quinta-feira, 31 de maio de 2012

Paulo Freire e as mães

Minha forma de entender o mundo, se eu pudesse categorizá-la (não posso, mas se pudesse), é bastante paulofreireana.
Considero que, como pessoa, eu me formo na minha relação com o mundo. Mundo esse que, por ser composto por situações, e sendo essas situações bastante variáveis, também é muito variável. Se eu me construo por interagir com algo variável, então compreendo que é preciso, também, refletir sobre essas variações e mudanças e, se for preciso, também mudar.
Ação e reflexão: esse é um dos propósitos humanos, segundo Paulo Freire.
Agir e refletir sobre seus atos, de forma que a ação mude e gere uma nova reflexão. Até que, um dia, seu coração pare e você não tenha mais condições de refletir sobre isso. Mas, até lá, agindo e refletindo.
O objetivo desse jogo da vida seria, então, agir, avaliar, aperfeiçoar a ação, agir novamente, reavaliar e vamos que vamos.
E, porque acho que a vida deve ser vivida assim, é assim também que penso a maternidade.
Quando fiquei grávida, por não saber nada sobre isso nem ter muitas amigas mães, achava que as coisas eram meio pré-definidas, que não haviam tantas possibilidades, que havia apenas um lugar para parir, uma só forma de alimentar, um só jeito de transportar o bebê, uma só forma de voltar ao trabalho, aquela coisa que a gente só sabe de ouvir falar, nunca tendo ido muito a fundo. E foi então que, com o crescimento da barriga - que crescia muito menos que minha intuição (essa sim, alcançando proporções inacreditáveis e tomando-me por completo) - descobri que as possibilidades eram muitas.
E qual foi meu deslumbramento frente a essa quase infinidade de formas de viver a vida como mãe, de cuidar de uma nova pessoa, de tornar-me, também, uma nova pessoa! Quão grande foi o meu espanto diante da vida e sua amplitude e sua riqueza, experimentado pelo simples fato de ter me tornado mãe - esse evento biológico, quase corriqueiro, que por tantas vezes é feito sem qualquer tipo de reflexão ativa sobre a busca de possibilidades.
E, desde então, esse tem sido o meu caminho: a busca constante de possibilidades.
Questionar-me, constantemente, sobre "Como posso fazer isso?", "Quais são as possibilidades?", "Será que só assim?", "Será que não consigo fazer diferente?".
E, agindo, refletindo sobre a ação e a readequando quando necessário, tenho estado, geralmente, satisfeita com as escolhas nesse - tão novo, para mim, mas já tão profundamente imerso nele - mundo da maternidade. E é quando a insatisfação aparece que a busca por possibilidades recomeça...
A história de cada um de nós e a história dos nossos filhos são apenas possibilidades, são devires, como diria Paulo Freire. O que talvez tenhamos de concreto são, apenas, os propósitos. A emancipação humana, ao meu ver, passa por termos a liberdade de construir nossas histórias, e contribuir para a construção das histórias dos nosso filhos, não a despeito das inúmeras possibilidades, mas justamente em função delas. Nossa história, ao final do caminho, poderá ser contada então pela análise das escolhas frente às possibilidades e, principalmente, pelo grau de liberdade, ação e reflexão que se pode ter frente a elas. Algo como: "aqui jaz uma mulher que teve tais e tais possibilidades e, usufruindo da liberdade que conquistou como ser autônomo e emancipado, aproveito-as ou as deixou de lado e, em função disso, essa foi a sua história".
Tudo isso pra dizer que estou passando por um momento de possível mudança com minha filha. Ainda que a mudança não se concretize, só pelo fato dela permear meus pensamentos atuais, algo já irá mudar. Ando pensando e repensando alguns fatores que pareciam já estabelecidos, mas que talvez precisem ser revistos. Estou revendo planejamentos anteriores, vendo se eles ainda se justificam, se é preciso fazer alguma alteração.
Acredito que maternidade também é isso: a constante avaliação da nossa prática como mães, de forma que ela reflita aquilo que realmente pensamos e valorizamos, o constante ajuste e reajuste, correções de margens e readequações, para que o que era válido até ontem mas parece não ser mais, possa mudar também.
Se a vida é dinâmica, então os ajustes também precisam ser.
E mãe é essa pessoa que age em sua própria vida e na dos filhos em função dos ajustes, escolhas, ações e reflexões que faz. Que, desenhando, desenha a si própria. Que, olhando aquilo que ajuda a construir, vê a si própria em construção - grande Escher...
Quão boas somos nisso?
O quanto cada uma se dedicar a ser.
Quão boas precisamos ser?
O quanto conseguirmos. Sem dor ou sofrimento.
O quanto conseguirmos. Sem vitimização.
O quanto conseguirmos. Mas com dedicação e empenho ativos.
O quanto conseguirmos, mas sem essa de deixarmos as decisões que dizem respeito somente a nós nas mãos das outras pessoas.
Como mães, nossa opção é progressiva.
Como mães, estamos a favor da vida.
Como mães, é preciso entender o que é equidade para, só depois, termos condições de ensiná-la.
Como mães, não temos outro caminho a não ser viver a nossa opção: ser mãe.
E, assim, "encará-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos".
Depois de ter me tornado mãe, gosto ainda mais de ser gente.
Porque... "inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado" (Paulo Freire).

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Quem tem medo da febre?

Quando minha filha nasceu, eu era a Louca da Febre. Tem o louco de palestra, o louco de hospital, o louco de supermercado,o louco de laboratório de análises clínicas, o louco de trânsito, o louco de bar, o louco de dieta. Eu era a louca da febre.
Quando criança, tive alguns episódios de delírio associado a febre alta. Achava que minha avó tinha virado bruxa e queria me espetar com a agulha, via rolo compressor vindo em minha direção no deserto, enxergava minha mãe com 8 braços e, certa vez, fui perseguida pelo Scooby Doo, o que me causou um grande pânico... E como a gente traz pra vida adulta certas neuroses da infância, tinha medo que isso acontecesse com a Clara.
Então, ao menor sinal de febre, eu dava plantão ao lado dela de termômetro em punho. Checava frequência cardíaca e colocava a mão sobre o peito pra checar respiração (quem nunca?).
Mas essa paranoia desvairada durou pouco, felizmente.
Logo comecei a perceber que aqueles episódios inexplicáveis de febre, que vinham do nada e também do nada partiam, precediam grandes saltos de desenvolvimento, mesmo aqueles que ocorriam fora dos períodos tradicionalmente conhecidos como tais. Após uma febrícula, sempre surgia uma grande novidade no repertório comportamental dela, novidades incríveis.
Então entendi a naturalidade da situação, recuperei a sanidade e desenvolvi aquela habilidade recessiva do cromossomo X, que só acontece em homozigose e se manifesta após a maternidade: a incorporação somática do termômetro. Hoje, não uso mais o termômetro instrumental, aquele digital ou o que tem mercúrio (que é bem perigoso). Meu termômetro é aquele tradicional, antigo e não falha: minha bochecha. Sei exatamente se ela está ou não com febre e de quanto, mais ou menos, ela é. Mais uma para o rol do "bem que minha mãe me avisou que isso iria acontecer...".
Hoje, não surto mais quando o assunto é febre - pelo menos não tanto. Aprendi a valorizar meu dom de cientista também nessas situações: a observação atenta do comportamento e dos sinais. Quando não há qualquer sintoma associado à febre e ela não é assim tão alta, observo, espero passar e, dias depois, - batata! - lá vem a novidade. Obviamente, quando ela não passa, então vamos para uma nova hipótese em busca de uma solução.
Então ontem, o filho da comadre teve a tal febre sem sintoma.
Compartilhei com ela um texto bem bacana que me ajudou na melhor compreensão disso.
E porque é bem interessante - e ajuda a acalmar o coração valente das mães - compartilho aqui também.
É o texto Quem tem medo da febre?, que está disponível no site da Sociedade Antroposófica do Brasil. Uma entrevista com Samir Rahme, médico antroposófico com muitos anos de experiência, publicada na revista Arte Médica, ano III, n.3, novembro de 2002.
Em tempo, um comentário para os loucos de medicamento (aqueles que acham que tudo que não é terapia medicamentosa é radical, imoral ou engorda): é bom saber que, muitas vezes, o tratamento com antitérmico, que geralmente é enfiado goela abaixo aos 5 minutos do primeiro tempo, pode piorar a situação, ao invés de ajudar. A febre é um mecanismo natural de defesa, muitos agentes patogênicos não sobrevivem em temperatura maior que a natural do organismo. Combatê-la assim, sem mais nem menos, é impedir a defesa natural do corpo.
A febre é um dos sintomas mais freqüentes na infância e uma das maiores causas de visitas ao consultório pediátrico. Muitos pais e mães ficam apavorados quando o termômetro começa a subir... Será que é algo grave? Será que esta febre vai causar convulsão? Quem nos responde estas perguntas é Samir Rahme, presidente da SBMA e médico antroposófico com mais de quinze anos de experiência – muitos deles dedicados à compreensão do papel da febre no equilíbrio de nossos processos vitais.
AM. Como você encara a febre hoje? Ela pode ser benéfica e ter uma função específica para o ser humano?
Samir. A febre, em princípio, é sempre boa. Ela tem um papel fundamental na dinâmica do nosso sistema imunológico, ativando a liberação de anticorpos e de outras substâncias de defesa que vão permitir ao organismo lidar com possíveis “invasores”. Hoje sabe-se que é esse mesmo calor que inibe o crescimento de bactérias e aniquila os vírus, ou seja, o calor põe tudo no lugar, renova o organismo. Isso já foi amplamente reconhecido pela comunidade científica tradicional. A cultura do medo da febre e a tendência de combatê-la rapidamente instalaram-se em nossa sociedade nos últimos 50 anos em virtude de uma grande estratégia de marketing da indústria farmacêutica. Considero esta tendência muito nociva para a nossa saúde. Em minha opinião, a febre é um fenômeno relacionado ao desenvolvimento da nossa individualidade. Essa é a grande tarefa da febre na nossa vida. E não é à toa que a maioria dos episódios febris ocorre do nascimento até os 7 anos.
AM. Então os médicos antroposóficos valorizam a febre um pouco mais do que o fazem seus colegas da alopatia, certo?
Samir. Certo! Para nós, ela representa a chance de desenvolvimento da verdadeira individualidade e liberdade em relação aos condicionamentos genéticos. Quando as crianças contraem as doenças denominadas exantemáticas, ou seja, que se manifestam por meio da pele, como o sarampo, a rubéola e outras – e que sempre são acompanhadas por febre –, é uma grande oportunidade para o organismo infantil “quebrar” e eliminar as proteínas herdadas, criando novas estruturas a partir de si mesmo. Na Europa, muitas mães ainda cultivam a antiga tradição de levarem os filhos para visitar as outras crianças com doenças exantemáticas com o objetivo de proporcionar uma imunização natural. Mas, hoje em dia, fica cada vez mais difícil para esse pequeno ser usufruir os benefícios que estas doenças “naturais” podem lhe proporcionar. De um lado, temos as vacinas e de outro os antitérmicos...
AM. O calor vivenciado através da febre tem uma função para nós?
Samir. Segundo a Antroposofia, nós, seres humanos, temos um organismo com quatro componentes básicos, que didaticamente chamamos de “corpos”: um corpo físico (terra), um corpo vital (água), um corpo astral ou alma (ar) e um corpo espiritual ou individualidade (fogo). Quando se dá o aumento da temperatura, o que está acontecendo num nível mais sutil, não mensurável por aparelhos, é que a individualidade (o corpo espiritual ou “Eu”) está em seu caminho de conquistar o corpo, está atuando mais de perto, por meio do calor, que é seu elemento natural. O significado do calor ainda é pouco explorado na Medicina, mas já estamos avançando: os mais avançados tratamentos de tumores são feitos com hipertermia.
AM. Como lidar com a ansiedade dos pais?
Samir. O melhor remédio é paciência e conversa. Os médicos devem tentar esta abordagem com os pais, resistindo à pressão. Hoje em dia, tanto na medicina quanto em outras áreas predomina o conceito de FAST(rápido, em inglês), ou sejam, tudo deve ser e ocorrer de maneira rápida, o que não proporciona um desfrutar das situações. Quando lidamos com o ser humano, quanto mais SLOW melhor o resultado e, no caso de afecções do organismo, estamos sempre lidando com a eternidade. Muitas vezes, somos procurados porque os pais já não agüentam mais dar tanto remédio químico para seus filhos, e a reclamação é sempre a mesma: não ficam bons nunca.
AM. E medo da convulsão?
Samir. Poucos pais sabem que as convulsões causadas pela febre ocorrem em apenas 2% das crianças e não dependem da temperatura que a febre alcança, mas da velocidade com que ela sobe. Assim, as crianças propensas a ter convulsões febris poderão ter crises mesmo com febres baixas. Nesta situação, o uso antitérmico está mais que justificado, mas sem nos esquecermos de que estamos lidando com uma minoria.
AM. E como você orienta o tratamento da febre?
Samir. A primeira preocupação do médico é diagnosticar e tratar a doença que provoca a febre, que é apenas um sintoma. Na medicina Antroposófica existem medicamentos naturais, à base de plantas, animais e minerais, que podem ser usados no tratamento das causas da febre. A compressa de limão na panturrilha costuma baixar a temperatura de 1 a 2 graus, sem comprometer o processo como um todo. (Ver receitas abaixo.)
AM. Quais seriam suas considerações finais sobre a febre?
Samir. Vale alertar que numa criança bem nutrida os efeitos de uma febre serão mais bem tolerados do que numa criança desnutrida. Repito que a febre é o remédio mais potente e sábio que existe, devendo ser encarada como uma grande aliada do médico e do paciente. Acho fundamental iniciarmos uma contracultura da febre!

Compressa com rodelas de limão Corta-se um limão em rodelas. Depois, elas são colocadas entre as dobras de um pano e batidas para se extrair o suco. Em seguida, a compressa com as rodelas de limão batidas é aplicada morna na panturrilha e firmemente enrolada com um xale de lã.A compressa de limão pode ser aplicada morna na panturrilha. Um limão é colocado numa vasilha com água suficiente para cobri-lo. É depois cortado e espremido debaixo d’água, fazendo-se diversos cortes na casca para se obter bastante óleo etérico (sumo). Dobra-se um pano de algodão ou linho (pode ser um lenço) de modo que cubra o panturrilha. Molha-se o pano na água com limão, espremendo-o depois com força. Ele é aplicado, sem pregas, ao redor da perna, preso com um pano maior e, em seguida, com um pano de lã firmemente enrolado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mulheres, homens e crianças em marcha pela liberdade - e Xico Sá falando sobre brasileiras que "botaram pra arrombar"

Dia 26 de maio, sábado último, aconteceu em diferentes cidades brasileiras a "Marcha das Vadias 2012".
Muita gente acha esse um nome forte. Vadia.
Mas eu vou dizer o que é forte.
Forte é um homem se sentir no direito de chamar uma mulher de "vaca", por exemplo (é ruim até de escrever, quanto mais de ouvir)...
Forte mesmo é um homem julgar uma mulher porque ela usa um decotão, ou tem um cabelo bem curtinho, ou um cabelo bem comprido, ou usa batom forte, ou fala "como homem", como se existisse forma de homem falar e forma de mulher falar.
Essas coisas não são só fortes, no sentindo de brutais e estúpidas. São atestados de ignorância.
Se você aprendeu com sua família que "uma mocinha faz assim" e "um mocinho faz assado", então você foi criada em um pensamento sexista e, provavelmente, não foi vestida de roupa azul quando pequena, nem teve cabelo curtinho porque isso causava pânico na família.
E isso está impregnado no senso comum e na vida cotidiana.
Mas você sabe o que é a Marcha das Vadias?
É uma manifestação que tem, como base, o respeito à mulher. Incondicional. Mas incondicional mesmo. Não é o respeito à mulher desde que ela faça isso ou aquilo, seja assim ou assado.
Começou assim.
Em 2011, em uma universidade em Toronto, no Canadá,  mulheres foram violentadas sexualmente. E aí um policial veio a público e disse: "As mulheres precisam parar de se vestir como vadias". Isso, além de ignorância, atraso mental e machismo exacerbado, é algo muito grave: é culpar a vítima.
É culpar a mulher pelo fato dela ter sido violentada.
E isso não é assim tão incomum não, pelo contrário. Quantas mulheres já ouviram: "Se vai sair vestida assim, então depois não reclama"?
E aí, pelo mundo todo, começaram as SlutWalks, ou Slut Marchs. No Brasil, a primeira foi em SP, dia 04 de junho de 2011.
Para acabar com a violência sexual, há que se ensinar HOMENS a não violentarem. Não mulheres. Porque não há qualquer comportamento no mundo que dê a um homem autoridade sobre o corpo de quem quer que seja, quanto mais de uma mulher. Viu, senhor doutor? Isso é mostrado muito bem no vídeo do post anterior, na figura do obstetra ali representado.
Então é assim, em poucas palavras.
A forma como uma mulher se veste, fala, vive, sorri, bebe, não bebe, caminha, olha, ama, fica brava, e tudo mais que a caracteriza como uma pessoa singular não é da conta de ninguém, embora tanta gente queira cuidar da vida alheia.
E se uma mulher anda de saia, é porque ela gosta de andar assim. E isso não dá o direito de passar por ela e dizer bobagem.
Não ser submissa - e não ser machão - se aprende - e se ensina - na infância, na forma como as crianças são criadas por suas famílias, pela escola, pela sociedade, pela mídia.
Mas se não se aprendeu lá, sempre é tempo de começar.
Mesmo porquê, nos dias de hoje, se você não quiser aprender isso, é muito provável que vá passar vergonha e constrangimento em público, porque as mulheres estão se empoderando cada dia mais e não levam mais pra casa a ignorância alheia que não lhes pertence.
E é importante ressaltar que não é só nas ruas que as ofensas verbais são direcionadas contra as mulheres. Dentro das casas e instituições também são. E é ali inclusive que mora o perigo...
Se você é mãe ou pai, seu papel é ainda mais importante.
Preste muita atenção no que anda ensinando para seus filhos sobre isso. Que tipo de mensagem você está passando?
Um futuro sem sexismo, sem opressão, sem dominação de uns sobre os outros passa por uma educação rica em respeito.
Agora, tomo a liberdade de postar algumas fotos que estão sendo disseminadas pela internet, com o devido respeito a seus autores. Das centenas de fotos relevantes, essas são apenas algumas que me marcaram. Espero que inspirem outras pessoas a também refletirem sobre o assunto.

Foto de Cecília Santos - Marcha das Vadias SP - publicada em Feminismo na Rede

Marcha das Vadias BH - publicada em Feminismo na Rede (sem autor)

Marcha das Vadias DF - publicada em Feminismo na Rede (sem autor)

Marcha das Vadias Porto Alegre - foto publicada com autorização da doula Maria José Goulart, que a publicou com as seguintes emocionantes palavras: "Maternas Nascer Sorrindo, na Marcha das Vadias! Marchamos orgulhosas, representando as que não puderam estar lá, par dizer que O PARTO É NOSSO! Que queremos parir com prazer, com respeito... Queremos amamentar nossos filhos em público e onde bem entendermos... Pelo protagonismo da mulher! Pelo parto e nascimento com respeito. Pelo fim da violência obstétrica!"

Essa foto SENSACIONAL foi tirada na Marcha das Vadias aqui em Floripa, por Yuri Brah

Marcha das Vadias Florianópolis - Foto de Yuri Brah

Por fim, compartilho essa que, para mim, foi uma das mais especiais, por diferentes motivos. Pela história dessa mulher, pela força que ela tem, por tê-la conhecido na semana passada (quando ela me reconheceu, a partir do Facebook, no CCS- UFSC, permitindo que eu a abraçasse, um abraço que queria ter dado na outra semana, quando conversamos via internet), porque ela está com o filho no colo e o marido ao lado,  segurando a faixa: "Você pode desistir. Eu posso desistir". Laura e sua família. Uma família unida em prol do respeito à mulher.
Marcha das Vadias Florianópolis - Foto de Yuri Brah

Como diz a campanha pela Marcha esse ano, se ser livre é ser vadia, então somos todas.
A começar por Pagu, Luz Del Fuego, Dadá, Leila Diniz, Clarice Lispector e outras célebres brasileiras, sobre quem o sempre genial Xico Sá fala nesse texto aqui, As dez "vadias" históricas do Brasil.



domingo, 27 de maio de 2012

Somos preparadas para o parto. Não para a soberba médica.

Esse vídeo sobre VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA apareceu pela internet nos últimos dias e foi bastante compartilhado.
Embora o conteúdo possa ser abstraído com facilidade, nem todo mundo conseguiu entender o que se fala nele, por ser de língua espanhola.
Mas agora a Marilia Mercer, do GestaLondrina, fez a grande gentileza de traduzi-lo e legendá-lo.
Assista. Vale muito a pena.
Produzido pelo programa argentino "Duro de Domar".
Infelizmente, retrata exatamente o que anda acontecendo com a assistência ao parto. Arrogância e violência que podem acontecer desde as primeiras consultas.
Aproveite e acesse os resultados preliminares do Teste da Violência Obstétrica e veja como de ficção, infelizmente, não tem nada.

"Nunca estaremos preparadas para o sistema de saúde que, seja público ou privado, permite que sejamos atingidas pela violência obstétrica.
Nunca estaremos preparadas para a soberba médica.".

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Uma colcha de retalhos chamada amor... - frutos da postagem coletiva Criação com Apego: mais amor, menos preconceito

No dia 23 de maio, diferentes mulheres participaram de uma postagem coletiva, contando suas histórias particulares de criação de filhos de maneira conectada, vinculada, empática e próxima. 
Se são histórias particulares, o que têm em comum?
Todas são permeadas pelo respeito à condição da criança como ser que compreende, que sente, que vive, que ama, que está se desenvolvendo e precisa de apoio, respeito, amparo, ninho, calor e colo.
Foi a postagem coletiva Criação com apego: mais amor, menos preconceito.
Criação com apego? Criação com afeto? Criação com vínculo? Não importa o nome, sequer precisa haver um. A base é a mesma: ouvir o coração e deixar o amor - não as convenções socialmente impostas - delinear as escolhas.
Não sabemos exatamente quantas mulheres participaram. Mas foram diferentes pontos de vista, diferentes histórias de amor.
Visitei os depoimentos que encontrei e foi como se estivesse abraçando cada uma dessas mulheres, que não conheço pessoalmente (apenas algumas) mas que sinto como se conhecesse, em um abraço solidário, fraterno e de identificação. Foi como se eu pudesse encontrá-las e dizer: "Eu sei um pouco sobre você. Eu entendo um pouco de você. Porque a mãe que mora em mim também mora em você". Um "Namastê" coletivo.
Então, a partir de cada um desses textos, fiz o meu recorte. Cada recorte, de cada depoimento singular, representa um pedacinho, um retalho de vida. Unidos, produzimos uma bela colcha, em um patchwork humano recheado de afeto, por trás das telas nada frias dos computadores. A linha que alinhava todos esses pedacinhos de história é a mesma: crianças sendo respeitadas incondicionalmente e mulheres seguindo seus instintos.
Se você também postou mas seu retalho não está aqui, está convidada a enviar seu depoimento e fazer parte dessa colcha de mulheres.
É daquelas coisas para se ler aos poucos... Um Livro da Sabedoria para se ler nos momentos de cansaço, dúvidas, insegurança e sentimento de que estamos desconectadas.
Não, não estamos. Estamos todas juntas.


Deborah Delage
Ela agora tem quase nove anos. Sabe muitas coisas, me ensina várias. Outro dia me ensinou a jogar xadrez. Fala tudo que pensa e sente, às vezes com muita força. Está crescendo depressa, me surpreende com seus comentários sobre a vida e as coisas. Ah, foi lindo vê-la com o megafone na mão na Paulista, outro dia: " a mulherada desse país merece ter obstetriz!" . De vez em quando me pede pra mamar, rssss.

Simone de Carvalho
Depois de 12 anos após a minha primeira experiência com a maternidade, olho para trás e vejo história de três filhos gerados, um levado por Deus e dois amamentados por três anos. Avalio que passei 6 anos da minha vida amamentando. Para muitas pessoas que me conhecem, isso soa como um absurdo, um exagero e até como uma maternidade doentia. Ouvi de tudo o que podem imaginar... (...)
O tempo foi passando: um ano, dois anos, dois anos, três... Os sinais de independência já despontavam. E eu crescia junto com eles. Até que, o esperado finalmente aconteceu! Ambos em seus momentos distintos, se despediram do seio. Sem choro. Apenas se despediram e estão seguindo as suas vidinhas, felizes, seguros e confiantes.

Frann Castro
É fazer tudo aquilo que vem de coração, do nosso instinto. É ceder quando bate aquela vontade instintiva de pegar o bebê que está chorando e atender as suas necessidades. É criar vínculo. É amamentar com amor. É se dedicar para que essa criança se sinta amada e segura a todo momento. É não bater. É promover o diálogo e a educação baseada em afeto.

Marina Bagnara Fernandes
Ela nasceu e o amor se revelou intenso e caótico. Somos uma em duas agora. Achar o mundo caduco e as pessoas loucas de pedra foi fácil depois disso. Ignorar a maior parte dos conselhos e ir atrás de mudanças de paradigmas foi o segundo passo. Como uma leoa, uma gata, uma mamífera, uma mãe tive vontade de rosnar pra quem entrou no nosso meio, quem mexeu no nosso ninho. Eu era dela e ela era minha. Aos poucos fui limpando o ruído, deixando de lado a interferência, e fazendo do nosso jeito. De forma natural, instintiva, com amor.
As evidências estavam a nosso favor. Quanto mais natural fluía mais harmonioso ficava. O choro diminuía, o cansaço amenizava, a vida era mais simples.

Andreia Mortensen
 Um dos fatos ressaltados nas reportagens recentes sobre AP é que seria um estilo exclusivo de mães que não trabalham fora. Pois estou aqui para comprovar o oposto, que não é somente possível trabalhar fora e praticar AP, como é um estilo excelente de maternagem para se reconectar com o filho após o período de separação.

Natalia Meziat Pina
De diferente dessa vez, vai ser a amamentação. Não vou fazer com que ela desmame precocemente, como aconteceu com a Lu por falta de informação minha. Até onde a gente quiser, vai rolar. Também estou usando alguns carregadores de bebê, que não tive acesso na época da Lu. Isso de slingar é um universo à parte, delicioso e viciante! Já já volto a trabalhar, e sei que nossa proximidade na criação vai ser um alento para todos, tornando a distância mais suportável.

Tatiane Rocha
Sem saber exatamente o que era o “attachment parenting”, simplesmente segui os meus instintos mais profundos. E, silenciando a voz do coletivo, fui ouvindo a minha vozinha interna. Algumas unanimidades de “como criar seu filho” simplesmente não me satisfaziam. Então, o ponto crucial foi reconhecer minha filha como pessoa, com sentimentos próprios, ainda que eu não tenha a capacidade de compreendê-los. Ela não era um objeto que poderia ser manipulado de qualquer forma, ou um animalzinho que preciso adestrar para ficar sozinho, sem chorar, treinar a dormir, a comer, a se comportar como mini-adulto, para satisfazer os anseios da sociedade e deixar os sentimentos dela em segundo plano, em terceiro, quarto, até que desaparecessem por completo. Reconheci-a como parceira nessa trajetória e não como uma inimiga que veio atrapalhar todos os meus projetos. Faço o exercício de me colocar na posição dela e decidir a maneira mais apropriada de fazer naquele momento. Não iria forcá-la a se adaptar ao meu mundo. Até porque o mundo em que vivemos está todo errado. Não iria pular fases e depois me lamentar que o tempo passa rápido demais, que tudo está tão precoce. Eu precisava ser coerente com o “amor incondicional” que sentia.

Kelly Gomes
Bebes aprendem com tempo e exemplo. Não precisam ser domados e adestrados. O tempo é aliado do ensinamento. Um bebe não manipula, não faz manha, não pplaneja. Ele simplesmente sente e necessita. Atende-lo é sinal de respeito, em primeiro lugar. Uma criança só é menor, mas é um individuo que merece todo nosso respeito.

Cris Valle
Manuela está sendo educada com base no respeito, no amor, na empatia. Mamou no peito e desmamou naturalmente por volta de completar 3 anos, dorme na cama da família e nunca foi deixada chorando  pra aprender a dormir sozinha, não recebe castigos físicos e não apanha. Isso é o attachment parenting que tanto se tem falado? Não importa o nome que se dê, o que importa é que já podemos observar as consequencias de nossas escolhas: uma criança segura e tranquila.

Flavia Penido
Quando minha filha dança, quando meu filho toca uma musica, quando a menor faz suas primeiras descobertas nas letras, cada conquista deles...miríades de momentos em que me sinto feliz em tê-los na minha vida. Hoje a cama amanhece quase sempre sem filhos por perto e tenho sentido falta daquelas yogas matinais com um pé na cara outro na barriga sem saber qual é de quem, eles crescem e querem seus espaços, nada mais natural e saudável eles aos poucos irem saindo do ninho, com as próprias forças e as próprias pernas fica mais suave os primeiros voos. Não tem mais ninguém mamando, ou sendo carregado no sling também não, todos tem sua hora de voar.

Mariana Elis
Enquanto pais, especialmente mães, somos ensinados a menosprezar seus sentimentos, a mandar e esperar obediência em retorno, como se nossos filhos nos fossem objetos de pertencimento e não seres humanos livres!

Ana Paula Mirapalheta
Nesse momento eu percebi que conhecer as etapas do desenvolvimento do bebê é fundamental para melhor lidarmos com esses momentos de "crise". Foi a partir desse momento que eu descobri que o peito não era apenas a fonte de alimentação, mas também de aproximação. Que o choro prolongado e não respondido pode gerar uma série problemas. Que o toque, contato físico e o carinho são fundamentais para o desenvolvimento dos bebês... Não mais a opinião alheia ou os livros e métodos me "ensinavam" a cuidar dela, a partir dalí, seguia minha intuição me baseando no desenvolvimento esperado para cada etapa de sua vida. Simples assim!!!  

Mariana Machado de Sá
Fui muito criticada e dava de ombrinhos i dont't carry para familiares e amigos que insistiam que era necessário acostumar a menina às adversidades. A tese é que muito mimo forma delinquentes. Mas a minha hipótese é que amor, carinho, cuidado não podem ser ingredientes para a delinquência e me mantive na ideia fixa de atender às necessidades de afeto e calor humano que meus filhos tivessem.

Fefê Alves
É uma vontade inconteste de melhorar tudo para que a cria tenha o caminho mais fácil, e de que essa cria seja o melhor que possa ser. E que seja feliz, que não pare de sorrir. Que seja plena, como o amor pode ser.
Sei que há formas e formas de se gestar, de se criar. Mas eu tenho escolhido vivenciar minha maternidade da forma mais chameguenta possível. Com muito colo, muito peito, muitas canções, muitas leituras, muito toque, carinhos, abraços, cheirinhos e carinhos sem ter fim – já disse o poeta. Tem valido a pena. Para nós duas.

Fabiola de Souto
Sei lá se criação de apego é método... eu acho que não... eu acho que é muito mais seguir o coração na crianção dos filhos, no relacionamentos familiares... é desenvolver essa coisa meio esquecida no mundo - EMPATIA!É isso que eu estou aprendendo com o Davi e tentando levar para os demais relacionamentos... No fim, filho é meio que um mestre, que vem ensinar a quem está aberto, a levar a vida com mais leveza e amorosidade.O amor é imenso, mas no geral, as pessoas vem relutando até mesmo quanto a esse amor materno, paterno... criando métodos que afastam os pais dos filhos, que ensinam as pessoas a serem frias, "controladas", disfarçadas... Mas a criação de apego tem me ensinado o contrário: eu estou aprendendo a me reconhecer no outro e a deixar ele se reconhecer em mim (pois somos todos um não é mesmo?). Eu estou aprendendo a amar e a exercer o amor, a mostrar o que eu sinto sempre. Quando alguém me pede um conselho sobre seus bbs eu pergunto: o que vc quer lá no fundo? como se sente? libera!!! liberte-se! Ame! é uma delícia, bem doida, mas é!

Luisa Diederichs
Para a produção de leite não diminuir é muito bom amamentar a noite, produz mais prolactina. E você quer continuar amamentando, mas não quer levantar várias vezes para pegá-lo no berço. Se sente mais segura quando o bebê dorme do seu lado, pois não fica noite toda acordando com cada suspiro, então descobrimos o prazer da cama compartilhada.

Erica Alvim
Quando percebi, não era eu quem estava criando meu filho para o mundo, era o mundo que estava criando meu filho pra mim. E essa não é a melhor opção, principalmente pra quem costuma olhar pra esse tal de “mundo” e suspeitar que esteja tudo errado. Onde estavam meus valores, minhas decisões? E isso em meio ao costumeiro bombardeio de dicas de como adestrar seu bebê, para que ele seja “independente” e “disciplinado”. (Oi?) Ou seja, você treina seu fiho pra que ele ganhe estrelinhas das comadres.

Sarah Helena
E eu me lembro do meu companheiro dizer "você carregou ele por nove meses, e eu tenho a chance de carregar ele por toda a vida". Que aventuras vivemos... e em quase todas as fotos, daquele primeiro mês até uns três anos de idade do pequeno, estão pai e filho atados um ao outro, em um abraço de segurança e apego. 
O mais engraçado é que nós seguíamos a "cartilha" da Criação com Apego sem nunca ter pensado no assunto. Por um motivo muito simples: nós fizemos uma escolha. Deixar que o amor desse o tom. Que nossa vida se pautasse não no que esperavam de nós, mas o que sabemos ser a coisa certa. Porque a real, mesmo, é que o Attachment Parenting, a Criação com Apego,ou como vc quiser chamar, é uma questão de Bom Senso. De se basear no que nossa natureza, mamífera, de bicho gregário e de sangue quente, nos pede. De deixar de lado o que a visão eurocêntrica, cheia de moralismos vitorianos, manda que seja a criação de um filho.

Silvia Pavesi
Eu não conhecia o termo “criação com apego” até participar do grupo Maternidade Consciente”. Depois que descobri o conceito, percebi que faço isso todos os dias, desde que soube que estava grávida. E acredito que muitas mulheres também o praticam sem saber. Alem de dar muito carinho e respeitar as vontades do pimpolho, acredito que criação com apego é também ensinar valores como solidariedade, fraternidade, compaixão, tolerância. E a melhor maneira de passar esses valores é praticando-os no dia-a-dia com a criança. É o que tentamos fazer aqui em casa todos os dias. E acho que estamos conseguindo.

Ana Luisa
Recebi varias dicas de como criar meu filho..."deixa chorar, não dá colo, dá uma mamadeira para  tu descansar, amamenta a cada 3 horas, não mima!". Aff!! Quando ouvia este tipo de coisa ficava louca. Até tentei por 2 dias o "deixa chorar", mas para que??? Para meu filho perceber que esta sendo ignorando pela própria mãe? NÃO! Me neguei a acreditar que isso, essa distancia entre nós, era o melhor. Sem saber do método da Cama compartilhada, comecei a pratica- la com meu filho (instintivamente). Foi maravilhoso, com noites tranquilas, de descanso  para toda família.

Sabrina Nery Luz
Nunca fiz o tipo que se prende a teorias. De forma alguma rotulo o tipo de criação que dou aos meus filhos, mas hoje, compreendo que, instintivamente, desde a gravidez e toda a preparação para o parto, natural humanizado, venho exercendo aqui em casa uma prática similar ao “attachment parenting” (criação com apego). Minha maior preocupação é atender as necessidades de meus filhos de maneira respeitosa, estreitando cada vez mais nossos vínculos.

Carol Mafra
A gente faz e nem sabe bem como chama, sabe que é gostoso, que faz bem pro nosso filho e mesmo que as tias, avós e amigos digam que estamos fazendo errado a gente quer fazer assim.

Janaína Tibério Gomes
A verdade é que não existe regra, não existe um manual a seguir com o certo e o errado. Seguindo nosso instinto e acima de tudo, respeitando meu filho como um indivíduo que já tem opinião, é que seguimos com a criação de Heitor. Criação com apego, criação respeitosa, criação com afeto, dê o nome que quiser, não importa. Importante é o bebê crescer sentindo e vivenciando o quanto é amado.

Mariana Martins Notari
Nossa família tem o lema de respeitar e é isso que fazemos com tudo e com todos. Se você e a sua família são diferentes, nós respeitamos. Só esperamos UMA coisa em troca: respeito mútuo. Esse é o meu depoimento de criação com apego. Porque nós recomendados! Os frutos são maravilhosamente divinos e recompensadores... Vem também!

Aline Pereira de Barros
Para nós é um grande prazer mater-partenar nosso bebê. Praticamos criação com apego não por ser uma teoria bacana ou para nosso filho se desenvolver melhor. Praticamos criação com apego porque não saberíamos fazer de outra maneira. Penso que a base da teoria engloba o que mais se aproxima do que é instintivo e intrínseco à nossa natureza mamífera. Então é fácil! (Ou pelo menos deveria ser...). Além do quê, para nós não é nenhum drama colocar as necessidades de nossos filhos em primeiro lugar, buscando sempre ter empatia por essa pequena pessoinha que veio nos colorir ainda mais a vida.

Do blog: Era uma vez... três!
Sim, eu era uma mamífera e decidi que faria aquilo que meu coração mandava. Decidi que meu filho seria aninhado e amamentado sempre que quisesse. Decidi que ele ficaria perto para sentir-se seguro. E, a partir daí, senti-me livre. Pude vivenciar plenamente a maternidade, tudo ficou tão mais fácil, tão mais claro. Com meu filho na cama pude amamentá-lo durante a noite enquanto eu descansava, ele não acordava e eu também não. Comprei um sling e estava livre para as atividades diárias e meu filho participava da minha vida. Comprei outros livros, pesquisei, pesquisei e descobri que o que eu fazia chamava “Attachment parenting” (Criação pelo apego) e que tinha muito embasamento científico.

Blog “Ninho da Corujinha”
Seja ainda bebês ou já grandinhas, sempre respeitamos seu tempo, vontade e necessidades enquanto crianças, seres humanos como nós. Treinar dormir sozinho, fazer xixi no penico ou qualquer outro comportamento que naturalmente vai amadurecendo nunca esteve no nosso cotidiano. Gostamos de observar a evolução e o amadurecimento das crianças, respeitando seu tempo, suas preferências, sua maturidade, seus gostos. É bonito ter 3 filhas e ver que todas são tão diferentes (mesmo tendo o mesmo signo) e tão seguras para ser independentes quando querem e, ao mesmo tempo, sentir em nós um porto seguro para quando precisam. Essa é a magia, a graça, o maior presente da maternidade/paternidade. 

Claudia Rodrigues
Eu abraço a causa do amor às crianças sempre, do respeito a elas como cidadãs, como seres pensantes e sentimentais que são e principalmente singulares, justamente por isso não defendo essa ou aquela teoria, nem mesmo as das minhas colegas mais próximas.
Por outro lado refuto com severidade as teorias e práticas repressivas, desrespeitosas, alienantes, alijantes, terceirizantes e comercialescas em relação às crianças. O meu NÃO é muito claro, o meu sim tem muitos senões e visão particularizada.

Dani
Quem critica a Criação com Apego defende que com ela os pais perdem a própria vida, o mundo passaria a girar em torno da falta de ritmo do bebê, e que o correto é que desde cedo os pais já mostrem quem manda no pedaço. Pela minha experiência, posso assegurar que esta tragédia não acontece

Isabela Kanupp
Eu nunca deixei minha filha chorar para dormir, eu nunca deixei minha filha dormir sozinha, a nossa rotina do sono é eu deitar ao seu lado e amamenta-la até dormir. Isso não faz eu ” não ter vida”, ou não faz da minha filha uma criança dependente.
A cama compartilhada foi nossa opção até os 2 anos e 5 meses e digo com orgulho que foi uma das melhores coisas que eu fiz. Beatriz dormia bem a noite, e eu segura por tê-la ali do lado comigo. Críticas eu recebi muito, que eu ia matar minha filha dormindo (?), que meu casamento iria acabar, que eu não teria vida sexual. E não aconteceu nenhum dos três. O principal foi a cama compartilhada ser uma decisão minha e do marido, ambos de acordo. Outra questão é que não existe só a cama para transar, e se você se prende só a cama para transar provavelmente seu casamento ta bem chato viu?

Gisele Duarte Machado Anselmo
Existem vários tipos de mães, umas que cuidam demais, outras que são autoritárias; aquelas que deixam seus filhos crescerem de uma maneira mais liberal... Poderíamos citar vários títulos diferentes, e com certeza encontraríamos também muitas mães que se encaixam em muitos destes perfis ao mesmo tempo. Ser mãe, educar, preparar aquele pequeno ser para uma vida...que tarefa séria. Muitas vezes podem surgir perguntas... Será que estou fazendo tudo certo?...Como a educação que estou dando irá interferir na vida de meu filho?...Será que eu sei ser mãe?...Nem sempre as respostas aparecem no momento que deveriam, deixando estas interrogações abertas e gerando novas dúvidas. Mas com certeza, aquele sentimento indescritível de segurar seu pequeno bebê, alimentá-lo, vê-lo crescer, enfim, estar com ele, dando de si aquilo o que puder dar...amor....qualidade, são muitas vezes um ponto final às tantas dúvidas e medos que sempre irão surgir no decorrer da vida.

Cibele Godoy
Em 2011 tive um lindo VBAC, do Lucas, e aquela mistura de amor, tranquilidade e maturidade que eu alcançava, misturada com a alegria de ter a minha família, do jeito que sempre sonhei, consolidaram a mudança e me transformaram não numa mãe perfeita e ideal, pois isso é impossível, mas na mãe que posso ser e que posso me orgulhar em ser. Claro que amamentando em livre demanda meu bebezão de quase 10 meses (querendo amamentar o quanto mais ele quiser) (...)
Hoje me sinto uma mãe mais preparada, e meus dois filhos ganham com isso. Não sou uma mãe "consciente" apenas" pro meu bebê, mas repensei as práticas com minha filha. Hoje os dois tem colo livre, cama dos pais com livre acesso, cafunés, histórias pra dormir, conversas e limites dados com anmor e regras da casa negociadas com a mais velha...

Juliana Sell
Adoro acordar de manhã e ver que tenho dois bafinhos ao meu lado que vieram de mansinho de madrugada. (...) Meus filhotes tem 11 e 8 anos. Hoje gostam quando ficam sozinhos em casa e “dispensam“ a atenção e presença da mãe. São responsáveis e independentes nas tarefas escolares e acho que tiveram tanto minha presença por perto que podem ficar numa boa quando estou longe. Hoje trabalho fora e em casa, adaptei meus horários e estou feliz de ter acompanhado o crescimento deles, porque passou muito rápido, mais rápido do que eu mesma pude me acostumar.

Gandharvika Romenski
Eu decidi que o Samuel iria mamar até quando ele quisesse, muitos diriam “ai, que feio é ver uma criança com mais de 2 anos mamando no peito”... bom, eu acho feias as mamadeiras e chupetas e nem por isso critico a criança que usa além dos 2 anos... Eu faço massagem no meu filho todos os dias antes do banho com óleo de amêndoas e muitos não entenderiam toda essa disposição... “mas eles nem ligam pra massagens!”... Quem não gosta de massagens?! (...) É diferente? É estranho? Eu não acho, porque ser mãe é ser instinto, ser filho é ser uma alma nova totalmente dependente desse instinto... Criação com apego é amor incondicional... É querer ver sorrisos, é querer passar segurança, é querer estar sempre por perto, é explicar o porquê das coisas com carinho, é educar, é RESPEITAR.

Deborah Gebran
Minha mãe sempre diz que o bebê quando nasce é uma caixinha vazia, e cabe a nós preenche-la com o que há de melhor, e isso se dá só com muita atenção, muito amor, contato, pele com pele...
Somos assim, e assim somos felizes!

Gabriela Silva
Poder por poucos minutos diários pegar no colo a Quinha, parecia um milagre! Tão miúda, tão guerreira, tão cheia de vontade de viver!
Lá mesmo fiz uma promessa a ela, que me pareceu o mais natural, o esperado, e nunca havia lido nada a respeito de criação de bebês: "Nunca vou te abandonar, você nunca vai ficar chorando sozinha, você pode sempre contar comigo, sempre vou tentar ajudar!"
 E daí pra começarmos nossa "criação com apego", como resolveram chamar, foi o caminho mais natural a seguir (...). Se vai dar certo? Já está dando! Menina mais linda, amorosa, esperta... Graças a Deus nenhuma sequela por causa da prematuridade!  
Pois é, estamos fazendo o nosso "criar com apego", e não seguindo regras, livros, seitas...
Criar com apego, pra gente, é simplesmente criar com amor, ouvindo, respeitando e atendendo as necessidades da nossa Moniquinha.

Talita Vieira
Confesso que acho engraçado o termo, pois pra mim esse é um processo natural da maternidade. Pelo menos pra mim, tudo aconteceu instintivamente, desde a amamentação em livre demanda até a cama compartilhada, passando pelo sling e a vontade de estar sempre perto, no colo, chamegando, grudadinha. O interessante é que esse não é o natural para muita gente então o que eu faço é visto como algo ruim. “Vai mimar essa criança”, “tem que ensinar a ser independente”, “ela não vai morrer se chorar”, “dá uma mamadeira pra ela dormir mais”, “tira ela desse saco quente que deixa as pernas tortas”... é parte do que ouço por seguir a maternagem que acredito ser melhor para a minha filha.

Nina Edna Araújo
E começou assim, com o parto natural, a questão de não perder um minuto sequer a partir de sua existência já presumia a intenção da criação com apego afinal...
Amamentação exclusiva e em livre demanda, deixar dormir onde for melhor para seu descanso e paz: no carrinho, em nossa cama, em seu berço, tanto faz... 
Deixar chorar, nem pensar! Palmadas e castigos não existem neste lar!
Rolar na grama, nas pedrinhas, na areia, no Jobim... Alice é livre, experimenta e é feliz assim!
Pai e mãe sempre por perto, respeita as gentes, plantas e bichos isto é certo.
E assim ela está crescendo, livre, envolta em amor, respeito, aconchego... apego!



quarta-feira, 23 de maio de 2012

Criação com apego: mais amor, menos preconceito - POSTAGEM COLETIVA

Há alguns dias, muitos estão debatendo sobre uma forma de cuidado parental que tem sido chamada de "attachment parenting", traduzido de maneira simplista no Brasil por "criação com apego".
Diferentes meios de comunicação estão falando sobre o assunto e eu aceitei participar de uma dessas matérias. O interesse da jornalista foi realmente saber mais sobre o tema e não apenas entrar na polêmica a qualquer preço, tendo o convite se dado não em função da minha experiência como mãe, mas como doutora na área da neurociência. Algumas amplas perguntas foram feitas e respondidas, e as respostas auxiliaram na construção da matéria.
Tem havido muita discussão, muita polêmica e muitos dos depoimentos mostram-se impregnados de preconceito.

Preconceito: ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial; opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos; estado de abusão, de cegueira moral; superstição.
Vivemos um momento histórico em que diferentes grupos sociais vêm levantando suas vozes contra o preconceito. Muitos de nós ensinam os próprios filhos a não serem preconceituosos. Felizmente já existem leis que punem algumas de suas formas (é uma pena que o ser humano precise ser regulamentado em uma questão tão básica quanto respeitar o diferente, mas se assim é, então que bom que elas existem).
Mas a verdadeira batalha é contra o nosso próprio preconceito sobre questões que não sabemos exatamente como funcionam, embora nos sintamos no direito equivocado de julgá-las.
Contra isso, o antídoto: informação. Sem mito, sem lenda, contado por quem vive na prática.
Então, no grupo de discussão Maternidade Consciente, surgiu a ideia de uma postagem coletiva sobre o tema, onde diferentes mulheres - muitas das quais sequer assim nomeiam suas práticas - contariam suas experiências conectadas, ligadas, empáticas de criação de filhos.
Criação com apego: mais amor, menos preconceito - mulheres comuns contando histórias de amor.
Então eu escolhi esse dia para postar as respostas completas à jornalista Danielle Nordi.
Sobre minha experiência de amor e de cuidados com minha filha? Esse blog é inteiro sobre isso. Ele foi ressignificado justamente por essa experiência. Foi porque eu escolhi intuitivamente essa forma de cuidados que mudei ao ponto de ser quem sou hoje. E foi só por isso que passei a estudar o assunto.
Eu não sabia dessas coisas quando senti a força da conexão, do amor e da vontade de cuidar da minha filha de uma forma mais presente, mais vinculada. Mas ao vivê-las e conhecê-las cada dia mais e ao unir os conhecimentos sobre psicobiologia e comportamento ao que que ia observando empiricamente, não restou qualquer dúvida: esse era o nosso caminho.

O termo “Attachment Parenting” vem sendo traduzido como “criação com apego”. Você concorda com essa tradução? 
A tradução “criação com apego” dá margem a interpretações equivocadas, já que vivemos numa época em que “apego” está relacionado mais aos bens materiais que à sua conotação emocional ou psicológica. A expressão se relaciona a uma forma de cuidado com os filhos que leva em consideração a teoria do apego, como proposta pelo psicólogo, psiquiatra e psicanalista John Bowlby – depois recuperada pelo Dr. William Sears, mas anterior a ele – que a propôs para explicar como acontece a formação dos vínculos entre o bebê e seu principal cuidador e quais as implicações da forma como esses vínculos foram construídos – ou não foram – para a vida futura da criança.
O importante é deixar bem claro que a expressão “criação com apego” é, na verdade, apenas uma denominação nova para algo que é antigo, e que sempre esteve presente em muitas culturas sem que houvesse necessidade de se nomear. Ou seja, não é algo que foi criado por alguém, são práticas que vem sendo utilizadas por pessoas ao redor do mundo desde tempos antigos, mas que foram agrupadas sob esse nome.
O que é a criação com apego? É um método ou um conceito? Existem regras?
A criação com apego nunca será um método. Ela não é um manual, não possui regras, não é um guia, nem uma técnica que ensine criação de filhos. É fácil entender o porquê de se perguntar se ela é um método: o que mais vemos hoje são métodos, guias e técnicas sendo vendidas na tentativa de se ensinar às famílias como criar uma criança, como ensiná-la a dormir, como treiná-la para que se comporte como a sociedade espera que ela se comporte. A criação com apego é um conceito amplo que envolve, sobretudo, a criação de pessoas seguras, autoconfiantes e empáticas, baseada no respeito aos comportamentos inatos da criança - aqueles que ela demonstra sem precisar aprender, como chorar quando não se está satisfeito com algo, desejar constantemente o contato físico ou visual, tocar, sorrir – e na proximidade física e emocional com a mãe (ou o principal cuidador). Se nós tivermos sempre em mente que muitas pessoas criam seus filhos assim intuitivamente, sem precisar aprender ou ler nada sobre isso, fica fácil entender que não existem regras ou técnicas. É, apenas, o respeito às necessidades naturais de um bebê, de uma criança, permitir a ela que crie o vínculo de maneira inata e espontânea, sem limitações impostas por convenções.
Levando em consideração o conhecimento atual da neurociência, quais os benefícios para a criança e para a mãe?
Hoje já se sabe que o grau de ligação e afeto recebido na infância é fator decisivo na constituição das personalidades, na capacidade de adaptação do indivíduo a diferentes situações e em suas respostas ao estresse. Quando o psicólogo John Bowlby divulgou a teoria do apego, ainda na década de 50, sugerindo que a privação materna (ou do principal cuidador) durante a infância poderia levar ao desenvolvimento de adultos deprimidos ou hostis ou com problemas de relacionamento, muito pouco ainda se conhecia sobre como o cérebro processava a depressão, a ansiedade e outros transtornos afetivos. Mas com o tempo, pesquisadores começaram a divulgar resultados de pesquisas comportamentais com primatas mostrando que o rompimento da ligação entre mãe e filhote levava a comportamentos violentos e agressivos no primata adulto. Naquela época, quase tudo o que se sabia a respeito da influência do cuidado parental sobre a prole na idade adulta era experimental. Mas hoje a neurociência tem condições de mostrar onde e como algumas mudanças acontecem nas pessoas em função do tipo de cuidado que recebem. Estudos internacionais recentes mostram, por exemplo, que o cuidado materno afetuoso e presente na infância leva ao aumento de uma estrutura cerebral chamada hipocampo, envolvida no processamento da memória e do comportamento emocional. Juntamente com outros estudos, isso mostra que existe, realmente, uma ligação entre as experiências afetivas que a criança vive na infância, a forma como seu cérebro se desenvolve e, consequentemente, o comportamento que apresenta na idade adulta. Obviamente não se pode excluir a genética do indivíduo, mas isso mostra como o ambiente em que uma criança vive é capaz de alterar sua neurobiologia a ponto de influenciar seu comportamento. Se a qualidade do afeto e do cuidado que as crianças recebem na infância é capaz de moldar seu cérebro, de forma que em sua juventude e idade adulta tenham maiores chances de uma vida emocionalmente saudável, a criação de filhos de maneira afetuosa, conectada e apegada – utilizando aqui a concepção de apego utilizada por Bowlby – só traz benefícios não só a essas crianças, mas às famílias nas quais se inserem. Mas esses são benefícios do ponto de vista neurocientífico, embora muitos outros benefícios sejam vistos no cotidiano das famílias que buscam criar seus filhos dessa maneira, sem que haja necessidade de qualquer conhecimento teórico. Pelo contrário. Famílias que buscam uma forma mais apegada ou ligada de criação não o fazem, geralmente, por suas bases científicas, mas pelo que representa em termos de resultados práticos no dia-a-dia, em termos da tranquilidade e harmonia que podem vivenciar.
Psicologicamente, a criança fica mais segura? Se sente amparada? Se torna uma criança mimada, necessariamente?
Sim, crianças criadas dessa maneira tendem a ser mais seguras, justamente por se sentirem sempre amparadas e por saberem que suas necessidades são prontamente atendidas, sem que haja barganha. Vamos analisar o exemplo da criança que é deixada chorando no berço para que aprenda a dormir sozinha. Nesse caso, seu comportamento inato – o choro – não é respeitado como sinalizador de que ela está se sentindo desamparada ou insatisfeita. Ao ser deixada chorando, ela não aprende que pode dormir sozinha. O que ela aprende é que não adianta chorar – seu único mecanismo de defesa até então – porque sua mãe não vai atendê-la. É o “desamparo aprendido”: aprende-se a se sentir desamparada. Existe um teste neurobiológico que leva exatamente esse nome e que é utilizado para testar drogas antidepressivas. Por que? Porque já sabemos que o desamparo persistente leva a comportamentos de anedonia, que é a incapacidade de sentir alegria, uma espécie de indiferença por estímulos que seriam interpretados como bons. E esse é considerado um degrau anterior à depressão. Ou seja, mais uma vez a neurociência mostra como sentir-se desamparado e inseguro pode levar a comportamentos patológicos.Sobre se a criança pode se tornar mimada: respondo na próxima pergunta, por achá-las interligadas.
Quando entramos em contato pela primeira vez com o termo e com alguns texto, temos a impressão de que a criação com apego nada mais é do que dar à criança tudo que ela pede, tudo que precisa. Daí vem uma noção de que a criança vai “ter tudo” e limites não farão parte da vida dela. O que isso tem de verdade? Como a questão do limite é trabalhada na criação com apego? Existem castigos, punições? 
Limite pode ser interpretado como “saber até onde vai seu espaço e onde começa o do outro” ou “respeitar os anseios dos outros” – e aí entra a questão anterior, do ser ou não “mimado”. Existem diferentes formas de se ensinar uma criança a respeitar seus próprios limites e os dos outros. Entre essas diferentes formas está a forma autoritária, baseada numa relação de poder entre o mais velho, que sabe mais, e o mais novo, que sabe menos. Essa forma, geralmente, ensina o “não” pelo “não” e não raro ouvimos, para a pergunta “Por que não, mamãe?” a resposta “É não porque estou dizendo que é não”. Isso não ensina limite. Isso ensina autoritarismo e medo. A criança continua sem saber o porquê do não, o que gera frustração e ansiedade. Se queremos que a criança cresça segura e sentindo-se próxima da mãe e do pai, é necessário respeitá-la como pessoa, e isso passa por questionar a nós mesmos o porquê dos “sins” e dos “nãos”, para que sejam bem empregados, e explicar a ela esses mesmos motivos. Se a criança quer algo e os pais julgaram por bem não permitir, explicar “Não, filho, porque isso pode ferir seu amigo, ou pode ferir a si próprio, ou porque você não precisa agora, você já tem, ou porque a mamãe não pode comprar agora” é respeitá-lo como indivíduo, como pessoa capaz de compreender. Sem menosprezo por sua capacidade de compreensão. Isso ensina respeito, proximidade, disponibilidade em ouvir o outro. Se ele vai chorar? Pode ser que sim, o choro é natural e inato, não é patológico como se acredita ser, não precisa ser combatido a todo custo. O choro desamparado sim, é prejudicial, mas não o choro como manifestação natural. E aí entra mais uma vez a forma afetuosa: o respeito ao choro, o entender que ele está chorando porque não teve o que queria e que, melhor do que fazer o choro cessar com a concessão do que se quer apenas para que cesse, é ampará-lo em seu choro e mostrar compaixão, compreensão por aquilo que ele está sentindo.
Ou seja: agindo assim, ensina-se não somente os limites, mas a ouvir e ser ouvido, a respeitar e ser respeitado.  Não se pode confundir limites com autoritarismo, se quisermos criar crianças seguras e conectadas com seus pais. O primeiro, liberta. O segundo, aprisiona.Pensando assim, na questão do respeito à criança e seus anseios e na adoção de posturas compreensivas e não autoritárias, torna-se fácil compreender porque esse conceito de criação exclui totalmente a possibilidade da punição física, moral ou psíquica. 
Como se poderia explicar para pais leigos no assunto porque a criação com apego diz para você fazer o contrário do que todo mundo faz atualmente? O conceito de criação de filhos atual está errado ou simplesmente ultrapassado?
Achar que atualmente exista um único conceito de criação de filhos é errado. Existem múltiplas formas de se criar filhos, que, inclusive, interagem entre si. Cada família escolhe uma forma que é a mais afim aos seus valores, crenças e particularidades. Mas da década de 60 para cá, vem-se estimulando cada vez mais o individualismo, a desconexão, a separação precoce, e que faz sentido quando analisada do ponto de vista histórico, social e econômico. As pessoas estão cada vez mais envolvidas com seus trabalhos, com suas necessidades individuais, com a realização de sonhos e anseios particulares, com o acúmulo de bens materiais que lhe dão a (falsa) sensação de segurança. Para isso, saímos de casa cada vez mais cedo, voltamos cada vez mais tarde e não raro precisamos trabalhar também às noites e aos finais de semana. As relações sociais mais fortes e rotineiras têm sido aquelas que excluem a presença física e a substituem pela mediação da máquina. Nesse contexto, que é hegemônico e fortemente influenciado pelas sociedades industriais mais avançadas, não sobra muito tempo para o cuidado ativo com as crianças, que logo precisam aprender a lidar sozinhas com seus anseios – seja na hora de se alimentar, dormir ou receber afeto. Então apressa-se o nascimento (muitas vezes encarado com produção em série), apressa-se o desmame quando ele é possível (ou nem há o incentivo por seu início), apressa-se a separação física da criança e dos pais, apressa-se a pseudo-socialização em substituição à presença familiar, não se valoriza o choro nem o que representa (que é encarado como vilão), se diz “sim” quando se queria dizer “não” e “não” quando se queria dizer “sim”.
Então, vista por esse ângulo, a criação com apego é, na verdade, o retorno a uma criação mais presencial, ativa, conectada, como era mais fácil de ser observada antes da frenética busca pela acumulação de bens materiais, enquanto os bens emocionais foram sendo deixados de lado.Ou seja: a forma como as crianças vêm sendo criadas atualmente tem contribuído para o que hoje todos chamam de “crise mundial de valores”. Se concordamos com isso, então concordamos também que para mudar essa crise, é preciso mudar os valores que são passados às crianças desde seu nascimento. Se queremos um mundo melhor para nossos filhos, devemos também querer filhos melhores para o mundo, porque uma coisa depende da outra. E não se cria filhos melhores com base no autoritarismo e na negação de si.A criação com apego é uma alternativa à forma hegemônica de se viver, atualmente. 
Para conseguir levar esse estilo de vida, a mãe precisa necessariamente ficar em casa ou ela pode trabalhar fora? Como fazer no intervalo de tempo que ela não está próxima da criança?
Como dito anteriormente, a criação com apego não subentende regras, normas, método. Por ser um conceito amplo, permite as mais diferentes possibilidades. É possível criar filhos com apego tendo dois pais que trabalham fora, dois pais que trabalham em casa, pai que trabalha fora e mãe que trabalha em casa, pai que trabalha em casa e mãe que trabalha fora, todas as possibilidades.
E se a criação com apego busca criar pessoas mais seguras e conectadas com seus pais, ainda que eles não estejam presentes em alguns momentos do dia, ela se sentirá segura. Principalmente porque sabe que eles estão sempre emocionalmente disponíveis a ela. Agora, focando na mãe. Para aquelas que precisam continuar trabalhando fora, seja para gerar renda, seja para se realizar como mulher profissional, a criação com apego oferece um alento, um descanso, um apoio. Aderir a práticas que só aumentam o vínculo, que envolvem presença física afetuosa, que implicam em conexão, em estar sempre ao alcance dos filhos nos momentos que se está em casa, só vem ajudar a essa mulher e a essas crianças, valorizando o tempo de que dispõem juntos. Ou seja, acreditar que a criação com apego é algo ao qual somente uma mulher que abdique de seu trabalho, ou que o transfira para dentro de casa, pode realizar, é um grande engano.Inúmeros são os casos de mulheres que viram na criação com apego um alento para suas angústias como mães. Mulheres que, ainda que tenham tentado aplicar técnicas ou métodos com os primeiros filhos, puderam experimentar os benefícios da criação com apego com o segundo ou terceiro filho. Mulheres que, superando preconceitos, respeitaram mais seus anseios como mãe, rejeitaram técnicas anteriormente utilizadas, viram seus filhos dormindo melhor, viram bebês mais calmos, crianças mais seguras, viveram menos angústias e, em grande parte das vezes, se reencontraram com suas próprias mães. O que também se vê com frequência são mulheres que praticam a criação com apego sem nem se darem conta, dizendo, apenas, que “seguem seu coração”.
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