Peraí, deixa eu me recuperar.
Marie Claire, revista que critica a amamentação em público, agora fazendo merchan do parto em casa, do parto na água?! Citando Frederick Leboyer?!
MÁ ÔEEE!
Mas tudo por que? Porque ter bebê em casa, na água, agora é coisa fina, é coisa de modelo, de gente chique, tá ficando pop. Tá deixando de ser “coisa de gente bicho-grilo maluca inconsequente” (quem, tendo optado por isso, nunca ouviu algo assim? Quem nunca?!) pra ser coisa de pessoas que estão à procura de modos respeitosos e alternativos de receber um filho. Alternativos no sentido de não hegemônicos.
Mas onde é que estão pensando assim, aqui no Brasil? Não, Pollyanna, lá na Rússia. Aqui no Brasil ainda se noticia em matéria de capa que uma ativista australiana morreu em seu parto domiciliar, mas não que mulheres e bebês morrem diariamente nos hospitais vítimas de atendimentos duvidosos. Faça assim: marque PARTO como um alerta no Google. Você vai receber, sempre, em sua caixa de e-mail, notícias relacionadas. E vai ficar pasmo com a quantidade de mortes maternas ou de neonatos em hospitais.
Mas vamos à matéria que comecei citando.
Em resumo: na Rússia é proibido ter bebê em casa. Aí o pessoal que pode ($$) vai pra Dahab, um balneário egípcio. Quem? Geralmente quem já teve um bebê nos hospitais públicos da Rússia, ficou traumatizado com “a frieza dos funcionários, o corte do períneo (musculatura da vagina), a falta de informação, o pouco cuidado com as mulheres em trabalho de parto”. Qualquer semelhança não é mera coincidência, não...Mesmo sendo proibido lá, um "guru" russo de 74 anos (a revista chama de guru, mas ele é um PARTEIRO) chamado Igor Charkovsky incentiva o parto domiciliar desde os anos 70, aos quais ele costuma dar assistência, principalmente nas águas frias dos oceanos, ao lado de golfinhos. Uau! Da proibição ao parto com golfinhos... E o povo aqui, onde não é proibido (embora exista um tanto de gente que gostaria que fosse) e onde os partos domiciliares são feitos dentro de quatro paredes, surtando com quem optou por essa forma linda de dar à luz.
O "guru" (parteiro) diz que “os partos na água ajudam os bebês a se tornarem fortes” e também afirma que “o cordão umbilical deve permanecer preso ao bebê durante 30 horas depois do nascimento”. Viva o parteiro! Se bem que essa ideia de deixar o bebê recém saído do útero mergulhar nas águas frias do oceano do hemisfério norte me deixa meio apavorada, mas cada um com seu pensamento...
E olha esse trecho:
A maior parte dos casais russos em Dahab partilham de ideias que incentivam, além do parto natural em casa, a amamentação prolongada, a alimentação natural e a educação alternativa. Preservar a placenta também está no rol dessas práticas. Foi o que Katya fez após o parto de Paulina na água. “Ela começou a chorar de frio e entramos em casa. Nós mantivemos o cordão umbilical preso em seu corpo, a colocamos para dormir e ajeitamos a placenta em uma travessa (depois a colocaram no freezer), com um pouco de sal.” Katya, e muito de seus amigos adeptos dessa prática, acreditam no poder da placenta: “É igual a um segundo cérebro”, disse um dos pais russos que a reportagem encontrou em Dahab. “É uma maneira de dar à criança energia cósmica”, disse outro.
Na Marie Claire... Quem diria.
Aquela revista que publica artigos de colunista ridicularizando a amamentação em público e que, sobre parto, limita-se a falar sobre como recuperar rapidamente seu peso de antes, pra ficar meio Gisele Bundchen.
Adeus Lênin! O mundo tá mudado. Viva a Rússia!
Não, menos, menos... Viva a emergente globalização de práticas que visam respeitar a ecologia do parto e nascimento! Viva!
Bem, a minha placenta foi parar na lata do lixo depois do parto, sem ninguém me perguntar se eu gostaria de vê-la ou algo assim. E eu gostaria muito de tê-la visto, em agradecimento simbólico pelo que fez por minha filha. Sabe... passei muitos e muitos dias conversando com ela, sozinha, em pensamento, pedindo para que ela fosse forte e me permitisse ser mãe da Clara, que eu nem sabia ainda que seria a Clara. Tive muitos descolamentos no início, que colocaram minha gravidez em risco, e foi só porque ela foi firme e poderosa que hoje tenho uma linda ali dormindo, enquanto eu escrevo aqui. Viva a placenta e seu poder! Ah, você acha bizarro esse negócio de achar a placenta poderosa? Então também deve achar bizarro esse lance de parto domiciliar, né? Sei. Fale mais sobre como esses assuntos te desestruturam. É bem nessas horas que a gente se lembra daquelas imagens do Willy Wonka que andam rolando pela internet. Adoro! Até produzi o meu próprio, veja.
A matéria ainda conta que lá na Rússia algumas famílias plantam as placentas que ajudaram no desenvolvimento de seus bebês embaixo de um carvalho, se for menino, ou de um salgueiro, se for menina. E que, segundo suas tradições, é para esse lugar que a criança ou o adulto retornarão quando se sentirem cansados. Aqui no Brasil, muitas famílias que receberam seus filhos em partos domiciliares – e eu tenho a alegria de conviver com muitos – as enterram, plantando árvores frutíferas por cima, ou guardam para poder manipular verdadeiros elixires e panaceias. Hoje, os bebês de outrora, já meninos e meninas grandes, brincam junto às goiabeiras e jabuticabeiras que cresceram como eles, nutridos por uma placenta. Sim, eu acho lindo isso. É, eu sei, sou super estranha. Sou desse tipo de mulher que acredita em intuição, em criação com afeto, que amamenta, que acredita que violência de qualquer tipo contra a criança é um absurdo e que fica indignada com isso, desse tipo que andava meio em extinção – mas que agora está aumentando de número. Acho que estamos nos reproduzindo em cativeiro.
Ao final, a matéria descreve práticas e exercícios que são feitos, com o bebê, pelas famílias que optam pela “pequena indústria do parto na água em Dahab” (é assim que a revista se refere ao local), submergindo-o na água, sacudindo pra baixo e pra cima várias vezes. Bom, a mim isso parece bem estranho, e eu não teria coragem de fazer com minha filha. Mas tenho plena consciência de que só é estranho porque não estou inserida nessa cultura e não a conheço em profundidade. É mais ou menos isso o que acontece com quem acha que parto domiciliar também é estranho: falta conhecimento em profundidade sobre o assunto.Mas olha, estranho, estranho mesmo, é a Marie Claire fazer uma matéria sobre o assunto.
Estranhérrimo.
Tudo bem que é num tom de “Globo Rural: conheça os hábitos exóticos desta espécie desconhecida de mamíferos” ou de revista de viagem “Compre já seu pacote de parto em Dahab, pague em 12 vezes e ganhe a passagem da sua doula”. Mas ainda assim é estranho.
Sei lá, acho que é porque parto na água tá pop e muita gente tá ficando pop por causa disso.
Será que em breve teremos anúncios de turismo internacional de parto na água nas páginas das revistas da Editora Globo?
Você duvida?
Eu não.
*As fotos eu peguei todas da matéria.
**E o link pra ela é esse. Mas eu juro que estou sendo fiel ao que está lá, não precisa nem ir conferir. Sabe como é... Ibope é ouro ($$).
Olá, muito interessante o seu post. Realmente o parto domiciliar ainda e visto como estranho, mas acredito na mudança de pensamento. O meu parto foi em casa e eu só contei a todos depois que minha filha nasceu... a primeira reação das pessoas foi espanto, mas depois que contei como tudo aconteceu, muitos enxergaram os benefícios dessa opção. Abraços, Priscila.
ResponderExcluirAh não creio nisso, é uma tremenda palhaçada com o mundo materno mesmo, até quando vão brincar com a nossa cara, fala serio!
ResponderExcluirbeijos, adorei a matéria.
Muito interessante sua reflexão. (E divertida).
ResponderExcluirDesde que minha amiga Gi (piada interna) pariu em casa na banheira, como eu, descobri que era uma pessoa na crista da onda da moda. Pela primeira vez sinto idenficação até com Marie Claire (uia, acho que vou colocar o nome da revista na filhota da barriga, que também deve nascer em casa). rs
Falando sério, nem sei direito o que pensar, se fico triste ou feliz.
Sabe que uma vizinha fez esse comentário ao responder à estranheza do porteiro ao saber que eu estava lá no segundo andar, parindo dentro do apartamento: "que nada, tá na última moda ter filho em casa", rs... Mas, sabe que tenho medo dessa coisa de moda, acho que deveria ser o avesso de tudo isso, né, ser natural a situação, mas não ser feito apenas por ser moda... envolvem tantas coisas, né?
ResponderExcluirEstou avistando essa tendência... vou prestrar pra Obstetrícia esse ano... e por eqt a relação candidato vaga é baixa.... tô sentindo que esse número não vai durar muito, e vai haver um salto de candidatos que querem entrar pra ganhar dinheiro com o parto que está na moda... e fico muito triste. Sim, quanto mais candidatos, menor o risco de fecharem o curso, mas poxa, não foi com esse intuito que ele foi reaberto né! Temo muito o futuro do parto humanizado no Brasil... a moda desvirtua e acaba com a conscientização, que a acaba com o conceito da humanização, que acaba com o sentido do próprio parto! Imagina, virando moda, quantos partos serão feitos de qualquer jeito?!!? Penso no número de ocorrências desagradáveis por causa de mães e parteiros despreparados, e consequentemente, sofrimento durante esse momento. Daí até a proibição do parto domiciliar e da profissão de Obstetriz é um pulo!
ResponderExcluirNão sei se eu sou fatalista demais, mas temo muitoooooooo. E farei oq for preciso pra que isso não aconteça!!!
Grande Beijo....