29 julho 2011

Quando a dor não é sofrimento

Hoje, às 14:15, eu e o pai da Clara paramos um minuto o que estávamos fazendo (no meio do
supermercado) e nos abraçamos. 
Fazia 1 ano que eu entrava em trabalho de parto...
No ano passado, no momento em que eu escrevo aqui, eu estava há 6 horas em trabalho de parto. Absolutamente pronta para o que viesse pela frente.
Não sabia que ainda faltariam 25 horas, que enfrentaria uma maratona, mas isso também não me assustava. A dor não me assustava. Eu estava preparada. Estava pronta. Simplesmente porque me preparei para isso, psicologicamente falando, emocionalmente falando.
Há 1 ano, estávamos em trabalho de parto em casa.

Todo mundo fala muito da dor do parto. Mas poucos falam tão declaradamente da maravilha e do encantamento que é sentir que seu filho está há algumas horas de chegar. Ele está pronto. Está no tempo dele. Ele quer vir. Está sendo massageado pelas contrações uterinas, que tem essa função mesmo, massageá-lo enquanto o impulsiona, preparando o corpinho para a vida, como dizendo: "Chegou a hora, amigo, vamos lá. Se espreguiça que a vida lá fora está de braços abertos pra você! Vai!".

Dor e sofrimento não são sinônimos.

Dor é uma coisa. Sofrimento é outra.
Mas não é todo mundo que para pra pensar sobre isso...
Muitos acham que toda dor é sofrida.
Dor é uma manifestação subjetiva, fisiológica, natural.
Sofrimento é o conteúdo que se atribui a qualquer situação, inclusive uma dolorosa, mas não é inerente à dor.
E isso fica muito claro no trabalho de parto.

Vivemos numa sociedade que adquiriu verdadeira fobia, completo pânico, absoluta aversão à dor. E isso tem gerado doenças e problemas os mais diversos: dependência de drogas de abuso; desvios de comportamentos; jovens absolutamente despreparados para a vida; gente deprimida; todo tipo de coisa que visa EVITAR A DOR a todo custo.
A dor não é mais tolerada.
Rápido se lança mão de artifícios para impedi-la.
Com isso, perdemos a insubstituível oportunidade de aprender mais com ela, de conhecer nossas capacidades, de desenvolvermos novas habilidades.
A dor ensina, a dor faz crescer, a dor existe por um motivo, que não é  gerar sofrimento.

Durante as 29 horas que estive em trabalho de parto, senti uma dor que de sofrida não tinha nada. Era uma sensação de "alcançar", de "estar apta", de "fim de ciclo", de "missão cumprida". Cada contração foi interpretada por mim como "um passo a mais em direção à minha filha". Cada uma que vinha me deixava mais próxima dela. Peguei-me, inclusive, muitas vezes pedindo para vir a contração, entre uma e outra. Terminava uma, eu respirava fundo, me esticava, caminhava, me movimentava e pensava "pode vir a próxima". Era a Clara que estava vindo, como não querê-las?

Então hoje, que completa 1 ano que minha filha começou a atravessar a linha fronteiriça do mundo de lá, agradeço à vida por ter podido entrar em trabalho de parto, porque isso a preparou melhor para a vida, com toda certeza. Se assim não fosse, as contrações simplesmente não existiriam mais na história biológica humana. Se existem, é porque são necessárias.

Amanhã, 30 de julho, Clara completará 1 ano de vida. De uma vida incrível!
Ontem (quer dizer, hoje) fui dormir às 5 da manhã preparando as coisas pro aniversário dela, que será uma festinha craft, cheia de coisas feitas à mão.
Eu decorei mais de 100 fotos em diferentes ampliações que retratam esse 1 ano de vida dela.
Foi um trabalho muito emocionante.
Cada foto que eu olhava me trazia o sentimento da época.
Eu e o pai dela juntos em trabalho de parto, ela recém nascida, ela bem pequenininha, ela crescendo e engordando, ela comendo pela primeira vez, o primeiro dentinho... Foi uma viagem intensa a momentos importantes desse 1 ano.
Mas não são os momentos mais importantes. Esses não foram fotografados.
Na calada da noite, uma mãozinha no meu rosto. Na amamentação, um sorriso. Um abraço amoroso. Um olhar de entrega. A expressão de que somos tudo o que ela precisa ter.

Não há nada que eu possa falar que resuma satisfatoriamente o que eu sinto, porque as palavras são artifícios muito limitados frente a alguns tipos de amor. Então deixo, nessa véspera de aniversário de 1 ano da minha filha, um recado para todas as gestantes e mulheres que ainda querem ser mães:
NÃO TEMAM A DOR. Qualquer que seja ela. 

Outro dia ouvi de uma pessoa que ela não queria ser mãe nunca para não sentir dor. Ela se referia tanto à dor do parto quanto à dor das coisas da vida, a sofrimentos possíveis.
Quem teme a dor do parto apenas não a entendeu ainda.
Ela não é sofrida. Ela é conquista.
Ela te abre não lá embaixo. Ela te abre aqui no peito, pra vida que vem vindo.

Quem vive evitando a dor não está vivendo. Quem não sente dor já está morto.

Vem aí a Semana Mundial de Aleitamento Materno 2011



De 1 a 7 de agosto acontecerá a Semana Mundial de Aleitamento Materno 2011, cujo tema é:

"Amamentação: uma experiência em 3D"

Mas por que esse tema?
Porque quando se fala sobre amamentacão, tende-se a pensar apenas no tempo de duração da amamentação (exclusiva por 6 meses e prolongada por 2 anos ou mais, como preconiza a Organização Mundial de Saúde) e no lugar onde ela ocorre(onde a mulher pode amamentar). São duas questões importantíssimas, que podem interferir na efetividade da prática. Mas existe uma terceira questão - por isso o 3D - que é determinante para a boa prática da amamentação e o sucesso dela: A COMUNICAÇÃO.

Eu trouxe do site Aleitamento.com - um excelente lugar para encontrar informações sobre o tema - algumas ideias do que se pode fazer para promover a comunicação:

1) Conecte-se com outros ativistas da amamentação por email ou blog, Facebook ou Twitter, e comece a planejar!
2) Entre em contato com comunicadores locais: professores, jornalistas, publicitários, estudantes, líderes comunitários – para ajudá-los a construir e compartilhar mensagens vitais e aumentar a conscientização.
3) Entre em contato com unidades de saúde locais e ajude-os a implementar estratégias de alcance para mulheres grávidas e lactantes ou cursos de treinamento para consultores em aleitamento e aconselhamento em amamentação.
4) Escreva para seu empregador e órgãos governamentais locais ou nacionais e peça patrocínio para um evento da SMAM e, caso necessário, alerte-os sobre a necessidade de prevenir conflitos de interesses evitando apoio ou qualquer forma de colaboração de indústrias ou representantes de produtos abrangidos pelo âmbito da legislação. (No caso brasileiro, da NBCAL).
5) Seja o anfitrião de um evento onde as pessoas podem compartilhar suas histórias com criatividade – uma exposição de arte em conjunto, um monólogo, uma competição de vídeos online, festival de filmes, feira alternativa de artesanato, fórum de discussão virtual, o céu é o limite!
6) Incentive o ensino da amamentação em escolas e universidades e a integração com organizações que já trabalhem com causas sociais para realçar a amamentação através de pontos de vista variados.
7) Fale com as pessoas à sua volta!

Eu participarei da SMAM 2011 falando sobre diferentes vertentes do assunto aqui no blog. Mas todo mundo pode entrar nessa. FALE COM AS PESSOAS SOBRE O TEMA. Ajude quem está passando por dificuldade para amamentar. Ajude a acabar com mitos e lendas. Confronte o pediatra que prescrever complementação sem real necessidade. Dê dicas para ajudar outras mães a amamentar. Leia. Informe-se. Critique.

Se você está grávida ou pretende ficar: PREPARE-SE PARA AMAMENTAR SEU FILHO. Preparar-se para isso é: ler sobre o tema, não deixar que coloquem ideias equivocadas em sua cabeça, preparar-se emocionalmente para estar disponível para seu filho, saber tudo o que pode ou não acontecer. Do aumento do vínculo afetivo entre mãe e filho à melhoria da saúde integral da criança, a amamentação só traz benefícios.

Aqui no blog tem a aba AMAMENTAÇÃO. Lá tem alguns artigos bacanas sobre o tema. Ao longo da semana, vou inserir outros artigos pra ajudar quem quer informação a respeito.
Mas não basta ler.
FALE SOBRE ISSO.
COMUNIQUE-SE!

25 julho 2011

Como ser mãe te ajuda a deixar de ser o seu próprio centro das atenções

 Capa do convite de aniversário, feito com amor pelo papai da Clara

Estou ausente do blog há alguns dias por estar muito envolvida na preparação da festa em comemoração ao primeiro ano de vida da minha filha Clara. Geralmente, escrevo aqui nas madrugadas, e esse tem sido o horário em que preparo as coisinhas para a festa. Infelizmente, as leis da física ainda funcionam por aqui e não tenho conseguido estar em dois lugares ao mesmo tempo...
Nós (eu e o pai da Clara) demos à festa o nome de "Clara: 1 ano de clicks" e o tema é esse mesmo: as fotos que fomos tirando dela ao longo desse primeiro ano de vida. 99% das fotos são caseiras, tiradas por nós em diferentes momentos da nossa vida com ela, e que, juntas, ilustram o desenvolvimento dessa menininha especial que pode ser descrita em duas palavras: simpática e feliz.

Sempre dei muito valor ao dia de aniversário. Meus aniversários, quando dependiam de mim, nunca passaram em branco. Sempre comemorei a data que simboliza minha chegada a esse mundo. Já me dei, inclusive, uma festa surpresa. Sim, eu mesma me fiz isso porque estava cansada de esperar que alguém organizasse uma festa surpresa pra mim, pode acreditar. Estou aqui rindo sozinha... Mas é verdade. Eu estava na graduação e resolvi fazer uma auto-festa surpresa. Juntei uma grana (porque, claro, fui uma estudante de biologia duranga. Que graça tem fazer biologia se não se é duro, bicho?!), comprei um engradado de cerveja, umas carnes, uns pães, tudo na surdina. Era começo de semana. A galera louca pra uma balada - recém-chegada das férias de meio de ano - e sem ter o que fazer. Não avisei ninguém até a última hora. Aí, já escurecendo: SURPRESA! "Hoje vai rolar um churras surpresa do meu aniversário! Carne e cerveja na faixa! Pelo menos até acabar essa leva..." Auto-festa surpresa. Fica aí a dica pra você que sempre quis ter uma festa surpresa! Foram os amigos mais queridos, deu uma balada mega e eu fiquei feliz da vida, aproveitei um monte e terminei o aniversário vendo o dia nascer com meu brother que, hoje, é padrinho da Clara.
E assim os anos se passaram, sem que eu deixasse de comemorar, de alguma forma, meu aniversário.
Eu contava regressivamente os dias, fazia o maior auê. Leonina... Leonino gosta de festa, leonino gosta do balacobaco.
Hoje, estou eu aqui preparando, com o maior carinho e amor do mundo, o aniversário de 1 ano da minha filha, que será dia 30... E foi em meio aos preparativos que eu me toquei que, antes do aniversário dela, tem o meu! E eu nem tinha me ligado nisso.
 Eu gosto de me presentear em aniversário. Não pelo novo ano que chegou, mas por ter vivido mais um. Dessa vez, queria algo que simbolizasse esse meu ano de vida que se encerra no próximo dia 26, dando lugar, no dia 27, ao 33o. ano - tá, eu já sei que é a idade de Jesus, muito obrigada pela informação.
Não há discussão sobre o que marcou a minha vida nesse último ano: a maternidade. Ter me tornado mãe. Estar vivendo cada segundo disso até a última gota. Então eu me dei (mais)um livro de presente, que chegou essa semana. Não comecei a ler a fundo ainda, mas já dei uma lida em trechos soltos e é sen-sa-cio-nal! Recomendo a todo mundo que é mãe, ou quer se tornar mãe, ou que se interessa pelo tema. Aos pais também, aos que querem ser pais, aos que pensam nisso. É incrível. Anotaí: "A maternidade e o encontro com a própria sombra", da Laura Gutman. Quem se liga em maternidade consciente sabe quem ela é. Quem não sabe, aproveita pra saber. Pretendo me aprofundar na leitura assim que passar essa temporada de festa.

A festa da Clara está sendo organizada e preparada com a ajuda insubstituível de muitas amigas, feras em suas artes e que estão fazendo coisas lindas em homenagem à Clarinha. Depois de mim, a mais envolvida na festa tem sido uma amiga que fiz justamente em função desse blog. Outro dia escrevi isso por aí inclusive... Um dia, eu criei um blog pra registrar meus devaneios num momento meio conturbado da minha vida. Um dia, eu conheci o pai da Clara. No outro dia (mais ou menos isso mesmo), eu fiquei grávida e me apaixonei avassaladoramente pela gestação e pela condição de ser mãe. Aí, um dia, eu passei a falar sobre maternidade nesse blog, que até mudou de nome. Um dia, uma moça o leu e gostou. E me escreveu. E trocamos muitos e-mails. E ela foi no chá de bebê da minha filha, quando eu estava grávida - a gente se conheceu pessoalmente assim. Desde então somos amigas. E hoje é ela quem está me ajudando a organizar tudo na festa de 1 ano da Clara. Ela é a Nani, uma gourmet de mão cheia, criadora da Amorà Cupcakes. Vai fazer o bolo, os cupcakes grandes, os mini-cupcakes, os bolipops, os docinhos de colher, outros docinhos, a grande maioria dos salgados, além de ter me ajudado a pensar na decoração. Uma querida sem fim.
A decoração, em diferentes tons de poás, será composta pelas fotos da Clara, em estilo scrapbook, que estou fazendo uma a uma nas madrugadas - cerca de 150 (sim, sou doida) - nas mais diversas ampliações. A Karla, que é crafter, voluntária do Cinematerna e blogueira do Mãe Canguru, está fazendo as lembrancinhas dos adultos. A Tati, designer infantil e também blogueira do Tutitati Design Infantil, está fazendo as lembrancinhas das crianças. A Jéssica, que é naturóloga e também blogueira (Caiu na rede é mãe! Salve as mães blogueiras desse mundo!) do Mãe Natural, está me ajudando com as toalhas para as mesas. Um festival de amigas criativas e talentosas envolvidas, gente que gosta da Clara, gente que tem acompanhado o crescimento dela mês a mês.
Ontem chegou o vestido do aniversário, que a vovó mandou do interior de SP. Um luxo, uma coisa assim meio "tô indo pra Paris mas nem ligo", saca? Vou ter que fazer uma adaptação, porque algumas coisas ficaram grandes, mas o principal - o vestido - ficou lindo e vamos usar com toda a alegria!
O papai fez o convite e ainda vai fazer umas artes finais. Ou seja, tudo feito por gente que gosta muito da minha pequena. Gente que está me ajudando a montar uma festa bem bonita pra comemorar não só o aniversário dela, mas 1 ano como mãe, 1 ano como pais, 1 ano como família, 1 ano de tantas mudanças e (re)descobertas.
Esse 1 ano que passou foi, de longe, o mais importante da minha vida. Cresci e amadureci como não pensava ser possível. Sou hoje uma mulher forte e destemida. Não que eu não fosse antes... Mas é que agora sinto que nada pode me parar. Tenho uma força motriz que não acaba nunca.
Dia 27 será meu aniversário de 33 anos. Não terá festa "para mim" - pela primeira vez em nem sei quanto tempo. Mas terá uma festa pra ela. Ela, que é o meu motivo para comemorar mais um ano de vida.
Pois é como eu digo: a maternidade é uma coisa incrível. Ela te ajuda a te tirar do centro de suas próprias atenções, o que te amplia em muitas vezes sua visão de mundo.

Salve as leoninas deste reino animal de cá!

19 julho 2011

Um fim de semana com Michel Odent

 Michel Odent, Heloísa Lessa, Equipe Hanami e Clara, a mascotinha

Sexta-feira, 15 de julho: uma palestra seguida de um coquetel. Sábado, 16 de julho: um workshop durante todo o dia. Domingo, 17 de julho: um almoço no Ribeirão da Ilha com mesa para mais de 30 pessoas, todas envolvidas, de algum modo, na missão de trazer mais gente ao mundo com amor e respeito e de mater-pater-nar conscientemente.
E assim foi o último final de semana, cheio de momentos emocionantes daqueles que entram para o rol dos "fatos inesquecíveis" que se vive, palavras revolucionárias ditas por aquele que é a maior autoridade no assunto no mundo, atualmente, sobre ecologia de parto e nascimento, que entram em sua mente e ali ficam reverberando...
Foram horas seguidas de aula sobre a condição humana. Sobre história da humanidade. Sobre como chegamos ao fundo do poço. Sobre como o alto desenvolvimento de nosso neocórtex, embora nos tenha trazido tantos benefícios, inclusive nos caracterizando como humanos, dotados das propriedades que sabemos que temos, também nos distanciou de nossas qualidades mais nobres. Uma aula sobre como galgar os degraus que nos trarão de volta à superfície, com respeito, com amor, respeitando mulheres que estão gerando uma nova vida, respeito as vidas que estão chegando. Uma aula incomparável sobre fisiologia humana, não só do parto e nascimento, mas HUMANA na mais ampla acepção do termo. Aula sobre o amor, a feminilidade, sobre como construir um mundo melhor a partir do começo.
Cerca de 80 pessoas, no total, passaram por lá. 80 pessoas que entraram de uma maneira e saíram de outra. Gente que com certeza ainda está tentando processar tudo, como eu estou. Porque coisas profundas como as que foram discutidas, que dizem mais respeito a VALORES do que a práticas, não são assimiladas de sopetão, não são engolidas simplesmente. São digeridas com prazer, lentamente, na calada da noite, ou no claro do dia, mas no silêncio de nossa própria reflexão sobre a vida, sobre as pessoas, sobre as crianças, as mulheres, as famílias.
Terminei o fim de semana com vontade de chorar. Mas não de tristeza, também não só de alegria. Mas, sim, um misto de sentimentos que mesclavam uma pequena dose de angústia por saber que há tanto ainda a ser feito com doses cavalares de satisfação e contentamento por saber que nós, um grupo de mulheres, cheias de afazeres, com trocentas mil coisas a resolver, conseguimos. Nós conseguimos muitas coisas. Conseguimos nos unir. Conseguimos um espaço para nossas ideias. Conseguimos que o Dr. Michel Odent aceitasse nosso convite. Conseguimos preparar, em tempo recorde, um evento como esse, com elegância, beleza, qualidade e organização. Conseguimos recebê-lo como se deve, a ponto dele exclamar que "... nunca havia chegado a uma cidade e visto um outdoor divulgando o trabalho dele, que foi muito emocionante" (pedindo, inclusive, para tirar uma foto embaixo dele...). Nós conseguimos. Nos reunindo à noite, nos revezando nos cuidados com as crianças, com a colaboração das nossas famílias, nos distribuindo entre as muitas tarefas.
Se isso não é empoderamento, eu não sei o que é.
Sexta-feira, 15 de julho: uma palestra seguida de um coquetel. Sábado, 16 de julho: um workshop durante todo o dia. Domingo, 17 de julho: um almoço no Ribeirão da Ilha.
Terminar um fim de semana com Michel Odent ganhando, dele, um beijo na testa - daqueles que só uma mãe ou um pai sabem dar - e um abraço bem apertado, seguido por um "Thank you so much" dito com sotaque francês, e com uma foto dele segurando sua filha no colo: NÃO TEM PREÇO.
Tô mais feliz que pinto no lixo!
Prontofalei!

 Juro que não paguei o tradicional mico do "Eu sou sua fã! Eu sou sua fã!".
Mas também, nem precisava né? Ó o tamanho do sorriso.

Nesse momento, eu devia estar em algum lugar por ali tendo um mini-xilique,
enquanto minha amiga Iara clicava nossas crias com Michel Odent... 
Caetano com cara de "Que vovô legal, né?!", Clara no colo com cara de "Mãe! Tô chocada, me abana!!", Maria Flor toda felizona e Nina meio tristonha, talvez por lembrar que o vovô Odent estava indo embora...



16 julho 2011

Fim do workshop com Dr. Michel Odent

 "Gente, é o Michel Odent! 
O Espaço Hanami foi inaugurado com Michel Odent!!"
Vânia, coordenadora da Equipe Hanami, em encerramento do workshop, desabafando sua emoção por termos conseguido...

Agora há pouco se encerrou o workshop de dois dias com o maior ícone em humanização do parto e nascimento, Dr. Michel Odent, aqui em Florianópolis. E terminou com lágrimas nos olhos de imensa emoção pelas palavras proferidas por ele:
"Vocês são pessoas especiais, porque querem quebrar os paradigmas. Vocês são pessoas especiais porque estão aqui e se preocupam com a forma de nascer, que pode influenciar muitas gerações. Vocês são especiais por se preocuparem com isso, ainda que suas palavras não atinjam tantos quanto gostariam. Mas agora é hora de nos separar. E toda separação traz um pouco de tristeza. Essa não trará. Porque em breve estaremos reunidos na Conferência (The Mid-Pacific Conference, Honolulu, Outubro-2012). E para nos separarmos com alegria, vamos cantar!". 
E ele se levantou e começou a cantar em francês! Arrancando lágrimas de uns, palmas de outros e muitos sorrisos.

E assim se encerrou esse workshop, sobre o qual escreverei mais profundamente outra hora. Trouxe profundas reflexões... Pude destrinchar muitas coisas sobre as quais pensava. Foi algo incomparável. E sobre o qual ainda vou passar dias e dias e dias e dias pensando...
Amanhã, vamos passar um dia lindo todos juntos, Equipe Hanami, com suas famílias, Heloísa Lessa e Michel Odent.
Não há palavra que resuma o sentimento que vivo enquanto escrevo isso, cansada, suada, com um bebê ainda por banhar e alimentar. E com a mais plena sensação de satisfação.

"Para mudar o mundo é preciso antes mudar a forma de nascer" - Michel Odent

Para mudar uma mulher, é preciso antes viver inteira, intensa e profundamente a experiência de ter um filho...

Honolulu em outubro de 2012, é?
Hummm. Peraí que vou pensar, tá?

15 julho 2011

Vida sábia vida... as voltas que a vida dá

Há 1 ano atrás, eu estava a 14 dias de entrar em trabalho de parto e a 15 dias de receber minha filha, embora não soubesse disso. Estava me preparando para recebê-la em casa, num parto domiciliar muito desejado, assistida e apoiada pelas enfermeiras da Equipe Hanami.
O dia 29 de julho chegou e, com ele, chegaram as primeiras de muitas contrações. Foram 29 horas de trabalho de parto em que vivenciei intensamente cada contração como um passo a mais em direção à minha filha. E um parto que não pôde ser domiciliar por desproporção céfalo-pélvica, já que ela nasceu com uma cabecinha, digamos, tamanho Extra G, com seus "um pouquinho mais" de 37 cm de perímetro cefálico.
Não pude ter o parto domiciliar que eu queria, embora tenha sido respeitada, amparada, cuidada e assistida em minha cesárea, pela equipe de plantão - que respeitou todos os meus desejos, todas as minhas exigências, respeitando a mim como mãe, mulher, parturiente - e amparada pela enfermeira Tânia, pra quem hoje a Clara não pode ver que joga um sorrisinho fofo. Ela sabe, ela sabe...
Demorei um certo tempo pra processar o fato de que as coisas não haviam saído como planejado.
Mas transformei a experiência na maior força motriz que eu poderia viver. Só quem sabe como teria sido importante para si a experiência de um parto normal pode lutar como toda convicção para que outras mulheres possam vivê-la plenamente, porque a gente sabe como é importante ser respeitada.
Depois de processar o sentimento estranho que ficou e transformá-lo em atitude, em pró-ação, em ideal e filosofia, percebi que, no fim das contas, não viver o que eu queria era tudo de que eu precisava.
Talvez, se eu tivesse tido o parto domiciliar para o qual me preparei, não desse tanto valor à experiência em si, por achá-la "natural". Não sei se consigo me fazer entender como gostaria... Mas tendo passado por outra experiência, a despeito de querer tanto a primeira alternativa, sei como é importante. E quero que outras mulheres despertem para isso.

Há 1 ano atrás, eu estava quase parindo.
Não tive um parto domiciliar como tanto queria...
Mas hoje, 1 ano depois, tenho a imensa alegria de fazer parte da equipe que eu quis tanto que me ajudasse a parir a Clara. E de estar abrindo um espaço de atendimento com elas, que inaugura amanhã.
E eu nunca poderia imaginar que isso aconteceria.
Agora, às 2 da manhã, sou eu quem está finalizando a palestra de abertura, a palestra que vai abrir o encontro com o Dr. Michel Odent, que criou a frase que guia a ação e a filosofia da Equipe Hanami: "Para mudar o mundo, é preciso antes mudar a forma de nascer".
Hoje, 1 ano depois, eu faço parte disso.
Assim, posso concluir que, para algumas pessoas, a melhor coisa que pode acontecer é tudo não sair como planejado.
Vida sábia vida...

... mais especial ainda pra mim foi, hoje, a Clara ter ganho, da mão da enfermeira que esteve junto comigo em muitas das horas de trabalho de parto, massageando minhas costas, me apoiando na piscina, uma camisetinha tamanho P escrito "Eu nasci em casa".
É.
Foi quase.
Ainda bem...

13 julho 2011

Amar a criança hoje é evitar o Prozac de amanhã

"Muitos problemas de saúde mental em adultos têm origem na infância ou na adolescência"
Isabel Bordin, psiquiatra da Unifesp

Quando se fala em doença psiquiátrica, é provável que a maioria das pessoas associe o termo a "loucura", entendida como "coisa que deixa uma pessoa completamente doida e sem condições de responder por si". Se a gente disser para uma pessoa mal informada que fulano de tal tem um transtorno psiquiátrico, provavelmente essa pessoa já vai imaginar que o cara vê coisa onde não há coisa, ouve vozes, tem síndrome persecutória ou paranóica, sintomas associados a apenas um tipo de transtorno psiquiátrico: a esquizofrenia.
Muita calma nessa hora. A esquizofrenia é apenas um dos transtornos psiquiátricos e não é nem de longe o mais prevalente. Os mais frequentes entre a população em geral são alguns que você com certeza está cansado de ouvir falar: ansiedade e depressão. Ou seja, uma pessoa com ansiedade patológica ou depressão diagnosticadas tem, sim, um transtorno psiquiátrico. De forma que é quase verdade aquele lance de que "de louco todo mundo tem um pouco".
Um adendo importante: nem me venha dizer que "Ah, eu tenho, eu tenho! Eu tenho depressão, ando muito triste e desanimado!" ou algo como "Ai, ansiedade... Sim, eu sofro de ansiedade patológica". Se você não foi diagnosticado por um médico psiquiatra, que deve seguir uma complexa metodologia de diagnóstico para concluir que isso é verdade, você não tem nada disso não... Você pode estar triste ou desanimado sim, mas não obrigatoriamente deprimido. Você pode ser mais ansioso que a média das pessoas, ou estar vivendo um momento de maior ansiedade, mas isso não quer dizer que você seja portador do Transtorno de Ansiedade Generalizada, ou do Transtorno do Pânico, ou de qualquer um dos mais de 10 subtipos de ansiedade. Isso é um grande problema de saúde pública, porque quando as pessoas acham que têm essas coisas e pronto, elas tendem a acreditar em falsos ou imprecisos diagnósticos e daí a aceitar a prescrição de ansiolíticos ou antidepressivos como a solução mágica para seus problemas é um pulo minúsculo.
E aí, o que acontece? A pessoa começa um tratamento mal prescrito, para algo que ela de fato não tem, modifica artificialmente o comportamento, tem a falsa sensação de que "ah, como tudo está bem agora, obrigada Senhor por este comprimido", toca a vida como se nada tivesse acontecido, não vai atrás da causa real do problema e quando a cartela acabar... cadê minha receitinha azul travêis? E assim, centenas de milhares de pessoas, a cada dia, usam os fármacos psicoativos como muletas para lidar com as adversidades gerais da vida. Muletas artificiais que não a farão crescer, não a ajudarão a encontrar possíveis soluções para os problemas naturais da condição humana ou, mais triste ainda, não facilitarão o despertar de habilidades de enfrentamento que a pessoa poderia vir a descobrir nela mesma, aumentando sua auto-estima e contribuindo para a melhoria de seu auto-conceito. Não, não sou contra o uso de psicofármacos. Sou contra fazer deles seu melhor amigo, sou contra utilizá-los para mascarar a realidade, sou contra depositar sobre eles a responsabilidade por sua própria vida, com os problemas ou alegrias inerentes a ela. Por exemplo: se você só dorme tomando bola, meu amigo, já parou pra pensar porque tem insônia crônica? E já foi atrás de uma solução real, e não farmacológica, para a questão? Claro que isso é mais trabalhoso do que virar para o criado-mudo e mandar pra goela, à la Dr. House, seu antídoto diário contra problemas. Capota e tá bom, até amanhã. Isso é, inclusive, um passaporte rápido para sedativos mais poderosos. Michel Jackson terminou dormindo à base de propofol, veja que coisa, mas duvido que tenha começado com ele...
Enfim, qual o objetivo desse bla bla bla todo? É dizer que todo mundo tem problemas, sim. Mas o número de pessoas diagnosticadas com os ditos "transtornos psiquiátricos da modernidade", como os transtornos de ansiedade, os transtornos depressivos e outras condições que vão minando a vida da pessoa, está aumentando MEEEESMO. São múltiplas as explicações para a causa disso e muitos dizem que "é a vida moderna, cheia de tecnologia e vazia de conteúdo realmente válido, que tem favorecido isso". Pode ser. Mas é simplista demais, isso, pra mim...
Com certeza, não sou a primeira a dizer: vem cá! Esse povo todo inseguro, com problema de auto-estima, sofrendo dos mais angustiantes transtornos psiquiátricos, desenvolvendo crise de pânico como quem vai ao supermercado, deitado numa cama arrasado pela depressão, não pode, também, ser fruto de um tratamento não muito bacana na infância?
É claro que pode.
Então, quando forem discutidas medidas que visem diminuir a prevalência desses transtornos, não basta dizer: fazer atividade física, meditar, relaxar, ter um hobbie, dar menos valor ao dinheiro e mais valor aos amigos, à família, fazer yoga, viver em meio à natureza, desligar o computador e sei lá mais o que. Claro que isso é bacana, mas talvez não seja suficiente. Tem que dizer também: DAR ATENÇÃO À QUALIDADE DA ATENÇÃO QUE AS CRIANÇAS ESTÃO RECEBENDO. Porque, afinal de contas, esses pequenos que aí estão serão os grandes de amanhã. Se eles forem tratados com desdém, como obrigação e não como escolha, daqui a uns 15, 20 anos, não me venha dizer que foi o "mundo moderno" que os deixou assim, ok?
Eu gostaria de ver um estudo longitudinal de 20 anos, associando a qualidade da educação e do afeto recebido com a prevalência de ocorrência ou não de transtornos psiquiátricos, mas taí um estudo difícil de ser feito.
Tem uma abinha aberta aqui no meu computador desde o dia 07 de julho. Eu encontrei a matéria e a deixei guardada aqui pra falar a respeito. A matéria tem como título "Em painel internacional, psiquiatras definem prioridade a crianças".  Fala, resumidamente, o seguinte. Aconteceu um painel que reuniu 400 cientistas, clínicos e representantes dos pacientes com problemas mentais, membros de um projeto chamado Grand Challenges in Global Mental Health (Grandes Desafios em Saúde Mental Global), dos EUA. O relatório produzido aponta 25 itens que devem ser prioridades nos próximos 10 anos, que podem ser capazes de reduzir o impacto de doenças mentais. E, de acordo com a reportagem, "um dos pontos de consenso do relatório foi a necessidade de colocar mais em foco a atenção dada a crianças". De acordo com a psiquiatra Isabel Bordin, da Unifesp, que é também membro do Grand Challenges, "muitos problemas de saúde mental em adultos têm origem na infância ou na adolescência".

Então, meu povo de Sucupira, é com a alma lavada e enxaguada que eu digo: quando a gente fala sobre maternar de maneira consciente, ativa, conectada, amorosa, de estar ligado no que o filho precisa, nos sinais que ele manda, de rejeitar padrões pré-estabelecidos simplesmente porque "ah, todo mundo faz assim" ou "mas o moço do posto falou que é assim que se faz", não é porque a gente gosta de um bla bla bla bicho grilento, ou porque nós somos gente da Era de Aquarius, vivendo num musical como Hair, cheio de flor no cabelo, sandalinha de couro e perna peluda, ou porque a gente gosta de ir contra o que é hegemônico. É também porque a gente quer criar gente que, lá na frente, não sofra de transtorno de ansiedade generalizada, não seja presa fácil da depressão, não desenvolva um transtorno obsessivo-compulsivo, ou qualquer outra coisa dessas que traz tanto sofrimento e movimenta milhões em psicofármacos. Claro que nada é matemático, como eu disse hoje numa mensagem, e não podemos garantir que nada disso vá deixar de acontecer. Mas, vem cá, não precisa ter muito neurônio pra entender que quanto mais amor, quanto mais afeto, quanto mais comunicacão, e entrega, e conexão e reflexão a respeito, mais segura vai crescer essa criança. Mais amada ela vai se sentir. Mais forte e resiliente ela será.
Ainda não inventaram, na minha humilde opinião, nenhum neuromodulador e neuroprotetor mais poderoso que o amor. E se as indústrias farmacêuticas fossem bem espertas - como são - proibiriam esse bando de mulheres que, como eu, procuram maternar conscientemente

Eu falo sobre algo parecido na postagem "Pra quê rimar amor e dor?", quando falo sobre os efeitos da violência infantil sobre a personalidade que está se formando.

Esse texto é uma resposta a uma frase torpe que eu ouvi hoje, acidentalmente, da boca de uma mulher muito bem vestida que, com toda a certeza, se acha bastante engraçada: "nada melhor pra curar um trauma de infância do que um Prozac". Ao lado dela estavam duas crianças de uns 5 a 10 anos, esperando ela fumar o cigarrinho dela pra irem pra casa, nesse frio de Florianópolis.
Como diria o Calvin para o Haroldo, numa hora dessas:

"É uma pena que a ciência ainda não tenha desenvolvido a cura para os idiotas"

12 julho 2011

Filhos que podem tudo, filhos que podem nada e filhos cujos pais querem o caminho do meio

 Até onde permitir? Quando interferir? Como interferir?
Até onde podem ir os filhos? Há um limite? Como orientá-los da melhor maneira?
Em qual universidade tem doutorado pra ser uma mãe bacana, please?

A Clara vem se desenvolvendo em ritmo alucinante. Não estou dando conta de documentar toda essa evolução.
De uns três dias para cá, por exemplo, desandou a matraquear. Fala o tempo todo, nas mais diversas entonações e alturas. Engatinhante, curiosa, fuxiquenta, esperta e cheia de ideias. Usou hoje uma caixa como escada para subir no sofá. E não sei de qual dos genes, mas com certeza de um dos meus, ela trouxe uma veia destemida que está apavorando a turma desta casa. Ela se joga de costas, se joga do alto, se joga. Sim, ela está levando a sério esse lance de "Se joga na vida!". Tenho que ficar mirando para pegá-la antes que dê com a cabeça na parede, no chão, no meu joelho, nas cadeiras. Tô pensando em comprar umas cordas, uns mosquetões e deixá-la constantemente preparada para o rapel.
E com isso, comecei a dizer NÃOs. E, claro, comecei a questionar a pertinência do uso desse advérbio. Estou lendo e escrevendo aos poucos sobre isso, porque afinal o tempo está por demais curto, mas esse assunto tem povoado a minha cabeça nos últimos dias.
Então hoje, a Ingrid Strelow, amiga também blogueira, do Desconstruindo a Mãe, me mandou por e-mail um texto daqueles que a gente lê e vai interrompendo pra soltar um "caraca!"... e outras dezenas de exclamações. Excelente, real, profundamente verdadeiro - infelizmente.
De autoria de Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista, o texto tem como título "Meu filho, você não merece nada" e se juntou aos outros que tenho lido para pensar melhor a respeito da questão "até onde pode ir minha filha e a partir de onde ela precisa ir sozinha?".
Mais do que educar os nossos filhos, nós temos é que NOS educar para não passar a eles medos e inseguranças que são apenas nossos e que, quando transpostos, podem bloquear o desenvolvimento bacana de uma nova pessoa.
Texto brilhante.
Dele, extraio livremente o seguinte trecho, que me marcou:
"Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande."
Aqui vai o texto na íntegra, cujo link original é esse. Ser mãe e pai não é nada fácil. Tem-se que saber a medida de todas as coisas, mesmo das que ainda não se conhecem as medidas.

"Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba."

10 julho 2011

A emoção de ser mãe, receber mães e trabalhar com mães

Hoje foi um dia muito emocionante.
Foi dia do VI Bazar Coisas de Mãe, como eu disse na postagem anterior. Esse Bazar marca uma nova temporada nas nossas vidas. Foi um retorno às origens, porque o fizemos no mesmo lugar onde tudo começou, a exatos 9 meses atrás.
Simbólico, né?
Demoramos 9 meses desde sua criação até termos um local para atender famílias, gestantes e mulheres.
E, pensando bem, não poderia ter levado outro tempo que não 9 meses.
De todos os bazares que nós já fizemos, esse foi, para mim, o mais emocionante, o mais aproveitado. Pra mim e pra Clarinha. Não houve, até hoje, um bazar que ela tenha curtido mais. Com certeza em função da idade. Esse mês ela fará 1 aninho e já aproveita coisas que não tinha como aproveitar antes...
Hoje ela engatinhou por todo o espaço do Bazar, brincou com as crianças, dançou, cantou, tocou pandeirinho, sorriu muito e conversou um monte. Viu amigos que ela está acostumada a encontrar sempre, os bebês-amigos, que também estão se transformando em pequenas crianças andantes e falantes.
Isso é muito emociontante. Escrevo esse post com os olhos cheios d'água. Porque é muito gratificante, muito especial, acompanhar o crescimento de tantos bebês. Tantas crianças. Existe um grupinho de mais ou menos 20 crianças que sempre vão, filhos das parceiras, das mães expositoras ou dos amigos que sempre comparecem. Eles já se conhecem e, o mais legal, se reconhecem. Crianças que andavam apenas nos slings dos pais no início do Bazar e que hoje ensaiam os primeiros passos - ou já os dão com segurança.
Com a Clara tem sido assim...
Quando nós começamos o Bazar, há 9 meses atrás, Clara tinha apenas 2 meses de vida. Era um pintinho quase ovo. Olha ela aqui, no primeiro Bazar, dormindo no meu sling enquanto eu recebia as mães e as famílias que chegavam, junto com minha amiga (tão querida!) Sheila.

Clara dormindo no meu sling, no primeiro Bazar Coisas de Mãe, com apenas 2 meses.

E hoje, ela é um pintinho quase franguinho... Hoje eu dei almoço pra ela ali mesmo, no espaço do Bazar. Ela comeu a comidinha de mini-pedreiro dela, cheia de sustância, que ela ama: arroz, feijão, carninha, brócolis. Quando começamos, ela só mamava no peito. Hoje ela ainda mama (olha que bom! Nós conseguimos, filha!), mas manda ver no prato de arroz e feijão. Depois de almoçar, eu a soltei no chão e ela, bem segura e familiarizada com o movimento, saiu engatinhando em direção a uma caixa de instrumentos que o grupo TIC TAC TUM, de "Cantação" de Histórias, havia posicionado ali para a apresentação - QUE ELA AMOU! Aliás, recomendo a todo mundo de Floripa esse grupo: que coisa mais sensacional! Uma família tocando, cantando e contando histórias, enquanto as crianças ficavam bem à vontade para pegar instrumentos e acompanhar. Uma festa! Clara logo se interessou por um pandeirinho. Eu vendo de longe, enquanto trabalhava, minha filha pegar sozinha o pandeiro, depois de engatinhar até lá, e começar a tocar e a dançar. Não me contive: larguei tudo e fui lá ficar com ela. Sentei no chão, a apoiei pelas costas e dá-lhe tocar pandeiro, maraca, chocalho, tudo! Eu a amparava para que ela não caísse de costas quando se sacudia de pé, dançando. Gritando de euforia. Batendo palmas e abraçando os amiguinhos. Um filhote de hippie! Bem linda, bem feliz, cheia de amigos em volta! Foi difícil curtir e registrar ao mesmo tempo, já que esse também foi o primeiro bazar que fui sem o pai dela. Então além de trabalhar e cuidar do meu pintinho, eu ainda tive que me virar em três pra registrar aquele momento tão especial. Mas consegui alguma coisinha, olha que lindo!

 Pessoal do TIC TAC TUM se preparando pra divertir a filharada.
Onde está Wally? Cadê o meu pintinho? Olhe bem...

 Tá aí! Com o pandeirinho na mão, sendo paparicada pela Nina e mexendo na maraca.

Ela quase não acreditou quando eles começaram a cantar e tocar!
"Mãe, num tô acreditando! Eles também tocam aquela coisa legal que meu pai toca!"
Ficou só olhando, pra depois acompanhar com o pandeirinho...

Foi uma tarde encantadora e memorável, e não só porque minha filha aproveitou muito, nem porque os filhos dos amigos também aproveitaram muito. Mas, também, porque os novos filhos dos novos amigos também foram conhecer o Bazar. E aí eu conto um momento de mais emoção ainda pra mim. O Theo, filho da Déia e do Oscar, foi conhecer o Bazar e a turminha! Ele chegou do mundo dos bebês há poucos dias, num lindo parto domiciliar. Déia foi corajosa, enfrentou o medo, teve garra e foi até o fim. E CONSEGUIU! Eu conheci a Déia e o Oscar também por causa do Bazar, porque ela esteve lá no último, bem barriguda, foi sorteada e ganhou uma cesta de produtos das mães expositoras. Nos falamos diversas vezes por telefone, até que conseguimos nos encontrar para entregar a cesta. Eu, meu marido, Clara, ela - com o Theo ainda na barriga - e o Oscar ficamos de prosa um tempão. Gente muito querida. Depois eles vieram aqui em casa pra nossa festa junina e eu aproveitei para incentivá-la um monte, para dizer aquelas coisas que eu sei que são importantes de serem ouvidas quando estamos na reta final de uma gestação. Hoje ela chegou toda sorrisos, com aquela cara de mãe poderosa, com seu filhotinho piquititico dormindo no sling. Eu levantei, dei um abraço nela e disse pro Theo: "Theo, querido, seja bem vindo". E foi quando a Déia me disse que, logo após o nascimento dele, ela me telefonou, mas eu infelizmente não atendi (devia estar amamentando, ou trocando fralda ou fazendo dormir). E ela disse: "Eu fiz questão de te ligar pra dizer que tinha dado tudo certo. Você foi a primeira pessoa para quem eu liguei pra contar que o Theo tinha nascido". Aí eu, esse ser com cara de brava e um coração mais mole que parafuso na areia, comecei a chorar... Foi muito forte isso, muito significativo. Saber que se contribuiu dessa maneira para que alguém se sentisse mais confiante e tranquila é uma coisa que não tem valor mensurável ainda... Eles, ela e o marido, disseram que se lembraram da gente em muitos momentos do parto. Já pensou? Uma família está recebendo seu filho e lembra de pessoas que acabaram de conhecer? É realmente de emocionar mesmo...
Bem, por tudo isso e ainda mais é que eu amo organizar os bazares junto com a Sheila.
Sem falar que eu não poderia ter encontrado uma parceira mais bacana.
Eu e ela somos o oposto uma da outra. A Sheila brava sou eu de bom humor, digamos assim. Ela é bem tranquila, e eu sou ligada no 440. Ela é comedida, e eu sou estourada. Mas quando a muié fica brava, até que a gente fica bem parecida! Somos opostas e, justamente por isso, altamente complementares. Sempre pensamos as mesmas coisas, e geralmente as pensamos junto. Uma termina a frase que a outra começou.
Juntas, criamos um evento que reúne mulheres que, mais que parceiras de trabalho, já se tornaram amigas. Frequentamos as casas umas das outras, trocamos ideias, sugestões, dicas, somos amigas.
É com muito orgulho, inclusive, que eu digo que 80% da festa da Clara está sendo feita com a ajuda delas: uma fez as toalhas, a outra as lembrancinhas, outra ainda o bolo e assim por diante.
9 meses de bazar, 9 meses trabalhando com mães, 9 meses recebendo mães e famílias e vendo as famílias se desenvolverem. 9 meses vendo a minha filha crescer junto com nosso trabalho.
Quem diria que eu, que já busquei emoção de tantas formas, fosse encontrar a maior delas me tornando mãe...

PS: hoje foi o primeiro dia em que Clara chegou de algum lugar tão cansadinha que dormiu no carro, o pai a pegou dormindo, a colocou na cama e ali ela ficou... sem nem jantar. Capotou de tanto brincar. Coisa mais linda...

08 julho 2011

VI Bazar Coisas de Mãe


Semana de correria total, preparando a vinda do obstetra francês Michel Odent pra Florianópolis e o evento em torno disso (cujas informações podem ser obtidas clicando no banner ali em cima) e organizando o VI Bazar Coisas de Mãe.
O VI Bazar vem num momento muito especial, de início das atividades do Espaço Hanami, que será um centro de atendimento a famílias, gestantes, mães que acabaram de ter bebê e aquelas que querem redirecionar as carreiras para não terem que se separar precocemente de seus filhos, cuidando deles mais de perto sem deixar de gerar renda.
Toda a filosofia do Bazar Coisas de Mãe e as fotos das 5 edições até agora estão lá no blog do Bazar, que é o www.bazarcoisasdemae.blogspot.com.
Amanhã haverá Bazar - a Edição de Inverno - das 13 às 18 horas, na Brinquedoteca BrinQtal, onde será também o Espaço Hanami, que estará em funcionamento a partir de 15 de julho.
No Bazar de amanhã teremos 18 mães, com suas marcas, expondo seus produtos feitos com muito capricho, requinte e amor. Coisas únicas, charmosas e de muito bom gosto. Acessórios infantis, femininos, moda, artesanato, arte, slings, cupcakes, alimentação natural, fraldas ecológicas, decoração para casa, pijamas quentinhos de flanela, almofadas cheias de estilo, bonecos Waldorf, brinquedos, bonecos, jogos educativos, e muita gente bacana!
Enquanto os adultos trabalham ou conhecem os produtos, a Brinquedoteca funcionará, oferecendo o melhor entretenimento infantil.
O local é aconchegante e bem quentinho - o que vem muito a calhar nessa friaca toda que chegou a Floripa.
Se você não sabe como chegar, é só acessar o blog do Bazar que lá tem um mapinha, é bem fácil, fica ali no Bairro Santa Mônica, numa travessa da Madre Benvenuta.
Às 14 horas teremos uma divertida "Cantação" de Histórias com o grupo TIC TAC TUM.
E às 17 horas tem o Consultão da Equipe Hanami, uma palestra aberta onde as enfermeiras explicam como funciona o atendimento ao parto domiciliar.
Venha conhecer essa iniciativa!
Sempre que tem Bazar, eu volto exausta... e imensamente feliz.

06 julho 2011

Sim! A Cegonha vem a Florianópolis. Florianópolis aderiu ao Programa Rede Cegonha

Quem acompanha esse blog sabe que estou falando há alguns dias sobre o Rede Cegonha, um programa lançado em março pela presidente Dilma e o ministro da saúde. A seguir, para explicar um pouquinho sobre o que é o Rede Cegonha, um trecho que está no meu novo projeto de doutorado:

O programa, lançado no dia 28 de março último em Belo Horizonte (MG), é inicialmente composto por um conjunto de medidas que visam garantir a todas as brasileiras, via Sistema Único de Saúde (SUS), atendimento adequado, seguro e humanizado e contará para isso com mais de 9 bilhões de reais do orçamento do Ministério da Saúde para investimentos até 2014. Entre as diversas medidas propostas, a Rede Cegonha prevê a qualificação dos profissionais de saúde que darão assistência às gestantes e aos bebês e, entre as novas estruturas propostas, estão as Casas da Gestante e do Bebê e os Centros de Parto Normal, que funcionarão, de acordo com o proposto pelo Governo, com o objetivo de humanizar o nascimento

Aí o Rede Cegonha foi publicado no DO dia 27 de junho, dia em que fiz a postagem "Rede Cegonha: esperando o nascimento de um projeto brasileiro" - é só clicar para ler. Ontem, dia 05 de julho, postei meu interesse em saber se Florianópolis irá aderir ou não ao programa, na postagem "A cegonha vem ou não vem? Rede Cegonha e Florianópolis", uma vez que a data limite era hoje. Hoje, a Sra. Edenice me respondeu - postagem anterior a esta aqui.

Eu mal tinha terminado a postagem, fui olhar minha caixa de e-mails e, às oito horas da noite, a Sra. Caroline Schweitzer de Oliveira, enfermeira coordenadora do Saúde da Mulher em Florianópolis já havia respondido minha mensagem.
Mulheres eficientes trabalhando na Secretaria Municipal de Saúde: a gente vê por aqui, hein?
E a resposta dela me deixou muito, muito feliz!
Ó lá:

Olá Ligia,

Desculpa não dar o retorno antes, e obrigada pela lembrança.
Já efetuamos a pré-adesão de participação na Rede Cegonha. O Secretário Municipal de Saúde esteve no lançamento da mesma, representando a Comissão Bipartite Estadual, evento em que a Secretaria Municipal de Saúde já confirmou nosso comprometimento com este processo. O próximo passo será a adesão aos projetos sugeridos pelo Ministério da Saúde, através de portaria específica, que já está sendo analisada pela equipe da Secretaria.
Obrigada pela preocupação e, principalmente, pelo interesse.
Ficamos à disposição para prestar maiores esclarecimentos e para receber sugestões através das quais você queira, porventura, contribuir com este processo.

Att,

Enfa. Caroline Schweitzer de Oliveira
Saúde da Mulher/RAIVVS
Secretaria Municipal de Saúde
Florianópolis

Ponto para Florianópolis, minha gente!
Parabéns ao Secretário de Saúde e à equipe do Saúde da Mulher do município que pré-aderiu, SIM, ao programa Rede Cegonha!
Grande passo!
Agora é seguir no caminho... luta árdua!
Mas longo caminho começa com o primeiro passo, ou não é?
Eu havia ficado com a sensação de que Florianópolis não entraria no Programa depois que uma representante do município na conferência Mulheres e Gênero nos Espaços Público e Privado Brasileiros, realizada no SESC no dia 08 de junho, disse não saber do que se tratava...
Agora sim!
Vamos lá, Floripa! As cidadãs deste município e seus filhos só têm a ganhar com a inserção no programa!

O meu agradecimento explícito à Sra. Edenice Reis da Silveira e à Enfermeira Caroline Schweitzer de Oliveira pelas prontas respostas obtidas. Aliás, só tenho tido prontas respostas vindas da esfera pública, acompanhadas por boas notícias. Coisa rara.
A Telma, assessora da Ministra Ideli Salvatti, me telefonou esses dias, por recomendação do nosso amigo Claudio Lucio Augusto, e estamos discutindo a possível inserção da pesquisa que vou começar em agosto ao Saúde da Mulher do Governo Federal.
Conclusão número 1: a mulherada parece estar trabalhando duro nos cargos governamentais, hein?
Será o efeito da primeira mulher na presidência do Brasil?

Estamos de olho! Como diz alguém por aí...

Ela respondeu!

Estou tentando saber se o município de Florianópolis se cadastrou no Programa Rede Cegonha - expliquei tudo no post anterior.O prazo nacional para cadastramento foi até hoje, 06 de julho.
Enviei um e-mail - que abro também no post anterior - para a Sra. Edenice Reis da Silveira, Gerente de Planos, Metas e Políticas de Saúde, para o endereço eletrônico que consta no site da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis.
E em apenas um dia ela me respondeu.
Segue a resposta:

Bom dia Dra. Lígia,
Encaminho a sua solicitação à coordenadora de Saúde da Mulher de nossa secretaria. Ela encaminhará as respostas solicitadas.
Atenciosamente,
Edenice Reis da Silveira
Gerência de Planos, Metas e Políticas de Saúde
Diretoria de Planejamento, Informação e Captação de Recursos
Secretaria de Saúde de Florianópolis - SC 
Muito gentil e solícita, encaminhou minha pergunta.
Vamos aguardar então.
O prazo para cadastramento, como eu disse, se encerrou hoje.
Por que eu tenho a sensação de que Florianópolis não vai entrar no Rede Cegonha, à despeito de ser um dos estados brasileiros campeão em número de cesáreas eletivas? 
Acho que foi porque a representante enviada à conferência sobre Mulheres e Gênero disse que não sabia do que se tratava...
Se realmente não se cadastrou, será uma grande perda.

Por aqui, vivendo um movimento novo na trajetória da filha. Agora ela está acordando umas cinco vezes depois que vai dormir e, EM TODAS AS VEZES, precisa me ver. Se não me vê, parece que estão arrancando um braço da criatura, é um berreiro, é um desespero que só eu chegando mesmo pra parar. Conclusão: não consegui nem jantar ontem e um mísero pão foi devorado em seis etapas. O que está me fazendo pesquisar sobre sono e o acordar a noite... Encontrando informações úteis que podem ser úteis para outras pessoas, trago pra cá!

Continuamos no aguardo da resposta da Secretaria de Saúde de Florianópolis. 
E aí? A Cegonha vem ou não vem?

05 julho 2011

A cegonha vem ou não vem? Rede Cegonha e Florianópolis

 Do chargista Samuca, do Diário de Pernambuco...
... que eu li também que será o primeiro Estado Brasileiro a ingressar no Programa.

Entre um cuidado e outro com minha filha, entre uma comidinha, uma brincadinha, um chamego e afins, em meio aos eventos e peripécias que tenho organizado e a muito trabalho que surge mesmo estando de férias, tenho recebido umas ligações muito bacanas que podem ajudar a tornar a pesquisa sobre ocorrência de desrespeito, maus tratos e violência no parto - que começarei a desenvolver em agosto - uma coisa de maior abrangência. Porque o que eu quero mesmo é que ela atinja o maior número possível de mulheres no Brasil, para que essas mulheres que foram desrespeitadas ou agredidas verbal ou emocionalmente durante os partos dos seus filhos tenham voz. Que possamos conhecer uma parte da realidade da assistência institucional ao parto. Para que todos os envolvidos possam problematizar a questão e que os graduandos da área médica possam ser preparados para agir de maneira diferente do que vem sendo praticado. Para que outras mulheres não sejam vítimas de violência naquele que deveria ser o momento mais especial de suas vidas. Para isso, quanto mais apoio o projeto ganhar, melhor. Quanto mais longe ele conseguir ir, melhor. Quanto mais mulheres puderem ser ouvidas, melhor. Então eu espero, em breve, poder dar uma boa notícia a todas e todos que lutam por mais respeito à mulher parturiente.

Em função disso, tenho estado razoavelmente ligada no que anda acontecendo relacionado à Rede Cegonha. Já falei brevemente aqui sobre o que é esse Programa, que está sendo implementado agora no governo Dilma. E hoje - 05 de julho - eu fiquei sabendo que os municípios interessados em participar do Rede Cegonha têm até o próximo dia 06 de julho para aderir à iniciativa. ALÔ-Ô: DIA 06 É AMANHÃ!

Então, o que eu gostaria de saber é: ALGUÉM SABE SE FLORIANÓPOLIS ADERIU?

ALÔ PESSOAL DA SAÚDE EM FLORIANÓPOLIS: A CIDADE SE CADASTROU?

Porque ó, vou falar: eu estive no evento sobre Mulheres e Gênero nos Espaços Público e Privado Brasileiros, que aconteceu dia 08 de junho no SESC aqui em Florianópolis, e lá estiveram presentes os autores da pesquisa e uma representante da área de saúde de Florianópolis - que eu infelizmente não me lembro do nome agora... E EU MESMA fiz questão de perguntar se a cidade estava se inserindo no programa.
A pessoa nem sabia do que se tratava...
E disse que não sabia responder, exatamente porque não tinha ouvido falar nada a respeito...

Peraí, meus camaradas. Eu sou uma reles ninguém que não tem cargo algum na área da saúde e me interesso pelo tema desde que me tornei mãe, há cerca de 1 ano, e estou sabendo... Então como assim "eu não tô sabendo de nada"?!

Eu entrei no site da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis e não tem nenhum destaque pra isso - não que eu tenha encontrado, pelo menos. E olha que procurei...
Então fui fuçando até chegar no "Nossa Equipe" da Secretaria.
Encontrei o nome de Edenice Reis da Silveira, que ocupa o cargo de Gerente de Planos, Metas e Políticas de Saúde, que foi o que mais se aproximou, na minha interpretação, do assunto. Peguei o e-mail dela e enviei a seguinte mensagem:


Prezada Sra. Edenice,
Sendo a senhora a Gerente de Planos, Metas e Políticas de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, gostaria de uma informação, por gentileza.
Gostaria de saber se o município de Florianópolis se cadastrou ou aderiu ao Programa Rede Cegonha, instituído pelo Ministério de Saúde em junho último e operacionalizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
É de conhecimento público que os municípios interessados em participar do programa devem se cadastrar até o dia 06 de julho (amanhã) e gostaria de saber se Florianópolis se cadastrou ou irá se cadastrar.
Interesso-me profissional e pessoalmente pela questão de humanização do parto e, como cidadã e munícipe, gostaria de saber se o município de Florianópolis será um dos contemplados pelo programa.
Agradeço pela atenção recebida e aguardo retorno.
Cordiais saudações,
 Dra. Ligia Moreiras Sena
Será que vou receber resposta?
E será que Florianópolis se cadastrou?

Oremos.

02 julho 2011

Dente que nasce, cocô que fica ácido: como assim? Mãe cientista quer saber


Nesse texto, conto como encontrei uma possibilidade de resposta para a pergunta: por quê o cocô do
bebê fica ácido quando está nascendo dentinho, podendo causar assadura?
Essa semana, minha filha, em cerca de 4 dias, desenvolveu uma assadura monstruosa.
Assim que começou, nós aumentamos a frequência das trocas das fraldas, evitando que ela ficasse exposta ao xixi. Reforçamos o uso do amido de milho (Maizena), que absorve a umidade e não contém fragrância (como os talcos convencionais), que poderiam piorar a irritação. Limpávamos bem a região com água fresca para evitar que ficasse ali qualquer resíduo. E nada era suficiente para reduzir a irritação, que estava deixando a região muito avermelhada. Ela tem uma pele bem sensível, como minhas irmãs, às vezes aparecem umas dermatites atópicas bem conhecidas minhas e da minha família, então estou sempre cuidando dela, sempre de olho. O melhor para ela (para ela, para  natureza, para todos os outros bebês também) seria eu ter usado desde o começo o diaper free, o elimination communication, ou em outras palavras: ela não deveria ter usado fraldas. Esse foi um outro ponto muito negativo de ter precisado trabalhar fora durante todo esse tempo, me impediu de usar a técnica, e precisei usar as fraldas descartáveis. Não que sejam coisas excludentes, não são. Mas não tive tempo hábil de me envolver nisso, aprender, realmente me dedicar. Outro dia entro em mais detalhes sobre isso...

Como de costume, liguei pra minha amiga enfermeira  de todas as horas, que me perguntou logo de cara: ela está com dentinhos nascendo? Como os dois dentinhos superiores da frente - os incisivos centrais, já aprendi - já estão grandinhos, supus que os dos lados deles - incisivos laterais, oi odontologistas! - já estariam a caminho, então respondi que era provável que estivessem nascendo, sim. E aí ela mandou: amiga, é normal. Quando os dentinhos estão nascendo, é normal ter muita assadura mesmo.
Oi?!
O dente é na boca, a assadura é na região genital. Como é que é isso, gente?!
E ela ainda me disse que não só existe como é bem comum.

Eu e o pai dela nos desdobramos em mais cuidados e nada de conseguir vencer aquela porcaria.
Como tínhamos uma consulta marcada com a pediatra homeopata dela, aproveitei pra perguntar sobre isso. E lá vem a resposta: pode ficar tranquila! Isso aí é dos dentinhos nascendo - e me mostrou a gengiva toda inchadona dos incisivos laterais chegando... Prescreveu uma pomada e eu comecei o tratamento. E ela foi clara: pode melhorar em 3 dias ou pode levar até 1 mês, depende do bebê.
Bom, isso foi na terça-feira. E hoje ela já está ótima! Nem com a assadura ela se incomodou ou perdeu o bom humor, mas ver que já está tudo bem tranquilizou os pobres corações materno e paterno.

Mas desde que me disseram que o nascimento dos dentes pode causar assaduras, bateu a dúvida: como é possível isso, fisiologicamente falando?
Fui atrás de entender melhor essa relação.
E em todo lugar, dos sites mais simplórios do mundo internético aos artigos científicos sobre saúde infantil, a única coisa que eu lia era "o nascimento dos dentes deixa as fezes mais ácidas e isso torna frequente o aparecimento de assaduras, as assaduras dos dentes".
Mas isso eu já sabia.
Minha dúvida era: por que o nascimento dos dentes deixa as fezes mais ácidas?

Para uma cientista, o "porque deixa" não é resposta.
Fui ler sobre o assunto, procurar uma resposta. E NÃO ENCONTREI! Nenhum artiguinho, nenhum profissional da área, ninguém, nada que explicasse o porquê do nascimento dos dentes deixar as fezes mais ácidas.
Então pensei bastante sobre o assunto e formulei uma hipótese, com os conhecimentos que eu tenho como professora de Fisiologia. Não vou testar a hipótese, como pede o método científico, mas ela é bem plausível. Lá vai.
Quando os dentinhos da criança estão nascendo, isso não é um evento isolado. Outras mudanças no organismo dela acontecem. Qual a função dos dentes? É atacar os predadores mas, principalmente, ser uma ferramenta para alimentação, ainda mais no caso da espécie humana, que, exceto pelo Mike Tyson, deixou de atacar os outros a dentadas faz tempo. Ou seja, o surgimento dos dentes simboliza "Oi corpo! Estou ficando pronta para comer de tudo! Logo mais, passarei dos alimentos simples aos mais complexos, tá?". Se é assim, é provável que o nascimento dos dentes acompanhe uma mudança bem significativa no trato gastrointestinal, no sistema digestório. Para se preparar para receber alimentos mais complexos, situação simbolizada pelo nascimento dos dentes, o estômago começa a produzir mais suco gástrico, que contém, além das enzimas que quebram as proteínas, ácido gástrico, o ácido clorídrico. Esse ácido não corrói a parede interna do estômago porque ele produz, também, muco, que protege contra o ataque químico. Num organismo mais preparado, quando o alimento misturado com o ácido passa para o intestino, os demais órgãos do aparelho digestório - pâncreas, fígado, vesícula - vão liberando seus sucos, que neutralizam a acidez. Mas como no bebê tudo está em desenvolvimento, pode ser que essa neutralização não seja tão eficiente quanto deveria. E aí o que sai do estômago, passa pelo intestino e vai ser eliminado como fezes, acaba indo mais ácido também. Nessa fase, para não ter suas paredes atacadas, o intestino também começa a produzir mais muco, que continua a produzir durante toda a vida. É por isso que também é frequente encontrar, nessa fase, muco no cocô, porque o intestino o está produzindo como defesa à nova acidez. Encontrei vários artigos falando sobre como a presença de muco nas fezes, nessa fase da vida da criança, é um evento normal, embora ninguém se aprofunde a explicar o motivo disso. Lá na frente, quando o aparelho digestório estiver mais acostumado, mais preparado, as fezes não serão mais ácidas, porque a acidez do que sai do estômago vai conseguir ser eficientemente neutralizada pelas coisas que aqueles outros órgãos lá - pâncreas, vesícula e fígado - produzem. E assim, será feita a paz entre os órgãos de boa vontade. Para felicidade do bumbum.
Mãe estudando. Adorei essa foto. Não encontrei o autor.
Mas ela está nesse site aqui
ilustrando uma matéria muito interessante, inclusive.

Essa é uma explicação bastante razoável, ao meu ver.
E pode ajudar outras mães a entenderem porque pode aparecer aquela assadura sem fundamento quando os dentinhos estão chegando.
É. A vida de uma mãe cientista é assim...
A gente vai buscando respostas enquanto vai sendo mãe. Tudo ao mesmo tempo agora.
Agora vou dormir. Que clareou enquanto eu escrevia...


01 julho 2011

Minha filha de 11 meses

 Clara, 10 meses e a caminho do 11o., sob o céu azul de Nova Trento, SC

Ontem, dia 30 de junho, minha filha fez 11 meses. Escrevo na madrugada de 30 de junho para 01 de julho porque ela me solicitou muito durante o dia e durante grande parte da noite também, indo dormir por volta da 1 da manhã. Depois que a acalmei e ela finalmente dormiu, vim aqui escrever as minhas impressões desse mês. Mês que, sem sombra de dúvida, foi um dos mais importantes na minha história como mãe.
Se eu pudesse dizer quais meses, nessa aventura, foram os mais marcantes, os mais reestruturadores, diria que foram, com certeza, o primeiro mês após a chegada dela e esse último, em que ela tinha 10 meses e caminhava para os 11.
Nesse mês, a Clara se desenvolveu muito. Acho que mais que em todos os outros, porque foram muitas coisas acumuladas. Os dois dentinhos de cima finalmente saíram e ela ficou uma lindeza de sorriso endentado. Eu me despedi dias a fio do sorriso-gengivinha dela. Eu amava aquele sorriso. Achava que sentiria falta dele. Mas depois que os dentes chegaram, ô que lindeza. Eu digo todos os dias pra ela: filha, esses dentinhos te caíram muito bem, você ficou ainda mais bonita! E ela me sorri com aquele sorriso-quatro-dentes que me dá até coisa. Ela também começou a responder quando perguntamos alguma coisa. Naquela língua lá do mundo dos bebês, mas totalmente inserida, totalmente engajada, diria até totalmente dialogante - hoje tô cheia de neologismos - quando a gente tem filho, tem que criar palavras novas, porque é tanta coisa legal que acontece, que a gente nunca viveu, que as palavras antigas não servem muito bem...
E agora ela também dança. Fica pulando e requebrando, batendo os bracinhos, toda feliz. Também pegou gosto por engatinhar e começou a expandir E MUITO os seus domínios, para desespero da torcida corinthiana e flameguista deste lar. Gosta de fazer releituras nas duas estantes da sala. Uma delas ganhou alguns brinquedos, no lugar dos enfeites, que é pra evitar perdas desnecessárias e para fazê-la se sentir à vontade pra mexer - que não tem coisa mais chata numa vida de filho do que ficar ouvindo NÃO a cada 30 segundos, patacaparéu. Na outra, ela tira todos os livros da prateleira inferior - que são aqueles livrinhos pocket que, por serem pequenininhos, ficam lindos nas minimãos dela -, coloca-os no chão e vai mexendo, um por um, escolhendo a leitura do dia. Bem ao lado dessa prateleira fica o violão do papai - objeto de desejo da pequena artista. Ela para na frente e fica batucando, dedilhando as cordas, enquanto dança. Ou seja, fica ali, entre livros e música, do jeito que a gente gosta.
Foi também nesse último mês que ela teve uma assadura monstro, que minha amiga enfermeira e a médica dela diagnosticaram como sendo "assadura em função do nascimento dos dentes". Eu nunca tinha ouvido falar nisso, então ando pesquisando sobre o assunto, pra entender direitinho a relação entre as duas coisas. Assim que chegar a um parecer, venho aqui compartilhar. Ainda assim, nenhuma reclamação: continua tranquila, sorridente e - a palavra que eu mais ouço em todos os lugares que vou com ela - SIMPÁTICA.
Nesse mês, ela chegou à conclusão que comida é uma coisa muito boa. Que comida é uma coisa muito legal. Que comida é uma coisa, bicho, imperdível. Coisa séria mesmo. Ela come de tudo, um tanto que eu nem acredito, se agita toda ao ver o prato pronto. Almoça com a gente, comendo do nosso prato, exatamente o que a gente come. Sem essa de "comida para o bebê, comida para o adulto", que ela nunca gostou de papinha de bebê. Manda ver mesmo, sem dó nem piedade.
Mas isso não aconteceu assim do nada... Há uma relação direta, que eu percebi muito claramente, entre o início da vontade de comer com o acontecimento mais importante nesse mês, que não diz respeito a ela, mas a mim: a minha volta pra casa. Quero dizer com isso: ter parado de trabalhar fora. Assim que eu deixei o pós-doutorado que estava fazendo, que me obrigava a sair todos os dias e ficar longe dela obrigatoriamente durante 6 horas, ela começou a se alimentar. Coincidência? Passei faz muito tempo da fase de achar que as coisas são coincidências... E foi esse fato que marcou definitivamente esse 11o. mês.
Eu passei 6 meses, dos 11 que ela está completando agora, trabalhando fora de casa. Retomei quando ela tinha só 3 meses e voltei pra casa agora. Foram 6 meses de uma separação que me custou muito, como eu já falei aqui... E eu acredito que tenha custado muito a ela também. Nós somos muito grudadas, como acho que todo bebê deve ser com a mãe. No início, ela chorava muito durante as tardes que eu passava fora. Depois, inverti o horário de trabalho, e ela aceitou melhor. Talvez porque ela tem o hábito de dormir até tarde, então acabava ficando relativamente pouco tempo sem mim...
Me lembro do rostinho dela todos os dias, ao me ver chegando. Ela se iluminava. Ria até fechar os olhinhos - como eu também faço quando estou muito feliz. Se jogava sobre mim e ali ficava, mamando e me olhando, e brincando com minha boca, e fazendo carinho no meu rosto. Esse, pra mim, era o momento mais feliz do dia - choro enquanto escrevo isso, porque me lembro como sofri por ficar sem ela. E o momento mais cruel era quando eu tinha que sair de casa, a deixando na cama dormindo, sabendo que ela acordaria e não me veria - e eu não a veria acordando, com aquela carinha amassada tão gostosa. O que eu posso fazer se eu sou assim? Tem mãe que é mais forte, aguenta melhor a separação, consegue retomar de onde parou numa buena. Mas eu não consegui. Ontem mesmo, conversei com uma moça que fica meio período fora de casa e deixa o bebê de 4 meses com a babá. Dava pra ver na cara dela que ela também não gosta - quem gosta? Mas ela mostrava-se muito mais forte do que eu fui, do que eu sou. Não fui feita pra isso não, pra deixar filho em casa e ir cuidar da vida. Eles crescem tão rápido, é tão efêmero, o tempo escapa da mão como por entre os dedos... Então eu não aceito perder esses momentos não. Pode ser que conforme ela vá crescendo, fique mais fácil. Mas enquanto ela ainda é um bebê, pra mim não dá.
Logo que ela completou 10 meses, aconteceu uma coisa que, junto com outras, contribuiu para a minha decisão de virar a mesa e mudar de vida. Ela e o pai dela estavam no quarto, brincando, durante a manhã, enquanto eu estava no trabalho. O quarto tem uma sacada que dá para a frente do condomínio, e estamos no primeiro andar, de forma que ouvimos tudo o que acontece ali embaixo. Uma mulher parou ali por perto e ficou conversando com outra pessoa. A Clara ouviu, parou o que estava fazendo, e pensou que fosse eu. Ficou toda agitada, feliz, pulou e tal. Ao perceber que não era eu, caiu num choro incontrolável e o pai demorou pra conseguir acalmá-la. Ele me contou isso enquanto eu a amamentava, logo depois de voltar pra casa. Comecei a chorar e disse: "isso vai acabar".
Quando a gente vira mãe, a gente vira profeta.
Eu não sei se é a força da palavra e a força da ação ou se é premonição mesmo.
Mas sei que eu disse que aquilo ia acabar com toda a força da minha vontade.
Claro que não apenas disse, mas fui atrás de fazer com que as coisas realmente acontecessem e permitissem que aquilo acabasse mesmo.
Hoje, minha filha está fazendo 11 meses.
E fazem 23 dias que não temos nos separado.
Estamos felizes. Muito felizes. Em lua de mel, como bem disse a pediatra essa semana.
Em agosto, recomeço meu caminho de estudo. Terei que me separar dela por alguns períodos. Mas serão outros quinhentos porque, afinal, é pra fazer algo que eu realmente gosto, na qual eu realmente acredito, e que tem toda a participação dela. Afinal de contas, foi um caminho construído totalmente inspirado nela e no que ela trouxe à minha vida.
Nesse último mês de vida, fomos ao Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento, SC. Pegamos o final de semana em que estávamos comemorando 2 anos do início da minha história com o pai dela e fomos passear por algumas cidades catarinenses, entre elas Nova Trento. Eu não sou católica. Mas não precisa nem ter religião pra se emocionar ao pisar naquela terra, que é a história quase viva de uma mulher que foi tão bacana, tão especial, que foi considerada Santa. Eu gostei muito de ter ido. E, ao entrar no Santuário, não tive como não me emocionar, porque eu estava entrando ali com minha filha pequena no sling.
Então eu fechei meus olhos e pensei: obrigada, vida, por ter me trazido a Clara. Que tanta mudança trouxe. Que tanta coragem me deu. Que fez desabrochar tanta coisa boa em mim. E que me completou...
No ano passado, no dia 30 de junho, eu estava escrevendo sobre a Síndrome de Couvade (no post "Couvade e os Adoráveis Grávidos"), aquela síndrome que alguns pais grávidos apresentam - caso do Clara's pai -, quando sentem os sintomas que a mulher grávida sente. E hoje, 1 ano depois, tá ali dormindo o meu bebezão, com seus 4 dentes e suas pernas grossas.
No mês que vem, minha filha completará 1 ano de vida extra-útero. Minha comemoração vai começar no dia 29 - e será sempre assim. Porque, afinal, ela começou sua viagem no dia 29, quando eu comecei a ter as primeiras contrações. E no dia 30 vai haver uma festa bem gostosa para os amigos, pra gente celebrar juntos esse 1 ano dela aqui com a gente.
Mas não posso me queixar: tenho festa todos os dias, há 332 dias.

Mãe, eu adoro esse gorro. Fico parecida com o pocoyo, né? 
Mas eu sou muito mais linda, né mãe?


Agora sou uma menina que tem 4 dentes e cabelos lisos esvoaçantes

Manhêêê: corre, péga a mánica, consegui ficar de péé!


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