21 novembro 2011

Hiperativa é o cacete. Meu nome é Zé Pequeno.


 Enquanto isso, fazendo um cadastro...

- Nome?
- Ligia Moreiras Sena. Moreiras com "esse" no fim.
- Sexo?
- Tá no automático, companheira?
Ela ri. Ri muito.
- Ai, desculpa, tô cansada, distraí...
- Tá, mas por via das dúvidas é feminino mesmo, tá? Não que hoje em dia isso seja decisivo, mas é que sou mulher mesmo, convicta e ativista pelo respeito às mulheres, inclusive.
- hahahahahahaha Que bom que você tem bom humor. Tem gente que já me daria uma patada.
- Não abusa, você me pegou num bom dia.
E ela continua rindo.
- Idade?
- 33 anos.
- Olha! A minha idade! - diz ela efusivamente. E começa a conversar, contando casos, desabafando e compartilhando experiências. Ela estava visivelmente se sentindo solitária. Precisava conversar com alguém e aproveitou pra papear. Mas percebeu que estava se alongando. Interrompeu a conversa subitamente, disse "ai, desculpa" e voltou ao formulário.
- Profissão?
- Agora é minha vez. Como é seu nome?
- É Andreia.
- Então, Andreia, tá com tempo?
- Por que? - ela ri...
- Porque eu sou bióloga, professora, doutoranda pela segunda vez, pesquisadora científica, organizadora de um evento de mulheres-mães, organizadora de muitas outras coisas que vão surgindo pelo caminho, blogueira, casada, interneteira intrometida, cozinho, tento arrumar a casa, de vez em quando faço mudanças. Mas, o melhor, sou mãe da Clara, que tem 1 ano e 4 meses.
E eis que ela me responde...
- Nossa! É... Bem sei como é. Minha irmã também é hiperativa. Mas agora ela tá se tratando.
- Tratando?!
- Sim, procurou ajuda médica. Porque, tu sabes, não dá pra viver assim, né? Sem tempo nem pra assitir um Faustão. Tá tomando um remedinho.
- Tá, Andreia, termina essa ficha aí que tô com pressa.

Estou em final de semestre, do meu primeiro semestre no novo curso de doutorado. Estou lendo uma grande quantidade de material para preparação de seminários e entrega de textos. Logo após terminar essa postagem, inclusive, continuarei a leitura de um texto interessantíssimo sobre MEDICALIZAÇÃO DA VIDA. Tenho lido bastante sobre esse tema, que me interessa sobremaneira. Logo após a entrega desses trabalhos, estou programando um texto aqui no blog sobre a MEDICALIZAÇÃO DA MATERNIDADE E DA INFÂNCIA, ou da vida em geral, não sei ainda... Mas posso dizer que tem tudo a ver com essa situação descrita aí em cima, que eu realmente vivi.
Andreia, presta atenção, querida.
No momento, além desses trabalhos acadêmicos, estou organizando dois eventos para o mês de dezembro, com outros dois eventos inseridos nesses dois primeiros, lendo um texto sobre medos e a sociedade do risco para outro seminário, pensando no que vou fazer de janta pra minha filha, ou de almoço pra ela amanhã, tentando lembrar se pendurei a roupa que coloquei na máquina. De vez em quando, ainda dou ideias de charges, tento dar uma varridinha no chão e, se tudo der certo, quando eu chegar em casa hoje, ainda vou terminar de dobrar as roupinhas da minha filha que ficaram sobre a mesa. E ainda preciso dar um carinho no meu nego, que só anda tomando buxa (assim, com x mesmo) e me vendo na correria e na função ultimamente.
Então, cara Andreia, eu não sou hiperativa, embora já tenham querido me diagnosticar disso duas vezes para tranquilizar a sociedade, me medicar e evitar tumultos.
Eu sou apenas uma mulher muito envolvida com as coisas que gosta e acredita, cheia de ideias que quero ver colocadas em prática, que realmente prefere fazer duzentas coisas a ter tempo pro Seu Faustão, que gosta de ler e preza a qualidade da leitura, que tenta dar conta de manter a casa pelo menos habitável, que tem uma filha linda que está quase sempre junto de mim e um marido muito divertido, que me acompanha e apoia em quase tudo.
Ainda, acredite, dou um jeito de assitir Law and Order e ver o Hugh Laurie dar um show de interpretação como aquele escroto do House.
Então, querida, preste atenção. Eu não aceito essa epidemia de psiquiatrização da vida cotidiana e das personalidades. Eu não acho que as pessoas possam ser reduzidas a quadros psiquiátricos. 
Sou eu que faço muito ou você que faz bem pouco?
Sou eu que me meto em várias frentes ou você que prefere o comodismo?
Sou eu que vivo causando ou você que não causa nada?
Sou eu que falo sobre tudo ou você que fala só da vida alheia?

Eu não sou hiperativa, darling.
Eu sou muito, muito interessante.
E se é pra me dar um rótulo, capricha.
Que eu sou bem exigente.


E pensar que um dia eu achei que Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, com o SOMA sendo distribuído pelo governo para controle social, fosse uma obra de ficção...

Esse é apenas um pequeno texto improvisado em defesa dos pequenos Calvins que existem pela vida. Molecada bacana, inteligente, interessante. Muitos deles sendo medicados. Enquanto seus pais assistem Faustão.

16 comentários :

  1. Muito bom Ligia!
    Também sou totalmente contra isso. meu filho mais velho parece que é ligado no 220, mas eu só fico de boca aberta com sua inteligência e energia... Quisera eu poder pular tanto e correr como ele...
    Também acho que sempre que alguém sai do "esteriótipo", é taxado de problemático, então me diz como evoluímos? Se alguém dá um passo a frente, ganha uma pílula pra sentar!!!
    Adorei o post!
    Beijinhos!

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  2. PQP, Ligia! Fazia tempo que um post não me tocava tanto assim!
    Parabéns para você, para o seu texto, para os seus projetos (que eu acompanho como espectadora internética). E realmente não dá para deixar de lembrar do Admirável Mundo Novo. Sensacional!

    Beijos corridos,

    Priscilla

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  3. Aff, cansei só de ler! Acho que hiperatividade é uma doença real e em muitos casos só a medicação traz alívio. Mas esse não parece mesmo o seu caso, pois você é feliz fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Se vc dá conta, ta tranquilo.
    Mas tem gente que prefere viver em outro ritmo.

    Abraços

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  4. Oi Tuka.
    Você tocou num ponto fundamental.
    Eu sou contra essa epidemia de prescrição de psicofármacos. E passei 12 anos da minha vida estudando e desenvolvendo pesquisas buscando o desenvolvimento de psicofármacos de base vegetal. Por que? Porque eu realmente acredito que eles são importantes. Que um antipsicótico ajuda uma pessoa com reais problemas a ter uma vida melhor, que um antidepressivo pode ajudar a evitar um suicídio, que um ansiolítico pode ajudar quem tem um problema como um transtorno de estresse pós-traumático por ter vivido um trauma sério, entre outros exemplos. Mas, infelizmente, não é isso que a gente tem visto. Temos visto a banalização do uso de psicofármacos. Gente que está deixando de aprender a lidar com as adversidades porque tomar uma bola faz dormir mais rápido e a seda. Pais medicando seus filhos agitados quando poderiam estar se dedicando a aprender a lidar melhor com uma personalidade mais intensa. Como tantos outros quadros, muitas vezes só a medicação traz alívio. Mas te digo: eu ainda não encontrei um caso de hiperatividade medicada por real necessidade. Em contrapartida, o que eu conheço de gente tomando metilfenidato é uma palhaçada. E a indústria farmacêutica agradece. Bom, no meu caso, houve um tempo em que eu realmente aceitei esse "diagnóstico". E isso me fez muito mal. Passei a me ver como doente. E eu não sou nada doente! Pelo contrário. Sou muito saudável. Me canso, às vezes tenho pitis por estar no fim das minhas forças, mas logo passa. Nada que uma caminhada ou uma respirada funda na mata não resolva. Em resumo: é isso que vc disse. Eu sou feliz assim. Mas demorei pra me aceitar... Antes eu dizia: "é, sou hiperativa mesmo". Hoje eu digo: sim, eu dou conta. De tudo.

    Obrigada, pessoal, pelos comentários.

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  5. Então quando a gente não tem tempo (e vontade) de ver Fasutão, somos hiperativas? Vixi, sabia disso não! hahaha

    Lembra aquele texto que falei que iria postar junto com o seu post passado? Pois é, está lá pra ser postado ainda porque a minha hiperatividade ainda não permitiu! hehehe
    O post está imenso e cada vez que vou postar, lembro que tenho mais um parágrafo para escrever! hehe

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  6. Sabe, eu até ia dormir, depois daquela exaustiva e insana atividade, mas resolvi dar uma passada pra ler as coisas da moça.
    Quase engoli o cigarro na primeira frase, pq já sabia o que vinha depois.Ahhh eu conheço essas respostas mansas, como conheço!!
    Sei bem o que vem depois ahahahha
    Esse negócio de dizerem que a gente é isso, é aquilo, realmente é estressante (to rindo, to rindo, to rindo).
    Outro dia me disseram que sou nervosa e eu não sou nervosa......sou rápida.
    beijobeijobeijo teamoamoamo

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  7. A pessoa em posição de bule: "Vem cá. Mais alguma recomendação?!"

    É, fia, num tá fácil pá ninguém...

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  8. Você é simplesmente ótima!!!!
    Não me lembro de ter visto um post tão bem escrito como esse sobre esse assunto. Eu já queria ter falado sobre isso faz tempo, mas acho que me faltou a sua coragem, a sua disposição. Te invejo (de uma maneira boa tá!!!)
    bjo grande

    http://amaequeeuseiser.blogspot.com/

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  9. Só complementando...eu trabalho com isso e vejo crianças e adultos se enchendo de medicamentos psicotrópicos todo santo dia...juro que chega dar dó dessas crianças.

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  10. Turnos integrais e tais...
    Ballet, patinação, futebol, violão.
    Inglês e javanês.
    Festa do pijama, ir tarde pra cama.

    Criamos tudo isso para livrá-los do tédio...
    ...e depois, administramos o remédio.

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  11. Muito bom, Ligia, esta epidemia de medicalização tem de ter fim!
    Beijos

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  12. Cheguei por aqui por indicação de uma amiga blogueira, justamente pq conversava com ela do meu receio de ter minha filha ligadinha no 220 diagnosticada com TDAH o distúbio do momento, pq é realmente um desafio para pais e aducadores ter crianças mega espertas por perto, melhor dar um remedinho para elas darem sossego...e assistirem Faustão.
    Ah esse admirável mundo novo, me dá até arrepios de lembrar que muitas coisa soma como previsões nesse livro...

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  13. Gostei muito da sua postagem. Sou doutoranda em Sociologia e meu objeto de pesquisa é o TDAH em crianças. Melhor dizendo, estou aprofundando o estudo do diagnóstico do TDAH como um "produto" social e cultural, o que transcende a ideia de "problema individual". Assim, a medicalização sempre aparece em meus trabalhos.

    Então, a parabenizo pela iniciativa de divulgar em sua página essas questões tão sérias que, em nosso cotidiano, aceitamos como "verdades" ou "fatalidades", como se não houvesse o que fazer ("é um problema mental, fazer o quê?").

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  14. Tem como ler isso e não responder???Tem não!
    Tenho 2 filhos,um de 3 uma de 9 meses...
    Ele simplesmente já está virando o "problema" da família,porque não pára mais de 1 minuto....ou é "eles" que não param um minuto pra aproveitar essa ENERGIA toda que chega a sobrarrrr pra quem quiser receber???
    Quando a criança fica 1 hora em frente a TV sem piscar...é uma criança NORMAL?!!!
    Claro....modernidades...ou dificuldades para lidar com essas crianças que tem chegado com um NOVO CHIP?!!!

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  15. Boa noite, Ligia!
    Fiquei muito feliz de ver sua publicação. Faço mestrado na Unicamp em Neurolinguística e existe uma área de trabalho pela qual você talvez se interesse, o CCAzinho - um Centro de Convivência de Linguagens em que crianças, muitas vezes diagnosticadas erroneamente com dislexia, TDAH, etc, são acompanhadas e avaliadas por fonoaudiólogas capazes de mudar a história dessas crianças e jovens. Tem muita tese saindo de lá mostrando como a avaliação médica muitas vez é equivocada (por inúmeros motivos) e como precisamos lutar (e o que é necessário para isso) contra essa força. Eu fiz estágio nesse centro durante a graduação e acho que você iria gostar mto de conhecer o trabalho!!!
    Um abraço e parabéns!!
    Larissa

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  16. Altívagos

    O mundo é de loucos e as coisas correm como trens, correm como carros nas estradas, partindo sempre e sempre indo embora e sempre partindo de suas partidas. O mundo é de loucos e as coisas passam como passam palavras num jornal, sempre efêmeras, sempre vagas, para se dissiparem como jornal que molha e desaparece. E a memória fenece. O mundo é de loucos e nesse mundo lunático todos olham para o chão,vivem para o chão e como estátuas de barro a de derreterem pelas chuvas, se diluindo, e a dissolverem as suas coisas, extinguindo as suas coisas de barro para o chão. Em um mundo de mares e marés, ares e nuvens, em um mundo de nuvens...
    Porém vivemos também em um mundo de nuvens, de longínquas mentes pairando no
    ar, a voar por longas e longas raias, que enfim se confundem. São aves que vivem voando por mares e marés desconhecidas, territórios de luzes e trevas, de profundas cavernas, de mundos oriundos de meras memórias. São vidas que vivem de memórias, de pensamentos e sentimentos divagantes como cavaleiros errantes vitimas de -“Quixotismos”. São almas de voadores altívagos, viajantes de mundos únicos criados e recriados. São seres que vivem entre estátuas de barro, são seres que colorem as efêmeras palavras, são os que atravancam as endo-partidas! São seres undívagos de seus undo-universos, que criam mundos etéreos, que tiram tudo de aereocéfalo-monastérios, mesmo estando na janela de seus quartos de dormir. Mesmo olhando para os móbiles e seus brinquedos nas estantes. Enquanto escutam divagantes a televisão em que seus pais estão n’outro quarto a existir...

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