quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os "Bem Criados" e as "Amábiles"


 A vida cotidiana é um pote farto de histórias.
Ontem, acompanhei meu pai em uma pequena cirurgia em um hospital público aqui em Florianópolis, um procedimento relativamente simples com duração estimada em cerca de 1 hora e meia. Chegamos ao hospital às 11:30 e saímos às 18 horas, um interminável chá de espera que me permitiu vivenciar diferentes experiências. Sobre a cirurgia em si, excelente: equipe atenciosa, cuidadosa e que deixou a mim e a ele - principalmente - tranquilos sobre todo o procedimento, gente bacana que arrancou diversos elogios de todos. Saímos de lá também elogiando o atendimento recebido e felizes pelo fato de que muitas pessoas receberam, ao longo de todo o dia, atendimento realmente condizente com sua condição de fragilidade momentânea que um problema de saúde traz.
Aproveitei a longuíssima espera para colocar minha leitura de coisas úteis e fundamentais em dia: devorei dois livros de tirinhas dos insubstituíveis Calvin e Haroldo. E muito do que eu ia lendo, ia vendo ao vivo nesse livro de crônicas que é o cotidiano. E, como não poderia deixar de ser, vão aqui alguns esquetes desse emocionante stand up tragicomedy da vida real.

Cena 1 - Os Bem Criados
Estou eu imersa na leitura fascinante de Calvin e Haroldo, enquanto meu pai faz amizade com metade da população flutuante do hospital, sentada ao lado de uma senhora que ora costurava uma linda colcha de patchwork para o natal, ora cochilava com a agulha na mão, deixando-a escapar para o meu lado e me dando leves espetadinhas. Eis que, logo à nossa frente, uma menininha linda com a idade aproximada da Clara, começa a chorar sentidamente, e do choro passa aos berros, obviamente acordando a senhora ao lado do sono que ela nem percebeu que estava tendo.
- Ah essa lei da palmada... Agora não pode bater e dá nisso - diz em minha direção, olhando por cima dos óculos. Obviamente, mantive o silêncio, pensando "Santa Paulina, me impeça do ativismo. Grata". Não conseguindo comentário adicional de minha parte, a senhora agulheira - que faz com a língua o que sua mão sonolenta não consegue fazer - continua.
- Pense se eu tive filhos que choraram assim em público. Mas nunca! Foram sempre muito bem criados. Porque educação a gente dá assim, no dia-a-dia. Imagine, chorar assim. Isso aí é falta de laço!
Não consegui.
- Então a senhora tem filhos bem criados, bem educados, é? Que coisa boa!
- Eu, imagine! Gente da melhor qualidade, disciplinada, muito bem educada. Nunca fizeram esse papel aí.
- E como a senhora os educou? Eu tenho uma filhinha de 1 ano, é sempre bom compartilhar experiência.
- Ah, minha filha. Era um olho na criança, um olho na cinta. Que criança a gente tem que manter ali, na ponta da vara. Pensa se eles fizeram esse escândalo público aí alguma vez?
E a pequenininha chorava cada vez mais forte, aquele chorinho sentido que dá até soluço. Eu já estava quase me levantando pra tentar ajudar, de repente oferecer o sling que eu sempre levo na bolsa mesmo quando minha cria não está comigo, quando uma moça sentada ao lado dela fez exatamente isso: levantou-se com um sling de argolas, ofereceu para a avó da guriazinha, que aceitou na mesma hora, pegou a guria dos braços da mãe, que já não sabia mais o que fazer e, com a ajuda da moça desconhecida, a colocou no sling e saiu passeando como uma grande novidade, me deixando ali com a cara de boba ocitocinada mais feliz do pedaço. E lá vem a véia:
- Ah lá, a frescura. Se passou o choro, era frescura. Vê se no meu tempo tinha esses trecos esquisitos aí. Esse povo é muito cheio de nove horas.
- O que a senhora fazia quando seus filhos choravam assim?
- Eles NÃO choravam assim, minha filha - diz a senhora bem enfaticamente - ou era couro no lombo.
- Sei.
Silêncio.
- A senhora está aguardando algum procedimento?
- Sim, vou fazer uma cirurgia das vistas. E tu?
- Eu estou acompanhando meu pai. Ele também vai fazer essa cirurgia.
- Ah, ó lá. Isso é que é filho. Larga o que tá fazendo pra acompanhar um pai ou uma mãe.
- A senhora tá sem acompanhante?
- É, filha, tô sozinha. Diz que alguém vem aí mais tarde, mas duvido.
- Mas e os filhos da senhora, os bem criados?
- Ah, esses... esses aí mal falam comigo. Depois que cresceram ganharam asa, minha filha, mal lembram que têm mãe. Pra tu vê, né? A gente se esforça pra dar o de melhor pra eles e quando crescem nem te recompensam.
- Ô essa lei da palmanda, né dona?
- Ô, minha filha! Se eu tivesse boa, era couro no lombo de novo.
....

Cena 2 - Amábiles
E eu lá nas minhas tirinhas Calvinistas.
E percebo um rostinho bem por cima do meu ombro direito. Olho pra trás e tem uma menininha linda espiando as folhas do livro que eu estava lendo. Me viu olhando, e ficou toda sem graça.
- Oi - digo eu.
- Oi - diz ela.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Como é seu nome?
- É Amábile.
- Amábile?! Que nome lindo! Como o da Madre Paulina!
- Isso mesmo! - diz a mãe dela, feliz por alguém ter reconhecido a intenção - Você conhece o Santuário da Madre Paulina?
- Sim, conheço. Estive lá esse ano com minha família.
- Você é católica? - diz a mãe
- Não.
- É. Eu também não sou. Dei o nome Amábile em homenagem a uma enfermeira que me atendeu quando ela nasceu - apontou pra menina -, que chamava Amábile em homenagem à Madre Paulina.
- Ai que lindo! Ela deve ter sido ótima pra você, né?
- Ótima?! Ela me salvou! Um médico queria me amarrar pra ter o bebê e ela me defendeu!
Silêncio. Imagine minha cara.
- Essas coisas é que valem a pena, né? Saber que não importa o que estejamos vivendo, sempre tem alguém que pode estar disposto a nos ajudar.
- Foi uma santa, aquela mulher. Foi ela que me ajudou o tempo inteiro. Muito amável mesmo, como o nome.
(eu toda emocionada, enquanto a pequena Amábile folheava o livro que eu havia emprestado).
- Por que você está lendo história de criança se você é adulta? - pergunta a pequena Amábile.
- Porque eu sou uma adulta que gosta muito de criança.
- Vai ver que você é uma criança disfarçada de adulta né?
- Eu acho que sou mesmo, Amábile.
- E o que você vai pedir pro Papai Noel?
- Sabe que eu não sei?
- Pede então pra minha mãe ficar boa?
- Sua mãe está doente?
(e a mãe chorando ali atrás de emoção)
- Está.
- O que ela tem?
- Não sei, ela não me diz. Pra mim ela finge que não está, mas eu sei que está.
- Pode deixar, Amábile, esse vai ser o meu pedido pro Papai Noel. Vou fazer uma cartinha hoje.
- E junto você pede um fantoche? Pra mim, esse.
- Peço sim. Vou pedir um pra você e outro pra minha filha.
- Você tem filha?
- Eu tenho, bem pequeninha, menor que você.
- Tem uma foto?
Mostro pra ela uma foto no meu celular.
- Que linda que ela é, né? - ela diz.
- Eu acho, muito fofinha.
E ela: - Olha, não fica doente. Se não ela vai perceber e vai ficar muito triste.
- Mas sabe, Amábile, se eu ficar doente, vou fazer de tudo pra melhorar, pra poder cuidar dela muito tempo. E eu tenho certeza que, ela estando junto de mim, vou melhorar mais rápido.
- Isso! É assim que tem que pensar- diz Amábile. E vira pra trás - Viu, mãe? Não precisa se preocupar. É só fazer TUUUUDO pra melhorar. E eu já estou com você, vai ser rápido.
E nessa hora eu recebi dessa mãe o olhar mais cúmplice que eu já recebi até agora nessa experiência como mãe.

Mães existem de todos os tipos, de todos os credos, de todas as cores, saudáveis ou doentes, amáveis ou agressivas, felizes ou tristes, realizadas ou frustradas, que deixam a vida de mãe passar como um simples e corriqueiro evento ou que se dedicam ativamente a isso.
O importante é lembrar sempre que o caminho que se percorre numa vida como mãe é a gente mesmo que pavimenta. Esse chão pode ser ladrilhado de pedacinhos coloridos ou pode ser, simplesmente, um grosso, cinza e impermeável asfalto. Quem escolhe e constrói o chão do caminho somos nós, essas mulheres que viraram mães. Mas quem percorre o caminho que vamos ladrilhando são eles, essas pessoas que nos foram emprestadas para serem amadas e cuidadas, os filhos.
E se lá na frente, percebermos que o nosso caminho se tornou também o caminho dos nossos filhos, é porque fizemos um bom trabalho.
Mas isso só se saberá lá adiante.
Enquanto isso, ser mãe é essa coisa que se aprende sendo. Todos os dias.

10 comentários:

De. disse...

Que lindo! Arrepiei!
Tomara que a Amábile ganhe muitos fantoches!

Ju disse...

Caramba, muito lindo!

Ártemis disse...

Nossa, chorei de verdade com a segunda história. Que coisa mais rica e linda essa menina.

Mamãezinha disse...

Emocionante a segunda história. Junto com o filho nasce a mãe que cresce todos os dias. Que tenhamos cada vez mais sabedoria para educar os filhos. Beijos!

Anônimo disse...

Poxa, caramba....fiquei pensando aqui...a gente não pode dar de natal a saúda mãe da Amábile mas, pelo menos, poderíamos dar o fantoche...vc pegou algum contato dela?
Ass.: Eu.

Anne disse...

Incrível texto! Coincidencias amáveis, não me lembro como, me inscrevi para responder uma pesquisa, sobre violência obstétrica. Recebi um email gentil, e na assinatura, esse blog. Que sem querer eu tinha visto no blog de uma amiga. E hoje uma outra compartilhou a postarem no FB... Era para eu ler!
Vamos de ladrilhos coloridos! Bjo

Mãe de Duas disse...

Lígia, como sempre, sensacional!
A vida nos oferece crônicas prontas, é só ter os olhos abertos para lê-las!
Bjos
Priscilla

Ligia Moreiras Sena disse...

"A vida nos oferece crônicas prontas, é só ter os olhos abertos para lê-las" - é isso mesmo, como disse a Priscilla.
A vida é tão rica...

A mãe da Amábile está fazendo fantoches da Alice no País das Maravilhas pra ela! :)

Dani Garbellini disse...

Ligia, seu blog começou a aparecer para mim em vários lugares, epecialmente devido à pesquisa.
Então, finalmente achei um tempinho para dar uma olhada. E gostei muito.

O post que me fisgou foi esse aqui (mas ainda tenho muito pra ler...). A segunda história é realmente muito emocionante, a primeira daquelas lições que deveriam vir no manual pré-maternidade.

Ligia Moreiras Sena disse...

Oi Dani, obrigada pelas palavras. Que bom que gostou do blog! Sobre o manual pré-maternidade: um dia eu me empolgo, junto todas essas mães como nós, que se questionam sobre como fazer as coisas de uma maneira diferente, bacana, e fazemos um. Aí é só pedir pra cegonha entregar junto com os bebês, kkkkkkkkkkkkkkkk

Grande beijo e obrigada.

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