segunda-feira, 18 de junho de 2012

A força do exemplo - Para Clara, sobre a Marcha do Parto em Casa

Minha querida filha Clara,
Isso foi escrito na madrugada de 17 para 18 de junho, quando a mamãe deveria estar escrevendo o capítulo de um livro. Mas parei tudo essa semana - hoje, inclusive - para ajudar em uma grande tarefa e fazer parte desse momento, que é histórico.
E quero te contar uma linda história. Que começou há bastante tempo, com uma semente sendo plantada no meu coração, e que continua a florescer.
Um dia, há muitos anos atrás, quando eu ainda era uma criança bem pequena, acordei e encontrei minha mãe, sua avó, no quintal, entre sacos e sacolas cheios de roupas, brinquedos, remédios, cobertores. Não entendi muito bem e perguntei o que era. Ela me respondeu que eram coisas pro pessoal do Rio de Janeiro que havia perdido tudo na enchente - uma enchente terrível que assolou a cidade carioca, deixando centenas de desabrigados e mais um tanto de gente sem ter nem o que vestir. Lembro-me, diante da minha inocência sobre o mundo, que pensei: "Como ela vai levar tudo isso?". Nos dias seguintes, os sacos e sacolas, que haviam sido empilhados em três ou quatro andares, já haviam tomado parte da sala e de um dos quartos. Era muita coisa. Tinha pilha de coisas quase até o teto! E cada vez chegava mais. Carros de pessoas que eu nunca tinha visto estacionavam na porta de casa e descarregavam. Gente que eu não conhecia entrava em casa para ajudá-la a separar tudo por categorias.
Lembro-me de observar aquilo com espanto e estranhamento e pensava: "Como é que ela vai levar tudo isso, meu Deus?". Em minha inocência, era só esse o problema que até então eu enxergava, o da logística do transporte. Até que uma noite, assistindo ao jornal que noticiava a tragédia no Rio, vi uma menininha agarrada numa boneca de plástico sem roupinha (a boneca, não ela), chorando, junto com sua mãe, porque ela não tinha mais casa, nem roupas, nem documentos, a enchente havia levado tudo. E então eu percebi o que a vovó estava fazendo: ela estava ajudando aquelas pessoas, ela estava ligada àquelas pessoas, que ela nem conhecia. Estava destinando tempo dela, do trabalho diário dela, esforço, horas de dedicação, pra fazer a diferença. Ela conseguiu um caminhão que levou todos os donativos para o Rio. E aquelas cenas nunca mais saíram da minha cabeça... Foi quando a mamãe despertou para uma coisa chamada comprometimento social, para o fato de, se somos parte de uma sociedade que vive em coletividade, em comunidade, temos responsabilidade também por ela, temos o dever de contribuir da maneira como podemos. A tristeza de um não é a tristeza de um, ela é de todos. Foi vendo aqueles sacos, aquelas tantas coisas e o trabalho incansável da vovó que uma semente encontrou terreno fértil no coração da mamãe e começou a germinar. Pela força arrebatadora do exemplo.
Filha, durante essa semana muitas mulheres dedicaram seus preciosos tempos a tornar possível que uma grande manifestação nacional acontecesse no Brasil. A mamãe entre elas. Não sei ainda ao certo quantas cidades participaram, além do Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Salvador, Recife, Porto Alegre, Vitória, Curitiba, Brasília, Belém, Recife, São José dos Campos, Sorocaba, Maceió, Cacoal, Garopaba, Uberlândia, Belo Horizonte, São Carlos e Florianópolis, a cidade onde você nasceu. Mas já se contabiliza algo superior a 4.000 pessoas nas ruas. Somente em São Paulo, foram 1.500. Estimuladas por mulheres a partir daqui, de trás das telas dos computadores.
Veja esse vídeo lindo, feito por Chica SanMartin.


A razão de toda essa manifestação a mamãe já explicou no post anterior a esse. Mas pode ser resumida no seguinte: nós vivemos, filha, num país em que 25% das mulheres são muito desrespeitadas no momento em que seus filhos estão nascendo. Vivemos num país em que médicos tiram das mulheres a oportunidade de trazer seus filhos ao mundo de uma maneira natural, sem intervenções, sem cortes desnecessários, apenas com seu próprio amor, força e instinto. São mais de 80% de cesáreas, quando a Organização Mundial de Saúde recomenda somente 15%... A grande maioria dessas cirurgias não é feita porque assim decidiu a mulher. Mas porque o médico decidiu - muitos, inclusive, fornecendo motivos fictícios para amedrontar, fragilizar e convencer a mulher de que a decisão dele era a melhor, de uma forma que aquela mulher, muitas vezes, compra a decisão dele como se fosse dela, e tem a falsa sensação de que decidiu autonomamente, por si. 
Em nosso país, são poucos os médicos que ajudam as mães a receberem seus filhos de maneira, como dizemos, humanizada. Muito poucos. E são menos ainda os que apoiam que as mulheres tenham seus filhos em casa, ainda que tantas evidências científicas hoje já estejam disponíveis mostrando a segurança do parto domiciliar. Os conselhos de medicina, minha filha, que são instituições que dizem o que os médicos podem ou não fazer, preferem omitir esses dados científicos e desviar o foco de atenção para uma moça lá da Austrália que morreu em seu parto em casa. Enquanto aqui em nosso país, mulheres continuam a ser violentadas pelos médicos desses mesmos conselhos... Sim, é muito contraditório. Sim, chega a ser ridículo. Como é que alguém tem coragem de colocar sua cara na televisão e dizer que um médico que defende as mulheres e seus direitos está agindo de maneira anti-ética?! Quando a própria medicina defende o conceito de PRIMUM NON NOCERE, que significa "antes de tudo, não fazer o mal" ou, ainda, de maneira bem popular, "bem ajuda quem não atrapalha"... E mesmo sendo muito poucos os médicos que apoiam as mulheres, quando um deles se manifesta a favor desse apoio, ele é coagido, ameaçado e confrontado por seu Conselho. O mesmo Conselho que deveria ampará-lo em sua missão nobre de apoiar outros seres humanos.
Então entre ontem e hoje (16 e 17 de junho), milhares de pessoas foram às ruas para mostrar que as pessoas não precisam de Conselhos que regulamentem suas vidas. Para mostrar que as mulheres precisam ter seus direitos reprodutivos respeitados. Para mostrar que estamos fartas de tanto desrespeito, de tanta humilhação, de tanta opressão, coação e desdém, e descaso. Para mostrar que o parto é da mulher, que a escolha é da mulher, que é a mulher que tem que ser ouvida, não o médico. Para defender os médicos que nos defendem. E, principalmente, para defender o direito de escolha de toda mulher. Inclusive das que querem ter seus bebês em casa.
Filha, nós estamos atrasados. Na Inglaterra, as pessoas saíram às ruas por motivos semelhantes há 30 anos atrás - pouco antes da história que a mamãe contou no começo do texto. No Canadá, há quase 20 anos. Mas antes tarde do que mais tarde.
Clara, minha filha. A mamãe quer contar que essas milhares de pessoas saíram às ruas. Nós entre elas!
Eu, você e seu pai estávamos lá! Você esteve com seu pai, ora no sling, ora de cavalinho, enquanto a mamãe ia à frente segurando uma imensa faixa onde se lia MARCHA DO PARTO EM CASA, junto com mulheres dessas com as quais temos a alegria de conviver: mulheres determinadas, que desafiam o sistema, que não engolem o sapo alheio que não lhes pertence. Parteiras, doulas, mães, pesquisadoras: todas, segurando a mesma faixa, à frente de 150 pessoas que caminhavam em prol do respeito aos direitos reprodutivos da mulher. 150 pessoas, minha filha - de acordo com o que tio Jacques e a dinda Bebé contaram, além da contagem feita por outras pessoas!

Clara, você estava lá com a gente, filha! Você participou desse momento histórico em que milhares de pessoas, cansadas da hegemonia médica opressora, foram às ruas mostrando que não são idiotas. Que idiota é quem tenta subjugar um grupo. Você vestiu, inclusive, a camiseta que nossas parteiras te deram, e o papai escreveu um QUAAAASE antes do "Nasci em casa".
Foi um dos momentos mais emocionantes que a mamãe viveu até agora.
Mas a emoção não parou por aí.
Na maioria das cidades, a marcha aconteceu mesmo no dia 17, domingo - em Floripa nós antecipamos em função da previsão de mau tempo.
As pessoas iam postando fotos das marchas em diferentes locais do país e a emoção ia aumentando. São Paulo: 1.500 pessoas! Dr. Michel Odent, aquele velhinho bacana com quem já tivemos a alegria de conviver durante um final de semana e que já te deu um colinho, esteve na marcha no Rio. Dr. Jorge Kuhn, o grande médico que defendemos, esteve na marcha em São Paulo. Dr. Ric Jones, em Porto Alegre. Dra. Roxana Knobel, aqui com a gente. As ativistas com quem a mamãe vive conversarndo pelo computador também, estiveram em todas. Bonitas, fortes, corajosas, determinadas. 
Foi algo que supera qualquer adjetivo que a mamãe possa dar agora.

(Marcha do Parto em Casa - Florianópolis)

Por que estou te escrevendo isso, minha filha?
Por três motivos.
Primeiro, para que você saiba que isso faz parte da sua história. Que junto com suas fotos caseiras, cotidianas, estarão em seu álbum também essas lindas fotos, que vão abaixo desse texto, em forma de apresentação. Segundo, porque isso faz parte do seu futuro. É para que sua geração também possa desfrutar de liberdade e respeito que estamos fazendo isso. E, terceiro, e mais importante: para plantar em seu coração, como a vovó fez comigo, a semente do comprometimento social e do ativismo, do envolvimento com questões que envolvem a coletividade. Para te ajudar a se tornar uma pessoa problematizadora, questionadora e lutadora. Pela força do exemplo. Que vem de dentro da sua casa. 

Às milhares de pessoas que estiveram nas ruas: a minha admiração, gratidão, emoção.
Às ativistas que tornaram isso possível, incansavelmente, com garra, força e determinação, principalmente a Gisele Leal, Ana Cristina Duarte, Ingrid Lotfi, Flavia Penido, Jamila Maia, Inês Baylão Morais Monson, Roselene de Araújo, Zilda Pavao, Melania Amorim, Raphaela Rezende, Kalu Brum, Raquel Loureiro, Debora Regina Magalhães Diniz, Daniela Leal, Maria José Goulart, Chenia d´Anunciação, Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo, Ana Paula Gomes Nardi, Fernanda Andrade Café, Maíra Libertad, Sylvana Karla, Rosário Bezerra, Deborah Trevizan, Isabele Assemen, Roberta Calábria e tantas outras mulheres que compuseram a DIRETORIA DA MARCHA: o meu agradecimento por terem tornado tudo isso possível. Que grandes companheiras! 

Continuamos em busca do que começamos a buscar de maneira incisiva com a marcha: o respeito à liberdade de escolha, o debate fundamentado cientificamente sobre o local de parto, o reconhecimento do parto domiciliar e a defesa dos médicos que defendem essa causa.
Abaixo, uma apresentação com algumas fotos da Marcha de Florianópolis.


View more presentations from ligiamsena.

Algumas das lindas fotos das Marchas pelo Brasil.


































E estamos só começando.
Esse foi o primeiro passo.


8 comentários:

  1. Oi. Não sou a favor da cesária, nem do parto em casa, sou a favor da mulher escolher o que achar melhor pra si e para o seu filho.
    Achei lindo esse movimento em todo o Brasil, ele deveria ser mais comum!
    Bjos e o texto está lindo!
    Gisele
    www.kidsindoors.com

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  2. Ligia, este é que deveria ter sido o post para o concurso do melhor post do mundo.

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  3. Concordoooo! Ainda dá tempo de mandar. Mas não dá pra inserir fotos no site do concurso, o post perderia muito.
    Mas pra mim é um dos melhores do mundo, pronto.
    :)))

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  4. Ai, ai... suspiros... que coisa linda! Estive na marcha em Brasília e, apesar do sol escaldante, minha vontade era ficar lá pra sempre. "No hospital eu sou mãezinha, na minha casa eu sou rainha!"

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  5. Que emoção, olha eu ali no 1º vídeo!!! Aos 27s do lado esquerdo, segurando a câmera! (Só pra efeito de informação caso vc tenha curiosidade de saber como é minha carinha "em movimento" haha)

    Cara, 1ª vez que eu participo de algo do tipo e olha... foi emocionante demais!!! Nem tenho palavras pra dizer o quanto fiquei feliz em participar... muitas cenas lindas que mal consegui registrar, momentos únicos. Mulheres lindas e fortes, famílias encantadoras! Estávamos todos lá pelo direito de exercer o natural... Foi muito amor. Até o policial que acompanhava ficou contagiado! hahah

    No que depender de mim, pode contar pro que der e vier!

    Estamos na luta sem parar e sem cansar!!!
    Sem dúvidas de que podemos mudar o mundo!

    Beijão da Lola!
    -----------------------------------
    Ps:. Ai meu Deus vc almoçou com o Odent!!! AHHHHHHHHHH meu sonho de consumo "acadêmico" no momento é esse!!!! Que tudoooooo!!!

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  6. Lolaaaaa! Sua queridona!
    Nem acreditei que te vi na filmagem, cara! Fiquei indo e voltando pro segundo 27 só pra te ver em 3D, hahahahahahaha
    Querida, vc sabe como te considero especial. Como é bom ter contato contigo.
    E que bom que voltou ao mundo virtual, estava sentindo sua falta.

    E... SIM! Almoçamos com Odent quando ele esteve aqui para um workshop que organizamos. Clara ainda ia fazer 1 ano. Vou linkar lá na parte onde conto, mas já coloco aqui também.
    http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2011/07/um-fim-de-semana-com-michel-odent.html

    E quando é que vc vem pra Floripa pra gente, finalmente, se abraçar?

    Grande beijo, minha querida!

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  7. Ahhhhhhhhhh Ligia, fala sério! Até deu tempo de sentir falta?! Agora eu que não acredito!!! rsrs

    Linda! Tive que voltar mesmo, e a Marcha deu o start nessa minha volta... não tinha mais como ficar só na retaguarda... quero ser mais ativa mesmo, no sentido literal da palavra... E como é bom estar em contato com vc novamente!Com certeza!!!


    Nossa, como queria ter participado desse evento!!!! Não só pela presença dele mas também pela experiência... acho que inesquecível deve ser pouco! Ainda mais quando tudo é organizado com a nossa dedicação.. tem todo um gostinho especial né! Parabéns, vc é foda! haha

    Ah menina, acho que não demora muito para nos vermos viu! Acho que em 2013 estou desembarcando aí pra botarmos os abraços devidos em dia! E de preferência com barrigão! hahah

    Beijõess....

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  8. Lindo este texto. Fiquei emocionada com a leitura.

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