Estou há alguns dias sem postar tanto em função da grande quantidade de trabalho - realização do Bazar Coisas de Mãe no último sábado, responder as dezenas de e-mails que estão chegando desde o início da ação do Teste da Violência Obstétrica e por conta de textos que precisei enviar de última hora - quanto em função de um triste fato que ocorreu no final de semana, e que mexeu com minha família e comigo.
Há alguns dias, o vovô paterno da Clara fez aniversário. O pai dela, então, ligou para dar feliz aniversário e conversar, já que ele não mora próximo a nós. Pela primeira vez, eu insisti para que deixasse a Clarinha falar. Ele relutou um pouco, dizendo que o pai dele não iria entender, mas eu insisti. Então, colocou o telefone no ouvidinho dela, e ela, bem rapidamente, disse: "Oi uouô!", que é como fala "vovô", e eu pude ouvir, de longe, a alegria dele por ouvi-la, dizendo "Oi Clarinha!" e rindo muito a seguir. Clara seguiu naquele conversê que ela adora, naquela língua misteriosa que a gente ainda não entende, mas que mistura algumas palavras compreensíveis com outras nem tanto. No fim, disse "Tchau, uouô", e soltou um beijo, deixando o vovô bastante feliz. Foi a primeira vez que ela falou com esse vovô e nós ficamos muito felizes.
No sábado, passei o dia cuidando da organização do Bazar. Foi um lindo Bazar, dezenas de amigos foram nos visitar e trabalhamos bastante. Foi um daqueles bem cansativos, mas excelentes, cheios de bons encontros, boas risadas e bons amigos. Frank ajudou no caixa, ajudou com a Clara, como sempre ajuda, e foi um grande trabalho em família, junto com nossa amiga Sheila e com seu filho Caetano também sendo cuidado com a ajuda do pai. Uma pequena amostra de como as novas famílias estão se organizando e de como as coisas têm se tornado melhores quando o pai participa ativamente de tudo. Ao final, já no fechamento de caixa com nossas parceiras, Frank recebeu a notícia: seu pai havia partido. Foi um grande choque, pra ele, em primeiro lugar, e depois para mim e Clarinha. Para a Clarinha porque, como toda criança, é sempre muito sensível às emoções dos pais, além do fato de que ela já não estava muito animadinha durante todo o dia, o que é, por si só, uma coisa rara.
Naquele momento, eu não sabia muito o que fazer, porque tudo o que eu não queria era que ele passasse por uma dor dessas. Então fiz a única coisa que pude: tirei de dentro de mim todo o amor que sinto por ele e o mergulhei nisso. Nessas horas nunca sabemos o que fazer, porque, na verdade, não há nada a ser feito além de dar amor. Muito. Irrestritamente. Para que esse amor minimize, se é que é possível, a dor.
Essa foi a primeira perda que presenciei após a grande que eu e minha família sofremos, há 6 anos e meio atrás, quando nossa irmã partiu. E foi difícil segurar a onda para estar inteira pro meu Frank, porque por muitos anos eu venho fingindo que ela não se foi, que ela está apenas na China, o único lugar que ela quis conhecer e que não conseguiu porque lhe faltou tempo. Minha arritmia voltou com tudo, mal estar e tudo mais. Mas ele, esse homem bacana com quem divido a vida, estava do meu lado e então, por ele, rapidamente eu melhorei.
No domingo à noite, resolvi deixar o trabalho de lado e pegar um filme pra assistir. Perguntei se ele queria assistir comigo, mas ele disse que preferia descansar. Então fui à locadora e peguei o primeiro que vi, do qual nem fazia ideia da história. Eles dormiram cedo e eu, coruja que sou, madruguei. Foi quando coloquei o dvd, às duas e pouco da manhã, que ele do nada acordou. Levantou e veio se sentar ao meu lado. Então, resolvemos assistir juntos ao filme. Para meu desespero, um filme que falava, entre outras coisas, das diferenças existentes entre um pai e um filho. De como um filho passa tanto tempo querendo ser como seu pai para, depois, querer tudo, menos isso. Um filme sobre saúde mental, sobre a condição humana, sobre a importância do apoio da família e do amor de pai e filho como fonte de cura, do reencontro entre pai e filhos. The Beaver, é o nome do filme, com a péssima tradução de Um Novo Despertar, dirigido e atuado por Jodie Foster, juntamente com Mel Gibson. Filminho que eu esperava que fosse simples e despretensioso, mas que não foi tão assim... Terminamos e ele disse: "que hora para assistir isso..." e eu me sentindo o cocô da pulga.
Fomos para a sacada, de onde vemos o mar, e ali eu o deixei desabafar, contar o que precisava contar, conversamos, nos abraçamos e, juntos, vimos o dia nascer, tomando um chazinho pra ajudar a acalmar a mente. Conversamos sobre como ser pais presentes, ligados, conectados, é bom, também, para nós, como filhos que somos, ou fomos. Como isso cura coisas do passado, como isso nos mostra novas possibilidades, como enriquece nossas vidas e ensina uma forma de amor que antes não conhecíamos.
Então fomos dormir com o dia já claro. Felizes, por fim, pela família que estamos montando todos os dias.
Frank é pai de três filhos. A Clara é sua caçula. Cada experiência tem sido diferente, mas disso só ele pode falar, não eu. A única coisa que eu posso dizer é sobre a experiência como pai da minha filha, a caçulinha, Clara. Todos os dias eu penso sobre isso, como eu o admiro pelo pai que ele tem sido, pelo esforço em aprender mais, por se dedicar a ela e estar presente desde seu nascimento. Ele é tão importante para ela quanto eu sou e isso me deixa feliz e tranquila. Mas, mais que isso, me deixa emocionada, porque eu sei que isso não é coisa fácil de se encontrar por aí. Felizmente, tenho a alegria de conviver com mulheres que também vivem essa experiência de pais conectados e presentes, tanto quanto elas próprias, e vejo como isso é benéfico, principalmente para as crianças, mas não só para elas. Também para nós, que podemos ressignificar nossa história e entender melhor coisas que, de outra forma, não entenderíamos.
Nessas horas de perdas importantes, amor talvez seja a única coisa que funcione para acalmar a dor. E quanto mais damos, mais recebemos. Talvez por isso tenha sido relativamente fácil dar a ele esse amor que ele precisou e precisa ainda: porque é isso que ele faz todos os dias por mim e por ela, desmedidamente.


Palavras vindas direto do coracao nos faz tão bem...lindo texto desabafo.
ResponderExcluirFrank, deixe a dor se manifestar, chore, relembre, perdoe e continue amando seu pai, agora em luz, com boas vibraçôes.sei que para um artista como vc o sentimento ë intenso, por isso use seu dom para expressar a dor.
Ligia, a cientista que virou mae é a mesma mae que virou cientista?
Obrigada!
ResponderExcluirRespondendo à pergunta: não, eu sou uma cientista que virou mãe, nessa ordem.
Mas pensando bem, sim também: hoje sou uma mãe que virou um outro tipo de cientista...
:)
Oi, Ligia, li teu post logo que acordei, mas sabes como é a falta de rotina de quem tem filhos, cães e trabalho tudo na mesma casa, né?!
ResponderExcluirEntão, amada, eu adorei que essa "bola fora" tenha acontecido e dado margem a uma conversa bacana, a refletir sobre como o relacionamento familiar está se dando... Até porque, sempre que te vejo falar no Frank, percebo que ele é um paizão dos melhores e que não precisas ficar pegando no pé pra que ele se dê conta do papel que tem na vida da Clara e dos outros filhos.
Certamente a perda da presença física doi ad eternum, mas com as lembranças, a vontade de falar sobre a pessoa ausente volta e não que doa menos a ausência, mas a gente passa a trabalhar de outra forma os sentimentos.
Que bom que ele tem uma companheira tão especial como tu!
Beijo!
Ingrid
Que lind texto, que linda declaração de amor. Sensibilidade, parceria, carinho... isso tudo parece ter na relação de vcs! É lindo demais ver todo esse apoio quando a gente precisa!!!
ResponderExcluirForça para o Frank e para vc tb!
Abraço
Meus pêsames pela perda Ligia! Espero que a dor e o choque logo dêem lugar à saudade que não machuca mais.
ResponderExcluirLígia, quando vi a atualização desse texto no meu blogroll, decidi que queria lê-lo com calma, em silêncio...pois bem, vim cedinho pra biblioteca da faculdade apesar de só ter aula no segundo horário, pra dedicar uns bons minutos absorvendo tudo o que vc falou.
ResponderExcluirComo te disse, já passei por uma grande perda. A minha avó se foi há 15 anos, quando tinha apenas 57 anos de infarto fulminante. O fator surpresa, mexeu muito com a gente. Enfim...vivendo toda aquela angústia da perda, percebi que palavras não são muito bem vindas nessas horas. Soam vazias e distantes. O melhor mesmo é um bom abraço de apoio e amor, muito amor. Que funciona como um belíssimo curativo nessa enorme ferida que se abriu.
Essa conversa que tiveram, foi linda! E serve para alertar sobre o que verdadeiramente importa nessa vida: o vínculo que construímos com a nossa família.
Um beijo carinhoso. E um abraço fraterno no Frank.
Gente querida, muito grata pelas palavras de apoio. Frank é uma pessoa muito querida por todos, sempre cercado de sorrisos e pronto a dá-los também. Está forte e entendendo esse momento como, apenas, uma passagem.
ResponderExcluirObrigada pelo carinho e um beijo a todas.