sábado, 24 de dezembro de 2011

Maria, essa grande mãe. Para nós, as Mariazinhas.

Parte 1 - O tema
No ano passado, ano especialíssimo em que recebi minha filha, escrevi sobre uma reflexão que me ocorreu observando presépios. Hoje, faço uma reflexão sobre um grande nascimento que ocorreu em 25 de dezembro. Um  nascimento muito especial, de uma pessoa, sem dúvida alguma, única.
Tão única que a ela foi concedida a guarda e a maternidade de um filho sagrado.  
O nascimento de Maria como mãe.
Uma reflexão sobre o caminho que ela percorreu para dar a melhor educação que poderia dar, considerando-se ser, ela, quase uma adolescente ainda quando o pariu. E fiquei pensando que, se nos enchemos de dúvidas e questionamentos sobre a melhor forma de agir, orientar e educar nossos filhos, nossos mundanos - no sentido de viventes num mundo material - e humanos filhos, imagine o que viveu essa jovem mulher educando aquele que foi o único filho dessa força maior que alguns chamam de Deus, outros chamam Jeová, Alá, entre uma infinidade de outros nomes. As pressões que ela viveu, a dificuldade das escolhas, os inúmeros questionamentos, a abnegação, a entrega, culminando na visão terrível e aceitação da sofrida morte de seu filho, como contada nas histórias e estórias. Independentemente de se ser cristão ou não, é uma história comovente, um roteiro original, no mínimo. E esse personagem chamado Maria é incrível.

Parte 2 - Um livro inspirador
E, pensando em Maria, lembrei-me de um livro que ganhei quando ter filhos não passava nem perto das minhas vontades ou planos. Ganhei, agradeci a quem me deu e, em casa, olhei pra ele e desdenhei... Apenas porque eu era muito preconceituosa quanto ao seu autor, que se dedica a escrever livros de auto-ajuda. O livro: Maria, A Maior Educadora da História. O autor: Augusto Cury. Ganhei e o larguei em cima da mesa. Durante dois dias. No terceiro, resolvi dar uma folheadinha. E passei um dia inteirinho lendo, quando eu ainda morava sozinha e fazia o que queria com meu tempo. Bem feito pra mim: adorei o livro e paguei a língua. Livro lindo, bem escrito, bem fundamentando, emocionante.
O autor, psiquiatra e psicanalista, se dedicou a destrinchar a personalidade de Maria de acordo com o que está nos textos. Lendo, lembro-me de pensar, inúmeras vezes "Meu Deus, não deve ser nada fácil criar uma criança; não sei se isso é coisa pra mim". Hoje, alguns anos depois, vejo que errei e acertei. Acertei quando disse que não devia ser nada fácil criar uma criança; de fato, é uma tarefa muito complexa. Mas errei quando achei que isso não era coisa pra mim. Sou, hoje, uma boa mãe. É o que verdadeiramente sinto em meu coração e consciência. Não sei as respostas para a maioria das perguntas referentes a filhos. Mas não acho que isso seja relevante, pois penso que o importante é fazer as perguntas. Quem não faz perguntas sobre isso é porque está aceitando as decisões de outras pessoas como verdades inquestionáveis. E isso não é para mim. Nem para minha filha. Ela merece de mim todo o desdobramento que envolve criar um ser humano para o bem, com amor.  É trabalhoso. Mas se quem tem filhos chegou a pensar um dia que seria fácil, errou de projeto. Mais fácil seria ter comprado uma samambaia.

Augusto Cury, no livro, menciona a característica questionadora de Jesus. "Questionava, indagava, queria saber tudo. Quem estaria intelectualmente preparado para educar aquele que se tornaria o Mestre dos mestres? Que pais? Que universidade? Que teólogos? É tão fácil errar nessa área. É tão fácil transmitir os nossos traumas, inseguranças, medos, manias para nossos filhos e alunos". Mas Maria estava pronta. E ele afirma, ainda, no início do livro: "Em tempos atuais em que a educação mundial, do ensino fundamental à universidade, está formando uma massa de jovens que não pensam criticamente nem sabem lidar com desafios existenciais, estudar a mulher que foi incumbida de educar o menino Jesus oxigena nossa inteligência".

Parte 3 - O amor, afeto e não-violência que destinamos a um filho pode fazer dele uma pessoa melhor?
Pois é.
Está sendo formada uma massa de pessoas despreparadas, rancorosas, limitadas, com argumentos fracos e incoerentes, que pouco sabem sobre qualquer coisa, embora queiram parecer grandes entendidos do assunto. Qual terá sido o ambiente no qual viveram e como foi a criação dessas pessoas? Que nível de afeto receberam? Que espécie de doação e preparo tiveram seus pais ou cuidadores para com elas? Há ligação entre a forma como as pessoas são criadas e o que elas fazem no futuro? Como afirmei, não tenho as respostas para todas as perguntas, e nem quero ter, pois isso estagnaria meu crescimento. Mas para essa, tenho: SIM. Há total ligação entre a forma como as pessoas são cuidadas na infância e o que elas fazem no futuro. Centenas de entendidos do assunto já falaram sobre isso. Uma criação pobre em afeto, rica em violência, em humilhação, contribui decisivamente para formação de seres humanos que também serão pobres em afeto, violentos, com tendências à humilhação. Gente que apoia a violência. Qualquer que seja ela.
Santa Maria, mãe de Deus, feche os olhos agora!
- Se eu ñ tivesse apanhado na infância, certeza q hj seria 1 pessoa pior
- Deixa Deus cuidar da #PL122 e a #LeiDaPalmada , pois é por causa disso que o brasil não vai pra frente !!
- #LeiLobo, #PLC122, #LeiSeca, #LeidaPalmada! 90% coisa d #viado! Daqui a pouco vão querer cobrar créditos d carbono qdo vc #peidar!
-  Um "tapa" bem dado na #LeidaPalmada (...) parabéns aos Bolsonaro.
- Uma chinelada na bunda não faz mal a ngm! #LeiDaPalmada
- No meu programa de tv sabado 24 de Dezembro vou "descer o bambu" nesta #leidapalmada (esse eu digo quem é: Silas Malafaia)
- #LeidaPalmada eu levei e sobrevivi!!!
- #LeidaPalmada A Bíblia é clara: corrige com a vara
- Tomei tanta palmada, varada e afins qnd era criança e não me revoltei por isso. Refletindo sobre, mereci cada um deles! #leidapalmada
-  Sobre a #LeidaPalmada; É melhor apanhar dos pais que apanhar da policia.
- Toda lei d homens q fere a lei eterna d Senhor nao e estabelecida. Pq a Palavra d Deus e soberana! #leidapalmada nao vai dar certo!
- #leidapalmada torturas e espancamentos tudo bem coiber, mas palmadinha é demais, quem vai criar essas crianças?
- Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Provérbios 23:13 #Leidapalmada
- Eu apanhei mto e tá me dizendo que agora não vou poder bater??? #leidapalmada
- Sim eu bato nos meus filhos e vou continuar batendo porque isso é educação e nenhum zé mané vai dizer o que é pra mim fazer #leidapalmada (sic)

Tá bom já de absurdo ou quer mais?
Se quiser, te dou uma fonte quase inesgotável de impropério, ignorância e absurdo. Marque a hashtag #leidapalmada no Twitter e veja o que aparece. É de assustar, é de indignar, é de se revoltar, mas é, sobretudo, de se ter pena. Pena porque são dezenas de pessoas provavelmente educadas sem afeto - ou com aquele afeto que apenas foi dito que foi dado, da mesma forma que foi dito que o tapa ou a varada ou a cintada foi merecida - e que as pessoas, ainda em tenra idade, se convenceram de que assim foi, por um processo de modelagem cerebral também chamado de "lavagem".
Eu passei um ano inteiro vivendo os desafios e aprendizados que são inerentes à função materna. E são muitos. Mas violência como forma de educar nunca nem passou perto dos meus anseios como mãe - e nem mesmo como não-mãe, quando ter filhos ainda era uma remota preocupação.
Simplesmente porque não consigo conceber crianças sendo violentadas pela força física de um adulto que se considera no direito de assim fazer apenas porque contribuiu para sua chegada ao mundo.

Parte 4 - Trechos do livro

Os títulos dos capítulos do livro que mencionei são autoexplicativos, para se entender porque Maria, na opinião de seu autor, foi a maior educadora que já existiu:
- Maria vivia sua vida como um contrato de risco (Desde que aceitou ser mãe do menino Jesus, sua vida tornou-se um palco de surpresas, nem sempre agradáveis. Começou a andar no fio da navalha entre a aceitação e a rejeição, os aplausos e o vexame social);
- Maria era rápida em agradecer e corajosa em agir (Alguns educadores de bom nível gostam de tudo no lugar, não suportam quando sua rotina é quebrada, lamentam as pedras do caminho. Maria era diferente. Enfrentava as dificuldades e não reclamava ao confrontá-las, nem lamentava quando as coisas davam errado ou saíam de um modo diferente de como tinham sido planejadas);
- Maria usava a intuição e não um manual de instruções para educar o menino Jesus (A mãe do menino Jesus enxergava com os olhos do coração. Tinha uma visão ampla dos eventos sociais. A intuição nem sempre é perceptível às pessoas de fora, mas determina o estado de grandeza da intelectualidade de um ser humano, define sua habilidade de interpretar os dados e se conduzir em situações delicadas);
- Maria educava seu filho para servir a sociedade e não para a sociedade servi-lo (Educadores respeitados preparam os jovens para andar na luz, Maria foi mais penetrante, sonhava que seu filho fosse luz. A diferença é grande e as consequências dessa trajetória educacional são muitas. Quem anda na luz precisa ser conduzido, quem é luz tem compromisso social, ajuda os outros a caminharem, areja a inteligência de terceiros);
- Maria tinha uma espiritualidade inteligente, transformava informações em sabedoria (Suas qualidades intelectuais eram tão exuberantes que provavelmente ensinou o próprio filho a ler e a escrever. Transmitia seu modo particular de ler e interpretar os textos. Os fariseus e escribas liam as Escrituras e armazenavam informações, Maria lia os mesmos textos e adquiria sabedoria. As informações transformavam os fariseus em deuses do conhecimento, a sabedoria transformava Maria num ser humano humilde. Todo esse processo influenciou seu filho e o fez crescer de um modo particular);
- Maria estimulava a proteção da emoção (Maria, poderia ter se transformado numa pessoa mal-humorada, depressiva, pessimista, amedrontada, prejudicando a educação do menino Jesus, pois sua história teve atropelos incomuns. No entanto, ela teve de reagir de maneira incomum para preservar sua saúde mental e educar seu filho com o máximo de tranquilidade num ambiente turbulento);
- Maria estimulava a ambição interior (Um educador experiente incentiva a ambição exterior, mas um educador deslumbrante vai além, incentiva a ambição interior. Maria educava seu filho para que ele fosse um grande conquistador das funções mais importantes da sua inteligência, das áreas mais excelentes do seu próprio ser. Quem educa nessa perspectiva? Sua educação não era passiva, distraída, sem direção, mas dotada de metas com nobres ambições: ambição pela tranquilidade, perspicácia, segurança, sociabilidade, emoção cativante, capacidade observadora e alvos claros de vida);
- Maria vivia e ensinava a arte da contemplação da natureza (Respeitados educadores admiram a natureza. Admiram o perfume das flores, a estética das folhas, a anatomia das nuvens, a cor do arco-íris. Maria ia muito além. Ela conseguia mais do que admirar a natureza, ela a contemplava);
- Maria estimulava a inteligência para construir um projeto de vida e a disciplina para executá-lo (Um projeto de vida não é um desejo ou uma intenção. Intenções não resistem ao calor das dificuldades, projetos são resistentes. Intenções são circunstanciais, projetos são perenes. Intenções surgem de uma inspiração momentânea ao se espelhar em alguém, projetos são elaborados, têm objetivos definidos. Sem projeto de vida, os jovens não têm metas, os adultos não têm alicerce, os idosos esfacelam seu sentido de vida);
- Maria contava sua história de vida como o melhor presente na educação do seu filho (Maria não tinha recursos financeiros excedentes. Lutava para sobreviver. Não podia dar presentes, nem tecer vestes caras para seu filho. Porém, deu o mais excelente presente que um ser humano pode oferecer para quem ama: a sua própria história);
- O último encontro: a dramática despedida da mãe mais fascinante e do filho mais brilhante
Ela bradava: "Meu filho! Meu filho! O que fizeram com você!". Ninguém a ouvia, a não ser um grupo de mulheres que a acompanhava. Mulheres de fibra, mulheres amáveis, todas mergulhadas no desespero. (...)
Mas onde estavam os demais discípulos? Fugiram amedrontados. (...) 
As mulheres não estavam entre os doze, mas, apesar da angústia asfixiante, moviam-se para o desfecho final em direção ao Calvário(...)
Ao chegar ao Calvário, a angústia de Maria atingiu o máximo. Seu coração palpitava. Faltava-lhe ar. Quando os carrascos levantaram o pesado martelo e golpearam os punhos de Jesus, ela sentiu como se os cravos tivessem penetrado nas suas próprias mãos (...)
Quando Jesus levava a cruz, seu sofrimento foi indecifrável. Ao vê-lo morrer, ela morria emocionalmente minuto após minuto.
Ao ver seu filho agonizar na cruz, Maria mergulhava dentro de si. Não conseguia fugir das imagens que transitavam em sua memória. O menino que ela amamentou, embalou e acarinhou a cabeça agora tinha uma coroa de espinhos. O menino que sempre foi honesto, fiel aos seus pensamentos agora era tratado como o mais vil dos impostores. (...)
Maria chorava sem parar. Queria abraçar seus pés e tirá-lo da cruz. Mas sabia que não podia. Queria acariciá-lo como sempre fez em sua infância, mas não conseguia alcançá-lo. Apenas bradava: "Filho, obrigada por você existir. Obrigada pelo privilégio de ter cuidado de você! Você é inesquecível. Jamais esqueça que o amo. Vá em paz".
Mãe e filho se despediram. As palavras são paupérrimas para discorrer a eloquência do momento. Foi a primeira vez que uma belíssima e insondável história de amor foi finalizada com as gotas de sangue de um filho e as gotas de lágrima de uma mãe...
(os trechos acima foram retirados do livro Maria: A Maior Educadora da História. Augusto Cury. Editora Academia de Inteligência)


Parte 5 - Para nós, as Mariazinhas
Esse ano foi a primeira vez que chorei ao ler sobre o calvário de Jesus, mas não por Ele. Mas por tentar imaginar a dor sentida por essa mulher. Uma mulher que viu seu filho sofrer as mais cruéis violências e dores físicas; uma mulher adepta da paz, que assistiu ao filho ser chicoteado, humilhado, marcado e crucificado. Então, no dia de hoje, às vésperas do Natal, escrevo esse texto para homenagear as mães de mundanos e humanos filhos. Que fazem das tripas coração para dar o que de melhor têm, e para aprender a ter mais, caso ainda seja pouco.
Escrevo para inspirá-las a uma criação baseada na não-violência, usando Maria como exemplo.
E para pedir, sinceramente, a todas as mães: não batam em seus filhos! Existem tantos outros caminhos... e tanta gente pra ajudar a mostrá-los, quando, sozinha, não estiver sendo possível ver.
Não somos mães de filhos santos. Também não somos santas. Somos mulheres comuns, aprendendo, com a vida, uma forma de amar e educar nossos filhos para o bem e o amor.
Não se trata de querer ser Maria, mas de se inspirar nela.
Nós não temos filhos do Espírito Santo.

Mas eles podem, sim, ajudar a melhorar o mundo. É nisso que eu acredito.
Acredito que, criando filhos com afeto e apego, estamos preparando seres melhores para o mundo.
E não é preciso ser santo pra isso. Mas é preciso, sim, ser amado. Muito amado.
Nesse Natal, lembremos de Maria.
Essa jovem mulher que teve a vida arrasada pela morte cruel e violenta de seu filho, ainda que lutasse pela paz.
Feliz Natal!


Ao Papai Noel peço, além de saúde à minha filha, a saúde de volta à mãe da Amábile.

4 comentários:

Julia disse...

Lígia amada, obrigada pelas lindas reflexões... entrou no fundo meu coração... um presente de natal hoje!
Não imaginas o quanto foi bom ler tudo isso!

Beijos imensos no seu coração
Feliz natal para vocês

Com carinho
Julia

Sofia disse...

Profundo, intenso, maravilhoso!
Que perspectiva maravilhosa de Maria!
Feliz Natal a você e a toda a sua família!!

Dani Garbellini disse...

Que texto lindo e inspirador!!!

O final então, me tocou fundo demais.

Obrigada!

Ligia Moreiras Sena disse...

Gente, que bom saber que as inspirou. Era esse mesmo o objetivo. Grande abraço, Ligia

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