sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Clara faz 14 meses

Ela tem 14 meses, 10 dentes e toda a simpatia do mundo. No café onde sempre vamos, é chamada de Miss Simpatia. Entre alguns amigos, é a Sorrisinho. Para outros, é a menina do "Botão de Sorriso". Quem não a conhece e a vê pela primeira vez diz que "É muito feliz". Quem a conhece de longa data também diz "Feliz, ela é feliz". Hoje ela faz 427 dias de vida, dias de amor e deslumbramento. A cada dia eu aprendo um pouco mais sobre ela, sobre sua inteligência, habilidades, personalidade e sigo cada dia mais contente. Ela é um bebê muito bacana, uma criança de bem com a vida, uma pessoa engraçada, divertida e atenta. É muito raro vê-la chorar e eu admiro muito nela essa capacidade de se adaptar, de se resolver, de aprender com as situações.Com 1 ano e 2 meses ela diz "oi" pra todo mundo. Diz "nenê" quando está com sono, "mamá" quando quer mamar, diz "papai" e diz "mamãe". Ou seja, fala quase tudo sobre seu próprio mundo. Nenê, mamá, papai e mamãe. Ela gosta de livros e de desenhar. Gosta de grama, de cachorros, de crianças grandes e pequenas, e gosta de música. Ela agora tem um cabelo que cai nos olhos e que já preenchem duas chuquinhas - finas, mas preenchem. Está quase caminhando, come muito bem, gosta de uvas e tangerinas, adora brócolis e não gosta de cenoura. Ela ainda é amamentada, segue em cama compartilhada, está pra cima e pra baixo comigo em slings e está muito feliz assim. Canta algumas musiquinhas, dança todas e adora um personagem chamado Peixonauta, estala os dedos quando o vê. Reconhece as pessoas nas fotos e os amigos na rua. 
Clara é uma respiração longa e profunda em todos os meus dias. Ela é o motivo de tantas mudanças. Ela aumenta a minha coragem e me torna destemida. Ela me dá beijo quando eu peço, e quando eu não peço ainda assim ela me dá.
Clara é uma menina sorridente, feliz, simpática, tranquila e de bem com a vida, que eu tenho o grande orgulho, prazer e plena satisfação de chamar de "minha filha".
Ela está na minha vida há 1 ano e 2 meses, mas parece que sempre esteve. Sinto por ela um amor antigo, amizade verdadeira e total confiança. Não é uma coisa de hoje, é antiga, madura, real e sólida. Entre nós não há dúvidas: ela sabe que pode contar comigo e deixa isso sempre claro em suas atitudes.
Clara chegou há 14 meses, me tirou de uma cegueira relativa, me abriu os olhos para meus próprios gostos pessoais, me deu coragem pra mudar e por ela eu sigo mudando. Por ela, sou uma boa mãe, uma pessoa mais consciente, uma mulher melhor.
Clara. Nenhum outro nome ela poderia ter que não esse.

Sorriso audível das folhas / Não és mais que a brisa ali / Se eu te olho e tu me olhas/
Quem primeiro é que sorri? / O primeiro a sorrir ri
Fernando Pessoa

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mulher e publicidade: desrespeito e discriminação disfarçados de humor

A gente aprende todo o tempo. Por atitude ativa ou passiva. Nosso cérebro é constantemente bombardeado de informações, que chegam até ele via visão, tato, audição, olfato e paladar, os cinco sentidos que aprendemos nas aulas de ciências num passado nem tão remoto assim. Eu incluo uma sexta forma de captação de informação sensorial, uma forma que, muitas vezes, junta todas as demais e que - o que a torna ainda mais poderosa - resulta em um aprendizado que não passa pelo crivo da consciência. Não sei se é o tal sexto sentido; acontece quando a pessoa capta sinais mínimos de comportamento, linguagem corporal, junta tudo ao contexto e monta um cenário completo. A mensagem foi passada, mas ela nunca foi dita claramente, no máximo foi deixada por associação de ideias ou mensagens, ou em tom de brincadeira. Deixou-se no ar, apenas... E seu cérebro pegou. Você nem percebe que está aprendendo algo sobre alguma coisa, mas está.  E muitas vezes, pela repetição, essa informação se consolida de uma maneira que pode durar até mesmo anos e - o que é pior - realmente interferir na sua maneira de ver o mundo.
Quer ver?
Responda às frases seguintes:
- O tempo passa, o tempo voa e quem continua numa boa?
- Quem é a verdadeira maionese?
- Quem tem mil e uma utilidades?
- Qual cerveja é a número 1?
- E qual é a redonda?
- De que marca é o primeiro sutiã?
- Como é uma família de comercial de margarina?
- Que marca de leite gosta de bebês vestidos de mamíferos?
- De que marca é o caldo nobre da galinha azul?
- Quem diz que ama muito tudo isso?
- De mulher pra mulher:................................
Não é coincidência o fato da maioria das pessoas saberem essas respostas. As propagandas e comerciais são feitos por gente que estuda o assunto, que usa estratégias persuasivas e táticas que inculcam na mentalidade coletiva ideias e conceitos.
É exatamente por isso que é uma extrema falta de respeito a forma como as mulheres são representadas em grande número de campanhas, porque isso ajuda a criar uma mentalidade preconceituosa, discriminatória e ridicularizante sobre a figura feminina e o papel da mulher no mundo. Mas o que eu estou falando não é nenhuma novidade.
Feliz é a mulher tem uma linda silhueta e toma o iogurte da marca tal. Ou a mãe de família neurótica que resolve sua mania de limpeza com um excelente produto e diz “Xô, neura”. Feliz é a mulher que agora tem uma família perfeita, porque usa um creme vegetal no café da manhã, com suas crianças brancas vestindo seus pijamas brancos. Mas esses exemplos nem são assim tão extremos. Extremo mesmo é o reforço à ideia de que mulheres servem para satisfazer os prazeres sexuais masculinos, ou que vivem milagres graças a procedimentos médicos muitas vezes desnecessários ou invasivos. Grave é incitar ideias sexistas nas meninas ainda pequenas. Grave é reforçar a ideia de que mulher foi feita pra lavar roupa, passar roupa e testar o novo sabão em pó. Grave é manipular o inconsciente coletivo de forma a moldar o pensamento das pessoas para o que se deseja.


A gloriosa Gisele Bundchen é a estrela de um comercial da Hope, marca de lingeries, um comercial que presta um desserviço à figura feminina. Especificamente, uma clara ofensa às mulheres brasileiras. Num dos comerciais da campanha, a grande estrela das passarelas aparece num vestido colado, contando para o marido que a mãe dela vai morar com eles, ou que bateu o carro, ou qualquer coisa do gênero. Na sequência, aparece contando a mesma coisa, só que de lingerie. Ao fim, o narrador fecha dizendo: “Você é brasileira, use seu charme”. A Hope está dizendo assim pra você: você é brasileira, você é gostosa, você tem curvas, você não precisa abrir a boca: tire sua roupa e tá tudo certo. Esse é o seu charme. É ofensivo, amoral, degradante e vergonhoso. A brasileira é uma mulher incrivelmente inteligente, criativa, cativante, que vence dificuldades e barreiras, faz muitas coisas ao mesmo tempo e tem uma grande habilidade para gerir coisas. Aumenta a cada dia o número de mulheres que são chefes de família ou que empreendem em iniciativas absolutamente inovadoras. Mas a Hope acha que o charme da brasileira é manipular sexualmente, usando seu corpo, o marido.



Ainda dentro da representação feminina nas propagandas, existe um comercial, já não mais veiculado, que merece citação não só pela forma depreciativa com que trata o universo feminino mas, principalmente, por sexualizar meninas de, no máximo, 8 anos e incitar a introdução precoce de tecnologias no universo infantil.



Por fim, chamo a atenção para um comercial que, assim como o da Hope, está em veiculação nesse momento, e diz respeito à minha área atual de atuação e pesquisa. É um comercial da Nikon, empresa de máquinas e equipamentos fotográficos. Em resumo, e de maneira bem dissimulada, ela diz indiretamente – porque as estratégias publicitárias são, via de regra, indiretas – que o milagre da vida é proporcionado pela medicina. O milagre da vida não é gerar e poder parir. É a medicina facilitar ou realizar o parto. Se você acha que não tem nada de mais, então a sua mente foi moldada a ponto de achar que isso é irrelevante. O normal é o parto natural. O parto cesáreo é um procedimento cirúrgico de grande porte, altamente tecnológico, que salva muitas vidas, mas que deve ser utilizado somente em caso realmente necessário quando há risco à vida da mãe ou do bebê. O que acontece atualmente é a prescrição indiscriminada do método porque, afinal, são poucas equipes médicas dispostas a aguardar o tempo do bebê, a conclusão do trabalho de parto, que pode levar muitas e muitas horas. Mas isso não é divulgado porque, afinal, em muitas e muitas horas dá pra fazer muitas e muitas cesáreas e encher muitos e muitos bolsos de grana. O projeto Nascer no Brasil – Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, realizado por diferentes universidades brasileiras, afirma que:
"As taxas de cesariana estão aumentando sistematicamente no Brasil como reflexo de mudanças nas práticas obstétricas. Estudos internacionais vêm demonstrando os riscos da cesárea e o impacto na saúde reprodutiva futura da mulher. Para os recém-nascidos, os efeitos descritos são: o aumento da mortalidade neonatal, da taxa de nascimento pré-termo intermediário e tardio, além do uso de ventilação mecânica em recém-nascidos de baixo risco".
Então não é um mero detalhe. É falta de comprometimento social e de querer mostrar as coisas como realmente são. E isso diz respeito diretamente à mulher, uma vez que o parto é exclusivamente feminino. O milagre, senhores publicitários, é uma mulher gestar e parir. Cirurgia não é milagre.
Eu acredito sinceramente no poder da conscientização e da queda dos véus. Acredito que somente vendo a real intenção das coisas por trás das aparências superficiais podemos entender o mundo em que vivemos e escolher por qual caminho trilhar. Mulheres não devem aceitar serem vistas como corpos desfilantes, mulheres não devem aceitar serem reduzidas a instrumentos, mulheres não devem aceitar piada sexista, nem mesmo quando ela é dita por uma mulher – o que é ainda mais nocivo, porque mostra o quão alienados e inseridos num processo social danoso estamos. Eu não aceito ser vista e interpretada dessa maneira. Eu não aceito piada sexista. Eu tenho horror de quem vê nisso uma forma de humor. E concordo absolutamente com Oscar Wilde quando este diz que a história da mulher é a história da pior tirania que o mundo conheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte. E não se iluda pensando que passou a época do desrespeito à mulher na publicidade. Talvez antes, quando lindas mulheres maquiadas em seus vestidos rodados e bem acinturados eram retratadas ostentando um belo e suculento assado em uma mão enquanto pilotavam o aspirador de pó na outra, eles fossem mais sutis.

Essa postagem faz parte de uma blogagem coletiva cuja ideia partiu de Silvia Azevedo.

domingo, 25 de setembro de 2011

Sobre crianças e livros

 Onde está Wally?
Clara visitando a Barca dos Livros - e se fartando de livrinhos...
 O saber a gente aprende com os mestres e os livros.
A sabedoria, se aprende é com a vida e com os humildes. 
Cora Coralina

Na postagem anterior, há um vídeo impactante sobre a importância do comportamento dos adultos sobre a vida e comportamento das crianças, com o subtítulo de "A criança vê, a criança faz". Qual a mãe ou o pai que já não se questionou sobre o impacto de suas próprias atitudes sobre o comportamento de um filho? As crianças aprendem, também, pelo exemplo, vendo o adulto fazer. O convivio diário com determinadas situações e contextos faz a criança construir uma visão de mundo em que esses contextos e situações tornam-se naturalmente presentes e - mais importante ainda - indissociáveis. Coisas e situações repetidamente presentes são compreendidas como partes naturais da vida. Quem cresce vendo tapa, aprende que é pelo tapa que se resolve - até que tenha cérebro e sensibilidade suficiente para concluir que não se ensina nada de bom batendo, apenas que um se acha no direito de violentar o outro. Quem cresce vendo tratamentos hostis contra outras pessoas aprende que é assim que se trata o outro. Por outro lado, uma criança que cresce num meio musical aprende que a música é parte natural da vida; que tudo tem som, que os sons são apreciáveis, que podemos falar por música, expressar nossas emoções por música, sorrir, sofrer e sentir musicalmente. Quem cresce em meio a livros também aprende que eles fazem parte da vida, que estão sempre ao nosso alcance, que contém palavras que nos entretêm, divertem, transportam, ensinam e nos levam a refletir.

Aqui em casa, os livros têm lugar de destaque e podem ser vistos em todos os cômodos, sem exceções.
Nós gostamos de livros, estamos sempre com algum em mãos e, pelo menos nesta casa, não são apenas artigos de decoração. No quarto da Clara, onde ela passa pouquíssimo tempo, tem livrinhos desde quando ela ainda estava na barriga: os que eu vou comprando ou ganhando somados aos meus de infância, que guardei para possíveis filhos - a gente só guarda para os filhos o que considera importante...
Um bebê que cresce em meio a livros tende a valorizá-los e a vê-los como naturais. Tanto é assim que, hoje, já existem bebetecas, as bibliotecas para bebês, "voltadas exclusivamente para crianças de quatro meses até cinco anos de idade, com organização planejada para desenvolver a autonomia dos pequenos. O objetivo desses espaços é incentivar o gosto pela leitura desde cedo, atráves da contação de histórias e da apreciação de livros, contribuindo para que a criança desenvolva o pensamento, a atenção, o raciocínio,o estímulo, a imaginação, a comunicação. Além disso, busca-se a interação entre o adulto, o livro e a criança e o acesso à leitura literária é também o foco do trabalho". Como se subentende pelas aspas e itálico, esse trecho não é meu. É de Márcia M.M. Rabe e Siumara A. de Lima, no artigo "O desafio de formar o leitor diante das novas tecnologias a partir da utilização do espaço bebeteca - biblioteca para bebês", que você pode acessar clicando ali mesmo no título e que agora está na aba Maternidade Consciente deste blog. As autoras começam justamente afirmando que:
(...) quanto mais cedo a criança for apresentada aos livros e a uma boa leitura, maior será seu interesse por toda a vida.
A Clara é ainda bebê e, ainda assim, sempre teve contato com livros. Talvez porque sempre nos veja mexendo neles, e também porque são coloridos, bonitos e interessantes, ela sempre se interessou.
Começou por um de plástico que levava pro balde e pro banho. Logo que começou a se esticar pra pegar as coisas e engatinhar, procuramos adequar as coisas por aqui, evitando que coisas perigosas ou facilmente quebráveis ficassem ao seu alcance. Não mudamos os livros de lugar. Eles estão onde sempre estiveram, de forma que ela sempre os pôde alcançar, manipular e explorar livremente. E ela assim sempre fez... Rasgou pouquíssimas folhas. Acredito que já desenvolveu um certo cuidado com eles. Já a vi apertando um contra o peito e dançando, sinal claro de afeição. Sim, eles são bonitos, por que estragaria uma coisa bonita?
Aqui temos duas estantes cheias de livros. Numa delas, na parte inferior, estão - propositalmente - os pocket books. E - invariavelmente - todos os dias Clara faz inúmeras incursões àquela prateleira. Eu a observo sistematicamente. Ela vai até lá, tira todos do lugar, passa a mão em todos e escolhe uns dois, nos quais se atém mais tempo. Faz isso muitas vezes por dia. Eu e o pai dela reorganizamos os livros após todas as explorações, e logo ela volta pra lá. É, sem dúvida, o lugar que ela mais explora da casa, embora tenha muitas coisas de fácil acesso. Um deles ela escolheu como brinquedo: o tirou da prateleira e está sempre junto aos brinquedos, nunca junto aos demais livros, exatamente um que é cheio de fotos de cachorros.  Fico feliz por esse interesse dela, que sinceramente acredito ter sido, também, herdado. O próprio artigo que mencionei, sobre a bebeteca, diz que "para a sociologia das práticas culturais, a leitura é uma arte de fazer com que se herde mais do que se aprenda".
Claro que ela ainda não chegou nem próximo da fase da leitura, mas esse contato, essa proximidade e familiaridade ajudam a montar um contexto em que os livros são itens naturais, presentes e, até, necessários. Isso certamente tornará o aprendizado futuro dela muito mais fluido e natural, como enfatiza Emmanuel Fraisse, citado pelas autoras do artigo:
"Se ler verdadeiramente é poder ler algo que ainda não conhecemos, aqueles que não nasceram no mundo dos livros terão necessidade de nada menos que uma reestruturação de seu horizonte cultural para que se tornem leitores"

Se as crianças precisam da encenação, do faz de conta, do reproduzir para construir seu mundo e se verem dentro dele, acredito que os livros, com suas histórias, viagens, estímulos, possam ajudá-las nessa tarefa. Inclusive por isso, acredito que se crianças reproduzem o que vivem, e a leitura é uma forma de vivência, há que se ter muito cuidado na escolha dos livros, para que não incentivemos nossos filhos a quererem reproduzir padrões que reforcem a discriminação, o preconceito e o sexismo.
Escrevi esse texto inspirada em um espaço muito bacana aqui em Florianópolis que todo mundo que valoriza leitura, cultura e livros conhece: a Barca dos Livros. Hoje nós fomos lá depois de uma boa slingada de alguns quilômetros e ficamos sentados com ela na área de livros infantis. Ela adorou! Frank mostrou pra ela, inclusive, um livro incrível chamado "O livro negro das cores", de Menena Cottim e Rosana Faría.
Ele conta a história de cada cor, dizendo com o que parecem, ao que são atribuídas, a quais sensações estão relacionadas. Só que ele é todo preto e é, também, escrito em braile. Fiquei imaginando que coisa especial uma mãe contar aquela história para seu filho com deficiência visual e ver a criança conseguindo formar a imagem de cada cor sem que possa vê-la. É por essas e outras que eu sempre vou incentivar minha filha a mergulhar nesse fabuloso mundo dos livros... E quem sabe eu ainda escreva um pra ela?


 "(...) a criança que cresce num mundo onde a leitura, a narrativa de contos de fada, fábulas, 
aventuras e outros, fazem parte do seu cotidiano, 
tem mais facilidade em interpretar situações reais em sua vida adulta, pois
esse tipo de atividade garante a construção de mundo mais elaborado, 
de maneira crítica e autônoma".
Márcia M.M. Rabe
Siumara A. de Lima
    
 Porque temos uma dessas em casa, onde ela pode mexer sempre que quer, ela já sabe como funciona uma biblioteca: é chegar, pegar, sentar e ler... ou ver, por enquanto.
Se você nunca levou seus filhos à Barca dos Livros, na Lagoa da Conceição, em Floripa, sempre é hora...


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ausentes e contentes, mães para agradar ao mercado - Claudia Rodrigues

Esse vídeo está ao final do texto da jornalista. Eu já o tinha visto. Acredito puramente nisso.
As crianças vêem. As crianças fazem.

Hoje vou ficar bem quietinha. Porque diante de um texto como esse não há mais o que falar. Sobre exercer a maternidade com consciência. Sobre a tecnocratização do afeto. Arrume um tempo para ler. Desfrute. Os grifos são meus.

Ausentes e contentes, mães para agradar ao mercado

Está prometido para novembro próximo o lançamento de mais um livro que deve cair nas graças de uma massa significativa de mulheres. Édipo Tirano, da psicanalista Márcia Neder, se propõe a discutir o lado sombrio da maternidade. Em entrevista à repórter Juliana Vines, da Folha de S. Paulo, ela afirma que “Não se fala da renúncia, da doação e das exigências. E as exigências cresceram nas últimas décadas”.
A matéria vincula o livro de Neder ao polêmico Sem Filhos, da também psicanalista Corinne Maier. Best seller, o livro da suíça Corinne, lançado na França em 2004, cita uma lista de 40 motivos para não ter filhos. É preciso aguardar para ver se chega ao mercado mais uma das sistemáticas pauladas, dessa vez à brasileira, que vêm sendo dadas nos movimentos contraculturais por uma maternidade consciente.
Lançados como grandes novidades, esses livros defendem o que está estabelecido como padrão de comportamento materno ideal para o mercado. Em relação ao tratamento que dispensamos aos filhos, migramos de mães conformadas, submissas e acomodadas no cuidado convencional deles, antes da Segunda Guerra, para a maternidade tecnocrática que se instalou no pós-guerra. A partir daí houve um distanciamento das crianças, o que provocou no psiquismo parental uma necessidade de investimento cada vez maior em vínculos materiais e mimos, mas pouca companhia de fato e pouco atendimento às necessidades primárias da criança. Culpa é ausência de responsabilidade, quanto mais os pais se afastam dos filhos para ganhar mais dinheiro, comprar mais objetos de apelo publicitário; mais satisfazem as vontades e menos satisfazem os desejos genuínos, esses sim fundamentais para a formação do caráter. 
O livro Grito de Guerra da Mãe-Tigre, da sino-americana Amy Chua, lançado em 2010, surgiu com uma quase solução para a culpa, o calcanhar de Aquiles das mães ausentes. Chua defende um método em que a mãe é uma doutrinária que exige dos filhos horas e horas de estudos pautados em causa própria, pela necessidade adulta de viver afastada e atarefada. A batalha contra a culpa das mães-tigres é transferida para a eficiência dos métodos terceirizados de educação. Um vale-tudo para a mulher poder expressar seus ressentimentos pela maternidade. É mais um best seller para aquecer o mercado tecnocrático das relações humanas.
Já na década de 1980, o Mito do Amor Materno, de Elizabeth Badinter, caiu como luva num Brasil Nova Mulher. Infelizmente se confundiu a boa e velha batalha feminista com direito de abdicar do convívio tão saudável para as crianças. Badinter chega a afirmar que a mamadeira é um dos símbolos de libertação da mulher. A maternidade defendida como um lugar que inexoravelmente rouba a diversão da vida da mulher é uma bandeira contra as necessidades dos bebês, seres que nascem tão dependentes, que sequer têm consciência sobre o que seriam seus supostos direitos.
Seria ótimo se livros como os de Badinter, Corinne e Amy levantassem reflexões sobre a não opção pela maternidade. Mas não é assim que acontece. A penetração no mercado se dá de forma diferente e em vez da ampliação do debate, também sobre as implicações morais e religiosas de bancar a decisão de não ter filhos, o que seria muito legítimo e bem-vindo, desencadeia-se uma onda de identificações das mulheres que acham crianças literalmente “um porre” e sofrem com a maternidade desde o parto.
Sempre que se fala em maternidade consciente e prevenção de neuroses via vínculos afetivos surge o argumento mofado da guerra entre maternidade X trabalho, como se a defesa de uma maternidade consciente passasse necessariamente pelo abandono do trabalho e de outros prazeres. Maternidade consciente tem a ver com parar de terceirizar a maternidade em tempo integral e exigir melhores condições no trabalho para que as mulheres trabalhadoras possam acompanhar mais de perto o desenvolvimento das crianças. Inclui paternidade consciente também, mas não na base do “toma que o filho é teu, te vira com esse traste que me tira a liberdade de ser mais mulher”.
Não dá para negar o estrago humano que viemos fazendo na formação das crianças nos últimos anos. É preciso ir à luta e entender de maneira também inteligente o que ainda estamos fazendo com as gerações que estão aí. Maternidade só à base das emoções de comerciais de TV e das próprias projeções nos filhos, maternidade só em cima desse lugar narcisista e egotista, está com a data de validade vencida.
Filhos precisam de mães, isso não é clichê antifeminista. Quando são bebês não cabe o discurso de qualidade como primor de educação porque no primeiro ano de vida a necessidade em quantidade de tempo é enorme e deveria ser bancada pelo Estado e pelas empresas que se dizem amigas da criança. Caberia às mulheres reivindicar aumento de licença-maternidade, melhores condições no trabalho nos primeiros 3 anos da criança, em vez de defenderem cegamente os interesses do mercado, enganchadas nas sombras de um psiquismo coletivo inerte que cultiva raiva e desprezo pelas crianças.
As ricas escolas privadas estão abarrotadas de crianças carentes de afeto e convívio com os genitores, que não têm noção de como lidar com frustrações. Arrogantes, pouco empáticas, elas refletem na escola o que trazem de casa.
Se os únicos atingidos fossem os filhos desses formadores de opinião que cultuam livros técnicos sobre educação para fortalecer os próprios egos, estaria tudo ótimo, mas não é assim, a mídia ajuda a deturpar e essas ações se alastram, reproduzindo-se em velocidade crítica entre pessoas absolutamente carentes de tudo. Lá onde nem as noções básicas de higiene existem, lá onde a “educação no Brasil não é mais uma questão política, mas paleolítica”, como me revelou uma professora do Sase, Serviço de Apoio Socieoeducativo, de Porto Alegre. Ali do outro lado da rua, nas comunidades pobres, nos morros, nas vilas, nas favelas, está nosso espelho. Crianças sofrendo a interferência direta da falta de tudo, com apelo social urgente para ter tudo. Até se poderia pensar numa educação tecnocrática, afastada e egotista, como sonha nossa elite, se não tivéssemos de dar conta de um mar paleolítico de crianças, que também são nossas.
A educação tecnicista, que defende o direito dos genitores a qualquer preço, tem uma ligação direta com a infelicidade e a violência cada vez maiores nas famílias de baixa renda. O mecanicismo na educação exige produtos, serviços e alta competição. O efeito numa criança de classe média ou alta não é bom, mas pode ser até engraçadinha a situação dos órfãos de pais ricos, vivamente ocupados, como esse vídeo aqui, da década de 1990, quando a moda dessas novas “técnicas” estava a deslanchar sem tantas máscaras.

Muito útil para os ausentes, que acabam dando aos filhos a ilusão de que é mais amado quem tem mais, mas cai como uma pedra em cima das crianças carentes, que acabam sendo criadas com a sensação de que existe um mundo bonito e real ao qual elas definitivamente não pertencem.
Como falar de igualdade e de inclusão se em vez de defender ideias eco-humanistas para a educação de ricos e pobres, iguais e menos iguais, estamos ainda na Era da Pedra a discutir de quem é a responsabilidade sobre os sentimentos de culpa dos tecnicistas da educação?
Não vincular educação tecnicista, inconsciente e consumista ao quadro dos filhos que não são nossos, esses literalmente jogados pelas ruas diariamente, é de uma insensibilidade cruel com nossos próprios filhos, é uma relação óbvia de causa e efeito. Ingenuidade narcísica achar que podemos levar ad aeternum as muralhas entre ricos e pobres; repetição atávica não vincular educação humanista e maternidade consciente, com práticas sócio-ambientais urgentes.

Cláudia Rodrigues, jornalista, terapeuta reichiana, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas, 2008. Centauro Editora. Blog: http://buenaleche-buenaleche.blogspot.com

Só não levantei pra aplaudir de pé porque postei na madrugada e marido e filha estão lá, dormindo juntos.
Retirado daqui.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Xarjincasa no ar!

Estou muito orgulhosa da iniciativa do Frank, que aproveitou a segundona e a proximidade da primavera pra estrear seu novo site: o XARJINCASA.
Lá tem um pouco de cada trabalho dele: logomarcas, material institucional, ilustrações personalizadas sob encomenda, charges, e uma super novidade: UMA LOJA VIRTUAL, o XARJ XÓPIM! Agora, quem gostar de uma charge ou ilustração dele vai poder recebê-la em casa na caneca, camiseta ou ecobag.
Eu posso falar: é tudo de bom a gente ter uma ideia e ele desenhar...

Frank faz coisas muito bacanas (sei que sou suspeita pra falar, mas dá uma espiada lá que você vai concordar comigo). Adoro os materiais institucionais que ele faz, sem falar nos personagen. Gosto particularmente do Teobaldo - O Cão; acho esse cachorro muito parecido comigo, com meu jeito de interpretar as coisas. As Véia são unanimidade: dois personagens muito engraçados, com uma forma diferente de ver o mundo, saindo do óbvio (ou caindo totalmente nela).

Quando eu estava grávida, ele fez muitos desenhos da Clarinha, de como a gente imaginava que ela seria. Hoje, que ela já está aqui com a gente, ele continua desenhando.

 Clara chegando...
 Ilustração pro convite do chá de bebê

Eu vivia as coisas e ele ia desenhando...

O adesivinho da festa de 1 ano

Caneca com a caricatura do Barthes, o cãozão amado da Soninha Vill e do Gastão Cassel.

 Ecobag
Camisetas

Isso sem falar que ver o Frank trabalhar é muito prazeroso. Clara também acha: agora ela anda sempre com um lápis na mão, riscando tudo o que é vivo e não vivo.
Sou suspeita pra falar, mas achei a ideia dele muito boa. Vai lá conhecer: www.xarjincasa.com.br

 Clara ajudando o papai a trabalhar. E criando seu portfólio na porta do banheiro...


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Se você não quer, diga: NÃO. EU NÃO QUERO. ME RESPEITE.


"Não se dê ao trabalho de dar explicações. Assuma simplesmente que pode fazer o que bem entender"
Dr. House - personagem fictício (?)
  • Você não é um número. 
  • Você não é um caso clínico. 
  • Você não é uma doença. 
  • Você não é um leito
  • Você tem nome, sobrenome, valores, uma história e direito de ser respeitado e bem atendido.
Ao ser atendido por qualquer equipe de saúde, QUEIRA saber os nomes e os cargos de quem o atende. Exija saber isso. É seu direito saber quem está te examinando, por que está te examinando, o que está te prescrevendo, por que prescreveu aquilo.
Quem te atender deve, AO MÍNIMO, se apresentar, ser cordial e te consultar sobre suas preferências.
Se você for desrespeitado nos serviços de saúde, denuncie.
Não estou tendo uma crise de fantasia. Essa deve ser a realidade. E quem discorda disso tem interesses obscuros por trás de sua postura opressora - e, de alguma forma, deve se beneficiar da violência institucional.

Ao lado daquele cartazinho informando que quem desrespeitar funcionário público no exercício da função sofrerá as consequências da lei, DEVERIA ter outro dizendo:  
EXIJA SER BEM ATENDIDO. EXIJA SABER O NOME E A FUNÇÃO DO SERVIDOR QUE TE ATENDER. EM CASO DE MAU ATENDIMENTO, DENUNCIE.
Se você se sentir constrangido, desconfortável ou desrespeitado em algum procedimento ou situação médica, diga, com a tranquilidade que é fruto de quem conhece seus direitos: NÃO. EU NÃO QUERO. 
Constrangimento é uma forma de violência. Opressão é uma forma de violência.


MPF defende privacidade em exames em hospital universitário de Rio Grande



Uma gestante de alto risco teve procedimento ginecológico negado pelo Hospital Universitário Miguel R. Corrêa Junior porque impediu que estudantes de medicina da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG) acompanhassem o exame. O Ministério Público Federal moveu ação civil pública, julgada improcedente tanto pela Vara Federal de Rio Grande quanto pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Agora, a Procuradoria Regional da República da 4ª Região (PRR4) apela para que o Supremo Tribunal Federal (STF) mude o entendimento.

O procurador Carlos Eduardo Copetti Leite, autor do recurso, considera que negar atendimento ao paciente que recusa o acompanhamento discente contraria direitos fundamentais como direito à dignidade, à intimidade e à saúde. Segundo ele, a questão transcende o interesse subjetivo da causa. "O objetivo da ação civil pública não é impossibilitar todo e qualquer acompanhamento de estudantes em exames médicos, mas tão somente quando o paciente sinta-se constrangido, humilhado e violado na sua intimidade", afirma.

Para a Justiça, o bem maior a ser protegido neste caso é o da excelência do ensino médico, que privilegia o interesse público de todos os cidadãos que necessitam de cuidados hospitalares. Copetti argumenta que "o grau de realização do direito fundamental ao ensino dos estudantes de medicina não é tamanho a ponto de justificar a não realização ou a restrição do direito à saúde, à intimidade e à dignidade da paciente".

O procurador acrescenta que o hospital da FURG é credenciado ao Sistema Único de Saúde (SUS), sendo remunerado por todos cidadãos para a realização de seus fins. Portanto, o ensino da medicina não pode ser obstáculo à realização de consultas e exames. Além disso, a instituição é referência em relação ao acompanhamento pré-natal de casos de alto risco: é o único em Rio Grande em que tal serviço é oferecido pelo SUS. "Exigir a busca por outra instituição seria até agravar a situação dos interessados, fazendo com que eles dispensem recursos que não possuem para o deslocamento, sendo justamente a hipossuficiência a razão que os leva a procurar um hospital público naquela localidade", defende. 
Acompanhe o caso no TRF4:
Apelação Cível Nº 5001945-73.2010.404.7101

Fonte: Ascom PRR-4.

Todas as pessoas têm o direito de serem respeitadas, de serem ouvidas e de decidirem o que consideram melhor para si. A ninguém deve ser imposta situação humilhante, desrespeitosa, constrangedora ou que fira seus direitos. Toda voz deve ser ouvida e respeitada.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Mãe, como nascem os bebês?

Ainda falta muito pra Clara me fazer essa pergunta - eu acho, pelo menos. Mas taí uma coisa que nunca me preocupou, como explicar isso pras crianças...
Se não puder ser explicado como natural, então é porque a pessoa não vê como natural, ué. Aí é melhor mesmo a criança aprender com outra pessoa, pra não crescer cheia de viés.
Lá em casa foi tranquilo, mas aconteciam uns episódios engraçados.
Quando eu era criança, me lembro de um livro que rolava na casa da minha vó, sempre na clandestinidade, quando os primos estavam reunidos. Era um tal de um primo trazer enrolado no cobertor, depois o outro colocava dentro do travesseiro, uma loucura, parecia tráfico. A gente abria o livro, via um pintinho lá (não o da galinha, o do menino mesmo) e rachava o bico, dizendo: "Olha o pintinho dele! Olha o pintinho dele!", como se ter pinto fosse uma super novidade evolutiva. Era muito divertido. E bastava os adultos descobrirem que estávamos vendo o livro que era um pegapacapá pra escondê-lo de novo. Aí virava uma caça ao tesouro. Era o livro do pinto.
Lembro também de um livro sobre sexualidade que tinha na estante da minha casa (eu nunca entendi o que aquele livro fazia lá, porque nunca foi o tipo de leitura reinante em casa... Tinha livro sobre tudo quanto era coisa relacionada a espiritualidade. E no meio deles um sobre como funciona o aparelho reprodutor?! Eu achava isso muito louco). Lembro que eu abria o livro na parte do pênis e ficava pensando - eu era obcecada por essa pergunta: como um cara fazia pra não prender o peru no ziper? Porque aquele troço pendurado lá pedia pra ser preso no ziper! Eu não tinha coragem de perguntar pro meu pai, porque ele ficava muito desconcertado com umas perguntas que eu fazia, então tinha dó. Mas um dia perguntei para um amigo na escola. Acho que eu tinha uns míseros 8 anos. O menino super ingênuo respondeu: "Não sei, eu só uso bermuda com velcro, que é pra dar tempo de abrir pra fazer xixi e não fazer na calça!" - hahahahahahahahaha Adoro essa parte.
Bom, quando meus pais sentaram comigo pra conversar sobre sexo, eu os frustrei muito. Chegaram cheios de boa vontade, "Então minha filha, a gente quer te explicar uma coisa e tal", e eu bem nojenta: "Gente, relaxa, eu já sei faz tempo como é, aprendi nos livros". Imagino que a explicação dada sobre como eu já sabia - lendo livros - os tenha tranquilizado bastante...
Enfim. A questão que eu defendo é: nada melhor do que a verdade.
Sementinha do papai encontrando sementinha da mamãe, fada do bebê, cegonha, não gente, parou.
Senta e explica. Da forma mais natural possível. Porque é mistificando as coisas que se cria artificialismos. Não vem falar que na barriga da mamãe tem um ziper que abre e o bebê sai por lá só pra não falar que sai pela vagina, pepeca, perereca, ou seja lá o nome amigável que você queira usar. Aí a cria cresce achando cesárea um tudo na vida da pessoa. Já basta a porcaria da tv... Outro dia, a filha de uma amiga me disse que nunca quer ter um parto normal, porque todas as atrizes da televisão sofrem muito quando estão tendo bebê pela "pepeca" (ela usou esse apelidinho) nas novelas. Ela queria uma cesárea, que nem suava.
Essas ilustrações aí embaixo já rolaram faz tempo na internet. Mas rolou agora de novo. É um livro alemão ensinando como os bebês são feitos e como eles nascem. Ponto pros autores! Super bacana! Leitura das minhas, em minha fase minipessoa. O único porém, que merecia uma edição revisada: coitada dessa parideira aí, imóvel em decúbito dorsal. Esqueceram de contar pra ela que parir de pé, agachada ou na água é muito mais fácil. Se bem que, se esse filho dela nasceu assim, sorrindo e dando tchau, mesmo com ela deitada de barriga pra cima, imagina como nasceria em uma posição mais fisiológica; já chegaria sambando.
Essas imagens rolaram essa semana de novo com um pedido direto da mulherada pro Frank: ô Frank, redesenha isso aí. Incluí aí uma piscininha, um banquinho de cócoras, uma mãe abraçada com o pai no trabalho de parto.
Ajuda a parideira do desenho alemão, Frank!!







 Tcharan, cheguei! Ói eu, gente!

Pronto.
Tá feito o pedido coletivo pro Frank desenhar uma versão mais bacaninha da coisa.
Eu sugiro também retirar aquele instrumento estranho da mão do médico na sexta imagem, à esquerda, que eu fiquei com um pouco de medo de onde pode ser que ele tenha enfiado aquilo.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

E por falar em saudade...

Não sei se é influência do fim do inverno ou da proximidade da primavera, mas tenho sentido algumas saudades importantes. Muitas saudades da família em São Paulo - mãe, irmãs, sobrinho -, saudade dos meus livros - que estão aqui ao lado, porém um pouco solitários... -, saudade de passear mais, caminhar mais, ler mais. Saudade de Clarice Lispector, de Martha Medeiros, Aldous Huxley e Rubem Alves - desse estou com uma saudade até exagerada - saudade de Paulo Freire. Estou com saudade até de textos que ainda não li e estão aqui esperando para serem lidos. Saudade de imergir em coisas que sempre me interessaram. Saudade de mato e pé no chão, e de conversar olhando pro céu nas noites quentes. Saudade de um certo isolamento que gostei de cultivar no final da minha gravidez. Saudade do isolamento compartilhado - eu e minha família.
Que bom que a primavera está chegando! Quero ir eliminando esse cheiro de inverno e matar algumas saudades. A vida diária às vezes nos faz colocar o urgente na frente do importante, a gente acaba levando os dias no automatismo e, quando vê, está fazendo coisas que não são assim tão relevantes, deixando de lado as que são realmente válidas. Estou com saudade de colocar meus reais interesses em primeiro lugar. Então vou aproveitar pra reexercitar isso. Família antes de tudo. E meu desenvolvimento intelectual na sequência - já que essa é uma parte importante de mim. Vou aproveitar também para finalizar projetos importantes que estão em andamento - um em especial que, ESSE SIM, sei que irá florir lindamente nesta primavera e que envolve muitas pessoas. Esse será o meu projeto especial de primavera, um lindo trabalho coletivo.
E assim pretendo encerrar esse inverno: plantando outras coisas.
E matando saudades. Pelo menos daquilo que ainda posso...

"E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca

de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência..."
Clarice Lispector

Para Mara, minha irmã. Que faria aniversário hoje.
De quem sinto saudades demais.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Santa Catarina debaixo d'água

 Charge do Frank para o A Notícia - 09/09/11

Todo ano, nessa época, a população catarinense vive momentos de tensão em função da imensa quantidade de chuva que cai. No momento em que escrevo isso (2:30 da manhã passadas), pela primeira vez em mais de 48 horas, parou de chover aqui onde moramos, embora em outras cidades continue. No meio da tarde, minha cunhada - que mora em Blumenau - já havia feito duas mudanças de amigos pra dentro da casa dela, na esperança de evitar perdas. Nesse momento, leio a notícia de que 60 cidades do Estado sofreram graves prejuízos. Dez cidades em situação de emergência. Uma morte já foi registrada. Florianópolis está enviando o exército para ajudar Itajaí. Em Brusque, o rio subiu mais de 8 metros e bateu seu recorde. Em Blumenau, a altura do rio está, nesse momento, em mais de 11 metros. Na capital, mais de 120 casas estão alagadas. Os bombeiros de Itajaí estão cadastrando voluntários. E a presidente Dilma já ligou pro governador do Estado oferecendo ajuda.,
É uma grande tristeza que todo ano isso aconteça.
Nas enchentes de 2008, eu estava muito perto da área que desmoronou bloqueando durante semanas uma rodovia estadual aqui de Florianópolis. Pude ouvir o barulho ensurdecedor do desmoronamento e sofremos com a queda de energia. Peguei o guarda-chuva e fui até o local pra ver o que tinha acontecido e se havia alguma forma de ajudar. Era muita terra. Imaginei que dezenas de carros pudessem estar soterrados e não consegui dormir à noite. Lembro-me de chorar de madrugada pensando que crianças poderiam estar debaixo das pedras naquele momento. Soubemos, depois, que houve apenas 1 morte, um caminhoneiro que morreu tentando se salvar. Levei bastante tempo pra acreditar nas imagens que via sobre o Morro do Baú, porque simplesmente não acreditava que um morro como aquele havia se dissolvido, matando tanta gente. Desde aquela época, desenvolvi uma estranha fobia de morros em dias de chuva. Meu pai morava na encosta de um, na Costa da Lagoa. Consegui fazê-lo se mudar.
Quase todos os dias, passo pelo Morro da Lagoa para ir à universidade ou a outros lugares. Existem dois trechos prontos pra descer; quem passa por ali já viu dezenas de vezes, em dias de chuva, cones que haviam sido colocados ali para alertar sobre a possibilidade de queda de rochas, sendo arrastados pela cascata que se forma na pista. E toda vez que eu passo, mesmo em dias secos, eu digo: se der muita água esse trecho aqui vai descer. Aí a prefeitura, um certo dia, foi lá e deu uma ajambrada na coisa. Piorou. A terra está exposta. Nem quero pensar que isso realmente pode acontecer se a quantidade de chuva aqui não diminuir. O trânsito florianopolitano já anda um caos, imagine com o Morro da Lagoa interditado. Isso sem falar nas residências que existem ali.
É importante lembrar que aqui no Estado de Santa Catarina vigora uma lei que permite construir a 5 metros dos rios, lei aprovada pelos deputados da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (a ALESC), deputados que, obviamente, só estão lá porque foram eleitos por voto popular. É bom lembrar disso, embora toda essa destruição seja multicausal e não possa ser reduzida a apenas uma questão. Mas o Estado já é sempre muito castigado para precisar de uma legislação que possa piorar sua situação, ou não é?
Hoje o Frank fez uma charge sobre o assunto, que está lá em cima. Acompanhei - como quase sempre acompanho - o processo de criação. Vejo como é difícil retratar em forma de charge situações tristes como essa. Ele conseguiu de uma maneira muito bacana, muita gente gostou, eu entre elas.
Depois de passada toda essa tormenta, na esperança de que as cidades se recuperem e de que nada mais grave aconteça durante essa madrugada, eu gostaria de ver uma outra charge seguindo a mesma linha de raciocínio. Mas com São Pedro. Ele, pronto pra abrir uma comporta no céu, com telefone na mão, dizendo: "Alô, ALESC? Aqui é São Pedro. Vâmo negociá?"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Professores, educadores e outras dores

 Tirinha de um ótimo site que visito há muito tempo, o PhD Comics, de Piled, Higher and Deeper.
Clique para ampliar. Tradução livre feita por mim mesma.

Entrei na universidade em 1996 e passei 13 anos nesse mundo, quase ininterruptos, uma vez que durante os poucos anos que não estive oficialmente vinculada ainda assim mantive algum tipo de vínculo informal com o modus operandi do sistema. No final de 2009 saí e no meio de 2011 retornei. São muitos anos de formação, para concluir que esse não é o melhor lugar para estar durante quase metade da sua vida. Não. Obviamente não levei todos esses anos para concluir isso, concluí muito antes. Ainda assim, se voltei (e não voltei apenas uma vez, voltei duas vezes), é porque eu ainda acredito que é possível fazer um bom trabalho dentro desse sistema. E meu conceito de "bom trabalho" não se reduz a produtividade e publicação. Na verdade, voltei porque, além de acreditar que é possível, vivemos num país que não respeita ou valoriza pesquisa científica fora dos muros das universidades. Lembro-me que, quando surgiu a primeira semente do projeto que estou começando a desenvolver agora, recebi alguns NÃOs pelo fato de não estar oficialmente vinculada ao sistema. Pronto. Agora estou. Minha forma de trabalho irá mudar pelo fato de estar "regularmente matriculada"? Não. Porque sou ética e tenho muito respeito pela metodologia da pesquisa científica. Sou a mesma pessoa. Mas agora tenho um número e, brevemente, uma carteirinha. Agora sou confiável...
Encontrei, nas diferentes universidades pelas quais passei, pessoas com os mais variados perfis.
Profissionais altamente produtivos cientificamente que eram maus professores.
Excelentes professores que não produziam tanto cientificamente.
Excelentes professores que eram máquinas de produção científica.
Professores bons que eram bons pesquisadores e prezavam pelo bom relacionamento professor-aluno.
Professores bons que eram maus pesquisadores, embora prezassem pelo bom relacionamento de trabalho.
Péssimos professores que eram bons pesquisadores e não prezavam nada.
E as demais combinações possíveis.
Fui orientada apenas por mulheres. Professoras, pesquisadoras, mulheres com diferentes perfis. E nunca tive graves problemas, apenas os naturais dentro de uma relação orientador-aluno. Acredito que isso tenha acontecido porque eu valorizo muito o elemento humano, além de não ter vocação pra capacho e de não admitir nenhum desmando autoritário e injustificado pra cima de mim. Acertei em todas as escolhas. Tive um ou outro probleminha, que sempre procurei resolver, e tenho a grande alegria de tê-las como minhas amigas pessoais.
Mas nesse caminho, de vez em quando a gente esbarra em gente que não te vê como gente, te vê como um cérebro a serviço de seus próprios interesses ou dos interesses da máquina. Mesmo quando você não é mais aluno, é difícil perder o estigma de que você já foi um dia. Para essas pessoas, se você virou aluno - principalmente de pós-graduação strictu sensu -, você não precisa ser tão respeitado assim, vá...
Na semana passada, encontrei duas pessoas na universidade, no mesmo dia. Docentes. A pessoa 1 trabalhou comigo durante uma parte de minha formação - na real, eu trabalhei com essa pessoa. Ou PARA essa pessoa. Com a pessoa 2, trabalhamos juntos num projeto no início do meu doutorado. A pessoa 1 trabalha numa área que não te valoriza pelo qualidade do seu trabalho e do seu envolvimento e, sim, pelo número de artigos que você gera ao final. A pessoa 2 preza pela qualidade do trabalho, pelo valor humano, pelo grau de envolvimento. Pela publicação ao final também, mas ela não é um fim em si mesmo.
Encontrei a pessoa 1.
- Oi pessoa 1! Que bom revê-lo! - estou sendo sincera, foi bom revê-lo, foi uma pessoa importante pra mim.
- Oi Ligia, quer dizer que você está aqui de novo... Que bom, preciso mesmo te perguntar sobre um arquivo que eu pensei que tinha mas não tenho.
Assim. Sem lubrificante. Me viu e enxergou meu número de matrícula. Esqueceu que eu não sou mais sua aluna e, muito pior, esqueceu que existe cordialidade.
Não consegui disfarçar. Dei uma risadinha, respondi no automatismo, disse que tinha aula e estava atrasada, e tudo de bom, até mais ver. Desapontada. Embora devesse estar preparada para isso...
No final da tarde, encontrei a pessoa 2. Pois foi ela quem me cumprimentou.
-  Ligia! Que bom te ver aqui de novo! Fiquei sabendo que voltou às salas de aula. Bem-vinda de volta. E como está a filha?
Se as duas pessoas estivessem concorrendo à mesma vaga para docente em uma universidade pública, a primeira seria facilmente contratada em função de seu currículo praticamente insuperável. Formaria dezenas (ou centenas) de alunos - como formou - com base no que essa pessoa tem pra dar: conhecimento técnico.
E então eu me pergunto: em que parte do currículo está a indicação da contribuição à formação humana que uma pessoa pode dar?
Quantos desses formadores técnicos existem na universidade para cada formador humano?
Quem está formando os futuros profissionais nas melhores universidades brasileiras?
Quando eu era criança, ao invés dos professores me levarem à diretoria, eu mesma ia, reclamar da má atuação deles.
E agora, que eu virei adulta?
Com quem eu falo?
Eu gostaria de viver num mundo em que "educador" e "professor" fossem sinônimos.
"Me movo como educador, porque, primeiro, me movo como gente"
Paulo Freire

domingo, 4 de setembro de 2011

O dia em que eu entendi o que a Clara falou

Minha pequena conversadeira e desenhista.
Foto tirada um dia depois de sua fala compreendida e no dia em que estreou a modalidade VAMOS RISCAR O CHÃO MUUUITO

Ontem, 03 de setembro, foi um dia muito importante para nós! E não porque foi dia do biólogo, mas porque Clara começou a formar palavras compreensíveis, associadas a um contexto! Vou explicar melhor: ela "começou a falar"!

Não gosto muito de dizer que foi ontem que ela começou a falar porque, afinal, ela fala faz tempo. Eu é que não entendo... Dizer que foi ontem é minimizar o grande esforço que ela tem feito nos últimos meses à procura da batida perfeita - ou da linguagem perfeita.
Ela balbucia desde muito cedo e nos últimos tempos fala o tempo todo, exercitando a riqueza de fonemas, sílabas, movimentos orais e prosódias à qual é exposta diariamente. Ainda mais considerando o pai e a mãe que ela tem.
Todo mundo diz que ela é muito sorridente. Isso foi uma característica observada nela desde 15 dias de vida, embora todos dissessem que o bebê só sorri após o segundo mês. Que bobagem. Temos aqui fotos dela sorrindo intencionalmente com 15, 20 dias... Eu tenho plena certeza de que ela sorri assim porque nós sempre a atendemos, desde que nasceu, sorrindo. Dando banho, trocando, alimentando, brincando, estamos sempre sorrindo pra ela. Aqui em casa nós somos assim... A casa tá caindo e ainda assim arrumamos motivos para um ou outro riso, uma ou outra piada. Não, não somos idiotas. Não sorrimos de tudo nem para todos, apenas valorizamos os momentos em que estamos com ela. Pode estar a maior crise cósmica, mas cuidar da Clara é sempre acompanhado por sorrisos. Então eu acredito, sim, que ela sorri desde cedo também por isso, associado à sua característica altamente sociável.
Assim, pensando dessa maneira, eu sempre achei que ela fosse falar muito cedo. Não porque eu a azucrine pra isso, pelo contrário. Com essas coisas de hiperestimulação eu tomo muito cuidado. Mas porque aqui em casa somos todos de conversa solta... Se você nos conhece, sabe disso. Não fazemos o tipo que mantém silêncio por muito tempo e adoramos um, dois, três ou dez dedinhos de prosa. Como ela vive nesse ambiente, achei que fosse falar cedo. Mas não... ela é tranquila, tem o ritmo dela e não se deixa influenciar muito.
Nos últimos 2 meses ela tem falado sem parar, naquela linguagem típica dos bebês. Mas ontem conseguiu dar significados compreensíveis aos sons.
Assim que acordamos, eu disse, brincando: "chama o papai, filha". E ela não titubeou: "Papaaaaaai!", chamou duas vezes, pra não me deixar com dúvidas.
À noite, sentados nos sofá, mostramos pra ela dois videozinhos que minha irmã mandou do meu sobrinho, que acabou de completar 1 aninho. E eu: "olha, filha, o Murilo". Ela balbuciou algo como "ilo", mas eu achei que era impressão minha. Comentei: "eu tive a impressão dela ter falado Murilo", ao que o Frank respondeu que também tinha ouvido. Então repeti: você viu o Murilo, filha? E ela, pra acabar com a nossa dúvida: "ilo, ilo". Sim, ela já está conseguindo articular as sílabas com significado associado ao contexto!
Mas aí, hoje, notei várias palavras às quais ela já atribui sigificado: água, por exemplo. Ela já diz "ápua", quando está com sede. Então talvez já esteja dizendo algumas outras coisas há algum tempo. Não vou entrar naquelas de atazanar a bichinha mostrando, do nada, um lápis e dizendo: "lápis", por exemplo. Eu acho isso um tanto forçado, um tanto artificial. Não gosto de fazer dela um palquinho de experiências. Prefiro seguir o fluxo natural, ir ensinando as palavras associadas ao contexto quando o contexto realmente aparecer. Por exemplo: ela hoje quis pegar o próprio gorro que estava no sofá. Ficou nervosa por não conseguir. Então eu fui lá, peguei, dei na mãozinha dela e disse: pronto filha, seu gorro. E ela repetiu um som parecido, sem que eu fizesse dela um miquinho. Acho mais natural, mais significativo do que ficar forçando a barra. Outro dia vi uma mãe na rua que dizia: quer água? Então fala Á-GUA, senão não dou! Pô, que tosca. Ela não está ensinando a falar água. Ela está ensinando que quem manda é ela e que ela é uma ótima chantagista. Mas... cada um com seu cada um, escolhas são individuais - embora isso não me impeça de comentá-las.
Pode ser que alguém leia isso e pense: "exagerada, todo mundo faz isso". É por isso que eu vivo falando que maternar conscientemente é sair do senso comum, que faz as coisas porque "todo mundo" faz. A Vivienne Westwood, estilista inglesa que criou o moda punk, é autora de uma frase que eu adoro e que cabe como uma luva nesse contexto: 
“Se você pensa que alguma coisa está certa só porque todos acham isso, então não está pensando.”
Agora ficarei mais atenta ainda, para ver ao que mais a Clarinha, aquela menina que está crescendo tão rapidamente a ponto de me deixar meio assustada, já está pronunciando associado ao contexto.

É bom lembrar também que o mundo pode não ser exatamente como a gente pensa...
E que as crianças estão cada vez mais mentalmente perspicazes.
Enquanto eu estou aqui toda feliz e orgulhosa, contando um grande avanço na vida da minha filha, espantada pela rapidez com que ela está se desenvolvendo, ela pode estar ali brincando e pensando:

"Ai que legal! Hoje é um dia importante pra minha mãe e pro meu pai: eles começaram a entender o que eu falo. Puxa, que demora. Precisaram de 1 ano".

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A receita do pão da Clara

 De massa integral ou convencional, essa receitinha foi utilizada pelo roteirista do Velho Testamento, quando ele precisou dar uma força pra Jesus na multiplicação dos pães. 

Essa história algumas pessoas já conhecem.
Quando eu estava grávida, muitas pessoas me diziam, querendo me tranquilizar sobre o andamento da vida, que não era pra me preocupar porque toda criança nascia trazendo um pedaço de pão...
De tudo o que eu ouvi quando estava grávida, acho que isso foi uma das coisas que mais me marcou.
E então ela nasceu e todo dia 30 - dia do nascimento dela - eu fazia pão como forma de celebrar.
Mas eu fiquei uns dois meses sem fazer, eu acho (ou três, não sei...).
E então na madrugada de ontem pra hoje (com 1 dia de atraso, por motivos outros), eu voltei a fazer.
Toda vez que eu faço, as pessoas me pedem a receita. E eu sempre fico de mandar e nunca mando.
Então resolvi fazer um post com ela. Ó?! Cientista, mãe e aprendiz de padeira. Meu passe tá valorizando...
Essa é uma receita especial. Rende muito mesmo.
Então aproveite este meu raro momento de compartilhamento culinário e anotaí. É fácil, barato e não precisa de habilidades culinárias muito desenvolvidas.

Ingredientes
  • 2 copos e meio de água morna
  • 2 colheres de sopa de açucar
  • 1 colher de sal (ou a seu gosto)
  • 1 ovo 
  • 1 copo de óleo (que você pode substituir por azeite de oliva)
  • 1 kg de farinha de trigo
  • 1 pacote de fermento biológico seco (eu uso aquele que vem em pozinho, que você compra de envelopinho)
Como faz?
  • Misture o fermento biológico seco à farinha e reserve
  • Misture, com uma colher de pau, o açúcar, o óleo, o sal, o ovo e a água morna
  • Mas misture bem isso aí
  • Coloque essa mistura em uma bacia e vá acrescentando o trigo misturado com o fermento aos poucos, misturando com as mãos, até o ponto em que a massa esteja desgrudando da mão
  • Cubra bem e aguarde cerca de 1 hora. Mas cubra bem mesmo, enrola num cobertor, é importante ficar bem quentinho pra fermentar mais
  • Aí você vai dividindo a massa como quiser, em quantos pães quiser, nas formas que quiser.
  • Enfarinha uma bancada, coloca ali um tanto de massa e abre com o rolo (é o máximo essa parte, me sinto sempre na Itália quando faço isso, típica coisa de pobre mesmo. Eu não tinha rolo, então eu lavava bem uma garrafa vazia de cerveja, tirava o rótulo e tal, lavava mais, e abria a massa com a garrafa. O Frank achava isso terrível e me deu um rolo, o corajoso).
  • Faz lá a forma que você quiser, o recheio que quiser, e manda pro forno em forma untada e enfarinhada
  • Uns 40 minutos de forno
O cheiro que fica na casa é incrível.
Essa massa aceita um monte de mudanças.
Se você quiser uma casquinha mais douradinha e brilhante, pode dar umas pinceladas com um pouco de gema. Ou pode deixar mais enfarinhadinho também.
A massa pode ficar mais doce ou mais salgada, a seu gosto.
E pode rechear com o que quiser também.
Eu já fiz de orégano, de ervas finas, de queijo, de queijo, presunto e tomate, de goiabada, de doce de leite.
Só tem que cuidar com a quantidade de recheio doce.
Porque a megalomaníaca aqui quis rechear bem recheadinho, uma vez, e transbordou tudo, foi uma lambança nababesca.
Tudo porque eu esqueci que goiabada e doce de leite amolecem quando aquecidos...
Bom, taí a receita do pão da Clara.
É fazer, deixar a manteiguinha ali do lado, tirar do forno e se acabar!
E entrar pros vigilantes do peso na semana seguinte...
Vai. Mas vai sem culpa.

As fotinhos claramente não profissionais fazem parte do nosso registro dos pães mensais da Clara.

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