética que um dia me encontrou já adulta caminhando pelo antigo bairro em que morava, me reconheceu, me parou, perguntou o que eu estava fazendo da vida. Ao dizer que tinha concluído um mestrado na USP e estava indo pra um doutorado, disse: "Ligia, eu sempre acreditei em você!", dissimulada, falsa duma figa. Sofri com a discriminação gratuita dela e isso me feriu bastante. Um exemplo de bullying vindo de um professor, veja só... Não, não tive traumas escolares nem nada disso, pelo contrário. Supõe-se que uma pessoa que escolhe estudar cada vez mais, goste da ideia. Mas, justamente por ter passado uma vida inteira dentro dela, posso dizer com toda propriedade: a escola não é, nem de longe, o melhor lugar para se passar uma vida. Foi justamente por esse motivo que, durante todas as fases escolares, eu me empenhei muito em manter uma "vida" fora dela, como uma tentativa de emergir dessas águas densas.
Agora sou mãe. E quero saber quais opções minha filha tem. Principalmente porque, sabendo exatamente como funciona a escola, tenho plena certeza de que seu currículo é falho, furado, decadente, limitante e incompleto.
Clara merece mais. As crianças merecem mais.
Ela não precisa de escola para se socializar. Ela tem muitos amigos e convive com muitas crianças sem nunca ter frequentado uma. Ela não precisa da escola para desenvolver seu potencial criativo, principalmente porque a escola mais limita a livre criação do que a estimula. Ela não precisa da escola para aprender limites, ela tem um pai e uma mãe atentos e presentes. Ela não precisa da escola para aprender a respeitar as diferenças e a conviver com as pessoas: isso se aprende vivendo. Ela não precisa da escola para gastar sua energia, se eu puder lhe proporcionar atividades estimulantes que ela goste de fazer.
Então eu realmente quero saber: onde entra a escola? Como entra? Quando?
Fica o convite à reflexão e debate.
Tenho pensado nisso com frequência maior. Mas depois desse fim de semana de vivências e, especialmente depois do dia de hoje, vendo minha filha se divertir, cantar, dançar, brincar, pintar e interagir com outras crianças, não podia passar em branco.


Deixo aqui um trecho do Rubem Alves, com uma pergunta: onde realmente está essa escola de que ele trata?
Disse, numa outra crônica, que quero escola retrógrada. Retrógrado quer dizer ‘que vai para trás’. Quero uma escola que vá mais para trás dos ‘programas’ científica e abstratamente elaborados e impostos. Uma escola que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas o corpo da criança que vive, admira, se encanta, se espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos inícios.
 
 Clara, minha filha, aprendendo naturalmente a brincar com as tintas, pincéis e cores.

Todas as fotos dessa postagem foram tiradas em um show-vivência musical do grupo Tac Tic Tum, que acabou de ser selecionado para participar do Festival Latinoamericano de Música Infantil em Ribeirão Preto, SP. Algumas foram tiradas muito gentilmente por Diovana Menegaz, mãe de um dos bebês que aparecem nessas fotos.


4 comentários:

Mariana disse...

Pois é Ligia, that is the question. Eu acho que a escola no Brasil é realmente um espaço que merece ser repaginado, repensado, reestruturado. Fico aflita pensando onde é que a Sofia estudaria se tivessemos que voltar pra Floripa agora ou amanhã. Mas jamais pensaria em educa-la em casa! Acho que a principal vantagem da escola é a abertura para o mundo, para o que ele tem de ruim e de bom. Um horizonte para além do horizonte dos pais, que a gente ja compartilha em casa. Qdo eu dava aula para pequeninos de 2 a 6 anos eu observava o quanto as crianças tinham comportamentos diferentes na presença ou na ausência dos pais. A autonomia é um exercicio, é uma descoberta que vale a pena ser feita e so pode realmente acontecer se a criança tiver esse espaço e esse tempo que é dela, sem pai e mãe por perto. A Sofia vai para a garderie aqui desde seu primeiro aniversario. E ela adora e eu também. O tempo que ela passa la completa o que ela passa com a gente. Ela aprende coisas que nos não podemos ou não pensariamos em ensinar. Ela se desenvolve para além das nossas expectativas e traz coisas de la que so pertencem a ela. Acho importante não, essencial isso. Mas aqui as creches/garderies/maternelles publicas são, claro, outros 500. Tudo é pensando para que a criança ganhe autonomia dentro de um ambiente de liberdade, de acordo com a sua idade e a sua personalidade; nada de uniforme, nada de atividades fixas em horarios fixos, nada de elistismos. Um espaço cheio de diversidade cultural e etnica, com crianças de pelo menos 6 nacionalidades diferentes. E ela sai toda feliz contando o que fez, mostrando o desenho, abraçando o coleguinha cuja mãe não é minha amiga. Sabe? é o mundo que se abre pra ela e que ela descobre à revelia da minha presença. Em suma, acho que a escola muito embora deve ser bem pensada e repensada, ela tem sim o seu lugar!
ps: mas eu sou suspeita, estudo, trabalhei e pretendo trabalhar com educação, então...

Camila disse...

Lígia, eu ando pensando muito nisso! Principalmente porque a Olívia vai para a escola ano que vem.
Andei procurando várias escolas com propostas aleternativas aqui em curitiba. Pergunta se eu encontrei!!!
Eu sou contra o ensino dentro de casa e fora da escola, por inúmeros motivos, mas acredito piamente em um ensino mais humanizado, voltado à aprendizagem com liberdade individual, fora dos padrões e elitismos tão comuns nas escolas brasileiras, e voltada à autonomia de cada criança e sua expressão individual!
Se alguém te der uma dica boa de escola diferenciada em curitiba me passa tá? Ainda estou na procura!

Paula disse...

Ligia,eu não sou mãe,to bem longe disso[ainda tenho 21],mas de uma forma curiosa acabei conhecendo a blogosfera materna e vez ou outra leio os meus preferidos..vc tá entre eles.
Me interesso muito,muito por educação. Coincidentemente,ontem mesmo tava pesquisando sobre a escola descrita por Rubem Alves. Sim,ela existe. É a Escola da Ponte. Fica em Portugal. Vale muito pesquisar sobre...é chocante até pra alguém que,como eu,estudou praticamente a vida toda em escolas construtivistas! Reza a lenda que existe um projeto já em andamento pra abrir uma escola estadual nesses moldes aqui em São Paulo,mas não sei não..seria um sonho, mas não sei se o projeto vai vingar de fato.
Outra alternativa mais ''possível'' [pela questão da distancia] é a pedagogia waldorf...é dferente da proposta da Escola da Ponte,mas é uma alternativa que pode te interessar...
Bom,espero ter ajudado um pouco!
Paula

Ligia Moreiras Sena disse...

Mariana e Camila, obrigada pelos comentários muito pertinentes. Ainda não consegui aprender o suficiente sobre unschoolling pra saber se o quero para minha filha ou não. Mas o que eu realmente não quero é essa escola tradicional tolhedora e limitante. Camila, se eu souber de alguma aí em Curitiba pode deixar que te avisarei na mesma hora!
Paula, muitíssimo obrigada por sua contribuição. Sim, as escolas Waldorf são meus objetivos nesse momento. De tudo o que conheço, são as que mais se aproximam do meu ideal de educação, embora ainda queira esclarecer alguns pontos. Ainda bem que tenho um certo tempo para isso... Sobre a Escola da Ponte: e não é que eu encontrei mesmo um texto do Rubem Alves mencionando algo assim?! Estou encantada e quero saber mais. Se você souber de mais informações, por favor, me avise. Mesmo porquê, estou com algumas ideias que podem me levar, quem sabe num futuro próximo, para lá. Já pensou?
Que bom ter um blog por isso: gente contribuindo, gente trocando ideias!
Grande beijo

Ligia

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