quarta-feira, 15 de agosto de 2012

10 dicas (aterrorizantes) para escolher a maternidade

Um portal de notícias conhecido publicou recentemente uma matéria com 10 dicas para escolher a melhor maternidade para dar à luz.
Ao começar a leitura da matéria eu tinha a esperança (juro!) de ler entre as 10 sugestões, de preferência entre  as primeiras, coisas bastante relevantes, como:

1 - verifique as taxas de cesárea da instituição de saúde e não aceite justificativas de qualquer tipo para taxas elevadas
2 - certifique-se de que valorizam o parto humanizado e o protagonismo da parturiente
3 - certifique-se de que, caso você assim desejar, permitam a entrada da doula
4 - entre outras coisas tão importantes quanto e que andam sendo tão discutidas, tão valorizadas nos dias atuais, marcados por marchas, movimentos e pelo avanço do "movimento da contracultura" do parto (ouvi essa esses dias e me senti super hippie, comecei a cantar Aquarius na hora), que valoriza o protagonismo feminino, o respeito ao parto e nascimento e tudo mais que temos discutido tanto nas ruas, nas mídias sociais, na grande mídia.

Ok. Confesso que tenho tendência ao alto grau de esperança no mundo e às vezes jogo o "Jogo do Contente".
Tudo bem, eu sei que,  considerando que as dicas foram dadas pela diretora administrativa da Febrasgo (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), Vera Fonseca, que é contra o parto domiciliar e anda por aí apavorando mulheres, não seria uma missão tão fácil. Mas a instituição da qual ela faz parte se posicionou CONTRA as resoluções do Cremerj, afirmando, na voz de seu presidente, Etelvino Trindade, que a mulher não só tem o direito de escolher onde e com quem deseja dar à luz como também que o parto domiciliar em gestações de baixo risco é seguro, que deve ser um direito assegurado às mães, se assim desejarem, e que os médicos devem ter o direito de atenderem esses partos, se assim também quiserem. 
Então, pensa bem, não era assim tão utópico esperar que coisas realmente importantes estivessem no topo da lista porque, afinal, conta-se com o bom senso das pessoas.
Mas realmente não foi nada disso... o que mostra claramente que aqueles que se apresentam como "os mais entendidos da área" podem mais prejudicar que auxiliar, na dependência da postura que adotam.
Veja agora quais foram as 10 dicas:

1 - Ouvir a opinião do obstetra
Por favor, música de "Psicose", o filme, para esse tópico.
TÃ TÃ TÃ TÃ.
Medo.
Por que medo?
Porque se o obstetra for da turma do bisturi, do sorinho, da episiotomia, da aceleração do trabalho de parto, da circular de cordão como malfeitor do bebê e todas aquelas coisas que já sabemos, a escolha da maternidade será, com certeza, feita em função de permitir suas práticas abusivas e não favorecer e incentivar práticas respeitosas e humanizadas. Entra aí, portanto, a importância imensa de bem escolher o obstetra, muito ANTES de se pensar na maternidade, a fim de fugir do obsTREta cheio de "o bebê é grande", "tá passando da hora", "tem circular de cordão".

2 - Avaliar se a maternidade tem plantonista obstétrico
A justificativa para essa dica é baseada, unicamente, no discurso do risco: "Se a grávida tiver alguma complicação, o ideal é que exista um obstetra no hospital pronto para atendê-la". Depois desse tópico, esse negócio de dar à luz está me parecendo muito perigoso...
Acho que não vou tentar de novo.
Vai que eu morro?

3 - Conferir se há UTI adulto no local 
"Algumas complicações (...) podem levar à necessidade de tratamento em uma unidade de terapia intensiva". Não sou nenhuma ingênua e sei que existem casos de gravidez de alto risco, que necessitam cuidados especiais e uma equipe muito bem preparada. Mas é importante ressaltar que a GRANDE maioria das gestações é de baixo risco. Então, claro, é importante que uma maternidade possa oferecer segurança às parturientes. Mas não seria mais importante enfatizar os recursos dos quais dispõe de forma a tornar aquela experiência saudável, inclusive emocionalmente, ao invés de focar no risco, risco, risco, risco?
Qual o objetivo disso? Instaurar definitivamente no inconsciente feminino o risco do parto?!

4 - Não se esqueça da UTI neonatal
É um dos principais argumentos dos que são contra o parto em casa: "Se acontece alguma coisa com o bebê, não tem uma UTI por perto". Esse medo de que aconteça alguma coisa com o bebê acompanha o imaginário e o não imaginário humano desde que gente é gente.
Eu também sou a favor de se garantir a segurança do bebê. Mas não acho que isso passe exclusivamente pela presença de uma UTI neonatal. Os hospitais campeões em taxas de cesárea (muitos deles com nomes de Santos, inclusive, o que é uma ironia...) orgulham-se de suas UTIs neonatais. Mas eles precisam MESMO ter porque, afinal, o número de bebês prematuros que tiram das barrigas saudáveis de suas mães é imenso, a chance de precisarem de cuidados intensivos é mesmo grande, há que se dizer.
Não sou contra a UTI neonatal, não tenho porque ser.
Apenas acho que estamos escolhendo maternidades para mulheres em grande risco, gestantes de bebês também em grande risco, e não para mulheres saudáveis. Enquanto perdurar esse discurso, muita coisa vai continuar a acontecer. Que existam UTIs neonatais, mas que isso não seja um fator mais importante que a possibilidade de ter um acompanhante ao seu lado (sim, porque estamos na 4a. dica e não se falou nisso ainda) ou de oferecer um tratamento respeitoso e humanizado ao nascimento (coisa que nem se menciona).

5 - Saber se há banco de sangue e exames complementares
"Um banco de sangue no próprio hospital facilita no caso de a mulher ter uma hemorragia no parto".
Definitivamente... Se a mulher estiver avaliando a possibilidade de engravidar, desistiu e foi ver tv.
É possível que tenhamos uma ou duas leitoras que tiveram hemorragias no parto e que bradarão a importância do banco de sangue. Mas eu acho que já deu pra entender sobre o que estou falando, não? Sinceramente, não sei até hoje se o hospital para o qual eu fui transferida na minha tentativa de parto domiciliar tinha banco de sangue. Isso nunca esteve entre minhas prioridades de conhecimento durante a gestação. Apenas porque eu encaro a gravidez como um exemplo de vida, não de morte.
"Mas vai que...".
Mas vai que nada. Recuso-me a viver na eminência da desgraça. Mas... é uma opção e muita gente decide viver assim. Coitado desse filho.

6 - Visitar a maternidade antes do parto 
Taí. Gostei. Nem devia vir em sexto lugar, devia vir mais lá em cima, antes das dicas amedrontadoras. Visitar a maternidade é importante - se você quiser ter seu filho em uma, é claro... Veja se há alojamento conjunto, se os bebês são retirados da mãe, se há quartos para partos humanizados, se há (ui, credo...) berçários (se houver, acenda seu alarme vermelho e fuja para as montanhas), se há apenas um banheiro para 12 mães na enfermaria ou se há melhores condições que isso, se os banheiros estão limpos, se tem acompanhante com mães naquele momento. Seja crítica. Você não está buscando um hotel, está buscando o local que seu filho olhará pela primeira vez, está buscando um lugar para ser respeitada num momento especial.

7 - Verificar a qualidade da equipe.
EM SÉTIMO LUGAR?! Pôxa, Vera...
Não vou nem comentar.

8 - Constatar a segurança da maternidade
"Ainda na visita, a mulher pode prestar atenção na segurança conferida pela maternidade. Além de ter o controle das pessoas que entram e saem do edifício, o diretor técnico deve ter a responsabilidade de avaliar se as pessoas que trabalham na unidade são de confiança".
Sou de outro planeta mesmo...
Se eu suponho que meu filho não sairá do meu lado sequer um momento, e que é uma instituição que trabalha com saúde, com mulheres em trabalho de parto (que assim seja!), com famílias e crianças, deve estar implícito que houve uma seleção criteriosa dos funcionários e que não há riscos... OU NÃO?! Me diga que sim, para que eu mantenha a fé no mundo.
Se eu tivesse lido esse tópico antes da gestação, teria me tornado ativista pelo parto domiciliar antes mesmo de ser mãe. Porque, afinal, na casa da gente entra só quem a gente quer, quem a gente ama e em quem a gente confia.
Não sei... mas acho que minha fobia de hospital voltou...

9 - Listar as maternidades do convênio
"O parto e os custos de uma maternidade privada podem pesar demais na conta já alta da grávida. Para evitar surpresas, a mulher deve verificar se a maternidade pretendida consta na cobertura do seguro de saúde, incluindo serviços adicionais, como a anestesia. Quem fez o acompanhamento pré-natal pelo SUS deve procurar saber para onde será encaminhada e visitar o local antes".
Boa dica, essa. Veja, também, se o plano que você possui é compatível com o alojamento que a maternidade pretendida dispõe, porque tem essa também.
Achar que tem o alojamento que seu plano cobre, não ter, e na hora H ter que deixar o bebê como pagamento não vai ser bacana... Isso, claro, se você tiver um plano de saúde (mas parece que o texto foi escrito para quem tem, notou?).

10 - Conferir algumas opções adicionais
Ok. Xinguei, nesse ponto.
"Alguns confortos extras podem ser levados em conta, como o tamanho e a qualidade das instalações do quarto, mas a mulher deve se lembrar de priorizar outros fatores e serviços mais importantes. Um deles é a permissão da presença de um acompanhante na hora do parto, recomendada pela Organização Mundial de Saúde. 'Está mais que comprovado que o acompanhante da família ajuda o trabalho de parto', afirma Vera.
EM ÚLTIMO LUGAR VEM O ACOMPANHANTE?!
E eu não gostei da ênfase ao "da família", que fique registrado.

Como pode ser observado, não há qualquer menção à questão do hospital ser comprometido com o respeito ao parto como evento fisiológico, do incentivo à amamentação na primeira hora de vida, do bebê ficar todo o tempo junto à sua mãe sem ser afastado dela, da verificação dos procedimentos que serão feitos com o bebê, da taxa de cesárea (que já mencionei), da autorização para entrada da doula ou até mesmo se o hospital dispõe de uma (alguns já dispõem), do comprometimento da instituição com a humanização do parto.
Essas são coisas imprescindíveis que devem ser lembradas em primeiro lugar se você estiver buscando uma experiência de parto respeitado, bacana, física e emocionalmente saudável. Mas, claro, tudo tem a ver com a forma como você encara esse evento tão especial. As quatro primeiras imagens deste texto não têm absolutamente nada a ver com o que eu penso sobre o nascimento de um filho.
Pra finalizar, deixo aqui o vídeo em que o presidente da Febrasgo fala sobre a posição da instituição contra as resoluções do Cremerj. Vale a pena assistir, basta clicar na imagem.
E eu confio no mundo.
Sei que as mães não vão dar bola pra essas dicas apavorantes e terão outras prioridades.
E não se atreva a me dizer que não é assim, não...
Me deixa ter fé na vida, fé no homem, fé no que virá.



O texto da imagem de abertura é meu, em ilustração editorial de autor que não encontrei o nome.

10 comentários:

  1. adorei! To seguindo! Conhece meu cantinho tb, tem sorteio lá! Bjs
    http://tanigua.blogspot.com.br/2012/08/sorteio-lavandita-cheirinho-de-bebe.html

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  2. Sabe quem é a Vera Fonseca? A vice presidente o CRM-RJ e provavelmente uma das mentoras daquelas resoluções ridículas. Olha o que ela pensa sobre o parto domiciliar: http://www.cremerj.org.br/jornais/mostraMateria.php?idJornal=53&idMateria=857 . Além disto ela é coordenadora do Programa de Residência Médica em Ginecologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ. Fala sério!! Imagina o que ela ensina aos residentes?? Está aí a explicação para o cenário aterrorizante que é o atendimento obstétrico neste país. Médicos que acham que o parto é um evento trágico que pode levar a morte, vão tratar o parto como um evento trágico!! infelizmente, enquanto esta visão não mudar a maioria das mulheres continarão com duas opções: 1. Um parto violento ou 2. Uma cesária desnecessária. E uma minoria vai ter acesso a um parto respeitoso.

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    1. Dá um romance: "As sandices de Vera e Márcia Rosa".
      Sim.... imagino o que ela ensina aos residentes...
      Excelente comentário!
      Triste.

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    2. Daria um filme de terror, rsrs . Ligia, vc sabia que está acontecendo em Brasilia a CPI da violencia contra a mulher? Segue link: http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=101261 . Será que o problema da violêcia obstetrica sera abordado com a devida atenção? Vc tem algum conhecimento sobre esta CPI? Acompanho seu blog e estou gostando muito dos temas abordados, parabéns!!

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  3. Ri muito (pra não chorar) com este texto. É impressionante a cultura do medo que tudo permeia hoje em dia... aliás, basta ligar a TV ou ler o jornal para ver que tudo ali está feito para deixar o cidadão com medo, e dar graças a Deus que aquela tragédia toda não foi com ele. E quando é, "podia ser pior", e se conforma... Quem tem medo não ousa, se fecha, aceita qualquer promessa de "segurança". E isso, obviamente, aparece no nascimento, em que, sim, tudo é risco!! Viver é risco!! Assim como sair de carro, atravessar a rua, qualquer coisa... tudo depende de como encaramos, se apostamos na vida ou no medo a viver.
    Quanto à medica em questão, não esqueçamos que a medicina se especializa em PATOLOGIAS. Eles não conseguem ver "a pessoa" e um processo saudável, eles aprenderam na faculdade e nas residências a só ver "problemas", falhas, patologias mesmo. Então tudo tem de ser feito para tratar essas "deficiências"...
    Creio que a única mudança possível é ajudarmos a criar consciência da força interna de cada um, do poder que cada pessoa tem de ser dona de sua vida, reivindicar o que lhe pertence, inclusive o direito de VIVER SEM MEDO e PARIR SEM MEDO. Ser livre para viver com tudo o que temos direito, vida em total potencial e também as dores que fazem parte da vida, pois delas também vem nosso crescimento!

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  4. Peralá... opcional um item que deveria ser "de fábrica"? O acompanhante é garantido por LEI, ela não sabe disso?

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  5. Olá Lígia, tudo bem? Sou aquela do TDA, lembra? (kkkk)
    Lígia, vc já assistiu aquele programa do canal GNT, chamado "Boas vindas"?
    Estava assistindo outro dia e lembrei de vc (não te conheço, mas imaginei suas críticas). Bom, no Discovery Home and Health temos aqueles programas "enlatados" sobre partos, que mostram as rotinas das maternidades nos E.U.A e Inglaterra. Podemos observar q a grande maioria dos partos é normal (não chega a ser o ideal de parto humanizado, mas a 1ª opção é o parto normal mesmo), a grande maioria das mulheres tem verdadeiro pavor da possibilidade de ter que fazer uma cesária. No nosso programa brasileiro, a maternidade é alguma dessas particulares do Rio de Janeiro (uma D´or da vida), e, de 3 episódios q eu assisti, só teve 1 parto normal. Achei engraçado como ele reflete com a nossa realidade...enquanto nos programas estrangeiros mostram as mães parindo, o programa local mostra as mulheres chegando na maternidade com a cesária já marcada...ninguém questiona nada, ninguém explica porque vai fazer cesária...enfim, achei bem DESeducativo, não entendi o objetivo do programa. Não sou médica nem mãe, mas pretendo engravidar em breve...e aprendi muito com vc, e tb em outros blogs, q devemos nos informar, ler, aprender e procurar o melhor pra nós (e pro bebê, claro). Sabe o q tenho notado por aí? Que as pessoas têm preguiça de buscar informação...tipo, se conformam com o q o médico, a mãe, a irmã, a vizinha dizem. Às vezes não sei se eu que sou muito curiosa, ou se as pessoas que são muito acomodadas... é isso...acho q o “Boas Vindas” daria um belíssimo post no seu blog!! beijos

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  6. Cheguei a um ponto em que preferiria uma maternidade sem UTI Neo, porque as que têm gostam de mandar todos os bebês pra lá...

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  7. nao concordo nem discordo totalmente. Embora eu tenha um milhao de amigas parindo, tendo filho nos ultimos anos, uma dessas minhas amigas, uma querida amiga, que teve um pre-natal lindo e maravilhoso, sofreu ruptura de utero com 37 semanas e nao morreu por sorte. Mas nao foi por sorte que ela se dirigiu, quando comecou a doer e sangrar, para uma maternidade que tinha UTI neonatal e UTI para a mae. Se nao tivesse UTI, ela teria morrido. Se nao tivesse UTI neo, onde ficaria o bebe, se nao há berçario?
    uma amiga. uma amiga num universo de (talvez) uma centena de amigas parindo. Eu nao queria perder nem uma amiga. Nenhuma.
    Em tempo: ela teve problemas de bexiga, infeccoes recorrentes e perdeu o utero. Mas nao a vida. Nem o filho.

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