Na segunda-feira, foi a vez de arrumar os detalhes do quarto dela. Na verdade, chamamos de "quarto dela" apenas porque é lá que fica seu armário, o trocador e onde também ficava seu berço (veja bem o tempo verbal: ficava)... Na verdade, agora o quarto é mais um escritório que um quarto, já que ela dorme junto conosco em nosso "quarto familiar". No dito "quarto dela", agora, temos uma estrutura de escritório muito bacana, onde Frank tem trabalhado reservado, concentrado, a maior parte do tempo. Lá ele montou uma estrutura e é de onde tem produzido as últimas charges e seus frilas.
Então, segunda à noite, aproveitei que todos foram dormir e fui organizar o quarto da Clara-escritório do Frank.
Quis fazer tudo da melhor forma, de um modo que as coisinhas da Clara ainda tivessem seu espaço, mas que desse um ar de escritório para que ele pudesse trabalhar confortavelmente.
E aí entra uma historinha muito bonitinha, que começa com "Era uma vez...".
Era uma vez uma moça grávida que, durante sua gravidez, sonhava todos os dias com o bercinho onde sua filha querida dormiria quando chegasse, e não sossegava enquanto não pudesse comprar um. Naquele tempo, ela achava que a possibilidade mais concreta para um bebê dormir era um berço, oras. Afinal de contas, os berços são símbolos de bebês chegando, de conforto, de quartinho de bebê aconchegante, de uma família que vai receber um bebê. Em seu sétimo mês de gestação, ela e o companheiro, finalmente, saíram para comprar o tão sonhado berço. Visitaram muitas lojas, viram muitos berços, gostaram de alguns, não gostaram de muitos. Certo dia, essa moça grávida se distraía com muitos acessórios nessas lojas de bebês que têm de tudo para que uma mãe se sinta a mãe mais despreparada e desinformada do universo, essas lojas que dão a entender que uma mãe só se torna mãe comprando metade do cosmos e se equipando com coisas que ela não faz a menor ideia de para quê servem e que, com toda certeza, ela não vai usar nunca, quando a vendedora a abordou:Bom, essa moça da historinha é, na verdade, esta que vos escreve e esse foi um dos muitos dias inesquecíveis dessa jornada como pais da Clara. Não compramos aquele berço, compramos um outro que achamos mais bonito. Mas que também virava caminha... Compramos, ele chegou dali a 30 dias e foi uma grande conquista para nós. Comemoramos e tudo mais. Nos emocionamos em sua primeira arrumação. Choramos ao colocar o travesseirinho e uma bonequinha, que esperaria a Clarinha chegar. Aí a Clara chegou. E nunca usou o berço... Começou dormindo sempre ao nosso lado. E nunca mais nos deixou - ou nós nunca mais a deixamos, pode ser também -, deixando o berço pra turma toda de bonecas e outras baguncinhas. Porque dormir com ela é bom demais, é saudável, é tranquilo e é acolhedor... Algumas vezes, ela abre os olhinhos, diz "mamãe?", me abraça e volta a dormir. E essas noites também entram pro rol das coisas inesquecíveis que vivo como mãe.
- Moça, acho que seu marido não está bem...
- O que foi?!
- Ele está chorando.
A moça grávida foi lá ver o homem. O que será que tinha acontecido?! Chegou perto e lá estava ele. Parado na frente de uma mini-cama, todo emocionado, chorando. A moça grávida perguntou o que havia acontecido. E ele disse:
- É essa caminha...
- Mas o que tem essa caminha, amor?
- É que o berço vira essa caminha.
- E o que tem isso?!
- Já pensou?! Eu, sentado ao lado dessa caminha, lendo uma historinha que a Clara pediu para ler antes de dormir?!
E chorou...
Aí já viu: mulher grávida chora até com comercial de pasta-de-dente. E a moça da historinha chorou junto, a vendedora chorou junto, todo mundo chorou junto. Um momento Aquarius.
E foi nessa arrumação do quarto-escritório que eu me lembrei daquele dia em que o Frank chorou olhando a caminha. Lembrei-me daquele dia e me emocionei de novo, sozinha. E aí decidi. Passei a mão na caixa de ferramentas, peguei a chave Phillips, me empoderei, e lá fui eu pro quarto, armada. Frank fazendo charge, olhou pra mim com cara de dúvida. "Vou desmontar o berço. Vai virar uma caminha", disse eu, como uma montadora de móveis de criança com 25 anos de experiência no mercado.
Depois de algum tempo, de cheiro de neurônio queimado, de grades removidas e estrado rebaixado e - MUITO IMPORTANTE - sem nenhum parafuso sobrar, eis que o berço da Clara havia dado lugar a uma linda caminha...
Uma caminha que um dia foi sonhada pelo Frank.
E que agora fica no mesmo lugar onde ele trabalha.
Ela ainda não vai usá-lo pra dormir durante as noites, porque vamos esperar que ela decida quando será esse novo tempo. Mas foi muito significativo o que aconteceu logo após: eu terminei de montar a cama, coloquei o colchãozinho. Virei pra pegar umas bonecas e colocar em cima e, quando voltei, estava lá a Clara, esparramada. Subiu sozinha com a maior desenvoltura e deitou na cama... Adorou. Pulou e se divertiu bastante.
E, com a cama pronta, com a Clara em cima, Frank olhou e disse: ahhhhh, essa caminha...
Estamos felizes. Agora, temos uma casa toda não convencional: temos uma vista pro mar incrível, uma filha que dorme com a gente, um quarto-escritório ou um escritório-quarto e uma caminha cheia de bonecas que ainda não será usada para dormir.
É assim que a gente é.
Nada convencional.
Aqui nessa casa, não seguimos regras, nem normas, nem padrões, nem coisas pré-estabelecidas.
Aqui nessa casa, ninguém quer a "boa educação" que manda que os bebês sejam acostumados em seus berços logo após saírem de seus úteros e que as crianças durmam exclusivamente em seus quartos.
E quando a polícia, doença, distância ou alguma discussãoChoramos ao ver caminhas nas lojas por sonhar com dias futuros.
Nos separam de um irmão
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração
Mas não choramos à toa (trecho de Volte Para O Seu Lar, de Arnaldo Antunes)
E seguimos nossa intuição.

7 comentários:
Lígia querida!! Que texto delicioso de ler!! Parabéns pela filhota, e nem preciso dizer que te acho d +!
Um beijo grande!
Ana Doula
Mãe do Bê e da Fifi
http://www.anadoulaenutri.blogspot.com
Oi amiga, que delícia a sua familia, um beijo e saudades...bibi (Bianca de Orte)
Ligia, vivemos em transmissão de pensamento! haha Estava aqui escrevendo um post bem parecido com esse! Mais tarde passa lá no blog pra conferir! hehe
ps- tem coisa mais deliciosa que essa foto?
Oi gente, que bom compartilhar os momentos bacanas que eu vivo, com gente como vocês. Camila, tô indo lá agora espiar o seu post. Beijos, amigas
Oi Ligia,
a primeira vez que li teu blog foi quando postou alguém no Twitter o relato do parto, logo depois que aa Clara nasceu.
Desde então, sempre acompanho teus posts (até porque, inscrevi no Google Reader e sempre recebo quando tem novidade). Mas só hoje resolvi olhar os posts antigos e encontrei este aqui: http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2009_11_01_archive.html
Que legal ver que no fim das contas tudo dá certo, né?
Bjos,
Denise
Ôôôô, Denise...
Que bom ter sido lembrada desse post. Puxa... o dia em que soube que estava grávida.
Ai... fiquei cheia das lágrimas agora...
snif
snif
Como vc disse: que bom, né?
Grande beijo, querida! Obrigada pelas visitas :)
Ligia,
Conheci seu blog agora, minha filhota está com 4 meses, e me identifiquei muito com esta postagem. Também não tenho uma família convencional, não fazemos escolhas convencionais e busco, com o apoio do maridão, uma maternagem cada vez mais consciente. É bom ver que não estou sozinha nesta jornada!!!
E tenho um mini-berço lindo, com um móbile que custou os olhos da cara e que um dia virará berço e depois caminha, mas sabe-se lá quando, já que a princesa dorme agarradinha na nossa cama...
Beijos
Dani
PS: estamos pensando em comprar uma king size
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