sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bebês festivos - quando parir e nascer é festa tripla

O pessoal que namorou bem namorado lá pelas bandas de março, abril, anda comemorando. Tem gente começando a sentir a chegada dos bebês, as primeiras contrações, tem gente planejando a festinha de aniversário, tem gente feliz por poder comemorar, junto com as festas mais comemoradas do ano, a chegada de um filho.
Eu sempre achei que receber um filho próximo às datas de natal e ano novo, ou comemorar o aniversário deles, deveria ser uma coisa pra lá de especial e, quando criança, achava que todas as crianças que nasciam perto do natal e do ano novo eram privilegiadas, e que todos os fogos de artifício e comemorações eram para elas.
Então essa semana eu recebi um link para uma crônica com o título de "Nascidos em Dezembro". Ao abrir o link e ver de onde vinha, eu deveria tê-lo fechado porque, afinal de contas, eu não leio tabloide midiático marrom disfarçado de revista bacana, ainda que seja campeão editorial e venda milhares de exemplares, uma amostra de que popularidade não quer dizer nada sobre qualidade no mundo atual. Aliás, bem pelo contrário... Mas eu quis ver do que se tratava. A curiosidade, essa besta.
Não vou citar fonte nem nada e, se não gostarem, que me mandem tirar.
O texto começava logo abaixo da seguinte ilustração.

Sentiu?
E aí começa o texto. E, junto, o meu estranhamento e mal estar. Fiz questão de ler até o final. E selecionei uns trechinhos, que compartilho agora.

Trecho 1
— Já imaginou? Hospital em noite de Natal?
— Ué, normal.
— Normal! Helooo! Com que disposição você acha que as pessoas trabalham na noite de Natal? Pessoal lá fora comemorando, maior amigo oculto, dando risada, tomando um vinho com o love, e elas lá de branquinho medindo xixi de paciente! Vão ter ódio de mim e do meu filho.
Trecho2
Fazia questão de parto normal, nada de cortes na sua barriga. O marido apoiava, dizia que a escolha era dela, mas achava bom esse negócio de não cortar. Nem era pela estética da barriga, tinha horror de cirurgia. 
Trecho 3

— Não, não, não, não, não! Meu bebê não vai fazer isso comigo! Sabe que a Mariana, minha amiga, entrou em trabalho de parto no dia 29 de dezembro? O médico estava no Guarujá, maior descansadão!
Trecho 4
Nas conversas de sala de espera de consultório ela soube que várias grávidas de dezembro tinham preocupações. Por exemplo, os filhos nascidos no fim do ano não gostavam de fazer aniversário perto do Natal, porque perdiam a festinha com os colegas e, lógico, dezenas de presentes. Ou ganhavam da parentada um só presente valendo por dois. Nos casos de parto de fim de ano, a própria festa familiar do Natal era atropelada pela agitação do nascimento. Ficou sabendo que a maioria das mães antecipava a cesárea. 
Trecho 5
O dia 20 passou, passou o 21, chegou o 24, e assim que ela se sentou à mesa para a ceia sentiu a primeira contração. O bebê bagunçou a ceia, a entrega dos presentes de amigo oculto, a sequência de brindes espumantes, a festa das crianças, e nasceu saudável e forte às 2 e pouco da madrugada. De cesariana. Deu tudo errado, mas deu tudo certo.

Pois.
Qual era a do autor eu não sei. Só sei que não gostei. Tem, no texto, um misto de equívoco com triste realidade que ajuda a (de)formar a opinião de quem é facilmente influenciável.
Em suma, se nós apertássemos a tecla SAP que obviamente não existe no texto, sairia algo mais ou menos assim: equipes de saúde trabalham todas de mau humor em dias festivos como natal e reveillon; o parto normal deve ser escolhido pelo aspecto estético, uma vez que evita cortes, independentemente de qualquer outra coisa; o bebê que escolher nascer numa data festiva "estará fazendo isso com a mãe", esse bebê malvado; se a mulher entrar em trabalho de parto e o médico estiver descansadão em qualquer lugar, ferrou! Por isso, querida amiga leitora, é mais prudente que você agende sua cesárea; é chato e triste nascer no fim do ano, próximo às datas festivas, porque atrapalha a família, o peru, e - que droga! - não vou poder ver o Roberto Carlos, aquele lindo, estrear seu traje branco e azul na tv plim plim; para que isso não aconteça NUNCA, é melhor, e o texto repete a expressão, antecipar a cesárea; o bebê nascer em dias assim significa, para o texto e seu autor, que "deu tudo errado".
Então quer dizer que é ruim um bebê chegar em dezembro?
Quer dizer que a comemoração de uma data é mais importante que a chegada de um filho?
Mas é claro que não. E como eu não posso dizer porque, afinal, não pari em dezembro - embora minha filha também tenha nascido próximo a uma data festiva, 3 dias depois do meu aniversário - fui consultar quem entende do assunto.

A Maria Alcina é minha amiga há alguns anos e tenho por ela uma admiração imensa. Ela está aguardando, com calma, paciência, respeito e amor, a chegada do Arthur. Ele passou a barreira do Natal, mas não é impossível que chegue no ano novo, para alegria das tias postiças corujas como eu. E Maria diz que há uma festa muito maior sendo esperada, que é justamente a chegada dele. Ela acha até bom que ele chegue por esse período, em funçào das pessoas estarem em ritmo mais desacelerado ou de férias, o que facilita os preparativos finais pra essa chegada tão esperada. E diz: "Todos os outros finais de ano, era uma correria pra poder fugir da loucura da cidade e descansar num lugar diferente da nossa casa. Esse ano, foi tudo tranquilo pra todos nós e só pensamos e falamos numa coisa: a chegada do Arthur! Acho que é uma data muito boa pra se ter um filho".

Para Carol , amiga, parceira de maternagem consciente, psicóloga e mãe da Nalu, que nasceu no dia 31 de dezembro de 2010, não podia ter havido uma data mais bonita para seu parto. A Nalu nasceu exatamente no mesmo dia em que sua mãe e pai começaram sua história. O trabalho de parto ativo da Carol foi exatamente nas mesmas horas em que ela e o marido passaram juntos suas primeiras horas, 6 anos antes. "A Nalu tinha DPP para 19/12, mas eu já imaginava que ia ser depois", ela diz. Ao conversar sobre isso com Vânia, a enfermeira da equipe de parto que a apoiaria no grande dia, fez questão de perguntar "E se nascer no natal? Ou no ano novo?", tendo recebido como resposta que ela, Vânia, adoraria passar uma dessas datas com eles, se assim fosse necessário. Carol estava tranquila, sem "nóia de não conseguir chegar a tempo na maternidade por causa de trânsito e tals (caso entrasse em trabalho de parto mais perto dos horários de "rush"), pois sabia que qualquer dificuldade de locomoção, ela poderia nascer em casa mesmo". Sim, Carol, como eu, também foi em busca de um parto domiciliar. E ela diz ainda: "o porém da data: não ter escolhido um médico de confiança para estar comigo, isto poderia ter feito diferença... No mais a época do ano em si, não me diz muita coisa e sim o que vivi nesse período, que pra mim é sempre de crescimento".

E pra não dizer que só conversei sobre isso com conhecidas, trouxe também a opinião da Bartira. Eu não a conheço pessoalmente, mas quando postei num grupo que gostaria de conversar com mulheres que tivessem recebido seus filhos próximo às datas festivas, ela se prontificou. Ela recebeu o Luiz Gabriel como um presente de natal. Às 22:00 do dia 24, sua bolsa se rompeu e ela não teve tempo de revelar quem tirou o amigo secreto. Mas isso pra ela não foi nada... Foi para a maternidade e encarou, firme e forte, o trabalho de parto, se concentrou na respiração, se dedicou a ele e, às 7:40 do dia 25 de dezembro, Luiz Gabriel nasceu em um parto de cócoras, sem ocitocina, sem anestesia, "sem nada!!", ela enfatiza. E faz questão de dizer: "Ele foi um super presente de natal! Foi muito emocionante e tranquilo! Foi muito bom, foi como se um anjo tivesse vindo a mim no dia do nascimento do Menino Jesus". Ela e o bebê ficaram famosos no hospital, por ter sido o primeiro bebê a nascer naquele dia. Sem essa de marcar a cesárea para coincidir com a data, como tanta gente tem feito.

Esses foram depoimentos reais, de mulheres reais, que receberam ou irão receber seus filhos próximo ao natal ou ano novo.
Não é um texto fictício.
É a mais pura e bela realidade.
Existe gente escrevendo muito texto de qualidade duvidosa e tabloides publicando. 
Mas existe muito mais gente vivendo coisas bacanas.
Parabéns a esses bebês especiais, para quem os sinos dobram e os fogos brilham! 
Parabéns a essas mães, que esperaram e estão esperando o tempo certo de seus filhos. 
Fica, gente, vai ter bolo!


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