terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Criação com apego: nos faz crescer. E nos cura.

O texto e o vídeo a seguir são, sobretudo, para filhos. Esses que um dia também podem virar pais, como nós.
Abra sua mente. Leia a mensagem abaixo, que é a tradução do que está no vídeo, aumente o volume e o assista. Não pense como mãe ou como pai. Pense como filho, com todas as experiências que você viveu como tal. É profundo e verdadeiro.
A partir do momento em que chegamos ao mundo e desde os noves meses anteriores, temos uma necessidade: apego.
Mas, como bebês, não sabemos que apego pode significar outra coisa para nossos pais, dependendo de suas próprias histórias de criação.
Talvez os pais deles fossem desdenhosos...
Indisponíveis...
Avessos a emoções...
"Não chore!"
"Nesta casa não sentimos raiva"
"Não falamos sobre nossos sentimentos"
"Não seja bobo"
"Tá bom, filhinha, tá bom"
"Agora eu não tenho tempo".
Talvez fossem imprevisíveis:
Calorosos e frios,
Aceitando e rejeitando.
Talvez alguém que eles amassem fosse assustador, alguém em quem eles não podiam confiar...
E, então, aprenderam a se afastar da pessoa de quem mais precisavam.
Aprenderam a fechar seu próprio coração.
Mas então você nasceu...
E todo o amor que eles tinham em seus corações estava lá... pra você...
Porque te amavam com todo coração... mas também com suas histórias de infância.
Eles não eram perfeitos...
E, agora, você pensa que deve levar adiante essa mesma história... Agora como pai, para seu próprio filho.
"Eu não queria ter dito isso"
"Sinto que estou estragando tudo"
"Eu não quero que meu filho se sinta afastado"
"Eu me sinto tão falho..."
"Não desejo toda essa culpa"
"Sinto que não mereço ser sua mãe"
Conheça sua própria história.
Você não precisa ser perfeito.
São justamente nossas conexões, desconexões e religações que ajudarão a criar resiliência em nossos filhos e curarão nossos próprios corações.
É assim que você dará sentido à sua própria história...
Não é o que aconteceu no seu passado que será o melhor para seu filho.
A criação com apego não é um estilo.
Não é uma forma de cuidado parental.
Não é uma fórmula, nem uma garantia.
É a biologia do amor, um conceito mental, o coração do relacionamento.
É a bússola que nos diz quando estamos perdidos...
E que nos traz de volta para casa.
Mesmo muito tempo depois de nossos pais terem nos deixado ir.
A criação com apego nos faz crescer.
E nos cura.

Apego.
Uma palavra. Dois significados.
Muito se tem falado ultimamente sobre desapegar-se. Desapegar-se no sentido de não se agarrar a bens materiais, a condições de vida, a pessoas - com a conotação de "não se apegue, deixe-o ir" -, a objetos, a ideais, a emoções e padrões de comportamento. Visto por esse prisma, o desapego é uma coisa boa, é algo a se conquistar. Evita sofrimentos, evita falsas ideias de segurança, evita a paralisação, estimula o crescimento e nos faz ponderar melhor sobre as coisas.
Mas apego também tem outro significado. Apego também é: sentimento de afeição, sentimento de simpatia por alguém, afeto, amizade, amor, benevolência, pergunte para os dicionários... Por esse prisma, portanto, o apego é algo muito bom, que todos nós buscamos. Quem não quer ser amado, ser tratado com afeto, com benevolência, com solicitude, com empatia?
Em um texto anterior - A criação com apego e a neurociência - falei sobre o que é o attachment parenting que, em português, tem a tradução não muito precisa de "criação com apego". Digo que não é muito precisa porque, ao utilizar uma palavra com duplo sentido, damos duplo sentido também à expressão.
É muito importante que se esclareça que a criação com apego se refere à segunda conotação mencionada aqui. É uma criação baseada na hipérbole do afeto, na entrega, no amor, na empatia, na disponibilidade, na presença, na reciprocidade, na compreensão. Não no rancor, na doutrinação, no querer ensinar alguém à força, no entendimento de que existe um superior - o adulto -, que deve ser obedecido, e um inferior - a criança, que não tem voz.
Portanto, quando dizemos "criação com apego", não estamos falando em criar crianças negativamente dependentes dos pais, despreparadas para a vida, apegadas a bens físicos, muito pelo contrário.
Estamos falando de crianças amadas com tal entrega, dedicação, presença e disponibilidade que isso as torna seguras. Quanto mais sabemos que alguém está ali para nós e, junto com ele, está também o seu amor, mais seguros nos tornamos. E segurança emocional traz coragem, firmeza nos passos pelos caminhos da vida, tranquilidade e paz interior.
Quando alguém diz que não gosta dessa ideia de criação com apego porque isso tende a criar pessoas inseguras, carentes, dependentes, não faz a menor ideia do que está falando.
Quando alguém diz que criação com apego não estimula a independência e a responsabilidade, não faz a menor ideia do que está falando. A criação com apego gera exatamente o oposto.
Inseguro se torna quem sabe que não adianta chamar pelo pai ou pela mãe que não será atendido; carente se torna quem recebe negativa ou desprezo no lugar da presença e da disponibilidade; dependente se torna quem não se sente confiante o suficiente para desprender-se. A falta de amor gera crianças introspectivas, cruéis, violentas, praticantes de bullying, preconceituosas, agressivas.
Algumas pessoas dizem, ainda, preferir criar filhos com uma certa distância emocional por saberem que a separação é inevitável, seja a curta separação da escolinha, seja a separação que a idade adulta, de uma forma ou de outra, traz. Se pensarmos assim, ninguém mais amará ninguém, ninguém mais buscará a união, a parceria, a comunhão, porque sabemos que, mais cedo ou mais tarde, todos nos separaremos.
A questão é: o que você quer fazer com o tempo de proximidade que lhe é concedido, seja na vida em geral ou como mãe ou pai? Quer criar filhos com afeto, dedicação e presença ou prefere criá-los com uma dose de afastamento para evitar o (seu) sofrimento? Optando pela última, você está, além de iludindo a si mesmo, aumentando a possibilidade daquilo que quer evitar: o sofrimento. Nós nos queixamos diariamente pela forma como as pessoas em geral estão se comportando: com individualismo, egoísmo, egocentrismo, falta de empatia ou compreensão.
Mas esquecemos que é desde a infância que isso está sendo estimulado.
Quando nos tornamos pais, temos a grata oportunidade de ajudar a mudar o mundo.
Pelo nada simples fato de que criar boas pessoas para o mundo é ajudar a melhorá-lo.
Para quem diz "Não deposite sobre mim essa responsabilidade", eu digo: não fuja dela. Isso é o que de melhor você pode fazer não só por seus filhos, mas por todos, inclusive, e principalmente, por você. Porque criar filhos com amor ajuda a ressignificar a sua própria história.

(Livre-tradução do vídeo: Ligia Moreiras Sena)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Alimentação saudável: o que os pais pensam sobre isso?

Você se preocupa com o que seu filho come?
Se sim, por que se preocupa com isso?
Se não, por que acha que não precisa refletir a respeito?
Quais os motivos que levam pais e mães a selecionar determinados tipos de alimentos para seus filhos?
Ontem, 25 de fevereiro, um portal divulgou os resultados de uma pesquisa de opinião feita pela principal empresa de pesquisa em grande escala no mundo, baseada em entrevistas com grande número de pessoas.
A pesquisa, conduzida em 24 países (entre eles Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Japão, Rússia e EUA), teve como objetivo saber quais os principais motivos que levam pais e mães a se preocuparem com a qualidade da alimentação de seus filhos.
Confesso que os resultados me surpreenderam...
O levantamento mostrou que a justificativa mais citada pelos pais para sua preocupação com a boa alimentação de seus filhos foi: ter um coração saudável, tendo sido mencionado por 23% dos entrevistados.
Em segundo lugar, empatados com 18% cada, ficaram: redução do risco de desenvolvimento de doenças ao longo da vida, melhor desenvolvimento cerebral e melhor imunidade.
Especificamente com relação ao Brasil, embora os entrevistados também tenham seguido a tendência mundial de considerar que ter um coração saudável seria o maior benefício da boa alimentação (citado por 29% das pessoas), os brasileiros também mostraram se preocupar muito mais com evitar ou reduzir o risco de obesidade (17%) do que a média mundial, que foi de apenas 8%.

Por outro lado, enquanto em outros lugares do mundo a maior preocupação parece ser reduzir o risco de doenças no futuro e melhorar o desenvolvimento cerebral (18% cada um), o brasileiro mostrou não partilhar da mesma opinião, uma vez que apenas 8 e 9%, respectivamente, dos entrevistados citaram tais fatores.
O resultado me espantou porque eu nunca pensei que as pessoas considerassem um motivo único para se preocupar com o que as crianças comem, talvez porque eu mesma nunca tenha pensado assim.
Minha filha tem, hoje, quase 1 ano e 7 meses. A amamentação foi sua alimentação exclusiva praticamente até os 9 meses. A partir dos 6, tentei incluir as papinhas e suquinhos em sua alimentação, mas ela não aceitava, não achou muito atrativa a consistência. Tendo entendido sua preferência individual, deixei de oferecer papinhas como única opção à amamentação e passei a oferecer o que nós mesmos comíamos da forma como comíamos: arroz, feijão, carne, vegetais, ovos, entre outros, que são a alimentação da família. E ela adorou! E desde então tem se alimentado muito bem.
O açúcar esteve completamente ausente de sua alimentação até completar 1 ano de idade quando, em sua festa de aniversário, agarrou um cupcake e enfiou a cobertura toda na boca. Ela estava no colo do pai, que percebeu que ela olhava para os bolinhos com vontade de comer e se esticava em direção a eles. Ele a deixou alcançar e levá-lo à boca. E ela gostou - claro... Como, até então, ela nunca tinha comido algo assim, ele me chamou para mostrar, naquelas de "mamãe, venha ver o que está acontecendo aqui...". Quando olhei, fiquei chocada. E rolou aquela de "Caraca, e agora? Dou chilique? Acho lindo? Arranco da mão?".
Bem, eu penso que proibições mais empurram as pessoas em direção ao supostamente proibido do que o contrário. Arrancar da mão dela seria uma coisa estúpida de se fazer. Então me aproximei e fiquei, com aquela cara de pasmada, observando como ela se comportava. Comeu o bolinho todo, foi alvo de muitas fotos - que ficaram lindas, confesso - e ficou satisfeita. Não rolou uma crise internacional, nem ela quis comer outro ao fim. Simplesmente comeu e pronto, sem estresse. Isso não significa que eu introduzi esse tipo de alimento na rotina alimentar dela, pelo contrário. Mas não é uma proibição.
Ela vai a festinhas, a eventos, a locais onde as pessoas comem de tudo e não há radicalismo. Sou radical apenas para coisas artificiais, refrigerantes, salgadinhos fritos do tipo coxinha, salgadinho de pacote e toda aquela tralharada que vem com mais aditivo que o próprio ingrediente principal. Fora isso, quer comer, come. Com moderação, mas pode. Mas, porque não é habitual em sua rotina, ela também não vai atrás.
Eu me preocupo sim com o que ela come. E, se tivesse sido uma das entrevistadas, responderia: porque acho que uma má alimentação influencia o sono, o humor, o sentimento de satisfação, o comportamento geral e a saúde global. Não me preocupo com a alimentação dela porque pode fazer mal ao coração. Isso também, mas não consigo reduzir a um motivo único. É uma preocupação que abarca múltiplas dimensões: física, emocional, mental.
Tenho aprendido, com minha filha e com os filhos dos outros, que todo extremo é ruim: radicalizar na alimentação, proibindo muitas coisas, os torna ansiosos, frustrados, compulsivos e, paradoxalmente, com ainda mais vontade daquilo que não podem. Vi muita criança comer escondido aquilo que o pai ou a mãe não deixava, ou pedir "Por favor, não conta pra minha mãe?". Por outro lado, liberar geral causa obesidade, afeto deslocado para o alimento, indisposição, uma série de alterações fisiológicas e, também paradoxalmente, inatividade.
Lembro-me sempre do dia em que minha filha agarrou uma batata-frita da mão de um amigo, enfiou na boca e adorou. Lembro do rostinho dela olhando pra mim com aquela cara de "mãe, pelo amor de Deus, onde estava isso todo o tempo?!". Deixei-a comer. Mas isso não significa que eu vá fazer batata-frita no almoço ou que vá fazer disso uma rotina. Eu apenas vou respeitar o gosto dela, sem desrespeitar seu próprio corpo.
Uma coisa é importante: além do que eles comem, tão importante quanto é COMO eles comem. Como o pai, a mãe ou o cuidador os alimentam. Alimentação deve ser feita com atenção, com cuidado, com amor. É um momento de cuidado e, como tal, precisa ser feito afetuosamente. Xingamentos, ameaças, retirada abrupta da comida, forçar, não combinam com o momento... Isso não significa que vamos deixá-los fazer da comida confete, jogando carnavalescamente por todo o chão, nem coisas do tipo. Mas alimentar com amor faz toda diferença e ajuda a criar uma boa relação com os alimentos.
Boa alimentação infantil faz bem ao coração, sim. Tanto como bomba propulsora do sangue quanto como símbolo do amor e do afeto.
Da próxima vez que for alimentar seu filho, lembre-se: é, também, de amor que ele está se alimentando. E sem essa de Sazon.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre a maternidade - um vídeo lindo...

Esse vídeo deslumbrante foi compartilhado no grupo de discussão Maternidade Consciente e eu não resisti. Vim aqui compartilhar essa linda mensagem, idealizada por um grupo que merece todo o respeito em função do trabalho que faz em prol do respeito ao parto e nascimento, do respeito à gestação, à mulher e à família, a Casa Moara. Se você está pensando em se tornar mãe, se já está grávida, se já recebeu seu bebê ou se se interessa pelo assunto e está em São Paulo, é um lugar que precisa conhecer.
Essa mensagem diz muito.
Ela começa perguntando "Se você pudesse voltar no tempo, até pouco antes de ter seu primeiro filho, o que diria a si mesma?".
As respostas foram dadas por diferentes mães.
A música é Reconhecimento, de Isadora Canto, cuja letra é simplesmente uma voz coletiva...
É como seu eu tivesse esperado toda a vida pra te embalar...


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cólicas e enxaquecas: uma possível ligação

Estudo recente sugere a ligação entre episódios de enxaqueca nas mães e cólicas nos bebês.

Talvez uma das coisas mais misteriosas que exista a respeito dos bebês recém nascidos sejam as cólicas. Cercada de mitos, dúvidas, incertezas e muita coisa feita na base da tentativa e erro, as cólicas estão entre as angústias mais comuns das famílias que recebem um novo bebê.
Não existem regras nem padrões: bebê que mama no peito pode apresentar cólica, bebê que se alimenta de fórmula pode apresentar cólica e, embora se associem os episódios a algo que a mãe comeu - no caso das que amamentam -, como derivados de leite, feijão e outros alimentos, não há nada definitivo que possa ser dito sobre isso, uma vez que as crianças reagem de maneiras muito diferentes.
Na verdade, o que se chama de "cólica" são os episódios de choro frequentes que acometem os bebês de até três meses de idade, e que são relativamente comuns. O choro excessivo em uma criança saudável tem sido associado a possíveis problemas gastrointestinais causados por algo que o bebê ingeriu. No entanto, mesmo após mais de 50 anos de pesquisa, nenhuma ligação definitiva foi comprovada entre a cólica infantil e os problemas gastrointestinais, por incrível que pareça.
A preocupação sobre as cólicas infantis vai além de se tentar compreender de onde vêm e o que as causam. Passa por entender os efeitos do choro intenso e prolongado tanto para o bebê quanto para a mãe, pai ou cuidador, inclusive para a prevenção do que é chamado de "síndrome do bebê sacudido", um comportamento de desespero que atinge pais despreparados emocionalmente e que se caracteriza por pegar o bebê e sacudi-lo para que pare de chorar. Infelizmente, ainda que cruel, é um problema real, e pode causar deficiência mental severa, danos cerebrais irreversíveis e até a morte.
É também por isso, mas não só, que muitos grupos de pesquisa tentam entender um pouco melhor sobre o que pode disparar esses episódios dolorosos nas crianças.

Um grupo de neurologistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, constatou, em um estudo feito com mães e seus bebês, que os bebês de mulheres que sofrem de enxaqueca apresentam episódios de cólicas duas vezes mais frequentes quando comparado com os bebês de mulheres que não têm enxaqueca. A pesquisa quis saber se as cólicas poderiam ser sintomas iniciais de enxaquecas futuras. Se forem mesmo, reduzir a estimulação ao qual o bebê está submetido, bem como o nível de luz e ruído, pode ajudar a aliviar e reduzir os episódios de choro, à semelhança do que acontece com a enxaqueca. A pesquisa foi conduzida pela neurologista infantil Amy Gelfand, do Headache Center da Universidade da Califórnia, e os resultados serão apresentados oficialmente em abril deste ano, no 64o. Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia, em Nova Orleans. O grupo liderado pela pesquisadora quer, na verdade, entender o que faz com que os bebês tenham esses episódios de choro intenso, com a finalidade de protegê-los.
Participaram do estudo 154 mães cujos filhos apresentavam picos de choro, diagnosticados pelo pediatra como cólicas. Cerca de 30% das crianças cujas mães apresentavam episódios de enxaquecas também apresentavam episódios severos de cólicas. Os pesquisadores acreditam que a cólica possa ser uma manifestação precoce, uma espécie de precursora da enxaqueca que acontecerá mais tarde na vida.
Assim, os bebês que apresentam cólicas podem ser mais sensíveis aos estímulos ambientais, da mesma maneira que acontece com pessoas que sofrem com enxaquecas.
O próximo passo da equipe será estudar, ao longo de toda a infância, um grupo de bebês que sofreram de cólicas, para ver se desenvolvem outros sintomas que possam ser associados à enxaqueca futura.
O trabalho original contendo essas informações é "Infant colic is associated with maternal migraine", de autoria de Amy Gelfand, Katherine Thomas e Peter Goadsby. Será apresentado dia 25 de abril em Nova Orleans, no evento que mencionei acima.

Essa foi uma informação bastante interessante que recebi via Neuroscience News.
Meu interesse sobre isso vai além da neurociência e passa por nossa própria experiência.
Minha filha teve muitas cólicas durante seus três primeiros meses de vida. Exatamente como mencionei no início do texto, fiz um monte de coisas na tentativa de aliviá-la das dores incômodas, inclusive mudei minha alimentação. Não adiantou.
A única coisa, entre todas as tentativas, que reduzia drasticamente seu desconforto não foi medicamentosa, nem um determinado tipo de alimentação: foi muito colo e sling. Eu a colocava no wrap sling (aquele tipo que é uma larga tira de pano com alguns metros de comprimento, que você amarra em diferentes posições), com a barriguinha colada em mim, cabecinha no meu peito, cantava e ela ia serenando, até que adormecia. Estava sempre disponível e a atendia sempre com carinho e afeto, ainda que estivesse muito cansada.
Não se conhecem ainda as causas das tais "cólicas".
Não se sabe nem mesmo se são cólicas realmente.
Mas, para mim, mais importante do que findar a dor dela, era tentar entender porque ela se sentia assim e se algum aspecto do meu comportamento, das minhas emoções, poderia ajudar a disparar aquilo.
Isso sem falar no aspecto de como lidamos com a dor. Hoje, a dor é vista como algo que deve ser imediatamente combatida. Ninguém quer saber de dor, nem de aprender com ela. É por isso que analgésico, de todos os tipos e para todos os fins, é uma das categorias de fármacos mais vendidas e para a qual tanta verba é destinada pela indústria farmacêutica.
Eu não sou adepta da dor. Mas não tenho pavor dela. E era isso o que eu tentava pensar quando minha filha chorava, incomodada, aparentemente de dor: pensava que a biologia era sábia, que devia haver alguma função biológica naquilo. Que toda dor traz algum tipo de aprendizado, de fortalecimento. Que um bebezinho sentir aquela dor não poderia ser simplesmente um evento ruim, ele deveria, de alguma forma, estar sendo preparado, física ou emocionalmente. Como diz o Dr. Carlos Gonzalez, poderia ser um pedido por mais colo, mais carinho, mais aconchego, então era isso o que eu dava. E sempre que eu me acalmava pensando assim, ela também se acalmava...
Um estudo como esse não é capaz de chegar a uma conclusão definitiva sobre o assunto.
Mas lança mais uma luzinha à questão.
Na verdade, ao meu ver, o problema das cólicas é algo multicausal, multidimensional, e talvez vinculado a fatores para os quais a ciência tradicional ainda não dispõe de instrumentos para medir.
Mas que nós, mães conectadas, sentimos e sabemos quais são...
Ah, apenas para constatação.
Sim, a Clara teve muitas cólicas. E, sim, eu tenho episódios de enxaqueca...

Carnaval sem carnavalices

De carnaval mesmo, nosso carnaval teve pouco ou quase nada. O que acho ótimo, considerando como anda a coisa ultimamente. Mas teve muito de alegria, passeios, verão, amigos e família.
Aproveitamos o feriadão prolongado pra passear bastante e curtir o colinho da tia Livia, que veio de Sampa pra passar esses dias com a gente, matando a saudade da sobrinha que não via desde o aniversário de 1 ano dela, há seis meses atrás. A pobre pegou mais de 18 horas de trânsito na vinda, tínhamos que compensá-la com passeios bem legais e muito colinho mesmo...
Até tentamos ver a apresentação dos blocos de carnaval de Santo Antônio de Lisboa, um lindo bairro turístico e histórico que fica bem pertinho aqui de casa, e pra onde vamos caminhando de vez em quando. Fomos na sexta-feira, mas os blocos atrasaram, Clara ficou com sono e começou a cochilar no sling, eu não consegui programar meu cérebro pra focar só no lado cultural e deixar passar a bizarrice, e acabamos vindo embora antes mesmo do bloco principal. Cheguei em casa constatando: gosto mesmo é de fazer o que faço na maioria dos meus carnavais após os 17 anos: relaxar no meio do mato ou na praia, tranquilidade e, em termos de música, fico com o velho e bom rock and roll Porque, olha, ver o povo vibrando de alegria porque começou a tocar aquela tal música que diz pra delícia que se ele te pega, ai ai ai, definitivamente não é comigo. E pensar que tudo começou na Grécia...
Passamos dias muito gostosos, matando a saudade.
Passeamos de barco, assamos um peixe com amigos, demos muitos mergulhos, curtimos a piscina, tudo isso bem longe da muvuca. Já bastou o fato do carnaval do bairro onde moramos acontecer na rua que é única via de acesso e termos ficado 1 hora e pouco esperando passar o bloco pra podermos ir pra casa, com o carro sendo vandalizado por pessoas possuídas pelo espírito do carnaval, muitos deles sujando, batendo e xingando o carro de quem passava - que só queria ir pra casa - enquanto segurava um bebê no colo ou uma criança pela mão, ensinando pro filho como ser um vândalo em apenas uma lição. Pra depois dizer que o carnaval é uma festa democrática. Não dá pra chamar de festa democrática uma festa que subentende que todo mundo gosta de ouvir sambão no último volume.
Na segundona carnavalesca, fizemos uma trilha-surpresa com a Clarinha slingada, depois de uma breve visita a um bebezinho querido e sua família. Clara dormiu a maior parte da uma hora e meia de trilha, aproveitando o silêncio e a energia do lugar, a despeito das suadas mãe e tia, que não viam a hora de chegar e se jogar na água, principalmente depois que surgiu do meio do nada um cachorro gigantesco com cara de poucos amigos, que nos fez caminhar munidas de dois cajados o restante da trilha.
O único "Será que ele é?" que nos interessou foi a entrevista do cartunista Laerte, na noite de segunda-feira, naquele programa que já foi bom, o Roda Viva. Presença absolutamente subaproveitada pelas fracas perguntas do grupo que o entrevistou, que mais se preocupou em saber como ele se virava pra arrancar os pelos e qual a marca da maquiagem que usava. Laerte mandou muito bem, como sempre, falando coisas bastante importantes como "A revolução feminina foi um marco na história da humanidade. O que não aconteceu foi a revolução masculina" e "Quanto mais a pessoa expõe a própria luta, parece que há um aumento da reação troglodita", coisa que tenho vivido ultimamente... No fim da entrevista, só deu pra perceber que as pessoas não estão sequer preparadas para discutir questões de gênero, quanto mais pra compreender a grande variabilidade que existe naturalmente pela vida.
O realmente importante desse carnaval-sem-carnaval do qual tanto gostei foi ter revisto minha irmã, ter passado tão bons momentos junto com ela, e ter visto minha filha se divertir tanto. Clara brincou muito, toda hora, todos os dias. E vê-la sendo feliz é o que realmente me importa.
Hoje é quarta-feira de cinzas. Dia de tirar a fantasia. Não vou tirar a minha porque na verdade nem a coloquei. Esse negócio de fantasia, de assumir o impossível como real, não é comigo. Minha realidade já é bastante interessante e até que gosto dela, não preciso fantasiá-la.
Foi um carnaval ótimo pra perceber, realmente, que eu não gosto desse carnaval que anda por aí. Cheio de coisa repetitiva, de gente de abadá pulando como vips em cima de camarotes. Acho uó ter camarote onde antes passava o bloco tradicional. Acho uó esse povo achar que pagode e cafonalha é samba. Mas, se tá todo mundo achando que carnaval é isso e que assim é bom, o que se pode fazer? Ah sim, se pode criar um outro tipo de carnaval, como nós fizemos.
Enquanto o carnaval for assim, prefiro a minha humilde diversão de trilhas, barcos, lagoas, praias e piscinas, com uma filha bem sorridente e feliz ao lado.
Como diria a Fernanda Young.
Menos purpurina, Carnaval. A vida é linda, mas a "lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo" é um saco. Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém. Tudo muda no mundo - por que você insiste em continuar o mesmo?
A harmonia vem da evolução, não das alegorias.
Chegou a hora de rodar a baiana pra não atravessar na avenida
Foi um ótimo carnaval pra não curtir o carnaval. Pra ficar off road e fazer um detox. Mas ainda bem que ele só volta no ano que vem. Afinal de contas, aqui não precisamos esperar o carnaval para nos divertirmos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sobre amamentação, charges e bravas mulheres

Embora eu seja casada com um, minha paixão por chargistas é democrática: Laerte, Glauco (Salve Glauco! Que partiu cedo demais e pra quem escrevi um post aqui no blog...), Nani, Angeli (praticamente uma divindade), Pelicano, Duke e muitos outros, uns muito famosos, outros nem tão conhecidos assim.

E aí que o carnaval tá rolando, tá comendo solto Brasil afora, tá todo mundo comemorando por aí - o quê, ninguém sabe ao certo, mas tá... Alalaô pra você também.
Na sexta-feira pré-carnaval, postei um texto (Peito de fora?! Só se for no carnaval. Não inventa de amamentar em público, sua subversiva) sobre a carnavalesca inversão de valores no nosso Brasil Varonil (expressão muito apropriada) quando o assunto é amamentação, e que rendeu o maior recorde de visualizações que uma postagem já teve nesse blog: 2.148! Esse é, realmente, um assunto detentor de uma força tremenda... É por isso que tanta gente, de tempos em tempos, gosta de cutucar as onças, porque as onças vêm com tudo.
Acho sensacional que um assunto tão fundamental como esse esteja sendo discutido por todos, ainda que também esteja na boca das matildes, que nada sabem sobre a questão, não estão interessadas em saber, mas adooooram dar um pitaquinho e se fazer de entendidas. Tomara que elas também aprendam alguma coisa e passem a incentivar e esclarecer outras pessoas. E, como bem lembrou a Priscilla Perlatti, do Mãe de Duas e uma das Mamatracas, em um comentário feito aqui, quem tem envolvimento ativo com a questão da amamentação e de todos os outros assuntos envolvidos na maternidade ativa tem um papel muito importante na orientação daqueles que não os compreendem bem. Obviamente, na minha opinião, desde que queiram essa orientação... É justamente pensando como ela que esse blog possui cinco abas especificamente dedicadas a discutir mais profundamente os temas gravidez, pré-parto, parto e pós-parto, amamentação, maternidade consciente, medicalização da vida e violência no parto.
Aí ontem, 19 de fevereiro, o grande chargista Pelicano, trabalhando em pleno carnaval, fez essa aqui.

Genial!
Tomara que a mãe do engatinhante dessa charge que, sem palavra alguma, levou o assunto a um grande número de pessoas, possa amamentá-lo também. Porque ninguém merece morrer de sede em frente ao mar, falaí.








E já que o assunto é charge, hoje, antes de sairmos pra aproveitar o feriado de carnaval, eu e Frank fizemos, juntos como mestre-sala e porta-bandeira, essa charge aí ao lado, em homenagem ao grande Laerte. Que, homem, mulher ou transgênero, será sempre um gênio. O pessoal gostou e a charge foi pra capa do Charge On Line em pleno domingão de carnaval!

Alegoria: oito e meio.
Samba enredo: nove.
Evolução: nove e meio.
Comissão de frente: deeeeez!
Um viva ao pessoal que incentiva a amamentação e que promove seu debate com base em argumentos consistentes! Viva as mães e famílias que seguem amamentando! Viva as mães que, mesmo sem terem podido amamentar, reconhecem os muitos benefícios e incentivam outras mulheres!
E um viva mais que especial àquelas bravas mulheres que, contra quase-tudo e quase-todos, dedicaram-se a amamentar seus filhos com amor e desvelo por anos a fio. Que estiveram presentes e conectadas com eles enquanto seus corações mandaram.
Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,a qualquer momento, ele pode voar - Rubem Alves -
Existem mulheres que, sabendo da verdade por trás das palavras do Rubem Alves, cuidam ou cuidaram com desvelo de seus passarinhos até que eles pudessem voar seguros, sem apressar ou encurtar os processos apenas porque os outros os consideravam grandes demais e prontos pra voar.
E pra você, que vive dizendo essas frasezinhas torpes, como "esfregando os peitos na cara dos outros", sai da frente da televisão, larga a globeleza, para de babar na Sapucaí e chega de hipocrisia.

Com admiração e respeito, para Sheila Martins Medeiros, que está vendo seu passarinho voar...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Peito pra fora? Só no carnaval! Não inventa de amamentar em público, sua subversiva.

Uma moça de nome Letícia González  publicou ontem na versão on line de uma revista - que eu não leio por não compartilhar dos mesmos valores - um texto querendo abrir o debate para "quando é ´ok´ amamentar e quando é 'demais' amamentar". Uma pessoa de um grupo de discussão compartilhou e eu fui lá ver, porque o título (Amamentar em público e em qualquer lugar. Tem que poder. Mas precisa?) era daqueles que você lê e pensa: "Ó lá a pessoa querendo os tais 15 minutinhos, sem pauta, com as malas prontas e querendo ir pro carnaval".
No fim do texto, ela lança a pergunta-debate: "Quando é ´ok´ e quando é ´demais´ amamentar?".
Eu li, eu ri e eu comentei.
Vai aqui o comentário, que até o momento em que escrevo não havia sido publicado.
"Olá Letícia. Foi com espanto que li a sua pergunta-debate sobre quando é "ok" amamentar e quando é "demais". Se nós estivéssemos falando sobre usar saias que permitem ver a calcinha, sobre blusas que permitem ver o bico dos seios, sobre revistas Playboys e afins penduradas em bancas, sobre mulheres pagando peitinho na tv, sobre mulheres nuas no carnaval, sobre essas coisas que são supérfluas e totalmente desnecessárias (ainda que ocorram com cada vez mais frequência e com o aval das pessoas), sua pergunta faria sentido. Mas não estamos falando de hábitos ou comportamentos supérfluos, estamos falando de algo que é insubstituível e que nenhum leite artificial ou mamadeira é capaz de repor: amamentação. Que vai muito, mas muito mais além de, como é mesmo que você se refere a ela, "um peito pulando pra fora da roupa". Amamentar um filho é alimentá-lo não só de leite materno, é oferecer a ele entrega, disponibilidade, afeto, contato e segurança. Os peitos de quem amamenta não pulam pra fora da roupa, eles não têm vida própria. Eles são expostos pela mãe para que o filho se alimente. Fome, sede, acontece em todo lugar. É compreensível, portanto, que em todo lugar uma mulher possa amamentar sem ter que se preocupar com a mentalidade curta e doentia das pessoas, que podem olhar para ela como aberrante ou como objeto sexual. Muitas organizações de saúde no mundo estão trabalhando arduamente para que toas as mulheres, homens e famílias se conscientizem de que, sim, é necessário, importante e fundamental amamentar. Amamentar, Letícia, nunca será demais, pelo contrário. O que anda acontecendo é de menos: mulheres que andam se sentindo desconfortáveis porque pessoas se acham no direito de lançar esse tipo de discussão sem embasamento, sobre quando é "ok" e quando é "demais". A Organização Mundial de Saúde, a UNICEF, o Ministério da Saúde, as Secretarias Estaduais da Saúde já responderam e respondem todos os dias a sua pergunta: NUNCA é demais amamentar. Quem se sente incomodado pela prática deveria se questionar sobre os motivos do seu incômodo, talvez com a ajuda de um analista. Isso simboliza uma série de más resoluções psíquicas. Um abraço"
Tá chegando o carnaval. Um monte de mulher vai sambar com as peitolas de fora e o mundo vai achar leeendo. Até a finada Dercy já saiu com as peitolas de fora e o pessoal achou suuuper artístico. Tem um monte de fantasia daquelas que se acoplam peitos de borracha ou de plástico, que geralmente os homens gostam de usar. Mulher não usa muito porque, afinal, a gente já tem, né? Pra nós é tão comum...
Os peitos são fantasias.
E um dos significados de "fantasia" é: imaginação criadora; ficção; coisa que não tem existência real, mas apenas ideal.
Os peitões também são fantasias.
E os seres humanos estão com problemas pra diferenciar o que é fantasia do que é real.
Então é assim: no carnaval, peitão pra fora de mentira pode, tá?
Mas isso é FAN-TA-SIA.
Não queiram tornar os sonhos alheios realidades, mulheres, suas tolas...

Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...

O pessoal da Parto do Princípio criou um monte de marchinha divertida sobre os doutores cesaristas de plantão. Quem vai criar marchinhas bacanas sobre amamentação que não incentive a chupeta e a mamadeira? Hein?
E pro carnaval: todo mundo de peitão de fora, galera!
Menos as mães que amamentam. Porque, né? Isso é demais...


A propósito: aquela imagem ali de cima, do Isso pode, Isso não pode, fui eu mesma quem montou, bem toscamente, pra representar o que eu quero dizer. Aí, algumas horas depois, encontrei essa outra aí ao lado sendo compartilhada, com o mesmo intuito. E comigo na foto (de gorro e óculos), ao lado de outras mães florianopolitanas! Legal! 



"... e não é feliz. Não é feliz" - Balada do Louco (Os Mutantes)

Há 1 ano e 1 mês, eu estava prestes a voltar à minha antiga área de pesquisa científica em nível de pós-doutorado. Minha filha tinha 5 meses e pouco. Eu estava em pânico, triste, deprimida, porque teria que me separar dela pra ir trabalhar, ela tão novinha, sendo amamentada...
Estava numa crise dos infernos, achando que eu teria que optar entre a carreira e o "estar presente" na vida da filha-bebê.
Naquele dia, postei isso, um manifesto revoltoso pessoal cheio de palavrão, típica coisa minha em dia que tô possessa.
Ilustrei o post com essa foto aqui, da deputada italiana Licia Ronzulli, que havia ido há pouco à sessão plenária com sua filha de poucos meses no sling, reivindicando melhores condições de trabalho para as mulheres.
Hoje, 1 ano e 29 dias se passaram desde aquela postagem. Abri minha caixa de e-mails e meu Facebook: seis pessoas diferentes haviam marcado meu nome em links com uma notícia e fotos dela
Era essa outra foto aqui.
A mesma deputada, agora com a filha maiorzinha, no mesmo local, votando. A filha cresceu, e está lá trabalhando com a mãe.
O jornal The Telegraph escolheu essa foto como uma das fotos do dia no mundo (16/02/2012).
As pessoas viram isso e se lembraram de mim. E isso me emocionou.
Foi ótimo eu ter ido atrás da postagem antiga...

Hoje, eu não estou mais naquela área de pesquisa.
Hoje, eu não faço mais pós-doutorado.
Hoje, estou começando tudo de novo.
Hoje, eu não preciso escolher entre uma coisa e outra.
Minha área de pesquisa antiga não me permitia estar com a minha filha enquanto eu trabalhava. Muitas mulheres também possuem profissões que não as permitem "levar o trabalho pra casa", digamos assim. A minha profissão também não me permitia. Então eu mudei de caminho.
Para um que me traz alegria, leveza, sensação de estar trabalhando realmente por um bem comum, sensação de estar aplicando a ciência diretamente no cotidiano e na vida das pessoas. Hoje eu ouço pessoas, eu leio o que as pessoas viveram, eu sinto o que elas sentiram. Leio coisas muito profundas, reflexões, livros filosóficos, autores importantíssimos para a história da ciência médica e biológica. Coisa que eu não tinha tempo de fazer porque precisava ler as dezenas de novos artigos hightechs que saíam por semana sobre meu tema de pesquisa. Essa é, sim, uma crítica à ciência básica: a gente se preocupa tanto com o detalhe que esquece - ou não tem tempo - de colocá-lo num contexto maior.
Estou feliz onde estou, fazendo o que estou fazendo. E, principalmente, com minha filha do meu lado.
Hoje estive numa defesa de mestrado em meu antigo departamento, onde fiz meu doutorado. Vi aquela amiga ali, dando o máximo de si, mostrando seus resultados, fruto do trabalho de 2 anos de pesquisa e dedicação, e me vi há 10 anos atrás. Tudo o que fiz como pesquisadora em farmacologia, neurociência, psicobiologia foi feito com amor, com paixão, com afinco. Eu podia ter feito mais, mas talvez isso me levasse a viver menos todas as coisas que vivi, então estou satisfeita com a maneira como foi.
Pouco antes de ir embora, ainda no prédio, uma pessoa que me conhece dos tempos do primeiro doutorado me parou e disse: "Ô louca, que história é essa que você está fazendo doutorado de novo?!". Estou acostumada com essa reação, embora eu não goste nada dela...
Expliquei tudo, como já expliquei zentas vezes. No fim, ouvi o que eu já ouvi muitas vezes também: "Que bom que você teve a coragem. Eu não teria". Ao que perguntei: "Mas você gostaria de ter?", e a pessoa disse um sonoro "Sim!". Fui embora pensando naquilo. Em como uma pessoa especial daquela passaria a vida inteira num caminho querendo estar em outro, acumulando títulos, prêmios e publicações, mas sem viver o que queria.
Fiquei pensando no livro Um, do Richard Bach (cuja frase da capa é "Seríamos os mesmos se soubéssemos o que nos espera para lá do espaço e do tempo?"), em que o cara tem a oportunidade de se encontrar com várias versões dele em mundos possíveis. A sensação que eu tenho, muitas vezes, é essa: que eu estou me encontrando todos os dias com um eu meu que saiu da possibilidade e se tornou concreto.
Eu não sei onde esse meu novo caminho vai me levar. E sinceramente, não estou me preocupando com isso. Eu passei 15 anos pensando assim, pensando em fazer tais e tais coisas pra melhorar o meu currículo, para que no futuro eu isso ou eu aquilo. Isso ou aquilo nada, ninguém sabe do futuro...
Então hoje eu não penso mais nisso. Eu penso em como estou fazendo as coisas agora. Hoje, finalmente entendi o que o John Lennon queria dizer quando disse que a vida é aquilo que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.
O que me choca é ver o grande número de pessoas, amigos, conhecidos, que dizem também querer ter a coragem de mudar. E que não mudam. Gente que já descobriu um monte de outros talentos, gostos, habilidades, mas que não têm coragem de arriscar.
Pra vocês, caros amigos, eu digo: o que eu estou fazendo não tem nada de sonho romântico. É realidade. Eu não sou louca, eu apenas abri mão de algo que, de certa forma, me limitava, não me permitia ir além.
Tantas e tantas vezes eu tentei ir além nas discussões e me pediram pra me limitar ao assunto...
Tantas vezes me pediram pra me ater nos números, não extrapolar, não pensar em outras possibilidades.
Tantas vezes me pediram para cortar parágrafos com tons mais filosóficos.
Aí um dia eu escrevi um trabalho de qualificação em tom histórico e filosófico, esperando ser avacalhada em praça pública, para ouvir de um grande professor, minutos antes da defesa, que era o melhor trabalho de qualificação que ele já tinha lido ali.
Então, por favor, parem de me chamar de louca. Eu só estou fazendo agora o que eu realmente gosto de fazer. Louco é quem opta pelo hábito no lugar do amor (aproveitando uma outra conversa recente com amigos...).

A Licia Ronzulli está lá na Itália, levando a filha dela pro trabalho, reivindicando melhores condições de trabalho para as mulheres. E eu tô aqui no Brasil, em Florianópolis, trazendo meu trabalho pro lugar onde está minha filha, estudando sobre saúde coletiva.
Ao contrário da deputada, eu não sou ninguém importante.
Mas a escolha que eu fiz e a coragem que eu tive fazem como que eu me sinta importante para mim mesma e para minha filha.
E afinal, o que é mais importante que isso?!
Eu sinto que, de alguma forma, Clara se orgulhará de mim por eu ter mudado tudo, arriscado tudo e vivido dias de indefinições e incertezas, com 33 anos, para, também, poder crescer como profissional sem deixar de estar presente no desenvolvimento dela.
Eu só aceito esse "louca" se ele for adjetivo.
Se for, obrigada. É o que eu desejo pra você também.
Que possa ser louco só um pouquinho na vida, pra ver como é bom.

"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco"
Michel Foucault


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Mulheres cientistas no Brasil - entrevista para o jornal Correio Braziliense

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Como anda a participação das mulheres brasileiras na ciência atualmente?
Quais os principais problemas enfrentados por elas?
São os mesmos enfrentados por cientistas homens?
São igualmente reconhecidas?
A questão familiar influencia na quantidade de mulheres envolvidas com ciência? Como conciliar os trabalhos acadêmicos e pesquisas com a maternidade?
Essas foram questões respondidas por mim para a repórter Gláucia Chaves, do jornal Correio Braziliense
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Como é a participação das mulheres na ciência hoje em dia?
Embora a participação das mulheres na ciência brasileira venha aumentando anualmente, ainda há uma representação desproporcional. Nos últimos 10 anos, a proporção de mulheres entre pesquisadores cadastrados na base Lattes tem girado em torno de 40%, sendo as áreas da Saúde e Biológicas as com maior representatividade feminina. Um fenômeno interessante é que as mulheres são a maioria no que diz respeito ao recebimento de bolsas de iniciação científica, mas esse número vai reduzindo significativamente conforme vai aumentando o nível de instrução. Os motivos que levam a essa menor representatividade das mulheres em níveis mais avançados e em cargos efetivos, inclusive, têm sido foco de estudos por diferentes grupos no Brasil. Os homens ficam com quase 70%, hoje, das bolsas de produtividade em pesquisa, atestando exatamente isso: conforme se aumenta o nível hierárquivo, maior é a iniquidade no acesso a essas fontes de financiamento. As razões para isso não estão centradas em diferenças de produtividade, como acontece em outros países, uma vez que as mulheres brasileiras têm publicado tanto quanto os homens. Então muito se questiona sobre as razões dessas diferenças e, infelizmente, existem pouquíssimos dados sobre isso no Brasil. Mas, ainda assim, sabe-se que as mulheres cientistas ainda enfrentam dificuldades no acesso a cargos acadêmicos. O número de homens aprovados em concursos para docentes de universidades públicas é significativamente maior que o de mulheres, quase o dobro, embora elas, por vezes, representem a maioria das inscrições nestes concursos. Junto a isso, o número de mulheres em cargos de liderança de grupos de pesquisa também é significativamente inferior aos dos homens.
Quais os principais problemas enfrentados por elas? São os mesmos que os homens enfrentam?
Já se sabe há muito tempo que a iniquidade observada com relação à questão de gênero na ciência não diz respeito à maior ou menor habilidade científica feminina, ao contrário do que se tentou estabelecer na década de 80. Assim, o que se discute hoje é que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres cientistas sejam de ordem estruturais, de organização das instituições científicas nacionais e, também, de formas sutis, às vezes imperceptíveis para quem não está atento, de discriminação sexual. Embora a questão da discriminação sexual no meio científico apareça de maneira disfarçada, ela existe, como atestam algumas publicações existentes sobre o assunto. Essa discriminação pode ser vista, por exemplo, na interpretação da agressividade e alta competitividade masculina como sendo características positivas para um homem cientista, enquanto para a mulher cientista isso seja visto como característica dominadora ou autoritária, uma diferença de percepção que acaba por dificultar o acesso de excelentes cientistas mulheres a posições de destaque ou a altos níveis hierárquicos. Em função disso, não é raro que as mulheres cientistas desistam de concorrer a esses cargos.
Como não poderia deixar de ser, há a questão reprodutiva e familiar. Atualmente, o auge da produtividade científica feminina muitas vezes coincide com a fase da vida da mulher em que ela está estabelecendo e consolidando laços familiares ou decidindo por ter filhos. E essa é uma questão crucial. A gestação, ou apenas a possibilidade dela em função da idade da mulher, pode representar empecilho para que ela se insira no quadro institucional ou, ainda, para que assuma níveis hierárquicos superiores. É muito frequente encontrarmos cientistas mulheres que fizeram pausas em suas carreiras ou as redirecionaram em função da maternidade. Por outro lado,  existe uma outra situação também bastante frequente, quando mulheres cientistas optam por focar em suas carreiras e acabam por protelar o estabelecimento de laços familiares, ou até mesmo desistem deles. A grande pressão existente na carreira acadêmica, que exige, muitas vezes, total disponibilidade de tempo e dedicação que extrapola as 40 horas semanais, por vezes traz dificuldades ou tensões conjugais, uma vez que os companheiros tendem a aceitar menos a total dedicação feminina, quando comparado com a aceitação feminina da total dedicação masculina. Embora não existam dados sistemáticos a respeito, quem trabalha na área científica sabe que isso é real: é grande o número de mulheres cientistas solteiras ou separadas. E isso tende a ser mais frequente quanto mais alto o destaque alcançado por essa mulher. O que acontece é justamente isso: ou se protelou a formação familiar em prol da dedicação total à carreira (algumas vezes, inclusive, abdicando dessa situação), ou os laços familiares foram rompidos em função da grande pressão do trabalho científico.
Aquelas que optam por constituir famílias e, simultaneamente, dedicar-se às atividades acadêmicas sofrem, constantemente, discriminação em função da necessidade de flexibilização de horários ou de jornadas parciais. 
Você acredita que elas têm o mesmo reconhecimento que os homens? Se não, o que falta?
Não, infelizmente. A título de exemplo, pode-se citar uma situação frequente: quando prêmios importantes são concedidos a cientistas brasileiros, isso é encarado com naturalidade. Mas quando é uma brasileira cientista a receber o destaque ou a ser condecorada, as sociedades científicas e a própria mídia enfatizam o fato de ter sido "uma mulher" premiada, como se isso fosse um fato surpreendente. Nisso está embutido um conceito de discriminação e preconceito que, por vezes, não é percebido como tal. Acredito que faltam algumas coisas importantes para que o reconhecimento feminino na ciência seja uma constante, modificações estruturais, políticas públicas e de formação humana. As mulheres não deveriam, ao meu ver, precisar optar por uma ou outra área de suas vidas. As mulheres conquistaram, com o auge do movimento feminista das décadas de 60 e 70, o direito de estar em locais que antes eram dominados por homens. A academia é um desses lugares, acentuadamente masculinos. Mas isso não basta. Uma mulher cientista não deve precisar se comportar como um homem cientista para ser reconhecida. Ela deve ter o direito de ter suas escolhas como mulher respeitadas, sem que isso interfira no reconhecimento que possa vir a ter. Embora isso seja um assunto que aparece de forma velada na academia, quem está inserida nela sabe que é real, muitas sentem na pele essa discriminação. Uma pesquisa brasileira mostrou que as cientistas jovens, recém-inseridas no ambiente acadêmico, sentem-se integradas e apoiadas, poucas se sentem discriminadas. Para essas profissionais, o entrave mais comum é o de conciliar trabalho e família. Mas, à medida que progridem em suas carreiras, começam a sentir-se marginalizadas ou excluídas. Ao contrário do que se pensa, a discriminação sexual na ciência não é uma questão que foi resolvida pelas gerações anteriores de mulheres cientistas. E afeta a todas nós ainda hoje.
A questão familiar, como ter que cuidar dos filhos, é um quesito que influencia na quantidade de mulheres envolvidas com ciência? De que maneira?
Sim. A carreira científica é árdua e necessita de atenção e dedicação constantes. Não bastam as 40 horas semanais, são necessárias viagens constantes, participações em congressos e outras reuniões, produção científica, docência e extensão. Essa grande quantidade de tarefas conflita com a necessidade de cuidado com os filhos e, por vezes mostra-se incompatível com um exercício consciente, presente e ativo de maternidade. Muitas cientistas precisam se separar de seus bebês precocemente para retornar ao trabalho, uma vez que o habitual é a jornada de 8 horas diárias. Embora algumas instituições permitam uma flexibilização dos horários, isso não é bem visto pelos companheiros cientistas e, novamente, a mulher será alvo de discriminação. Assim, é muito frequente, como já mencionei, o abandono da carreira ou a pausa para a criação dos filhos ou, ainda, a aposentadoria precoce. No entanto, é importante mencionar que a cientista que opta por fazer uma pausa em sua carreira para cuidar dos filhos dificilmente conseguirá voltar ao cenário acadêmico de maneira satisfatória, uma vez que, em ciência, as coisas tendem a se tornar obsoletas muito rapidamente, e é necessária atualização e produção constante, inclusive exigido pelas agências de fomento como critério para a concessão de incentivos.
Como conciliar os trabalhos acadêmicos e pesquisas com a maternidade, sem que nenhuma das partes (incluindo, claro, a mãe) seja prejudicada?
Essa é uma questão difícil de ser resolvida e as soluções existentes hoje são parciais e insatisfatórias. Algumas universidades disponibilizam creches para os filhos de seus funcionários, locais que permitem, inclusive, o prolongamento da amamentação em função da pouca distância, se essa for a escolha da mulher. No entanto, as demais exigências da carreira acadêmica acabam sendo conflitantes com a função materna. Não que não seja possível, obviamente é possível, tanto que muitas mulheres cientistas têm filhos pequenos e, ainda assim, continuam a desempenhar bem suas funções acadêmicas. No entanto, não dá pra negar que essas crianças passam muito menos tempo com suas mães do que poderiam passar. Isso é prejudicial não somente para a criança, mas para essa mulher, que tem reduzida a possibilidade de se dedicar mais ativamente a seus filhos. É muito doloroso precisar se separar de um filho ainda bebê, muitas vezes ainda amamentado, para retornar a um ritmo de trabalho muitas vezes extenuante. É, inclusive, uma justificativa utilizada para o desmame precoce. Não raro, se observam afastamentos posteriores por parte dessas mulheres em função de problemas de saúde emocional. Afinal, não dá pra negar que é extremamente desgastante e doloroso precisar, obrigatoriamente, abrir mão da companhia de seus filhos para retornar às suas atividades. E engana-se quem pensa que, findada a jornada de trabalho, estão findadas as obrigações. Muito do trabalho acadêmico precisa ser continuado em casa, em horários que deveriam e precisariam ser da pessoa, para si e/ou sua família.
São exceções quem consegue desempenhar com excelência ambas as atividades - a carreira e a maternidade. Seria necessário um tempo maior de licença maternidade e jornadas flexíveis que permitam à mulher dar conta de tantas tarefas e, principalmente, que permitam sua adaptação à nova condição. Obviamente, isso precisaria vir acompanhado de apoio, compreensão e incentivo por parte de seus colegas cientistas homens. E acredito sinceramente que esse é o maior problema... Inclusive, utilizado como forma de excluir mulheres dos processos de seleção.
Mas tenho esperança que, num país agora governado por uma mulher, e onde as conferências sobre políticas públicas para mulheres estão ocorrendo e prometem dar origem a ações práticas, isso possa mudar. A própria Universidade Federal de Santa Catarina, onde fiz meu primeiro doutorado e onde estou fazendo, no momento, o segundo, vive um momento muito positivo, com a recém eleição de duas mulheres para os cargos de reitora e vice-reitora, pioneiras nisso. Tenho esperanças na mudança desse cenário.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Como salvar uma parede do (nada) temível giz de cera

Estava eu aqui muito concentrada trabalhando, tranquila por ter minha filha no campo de visão.
Na última olhadinha que dei nela, há cerca de míseros 5 minutos, estava ela bem contente, cantando, enquanto desenhava com giz de cera sobre a mesinha que a dinda deu.
Concentrei e mandei bala no texto. No som de fundo, comecei a ouvir um chiadinho, ric ric ric ric, misturado com um ô-o, á-a, ô-o, á-a. Percebi que ela estava feliz onde estava, fazendo o que estava fazendo, e continuei no texto.
E então, cinco minutos depois:

RA-BIS-COU  TO-DA  A  PA-RE-DE COM GIZ DE CERA, patacaparéu... (é pra ler assim mesmo, na base da pausa).
Levantei e "Clara, filha, com tanto papel aqui, foi riscar logo a parede?!".
Veio lá de dentro o pai dela, olhou, mãos na cabeça, cara de "ferrou!", que foi logo substituída por uma cara de orgulho. Sacomé, o cara é desenhista, acha leendo... Foi lá e click, pegou essa cara linda aí de cima, da Jackson Polock mirim em êxtase com sua obra.
Aí vai a mãe aqui. Para o texto, pega aquele produto de limpeza com nome de tablóide de imprensa marrom, pega o pano, esfrega-esfrega-esfrega. Não faz a menor diferença.
Aí vai o pai com a borracha e, com umas 28 esfregadas, consegue remover 5 milímetros do desenho.
Aí vai a mãe com a água sanitária, criança lá pra dentro porque o cheiro é forte, adeus unhas, e manda ver na força no braço da ex-jogadora de vôlei aposentada por 2 ligamentos de joelho a menos.
Nada.
Sai a jogadora e entra a autora de material didático de ciências. É giz de cera. Cera é solúvel em que mesmo? Em gordura. Então deve sair com detergente.
Vai lá a mãe, pega a esponja, o detergente, dá uma esfregadinha e... parede limpa de novo para alegria da família!
Quer dizer... mais ou menos.


Acho que ela não gostou não...

Então, já sabe: rabiscou a parede com giz de cera? Detergente nela!
Já pensou quanta palmada a galerinha já levou por isso, por puro desconhecimento da mãe?!
Informação é tudo, filhinha...

Nota de esclarecimento: essa carinha de contrariada não foi por nós termos apagado os desenhos da parede, não. Obviamente foi uma encenação. Essa carinha faz parte de um código só dela com a vovó. Ela parou na frente da parede, eu disse a frase chave, ela fez a carinha que é pra vovó e eu cliquei. Deu uma composição que parece real mesmo... Dez minutos mais tarde, ela pegou o giz de cera, preto dessa vez, e fez mais uma rabisqueira. Mas ela mesma, na sequência, pegou um papelzinho e fingiu que tirava. Porque ela sabe que não dá pra rabiscar todas as paredes da casa. Dessa semana não passa a compra de um rolo de papel pra forrar algumas paredes pra ela ficar à vontade. Porque ninguém merece querer desenhar e expressar seus dotes artísticos e a censura não permitir, né?


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Campanha contra o aborrecimento

De umas semanas pra cá, tenho notado uma série de alterações em mim. Uma dor de ouvido aqui, uma dor de garganta lá, uma dermatite atópica que aparece acolá, coisinhas que vão aparecendo do nada e, também do nada, desaparecem. Semana passada, depois de fazer as unhas, notei que um dos dedos inflamou, coisa que nunca me acontece. Até que no meio da semana uma dor de dente monstruosa me pegou e me levou pra cadeira da dentista. O diagnóstico: um tratamento de canal mal feito que deu problema e estamos refazendo. Já foram algumas consultas e ainda tenho mais algumas pela frente, que só são prazerosas porque são com uma querida amiga, senão... tá louco, ninguém merece. E numa das conversas, ela me alertou: sua resistência por algum motivo caiu e algumas bactérias estão se aproveitando disso.
Andei pensando nisso, nesses sucessivos probleminhas que andam me aparecendo. E rapidamente matei a charada: estresse violento, daqueles que nos tiram dos eixos. Na verdade, não é um estresse violento. É uma sucessão e acúmulo de pequenos estresses que vão nos desestabilizando física e emocionalmente. Geralmente, sou bem resistente. O que significa que, se está me pegando dessa maneira, é porque a coisa tá pesada pro meu lado.
Quando somos expostos a situações estressantes, há uma cascata de reações que começam no cérebro, passam pelas glândulas adrenais e terminam no sistema imunológico. Nas glândulas adrenais há liberação de adrenalina e cortisol e é esse cortisol que suprime parte da expressão do sistema imunológico. É um troço bem complexo, mas explicando assim já é suficiente pra entender o que acontece. O sistema imunológico parcialmente suprimido é a tal da queda de resistência, quando qualquer coisinha pode virar um coisão, ou pelo menos uma coisa bem incômoda. Mas o estresse não precisa ser, obrigatoriamente, uma coisa ruim. Tudo depende do que fazemos com ele. Isso, entre outras coisas, é explorado num livro muito bacana que li há alguns anos e que recomendo. Chama-se O Fim do Estresse Como Nós o Conhecemos, e vale muito a pena ler.
O fato é que ando tendo muitos aborrecimentos.
Alguns deles por minha própria responsabilidade e por diferentes motivos.
Primeiro: tenho o péssimo hábito de dar bola pra quem nem sabe o que fazer com uma. Gente perdida que não sabe nem onde tá passando o trem, mas quer comprar o bilhetinho. E é lógico que depois vem o aborrecimento. O saco é que o aborrecimento me estraga o humor, não o apetite, o que poderia ser de alguma valia... mas nem isso.
Segundo: acabo me envolvendo em empreitadas que nem queria realmente, aí me sobrecarrego e me estresso com a quantidade de coisa que tenho pra fazer.
Terceiro: tenho dificuldade de dizer "não" algumas vezes e isso me sobrecarrega também.
Quarto: tenho trocado algumas prioridades minhas por prioridades que nem são minhas.
Quinto: tenho me feito de politicamente correta e de compreensiva, guardando coisas que deveriam ser ditas.
Então vou aproveitar que a semana está começando, que tenho um trabalho grande essa semana ao qual me dedicar, e que ao final da semana será carnaval, com a visita tão esperada da minha irmã, pra começar uma campanha contra o aborrecimento.
Vou recolocar em prática alguns esquemas que eu usava e que davam certo, organizar meu dia-a-dia, deixar de dar bola pra quem não vale a pena, cancelar umas empreitadas e dizer muitos NÃOs, pra reorganizar minhas prioridades e ir recuperando minha saúde e tranquilidade. E, principalmente, vou voltar a dizer algumas coisas que quero dizer quando elas precisarem ser ditas. Porque, né? Se tem uma coisa que cresce mais que fungo na unha é gente sem noção que se acha a última coca-cola do deserto e não tem cacife nem pruma aguinha sem gás. Esse negócio de engolir sapo dá câncer, chega disso que o estômago da gente não é brejo.
Já desabilitei as notificações por e-mail das mídias sociais, já fiz uma seleção de e-mails importantes pra responder e não vou mais atender a todas as ligações. Esse negócio de e-mail e celular muitas vezes nos torna escravinho dos outros, já reparou? Virou obrigação responder mensagem sem noção ou atender telefone em horário esdrúxulo. Se você tá de saco cheio, não quer atender ou responder, ainda ouve um "pra quê tem celular se não atende?". Aí se você responde "porque não tava a fim", passa de grossa, vai entender...
Acho que se todo mundo fizesse, uma vez por semestre, uma campanha dessas contra o aborrecimento, as guerras poderiam ser evitadas.
É como diz o Pedro Cardoso, naquele videozinho hilário do qual eu sempre me lembro: "Quer dormir? Vai dormir! É por isso que no mundo é assim, um dorme, um acorda, um dorme, um acorda, porque se todo mundo ficasse acordado, seria a guerra mundial!".
O Millôr Fernandes diz uma coisa muito verdadeira: "Certas coisas só são amargas se a gente as engole".
Se a gente não as experimenta, então se tornam nada.
Fugir de aborrecimentos é mais ou menos isso: não tomar a dose que não lhe cabe.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vem pra casa você também! Quando a casa, o escritório e os filhos estão todos no mesmo lugar

Vai lá visitar o Minha Mãe Que Disse!

Esse é um texto pra quem está pensando em mudar de vida, trabalhar em casa e ficar perto dos filhos.
Esse é um texto pra quem já fez isso. 
Esse é um texto pra quem não vai fazer isso e quer saber como é que é.
Esse é um texto que conta como foi que nós, mulheres que querem uma vida familiar saudável sem abrir mão do desenvolvimento profissional, estamos conseguindo conciliar as duas coisas nesses novos tempos de empoderamento feminino.
Mas pra ler esse texto, você tem que fazer uma visitinha ao tudo de bom Minha Mãe Que Disse!, o super site da Mari, da Flavia e da Roberta, porque eu escrevi especialmente pra ele.
Vai lá!
E, depois, vem pra casa você também! Vai ter bolo... e reunião, e criançada, e alegria e amor!
Só um trechinho:
E foi então que, da insatisfação com a situação, surgiu um terceiro grupo... Um grupo disposto a encarar uma nova revolução feminina. Um grupo disposto a dar um novo salto. Um grupo que se levantou um dia e disse: se eu sou mulher e, para mim, é tão importante ter uma família com quem conviver de maneira próxima, presente, constante, quanto ser uma profissional bem sucedida e realizada, deve haver uma maneira de conciliar tudo isso. E foi quando perceberam que, se era em casa que estavam suas crianças, então seria em casa que iriam trabalhar. Essas são as mulheres que mudaram suas vidas profissionais depois que os filhos nasceram. Porque não conseguiram aceitar o fato de ter que delegar os cuidados com seus filhos pequenos a terceiros se quisessem voltar a trabalhar. Porque queriam cuidar das crianças de maneira presente sem ter que abrir mão de seu desenvolvimento profissional.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre amamentação prolongada e desmames precoces

Quem amamenta sabe que amamentar envolve doação, entrega, dedicação, presença atenta, solicitude. Envolve você se doar para isso, para alimentar seu filho e aumentar cada dia, a cada mamada, mais um pouquinho do vínculo.
Envolve o querer do filho e o querer da mãe.
Quem diz que mamar até mais de 1 ano é manha, não faz a menor ideia do que está falando. Na maioria das vezes, está apenas usando o senso comum como referência bibliográfica, já que tem preguiça, preconceito ou desinteresse por leituras realmente relevantes. Substituir a amamentação pela mamadeira quando se pode amamentar é uma coisa que me entristece, embora eu não me meta nas vidas alheias, porque é substituir o acalento da mãe, seu colo e seu calor por uma mamadeira que, muitas vezes, é dada na mão da criança para que ela tome sozinha, sem a presença física da mãe, com frases como "Olha, que bonitinha! Tomando mamadeira so-zi-nha! Que menina grande, tá virando uma mocinha". Uma criança que poderia estar no colo da mãe, recebendo carinho, calor, leite e tudo o que vai junto. Fazer isso há 20, 30 anos atrás, quando a informação não estava a um clique de distância de você e, sim, reunida em grossos e desatualizados volumes da Barsa, ainda vá lá. Mas hoje? Na era da informação? Quando com um simples clique você descobre nome, sobrenome e data de nascimento de todos os filhos do casal Jolie-Pitty? Vai me desculpar, mas ao invés de ligar pedindo a eliminação no Big Brother, poderia destinar uns 10 minutos pra se informar melhor. É claro que cada pessoa vive uma história, mas o que se vê, na real mesmo, é um grande desinteresse na busca ativa de informações e uma maior tendência à aceitação do que "se diz por aí".
Alguns dizem que desmamar estimula a independência da criança. Quem foi que disse que uma criança de 1 ano, 1 ano e meio, 2 anos, precisa aprender a ser independente? Querer a independência de uma criança dessa idade é uma forma um pouco esquisita de delegar à vida algo que seria de responsabilidade da mãe e do pai. E as pessoas ainda comentam, com certo grau de estranhamento, sobre como os indivíduos andam tão individualistas pela vida, como tem havido pouco vínculo no mundo, como as pessoas têm estimulado o individual em detrimento do coletivo, o isolamento ao invés da ligação. Não me parece estranho, me parece coerente. Ligação, coletividade, reciprocidade, vínculo não é algo que se cria quando adulto, é algo que se constrói juntamente com a construção das personalidades.

Eu amamento minha filha desde a hora em que ela nasceu e nos vimos pela primeira vez. Tive o grande privilégio biológico de produzir muito leite nos meses iniciais, que foram suficientes para doar semanalmente ao hospital infantil da cidade cerca de 1 litro e meio. Com o tempo, a produção se adequou às necessidades diárias dela, foi se adaptando às fases que nós vivíamos.
Hoje, ela se alimenta muitíssimo bem, e continua mamando.
Houve um período em que pensei que ela estava começando, por si só, um desmame. Reduziu muito o número diário de mamadas, passou alguns dias sem mamar nenhuma vez durante o dia, mamava apenas a noite.
Mas de um tempo pra cá, a coisa mudou...
Ela tem mamado inúmeras vezes, dia ou noite e, embora eu continue achando o momento de amamentar uma coisa incrível, de puro amor, tenho estado bastante cansada...
Então o meu cansaço conflituou bastante com tudo o que penso, que esbocei nas primeiras linhas desse texto. Porque uma coisa que envolve tanto amor e doação é pra ser legal, é pra ser prazerosa, não é pra ser penosa ou cansativa. Com certeza havia algo que eu poderia mudar...
Então eu, quietinha no meu canto, andei atrás de leituras sobre o assunto. Li coisas muito bacanas, escritas por gente do bem. Seria muito mais fácil, em teoria, aceitar o cansaço e decretar o desmame. Mas eu já entendi faz tempo que facilidades aparentes guardam muito de perigoso e potencialmente nocivo. Então eu fui atrás de salvar a amamentação. 
Foi quando, então, duas amigas, em diferentes momentos, resolveram também falar sobre o assunto, uma querendo suscitar o debate entre mulheres esclarecidas e a outra, com filha quase da mesma idade que a minha, abrindo quase literalmente o peito e contando que também estava vivendo uma espécie de crisezinha envolvendo a amamentação.
Consegui externalizar a questão, para benefício meu e da Clara, identificar o ponto problemático e, mais uma vez, aprender. 
Nós aprendemos muito com os filhos, ainda que eles não tenham vindo para nos ensinar. Mas podemos aprender muito também com a companhia de mulheres que se dedicam a estudar a maternagem, que não se contentam com os padrões comuns, que vão fundo em seu próprio fundo. 
Conversamos sobre o uso da amamentação como presença afetuosa, como consolo, como amparo. Sobre a importância da entrega, da doação, do gesto. Do que significa o "mamar" para a criança, de como a amamentação tem fases mesmo, que é preciso conhecê-las para procurar mudá-las. Falamos sobre desmame, sobre cansaço, sobre nos cuidar mais, dar atenção a nós mesmas, fazer coisas que gostamos, porque muitas vezes um cansaço com algum aspecto do maternar reflete, apenas, uma insatisfação com outros lados da vida, ou falta de atenção que é dada a si mesma. É importante identificar isso e, de posse dessa reflexão, mudar o que precisa ser mudado, sem permitir mudanças negativas em outros lados que nada tem a ver com o problema original. Considerando a criança, e também a mãe.

Num maternar ativo, não é só a mãe que tenta compreender a criança, para diminuir suas angústias e ansiedades. A criança que é criada com afeto, presença e conexão também faz isso com sua mãe.
E em meio às conversas e debates sobre o assunto, Clara me mostrou algo daquelas coisas incríveis que só acontecem entre duas pessoas que se entendem e apoiam. 
Estávamos na praia quando uma criança quase da idade dela começou a chorar próximo a nós. Clara tem um sentimento de classe de dar orgulho a Karl Marx, não pode ver criança chorando que se identifica, na forma de um choro de camaradagem impressionante. Enquanto ela não sente que está realmente tudo bem com o outro, não para de chorar. Bem, mas nesse momento, aconteceu uma coisa diferente. Ela foi até a criança em passos cambaleantes de areia, colocou a mãozinha no ombro dela, baixou a cabecinha como para olhar em seus olhinhos - já que a pequena chorava de cabeça baixa - e disse: Oi. Mamá? Como quem diz: calma, parceira, vai ficar tudo bem. Quer um mamazinho pra se acalmar? 
Então fui lá, conversei rapidinho com a mãe da criança, que me contou o motivo do choro (estavam indo embora da praia) e voltei com minha filha. Naquele momento, minha filha de 1 ano e meio me disse, com todas as letras, o que é, pra ela, o "mamar". 
É apoio. É parceria. É comunhão. Identificação. Ternura. Amparo. Companhia. É "obrigada, mãe, porque você me entende, você está aqui, você está comigo, então vai ficar tudo bem".
É muito mais que alimento.
É afeto.
Todo mundo passa por momentos de dúvidas, de incertezas, de crises, sobre as mais diferentes situações.
O que vale mesmo é o que fazemos com elas. Se elas nos destroem ou se ajudam a nos construir.
E, de tudo o que eu li nesses dias, foi um trecho escrito por uma companheira que eu vou guardar no coração enquanto durar essa minha fase de nutriz e produtora de afeto líquido.
"Quando as pessoas me vêem amamentando, algumas me perguntam até quando vou amamentar. E eu acho aquela pergunta tão sem sentido, que minha resposta, às vezes, é a risada. Só penso: essa pessoa não está entendendo nada do que eu sinto. Perguntar sobre a data-final da amamentação é como perguntar a um casal que vive bons dias de relação, até quando ficarão bem..."
Como eu escrevi isso na madrugada, não pude consultá-la sobre se poderia ou não citá-la aqui. Para não expô-la, deixo sem a autoria e depois mudo, se for o caso.

A maternidade trouxe pra mim infinitas oportunidades de crescimento pelo (nada)simples fato de estar criando uma criança. Mas também me trouxe ao convívio pessoas incríveis que, de outra forma, talvez eu não tivesse encontrado pelo caminho...
Eu ainda não penso efetivamente no desmame. Pode ser que eu venha a pensar mais pra frente porque, como eu disse, é um processo de mão dupla, tem a ver com o filho e tem a ver com a mãe. Mas, por enquanto, tá tudo muito bem assim.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A criação com apego e a neurociência

O que determina as características de personalidade de uma pessoa e, consequentemente, de um grupo social? O que determina que uma pessoa se torne deprimida, ansiosa, paranóica ou que desenvolva outro transtorno emocional? 
A constituição genética? O ambiente? As vivências ao longo da vida? O suporte emocional que recebe? O grau de afeto recebido na infância? Coisas que ainda não sabemos e que a ciência ainda não explica? Sim, tudo isso.
Qual desses fatores tem maior ou menor peso nessa misteriosa e inexata matemática? 
Taí uma pergunta para a qual não se tem uma clara resposta.
Como saber, então, de onde vêm essas mazelas? Não sabemos ao certo, de forma que não podemos controlá-las. Mas se sabemos que determinadas práticas, situações e experiências contribuem decisivamente para que elas não apareçam, então passamos a nos apoderar desse conhecimento na tentativa de evitar o sofrimento. Não é garantia de que iremos conseguir, mas estaremos assumindo a parte que nos cabe nesse vasto e complexo latifúndio.
Não temos como controlar quais genes vamos passar - ou já passamos - para nossos filhos. Não sabemos, em termos de constituição biológica, quem são ou o que há dentro deles, qual o gatilho que está pronto para ser acionado - de bom ou de nem tão bom assim.
Mas podemos, pelo menos em parte, no dia-a-dia, dentro de casa, nas experiências cotidianas da família, selecionar ambientes e experiências aos quais queremos expô-los ou não. 
Aí entra a criação com apego, tradução pouco precisa para o termo em inglês attachment parenting. E que vem recebendo críticas descabidas de gente que não faz a menor ideia do que está falando. Num mundo onde o apego emocional vem sendo ridicularizado na mesma intensidade que se incentiva e se fortalece o apego material, ainda em tenra infância. Virou piada você dizer que amamenta um filho de mais de dois anos, ou que procura compreender seus anseios e inseguranças no lugar de agir autoritariamente, ou que evita deixá-lo chorar. Pessoas presas aos seus próprios preconceitos e ligadas ao que o senso comum propaga como sendo verdades inquestionáveis, ainda que fruto da ignorância, tendem a associar a criação com apego à falta de limites, à permissividade, construindo em suas cabeças um falso perfil dos pais que assim criam seus filhos como sendo seres irresponsáveis, criando filhos sem limites. Como se a oferta desmedida de apego e amor fosse contribuir para pessoas naturalmente sem respeito pelo espaço alheio, físico e emocional, numa clara e clássica inversão pós-moderna de valores, marcada pela predominância do automático sobre o intuitivo, do mecânico sobre o emocional, do artificial sobre o natural. Quando o que se vê na realidade é claramente o oposto: jovens sem limites justamente por não terem recebido nenhum grau de atenção em casa, que não tiveram a presença carinhosa dos pais, ou que foram vítimas de maus tratos emocionais ou físicos. 
Criação com apego não tem nada de permissividade ou de liberou geral. Muito pelo contrário: busca-se ensinar e mostrar os próprios limites e seus limites no mundo. Mas os ensinamentos e orientações são passados com base em conceitos de amor, compreensão e respeito. Não na base da força e do autoritarismo do mais forte para com o mais fraco.
O termo attachment parenting foi utilizado pela primeira vez por um médico, William Sears, com base na teoria do apego, que leva em consideração o fato de que a criança, durante sua infância, tende a criar um vínculo emocional bastante forte com seus cuidadores que gera consequências durante toda sua vida. A criança busca proximidade com o outro e quer se sentir segura quando ele está presente. Suas ideias e práticas subentendem que os pais ou cuidadores estejam emocionalmente disponíveis de forma a promover o desenvolvimento sócio-emocional da criança de maneira segura e amorosa e a evitar que a criança desenvolva o que se chama de apego inseguro, aquele que é baseado no abandono, no apegar-se porque não se teve. 
Em 1951, o psicólogo, psiquiatra e analista John Bowlby sugeriu que a privação materna durante a infância poderia levar ao desenvolvimento de adultos deprimidos ou hostis ou, ainda, com  problemas para se relacionar de maneira saudável com outras pessoas. Isso na década de 50, quando muito pouco ainda se sabia sobre como o cérebro processava a depressão, a ansiedade e outros transtornos afetivos.
Com o andar da carruagem, alguns pesquisadores, na década de 70, começaram a divulgar resultados de pesquisas comportamentais com primatas, mostrando que o rompimento da ligação entre mãe e filhote levava a comportamentos violentos e agressivos no primata adulto. Mas, afinal de contas, isso era apenas um estudo experimental e as pessoas tendem a repelir o que não é feito em humano, ainda que toda a nossa psicologia comportamental, neuropsiquiatria e neurobiologia tenha sido construída sobre observações comportamentais de animais e extrapolações biológicas.

De acordo com a Attachment Parenting International (API), uma organização sem fins lucrativos que busca "orientar pais e cuidadores para uma educação segura, empática, rica em afeto e amor, visando criar laços familiares mais estreitos e, assim, um mundo mais compassivo", existem 8 princípios que promovem o apego saudável e seguro entre o cuidador e a criança, que são chamados de Princípios para uma Educação Intuitiva:
  1. preparar-se verdadeiramente para a gravidez, parto e maternidade/paternidade
  2. alimentar seu filho com amor e respeito
  3. responder às solicitações da criança com sensibilidade
  4. estar atento à qualidade do toque
  5. prezar pela qualidade física e emocional do sono da criança de forma que ela se sinta segura dormindo
  6. sustentar atitudes carinhosas
  7. praticar a disciplina positiva, baseada no reforço das boas atitudes
  8. buscar o equilíbrio na vida familiar
Embora outras práticas tenham sido associadas, atualmente, à criação com apego - como o parto natural, o parto domiciliar, a cama compartilhada, a amamentação prolongada, a desescolarização, a vida comunitária, entre outras - não existem regras, nem normas, nem padrões rígidos. Não há ditadura, ao contrário do que dizem os que não querem nem saber do que se trata. Há liberdade de escolha por práticas que tenham a ver com a cultura familiar e que, ainda assim, promovam o apego seguro entre pais e crianças.
Isso não é papo de gente bicho-grilo, alternativa, natureba ou seja lá o apelidinho de cunho pejorativo que você, por puro preconceito ou desconhecimento, queira dar.
Isso é coisa de gente muito esclarecida, principalmente do ponto de vista emocional. De gente que quer olhar para além de seu próprio umbigo e que se importa com a qualidade das pessoas que estamos deixando no mundo, com a qualidade da saúde emocional de seus filhos e da qualidade de vida que eles terão lá adiante. De gente que, a despeito das diferenças, comunga em um ponto fundamental: vê na criança algo além de um pequeno corpo, vê uma vida a se realizar, uma infinita possibilidade de amor e de crescimento, vê um mundo em seu constante vir-a-ser.
Não existem regras a serem seguidas, nem dogmas, não é uma religião. Basta apenas saber que a qualidade do afeto que as crianças recebem tem, sim, totalmente a ver com quem ela vai se tornar no futuro. E ao contrário do que existia na década de 50, hoje a ciência de ponta já tem condições de mostrar onde e como as mudanças acontecem nos indivíduos criados com amor.
Apenas a título de exemplo. Essa semana foram publicados, no periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America) os resultados de um estudo que mostra que o bom cuidado materno na infância leva ao aumento de uma estrutura cerebral chamada hipocampo. Estudei bastante as funções do hipocampo em meu mestrado e no meu primeiro doutorado, quando estudei a neurobiologia da ansiedade e da depressão. De acordo com esse estudo, há uma clara relação entre os fatores psicossociais da infância e alterações no tamanho do hipocampo e da amígdala, estruturas cerebrais relacionadas à memória de curto e longo prazo e ao comportamento emocional, respectivamente. Isso mostra que existe, realmente, uma ligação entre as experiências afetivas que a criança vive na infância e a forma como seu cérebro se desenvolve. Os pesquisadores estudaram, por meio de técnicas de neuroimagem que permitem visualizar o cérebro sem procedimentos invasivos, as características cerebrais tanto de crianças em idade pré-escolar deprimidas quanto de crianças emocionalmente saudáveis. E concluíram que o cuidado materno recebido na primeira fase da infância teria, sim, ligação com o tamanho do hipocampo, o que levaria, inclusive, a diferentes padrões de respostas ao estresse. Crianças emocionalmente saudáveis apresentaram hipocampos maiores, quando comparados às crianças deprimidas, e isso pôde ser relacionado ao grau de cuidado materno recebido quando eram menores. Embora quase a totalidade dos cuidadores do estudo tenham sido mães, os autores acreditam que isso possa ser extrapolado para qualquer cuidador que seja o principal responsável pelos cuidados afetivos com a criança (mãe, pai, avós ou outros).

Já faz tempo que a ciência mostrou que a modificação de um comportamento muda, também, o cérebro do indivíduo, causando, consequentemente, uma nova modificação do comportamento. É nisso que se baseia, por exemplo, a psicoterapia cognitiva-comportamental. A mudança de comportamento altera a estrutura cerebral e essa alteração muda seu comportamento. Um círculo sem fim.
Sabendo disso, é fácil compreender, então, que a forma como se trata uma criança altera seu cérebro. E que esse cérebro, assim alterado, promoverá comportamentos relacionados. 
Quando você cria com apego seguro, você está moldando um cérebro para que ele possa atuar com toda sua potencialidade, sem amarras, sem más resoluções, sem entraves.
E se você se esquivava de conhecer o que diz essa forma de maternar e paternar por puro preconceito, achando que era coisa de gente antiquada, atrasada, com pouco conhecimento, bicho-grilos, ingênuos, naturebas, alternativos, e afins, trate logo de buscar uma nova justificativa. A moderna ciência, a neurociência de ponta, está ao lado que quem opta por maternar/paternar com afeto e apego, mostrando que estamos certos ainda que tenhamos optado por isso de maneira intuitiva e não científica.
Ou, se quiser, pode remodelar você mesmo seu próprio cérebro e mudar o seu comportamento, abrindo um pouco a sua mente, deixando de lado a discriminação e o preconceito baseados no senso comum, nas lendinhas urbanas e nas histórias da carochinha, para aceitar que não há nada melhor do que criar uma criança com amor, sem ressalvas, sem poréns, sem medo, deixando o instinto falar e o apego rolar solto.
Num mundo onde o apego material tem sido reforçado e incentivado, prefira o apego emocional seguro, fruto da abundância.
Não da falta.

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