Mães podem fazer seus planos de parto. Mães podem escolher a forma de dar à luz - não só podem como devem. Escolhendo a forma como quer dar à luz, ela se torna dona de suas experiências mais íntimas, não se colocando nas mãos de terceiros apenas como consequência do automatismo.
Mas os bebês não podem escolher como querem chegar.
Se pudessem, o que escolheriam? Se pudessem, o que gostariam de encontrar? Se pudessem, como seria?
No movimento em prol do respeito ao parto e nascimento, muito se fala no respeito à mulher, suas crenças, seus direitos, sua história. Muito se fala sobre os procedimentos invasivos e sobre as intervenções desnecessárias aos quais as mulheres são submetidas nas instituições de saúde no momento do seu parto (indução por ocitocina sem real indicação, inúmeros, dolorosos e dispensáveis toques, episiotomia de rotina, entre tantos outros procedimentos que, em muitos casos, chegam a configurar uma forma de desrespeito). Uma mulher de posse de informações concretas, plenamente consciente do tratamento que merece e deve receber, tem total condição de se opor à realização de procedimentos desnecessários. O bebê que está chegando ao mundo, ao contrário de sua mãe, não tem voz ativa. Ele precisa que seus pais estejam conscientes da importância de um momento respeitoso de nascimento, e que possam falar por ele.
Sou bióloga e passei muitos anos estudando o comportamento animal, uma área pela qual me interesso muito. Acredito que observando os animais, aprendemos muito sobre nossa própria condição como animal humano. Vi muitos filhotes nascerem. Em todos esses nascimentos, nada me emociona mais que a velha e boa primeira lambida da mãe na cria. É, para mim, o melhor "bem vindo ao mundo" que se pode receber. Em muitas espécies de animais, não se pode mexer nas crias logo após o nascimento, com o risco da fêmea identificar odor estranho e rejeitar aquele filhote. Claro que no caso humano não é assim; ainda que se mexa no recém-nascido, a fêmea não o rejeitará. Isso não significa que a manipulação desnecessária não interfira nos sentimentos e percepções da mãe e da criança. Uma criança que chega ao mundo deveria ser recebida exclusivamente por sua mãe, por seu pai, por aqueles que estão diretamente envolvidos em sua existência e que a amam acima de qualquer outra coisa. Mas infelizmente não é assim que acontece. E não existem evidências que sustentem e justifiquem o grande e abusivo número de intervenções. São muitas as intervenções que são feitas nos recém-nascidos como rotina nos partos convencionais (chamo aqui de convencional o parto como ele é feito na maioria dos hospitais):
"Clampeamento precoce do cordão umbilical, separação do recém-nascido de sua mãe, secagem do bebê, aspiração de vias aéreas, exame físico – avaliação de reflexos, peso, medida – aplicação intramuscular de vitamina K e uso de colírio", diz Iara Silveira, enfemeira obstétrica e amiga pessoal, que esteve presente no processo de nascimento da minha filha e a quem consultei para elaborar esse texto.
É claro que todos esses procedimentos levam um certo tempo. Tempo muito precioso. E que deixou de ser do bebê e de sua mãe. O bebê ainda não chegou ao colo da mãe, ele ainda não a conheceu, ele ainda não a viu, sequer sentiu seu cheiro. Ele saiu e outra pessoa o pegou. Iara diz, ainda, uma coisa muito pertinente:
"O bebê que nasce e é submetido a tantas intervenções, nasceu e momentaneamente deixou de ser da mãe ou do pai para ser do pediatra"
Concordo. Um pediatra é uma figura que realmente pode ser muito importante nesse momento. Pode. Não obrigatoriamente é. Mas ele não é nem de longe algum tipo de protagonista a ponto de receber o bebê antes mesmo da mãe.
Quem opta por um parto respeitoso, opta, entre outros motivos, também por respeito à chegada da criança. Por saber que o primeiro momento dele no mundo será entre pessoas que estiveram diretamente envolvidas em seu nascimento e que planejaram esse momento de maneira muito individualizada. Em respeito à mãe, em respeito ao pai e em respeito a ele. Quem escolhe um parto respeitoso inclusive por respeito à chegada do filho, pode fazê-lo em casa ou em um hospital (parto hospitalar respeitoso, ou "hospitalar humanizado", como também é usado).
Para quem não sabe como é recebido um bebê que nasce em um parto domiciliar:
Para quem não sabe como é recebido um bebê que nasce em um parto domiciliar:
“Em casa, o recém-nascido saudável é entregue para a mãe; mantém-se o cordão umbilical intacto até que o mesmo pare de pulsar ou, em alguns modelos de assistência, até a dequitação completa da palcenta. O cordão é seccionado pelo acompanhante ou pessoa significativa, o recém-nascido é estimulado a mamar na primeira hora de vida, a vitamina K é feita enquanto ele está mamando. Aplicação de colírio não é realizada. O exame físico completo (incluindo peso, medida, reflexos e avaliação do capurro) é feita depois de pelo menos meia hora ou mais”, explica Iara.
Nessa meia hora ou mais, o bebezinho chegou, foi pego por sua mãe, recebido por quem realmente se importa com ele, amparado, cheirado, aninhado. Ele olhou pra sua mãe, a conheceu, a mãe olhou para ele, o conheceu, ele olhou para o pai, o pai olhou para ele, ficaram ali todos se enamorando, em um processo de amor, carícia e completa entrega, apresentando-se uns aos outros. Sem pressa. Sem intervenções. Respeitosamente.
Em um parto normal hospitalar respeitoso:
“espera-se pelo menos 30 segundos para proceder o clampeamento do cordão umbilical. O recém-nascido é oferecido para a mãe par que comece o fortalecimento do vínculo afetivo, é estimulado a mamar, realiza-se o exame físico depois disso”
Uma cesariana realizada por indicação também pode ser respeitosa com o bebê que nasce:
“O recém-nascido, depois de secado e avaliado pelo neonatologista (às vezes é necessário realizar aspirações nasais), é colocado no tórax da mãe em contato pele-a-pele enquanto ainda se concluem o fechamento das camadas cirúrgicas”.
Infelizmente, esses não são procedimentos de rotina. A rotina parece ser o intervencionismo exacerbado. E repito: não existem evidências que sustentem a continuidade dessas práticas nos recém-nascidos de baixo risco. Quem discordar, pode fazer mais que apenas discordar: pode procurar evidências contrárias.
São 10 os princípios incluídos na Declaração dos Direitos da Criança. Mas acredito que tudo deve começar com um que não está lá: o respeito ao direito de bem nascer, de ser bem acolhido, que todo bebê tem de chegar ao mundo. Não precisa parir em casa pra isso... Mas precisa de envolvimento ativo na busca por melhores informações, para que se possa optar conscientemente. O parto é da mulher. Mas quem chega ao mundo é o bebê.
Deixemos, pois, que nossas escolhas reflitam as possíveis escolhas de nossos filhos sobre a forma de nascer.
Que saibamos recebê-los com respeito.
Que possamos nos questionar: o que é nascer respeitosamente, do ponto de vista de quem está dentro de sua mãe e não conhece nada além dela?
"Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando..."Milton Nascimento
Esta é uma postagem vinculada à Rede Parto do Princípio.
As mulheres da rede Parto do Princípio estão mobilizadas pela Semana do Respeito à Criança, uma semana de divulgação sobre aspectos relevantes da maternidade e paternidade ativa. Nós queremos ressaltar como o melhor presente que se pode dar à criança é o carinho, desde seu nascimento. Você pode ver os diferentes temas sobre os quais trataremos ao longo da semana acessando o blog da Parto do Princípio. São muitas mulheres envolvidas, em cada dia dessa semana, produzindo material de qualidade em prol do respeito à chegada de uma nova criança.
Agradeço, pela consultoria, à minha amiga e enfermeira obstétrica Iara Silveira, enfermeira da Equipe Hanami de Parto Domiciliar Planejado, que esteve presente no processo de recebimento da minha filha de maneira respeitosa.

1 comentários:
Oi, Ligia,
Concordo contigo quando dizes que o nascimento tem sido muito mais um ato de violência que uma recepção calorosa aos bebês que tanto desejamos. Precisamos colocá-los como prioridade e também deixar claro aos médicos que desejamos que nossa vontade seja respeitada.
Minha filha ao nascer estava em sofrimento depois de muitas horas de um parto normal que frustrou, pois ela virou a cabeça e corria risco de quebrar ombro, pescoço... enfim... veio a cesária e ela parecia bem, mas sumiram com ela sem explicação logo após aquele monte de fotografias e falatório na sala de parto (a equipe médica era grande).
Só pude amamentá'-la às 2hs da manhã ou mais tarde, sendo que a Larissa nasceu às 18h08min.
Uma violência contra nós duas, que justificaram apenas com ä criança deve ser amamentada após fazer o primeiro cocô" e eu me pergunto se a inexperiência do casal não foi mais que um determinante.
Obrigada por estimular que as pessoas reflitam sobre um tema que é fudnamental! Como recebemos uma visita desejada? Não é com todo amor e carinho? Quanto mais um bebê feito com amor!!!
Beijo,
Ingrid
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