Clara, 10 meses e a caminho do 11o., sob o céu azul de Nova Trento, SC
Ontem, dia 30 de junho, minha filha fez 11 meses. Escrevo na madrugada de 30 de junho para 01 de julho porque ela me solicitou muito durante o dia e durante grande parte da noite também, indo dormir por volta da 1 da manhã. Depois que a acalmei e ela finalmente dormiu, vim aqui escrever as minhas impressões desse mês. Mês que, sem sombra de dúvida, foi um dos mais importantes na minha história como mãe.
Se eu pudesse dizer quais meses, nessa aventura, foram os mais marcantes, os mais reestruturadores, diria que foram, com certeza, o primeiro mês após a chegada dela e esse último, em que ela tinha 10 meses e caminhava para os 11.
Nesse mês, a Clara se desenvolveu muito. Acho que mais que em todos os outros, porque foram muitas coisas acumuladas. Os dois dentinhos de cima finalmente saíram e ela ficou uma lindeza de sorriso endentado. Eu me despedi dias a fio do sorriso-gengivinha dela. Eu amava aquele sorriso. Achava que sentiria falta dele. Mas depois que os dentes chegaram, ô que lindeza. Eu digo todos os dias pra ela: filha, esses dentinhos te caíram muito bem, você ficou ainda mais bonita! E ela me sorri com aquele sorriso-quatro-dentes que me dá até coisa. Ela também começou a responder quando perguntamos alguma coisa. Naquela língua lá do mundo dos bebês, mas totalmente inserida, totalmente engajada, diria até totalmente dialogante - hoje tô cheia de neologismos - quando a gente tem filho, tem que criar palavras novas, porque é tanta coisa legal que acontece, que a gente nunca viveu, que as palavras antigas não servem muito bem...
E agora ela também dança. Fica pulando e requebrando, batendo os bracinhos, toda feliz. Também pegou gosto por engatinhar e começou a expandir E MUITO os seus domínios, para desespero da torcida corinthiana e flameguista deste lar. Gosta de fazer releituras nas duas estantes da sala. Uma delas ganhou alguns brinquedos, no lugar dos enfeites, que é pra evitar perdas desnecessárias e para fazê-la se sentir à vontade pra mexer - que não tem coisa mais chata numa vida de filho do que ficar ouvindo NÃO a cada 30 segundos, patacaparéu. Na outra, ela tira todos os livros da prateleira inferior - que são aqueles livrinhos pocket que, por serem pequenininhos, ficam lindos nas minimãos dela -, coloca-os no chão e vai mexendo, um por um, escolhendo a leitura do dia. Bem ao lado dessa prateleira fica o violão do papai - objeto de desejo da pequena artista. Ela para na frente e fica batucando, dedilhando as cordas, enquanto dança. Ou seja, fica ali, entre livros e música, do jeito que a gente gosta.
Foi também nesse último mês que ela teve uma assadura monstro, que minha amiga enfermeira e a médica dela diagnosticaram como sendo "assadura em função do nascimento dos dentes". Eu nunca tinha ouvido falar nisso, então ando pesquisando sobre o assunto, pra entender direitinho a relação entre as duas coisas. Assim que chegar a um parecer, venho aqui compartilhar. Ainda assim, nenhuma reclamação: continua tranquila, sorridente e - a palavra que eu mais ouço em todos os lugares que vou com ela -
SIMPÁTICA.
Nesse mês, ela chegou à conclusão que comida é uma coisa muito boa. Que comida é uma coisa muito legal. Que comida é uma coisa, bicho, imperdível. Coisa séria mesmo. Ela come de tudo, um tanto que eu nem acredito, se agita toda ao ver o prato pronto. Almoça com a gente, comendo do nosso prato, exatamente o que a gente come. Sem essa de "comida para o bebê, comida para o adulto", que ela nunca gostou de papinha de bebê. Manda ver mesmo, sem dó nem piedade.
Mas isso não aconteceu assim do nada... Há uma relação direta, que eu percebi muito claramente, entre o início da vontade de comer com o acontecimento mais importante nesse mês, que não diz respeito a ela, mas a mim: a minha volta pra casa. Quero dizer com isso: ter parado de trabalhar fora. Assim que eu deixei o pós-doutorado que estava fazendo, que me obrigava a sair todos os dias e ficar longe dela obrigatoriamente durante 6 horas, ela começou a se alimentar. Coincidência? Passei faz muito tempo da fase de achar que as coisas são coincidências... E foi esse fato que marcou definitivamente esse 11o. mês.
Eu passei 6 meses, dos 11 que ela está completando agora, trabalhando fora de casa. Retomei quando ela tinha só 3 meses e voltei pra casa agora. Foram 6 meses de uma separação que me custou muito, como eu já falei aqui... E eu acredito que tenha custado muito a ela também. Nós somos muito grudadas, como acho que todo bebê deve ser com a mãe. No início, ela chorava muito durante as tardes que eu passava fora. Depois, inverti o horário de trabalho, e ela aceitou melhor. Talvez porque ela tem o hábito de dormir até tarde, então acabava ficando relativamente pouco tempo sem mim...
Me lembro do rostinho dela todos os dias, ao me ver chegando. Ela se iluminava. Ria até fechar os olhinhos - como eu também faço quando estou muito feliz. Se jogava sobre mim e ali ficava, mamando e me olhando, e brincando com minha boca, e fazendo carinho no meu rosto. Esse, pra mim, era o momento mais feliz do dia - choro enquanto escrevo isso, porque me lembro como sofri por ficar sem ela. E o momento mais cruel era quando eu tinha que sair de casa, a deixando na cama dormindo, sabendo que ela acordaria e não me veria - e eu não a veria acordando, com aquela carinha amassada tão gostosa. O que eu posso fazer se eu sou assim? Tem mãe que é mais forte, aguenta melhor a separação, consegue retomar de onde parou numa buena. Mas eu não consegui. Ontem mesmo, conversei com uma moça que fica meio período fora de casa e deixa o bebê de 4 meses com a babá. Dava pra ver na cara dela que ela também não gosta - quem gosta? Mas ela mostrava-se muito mais forte do que eu fui, do que eu sou. Não fui feita pra isso não, pra deixar filho em casa e ir cuidar da vida. Eles crescem tão rápido, é tão efêmero, o tempo escapa da mão como por entre os dedos... Então eu não aceito perder esses momentos não. Pode ser que conforme ela vá crescendo, fique mais fácil. Mas enquanto ela ainda é um bebê, pra mim não dá.
Logo que ela completou 10 meses, aconteceu uma coisa que, junto com outras, contribuiu para a minha decisão de virar a mesa e mudar de vida. Ela e o pai dela estavam no quarto, brincando, durante a manhã, enquanto eu estava no trabalho. O quarto tem uma sacada que dá para a frente do condomínio, e estamos no primeiro andar, de forma que ouvimos tudo o que acontece ali embaixo. Uma mulher parou ali por perto e ficou conversando com outra pessoa. A Clara ouviu, parou o que estava fazendo, e pensou que fosse eu. Ficou toda agitada, feliz, pulou e tal. Ao perceber que não era eu, caiu num choro incontrolável e o pai demorou pra conseguir acalmá-la. Ele me contou isso enquanto eu a amamentava, logo depois de voltar pra casa. Comecei a chorar e disse: "isso vai acabar".
Quando a gente vira mãe, a gente vira profeta.
Eu não sei se é a força da palavra e a força da ação ou se é premonição mesmo.
Mas sei que eu disse que aquilo ia acabar com toda a força da minha vontade.
Claro que não apenas disse, mas fui atrás de fazer com que as coisas realmente acontecessem e permitissem que aquilo acabasse mesmo.
Hoje, minha filha está fazendo 11 meses.
E fazem 23 dias que não temos nos separado.
Estamos felizes. Muito felizes. Em lua de mel, como bem disse a pediatra essa semana.
Em agosto, recomeço meu caminho de estudo. Terei que me separar dela por alguns períodos. Mas serão outros quinhentos porque, afinal, é pra fazer algo que eu realmente gosto, na qual eu realmente acredito, e que tem toda a participação dela. Afinal de contas, foi um caminho construído totalmente inspirado nela e no que ela trouxe à minha vida.
Nesse último mês de vida, fomos ao Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento, SC. Pegamos o final de semana em que estávamos comemorando 2 anos do início da minha história com o pai dela e fomos passear por algumas cidades catarinenses, entre elas Nova Trento. Eu não sou católica. Mas não precisa nem ter religião pra se emocionar ao pisar naquela terra, que é a história quase viva de uma mulher que foi tão bacana, tão especial, que foi considerada Santa. Eu gostei muito de ter ido. E, ao entrar no Santuário, não tive como não me emocionar, porque eu estava entrando ali com minha filha pequena no sling.
Então eu fechei meus olhos e pensei: obrigada, vida, por ter me trazido a Clara. Que tanta mudança trouxe. Que tanta coragem me deu. Que fez desabrochar tanta coisa boa em mim. E que me completou...
No ano passado, no dia 30 de junho, eu estava escrevendo sobre a Síndrome de Couvade (no post "
Couvade e os Adoráveis Grávidos"), aquela síndrome que alguns pais grávidos apresentam - caso do Clara's pai -, quando sentem os sintomas que a mulher grávida sente. E hoje, 1 ano depois, tá ali dormindo o meu bebezão, com seus 4 dentes e suas pernas grossas.
No mês que vem, minha filha completará 1 ano de vida extra-útero. Minha comemoração vai começar no dia 29 - e será sempre assim. Porque, afinal, ela começou sua viagem no dia 29, quando eu comecei a ter as primeiras contrações. E no dia 30 vai haver uma festa bem gostosa para os amigos, pra gente celebrar juntos esse 1 ano dela aqui com a gente.
Mas não posso me queixar: tenho festa todos os dias, há 332 dias.
Mãe, eu adoro esse gorro. Fico parecida com o pocoyo, né?
Mas eu sou muito mais linda, né mãe?
Agora sou uma menina que tem 4 dentes e cabelos lisos esvoaçantes
Manhêêê: corre, péga a mánica, consegui ficar de péé!