quarta-feira, 13 de junho de 2012

Quando os sonhos não se realizam

Este post é candidato ao concurso "O melhor post do mundo da Limetree".

Aos 8 anos, eu sonhava em ter cabelos muito longos e unhas bem compridas. Mas tinha cabelos curtos e unhas roídas, que diminuíam de tamanho ao invés de crescerem...
Aos 12 anos, eu sonhava em namorar um menino que estudava comigo. Ele era bacana, educado e jogava um belo futebol de salão. Mas nós éramos muito amigos e isso estragou tudo. E, pra piorar, ele se apaixonou por uma amiga da mesma turma...
Aos 14, eu sonhava em ter uma família unida e feliz, com pai e mãe morando juntos, passeando de mãos dadas, de pijamas brancos no café da manhã e sorrisos sendo distribuídos enquanto se passava margarina no pão. Mas meus pais se separaram...
Aos 16, sonhava em ser uma grande jogadora de vôlei. Treinava todos os dias, submeti-me aos testes dos melhores clubes paulistas, fui aprovada em todos. Mas parei de crescer enquanto as demais meninas só espichavam...
Aos 17, sonhava em ser aprovada no vestibular de uma grande universidade paulista para estudar as doenças que ainda não tinham cura. Mas fiquei em 32º lugar, quando só havia 28 vagas...
Aos 22, terminei um mestrado e, ao invés de seguir meu sonho e continuar a carreira acadêmica, desisti...
Aos 27, investi num relacionamento e mudei de cidade para, finalmente, fazer o doutorado. Quatro anos depois, o relacionamento afundou, terminei o doutorado, mas não atuei na área...
Então, aos 31 anos, fiquei grávida e passei muitos meses sonhando com um lindo parto domiciliar, na piscina montada na sala de casa. Mas, aos 32, minha filha nasceu no hospital, por cesárea...

Meus sonhos, aqueles grandes, não se realizaram. E hoje eu poderia me entristecer por isso.
Mas me alegro. Porque sonhos... são só sonhos.
São aquelas coisas que fazemos enquanto a vida está rolando. Vida como ela é, ou como nós a tornamos, com as ferramentas de que dispomos, com os aprendizados de outrora. Com força de vontade, obstinação e, acima de tudo, coragem.

Então, aos 8 anos, de cabelos curtinhos e unhas roídas,  ganhei a melhor bicicleta do mundo e aprendi, sozinha, a andar. Mudamos de casa e fiz novos amiguinhos, que, pouco tempo depois, me elegeram presidente da rua. Ajudei a arrecadar alimentos para vizinhos carentes e vi, orgulhosíssima, minha mãe organizar uma campanha para ajudar as vítimas da enchente carioca.
Com 12 anos, aprendi o valor da amizade entre um menino e uma menina que, mais tarde, transformou-se no valor da amizade sincera entre um homem e uma mulher, permitindo que meus melhores amigos fossem homens. Já com cabelos compridos, enquanto o garoto que eu gostava se apaixonava por nossa amiga, vivi a satisfação de ser sempre a primeira escolhida nos times de todas as modalidades esportivas.
Aos 14, enquanto meus pais se separavam, aprendi que sucesso não depende do quanto se tem no banco, mas do que é feito com o que se tem. Aprendi a lutar pelo que eu queria, a abrir mão de muitas coisas, aprendi que as pessoas não valem por suas aparências ou pela roupa que vestem, mas pelo que trazem dentro de si. Aprendi que família não precisa ser composta de pai, mãe e filhinhos morando na mesma casa. Mas de pessoas que se amam, se importam umas com as outras e que permanecem juntas nas madrugadas enquanto damos o último adeus a alguém que amamos muito e que se foi. Aprendi que margarina engorda, que pijamas brancos nem ficam tão bem assim e que comercial de margarina, no fim das contas, é piegas. Que bom mesmo é acordar e encontrar a mulherada da família batendo papo na sala, enquanto seguramos nossas canecas de metal esmaltado cheias de café quentinho feito pela mãe.
Aos 16, quando parei de crescer e não pude levar adiante o sonho de ser jogadora, comecei a escrever contos... E foi quando escrevi meu primeiro (e único) livro, que guardo até hoje – escondido.
Aos 17, depois que sequei as lágrimas por ter ficado em 32º lugar no tal vestibular, descobri que havia sido aprovada em primeiro lugar em uma das melhores universidades brasileiras. Mudei de cidade, passei a morar sozinha, conheci um mundo novo e, ali, começou minha vida como (quase) adulta. Aprendi a organizar minha vida, a fazer compras no supermercado, a economizar dinheiro pra viajar, a me manter acordada nas aulas após 8 horas de balada, aprendi que bebida destilada acaba com o fígado, que amigos de verdade podem ser muito diferentes de você e que família perto faz uma falta danada...
Aos 22, pouco antes de deixar a pós-graduação, conheci pessoas incríveis, comecei a trabalhar com educação, devorei os livros do Paulo Freire, aluguei sozinha um apartamento, viajei com amigas pedindo carona por aí, explorei cavernas, senti a adrenalina de tantos rapéis e fiz minhas primeiras tatuagens. Mudei pra Fernando de Noronha, onde coordenei um belo projeto de educação ambiental, conheci outra realidade brasileira, pessoas bacanas e mergulhei com tubarões.
Aos 27 mudei pra Florianópolis e comecei meu primeiro doutorado. Publiquei artigos, ganhei prêmios e menções honrosas. Com o fim do relacionamento, aprendi o real valor de morar sozinha e fui muito feliz assim. Mobiliei um apartamento do jeito que eu queria, financiei meu segundo carro, fiz amigos muito bacanas e, por meio deles, conheci meu companheiro, que é absolutamente diferente de tudo o que eu conhecia até então. Defendi minha tese tendo ele à minha frente, olhando pra mim com cara de orgulhoso. E naquele dia, engravidei.
Então, aos 31 anos, grávida, vi meu mundo mudar completamente.
Aprendi centenas de coisas, desaprendi umas tantas, conheci a profundidade dos conceitos envolvidos em um parto humanizado e me preparei para um parto domiciliar. Entrei em trabalho de parto 2 dias depois do meu aniversário, me entreguei de corpo e alma a essa experiência durante 29 horas, 25 das quais passei em casa com pessoas me apoiando e incentivando. Minha linda filha nasceu às 19:50 do dia 30 de julho de 2010, 29 horas após o início das contrações, de uma cesárea feita com respeito, para a qual eu não havia me preparado e que me transformou para sempre. Por conta dessa experiência, aprendi a importância de se respeitar o tempo do filho e a valorizar o parto natural.
Com o nascimento dela, de cientista tornei-me mãe, transformei meu blog em um blog materno e transformei a mim mesma. Reaproximei-me da minha mãe, ressignifiquei minha vida e meu passado, conheci uma forma imbatível de amor.
E é somente por isso que, hoje, consigo visitar a mim mesma em momentos passados e ver, em cada um deles, um copo meio cheio no lugar de um meio vazio.

Tenho 33 anos, quase 34, uma filha de quase 2 e sou casada com um cara bacana que divide comigo todos os cuidados com ela. Sou doutora, estou fazendo um segundo doutorado, desenvolvo uma pesquisa que envolve ouvir mulheres que foram desrespeitadas enquanto nasciam seus filhos. Meu pai mora perto de mim e minha mãe longe, mas é pra ela que ligo quando bate a angústia e a saudade sem fim. Tenho irmãs parceiras e um sobrinho incrível, que nasceu 30 dias depois da minha filha.
Sou bióloga, mãe, filha, irmã, companheira, cientista, de unhas vermelhas, querendo perder uns quilinhos, com 6 tatuagens, um joelho estragado e blogueira.
E aprendi que a vida não se faz de sonhos. Mas do que você fez quando esses sonhos não se realizaram.
E não sei se esse será o melhor post do mundo.
Mas pra mim... é.

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9 comentários:

  1. Simplesmente amei o texto!!!! E me senti acolhida e protegida por ele, por saber que não estou sozinha e que todas as pessoas passam por momentos assim, mas o importante é o que se vÊ quando olhamos para trás... Obrigada Lígia pelo privilégio de ler algo assim! To me sentindo tão bem que nem tenho palavras para descrever... Pra mim, esse é o melhor post do mundo!!!

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  2. Lindo o texto, com certeza tem condições de ser o melhor post. Me senti tocada profundamente com suas palavras.
    Ps: Adoro o seu blog e o meu voto é seu!
    Bjk

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  3. Querida, fantástico seu texto!!! Também estou participando do concurso com o relato do meu parto, que com certeza não é o melhor do mundo, mas foi o melhor momento que vivi na vida... E se é o melhor para nós já está valendo não é mesmo?
    Parabéns!!! Linda sua história!
    beijos
    www.jeitinhos.blogspot.com

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  4. Parabéns, estou muito emocionada com seu texto. Espero que ganhe. Bjs

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  5. Ligia, querida, meu voto é seu.
    me identifiquei muito, e sim vamos em frente que o copo está quase cheio! bj
    Andressa Gagliardi

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  6. Parei tudo pra ler seu post, Ligia.
    e, puxa, vc sabe emocionar pessoas... :) uma bela história, tão de verdade e o mais legal é o que vc faz dela. Um beijo. ´Somos todos sortudos :)

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  7. Muito legal esse texto. Um dia desses eu estava pensando que às vezes eu tenho a impressão que paro tudo no meio, nunca vou até o fim... mas me parece que essa é uma forma equivocada de ver a minha liberdade de ir moldando o caminho, mudando e dançando conforme a música...

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