Eu estava preparando um texto sobre o que foi para mim esse ano de 2011 que está se findando, entre suspiros, emoção e muitas lágrimas.
Um texto sobre ter a coragem de se deixar pra trás o que não te faz feliz e assumir a incerteza, indefinição e dúvidas de um novo caminho apenas porque nesse você vê, você sente, você sabe que há um coração.
Um texto sobre enfrentar medos internos e seguir não sem eles, mas a despeito deles, em busca da sua própria felicidade.
Sobre aproveitar as oportunidades que a vida te traz, às vezes de maneiras muito diferentes do que você está acostumado a receber.
Sobre não achar que o caminho está traçado e desafiar a si próprio e a vida.
Sobre lutar pela satisfação interior todos os dias e não deixá-la para o ano novo, porque o ano novo não é nada além de um dia como outro qualquer, uma segunda-feira que pode ser até chuvosa, onde os sinos não vão tocar apenas porque você virou a folhinha no calendário.
Estava escrevendo um texto sobre a importância desse ano, das coisas que vivi tendo Frank, Clara e muitas pessoas fortes ao meu lado, me apoiando e incentivando. Sobre como algumas pessoas nem souberam que importância determinante tiveram em meu caminho. Um texto sobre querer fazer a diferença, sobre lutar por uma causa num mundo de futilidades, sobre viver intensamente a maternidade, sobre aceitar desafios e ir além dos seus próprios limites.
Sobre a cura de traumas antigos, sobre perdão, sobre amor.
Sobre ter fé em todos os instantes da vida, até os últimos segundos, sobre crer que nessa vida não estamos à deriva, jogados às feras.
Sobre a importância do amor de mãe, de pai, de companheiro e de filha.
O texto estava sendo construído com muita dedicação e cuidado. Procurei coisas e registros do início do ano. Transformei-os em imagens. Pesquisei nos meus arquivos. Chorei um tanto fazendo isso. Escrevia sentindo uma saudade terrivel da minha mãe, que precisou ficar em sua cidade resolvendo os últimos detalhes de uma etapa e se preparando, também, para uma boa mudança.
E aí olhei pro lado e vi companheiro, pai e filha juntos, conversando.
Então decidi interromper o texto elaborado e ir lá ficar com eles.
Porque a vida é isso. É interromper certas coisas quando achar necessário, se outro caminho tiver mais coração. E fazer isso a qualquer momento.
Passei aqui, então, pra dizer que no último dia do ano optei pelo não-texto e deixarei para o próximo post meu relato pessoal sobre 2011.
Eu desejo, sinceramente, que em 2012 o mundo acabe. Que acabe esse mundo de ignorância, de individualismo, de egoísmo, de gente pensando apenas em seus bolsos, de gente sendo desrespeitada e magoada, de maledicência, de violência. Mas não desejo isso apenas porque hoje é dia 31 de dezembro e amanhã será um novo ano. Eu desejo isso todos os dias e tenho feito a minha parte.
Em 2012 seja feliz! Vire a mesa! Saia do comodismo! Faça a diferença. Não ouça nada ou ninguém que queira te desmotivar, ouça apenas o seu coração.
Mas, acima de tudo, TENHA CORAGEM!
Em 2009, eu e Frank nos conhecemos. Nos interessamos um pelo outro de cara. Mas não, não foram meus talentos, dotes culinários ou olhos azuis que o encataram. Frank só se apaixonou por mim, mesmo, no dia que contei que eu era fãzaça do Henfil, o cartunista, certeza.
Então são dele as palavras que escolhi pra me despedir de 2011, esse ano incomparável.
Por muito tempo, eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade.
Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. aí sim, a vida de verdade começaria.
Por fim, cheguei à conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade.
Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade.
A felicidade é o caminho! Assim, aproveite todos os momentos que você tem.
E aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém.
Portanto, pare de esperar até que você termine a faculdade; até que você volte para a faculdade; até que você perca 5 kg; até que você ganhe 5 kg; até que seus filhos tenham saído de casa; até que você se case; até que você se divorcie; até sexta à noite até segunda de manhã; até que você tenha comprado um carro ou uma casa nova; até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos; até o próximo verão, outono, inverno; até que você esteja aposentado; até que a sua música toque; até que você tenha terminado seu drink; até que você esteja sóbrio de novo; até que você morra; e decida que não há hora melhor para ser feliz do que agora mesmo...
Lembre-se: felicidade é uma viagem, não um destino.
O pessoal que namorou bem namorado lá pelas bandas de março, abril, anda comemorando. Tem gente começando a sentir a chegada dos bebês, as primeiras contrações, tem gente planejando a festinha de aniversário, tem gente feliz por poder comemorar, junto com as festas mais comemoradas do ano, a chegada de um filho.
Eu sempre achei que receber um filho próximo às datas de natal e ano novo, ou comemorar o aniversário deles, deveria ser uma coisa pra lá de especial e, quando criança, achava que todas as crianças que nasciam perto do natal e do ano novo eram privilegiadas, e que todos os fogos de artifício e comemorações eram para elas.
Então essa semana eu recebi um link para uma crônica com o título de "Nascidos em Dezembro". Ao abrir o link e ver de onde vinha, eu deveria tê-lo fechado porque, afinal de contas, eu não leio tabloide midiático marrom disfarçado de revista bacana, ainda que seja campeão editorial e venda milhares de exemplares, uma amostra de que popularidade não quer dizer nada sobre qualidade no mundo atual. Aliás, bem pelo contrário... Mas eu quis ver do que se tratava. A curiosidade, essa besta.
Não vou citar fonte nem nada e, se não gostarem, que me mandem tirar.
O texto começava logo abaixo da seguinte ilustração.
Sentiu?
E aí começa o texto. E, junto, o meu estranhamento e mal estar. Fiz questão de ler até o final. E selecionei uns trechinhos, que compartilho agora.
Trecho 1
— Já imaginou? Hospital em noite de Natal? — Ué, normal. — Normal! Helooo! Com que disposição você acha que as pessoas trabalham na noite de Natal? Pessoal lá fora comemorando, maior amigo oculto, dando risada, tomando um vinho com o love, e elas lá de branquinho medindo xixi de paciente! Vão ter ódio de mim e do meu filho.
Trecho2
Fazia questão de parto normal, nada de cortes na sua barriga. O marido apoiava, dizia que a escolha era dela, mas achava bom esse negócio de não cortar. Nem era pela estética da barriga, tinha horror de cirurgia.
Trecho 3
— Não, não, não, não, não! Meu bebê não vai fazer isso comigo! Sabe que a Mariana, minha amiga, entrou em trabalho de parto no dia 29 de dezembro? O médico estava no Guarujá, maior descansadão!
Trecho 4
Nas conversas de sala de espera de consultório ela soube que várias grávidas de dezembro tinham preocupações. Por exemplo, os filhos nascidos no fim do ano não gostavam de fazer aniversário perto do Natal, porque perdiam a festinha com os colegas e, lógico, dezenas de presentes. Ou ganhavam da parentada um só presente valendo por dois. Nos casos de parto de fim de ano, a própria festa familiar do Natal era atropelada pela agitação do nascimento. Ficou sabendo que a maioria das mães antecipava a cesárea.
Trecho 5
O dia 20 passou, passou o 21, chegou o 24, e assim que ela se sentou à mesa para a ceia sentiu a primeira contração. O bebê bagunçou a ceia, a entrega dos presentes de amigo oculto, a sequência de brindes espumantes, a festa das crianças, e nasceu saudável e forte às 2 e pouco da madrugada. De cesariana. Deu tudo errado, mas deu tudo certo.
Pois.
Qual era a do autor eu não sei. Só sei que não gostei. Tem, no texto, um misto de equívoco com triste realidade que ajuda a (de)formar a opinião de quem é facilmente influenciável.
Em suma, se nós apertássemos a tecla SAP que obviamente não existe no texto, sairia algo mais ou menos assim: equipes de saúde trabalham todas de mau humor em dias festivos como natal e reveillon; o parto normal deve ser escolhido pelo aspecto estético, uma vez que evita cortes, independentemente de qualquer outra coisa; o bebê que escolher nascer numa data festiva "estará fazendo isso com a mãe", esse bebê malvado; se a mulher entrar em trabalho de parto e o médico estiver descansadão em qualquer lugar, ferrou! Por isso, querida amiga leitora, é mais prudente que você agende sua cesárea; é chato e triste nascer no fim do ano, próximo às datas festivas, porque atrapalha a família, o peru, e - que droga! - não vou poder ver o Roberto Carlos, aquele lindo, estrear seu traje branco e azul na tv plim plim; para que isso não aconteça NUNCA, é melhor, e o texto repete a expressão, antecipar a cesárea; o bebê nascer em dias assim significa, para o texto e seu autor, que "deu tudo errado". Então quer dizer que é ruim um bebê chegar em dezembro? Quer dizer que a comemoração de uma data é mais importante que a chegada de um filho? Mas é claro que não. E como eu não posso dizer porque, afinal, não pari em dezembro - embora minha filha também tenha nascido próximo a uma data festiva, 3 dias depois do meu aniversário - fui consultar quem entende do assunto.
A Maria Alcina é minha amiga há alguns anos e tenho por ela uma admiração imensa. Ela está aguardando, com calma, paciência, respeito e amor, a chegada do Arthur. Ele passou a barreira do Natal, mas não é impossível que chegue no ano novo, para alegria das tias postiças corujas como eu. E Maria diz que há uma festa muito maior sendo esperada, que é justamente a chegada dele. Ela acha até bom que ele chegue por esse período, em funçào das pessoas estarem em ritmo mais desacelerado ou de férias, o que facilita os preparativos finais pra essa chegada tão esperada. E diz: "Todos os outros finais de ano, era uma correria pra poder fugir da loucura da cidade e descansar num lugar diferente da nossa casa. Esse ano, foi tudo tranquilo pra todos nós e só pensamos e falamos numa coisa: a chegada do Arthur! Acho que é uma data muito boa pra se ter um filho".
A Bartira, que não conheço pessoalmente, também se prontificou a contar a sua história. Ela recebeu o Luiz Gabriel como um presente de natal. Às 22:00 do dia 24, sua bolsa se rompeu e ela não teve tempo de revelar quem tirou o amigo secreto. Mas isso pra ela não foi nada... Foi para a maternidade e encarou, firme e forte, o trabalho de parto, se concentrou na respiração, se dedicou a ele e, às 7:40 do dia 25 de dezembro, Luiz Gabriel nasceu em um parto de cócoras, sem ocitocina, sem anestesia, "sem nada!!", ela enfatiza. E faz questão de dizer: "Ele foi um super presente de natal! Foi muito emocionante e tranquilo! Foi muito bom, foi como se um anjo tivesse vindo a mim no dia do nascimento do Menino Jesus". Ela e o bebê ficaram famosos no hospital, por ter sido o primeiro bebê a nascer naquele dia. Sem essa de marcar a cesárea para coincidir com a data, como tanta gente tem feito.
Dois depoimentos reais, de mulheres reais, que receberam ou irão receber seus filhos próximo ao natal ou ano novo. Não é um texto fictício. É a mais pura e bela realidade. Existe gente escrevendo muito texto de qualidade duvidosa e tabloides publicando. Mas existe muito mais gente vivendo coisas bacanas. Parabéns a esses bebês especiais, para quem os sinos dobram e os fogos brilham! Parabéns a essas mães, que esperaram e estão esperando o tempo certo de seus filhos. Fica, gente, vai ter bolo!
Cantora, polêmica, filha de militar, com nome de santa, eclética, foi aprendiz de pedreiro, morou em diversas cidades, gravou cerca de dez álbuns, com o apoio de grandes músicos brasileiros.
Morreu há 10 anos, com 39 anos de idade, de uma parada cardíaca que, não, não foi uma overdose.
Homossexual assumida, talentosa, casada com Maria Eugênia - e mãe do Chicão que, após sua morte, passou a ser criado por sua companheira.
Cassia Eller: uma das maiores intérpretes que o Brasil já teve. Hoje, completam-se 10 anos de sua morte. E ao invés de uma foto segurando um violão, eu a homenageio com essa, garimpada por Claudia Rodrigues e divulgada via FB, com ela segurando e amamentando seu maior legado.
O que Cássia e Elis têm em comum?
Muita coisa.
São duas das mais importantes intérpretes brasileiras. Tiveram suas carreiras interrompidas por uma morte precoce. São ídolos de duas gerações de apaixonados fãs - quem cresceu tendo as paredes de casa preenchidas por fotos de Elis e cantando "Como Nossos Pais" antes mesmo do pintinho amarelinho por influência muito positiva da mãe, sabe disso.
Duas mulheres à frente de seu tempo, que sofreram dramas íntimos e os utilizaram como inspiração para que se tornassem dois ícones musicais.
Mas não é só isso que elas têm em comum...
Foram duas mulheres conscientes da importância da amamentação.
Cássia amamentou seu filho Chicão até que ele fosse, como se diz no interior, "menino grande", a despeito dos preconceitos. Uma mulher que sabia lidar com preconceitos, pode crer.
Elis, não podendo amamentar seu filho João Marcello por não ter produzido leite suficiente (ao que ela atribuía a um grande estresse emocional que viveu), foi à televisão no ano de 1970 apenas para pedir, publicamente, amas-de-leite que pudessem amamentá-lo por ela. E recebeu uma fila de mulheres que se voluntariaram a isso.
Alguns dos meus heróis morreram de overdose. Uma pena...
E as heroínas, ah, elas amamentaram.
Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues
Não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então
Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa,meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração
O que fazes por sonhar
É o mundo que virá prá ti e prá mim
Vamos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor, meu Chicão...
(Letra de "1o. de Julho")
Para minha mãe, por ter me ensinado o que é MPB...
Parte 1 - O tema No ano passado, ano especialíssimo em que recebi minha filha, escrevi sobre uma reflexão que me ocorreu observando presépios. Hoje, faço uma reflexão sobre um grande nascimento que ocorreu em 25 de dezembro. Um nascimento muito especial, de uma pessoa, sem dúvida alguma, única.
Tão única que a ela foi concedida a guarda e a maternidade de um filho sagrado. O nascimento de Maria como mãe.
Uma reflexão sobre o caminho que ela percorreu para dar a melhor educação que poderia dar, considerando-se ser, ela, quase uma adolescente ainda quando o pariu. E fiquei pensando que, se nos enchemos de dúvidas e questionamentos sobre a melhor forma de agir, orientar e educar nossos filhos, nossos mundanos - no sentido de viventes num mundo material - e humanos filhos, imagine o que viveu essa jovem mulher educando aquele que foi o único filho dessa força maior que alguns chamam de Deus, outros chamam Jeová, Alá, entre uma infinidade de outros nomes. As pressões que ela viveu, a dificuldade das escolhas, os inúmeros questionamentos, a abnegação, a entrega, culminando na visão terrível e aceitação da sofrida morte de seu filho, como contada nas histórias e estórias. Independentemente de se ser cristão ou não, é uma história comovente, um roteiro original, no mínimo. E esse personagem chamado Maria é incrível.
Parte 2 - Um livro inspirador
E, pensando em Maria, lembrei-me de um livro que ganhei quando ter filhos não passava nem perto das minhas vontades ou planos. Ganhei, agradeci a quem me deu e, em casa, olhei pra ele e desdenhei... Apenas porque eu era muito preconceituosa quanto ao seu autor, que se dedica a escrever livros de auto-ajuda. O livro: Maria, A Maior Educadora da História. O autor: Augusto Cury. Ganhei e o larguei em cima da mesa. Durante dois dias. No terceiro, resolvi dar uma folheadinha. E passei um dia inteirinho lendo, quando eu ainda morava sozinha e fazia o que queria com meu tempo. Bem feito pra mim: adorei o livro e paguei a língua. Livro lindo, bem escrito, bem fundamentando, emocionante. O autor, psiquiatra e psicanalista, se dedicou a destrinchar a personalidade de Maria de acordo com o que está nos textos. Lendo, lembro-me de pensar, inúmeras vezes "Meu Deus, não deve ser nada fácil criar uma criança; não sei se isso é coisa pra mim". Hoje, alguns anos depois, vejo que errei e acertei. Acertei quando disse que não devia ser nada fácil criar uma criança; de fato, é uma tarefa muito complexa. Mas errei quando achei que isso não era coisa pra mim. Sou, hoje, uma boa mãe. É o que verdadeiramente sinto em meu coração e consciência. Não sei as respostas para a maioria das perguntas referentes a filhos. Mas não acho que isso seja relevante, pois penso que o importante é fazer as perguntas. Quem não faz perguntas sobre isso é porque está aceitando as decisões de outras pessoas como verdades inquestionáveis. E isso não é para mim. Nem para minha filha. Ela merece de mim todo o desdobramento que envolve criar um ser humano para o bem, com amor. É trabalhoso. Mas se quem tem filhos chegou a pensar um dia que seria fácil, errou de projeto. Mais fácil seria ter comprado uma samambaia.
Augusto Cury, no livro, menciona a característica questionadora de Jesus. "Questionava, indagava, queria saber tudo. Quem estaria intelectualmente preparado para educar aquele que se tornaria o Mestre dos mestres? Que pais? Que universidade? Que teólogos? É tão fácil errar nessa área. É tão fácil transmitir os nossos traumas, inseguranças, medos, manias para nossos filhos e alunos". Mas Maria estava pronta. E ele afirma, ainda, no início do livro: "Em tempos atuais em que a educação mundial, do ensino fundamental à universidade, está formando uma massa de jovens que não pensam criticamente nem sabem lidar com desafios existenciais, estudar a mulher que foi incumbida de educar o menino Jesus oxigena nossa inteligência".
Parte 3 - O amor, afeto e não-violência que destinamos a um filho pode fazer dele uma pessoa melhor? Pois é.
Está sendo formada uma massa de pessoas despreparadas, rancorosas, limitadas, com argumentos fracos e incoerentes, que pouco sabem sobre qualquer coisa, embora queiram parecer grandes entendidos do assunto. Qual terá sido o ambiente no qual viveram e como foi a criação dessas pessoas? Que nível de afeto receberam? Que espécie de doação e preparo tiveram seus pais ou cuidadores para com elas? Há ligação entre a forma como as pessoas são criadas e o que elas fazem no futuro? Como afirmei, não tenho as respostas para todas as perguntas, e nem quero ter, pois isso estagnaria meu crescimento. Mas para essa, tenho: SIM. Há total ligação entre a forma como as pessoas são cuidadas na infância e o que elas fazem no futuro. Centenas de entendidos do assunto já falaram sobre isso. Uma criação pobre em afeto, rica em violência, em humilhação, contribui decisivamente para formação de seres humanos que também serão pobres em afeto, violentos, com tendências à humilhação. Gente que apoia a violência. Qualquer que seja ela.
Santa Maria, mãe de Deus, feche os olhos agora!
- Se eu ñ tivesse apanhado na infância, certeza q hj seria 1 pessoa pior
- Deixa Deus cuidar da #PL122 e a #LeiDaPalmada , pois é por causa disso que o brasil não vai pra frente !!
- #LeiLobo, #PLC122, #LeiSeca, #LeidaPalmada! 90% coisa d #viado! Daqui a pouco vão querer cobrar créditos d carbono qdo vc #peidar!
- Um "tapa" bem dado na #LeidaPalmada (...) parabéns aos Bolsonaro.
- Uma chinelada na bunda não faz mal a ngm! #LeiDaPalmada
- No meu programa de tv sabado 24 de Dezembro vou "descer o bambu" nesta #leidapalmada (esse eu digo quem é: Silas Malafaia)
- #LeidaPalmada eu levei e sobrevivi!!!
- #LeidaPalmada A Bíblia é clara: corrige com a vara
- Tomei tanta palmada, varada e afins qnd era criança e não me revoltei por isso. Refletindo sobre, mereci cada um deles! #leidapalmada
- Sobre a #LeidaPalmada; É melhor apanhar dos pais que apanhar da policia.
- Toda lei d homens q fere a lei eterna d Senhor nao e estabelecida. Pq a Palavra d Deus e soberana! #leidapalmada nao vai dar certo!
- #leidapalmada torturas e espancamentos tudo bem coiber, mas palmadinha é demais, quem vai criar essas crianças?
- Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Provérbios 23:13 #Leidapalmada
- Eu apanhei mto e tá me dizendo que agora não vou poder bater??? #leidapalmada
- Sim eu bato nos meus filhos e vou continuar batendo porque isso é educação e nenhum zé mané vai dizer o que é pra mim fazer #leidapalmada (sic)
Tá bom já de absurdo ou quer mais? Se quiser, te dou uma fonte quase inesgotável de impropério, ignorância e absurdo. Marque a hashtag #leidapalmada no Twitter e veja o que aparece. É de assustar, é de indignar, é de se revoltar, mas é, sobretudo, de se ter pena. Pena porque são dezenas de pessoas provavelmente educadas sem afeto - ou com aquele afeto que apenas foi dito que foi dado, da mesma forma que foi dito que o tapa ou a varada ou a cintada foi merecida - e que as pessoas, ainda em tenra idade, se convenceram de que assim foi, por um processo de modelagem cerebral também chamado de "lavagem".
Eu passei um ano inteiro vivendo os desafios e aprendizados que são inerentes à função materna. E são muitos. Mas violência como forma de educar nunca nem passou perto dos meus anseios como mãe - e nem mesmo como não-mãe, quando ter filhos ainda era uma remota preocupação.
Simplesmente porque não consigo conceber crianças sendo violentadas pela força física de um adulto que se considera no direito de assim fazer apenas porque contribuiu para sua chegada ao mundo.
Parte 4 - Trechos do livro
Os títulos dos capítulos do livro que mencionei são autoexplicativos, para se entender porque Maria, na opinião de seu autor, foi a maior educadora que já existiu: - Maria vivia sua vida como um contrato de risco (Desde que aceitou ser mãe do menino Jesus, sua vida tornou-se um palco de surpresas, nem sempre agradáveis. Começou a andar no fio da navalha entre a aceitação e a rejeição, os aplausos e o vexame social); - Maria era rápida em agradecer e corajosa em agir (Alguns educadores de bom nível gostam de tudo no lugar, não suportam quando sua rotina é quebrada, lamentam as pedras do caminho. Maria era diferente. Enfrentava as dificuldades e não reclamava ao confrontá-las, nem lamentava quando as coisas davam errado ou saíam de um modo diferente de como tinham sido planejadas); - Maria usava a intuição e não um manual de instruções para educar o menino Jesus (A mãe do menino Jesus enxergava com os olhos do coração. Tinha uma visão ampla dos eventos sociais. A intuição nem sempre é perceptível às pessoas de fora, mas determina o estado de grandeza da intelectualidade de um ser humano, define sua habilidade de interpretar os dados e se conduzir em situações delicadas); - Maria educava seu filho para servir a sociedade e não para a sociedade servi-lo (Educadores respeitados preparam os jovens para andar na luz, Maria foi mais penetrante, sonhava que seu filho fosse luz. A diferença é grande e as consequências dessa trajetória educacional são muitas. Quem anda na luz precisa ser conduzido, quem é luz tem compromisso social, ajuda os outros a caminharem, areja a inteligência de terceiros); - Maria tinha uma espiritualidade inteligente, transformava informações em sabedoria (Suas qualidades intelectuais eram tão exuberantes que provavelmente ensinou o próprio filho a ler e a escrever. Transmitia seu modo particular de ler e interpretar os textos. Os fariseus e escribas liam as Escrituras e armazenavam informações, Maria lia os mesmos textos e adquiria sabedoria. As informações transformavam os fariseus em deuses do conhecimento, a sabedoria transformava Maria num ser humano humilde. Todo esse processo influenciou seu filho e o fez crescer de um modo particular); - Maria estimulava a proteção da emoção (Maria, poderia ter se transformado numa pessoa mal-humorada, depressiva, pessimista, amedrontada, prejudicando a educação do menino Jesus, pois sua história teve atropelos incomuns. No entanto, ela teve de reagir de maneira incomum para preservar sua saúde mental e educar seu filho com o máximo de tranquilidade num ambiente turbulento); - Maria estimulava a ambição interior (Um educador experiente incentiva a ambição exterior, mas um educador deslumbrante vai além, incentiva a ambição interior. Maria educava seu filho para que ele fosse um grande conquistador das funções mais importantes da sua inteligência, das áreas mais excelentes do seu próprio ser. Quem educa nessa perspectiva? Sua educação não era passiva, distraída, sem direção, mas dotada de metas com nobres ambições: ambição pela tranquilidade, perspicácia, segurança, sociabilidade, emoção cativante, capacidade observadora e alvos claros de vida);
- Maria vivia e ensinava a arte da contemplação da natureza (Respeitados educadores admiram a natureza. Admiram o perfume das flores, a estética das folhas, a anatomia das nuvens, a cor do arco-íris. Maria ia muito além. Ela conseguia mais do que admirar a natureza, ela a contemplava); - Maria estimulava a inteligência para construir um projeto de vida e a disciplina para executá-lo (Um projeto de vida não é um desejo ou uma intenção. Intenções não resistem ao calor das dificuldades, projetos são resistentes. Intenções são circunstanciais, projetos são perenes. Intenções surgem de uma inspiração momentânea ao se espelhar em alguém, projetos são elaborados, têm objetivos definidos. Sem projeto de vida, os jovens não têm metas, os adultos não têm alicerce, os idosos esfacelam seu sentido de vida);
- Maria contava sua história de vida como o melhor presente na educação do seu filho (Maria não tinha recursos financeiros excedentes. Lutava para sobreviver. Não podia dar presentes, nem tecer vestes caras para seu filho. Porém, deu o mais excelente presente que um ser humano pode oferecer para quem ama: a sua própria história); - O último encontro: a dramática despedida da mãe mais fascinante e do filho mais brilhante
Ela bradava: "Meu filho! Meu filho! O que fizeram com você!". Ninguém a ouvia, a não ser um grupo de mulheres que a acompanhava. Mulheres de fibra, mulheres amáveis, todas mergulhadas no desespero. (...)
Mas onde estavam os demais discípulos? Fugiram amedrontados. (...)
As mulheres não estavam entre os doze, mas, apesar da angústia asfixiante, moviam-se para o desfecho final em direção ao Calvário(...)
Ao chegar ao Calvário, a angústia de Maria atingiu o máximo. Seu coração palpitava. Faltava-lhe ar. Quando os carrascos levantaram o pesado martelo e golpearam os punhos de Jesus, ela sentiu como se os cravos tivessem penetrado nas suas próprias mãos (...)
Quando Jesus levava a cruz, seu sofrimento foi indecifrável. Ao vê-lo morrer, ela morria emocionalmente minuto após minuto.
Ao ver seu filho agonizar na cruz, Maria mergulhava dentro de si. Não conseguia fugir das imagens que transitavam em sua memória. O menino que ela amamentou, embalou e acarinhou a cabeça agora tinha uma coroa de espinhos. O menino que sempre foi honesto, fiel aos seus pensamentos agora era tratado como o mais vil dos impostores. (...)
Maria chorava sem parar. Queria abraçar seus pés e tirá-lo da cruz. Mas sabia que não podia. Queria acariciá-lo como sempre fez em sua infância, mas não conseguia alcançá-lo. Apenas bradava: "Filho, obrigada por você existir. Obrigada pelo privilégio de ter cuidado de você! Você é inesquecível. Jamais esqueça que o amo. Vá em paz".
Mãe e filho se despediram. As palavras são paupérrimas para discorrer a eloquência do momento. Foi a primeira vez que uma belíssima e insondável história de amor foi finalizada com as gotas de sangue de um filho e as gotas de lágrima de uma mãe...
(os trechos acima foram retirados do livro Maria: A Maior Educadora da História. Augusto Cury. Editora Academia de Inteligência)
Parte 5 - Para nós, as Mariazinhas
Esse ano foi a primeira vez que chorei ao ler sobre o calvário de Jesus, mas não por Ele. Mas por tentar imaginar a dor sentida por essa mulher. Uma mulher que viu seu filho sofrer as mais cruéis violências e dores físicas; uma mulher adepta da paz, que assistiu ao filho ser chicoteado, humilhado, marcado e crucificado. Então, no dia de hoje, às vésperas do Natal, escrevo esse texto para homenagear as mães de mundanos e humanos filhos. Que fazem das tripas coração para dar o que de melhor têm, e para aprender a ter mais, caso ainda seja pouco.
Escrevo para inspirá-las a uma criação baseada na não-violência, usando Maria como exemplo.
E para pedir, sinceramente, a todas as mães: não batam em seus filhos! Existem tantos outros caminhos... e tanta gente pra ajudar a mostrá-los, quando, sozinha, não estiver sendo possível ver.
Não somos mães de filhos santos. Também não somos santas. Somos mulheres comuns, aprendendo, com a vida, uma forma de amar e educar nossos filhos para o bem e o amor.
Não se trata de querer ser Maria, mas de se inspirar nela.
Nós não temos filhos do Espírito Santo.
Mas eles podem, sim, ajudar a melhorar o mundo. É nisso que eu acredito.
Acredito que, criando filhos com afeto e apego, estamos preparando seres melhores para o mundo.
E não é preciso ser santo pra isso. Mas é preciso, sim, ser amado. Muito amado.
Nesse Natal, lembremos de Maria.
Essa jovem mulher que teve a vida arrasada pela morte cruel e violenta de seu filho, ainda que lutasse pela paz.
Feliz Natal!
Ao Papai Noel peço, além de saúde à minha filha, a saúde de volta à mãe da Amábile.
A história de hoje é uma longa e especial história, que vale muito a pena reservar um tempinho para ler...
Todos os dias, centenas de pessoas passam umas pelas outras sem se darem conta de que ali, passando por elas, também podem estar companheiros em potencial. O cotidiano agitado, aliado a essa época de extremo individualismo e de pessoas que mais pensam em seus próprios interesses que no bem coletivo ou no outro como ser que merece respeito e consideração, torna as pessoas praticamente invisíveis quando elas são explicitamente visíveis e presentes.
Por outro lado, por mais paradoxal que pareça ser, o mundo virtual muitas vezes traz para nosso convívio pessoas sem um corpo físico presente, mas que se tornam extremamente presentes por suas ideias, pelo compartilhamento de experiências e pela semelhança de valores.
Assim é com os blogs, assim é com as mídias sociais.
É lógico que tem muito babaca usando essas formas de comunicação apenas como se fosse seu diário adolescente. Mas, pelo menos no que diz respeito ao meu círculo de contatos virtuais, uma grande parte as utiliza para trocar informações úteis, para formar redes de ativismo em prol de causas coletivas (sim, somos ativistas, e é uma pena que algumas pessoas autocentradas pensem que isso é ruim) e para divulgar conceitos e ideias que, de outra forma, estariam restritos a determinados grupos e a poucas pessoas.
Não há como negar que a internet tem aproximado pessoas que, de outra forma, talvez nem pudessem se conhecer. E a internet não é mais algo elitista, não.
O Internet World Stats afirma que o Brasil é líder em acesso na América do Sul e que, apesar da desigualdade de renda, apresenta um grande crescimento diário com relação às residências com computadores conectados à rede. Com relação ao uso diferencial por gênero, Heleno Schneider diz, em seu trabalho de mestrado "Diferenças entre homens e mulheres no uso e na percepção de valor da internet", que são as mulheres quem, de maneira geral, mais destacam a importância da internet como ferramenta de comunicação, enquanto os homens a utilizam mais para a busca de informações. A própria UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) considera a internet como uma ferramenta crucial para o empoderamento de mulheres.
Eu estou entre essas que se empoderam diariamente também através da internet e a utilizo como fonte de informação, de transformação desta informação em conhecimento, de relacionamento social, de trabalho, de cultura, de criatividade, de auxílio e apoio como mãe, para me comunicar com meus familiares, entre tantas outras finalidades que essa incrível rede virtual nos possibilita.
Mas por que raios estou falando sobre isso?
Porque na semana passada, passei por uma experiência muito especial. Uma história que começou faz tempo, de maneira muito sutil, e que se tornou um momento de confraternização e de descoberta de novos amigos.
Um dia, ainda grávida, fuçando na internet como sempre, encontrei um livro digitalizado que estava procurando há meses e que encontra-se esgostado nas livrarias já há muito tempo. O incrível livro Quando O Corpo Consente, que li ainda grávida, mudou minha forma de ver a gestação e o mundo novo para o qual ela nos abre, e, desde então, recomendo aos quatro cantos, principalmente se nesses cantos estiverem barrigudas à espera de seus filhos.
Pois bem. Aí eu recomendei o livro em uma lista de discussão da qual faço parte. E nessa lista estava uma pessoa que coeditava um blog. Coeditava não, coedita. Este blog é editado por duas mulheres, duas mães. E aí essas mulheres também indicaram no blog esse livro. E o indicaram em 30 de julho de 2010, sem saber que, naquele exato momento, eu estava em trabalho de parto. Essas duas mulheres, Ana Carolina Franzon e Bianca Lanu, são mães, estudiosas da questão do respeito ao parto e nascimento e coeditam o excelente Parto no Brasil, que eu recomendo a todo mundo que se interessa pelo tema.
Aí o tempo se passou e, em 06 de novembro de 2010, Clara com 3 meses de vida, elas lançaram um sorteio em parceria com minha amiga Gabi, da Ninho Slings. Ana Carolina entre Londrina e SP, Bianca em Cananéia-SP, eu e Gabi em Floripa. Eu, slingueira convicta e adicta, resolvi participar desse sorteio, mesmo sem nunca ter ganho nem pano de prato em bingo de igreja. E ganhei!
Aí enviei meus dados para a Bianca, para que ela divulgasse lá. E, desde então, sutilmente, temos mantido contato.
Nosso contato virtual, via Facebook, se intensificou após minha inserção absoluta no mundo da pesquisa e interesse sobre partos humanizados e tudo o que gira em torno disso. Ela posta, eu compartilho, eu posto, ela comenta, trocamos informações muito úteis, trocamos ideias, compartilhamos infos sobre editais que podem interessar às duas, babamos nas fotinhos da filharada e tudo o que essa forma de comunicação nos permite.
A Bianca escreveu um livro (outro, porque ela já é uma escritora experiente), que é justamente o que estou lendo agora, como meu livro de cabeceira no início dessas férias, o Parteiras Caiçaras, que mencionei no post anterior. E decidiu fazer um curso com a midwife mexicana e referência no assunto Naoli Vinaver, que agora mora aqui em Floripa. Aí juntou o curso em Floripa com o lançamento de seu livro sobre parteiras e pimba! Pintou a ideia! Não sei se partindo de mim ou dela, surgiu a ideia dela vir lançar o livro no Bazar Coisas de Mãe nos dias em que estaria aqui por conta do curso.
Um certo dia, ela me pergunta: "Ligia, você conhece algum lugar onde possa me hospedar?". Lembro de ter respondido, primeiro, algo como "Posso procurar pra você". Mas aí parei e me toquei: puxa, nós temos um quarto aqui onde ninguém dorme à noite; puxa, ela é uma parceira e companheira de ativismo... E respondi, na lata: "Bianca, se você quiser, pode ficar aqui em casa numa boa".
E então, 2 meses depois, Bianca chegou à Ilha da Magia. Fui buscá-la na rodoviária e foi só olhar pra ela e sentir que já éramos amigas há muito tempo, sem nem termos nos visto antes. Ela passou alguns dias aqui, em nossa casa. Foram ótimos dias, dias alegres, de identificação, de muita prosa, de muitas risadas e cafezinhos bem passados. Coisa de - como ela gosta muito de dizer - comadre. Coisa de comadre mesmo. E compadre, porque ela e Frank ficaram muito amigos também, conversaram muito e trocaram muitas ideias na sacada de casa, enquanto eu dava conta dos últimos trabalhos do semestre. Gente querida que recebemos em casa com muito amor, e que deixou mais amor ainda. Clara a adorou, e ela aproveitou pra matar um pouquinho a saudade do Rudá, seu filho de 2 anos, que ficou com o paizão enquanto ela fazia o curso. Antes de ir embora, Bianca me deu um presentinho muito simbólico: uma canequinha de metal parecida com essa que ela está usando na foto, para que eu possa tomar os meus cafezinhos que tanto gosto enquanto escrevo e me lembrar dessa comadre que está há alguns quilômetros de distância, mas com a proximidade de um clique.
Bianca foi embora e deixou aqui não somente saudade, mas uma família contente por mais uma amiga, feita dessa maneira tão especial. Depois que ela se foi, me toquei: conversamos tanto que não lembramos nem de tirar uma foto juntas, quase imperdoável. Mas essa fotinho aí da Clara comigo foi ela quem tirou...
Bem, minha relação com essas mulheres desse blog tão bacana não termina por aí.
Enquanto Bianca se preparava para vir a Floripa, um outro vínculo se formava, agora com a Ana Carolina. Em reunião com meu orientador de doutorado, chegamos à conclusão de que, dada a grande procura das mulheres pela pesquisa que estamos desenvolvendo sobre violência obstétrica, e considerando a grande importância deste tema, seria muito importante se pudéssemos contar com a colaboração de alguém de relevância nessa área no Brasil. Um primeiro nome nos veio logo à mente, a professora Simone Diniz, livre-docente do Departamento de Saúde Materno-Infantil na Faculdade de Saúde Pública da USP, e referência no Brasil em pesquisas sobre respeito ao parto e nascimento. Justamente em função disso, senti-me um pouco constrangida em fazer esse convite a ela, que também só conheço virtualmente em função da qualidade de seu trabalho. Mas lembrei-me que a Ana Carolina é atualmente sua aluna de pós-graduação. Escrevi pra Ana perguntando o que ela achava disso, e ela, muito carinhosamente, me incentivou e motivou a escrever à Simone. Assim fiz. E imagine a minha surpresa ao receber sua resposta, não somente aceitando meu convite para uma co-orientação, mas elogiando nosso trabalho e iniciativa. Então, hoje, tenho a grata satisfação de ser colega da Ana, começando um trabalho junto ao mesmo grupo - e outras parcerias que estão sendo gestadas com carinho e cuidado.
Bom, a Bianca já foi embora há quase uma semana. Por que, então, estou escrevendo sobre isso somente hoje?
Porque hoje o Parto no Brasil está comemorando 2 anos de existência, com mais de 100 mil visualizações. Mas não é por isso que eu homeageio esse blog hoje. Mas porque ele ajuda a levar informação de qualidade a centenas de mulheres, porque ele tem uma função muito bem desempenhada nessa missão de buscar o respeito às mulheres em suas gestações e partos. E porque foi por meio dele que hoje eu faço parte desse comadrio tão especial.
Ana e Bianca, parabéns pelo lindo e voluntário trabalho em coeditar esse blog. E obrigada por isso!
Pra finalizar, deixo exatamente as palavras que elas escolheram para abrí-lo, em sua epígrafe:
"A Vida não é canal aberto com régua e esquadro.
É rio poderoso e caprichoso
mas que nem por isso deixa de encontrar
o mar de onde nasceu,
mar ao qual todo rio aspira,
mar que acabam todos,
sempre,
por reencontrar."
Frédérick Leboyer. Se me contassem o parto.
(Ed. Ground, 1998)
E compartilho, também, a entrevista da Bianca ao Canal Futura, sobre seu lindo e emocionante livro, que comecei a ler e estou adorando.
Quem acha que a internet é bobagem e perda de tempo, ou não sabe usá-la direito ou não sabe de nada...
Estou de férias autodecretadas há cerca de 15 minutos, na madrugada.
E agora?! Como é que usa esse treco quando se tem uma filha recém caminhante de 1 ano e quase 5 meses?
Quando eu era criança, um marco de início das férias era ganhar o Almanacão de Férias da Turma da Mônica, que não durava nem 2 dias porque eu fazia questão de deitar na rede e só levantar para itens de subsistência, não fazendo mais nada enquanto eu não o terminasse de ler. Naquela época, eu também fazia uma listinha das coisas que eu queria fazer e adorava ir fazendo tiques no que eu já havia feito.
Mas agora, aos 33 anos, nem sei como vai funcionar isso.
Clara está a mil, andando por tudo lindamente, falando mais que a mãe e o pai dela juntos - pensa? -, descobrindo muitas novidades e sendo, ela própria, muitas novidades.
Agora parei pra pensar no que quero fazer nessas férias. E, sinceramente, não sei. Sinto-me um pouco perdida. Foi um ano tão intenso de tanto trabalho que, agora que não preciso trabalhar, quero trabalhar só por hobbie, dá pra entender? E agora, que estou de férias, quero acordar bem cedo. Não, não tente me entender, eu frequentemente ultrapasso qualquer entedimento.
Sim, quero trabalhar nas férias. Mas também quero ir à praia com minha família, quero relaxar quanto aos horários, quero sair de manhã com eles e só voltar à noite, quero fazer trilhas slingadas, quero ir a lugares mais distantes dessa ilha, quero brincar muito com a Clara na areia, quero organizar umas coisas por aqui, quero escrever muito nesse blog (tenho textos organizados mentalmente só me esperando...). E - o que me deixa muito feliz só por pensar - quero ler livros. Quero deitar na rede da minha sacada com um bom livro e devorá-lo. Quando? Não sei, já que minha filha está sempre grudada em mim. Mas que vou tentar, vou. E vou começar por um que acabo de ganhar das mãos carinhosas de sua autora, "Parteiras caiçaras: relatos e retratos de parto e nascimento", de Bianca Magdalena, cuja imagem de capa está aí ao lado do texto. Bianca, para mim, era apenas uma cientista social e blogueira muito bacana com quem conversava de vez em quando via mídias sociais. Hoje, posso chamá-la de amiga e companheira de ideias e interesses, uma querida que conheci via Facebook e que passou ótimos e alegres dias aqui com a gente em nossa casa. Uma história à parte para se contar aqui. Nas férias.
O que me surpreendeu positivamente nesse meu não-planejamento mental das férias foi o seguinte: muitas das coisas que quero fazer, além obviamente de curtir minha família, dizem respeito ao meu trabalho. Organizar artigos já lidos, ler novos, reler alguns, começar a esboçar a revisão que vamos escrever, preparar alguns documentos, concorrer a um edital e organizar uma mobilização para o final de janeiro.
Foi quando me toquei que, se estou incluindo nas coisas boas a serem feitas nas férias itens do meu trabalho, é porque atingi um ponto pelo qual sempre esperei: enfim, meu trabalho é o meu prazer. É o que me dá alegria, é o que me motiva, me impulsiona, é o meu hobbie. Enfim, estou onde gostaria de estar, fazendo o que gostaria de fazer.
Que grande ano esse. Que imenso ano para mim. Quantas descobertas, quantas conquistas, quanto crescimento, quanta coragem - sim, fui muito corajosa mesmo, hoje vejo - quanta vitória, quanta luta, quanta batalha vencida, quanta alegria vivida.
Estou feliz.
Hoje fez um dia lindo em Floripa e o pôr-do-sol foi algo extraordinário. Paramos o que estávamos fazendo, nós três aqui em casa, e fomos contemplá-lo. E foi quando decidi: ok, vou descansar também.
Mas o meu descanso é assim. Produtivo. Cheios de coisas que quero fazer, de textos que quer ler e escrever. De amigos que quero encontrar.
Porque eu sou assim mesmo... esse moto contínuo sobre pernas.
A todos que, como eu, estão entrando em férias: bons dias, amigos! Descansem. Qualquer que seja sua forma de descansar.
E para os que estarão trabalhando: esperança, amigos. Ainda que eu esteja de férias, também estarei como vocês, trabalhando. Por oção. E feliz.
Boas férias de verão.
Pôr-do-sol de Sambaqui. Visto hoje de nossa sacada.
Se até ele pode descansar, ah, acho que vou também...
Se você estiver em Floripa, hoje haverá um evento bacana: o último Bazar Coisas de Mãe do ano, um bazar muito especial de Natal.
Serão mais de 20 mulheres-mães expondo produtos lindos, que produzem ou comercializam enquanto cuidam dos filhos, mulheres que mudaram suas carreiras profissionais para não terem que se separar precocemente das crianças.
Será no SESC-Cacupé, das 13 às 18:30, nos quiosques da área externa.
Além da feira, hoje haverá uma programação muito especial.
Às 15 horas, haverá um bate-papo como o obstetra e ativista pela humanização do papo Ricardo Herbert Jones e sua esposa Zeza Jones, parteira e enfermeira obstétrica.
E às 17 horas, haverá o Encontro de Doulas de Florianópolis. E nós estamos muito gratas pelo Bazar Coisas de Mãe ter sido escolhido para receber esse encontro especial, de mulheres que se dedicam a amparar outras mulheres em seus partos.
Como uma das organizadoras dessa iniciativa, é muito emocionante fazer parte desse grupo de mulheres especiais. E aproveito para agradecer a todos os amigos, parceiros e apoiadores que estiveram conosco ao longo deste ano, nos fortalecendo e estimulando na continuidade da ideia. Muito obrigada!
Nós somos mulheres profisisonais - biólogas, arquitetas, engenheiras, advogadas, cientistas sociais, designers, agrônomas, entre outras profissiões - que mudamos nossas vidas porque nossos filhos nasceram e quisermos estar mais tempo com eles. Acreditamos na criação com afeto, com amor, com apego; maternamos consciente e ativamente; nos dedicamos ativamente a aprender cada dia mais nessa missão incrível de cuidar de outros seres humanos. Aceitamos o desafio de nos entregar à maternidade. E formamos o Coisas de Mãe. Que, a cada dia, se tornam também, cada vez mais, Coisas de Pai.
"Gente pequena, em lugares pequenos, fazendo pequenas coisas, podem mudar o mundo"
Há alguns dias, postei um texto aqui com o título auto-explicativo de "Hiperativa é o cacete! Meu nome é Zé Pequeno", onde contei um "causo" desses que vivo que me causam indignação. Aconselho que você leia, vai se divertir um bocado com a desgraça alheia. Naquele texto, eu digo que estava lendo muita coisa sobre medicalização para um seminário e que pensava numa postagem sobre isso.
Então esse texto aqui é justamente sobre isso, sobre a medicallização da vida. Questão que é, sem dúvida alguma, um dos temas que mais me interessam atualmente e que está diretamente relacionado à questão de respeito ao parto e nascimento e, também, à questão da saúde mental, as duas áreas que me fascinam.
Partindo do começo: o que é medicalização?
Medicalização não é apenas esse péssimo hábito atual de usar medicamento para tudo e contra todos. Isso é medicamentalização, que também está inserido no contexto da medicalização, mas não somente.
Em termos muito simples, medicalização é tratar aquilo que é absolutamente normal na vida de um indivíduo como um problema de saúde e, consequentemente, como assunto de domínio médico.
Há uma quantidade imensa de exemplos que podem ser trazidos à tona.
Se uma pessoa está triste, diz-se que está com depressão. Se está alegre, está maníaca. Se varia entre os dois estados, está bipolar. Se tem vergonha de falar em público, tem fobia social. Se comeu muito, está com compulsão alimentar. Se está sem fome, virou anoréxico. Lavou 3 vezes a mão, então tem TOC. Isso apenas pra citar alguns poucos exemplos.
O grave da questão da medicalização é que comportamentos rotineiros considerados indesejados passaram a ser classificados como problemas médicos. E, assim, tornaram-se passíveis de controle por meio de medicação. E, o que é pior, os indivíduos passaram a ser "normalizados", ou seja, comparados com uma pretensa "normalidade" que deveria existir. O que é o normal? Normal seria aquilo que está na média, em termos de frequência numérica.
Mas quem disse que o que é frequente é normal? Cai-se, portanto, na questão discutida na postagem anterior, "Quando o comum não é normal", em que falo sobre a violência obstétrica. Nem sempre aquilo que é comum pode ser considerado normal...
E, assim, vivemos em um mundo onde as pessoas buscam, freneticamente, ser normais, um estado fictício e ilusório. Milhares de pessoas no mundo buscando a normalidade... que nem sequer existe.
Com a medicalização tão comum das vidas, o modo de vida das pessoas foi apropriado pela ciência médica, que passou a interferir na construção dos conceitos, nas "regras" de higiene, nos costumes, nos comportamentos. E à medida em que a ciência médica se apropria da vida e dos corpos dos indivíduos, dizendo o que é o certo e o errado e orientando o indivíduo ao que ele DEVE fazer, diminui-se a autonomia da pessoa com relação ao seu próprio corpo, a aliena, desvaloriza e condena seu próprio estilo de vida e seus valores. As experiências humanas passam a ser vistas como problemas. Todo mundo deve se comportar da mesma maneira, em série.
Parei pra pensar nos aspectos da nossa vida atual que sofrem influência medicalizante direta. E tomei um grande susto. Não há mais aspectos isentos disso. Consegui fazer uma lista, que começa antes mesmo da vida começar, e que termina com o fim dela. E é essa lista que quero apresentar aqui, chamando a todos para a leitura e reflexão sobre cada um desses itens. Nós vivemos, hoje:
a medicalização da concepção (com pessoas comprando kits de previsão da ovulação; monitoramento da temperatura corporal com termômetros cada vez mais sensíveis; paranóia dos check ups, das vitaminas, de diversos fármacos; gente dizendo para consultar um ginecologista que te possa orientar sobre as melhores posições sexuais para engravidar; um arsenal de procedimentos que tornam a vida tensa, sem graça, sem charme, mecânica e paranóica - o que é totalmente paradoxal para quem está tentando engravidar, que precisa estar tranquilo e relaxado)
a medicalização da gestação (tenha um ou dois obstetras de confiança, tome vitaminas, reforce a quantidade de hormônios, faça inúmeras ultrassonografias, consulte um nutricionista, marque um psiquiatra, use antiácidos, antiespasmódicos, antieméticos, procure com antecedência um pediatra, marque sua cesárea, cuidado com diabetes, hipertensão, pré-eclâmpsia - uma enxurrada de orientações que geram na gestante a falsa sensação de que o que ela está vivendo não é natural, não é normal e, sim, é arriscado, é uma quase-doença, digamos assim...)
a medicalização do parto e puerpério (lugar de parto é no hospital, ou seja, o parto deixou de ser algo natural para ser algo arriscado; ao invés de se pensar no parto como sendo vida, se pensa, antes, no parto como algo que pode levar à morte; os procedimentos envolvidos no parto remetem, todos, a uma concepção medicalizada; a ocitocina de praxe - o famoso "sorinho"; a anestesia de rotina; a episiotomia de rotina; a presença de diferentes tipos de médicos; a noção equivocada de que quem faz o parto é o médico, como se o parto fosse algo extra-mulher, que ela não teria capacidade para fazer sozinha; entre tantos outros aspectos)
da amamentação (amamentação também deixou de ser algo natural; muitas mulheres têm saído das maternidades com a prescrição de NAN ou outros leites artificiais sem ao menos serem orientadas a amamentar; amamentação virou caso médico, com médicos dizendo quando se deve desmamar uma criança ou quais os melhores horários para se amamentar, decisões que dizem respeito somente à mãe e à criança e sobre as quais nenhum médico tem direito ou conhecimento de causa para opinar, uma vez que cada dupla mãe-filho é absolutamente singular)
da alimentação (consulte um nutricionista, marque uma consulta com seu nutrólogo e outros especialistas, tome vitaminas para complementar; os transtornos alimentares, o muito ou pouco apetite e os estimulantes ou inibidores)
da educação (como se todas as pessoas fossem dotadas das mesmas habilidades de aprendizagem, quem apresenta diferenças é rapidamente classificado como portador de algum transtorno, que vai desde o tão pop transtorno de hiperatividade e déficit de atenção até a dislexia, passando por ínúmeras dificuldades de aprendizagem, nunca considerando as diferenças individuais naturais)
dos afetos (vide exemplos que mencionei no início do texto, quando tristeza é depressão, alegria é mania e a alternância é bipolar; o amor agora pode ser patológico; o vínculo pode ser interpretado como sendo causado apenas por um hormônio; tristeza não pode haver; alegria demais é patológica)
das personalidades (não existem mais "pessoas diferentes", existem "distúrbios de personalidade"; os fóbicos sociais, os impulsivos, os hiperativos, os apáticos, os maníacos)
da beleza (a ninguém mais se permite estar fora do peso, ou o surgimento de algumas rugas; procedimentos invasivos são feitos; seringas são usadas, agulhas são inseridas, toxinas injetadas, e se torna praticamente questão de saúde não querer seguir a onda esmagadora em busca da beleza)
da sociabilidade (não se pode mais ser tímido, há que se medicar para facilitar as relações sociais; não se pode ser muito extrovertido, essa pessoa será rapidamente taxada de bipolar, esquizo ou maníaca; ser mais ou menos sociável deixou de ser uma característica de personalidade, se tornou problema médico)
do trabalho (LER's - lesões por esforços repetitivos -, síndromes, como a de Bornout, depressões; quem trabalha pouco está deprimido; quem trabalha muito é workaholic; nada mais é normal também no âmbito da relações de trabalho e tudo virou caso de perícia médica)
das funções vegetativas (se você sua demais, precisa de uma cirurgia corretiva; se sente muita sede, está com alterações orgânicas; se vai ao banheiro dia sim, dia não, sofre de constipação, independentemente de suas características orgânicas individuais, entre outros inúmeros exemplos; quem não se comporta como livro-texto, está doente ou com alguma alteração metabólica)
da longevidade (é praticamente considerado crime hoje o fato de você se permitir envelhecer naturalmente; as pessoas estão sempre em busca da pílula da imortalidade; inúmeros medicamentos; a obrigatoriedade da atividade física como lei para viver mais; tudo para prolongar a sua vida, ainda que não se pense tanto assim em sua qualidade)
Para quem é mãe, existe ainda a questão damedicalização da maternidade, mas sobre isso quero falar especificamente em outro momento, embora eu cite um exemplo logo abaixo.
A questão é: ao aceitar essa medicalização, nos tornamos ordinários. Ordinários no sentido de comum, habitual, vulgar, frequente, que não ultrapassa o nível comum. E, creia, não é bom ser assim...
Minha filha Clara, que tem hoje 1 ano e 4 meses, voltou a andar sozinha na semana passada. Ela, que aprendeu a andar há mais de 2 meses, havia parado quando nos mudamos de casa e voltado a engatinhar. Talvez por ter estranhado a mudança, preferiu segurar a onda e observar o ambiente um pouquinho mais. Agora, ela ganhou o mundo! Passa o dia indo de lá pra cá e de cá pra lá. Mas até isso acontecer, tive que vencer toda essa força que nos leva a ver tudo como problema, ignorando que todos "temos nosso próprio tempo", como dizia aquela música, e tentando "normalizar" todo mundo.
Muitas pessoas me pressionaram, sugerindo sutilmente que talvez fosse bom levá-la ao médico para ver se havia realmente "algum problema" com ela, já que "o normal" é que as crianças comecem a andar antes desse tempo. E eu, que sou bem resolvida quanto a essas coisas, caí na armadilha: peguei-me inúmeros dias questionando e levantando a possibilidade de que algo estivesse errado, a ponto de chegar a marcar um médico (sim, minha culpa, minha máxima culpa). Felizmente, um dia caí em mim, recuperei a sanidade, vi o ridículo da situação, cancelei o médico, mandei tudo e todos às favas e deixei minha filha e sua vontade ou não de caminhar em paz. Se ela quisesse começar a caminhar só com 2 anos, assim seria, e eu ia curtir mais um tempão o bundão dela engatinhando pela casa como uma bonequinha de corda.
Chegou ao cúmulo da seguinte situação. Num final de tarde, eu a levei para tomar um banhinho de mar aqui pertinho de casa. Peguei na mãozinha dela e ela foi caminhando comigo até a água. Nisso, chegou uma outra mãe com sua filhinha de 11 meses, toda caminhante. E disparou contra nós:
- Nossa, mas com 1 ano e 4 meses ela ainda não anda sozinha?! Mas tá muito tarde. Será que ela está com algum problema?
- Não, companheira, não está com problema não. É o tempo dela. Cada bebê reage de uma maneira aos estímulos.
- Ah não, tem alguma coisa errada aí.
Respirei fundo e calei-me.
Nisso, Clara, feliz por estar na água, começa a dizer: Mamãe, mamãe, mamãe.
E a pitaqueira:
- Nossa! Ela já fala?
- Sim, ela já fala algumas coisinhas.
- Ai, mas não é cedo demais?!
Aí deu pra mim.
- Querida, que livro você anda lendo?
- Ah, nenhum, eu não gosto de ler.
- Não gosta?! Será que você não gosta mesmo ou está com algum problema? Eu, se fosse você, procurava uma orientação, vai que você está com dislexia, né?
E ela, assustada:
- Ai, será?!
- Não. Claro que não. Você apenas prefere fazer outras coisas a ler. Cada um é de um jeito, cada um tem seu tempo, não dá pra gente generalizar.
- Ah... entendi. É, deixa a sua filha, logo ela vai caminhar. Capaz que você leve ela no médico e ele arrume mesmo um problema. Que bom que ela ainda passeia de mão dada com você, a minha não quer mais, só quer andar sozinha...
Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual...
... eu sigo assim, meio maluco beleza. Eu prefiro ser livre a ser normal.
Muitas mulheres com quem converso rotineiramente e que sabem sobre a pesquisa na qual estou envolvida, me perguntam o que é a violência obstétrica e como pode acontecer violência num momento tão especial e delicado quanto um parto. Antes, eu ficava até contente com essa pergunta, pois, para mim, significava que aquela mulher que perguntava era uma a menos a ter vivenciado isso.
Hoje, não tenho mais essa ilusão.
A violência obstétrica muitas vezes acontece disfarçada de "coisa normal", de "praxe". Grande parte das mulheres que adentram as instituições de saúde para dar a luz acabam vivenciando procedimentos "de rotina" que não precisariam, em absoluto, "ser rotina". Ou, muitas vezes, interpretam a cascata de comportamentos da equipe de saúde como "decorrente da falta de tempo", "da falta de pessoal", "da superlotação do hospital", "do estresse de quem vive aquilo todos os dias" ou tantas outras possíveis explicações para o que se observa.
Mas pense... para coisas boas a gente não fica procurando justificativas. As coisas boas são facilmente aceitas. As coisas ruins, as desagradáveis, é que ficam ecoando em nossas mentes e é para elas que buscamos possíveis explicações. "Vai ver eles não estavam num bom dia". Ou "vai ver é assim mesmo, a pessoa trabalha todo dia com isso, acaba banalizando".
Mas isso não pode acontecer.
Tanto não pode que existem dezenas de profissionais da saúde que prezam pelo bom acolhimento, pelo afeto, pelo carinho, pelo bem receber e atender uma pessoa que chega precisando de seu amparo. E são esses profissionais que nos deixam marcas positivas e profundas que duram a vida inteira e, por vezes, mudam nossas vidas.
Para quem não vivenciou uma experiência de parto e me pergunta isso, eu sempre respondo com detalhes.
Mas para quem passou por um parto é mais difícil falar... Simplesmente porque aquela mulher pode nunca ter problematizado o que viveu sob esse prisma. Pode ter achado sempre que aquilo que viveu, embora tenha incomodado, era "o normal". Mesmo não sendo. E levantar uma questão dessa é algo muito, muito delicado, pois envolve mexer com sentimentos humanos.
Por isso, quando alguém que já pariu me pergunta sobre - "Mas o que é mesmo a violência obstétrica? Como esses desrespeitos podem acontecer?" - geralmente, de uma forma bem sutil, eu devolvo a pergunta. E não são poucas as que, ao tentarem responder, percebem algo estranho e "Opa!". E o que mais ouço é "É sério?! Achei que isso era o comum!" - e se segue uma expressão de quem está pensando sobre...
Esteja atento! Existe uma imensa diferença entre o que é "comum" e o que é "normal".
Isso não é normal, embora seja comum. E é contra esse "comum" que nós lutamos.
Embora o que seja violência para uma pessoa não obrigatoriamente o seja para outra, uma coisa é certa: quem se sentiu desrespeitado sabe o que sentiu. De alguma forma isso ficou lá dentro.
O vídeo que estou linkando abaixo me foi enviado por uma querida colega que também trabalha com a questão do parto e nascimento, a Juliana Sell, que faz um trabalho muito bacana com gestantes, mulheres no pós-parto e pais adotivos de bebês, e tem um blog muito bom, o Apoio Materno.
É um excelente vídeo sobre violência obstétrica, produzido pela Amnistía Internacional Uruguay.
Não deixe de ver.
E divulgue também. O objetivo é que ele alcance 0 (zero) visualizações.
É um video curto. E fundamental. Clique nele pra assistir.
A vida cotidiana é um pote farto de histórias.
Ontem, acompanhei meu pai em uma pequena cirurgia em um hospital público aqui em Florianópolis, um procedimento relativamente simples com duração estimada em cerca de 1 hora e meia. Chegamos ao hospital às 11:30 e saímos às 18 horas, um interminável chá de espera que me permitiu vivenciar diferentes experiências. Sobre a cirurgia em si, excelente: equipe atenciosa, cuidadosa e que deixou a mim e a ele - principalmente - tranquilos sobre todo o procedimento, gente bacana que arrancou diversos elogios de todos. Saímos de lá também elogiando o atendimento recebido e felizes pelo fato de que muitas pessoas receberam, ao longo de todo o dia, atendimento realmente condizente com sua condição de fragilidade momentânea que um problema de saúde traz.
Aproveitei a longuíssima espera para colocar minha leitura de coisas úteis e fundamentais em dia: devorei dois livros de tirinhas dos insubstituíveis Calvin e Haroldo. E muito do que eu ia lendo, ia vendo ao vivo nesse livro de crônicas que é o cotidiano. E, como não poderia deixar de ser, vão aqui alguns esquetes desse emocionante stand up tragicomedy da vida real.
Cena 1 - Os Bem Criados
Estou eu imersa na leitura fascinante de Calvin e Haroldo, enquanto meu pai faz amizade com metade da população flutuante do hospital, sentada ao lado de uma senhora que ora costurava uma linda colcha de patchwork para o natal, ora cochilava com a agulha na mão, deixando-a escapar para o meu lado e me dando leves espetadinhas. Eis que, logo à nossa frente, uma menininha linda com a idade aproximada da Clara, começa a chorar sentidamente, e do choro passa aos berros, obviamente acordando a senhora ao lado do sono que ela nem percebeu que estava tendo.
- Ah essa lei da palmada... Agora não pode bater e dá nisso - diz em minha direção, olhando por cima dos óculos. Obviamente, mantive o silêncio, pensando "Santa Paulina, me impeça do ativismo. Grata". Não conseguindo comentário adicional de minha parte, a senhora agulheira - que faz com a língua o que sua mão sonolenta não consegue fazer - continua.
- Pense se eu tive filhos que choraram assim em público. Mas nunca! Foram sempre muito bem criados. Porque educação a gente dá assim, no dia-a-dia. Imagine, chorar assim. Isso aí é falta de laço!
Não consegui.
- Então a senhora tem filhos bem criados, bem educados, é? Que coisa boa!
- Eu, imagine! Gente da melhor qualidade, disciplinada, muito bem educada. Nunca fizeram esse papel aí.
- E como a senhora os educou? Eu tenho uma filhinha de 1 ano, é sempre bom compartilhar experiência.
- Ah, minha filha. Era um olho na criança, um olho na cinta. Que criança a gente tem que manter ali, na ponta da vara. Pensa se eles fizeram esse escândalo público aí alguma vez?
E a pequenininha chorava cada vez mais forte, aquele chorinho sentido que dá até soluço. Eu já estava quase me levantando pra tentar ajudar, de repente oferecer o sling que eu sempre levo na bolsa mesmo quando minha cria não está comigo, quando uma moça sentada ao lado dela fez exatamente isso: levantou-se com um sling de argolas, ofereceu para a avó da guriazinha, que aceitou na mesma hora, pegou a guria dos braços da mãe, que já não sabia mais o que fazer e, com a ajuda da moça desconhecida, a colocou no sling e saiu passeando como uma grande novidade, me deixando ali com a cara de boba ocitocinada mais feliz do pedaço. E lá vem a véia:
- Ah lá, a frescura. Se passou o choro, era frescura. Vê se no meu tempo tinha esses trecos esquisitos aí. Esse povo é muito cheio de nove horas.
- O que a senhora fazia quando seus filhos choravam assim?
- Eles NÃO choravam assim, minha filha - diz a senhora bem enfaticamente - ou era couro no lombo.
- Sei.
Silêncio.
- A senhora está aguardando algum procedimento?
- Sim, vou fazer uma cirurgia das vistas. E tu?
- Eu estou acompanhando meu pai. Ele também vai fazer essa cirurgia.
- Ah, ó lá. Isso é que é filho. Larga o que tá fazendo pra acompanhar um pai ou uma mãe.
- A senhora tá sem acompanhante?
- É, filha, tô sozinha. Diz que alguém vem aí mais tarde, mas duvido.
- Mas e os filhos da senhora, os bem criados?
- Ah, esses... esses aí mal falam comigo. Depois que cresceram ganharam asa, minha filha, mal lembram que têm mãe. Pra tu vê, né? A gente se esforça pra dar o de melhor pra eles e quando crescem nem te recompensam.
- Ô essa lei da palmanda, né dona?
- Ô, minha filha! Se eu tivesse boa, era couro no lombo de novo.
....
Cena 2 - Amábiles
E eu lá nas minhas tirinhas Calvinistas.
E percebo um rostinho bem por cima do meu ombro direito. Olho pra trás e tem uma menininha linda espiando as folhas do livro que eu estava lendo. Me viu olhando, e ficou toda sem graça.
- Oi - digo eu.
- Oi - diz ela.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Como é seu nome?
- É Amábile.
- Amábile?! Que nome lindo! Como o da Madre Paulina!
- Isso mesmo! - diz a mãe dela, feliz por alguém ter reconhecido a intenção - Você conhece o Santuário da Madre Paulina?
- Sim, conheço. Estive lá esse ano com minha família.
- Você é católica? - diz a mãe
- Não.
- É. Eu também não sou. Dei o nome Amábile em homenagem a uma enfermeira que me atendeu quando ela nasceu - apontou pra menina -, que chamava Amábile em homenagem à Madre Paulina.
- Ai que lindo! Ela deve ter sido ótima pra você, né?
- Ótima?! Ela me salvou! Um médico queria me amarrar pra ter o bebê e ela me defendeu!
Silêncio. Imagine minha cara.
- Essas coisas é que valem a pena, né? Saber que não importa o que estejamos vivendo, sempre tem alguém que pode estar disposto a nos ajudar.
- Foi uma santa, aquela mulher. Foi ela que me ajudou o tempo inteiro. Muito amável mesmo, como o nome.
(eu toda emocionada, enquanto a pequena Amábile folheava o livro que eu havia emprestado).
- Por que você está lendo história de criança se você é adulta? - pergunta a pequena Amábile.
- Porque eu sou uma adulta que gosta muito de criança.
- Vai ver que você é uma criança disfarçada de adulta né?
- Eu acho que sou mesmo, Amábile.
- E o que você vai pedir pro Papai Noel?
- Sabe que eu não sei?
- Pede então pra minha mãe ficar boa?
- Sua mãe está doente?
(e a mãe chorando ali atrás de emoção)
- Está.
- O que ela tem?
- Não sei, ela não me diz. Pra mim ela finge que não está, mas eu sei que está.
- Pode deixar, Amábile, esse vai ser o meu pedido pro Papai Noel. Vou fazer uma cartinha hoje.
- E junto você pede um fantoche? Pra mim, esse.
- Peço sim. Vou pedir um pra você e outro pra minha filha.
- Você tem filha?
- Eu tenho, bem pequeninha, menor que você.
- Tem uma foto?
Mostro pra ela uma foto no meu celular.
- Que linda que ela é, né? - ela diz.
- Eu acho, muito fofinha.
E ela: - Olha, não fica doente. Se não ela vai perceber e vai ficar muito triste.
- Mas sabe, Amábile, se eu ficar doente, vou fazer de tudo pra melhorar, pra poder cuidar dela muito tempo. E eu tenho certeza que, ela estando junto de mim, vou melhorar mais rápido.
- Isso! É assim que tem que pensar- diz Amábile. E vira pra trás - Viu, mãe? Não precisa se preocupar. É só fazer TUUUUDO pra melhorar. E eu já estou com você, vai ser rápido.
E nessa hora eu recebi dessa mãe o olhar mais cúmplice que eu já recebi até agora nessa experiência como mãe.
Mães existem de todos os tipos, de todos os credos, de todas as cores, saudáveis ou doentes, amáveis ou agressivas, felizes ou tristes, realizadas ou frustradas, que deixam a vida de mãe passar como um simples e corriqueiro evento ou que se dedicam ativamente a isso.
O importante é lembrar sempre que o caminho que se percorre numa vida como mãe é a gente mesmo que pavimenta. Esse chão pode ser ladrilhado de pedacinhos coloridos ou pode ser, simplesmente, um grosso, cinza e impermeável asfalto. Quem escolhe e constrói o chão do caminho somos nós, essas mulheres que viraram mães. Mas quem percorre o caminho que vamos ladrilhando são eles, essas pessoas que nos foram emprestadas para serem amadas e cuidadas, os filhos.
E se lá na frente, percebermos que o nosso caminho se tornou também o caminho dos nossos filhos, é porque fizemos um bom trabalho.
Mas isso só se saberá lá adiante.
Enquanto isso, ser mãe é essa coisa que se aprende sendo. Todos os dias.