segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Crossing over na vida real

Eu estava pensando nos 6 meses da minha filha e em como a genética é implacável.
Quando a Clara nasceu, nasceu uma mini-eu. A médica ainda disse: nossa, é a mãe em miniatura.
Aí ela foi crescendo...
E o genótipo foi fazendo aquilo que a gente aprende no ensino médio, interagindo com o ambiente e tal.
E ela foi mostrando de quem era filha.
Da Ligia e do Frank.
E vc? Acha que ela se parece com quem?

Com a mamãe...


... ou com o papai?

Eu fico super satisfeita com essa miscelânia genética, de verdade.
Porque Clara é exatamente como o sobrenome dela: da mãe e do pai!
E viva o crossing over! Viva a suruba entre as cromátides não irmãs!
Viva a variabilidade genética da meiose!

Clara, 6 meses

 6 meses de amor, alegria, realização e (re)descobertas

Hoje (escrito na finaleira de 30 de janeiro) aquela bonecona que tá dormindo desmaiada ali, agarrada na bonequinha de pano, fez 6 meses. Mas não foi só ela quem fez 6 meses. Nós todos nós aqui em casa fizemos 6 meses.
E eu fiz 6 meses. 6 meses de amor, encanto, surpresa, alegria, felicidade, realização e satisfação. Faz 6 meses que todos os meus dias são dedicados a ela, ao mundo dela, ao bem estar dela. Faz 6 meses que eu não durmo direito, tudo bem, mas passaria todos esses dias novamente, se isso fosse condição para sentir todo esse amor que estou experimentando.
E faz 6 meses que eu amamento minha filha. Puta conquista, puta vitória, sucesso total!
No caminho percorrido do quinto pro sexto mês, ela acumulou mais novidades que programação nova de canal televisivo quando quer segurar o espectador. Ela rola pra lá e pra cá; senta bem firminha, olhando tudo com esses olhos incríveis pelos quais eu me derreto toda; dá gargalhada quando a mamãe morde a barriga dela; grita bem alto quando quer alguma coisa (eparrei!); toma um monte de água; grita pro garçom quando ele chega com a água dela; está falando um monte de sílabas novas e, quando quer que a gente a tire de algum lugar, fica falando NENE, NENE, NENE. Achamos que era acaso, mas isso tem se repetido com frequência que não nos permite achar que é coincidência. Ela já sabe de onde vem o bom e velho mamazão, então coloca a cabeça no meu peito quando quer mamar. Fala o tempo todo, numa língua misteriosa. Fala sozinha, fala com a gente, fala com os brinquedos. Fala. Muito. Nunca ficou doente, nem um simples resfriado, nem um narizinho escorrendo, nada. Santo leite do senhor, nosso zeloso guardador! E desde anteontem está ensaiando tchauzinhos. Tem quase 8 quilos de uma saúde sólida. Amém!
Sobre o leite e a amamentação: vamos seguir firmes e fortes! Pretendo amamentá-la por muito tempo mais, embora vá aos poucos inserindo os novos alimentos.
E já me toquei que estamos vivendo uma transição, que eu pretendo percorrer com muito cuidado.
Olho pra ela e penso que, ainda, somos extensão uma da outra. Ela não está mais dentro da minha barriga, mas ainda é feita exatamente do mesmo material que eu. Tudo porque o único alimento dela é o meu leite, o leite que produzo abundamentemente, com a graça de todos os deuses, de forma que, se todo o material dela é feito a partir disso, ela ainda é um pouco eu. Agora, com a inserção de novos alimentos, Clarinha vai se tornando, pouco a pouco, uma pequena pessoa feita de material construído por ela mesma, a partir do que a Terra fornece. Isso é muito simbólico e totalmente especial. E a mãe tem que estar com uma boa cabeça, pra passar por essa transição: ir deixando, pouco a pouco, de ser fundamental para a vida dela no quesito nutrição. Ainda bem que no quesito amor a mãe continua imprescindível pra sempre, ufa!
Hoje, enquanto eu dava o último mamazinho antes dela dormir, olhei praquela bebê redonda, bem redonda, bem linda, mamando com a mãozinha no meu peito. Nem sei quantas vezes vi essa cena durante esses 6 meses, mas é como se eu nunca tivesse vivido isso, porque toda vez é especial, todo momento é incrível. E é quando, depois de muito perguntar durante a minha vida inteira, eu sinto que essa coisa misteriosa que responde pelo nome de Deus realmente existe. Ser mãe é meio isso, sentir que existe uma coisa muito maior mesmo, que te permite passar por todos esses momentos tão comuns e, ao mesmo tempo, tão únicos, mesmo que você tenha passado uma vida inteira sem se ligar a esse tipo de coisa.
Eu, toda aventureira, toda maluca, agitada, baladeira, incansável, cheia de planos e objetivos, estudiosa, intensa, trabalhadora, destemida, desbravando o mundo às vezes com as unhas, estou cada dia mais surpresa comigo mesma. E, confesso, mais satisfeita comigo mesma. E mais realizada. Eu nunca nem cogitei que ser mãe era uma parte de mim que estava lá escondida e que veio toda à tona de maneira surpreendentemente forte quando da chegada dessa minha incrível filha. Agora o desafio tem sido esse: ajudar as outras partes que me compõem a emergir em meio a esse tsunami chamado maternidade, de forma que todas as minhas facetas possam encontrar seus lugares e conviver harmoniosamente umas com as outras. Porque a Clara precisa disso. Uma mulher inteira, uma mãe completa, que saiba ser 100% mãe, sem deixar de ser 100% mulher, 100% profissional, 100% cheia de planos de vida. Grande desafio, esse...
Eu nunca pensei que o caminho mais certeiro para o autoconhecimento e para buscar o aperfeiçoamento moral diário chamasse "filhos". Agora eu já sei. E pretendo seguir firme nesse trajeto.
Filha, minha querida, minha menina com rostinho tão misturadinho mamãe-papai, minha criança risonha e tranquila: você veio como um bálsamo, um lenitivo (minha mãe me ensinou essa palavra ontem) na minha vida e como uma motivação maior do que qualquer outra para que eu procure ser cada dia melhor. Eu, que sempre duvidei um pouco da minha capacidade de cuidar de alguém, me descobri outra pessoa com a sua chegada. Eu nunca imaginei que pudesse merecer uma criança como você. Não sei se cabe um agradecimento, mas obrigada por ter nos escolhido... Você é incrível!

Foto by tio Jacques Mick, no dia em que completou 6 meses

(Esse foi um fim de semana especial, de agradecimento à vida! Nem sempre a gente sabe quando nos é concedida uma segunda chance. Mas tem hora que isso fica tão escancarado que não dá pra negar.)

domingo, 30 de janeiro de 2011

III Bazar Coisas de Mãe - 26 de fevereiro 2011

Não é só a filharada que tá crescendo não, o Bazar Coisas de Mãe também!
Vem aí o III Bazar Coisas de Mãe!
Será dia 26 de fevereiro, na área externa do SESC-Cacupé, em novo horário: das 14 às 20 horas.
Será um sábado delicioso na companhia de muita gente bacana, junto ao verde e de frente pro mar, com atividades para pais, mães e filharada.
A programação ainda está sendo organizada, mas já anotaí: teremos um bate-papo com Gabriela Zanella sobre o tema "Doulas: o que são e o que fazem essas mulheres especiais?" e um bate-papo pra lá de especial destinado aos PAIS, com o tema "O papel do pai no parto e a paternidade ativa", onde pais que participaram ativamente do parto das companheiras e que participam dedicadamente da vida dos filhos discutirão esses temas junto com pais que queiram saber mais sobre o assunto (estamos convidando os pais a participar dessa atividade, tanto os que já passaram por essas experiências e queiram compartilhar, quanto os pais ou futuros pais que queiram saber um pouco mais sobre o tema).
Para saber o que vai rolar no III Bazar é só acompanhar o Blog do Bazar.
Essa semana, lá no blog, vamos divulgar a TARDE DE ATIVIDADES HANAMI - BAZAR COISAS DE MÃE e o SORTEIO de um lindo boneco oferecido gentilmente pela Tutitati Desigh Infantil!
Se você acompanha o blog desta mãe cientista que vos escreve e se identifica com a ideia do Bazar, que tal ajudar a divulgar? É só colar o selinho do Bazar no seu blog ou site e linká-lo ao blog do Bazar que já tá bão dimais da conta! O selinho é o que vai ali em cima, tá? Te agradeço antecipadamente pela gentileza.

Não deixe de ver as novidades lá no outro blog!
E lá no III Bazar, vamos lançar uma tremenda novidade. Mas vai ter que ir pra saber.
Já digo de antemão: um monte de gente vai gostar, inclusive os que estão longe das terras florianopolitanas e gostariam de participar do evento.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Vida após a crise

Depois de passar toda aquela crise de "volto ao trabalho ou cuido da cria", "vou morrer se ficar longe dela", "quero morrer mas não quero ter que deixá-la por algumas horas", "mundo cruel lazarento" e "quero matar a viada que reivindicou direitos iguais", não é que tudo parece estar indo pros seus lugares?
Duas semanas no novo trabalho e já deu pra sacar qualéquié. Cara, e é muito bacana. E é uma coisa totalmente inovadora - coisa que eu gosto (já deu pra perceber?). Estou fazendo um pós-doutorado pelo Programa Nacional de Pós-Doutorado, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o véio CNPq. E, o que é o diferente, não é dentro de uma universidade. É dentro de uma empresa! Bom, não sei você, mas eu sou a única que eu conheço que faz pós-doc dentro de uma empresa - porque esse lance é realmente novo. É uma empresa muito bacana, jovem, incubada, que trabalha na área em que fiz meu doutorado: farmacologia. O que eu tenho gostado é que é uma empresa com pensamento moderno e responsável, que preza pela sustentabilidade e que foi criada por pessoas bacanas que eu tive o prazer de conhecer quando ainda estava no doutorado.
Hoje nós somos 5 jovens doutores tocando a empresa. Já nos conhecíamos do doutorado e éramos bem próximos, inclusive. E acredito que, não por acaso, temos perfis muito parecidos, o que é muito legal. Estamos todos tentando fazer diferente num mundo que ainda valoriza sobremaneira o igual - infelizmente... E foi nesse ambiente bacana de trabalho que encontrei apoio pra minha condição específica de doutora-mãe-de-uma-bebezinha-novinha. Meus parceiros aceitaram minha proposta de horário flexível, e isso tem ajudado, inclusive, a moldar a forma de trabalho da empresa. Assim, posso exercer minha profissão, cuidar da minha filha, dar um up na renda da família, continuar na área científica e contribuir para o crescimento da empresa, tudoaomesmotempoagora. E não há dúvidas que quando uma pessoa se sente compreendida no ambiente de trabalho, ela veste a camisa mesmo.
Então hoje eu vim dizer que, SIM, há esperança! (ó o drama...)
Estou feliz de poder trabalhar com esse pessoal. Porque eu sempre tive claro na minha cabeça: só vale a pena deixar minha filha por algumas horas, mesmo sendo tão novinha, se eu estiver feliz, trabalhando num lugar legal. Ainda sinto um pouco de tristeza toda manhã, quando saio e a deixo dormindo com o papai. Mas quando lembro que logo eu volto, por conta do horário flexível, e que ela fica com o pai, fico melhor. Isso também serve como motivação para que eu faça o melhor, porque, ué, se é pra sair e deixar minha filhinha, que seja pra fazer bem feito.

Um beijo pros jovens doutores desse país que estão por aí tentando fazer a diferença, a despeito das (inúmeras) dificuldades que a gente enfrenta justamente por ter especialização demais. Um beijo pras mamães que estão retornando ao trabalho, ou já retornaram, com filhinhos-bebês em casa. Um beijo às empresas modernas que trabalham com flexibilidade sem perder a excelência. E, principalmente, um beijo às empresas e empreendedores que apoiam a causa materna, fazendo com que uma mulher recém-mãe volte ao trabalho feliz, mesmo ficando alguns momentos longe da filha.
Ah que bom! Existe vida após a crise!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Leite da vaca, leite da mãe e amamentação


Eu já disse anteriormente, mas vou repetir: antes de engravidar eu não sabia nada sobre gravidez, parto, criação de filhos, embora tivesse alguns valores claros na minha cabeça e pensasse: se um dia eu for mãe, vou tentar fazer assim ou assado. Uma das centenas de coisas que eu não sabia é que o leite de vaca é bastante desfavorável para o organismo da criança. Claro que não mata, eu mesma sou uma aficcionada por derivados de leite. Não é disso que estou falando... Mas não faz muito bem não, porque não temos a enzima que processa seu componente principal. Aí você pode me dizer: "Ah vá, vá... As crianças tomaram isso a vida inteira e não deu nada de tão grave assim". Sim, mas as crianças também apanharam na escola para ser educadas durante muito tempo e não é porque foi assim que precisava continuar. Mudar as coisas com base nos conhecimentos que vamos adquirindo é bem bacana, quem não muda de caminho é trem. E, pensando bem, nós somos a única espécie que têm o hábito de tomar leite de outra espécie. Pensei nisso pela primeira vez quando um dos padrinhos da Clara, um dia em casa, comentou: "Não tomo leite de vaca, não sou filhote da vaca. Que outro animal você vê tomando o leite de outro animal?". Pô, nunca tinha pensado nisso, gente... A gente não vê macaco indo atrás do leite da cutia, por exemplo. E, como não gosto muito de especulação, fui atrás pra ver se havia fundamento mesmo nessa coisa de que leite de vaca não é muito bacana pra filhote de humano. E achei um monte de coisa interessante. Um dos artigos que encontrei diz, categoricamente: "Há quem afirme que o uso disseminado de leite não humano em crianças pequenas é o maior experimento não controlado envolvendo a espécie humana". Caramba, bicho! Isso é meio teoria da conspiração, mas não deixa de ser interessante. Outra coisa que me fez pensar, também, e que eu nunca tinha parado pra analisar, era sobre quais os motivos que levam a OMS a incentivar a amamentação exclusiva até os 6 meses no mundo todo. Claro que tem a questão da proteção imunológica, do benefício nutricional que nenhuma outra fonte alimentar conseguiria suprir nessa fase, do vínculo afetivo que se estabelece. Mas tem uma coisa que eu também não tinha pensado: para centenas de milhares de crianças no mundo, essa pode ser a salvação contra a desnutrição infantil. Onde falta comida, ou dinheiro pra comprar comida, bebê que mama no peito tá salvo! Lógico que se a mãe não tiver muito o que comer também não será muito bom, mas já aprendi que o organismo materno é uma máquina de salvar gente, faz coisa que até Deus duvida. Quem me despertou pra esse pensamento foi meu namorado (que também é meu marido), que um dia levantou essa questão. Ou seja, reforçar nas comunidades mais pobres a importância da amamentação exclusiva é uma questão de saúde pública mesmo. Aquele mesmo artigo diz o seguinte: "A proteção conferida pelo leite materno contra mortes infantis é maior em crianças pequenas, exclusivamente amamentadas, residindo em locais onde há pobreza, promiscuidade, água de má qualidade e alimentos contaminados e de baixa densidade energética. Na Malásia, por exemplo, o número de mortes devido à alimentação com leite não humano de crianças menores de 1 ano foi estimado em 28 a 153 para cada 1000 crianças nascidas vivas, dependendo das condições sanitárias e do acesso à água potável". Cacilds! É muito triste mesmo isso.Saindo do panorama "pobreza extrema" e indo pra uma situação financeira que possibilite comprar artigos que supram a ausência do leite humano, a situação é bem menos grave. Porque a mãe que não pôde amamentar, se tem consciência da importância da amamentação, vai atrás de outros recursos que possam suprir o déficit da ausência do leite humano. E acaba que muitas vezes também dá certo! Tá lá a criança saudável e feliz (claro que isso acontece se ela também vive num ambiente familiar saudável, acolhedor, com mãe psicologicamente preparada).
Só que tem uma coisa. Não adianta o Ministério da Saúde dizer: "ó negona, vai lá e amamenta". Tem que dar respaldo! Tem que informar! Tem que ajudar! Tem que ter um super atendimento de saúde que ajude a mãe meeeeesmo. Porque eu tô falando isso? Porque agora muitos hospitais têm um serviço de aconselhamento de amamentação que, em alguns casos, conta com umas cavalgaduras dando orientação que era melhor que nem dessem. São irritadiças, bravas, nervosas, e falam com a mãe como se a coitada tivesse que saber, desde a infância, como se amamenta. Enfatizo, para os fios desencapados: não estou generalizando! Estou apenas constatando o que muitas mães já me contaram que passaram. Eu não passei por isso não, porque tive a bênção de ter comigo enfermeiras carinhosas, amorosas, delicadas, quase-mães. Mas tem mulher passando por isso sim. E aí já é um chute no saco que não temos, pra quem vai começar um novo - e queremos que seja - longo mundo de ser nutriz.
Também por isso, recomendo a leitura desse artigo que mencionei. Lá, a autora sugere que uma boa atuação no aconselhamento passa por "empatia, ou seja, mostrar às mães que os seus sentimentos são compreendidos",  "não usar palavras que soam como julgamentos, como por exemplo, certo, errado, bem, mal, etc." e "sugestões ao invés de ordens", entre outras recomendações. Se você não recebeu esse tipo de tratamento, saia do anonimato e meta a boca no trombone, pegue o nome da criatura e denuncie.

Autora desse artigo super bacana: Elsa Giugliani, doutora pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e professora do Departamento de Pediatria da UFRGS. Título: "O aleitamento materno na prática clínica". Clique aqui e leia quando puder. Lá tem um monte de explicações para coisas que todo mundo vive perguntando, como por exemplo: "mas por que você não dá a chupeta?!" e orientações salva-peitos, pra quando estiver tudo dolorido e parecer que depilação dói menos que dar de mamar.
Ensinando a pescar: esse artigo está livremente disponível na internet e eu encontrei fazendo uma busca. Todo mundo pode encontrar também.
Sabe por que eu estou falando de novo sobre esse assunto? Porque minha filha vai fazer 6 meses domingo e estou muito feliz por ela ser uma criança saudável, calma, tranquila, que não dá trabalho nenhum e eu nem sei pra quem ela puxou essas coisas, porque eu e o pai dela somos super agitados e meimalucos, embora tutti buona gente. Parabéns pra ela! Mas, puxa, parabéns pra mim também, que consegui manter o aleitamento materno exclusivo (água não conta né?) da Clara durante 6  meses! E consegui isso não porque eu seja uma super mulher, muito pelo contrário. Inúmeras vezes senti muito medo e comentei com minha família "ai carái, diminuiu o leite" ou "será que tá suficiente pra ela?" ou "será que vou conseguir manter a exclusividade mesmo voltando ao trabalho?". E tenho consciência que só consegui porque muita gente me ajudou. Lógico, eu fui atrás de muita informação. Mas sem essas pessoas eu não teria conseguido: meu mais profundo agradecimento às minhas amigas enfermeiras que estiveram do meu lado, tirando dúvida, ensinando como se fazia, ensinando como armazenar, como tirar o excesso, como ser uma boa amamentadoura (nem sei se existe isso). E um agradecimento mais que especial ao meu namorado (aquele, que é também meu marido - estou me preparando psicologicamente para trocar definitivamente o título, percebeu?). Eu sempre brinco dizendo que pra ele ser uma mãe pra Clara só falta dar de mamar. Mas às vezes nem isso falta, porque a amamentação exclusiva dela durante esse período só foi possível porque ele dá pra ela, com muito amor e carinho, o leitinho que eu deixo todos os dias quando me ausento algumas horas por dia pra trabalhar. Mostrando que amamentação é assunto de mãe - E DE PAI! Bota os nêgo pra ler coisa e te ajudar, fia! Porque afinal, a não ser que você seja uma minhoca, você não fez o filho sozinha.
Ah! Em tempo. Também quero deixar um agradecimento bem grande pro meu hipotálamo e pra minha hipófise. Beijo pra esses dois, que são os reais fodões! Porque o tanto de estresse que eles tiveram que administrar sem deixar que me faltasse a ocitocina e a prolactina nossas de cada dia, sem que deixasse que meu nervosismo bloqueasse a produção, não é uma coisa desse mundo.


A ilustração que eu amo, lá de cima, é da artista Sil Falqueto e você pode ver mais coisas dela aqui (sou fã, sou fã, e ela nem sabe).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

E foi dada a largada!

 "Hmmmmm mãe, que bom isso, que refrescante! Por que você não me deu isso antes?!"

... aí hoje, 1 dia depois de oferecer o suquinho e ela rejeitar veementemente, eu tentei oferecer novamente bem geladinho, no potinho da mamadeira, sem o bico. AMOOOOU! Tomou tudinho, pedia mais com os bracinhos quando eu afastava o potinho, ria feliz! A mãe e o pai bem felizes orgulhosos. Me senti o próprio Sid (um dos meus alteregos), no filme A Era do Gelo 1, falando: "Olha, nosso menino cresceu!".

Chegou rápido o tempo dela, né?
Agora vou ali, dar um copo de tubaína pra ela.
Mentira né, pô!

Você tem fome de que?

 Clara sentindo o gosto da maçã (quiéisso, mãe? quer me envenenar?)

Eu estava escrevendo esse post quando Clara acordou e, brincando com ela, percebi que um dentinho tinha dado as caras, parei tudo e fui anunciar. Então agora vai!

Lá vamos nós pro sexto mês, que maravilha! No próximo final de semana, Clara vai fazer 6 meses. Justamente quando nós estaremos em Sampa, pro batizado e aniversário de 1 ano do meu afilhado. Caramba, meu! E num é que as tia véia tinham razão?! Num é que passa voando o trem mesmo? E eu tenho a imensa alegria de ter podido amamentá-la exclusivamente com leite materno durante esses meses. Grande alegria! Essa era uma angústia dos tempos da gestação, se eu conseguiria amamentá-la exclusivamente durante os 6 primeiros meses, se eu teria leite suficiente, essas coisas que (quase) toda mãe pensa. Felizmente, mas muito felizmente mesmo, deu tudo certo, o que é uma dádiva. Conheço muitas mães absolutamente dedicadas, que se prepararam tanto quanto eu pra isso, que quiseram de todo coração amamentar e que infelizmente não puderam porque não tiveram leite suficiente ou por qualquer outro motivo; mães que ficaram muito chateadas por não poderem, a despeito da imensa vontade, e que são mães tão ou mais zelosas que todas as outras. Um pé na bunda e um soco no queixo de quem diz o contrário e tenta culpá-las, e um "vá a merda" bem sonoro. Prontofalei. Tô falando isso porque, nessa minha experiência de mãe-cientista-blogueira-bombril tenho conversado com um número muito grande de mulheres dedicadas que não puderam amamentar exatamente como quiseram. E que foram atrás das melhores alternativas pros seus filhos. E que ainda ouvem bobagem... Enfim.
Filhota vai fazer 6 meses e há algumas semanas, como eu já falei aqui, tem tomado aguinha no copo por vontade própria. Se tomou aguinha com tanta vontade e adora, vai amar os sucos, as frutas, as coisinhas docinhas e novas da vida. Humpf... Ledo engano. Esses dias eu estava comendo uma maçã e ela me encarando com cara de "mamãe, posso também?". Como ela estava muito interessada, dei a maçã inteira na mão dela, pra ver como seria, pra que ela conhecesse o alimento. Como tudo do universo que vai parar na mão dela, a maçã foi parar na boca. Ó lá em cima a cara dela. Não gostou muito não. Quer dizer, não gostou nada. Raspei um pouquinho e ofereci a ela. Lambeu, ficou com ânsia e virou a cara na hora. Beleza, tentemos outro dia.
Alguns dias depois, estava eu comendo um mamão e ela ali me olhando com aquela cara de "Clara também, Clara também!". Peguei o caldinho numa colherinha e coloquei na boquinha dela. Careta, ânsia, cara virada e nada mais. Beleza, beleza, mamãe não vai forçar nem encanar. Aí hoje eu fiz um suquinho de laranja lima, diluidinho em água, e coloquei no copinho que ela tanto ama. Viu o copinho e já ficou alegre! Pegou com as mãozinhas, levou à boca e... foi só sentir o cheiro diferente que fechou a cara e virou o rosto. Coloquei em outro recipiente e ela tomou um pouquinho, mas não gostou nada, e ainda deu uma choradinha. Na mesma hora, mergulhou a cabecinha no meu peito, como dizendo: PÁRA MÃE, É DESSE QUIEU GOSTO... Parei, filha, parei na mesma hora. E tá aqui o seu mamá.
Ainda não chegou a hora dela enveredar pelo mundo dos outros alimentos que não o leite da mamãe.
Pra me preparar para a inserção dos alimentos na vida dela, tenho lido muita coisa. As amigas me emprestaram livros, encontrei uns links bacanas e outras mandaram livros em versão eletrônica. Estou lendo no momento "Mamãe eu quero" e "Sem açucar, com afeto", ambos da Sonia Hirsch e, também, a versão em espanhol do livro "Meu filho não come", de Carlos Gonzalez. Aí uma mãe do grupo do qual faço parte mandou um e-mail com um trecho desse livro, já traduzido, extremamente importante para o momento que estamos vivendo, que transcrevo aqui:

"“Oferecer” significa que, se ele quiser comer, o bebê come, mas se não quiser, não come. Muitas crianças recusam tudo menos o seio até 8 ou 10 meses, muitas vezes mais. 

Ufa! Fiquei mais tranquila... não tinha chegado nessa parte ainda. De qualquer forma, continuo lendo bastante a respeito. E na primeira quinzena de fevereiro, vou fazer um curso super legal sobre Leites Vegetais - sim, leites que a gente faz a partir de vegetais como aveia, quinua, etc - pra dar pra Clara e, de quebra, dar um upgrade na minha alimentação, que anda meio deficitária. Aliás, outro dia eu conversei com uma mãe que lê meu blog e  passei pra ela umas receitas que também me foram passadas, de alguns leites vegetais (porque o filhinho dela não gosta de leite de nenhum tipo, inclusive o materno). Percebi que isso poderia interessar mais gente, escrevi pra quem me mandou as receitas, que autorizou na mesma hora que eu publicasse aqui.
Então segue aí embaixo algumas receitinhas de leites vegetais, pra ampliar os horizontes.

"Escolha o cereal para o leite do dia e o complemento saboroso. Exemplo de complementos saborosos ao leite de grãos: damasco desidratado, ameixa desidratada, tâmara desidratada, bananas desidratadas, frutas doces frescas (maçã, pêra, mamão, groselha, manga, etc.), caldo de cana (pros bebês acima de 1 ano) e amêndoas doces.
Os grãos podem ser GERMINADOS ou simplesmente HIDRATADOS. Para saber como germinar clique aqui
Leite de aveia  
Ingredientes:
*1 copo de aveia em flocos ou em grãos integrais (completos)
*4 copos de água

modo de preparo: deixe 1 copo de aveia durante a noite. pela manhã bata no liquidificador com 4 copos de água. coe bem e obtenha 1 litro de leite de aveia.
Leite de arroz integral  
*1 copo de arroz integral (completo)
*3 copos de água
modo de preparo: deixe o arroz de molho durante a noite para hidratar. pela manhã bata no liquidificador com 3 copos de água. coe bem e obtenha aproximadamente meio litro de leite de arroz (depende do tipo e densidade da casca do arroz).

leite de amêndoas
*1 copo de amêndoas com pele
*4 copos de água
modo de preparo: deixe 1 copo de amêndoas hidratando debaixo d'agua durante a noite. pela manhã bata no liquidificador com 4 copos de água. coe bem e obtenha 1 litro de leite de amêndoas.

leite de nozes
ingredientes:
*1 copo de nozes (remover a casquinha no caso de bebês, para tornar o leite mais atraente)
*2 copos de água
modo de preparo: bata no liquidificador 1 copo de nozes com 2 copos de água e você terá de 3 a 4 copos de leite de nozes. (coe tudo no coador de pano)
leite de quinua
ingredientes:
* 1 copo de quinua
* 3 copos de água
modo de preparo: deixe de molho um copo de quinua por 8 horas, e em seguida bata no liquidificador com 3 copos de água. coe cerca de 3vezes para obter meio litro de leite de quinua.

leite de castanha do pará
ingredientes
*1 copo de castanhas do pará
*4 copos de água
modo de preparo: deixe um copo de castanhas do pará pré-lavadas de molho por 8 horas. bata no liquidificador com 4 copos de água. coe por 4 vezes e obtenha 3 copos de leite de castanhas.
leite de girassol
ingredientes:
*1 copo de sementes de girassol sem sal
*4 copos de água
*2 maçãs frescas (pois o girassol é meio amargo então com a maçã fresca na base, o leite-base fica já atraente ao paladar do bebê) 
modo de preparo: deixe um copo de sementes de girassol pré lavadas de molho por 8 horas. bata no liquidificador com 3 copos de água com as duas maçãs, coe bem e obtenha 3 copos de leite de sementes de girassol.

Bom, enquanto isso, vou esperando o tempo da minha filha. Nada de forçar. Aprendi mais uma lição desse universo materno. Ser mãe - Fascículo 18: aprender todos os dias que o tempo é muito relativo e nossos filhos constróem o seu próprio tempo sozinhos. Enquanto isso, tem muito leite da mamãe pra ela (que ela tem usado e abusado, acho que por conta do nascimento do dentinho).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Saiu!!

... o primeiro dentinho saiu!!
Verdade! Saiu o primeiro dentinho da Claríssima!
Sem febre, sem muita loucura, sem muita crise, apenas com um aumento no número das mamadas noturnas!
Eu havia começado a escrever um post sobre a introdução dos alimentos. Tava lá o post paradinho, enquanto eu cuidava dela, quando percebi que ela tinha agarrado minha garrafinha de água (todo mundo sabe: mulher que amamenta tem que virar um aquário: é água o dia inteiro pra dentro...) e enfiado na boca. E tome esfregação, com bastante força. Botei o dedo pra coçar pra ela e tava lá o bichinho! Bem clichêzão, no meinho da gengivinha inferior, a coisa mais fofa do mundo (a mãe mais boba do mundo, também... Mães bobas do mundo, uni-vos!). Ah, desculpa, mas paguei miquinho e chorei.
E pensar que ainda terei mais um monte de emoções dessas...
Vou ali fazer um pernil bem suculento pra ela morder agora.


..... brincadeira....

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Meio-termo, Charles Darwin e os meus genes

Agora cedo eu estava colocando umas coisas na bolsa pra ir trabalhar quando encontrei um papel do qual nem me lembrava mais. É uma anotação que fiz de um artigo científico incrível que encontrei um dia, mas que agora não tô mais encontrando de jeito nenhum pra poder compartilhar aqui (assim que encontrar, venho dar os créditos). O artigo juntava neurociência com a Teoria dos Sistemas Inteligentes Distribuídos, um puta artigo incrível. Abaixo, o trecho que anotei: 
"ter problemas está necessariamente, acima de tudo, em ter inquietação para sentir a necessidade de explorar novos mundos mesmo se a vida não estiver longe do perigo (grifo meu). Os problemas são geralmente mais originados da exploração ativa que da adaptação a um ambiente em mudança lenta (de baixa entropia)".
 e mais:

"Auto-confiança é a capacidade do agente em agir usando os recursos locais disponíveis. Interdependência é a capacidade do agene em obter recursos de outras fontes para poder melhor atuar. O equilíbrio entre auto-confiança e interdependência é a questão-chave de qualquer SID (sistema inteligente distribuído) para manter o conflito em limites aceitáveis e para permitir o surgimento de uma atividade coerente em uma equipe de agentes".

Se eu tenho problemas é justamente por isso: porque eu estou sempre explorando ativamente esse mundo para o qual eu vim e não me acomodo. Talvez minha vida fosse mais simples se eu fosse um cadinho mais acomodada mesmo, mas isso com certeza não faz parte da minha personalidade.
Nada acontece por acaso nessa vida. Encontrei esse papel porque eu tinha que ler isso novamente. E acredito que, depois de muito-muito-muito pensar, de me sentir muito-muito-muito angustiada e de conversar com pessoas com diferentes opiniões, acho que encontrei um meio-termo que resolve meu problema NESSE MOMENTO (pode ser que mais pra frente, frente a outra condição, essa solução já não me seja tão útil, mas aí a gente vê de novo). Meus parceiros de trabalho toparam e vamos fazer um teste.
Mas confesso que, de tudo o que me foi dito por tanta gente querida querendo ajudar (principalmente minha mãe, Guta, minhas parceiras e Luciana M. - que não conheço mas que tem me mandado depoimentos que têm sido muito importantes nesse momento, obrigada!), a frase que mais colocou meus pensamentos no lugar foi dita ontem, quase sem querer:
"Primeiro a gente decola o avião, depois a gente se joga de pára-quedas. Não faz o menor sentido se jogar antes dele subir..." Beijo pro meu parceiraço que, de quebra, é também meu marido!
Vou me matar pra fazer o avião decolar enquanto ganho o pão nosso de cada dia e cuido da minha filha. Mas se tem uma coisa que eu nunca temi foi me dedicar determinadamente a alcançar um objetivo. Foi assim, inclusive, que eu comecei a me tornar quem eu sou hoje lá pelos idos de 1995. E se alguma coisa na nova situação mudar e meus parceiros de trabalho precisarem rever as coisas, aí a gente avalia de novo.
Acho que foi por isso que Charles Darwin, um dia, disse que tem mais chance de sobreviver e deixar descendentes aquele que tiver um pool gênico que permita ser mais adaptável às diferentes situações, e que seja mesmo. Quem tem pouca flexibilidade morre na primeira catástrofe natural, não consegue viver nem um pouquinho no caos. Que bom que eu vim com esses genes... Um beijo pra minha mãe, que os passou pra mim.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Que mundo é esse?!

Como um ser humano faz pra escolher entre duas coisas que ama sem sofrer?
Por favor, alguém pode me ajudar a responder essa pergunta?!
E, pelo amor de Deus, por quê, para uma mulher, ter uma carreira bem sucedida e participar intimamente da criação dos filhos se tornaram coisas excludentes? Por que não posso ser uma puta profissional em atividade na minha área e, ainda assim, estar presente na vida da minha filha, que ainda é uma bebê?! Porra! Que merda é essa?!
Se, na história feminina, sair de dentro de casa, de trás do avental e da mais completa anulação e ir em direção ao mercado de trabalho, ao sucesso, ao topo, foi um salto evolutivo, estamos precisando COM URGÊNCIA de um outro salto evolutivo agora, que permita à mulher ser bem-sucedida e desenvolver todas as suas habilidades profissionais sem ter que abrir mão da presença de seus filhos.
Isso ninguém vai conseguir sozinha, isolada.
Por favor, mulheres, vamos fazer alguma coisa. Vamos encontrar uma forma. Se ela ainda não existe, vamos criar. Homens, nos ajudem nessa, a desenvolver uma forma de continuarmos nossas carreiras com sucesso sem ter que colocar nossos filhos em creches ou terceirizar o cuidado quando nem dentes eles têm ainda. Vocês terão mulheres mais felizes em casa, filhos mais seguros, e uma sociedade melhor.
Nesse momento, eu vou ter que optar. Eu passei 16 anos da minha vida batalhando arduamente pra ser bem sucedida na minha área. Abri mão da presença da minha família para ir estudar em universidades que não ficavam na cidade em que morava. Mudei de cidade muitas vezes, deixando nos lugares amigos queridos, indo em busca do melhor. Muitas vezes me senti sozinha nessa. Passei madrugadas e madrugadas e madrugadas estudando, escrevendo. Ganhei prêmios. Publiquei coisas. Defendi uma monografia, uma dissertação e uma tese. Como outras centenas de mulheres acadêmicas que existem por aí...
Aí eu fiquei grávida, minha filha nasceu, e o mercado de trabalho me chamou. E agora, ou eu a coloco em algum lugar 8 horas por dia para que eu possa continuar de onde parei (ela não tem nem dente, não falou sequer uma palavra, não deu nem o primeiro passo!), ou paro a carreira para ficar com ela, a carreira para a qual eu dediquei minha vida, onde eu fiz tudo direitinho caramba! Tudo porque nós ainda não criamos uma alternativa intermediária. Nós já fomos pra merda da lua*, deciframos o genoma humano, estamos no caminho de encontrar a cura pro câncer, desenvolvemos uma tecnologia que une pessoas dos cantos mais remotos do planeta quase que simultaneamente, criamos nanopartículas que distribuem medicamentos pelo corpo, conseguimos ver o cérebro em funcionamento em tempo real. Mas não desenvolvemos um método para que as mães que têm uma carreira possam conciliar a maternidade com o sucesso.
Que mundo é esse, porra?!
No fim, acaba ficando infinitamente mais difícil pra quem, como eu, deu a vida por uma carreira, do que se eu não tivesse exigido tanto assim de mim mesma, porque agora eu não estaria perdendo tanto. Ou ainda, seria muito mais fácil se eu não quisesse ser uma mãe presente e participante dos primeiros anos de vida da minha filha - que são, SIM, cruciais pro desenvolvimento de um ser humano do bem.
Conclusão do manual de sobrevivência à vida ordinária no planeta Terra: se você não deu a sorte de nascer rica, ou de ficar rica pelo caminho, não se exija muito não, nem queira fazer o melhor em tudo o que você vive, porque isso traz muito mais sofrimento. Tenha uma vida mediana, seja básica, compre o pacote standard. Você vai se poupar de sofrimentos.
Então eu pergunto de novo: QUE MUNDO É ESSE, PORRA?!
Você já viu a cena nojenta do filme A Escolha de Sofia, em que ela vê a filha partir, gritando por ela, e ela não pode fazer nada, porque já fez a escolha e ficou com o filho? É assim que eu tô me sentindo, bicho. E não abra sua boca pra me dizer que tô exagerando. É assim que eu tô me sentindo. Faça o favor de respeitar.

*a lua não é merda não, eu é que tô chateada...

Abaixo, vai uma imagem do dia 22 de setembro de 2010, da deputada italiana Licia Ronzulli. Ela foi à sessão plenária com seu bebê de 1 mês de vida para pleitear melhores condições de trabalho para as mulheres. Todo mundo aplaudiu e tal. Mas, com certeza, nos dias seguintes, ela teve que deixar o bebê com alguém pra voltar ao trabalho... se voltou.

Crise

 "A experiência de gestar, parir e de cuidar de um filho pode dar à mulher uma nova dimensão de vida e contribuir para o seu crescimento emocional e pessoal. Por outro lado, pode causar desorganização interna, ruptura de vínculos e de papéis, podendo, até, resultar em quadros de depressão puerperal. (...) este é o período no qual a autoconfiança da mulher encontra-se em crise. Tornar-se mãe é um ritual de transição e envolve uma reorganização de todos os papéis que integram o autoconceito da mulher. Comentam que diversos sentimentos estarão se mesclando no decorrer dos dias; entre eles pode-se colocar a euforia, o medo, o alívio, a ansiedade, entre outros(1-3). (...)"

Deu pra perceber que não vou falar de filho, né? Vou falar de mãe, da mulher que virou mãe. Vou falar de mim mesma. E pode ser que, sem querer-querendo, eu fale de muitas outras mulheres que andam por aí.
Não tenho dúvida de que a forma de amor mais incrível que eu já conheci - e que nunca pensei que existisse - é esse amor-maior-que-tudo que eu sinto por aquela coxuda que agora está dormindo. Ponto final. Mas isso não impede que eu diga (e sinta): cara, eu tô quebrada.
Não é só um "quebrada" físico não. Eu estou arrebentada. De todas as maneiras que se possa imaginar, mas o que mais pesa mesmo é a quebradeira emocional.
Clara logo fará 6 meses. Foram 6 meses de amor intenso, de descobertas e, também, de completa atrapalhação e tentativa de adaptação - a TUDO.
Ainda não estou no "meu lugar".
Simplesmente porque eu não sei mais qual é esse lugar.
Eu era uma pessoa e sabia bem quem era. Mas de repente, pluft, virei outra. E ainda não sei muito bem quem é essa que eu vejo no espelho... Não gosto mais de muitas coisas que gostava antes, passei a gostar de outras que não conhecia, minha vida mudou em todos os sentidos e isso traz bastante confusão. Profissionalmente, principalmente.
Eu vinha montando uma vida com uma finalidade, vinha montando uma carreira que foi toda esculpida para que um dia eu dedicasse 40 horas semanais da minha vida, das 8 às 18 horas, a ela - isso sem contar as infindáveis horas de trabalho em casa, porque todo mundo que é da área sabe que na academia a gente acaba trabalhando a noite, sábado e domindo, além das 40 horas que nos é exigido. Eu vinha montando uma carreira acadêmica e focando incessantemente no sucesso dela.
Mas agora esse modelo não me serve mais... Porque isso significaria ter que enfiar minha filha numa creche das 8 às 18 e saber pelas professoras, na hora de ir buscá-la, quais foram as novidades que ela apresentou no dia. E eu simplesmente não posso viver assim.
Tá, mas e aí? Como eu fico agora? Aí é que está: não faço a menor ideia... Só sei que assim não vai dar pra ser simplesmente porque eu não consigo. Achei que fosse conseguir, mas antes de ser mãe eu não sabia nada sobre isso, sobre como eu me comportaria como mãe e profissional.
E embora eu me sinta muito sozinha nesse dilema interno, muito angustiada sem saber qual é o meu novo lugar no mundo, e essa angústia gere muita solidão, infelizmente não estou sozinha não. Existe um sem número de mulheres passando por isso também, muitas de maneira muito semelhante.
Aquele trecho que transcrevi lá em cima está em um artigo científico publicado em 2006 por um pessoal da USP. Foi também nesse artigo que encontrei  esse outro trecho:

"Ao dar conta do nascimento do bebê, a mulher passa a apropriar-se da nova situação e conscientiza-se de que o bebê é totalmente dependente dela. Assim sendo abre mão de tudo conforme pode-se perceber em algumas falas que compõe a categoria assumindo responsabilidade pelo bebê:
Se eu precisar acordar dez vezes à noite, eu acordo. A gente supera o cansaço, pois é uma coisa muito forte. Tudo fica em segundo plano. Meu mestrado vai ficar para a hora que der. Agora, ele é minha
prioridade. Então, tudo na vida fica em segundo plano ... (Luiza)"

Luiza sente o que eu sinto.
E o que muitas outras mulheres sentem (inclusive uma amiga que vai ler isso e vai se identificar, já sei). Luiza não precisa explicar porquê o mestrado dela vai ficar pra outra hora, em segundo plano, porque eu entendo muito bem o que ela quer dizer e o que ela está sentindo. Mas muitas mulheres no mundo voltam a trabalhar quando o bebê é muito pequeninho ainda, como a minha filha. Muitas fazem isso. Eu sou uma mulher como elas, portanto devo fazer isso também.
Espera, muita calma nessa hora.
Não. Eu não sou. Nunca fui. Não sou nem melhor, nem pior. Mas assim não consigo fazer. Afinal, todas somos diferentes, não? Nesse momento, eu não vou conseguir colocá-la numa creche. Ela tem 5 meses e precisa de mim. E, como disse uma pessoa que já considero uma amiga pessoal, "o mundo está precisando de pessoas que cuidem mais atentamente e presencialmente de seus filhos".
Depois que eu amamento minha filha, eu a levanto e ela tomba no meu ombro direito, desmaiadinha e entorpecida pelo leite. Deita a cabecinha no meu ombro, eu afasto a cabeça e, com o canto do olho, fico olhando pra ela ali, entregue. E é exatamente nessa hora que eu começo a desconfiar qual é o meu novo lugar no mundo. E até sei quem está nele...
Como o próprio texto lá em cima disse, estou muito desorganizada internamente, muitos papéis e vínculos que assumi antes foram quebrados, e às vezes fico mesmo muito chateada por não saber mais qual é o meu nicho ecológico. Em crise mesmo. Estou passando por um ritual de transição e, também como o texto, estou reorganizando todos os papéis que integram o meu autoconceito de mulher. Mas, pra mim, esse autoconceito de mulher está definitivamente ligado a estar com a minha filha. Se eu não puder estar com minha filha, então não quero estar.
Sim, estou na mais absoluta crise, mergulhada nela até o último fio do meu cabelo, agora novamente ondulado. Mas CRISE, em grego, significa um conjunto de situações de alguma coisa que está em mudança. Estar em crise significa que se está mudando de uma forma inédita, que ainda não havia sido mudada.
Infelizmente (ou não), não nasci em berço de ouro. E, felizmente, não saí por aí procurando marido rico. Então não posso agir enlouquecidamente. Mas se tem uma coisa que eu sou é obstinada. E persistente. E, até, inteligente. Ou eu uso tudo isso em prol da minha qualidade de vida e da vida da minha familia, ou eu pego essa porcaria de título e jogo no lixo.
Sim. Talvez eu vá sair da caixa. Mais uma vez...
Fácil não vai ser. Nem um pouco. Mas quem disse que essa vida seria fácil?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pesquisa e sorteio

 As Véia, personagens do chargista e cartunista Frank Maia, o Clara-Pai

Pessoas queridas!
Estamos fazendo uma pesquisa e sua ajuda será valiosa! Participe dela respondendo a um questionário rápido e simples. Quem participar vai concorrer a uma caneca ilustrada com as personagens As Véia, do chargista e cartunista Frank Maia (arrã, ele, meu namorado, marido, papai da Clara e tudo mais). É super fácil, não requer prática e tão pouco habilidade. É só clicar aqui que a pesquisa abre.
Obrigada pela ajuda e participação!

E ele também faz Quiança, como vocês já sabem... (ã? ã? pegou?)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Salto de desenvolvimento, ou "o duplo twist carpado"

Desde a semana passada, e um pouco até os dias atuais, Clara tem tido uns comportamentos diferentes. Do nada quer mamar, acorda no meio da madrugada pra dar uma choradinha (que passa com um colinho e uma musiquinha cantada pela mamãe), acorda a cada hora pra mamar na madrugada, uma loucura... Isso não é típico dela, que é uma criança tranquila e, na madrugada, acordava no máximo duas vezes pra mamar, mamava e capotava de novo. Eu não encano com isso, porque sei que basta a gente encanar pra coisa virar monstro. Mas estava só observando e percebi que ela estava, mesmo, diferente.
E aí eu notei, também, com grande alegria, que os últimos 10 dias foram revolucionários na vida dela. Ela deu uma mudada muito grande, de maneira geral: engordou muito (quase 1 kg em 1 mês), cresceu bastante, está passando os objetos de uma mão pra outra, vira sozinha quando colocada de barriga pra baixo, chupa o dedão do pé e fala o dia inteirinho. Não sei o quê, não entendo a língua, mas fala o dia IN-TEI-RO.

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  Uma pequena amostra do conversê diário, que eu adoro.
E, desde anteontem, grita beeeem alto. E muito. Está tomando água no copo (como vocês já viram) e anteontem chupou - bem forte - água com canudinho.

 Água no copo de vidro, de canudinho, de todo jeito... Adora água!

 Agora, sempre que estamos em algum lugar e o garçom vem trazer as bebidas, ela não pode ver os copos sendo colocados que começa a gritar e só para quando damos um copo com água pra ela beber também! Tá uma coidiloco essa guria. Esperta, engraçada, sorri pra todo mundo, faz amizade com as pessoas do lado, tá muito bacana. Estou imensamente feliz por estar vivendo a que eu considero a fase mais legal dela até aqui. Mais legal e mais bonita, porque ela tá lindaça: redonda, corada e cheia de dobras, a minha pequena perna-de-morcilha.
Foi então que eu juntei tudo e me toquei que os dias de comportamentos anormais foram dias de em que o cérebro dela estava se remodelando. Pra quê? Para um grande salto de desenvolvimento.
Sim. Bebês dão saltos de desenvolvimento e talvez você já tenha ouvido falar nisso. São momentos de grandes e marcantes mudanças, que ocorrem de tempos em tempos desde que os pequenos nascem. Na verdade, são momentos em que acúmulos de novidades aparecem juntos, frutos de um maior desenvolvimento neuronal e no surgimento de novas conexões. Tem gente que diz que esses saltos são precedidos por "crises", mas eu não gosto desse nome, porque não acho que seja uma crise. É apenas um momento de comportamento diferente no meio do que já era bem conhecido, totalmente administrável. Passado isso, vem a enxurrada de novidade. E aí parece que eles acabaram de chegar de um intensivão sobre comportamento humano e é uma loucura acompanhar tanta mudança.
Estou bem espantada com a quantidade de novidades em 1 semana. Ela já andava com as pernas bem durinhas, mas esses dias eu a coloquei de pé, entre os meus pés, e com a minha ajuda ela trocou passinhos.
 Clara em pé com a mamãe (eu te desafio a contar o número de dobras das perninhas-de-morcilha)
 Já está sentando e ficando mais tempo sem tombar pro lado, sozinha sentadinha.

Sentadinha, segurando com a mãozinha pra não tombar, a pequena-torre-de-pisa

Fui dar banho no balde, e nada de querer sentar, ficou lá com as pernas que pareciam duas morcilhas duras, sem dobrar. No banho na banheira, a mesma coisa, estica a perna e fica deitada de bruço na transversal, segurando nas bordas, como um pequeno polvo endurecido. Nessas horas, ela percebe que está fazendo coisa nova - e esquisita- e ri muito.
Andei pesquisando sobre esses saltos de desenvolvimento e descobri que eles acontecem de tempos em tempos mesmo, a ponto de terem criando uma espécie de calendário. Eu não gosto muito disso porque é como se todos os pequenos fossem colocados no mesmo saco, sacudidos, e no fim todo mundo tem que se comportar da mesma maneira. Aí, quando tem um mais aceleradinho ou outro mais tranquilão, lá vai a mulherada achar que os bichinhos estão cum pobrema. Esse negócio de generalização é uó. Mas também, se conseguiram montar um calendário, é porque muitos bebês se comportam dessa maneira. Então vou colocar aqui o que encontrei, mas apenas para fins de informação. Os momentos que são chamados de "crise" e que precedem os saltos de desenvolvimento acontecem, mais ou menos, nos seguintes períodos: 5 semanas; 8 semanas; 12 semanas; 19 semanas; 26 semanas (nóis mais ou menos aqui); 30 semanas; 37 semanas; 46 semanas; 55 semanas; 64 semanas; 75 semanas.
Pode ser que não seja exatamente assim, mas é bom saber que isso existe.
E já que estamos falando sobre saltos de desenvolvimento, é bom saber, também, o que fazer quando a criança passa por esses marcos de desenvolvimento motor e cognitivo. Encontrei um artigo muito bacana sobre desenvolvimento de crianças de 0 a 15 meses, de alguns autores da pós-graduação em psicologia da PUC do Rio Grande do Sul. É um artigo de revisão de 2010, super atual então. Clicaqui e guardaí.
Ficaí a dica.
E só pra me tranquilizar definitivamente, especificamente na madrugada de hoje, ela já está dormindo há 6 horas ININTERRUPTAS, sem nem parar pra encher o tanque.
Sim, já fui lá espiar.
Tá respirando.
(PS1: eu faço isso várias vezes, de espiar pra ver se a barriguinha tá subindo e descendo. Você também faz ou só eu que sou louca retardada?)
(PS2: depois de dormir assim tantas horas seguidas, tô até com medo de como ela vai acordar amanhã. Capaz que acorda, dá um duplo twist carpado, me dá bom dia e passa a cotação do dólar).

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Leite materno e água no copo

Sim, o único alimento dela há exatos 5 meses e 13 dias é o leite materno, dado muitas vezes por dia, algumas por madrugada, quando ela quiser, e vai seguir assim até o sexto mês, como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS). Está cheia de dobrinhas, lotada de celulite-do-bem (celulite infantil é sempre "do bem"; não me pergunte qual é a "do mal" que eu não respondo), saudável como um pequeno tourinho (mamãe tá doente e ela não tá nem aí, nem tomou conhecimento), extremamente bem-humorada e sorridente e é uma criança muito tranquila. Embora eu já esteja estudando sobre isso, não terei pressa alguma em fazer a inserção dos novos alimentos, porque até 1 ano de idade, os alimentos são figurantes e o leite materno continua a ser protagonista total, o mocinho do filme. A OMS diz pra não dar nem água.
Estou ligadaça nos sinais que ela vai me dando ao longo do fascinante desenvolvimento dela e já tinha notado o quanto ela se interessa por água, nadável ou bebível. Começou experimentando a água do banho, a aqualoca kamikase, e foi embora... Quando ela completou 5 meses, não resistimos, e oferecemos água no copinho pra ela provar. Ficou fã. Ficou fãzaça.  Mas repito que a OMS diz "amamentação exclusiva até os 6 meses", ok? Hoje conseguimos registrar.

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Clara (linda!) dando um show no quesito "eu tenho meu próprio copo e seguro com minha própria mão". Atente para o bico! E para como ela acompanha o copinho com os olhinhos, mostrando interesse. E como engole direitinho. E como segura firme com a mãozinha. E como fica brava quando tiro o copinho. E como a mãe é uma babaca coruja que baba na filha...

Se você é mãe, está grávida ou pretende ficar, faça o que a OMS sabiamente recomenda:
1) amamente exclusivamente seu filhote durante 6 meses e prolongue a amamentação até 2 anos (claro, se for possível pra você)
2) inicie a amamentação nas primeiras horas de vida do seu bebê
3) amamente sob demanda, ou seja, todas as vezes que a criança quiser, dia e noite
4) não ofereça mamadeiras nem chupetas

Não é babaquice não, minha cara. É fruto da análise de pesquisas recentes sobre o assunto. Se você quiser ler o documento oficial da OMS sobre amamentação, é bem facinho: é só clicar aqui. Tem que ler, negona!!
É, fia, ser mãe dá trabalho. Mas vale a pena, não vale?
Olho todo dia pra ela e pras novidades que ela nos apresenta e respondo em alto e ótimo som: VALE!
A novidade dos últimos dias é: ela tá falando ininterruptamente (naquela língua dela lá, que só ela e a Dori conhecem, o baleiês). Para só pra dormir e mamar. Tá, mas isso é assunto pra outra hora. Agora, o amor me chama: vou lá amamentar.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Banho de balde

Dar banho de balde nos bebês virou um hit, ficou pop, tem um monte de mães usando. Algumas porque foram atrás de outras possibilidades de banhos, conheceram o banho de balde e quiseram aprender sobre. Mas outras mães (confia em mim, eu já ouvi essas coisas) dão banho de balde em seus bebês porque "ah, tá todo mundo falando nisso, as famosas estão usando" ou "porque eu vi na tv" ou ainda "eu não sei bem se tem benefício, mas como estão dizendo que tem, eu dou". Deus ajude pra que ninguém na tv diga que a Angelina Jolie ou alguma outra mega famosa passa cocô de pombo em seus bebês, senão a galera vai começar a passar também...
Eu conheci o banho de balde ainda grávida, quando estava estudando sobre outras possibilidades relacionadas a bebês. Vi vídeos e li bastante coisa a respeito.
Banho de balde nos bebês traz, sim, benefícios. Além de ser divertido e de ajudar a refrescar nossos pequenos filhotes homeotérmicos em dias como os de hoje, em que parece que o sol está a apenas 2 quilômetros do seu telhado.
O banho de balde não é uma coisa nova - principalmente se você foi uma criança bem arteira que se enfiava em tudo quanto era lugar que tinha água (a gente tinha um tonel na chácara que recolhia a água excedente que a bomba do poço mandava pra caixa d'água e eu vivia me enfiando lá, de roupa e tudo).
A primeira vez que dei banho de balde na Clara ela tinha quase 2 meses, era bem piquititinha e eu tive que ficar segurando. Estava bem frio por aqui, então eu liguei o aquecedor no quarto, coloquei o baldinho em cima da bancada onde está o trocador e os parangolés de higiene, beleza e estilo, e coloquei a pequena dentro, que estava com uma crise de cólica horrível e não parava de chorar. Fiquei segurando pela axila e pela cabecinha e ela lá, com a aguinha até os ombrinhos. Relaxou, parou de chorar, mamou e dormiu. E eu quis colocar o balde num altar, mas não combinou com a decoração. Depois a gente quase não usou mais, porque ela gosta tanto de tomar banho na banheira - acho que porque lá ela pode bater os pés, as mãos e tudo  mais que ela encontrar pela frente - que deixamos o balde quieto num canto.
O verão chegou e voltamos a usá-lo. A primeira vez foi na casa da vovó (eu me lembro de ouvir minha mãe dizendo, quando eu estava grávida, que iria comprar um balde pras crianças tomarem banho...). E nesses dias de calor insuportável, o balde tem salvo a Clara de uma irritação generalizada causada por calor, porque além de tudo é prático, dá pra usar toda hora.
Hoje ela foi pra lá duas vezes. Lá, ficou conversando com a gente na língua dela, brincou com os brinquedinhos, bateu muito a mão na água e, em ambas as vezes, saiu, sequei, mamou e dormiu. Bem relaxadinha e fresquinha. Salve o balde!
Sobre os benefícios: quando o bebê é micro ainda e chegou há pouco do útero, o balde, com seu formato e  água quentinha, o faz lembrar do ambiente em que estava até então. É um pouco diferente da banheira porque restringe os movimentos, o fazendo se sentir mais seguro. Ele fica com as perninhas encolhidas, o que o faz lembrar ainda mais do ambiente uterino. Essa memória afetiva agradável ajuda a liberar substâncias chamadas endorfinas, que são substâncias ligadas ao prazer e que, sendo liberadas no cérebro, melhoram o estado emocional dos bebês e diminuem as dores - por isso do banho de balde ser indicado para o caso de cólicas. É por isso que a maioria dos bebês relaxa após um belo banho de balde. Depois que o baby cresce, o banho de balde continua a ser prazeroso, principalmente quando ele já consegue ficar sentadinho sem que ninguém precise segurá-lo - é o caso da Clara. Antes, ela ainda segurava com um dos bracinhos. Agora, se libera geral: entrou, sorriu, curtiu!
Se você tem bebê e nunca tentou, tente, é muito legal e faz muito bem. Ah, e uma observação: tem pra vender um que se diz "oficial". É o Tummytub. É, digamos assim, um baldão metido a besta. Ele é bem legal mesmo, mas custa ozóio. Quem quer comprar o chique, compre. Quem não quer (ou não pode) gastar essa grana toda, pode comprar um balde bem resistente e no tamanho adequado, que faz a mesma função. Mas escolha um que seja reforçado, não vai avacalhar também... E deixe esse balde reservado só pra isso, não vai revezar, um dia bebê, um dia pano de chão, que não vai dar boa coisa (embora pareça desnecessário falar isso, SEMPRE é bom dizer). Não esqueça das seguintes dicas: água na altura dos ombrinhos já está ótima (não esqueça que, quando colocar o bebê, a água vai subir, então não deixe muito cheio, que nem a tansa aqui fez da primeira vez, aí vazou por tudo e foi uma esbórnia); coloque um tapetinho embaixo, pra não escorregar; água morna é o ideal, embora no verão uma água fresquinha também seja show. E olho neles! Porque tem bebês mais destemidos que, propositalmente, abaixam a cabeça pra enfiar toda a carinha na água. Nem vou contar quem fez isso hoje... como ela viu que não era uma boa, depois só ficou colocando a linguinha pra provar a água. Não adianta ficar com paranóia do tipo: "ui, a água não é filtrada e tem bactéria!" Tá vivo, nega, tá correndo risco. Deixa a criança curtir!
Ó a minha frô hoje, usando o balde pra se refrescar desse calor de Nero.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Privatizações

Não. Não vou falar da Petrobrás. Nem da Vale. Vou falar de blogs amigos de pessoas bacanudas que estão privatizando seus blogs. Estou há uns dias meio desconectada, só entrando de vez em quando, postando coisinhas aqui, outra lá, em ritmo de férias. Aí fiquei um tempinho sem visitar os blogs amigos e, hoje, dando uma zapeada, tomei um susto.
Alguns blogs que leio - alguns dos quais nem estão na minha lista de sugestões por puro descuido - foram colocados em modo privado. Para lê-los, tive que mandar um e-mail solicitando participação e aguardar autorização (só faço isso porque gosto desses blogs mesmo). Conversei com algumas blogueiras e, embora tenha ficado chateada por essas privatizações, que limitam um pouco a troca entre as mães blogueiras e deixa um clima esquisito no ar, entendi perfeitamente o ponto de vista delas - e até concordo, de certa maneira. Mas, até que o contrário se faça necessário (o que eu espero que não aconteça), meu humilde bloguinho não será privatizado e continuará público, ou seja, aberto pra quem quiser ler. Isso porque ele me tem servido como uma ferramenta de comunicação e troca muito bacana. Conheci muita gente do bem assim, muita gente querida, e sei que tem mamães que chegam aqui pra ver se têm alguma diquinha nova, além dos amigos que acompanham a minha experiência como mãe e as coisas bacanas da minha filha.
Mas aí eu realmente fiquei pensando num troço, depois de ler o post da Dani (do Mãe Perua) e ter visto o que ela encontrou por lá, e fui ver se tinha acontecido algo parecido por aqui. O blogger tem uma ferramenta estatística que nos permite ver o número de visualizações por semana, dia, e tal, bem como a origem dos acessos e quais palavras têm sido utilizadas em buscas que levam ao blog. Até agora eu tenho me divertido bastante com isso e achado bacana, porque buscas com expressões como "leite materno sobrando", "bebê creizi", "amor de bebê", "amamentação prolongada", "parto humanizado", "meu namorado é meu marido" (essa eu gostei sobremaneira), "pink e cérebro", "hemisférios cerebrais", entre outras, têm levado ao meu blog - e nenhuma palavrinha relacionada à merda da pe-do-fi-lia* ou doenças bizarras do gênero (o dia que isso acontecer, privatizo imediatamente meu blog). O blog tem alcançado cerca de 300 visualizaçõdes por dia, sem contabilizar entradas repetidas no mesmo dia a partir do mesmo IP. Pô, é muito isso, pra quem achava que tava falando pruzamigo.
Aí eu fiquei pensando: quem é esse povo todo? Porque são 300 visualizações, mas nos comentários são sempre os meus amigos conhecidos...
Então eu queria saber: quem é você, meu caro visitante?
Onde mora? Como chegou até aqui?  É mãe?
Queria te convidar a responder a essas perguntas, por meio de comentários neste post. Todos os comentários que recebo são moderados. Portanto, se você não quiser se expor, pode responder mesmo assim que eu leio mas não publico, se assim você quiser. Vai ser muito bom conhecer alguns desses ilustres visitantes...
Mesmo porquê, se o número de comentários for muito inferior ao número médio de visualizações, vou ficar pensando: quem são essas pessoas? E aí já viu... Sou um bicho desconfiado, vou ficar encafifada com isso. Capaz que tenho um surto, me junto às amigas blogueiras e privatizo o blog, no melhor estilo Governo FHC.

*escrevi aquela palavra em sílabas porque, se um doente desses digitá-la num site de buscas, pelo menos não chega até aqui...
Não sei quem é o autor da charge lá de cima, mas a encontrei nesse blog.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Saindo do óbvio - a constante busca de novas possibilidades

Estou adorando minhas primeiras férias como mãe, embora sejam férias como nunca havia experimentado antes. Antes de ser mãe, nas férias, eu ficava descansando e praticando o nadismo por horas a fio, e isso me dava a sensação de que estava realmente descansando. Dormia até algumas partes do corpo fazerem bico, não tinha hora pra nada e fazia um monte de nada. Agora, tive que criar uma nova forma de descansar, mesmo que, em plenas férias, eu tenha que fazer um montão de coisas relacionadas à minha filha (ou não). Minha nova forma de descansar é: curtir todos os segundos e todas as pequenas coisas dela, fazer o que gosto com gosto e parar de me cobrar. E isso está me deixando mais descansada do que poderia imaginar. Nesses dias de férias, tenho pensando bastante nas incríveis experiências que a maternidade tem me proporcionado desde a gravidez. E cheguei a uma conclusão extremamente séria.
O que falta às mulheres que se tornam mães é informação fora do óbvio.
Porque, quando se fala em gravidez, filhos e afins, todo mundo acha que já sabe tudo sobre, e a mãe novata, se estiver distraída, simplesmente segue o fluxo e reproduz tudo aquilo que é mais comum, muitas vezes sem se perguntar "será que existem outras possibilidades?".
Façamos um exercício. Pensemos em quais são as primeiras coisas que vêm à cabeça quando falamos sobre algumas coisas relacionadas à função materna ou paterna. Ficaria mais ou menos assim:
parto - hopitalar
febre e dor - antitérmico e analgésico
lugar de criança passear - carrinho
lugar de criança dormir - berço
forma da criança beber - mamadeira
xixi e cocô de criança - fralda, e descartável
lugar de criança tomar banho - banheira
excesso de colo - mimo
leite materno escasso - complementação
E mais um monte de outras associações possíveis. 
Mas o que eu gostaria que todas as mães do mundo tivessem oportunidade de saber, como eu felizmente tive, é que não precisa ser assim tão pré-determinado. Mas ó: dá trabalho sair do óbvio e ir atrás de outras possibilidades. A gente tem que sair da nossa zona de conforto, às vezes tem que confrontar nossos próprios pré-conceitos, chegamos a ouvir muita besteira de quem discorda mesmo sem conhecer nada a respeito, temos que ter paciência e dedicar um tempo a estudar isso. É beeeeeeem mais fácil continuar no óbvio, concordo. Mas posso dizer sem medo de errar que as recompensas não são tão abundantes. 
Na verdade, na verdade, fazendo o óbvio ou indo atrás de outras possibilidades, os filhos de qualquer maneira vão crescer (uma vizinha um dia nos disse isso e a gente ficou meio chocado). A pergunta é: como você quer que seu filho cresça? Quando, lá no início da minha gravidez, eu me perguntei isso, me veio à mente aquele pensamento religioso que diz que, quando voltarmos pro local de onde viemos, a Força Maior nos perguntará: "O que fizeste com as almas que vos confiei como filhos para amar e educar?". Sempre me pergunto isso. Eu posso responder: dei uma mamadeira, troquei a fralda e joguei no mundo. Eu posso responder: perdi pelo caminho. Eu posso responder: cuidei da melhor maneira que pude. Eu posso responder um monte de coisas diferentes. A questão é saber o que você QUER responder. Eu, particularmente, quero responder: fiz o melhor que pude, saí do meu comodismo, fui atrás, me desafiei, tive a humildade de perguntar pra outras pessoas se existiam outras possibilidades, testei outras possibilidades, mudei minha própria filosofia e quebrei meus próprios paradigmas. Se deu certo? Não sei se deu, mas o caminho foi muito bem feito, com amor, respeito e valores estritamente humanos. 
Por que estou falando sobre isso?
Porque desde o início da gravidez tenho me deparado com novas possibilidades de criar filhos que são totalmente diferentes daquilo que eu sabia (que também não era muito). A começar pelo parto. Eu achava que parto era hospitalar. Descobri  que existiam outras possibilidades.  E o meu encontro com novas possibilidades não parou por aí. De forma que, hoje, sou feliz por poder dar outras respostas àquela lista de coisas que mencionei no início.

parto - hospitalar, domiciliar, ou onde a mulher puder se sentir dona de si e de seu corpo e não à mercê de uma equipe médica que a trata como apenas um detalhe, ou mais uma na fila econômica dos nascimentos do dia
lugar de criança passear - carrinho é o mais conhecido. Mas tem duas novidades por aí que prometem revolucionar a maneira de carregar bebês. Uma é o colo. Conhece? A outra é o sling. Essa você realmente pode não conhecer, embora tenha mais de mil anos de uso...
xixi e cocô de criança - fralda. Ou não. Durante minha gravidez, ouvi falar em duas coisas que, de primeira, rejeitei. Claro que rejeitei sem nem conhecer, o que é absolutamente comum. Uma é o diaper free, ou elimination communication. É um conceito profundo que fala, de maneira bem resumida, sobre como criar crianças sem fraldas, baseado em observar e conhecer os sinais que seu filho manda para ler o comportamento de eliminação dele. A outra coisa é o uso das fraldas de pano. Eu quero muito aprender a primeira técnica, muito. Mas ainda não me abri totalmente - faço aqui o mea culpa. Não sei nem porque não me abri ainda, já que hoje admiro muito a prática e concordo com suas premissas. Aí, aprendendo a usar a primeira, usar a fralda de pano ficaria fácil fácil... Às vezes me sinto meio mal de não ir a fundo nisso, me sinto acomodada, mas já aprendi que "temos nosso próprio tempo".
lugar de criança tomar banho -  na banheirinha, no balde, no colo dos pais e no chuveiro desde bem novinhos, de um monte de formas que podem deixar o bebê mais à vontade ainda e tornar o momento do banho uma coisa super prazerosa.
excesso de colo - fundamental, se você quiser criar pessoas seguras, que confiam firmemente em seus pais, tranquilas e, principalmente, que tenham absoluta consciência do quanto são amadas.
leite materno escasso - complementação sim, se for mesmo necessário. Mas só depois de tentar um monte de outras coisas que vão ajudar infinitamente na produção de leite. Dei algumas dicas aqui no blog já, mas tem mais um monte de outras coisas pra fazer, embora não espere que o obstetra ou o pediatra vá te falar, minha nega. Infelizmente, tem muita mãe que não sabe disso, simplesmente porque ninguém falou pra ela (ou porque ela não foi tão atrás assim, isso varia muito, de pessoa pra pessoa). 

Este post começou a surgir mentalmente hoje, quando algumas amigas começaram a dar algumas sugestões - nada óbvias - para uma questão que estou vivendo agora e, também, porque eu vou experimentando (sem medo de não dar certo) coisas que minha intuição vai me sugerindo. A primeira questão que apareceu nos últimos dias foi: Clara não cabe mais no carrinho em que ela dormia a noite, do lado da nossa cama. Alternativa óbvia: começar a dormir no berço dela, no quarto dela, longe da gente. Não queremos o óbvio, novamente. Queremos que ela continue a dormir conosco. Mas o berço não cabe no nosso quarto e não queremos adotar cama compartilhada, porque ficamos muito tensos com medo de machucá-la a noite. O que fazer? Perguntei pras amigas e cada ideia genial surgiu!! Até que a Gabi (ó lá, Gabi, vc de novo, contribuindo para minha quebra de paradigmas) me sugeriu um site que fala sobre Quartos Sem Berços, novas possibilidades para crianças dormirem além dos berços (fui ler mais a respeito e descobri que a grande precursora disso foi Maria Montessori, veja você...). A outra questão que também me ajudou a sair, novamente, do óbvio aconteceu hoje. Clara tomou 5 vacinas filhas da puta (desculpa o palavrão, mas fico muito puta da minha vida e quero matar alguém cada vez que vejo minha filha sentir dor!). Aí ela ficou chorosinha, coitadinha. Ela nunca toma remédios, nunca, mas hoje tive que dar um analgésico no meio da tarde, que foi de grande valia. A dorzinha passou e ela dormiu. Mas a noite, quando acordou, acordou com dor e chorando (sim, eu estou avaliando essa questão das vacinas, com calma e muita pesquisa). Não quis dopá-la de novo. Fiquei pensando o que eu poderia fazer e aí tive uma ideia, baseada nos sinais que ela vêm me mandando nos últimos dias: fui na cozinha, peguei um copinho bem pequenininho, coloquei água filtrada, voltei pro quarto e ofereci a ela. Foi um dos momentos mais marcantes do desenvolvimento dela: eu e o namorado ficamos ali encantados, vendo ela parar de chorar, beber a água com prazer, sorrir, olhar pra gente como agradecendo, lambendo a aguinha, empurrando o copinho com a própria mãozinha dela. Foi demais. Parou de chorar em função da novidade e deu tudo certo.
Portanto, saindo do óbvio, hoje estou pensando em reestruturar a maneira dela dormir. Vou pensar direitinho amanhã, olhando o meu quarto, em como posso reorganizar as coisas por lá para que ela continue com a gente (ela já está dormindo no colchãozinho ao lado da nossa cama, mas quero aperfeiçoar a técnica). E, também saindo do óbvio, hoje vi que tomar água pode ser tão prazeroso, pra ela, que funciona como um remedinho. Aí eu posso até completar o que ficou faltando daquelas possibilidades lá:

febre e dor - antitérmico e analgésico, mas também aguinha dada num copinho, com papai e mamãe dando toda a atenção e carinho que a situação de dor solicita
lugar de criança dormir - berço, colchão, cama dos pais, cafofinho da vovó, ou outra alternativa fora do óbvio que a gente inventar
forma da criança beber - copinho, que tal?

Em resumo, tenho apenas um conselho para as mães novatas como eu (e também para as mais experientes, por que não?): perguntem-se, sempre e sobre todos os assuntos que dizem respeito à vida dos seus filhos: EXISTEM OUTRAS POSSIBILIDADES?
Se você descobrir que existem, abra sua mente para conhecê-las. Você pode ter uma grata surpresa e seu mundo pode mudar pra melhor.
Se você descobrir: COMPARTILHE! Escreva a respeito, mande um e-mail pras amigas, ligue pra contar, mas compartilhe uma boa possibilidade... fora do óbvio.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

De Celina à Dilma - uma mulher presidente

Ontem, dia primeiro de janeiro de 2011, como todo brasileiro sabe (ou deveria saber), uma mulher assumiu o governo do país. Sem apologias ou contra-apologias à senhora Dilma Rousseff, estou muito feliz por isso. Não votei na Dilma, porque afinal justifiquei; mas mesmo que tivesse tido a oportunidade, não seria dela o meu voto (nem do Serra, aquele coitado). Mesmo assim estou feliz por isso. Vi algumas partes da cerimônia de posse e me emocionei. Hipocrisia? Não. Consciência histórica brasileira. Uma mulher presidente do Brasil é, sim, algo muito emocionante, pelo menos pra quem é mulher com algum tipo de consciência política (nem precisa muito, vai...).
Há 80 anos atrás, nem votar uma mulher podia nesse país. Aí, em 1927, uma mulher, professora, chamada Celina Guimarães foi a primeira mulher a votar, na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, estado pioneiro nisso. Mas era uma decisão regional e foi apenas em 1932 que o Código Eleitoral Provisório deu direito de votos às mulheres. E, ainda assim, um direito manco: só viúvas e solteiras com renda própria podiam votar, além das casadas mediante autorização do marido - pasmem! Mas, nesse tempo, ainda era mais ou menos assim: "Ó, mulé, só vota se quiser tá? Mas nem precisa, relaxa, nem é muito importante", porque só o voto masculino era obrigatório. O feminino se tornou obrigatório em 1946.
Então, daí a termos, hoje, uma mulher eleita, é muito avanço. Claro que isso não significa que todas as mulheres que já foram eleitas para algum cargo político são dignas de admiração - tenho vergonha alheia de seres femininos como a Marta Botox Suplicy, a do "relaxa e goza" (sem noção...), por exemplo. Mas estou realmente satisfeita por termos hoje uma mulher presidente. Fui até tentar sanar uma dúvida minha, sobre se era presidentA ou presidentE e descobri que ambas as formas estão corretas. Mas prefiro usar presidentE, pra reforçar o fato de que não existem diferenças MESMO, além das diferenças anatômicas, hormonais e de yin e yang.
Quando as mães da minha geração eram pequenas, não era muito comum elas quererem ter profissões fora do lar (sempre me lembro do filme "O Sorriso de Monalisa" quando penso nisso). As que queriam (pelo menos um grande número delas), queriam ser professoras. Naquele tempo, ser professora ou professor era um grande feito - infelizmente isso mudou, muito infelizmente mesmo. Quando as meninas da minha geração eram pequenas, a gente já ousava mais. Lembro-me de ouvir que minhas amigas queriam ser médicas, professoras, arquitetas, dentistas e tal. Eu mesma, não sei nem porquê (juro, não faço a mínima!) quis fazer engenharia aeronática (oi?). Pois é. Eu queria mesmo, embora hoje nem saiba porque... Mas naquela época (que nem é tanto assim, vai) o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) não aceitava mulheres, olha só. Aí eu desisti. Hoje já aceita. Aí depois eu quis fazer Educação Física, porque treinei como atleta federada a minha vida inteira. Mas desisti. E resolvi fazer Biologia movida por minha imensa paixão pela ciência e pelo organismo humano. Mas nunca me ocorreu, por exemplo, ser presidente - do Brasil, eu quero dizer, porque da rua eu fui vááárias vezes. Eu ouvia os garotos falando "eu quero ser presidente do Brasil" e me lembro de pensar "puxa, eu não posso porque sou menina...". Eu nunca ouvi ninguém dizer isso, que menina não podia ser, mas é que eu só via homens lá, então achava que não podia. Eu gostava - e adoro ainda hoje - a Mafalda, do Quino, justamente porque ela é uma menina cheia de consciência política e que vive dizendo "se eu fosse presidente...".
Bom, acho que todo brasileiro, nesse momento, deveria estar colocando toda a sua boa energia no desejo de que a Dilma faça um bom governo, não importa em que direção vai o seu pensamento, se pra direita, pro centro ou pra esquerda. Porque, afinal, será no nosso feofó que a coisa vai estourar caso ela não o faça. Então, torcer por um bom governo em mais essa do PT é, também, advogar em causa própria.  Tenho visto muita gente praguejando contra a Dilma ter sido eleita. E, infelizmente (e para meu grande choque), geralmente são pessoas mais direitistas (não estou generalizando, mas tenho observado uma certa frequência nisso). E (daí meu choque) é gente que também diz, por exemplo, que o bolsa família é uma bosta porque, agora, nem tem mais porteiro querendo ser porteiro e que "esse pessoal" tá tudo querendo voltar pro nordeste, e o sul e sudeste estão ficando sem mão de obra (é sério, eu ouvi isso num tom muito lamurioso de uma pessoa teoricamente muito bem esclarecida). Tenho ouvido bizarrices semelhantes de gente muito próxima, inclusive. Que é uma porcaria a Dilma ter sido eleita porque essa tal "redistribuição de renda tá misturando gentalha com quem é fino". Sério. Ouvi isso. Fiquei até sem resposta na hora. Se tem uma coisa que eu detesto mais que corrupção política é preconceito - quem me conhece sabe disso. Acho que todo mundo tem direito de melhorar de vida, sim. Todo mundo é igual, sim. Todo mundo tem direito de ter acesso a tudo, sim. E o que eu tenho visto, infelizmente, é uma certa sobreposição entre praguejar contra a nova presidente e manifestar opiniões de cunho claramente preconceituoso. Novamente: não sou petista, nem lulista, nem dilmista. Mas estou feliz por termos, agora, uma mulher lá em cima, em tempos de redistribuição de alguma coisa, mesmo que ínfima.
Não acompanhei tudo sobre quem está em qual ministério agora. Vi que o Fernando Haddad está no da Educação e gostei disso. Mas vi também que o Mercadante ficou com o da Ciência e Tecnologia e não gostei nem um pouco...
Estou feliz porque estamos entrando numa nova era. E a Clara, lá no futuro do pretérito, vai poder escolher com toda liberdade a profissão que ela quiser. Se quiser ser professora, ótimo. Se quiser ser secretária, ótimo. Se quiser ser médica, dentista, engenheira, educadora física, bióloga, tudo ótimo também. Mas o legal é que ela vai crescer sabendo que, se quiser, também pode ser presidente. Vai que...

Vamos ver agora as cenas dos próximos 4 anos de capítulos.
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