28 junho 2013

Cama compartilhada: proteção, amor e saúde que beneficiam mães, bebês e famílias

Dormir juntinho, além de ser puro amor, evita que a
mãe que amamenta levante inúmeras vezes à noite
para amamentar. E isso ajuda a evitar desmames
precoces - e mães exaustas. A forma mais indicada é
o bebê dormir entre a mãe e a parede (por exemplo),
não entre os pais.
Você leu em algum lugar que bebês que dormem com os pais têm cinco vezes mais chance de morrer por morte súbita do recém nascido e ficou apavorada?

Calma, amiga mãe! Não criemos pânico - já diria aquele herói atrapalhado... Não seria isso apenas sensacionalismo fruto de um estudo, digamos, também meio atrapalhado?

Vamos, então, falar sobre esse assunto mítico e lendário que ronda o imaginário popular – e também a ciência: dormir com o bebê.

No dia 23 de maio deste ano, a Danielle Romais, cientista que virou mãe cuja história já foi contada aqui no blog, nos enviou a seguinte mensagem:
“Vocês leram o último estudo sobre cama compartilhada e morte súbita do recém nascido?”
As destinatárias: eu e as também cientistas que viraram mães Fernanda Di Flora e Andreia Mortensen. Andreia já é velha conhecida deste blog e de seus leitores, uma vez que sempre publicamos aqui  textos em parceria, especialmente sobre respeito à infância, combate à violência infantil e comentários sobre artigos científicos.

O estudo – que amedrontava mães e pais afirmando que bebês que dormiam com seus pais corriam o risco cinco vezes maior de morte súbita do recém nascido - havia sido publicado no periódico inglês British Medical Journal no dia 20 de maio deste ano, apenas três dias antes da mensagem da Danielle. Por uma coincidência, Andreia estava, naquele momento, lendo as críticas da Tracy Cassels sobre o estudo. 

Se você não sabe quem é a Tracy, precisa saber: é a autora do site (que eu adoro!) Evolutionary  Parenting, que trata de tudo aquilo que também tratamos aqui: parto, maternidade, gestação, attachment parenting, amamentação, e tudo mais. Tracy é uma referência importante sobre o assunto. É especialista em Ciência Cognitiva pela Universidade da Califórnia, mestre em Psicologia Clínica pela British Columbia e cursando doutorado em Psicologia do Desenvolvimento na mesma universidade, estudando como determinados fatores evolutivos afetam o comportamento empático das crianças. Tracy é mãe da Madaleine, fonte de inspiração. Em resumo: uma cientista que virou mãe, das boas (cientista e mãe). 

Então, Andreia estava exatamente lendo as críticas feitas por Tracy ao artigo mencionado (antes mesmo dele ser disponibilizado nas bases de dados... Tracy rocks!), e ainda brincou com a gente, dizendo: 
“Vamos torcer pra ninguém dar atenção a isso, porque o estudo está cheio de equívocos”.
Um ou dois dias depois, Andreia nos dava a notícia: já estava na mídia por lá (ela mora nos Estados Unidos). Ainda brinquei com isso na fan page do Cientista Que Virou Mãe no Facebook, dizendo algo como: “Chegando na mídia brasileira notícia sensacionalista e atemorizante para pais que praticam cama compartilhada com os filhos em 3, 2, 1...”

Dito e feito. A BBC Brasil publicou matéria alarmista, com direito a fotinho de bebê dormindo e legenda taxativa abaixo (“Médicos não aconselham compartilhar cama com recém nascido”), que foi replicada por diferentes portais. E aí começou a movimentação de mães apreensivas querendo saber se procedia.

A gente vive em uma sociedade cujo paradigma dominante é ditado pela ciência biomédica, fato. De forma que uma opinião dada por essa área tem servido para legitimar e justificar escolhas – mesmo quando não dizem nada de muito consistente. Isso é fruto de muitas coisas, mas também da insegurança das pessoas com os motivos de suas próprias escolhas. Exemplos não nos faltam. O pessoal que não gostava (abominava?) a ideia de parto em casa começou a aceitar depois que se informou (por  meio da medicina baseada em evidências) e viu que os riscos não eram maiores não senhor, ao contrário do que acreditava – ainda que aqueles que optavam por essa forma de nascimento não o fizessem por motivos científicos e, sim, por uma questão de valores/filosofia/outras crenças pessoais. O pessoal que gostava de andador passou a deixá-lo de lado depois que começaram a sair estudos (biomédicos) mostrando seus riscos (mesmo que antes disso o pessoal já falasse que isso não era uma boa, já que forçava artificialmente o desenvolvimento motor do bebê). E mais uma infinidade de outros exemplos. 

Sensacionalismo,
manipulação e
má informação.
Onde quero chegar? 
Se um estudo aparece dizendo “DORMIR COM O FILHO MATA”, quem justifica suas escolhas com base no paradigma biomédico já entra em parafuso, dá adeus à cama compartilhada e monta o berço.

Mas a gente tem que lembrar que quem faz ciência são seres humanos, pessoas dotadas de crenças, valores e filosofias pré-estabelecidas, e que essa de ciência neutra é quase uma entidade espiritual: por mais que você creia nela, é difícil de encontrar por aí... E, mais importante: como tudo o que é feito por pessoas, é passível de erro.

Então nós lemos as críticas da Tracy Cassels ao artigo científico publicado, gostamos muito e quisemos publicar. Por uma questão de transparência, fizemos questão de perguntar a ela se poderíamos traduzi-lo para publicar aqui e ela autorizou – muito obrigada, Tracy.

Andreia, então, preparou uma breve introdução às críticas, com o objetivo de contextualizá-las e ambas – introdução e críticas ao estudo – encontram-se abaixo. É um texto longo e absolutamente relevante, que mostra como a conclusão de que bebês que dormem com seus pais correm cinco vezes mais risco de morte súbita do recém nascido foi tomada de maneira equivocada e cheia de viés científico.

De qualquer forma, estudos científicos à parte, milhares de famílias vêm fazendo a opção de dormir  
junto com seus bebês, por motivos que vão desde a comodidade da mãe nutriz, que amamenta, até a escolha por segurança e proximidade física e emocional também à noite. Cada vez mais famílias vêm adaptando suas noites de sono para estar mais perto de seus bebês e, assim, terem noites mais tranquilas. Há os que dormem com o bebê no mesmo colchão, há os que emendam um colchão no outro ou uma cama na outra, há os que adaptam berços para que sirvam como um prolongamento da cama, há os que adaptam a ideia das mais criativas maneiras para suas necessidades. Os benefícios são muitos, para a criança e para os adultos, comprovados não (apenas) pela ciência, mas pela experiência empírica cotidiana de milhares de famílias. A convicção da família por uma escolha deveria bastar para avalizar e legitimar uma escolha tão pessoal. Mas como vivemos no tal paradigma biomédico, voilá, vamos analisar então o estudo...

Se você, depois, quiser ler mais sobre o tema, aqui no blog há alguns textos sobre o assunto, como esse e esse. E se quiser trocar mais ideias sobre o assunto, lá no grupo MaternidadeConsciente há centenas de famílias que fizeram essa opção, prontas para dar dicas e compartilhar suas vivências.

Contextualização por Andreia Mortensen

Antes de criticar o estudo, vamos fazer um resumo do que se trata. Esse artigo é uma meta-análise, ou seja, os pesquisadores selecionaram vários artigos de estudos realizados anteriormente, feitos de maneiras diferentes, e analisaram de forma a tirar conclusões gerais do apanhado de resultados dos vários estudos.
Meta-análises tem pontos fortes mas tem também limitações. Nesse caso, os estudos anteriores selecionados e agrupados foram feitos analisando-se certificados de óbitos e investigações governamentais das mortes dos bebês, e um grande problema é que não há consistência nos relatórios (tanto na maneira com que são feitos como nos fatores que são relatados). Há casos que nem há informação sobre o tipo de superfície que o bebê dormia! Então, esse tipo de ciência pode ser muito imprecisa.

Resumo do artigo

Objetivos: Analisar e resolver as incertezas sobre os riscos da Síndrome de Morte Súbita Infantil (SMSI) em relação a local de sono, especificamente quando se compartilha a cama com os pais, se ambos não fumam e se o bebê é amamentado.
Estratégia: Cama compartilhada foi definida como bebê dormindo na mesma cama dos pais, quarto compartilhado como bebê dormindo no mesmo quarto dos pais. A frequência de cama compartilhada nos últimos dias de vida do bebê foi comparada entre bebês que faleceram de SMSI e bebês vivos (controle). Cinco banco de dados grandes de casos de SMSI foram combinados. Dados ausentes foram imputados. Efeitos casuais randômicos de regressão logística foram analisados em fatores confundidores.
Cenário: arranjos de sono domésticos de bebês em 19 estudos na Inglaterra, Europa e Australásia.
Participantes:  1.472 casos de SMSI e 4.679 controles. Cada estudo incluiu todos os casos usando critérios padrão. Os controles foram selecionados arbitrariamente entre crianças normais da idade, tempo e lugares semelhantes.
Resultados:  ao combinar todos os dados observamos 22,2 % dos casos de SMSI e 9.6 % dos controles compartilhavam a cama. Dados ajustados para proporção de possibilidades (em inglês adjusted odds ratio, AOR) em todas idades foram 2,7; com intervalo de confiança de 95 % (1,4 a 5,3). Os riscos da cama compartilhada diminuem conforme o bebê é mais velho. Na ausência de fumo dos pais, quando o bebê tem menos de 3 meses, é amamentado e não há outros fatores de risco, o AOR da cama compartilhada versus quarto compartilhado foi de 5,1 (2,3 a 11,4) e o risco absoluto estimado para esses bebês que compartilham o quarto foi bem pequeno (0,08 (0,05 a 0,14)/1000 nascidos vivos). Isto aumentou para 0,23 (0,11 a 0,43)/1000 quando compartilham a cama. Fumo e álcool aumentam muito o risco da cama compartilhada.
Conclusões: A prática da cama compartilhada quando os pais não fumam, ingerem álcool ou consomem drogas, aumenta o risco de SMSI. Os riscos associados com a cama compartilhada aumentam bastante quando combinados com o consumo de álcool, fumo e uso de drogas (maternal e paternal). Uma redução substancial nas taxas de SMSI pode ser alcançada se os pais evitarem compartilhar a cama.


Síndrome de morte súbita infantil (SMSI): Riscos e Realidades – críticas ao artigo: Bed sharing when parents do not smoke: is there a risk of SIDS? An individual level analysis of five major case–control studies”, BMJ Open 2013;3:e002299 doi:10.1136/bmjopen-2012-002299. Paediatrics. Carpenter R, McGarvey C, Mitchell EA, Tappin DM, Vennemann MM, Smuk M, Carpenter JR. http://bmjopen.bmj.com/content/3/5/e002299.abstract

Autores:
Sarah Ockwell-Smith, BabyCalming.com
Professor Wendy Middlemiss, University of North Texas
Tracy Cassels, University of British Columbia, EvolutionaryParenting.com
Helen Stevens, Safe Sleep Space
Professor Darcia Narvaez, University of Notre Dame
Professor Kathy Kendall-Tackett, Texas Tech and University of New Hampshire

Tradução da Paula Beça, revisão de Andréia Mortensen

Nesse estudo, o pesquisador Carpenter e colaboradores analisaram os riscos associados à incidência de SMSI (em inglês SIDS) através de uma meta-análise, onde vários estudos anteriores são agrupados e os resultados analisados.

Nosso objetivo é questionar suas conclusões, pois vários dados usados no estudo são inconclusivos, bem como houve uma confusão nos critérios utilizados para definir o que é a cama compartilhada e quais seus riscos.

O estudo analisa alguns dos fatores de risco mais importantes para SMSI -  posição de dormir, se os pais fumam, peso de nascimento do bebê e idade. Já se sabe que esses são os principais fatores que interferem nos riscos de SMSI, e um estudo onde esses fatores são reavaliados tem seu mérito.
O quadro 1 mostra que os riscos analisados contribuem significativamente para o aumento da possibilidade de SMSI. Mas também há outros fatores, como roupa de cama, temperatura e outros, que foram ignorados (veja tabela no final do texto com uma lista de fatores NÃO analisados nesse estudo).
Sem considerar todos os outros possíveis fatores, NÃO é possível determinar que uma variável sozinha, como compartilhar a cama, seja inerentemente responsável pelo risco remanescente observado neste estudo. Também não é possível afirmar que uma das variáveis do ritual de sono, como a amamentação, não seja protetora (ou seja, diminui o risco de SMSI).

Então, apesar dessas grandes limitações do estudo foram feitas declarações arrebatadoras e amplas sobre os riscos de SMSI com base nesta análise.

Há também mais duas questões muito preocupantes nesse artigo:

O primeiro é a maneira com que trataram a variávelamamentação’. Bem no final do artigo há uma recomendação de que o aleitamento materno possa ser um mecanismo de proteção a saúde infantil. Porém, na tentativa de analisar se a amamentação é um fator de proteção para SMSI na presença de cama compartilhada, uma grande confusão foi feita, de modo que o papel do aleitamento materno ficou incerto, mesmo os autores dizendo que seria um fator de proteção.
Além disso, os autores parecem ignorar o AOR do uso de mamadeira e risco de SMSI (veja Quadro 2).

Ao examinar o papel do aleitamento materno, os autores parecem ignorar um aspecto essencial do  desenvolvimento infantil: a amamentação contribui positivamente em ambos curto e longo prazo na saúde infantil, não somente como fator de redução de SMSI (Alm et al, 2002;. Ford et al, 1993, Horne et al, 2004; McVea et al, 2000; Mitchell et al, 1992, Mosko et al, 1997; Scragg et al, 1993).

Assim, é importante considerar, sob qualquer perspectiva, a importância de se incentivar o aleitamento materno até pelo menos o final do primeiro ano de vida da criança. No entanto, os autores parecem colocar o fator protetor da amamentação na ‘arena de risco’, confundindo, assim, a mensagem passada aos profissionais da saúde e aos pais.

Ao invés de analisar como cada uma das variáveis poderia contribuir para o risco de apneia ou dificuldade de acordar, os autores se concentraram em analisar se a amamentação protege contra todos os riscos de SMSI. É evidente que esse é um padrão que não pode ser alcançado.

Podemos, no entanto, responder facilmente se o aleitamento materno protege contra SMSI, independentemente do comportamento dos pais, sem a necessidade de meta-análises, de se imputar dados a partir de 5 dentre 12 variáveis, de definições complicadas dos contextos de cuidados noturnos dos pais para com o bebê (ou seja, de se entender de fato como os pais atendem seus bebês durante a noite). A resposta é simples: SIM, mesmo que se amamente, ainda há um risco de SMSI. E por quê? Porque há vários fatores de risco que influenciam na capacidade de respiração dos bebês e crianças, e que comprometem a capacidade deles de despertar. A amamentação não ‘vacina’ contra todos os riscos (por exemplo, de um travesseiro no rosto do bebê).

Os autores aprovam a amamentação ‘da boca para fora’, mas sugerem que é desaconselhável fazer qualquer afirmação de que a cama compartilhada auxilie a amamentação. Usam a Holanda como exemplo-chave, mostrando que lá o decréscimo na prática da cama compartilhada, mas com um aumento das taxas de aleitamento materno. Só que esse exemplo não é relevante, já que as taxas de amamentação lá são relativamente baixas (e em 10 anos só aumentou de 7% para 8% aos 3 e 6 meses, respectivamente).

Não é claro se a forte campanha anti-cama compartilhada inibiu o crescimento nas taxas de amamentação, algo que deveria ser motivo de preocupação quando se examina os custos associados com a saúde infantil na falta de aleitamento materno. Só nos EUA, uma análise constatou que se tivéssemos um aumento em 80% de mães amamentando exclusivamente por seis meses (como a OMS recomenda), o país iria poupar 10,5 bilhões de dólares por ano em custos de saúde (Bartick & Reinhold, 2009 ).

Além disso, é equivocada e perigosa a afirmação de que, se a cama compartilhada for reconhecida como uma forma de apoio ao aleitamento materno, então poderíamos ter mais mortes por SMSI. Mais perigoso ainda é não apoiar o aleitamento materno em favor de apoiar a alimentação por mamadeira, se isso fosse a solução para que as mães parassem de compartilhar a cama com os bebês.

Embora a meta-análise sugira que o uso de mamadeira seja um fator de risco para SMSI, porém mais baixo do que a cama compartilhada [pela proporção de possibilidades ajustadas (Adjusted Odds ratio) cuja validade será discutida abaixo], isso só se referece a SMSI, e não aos benefícios de proteção gerais da amamentação na saúde infantil.

Como mencionado anteriormente, o aleitamento materno confere muitos benefícios à saúde, tanto imediatos e a longo prazo, para as crianças (Horta et al, 2007; Ip et al, 2007; Martin et al, 2005; Owen et al, 2002) e considerar apenas a SMSI é ignorar todos os efeitos que baixas taxas de amamentação teriam em uma série de doenças.

O segundo problema está relacionado com os fatores de risco inclusos e não inclusos na análise. Felizmente, os autores confirmaram alguns dos principais fatores de risco associados com a SMSI, tanto por si só, como em conjunto com o local de sono. Ou seja, fatores como a posição do sono, tabagismo dos pais, uso de álcool, uso de drogas, peso ao nascer e idade da criança, são fatores de risco confirmados e quantificados, uma vez que os autores encontram relatórios nos registros individuais de cada banco de dados utilizado. Por exemplo, tabagismo materno continua a ser um dos riscos mais significativos associados com SMSI, tabagismo paterno também é risco, e a posição que a criança dorme (ou seja, de bruços e de lado).

Só que faltou analisar outros fatores de risco conhecidos, especificamente fatores de risco associados com o modelo de risco triplo, que são ambientais (ou seja, o local de sono, a cama) ou vulnerabilidade infantil (prematuridade). Além disso, os autores falharam ao não incluir dados que incluem esses fatores de risco e tiraram conclusões muito diferentes sobre o risco inerente de cama compartilhada na SMSI (por exemplo, do estudo de Blabey & Gessner, 2009).

Os autores argumentam que compartilhar a cama está causalmente relacionada a SMSI usando teorias sobre respiração infantil e capacidade de acordar. Os autores afirmam: "A afirmação de que cama compartilhada tem relação causal com a SMSI é coerente com as teorias de obstrução respiratória, re-aspiração de gases expirados e estresse térmico (ou superaquecimento), que também podem dar origem à liberação de toxinas letais, todos esses mecanismos que levam a SMSI, na ausência de fumo, álcool ou drogas. Bebês colocados de bruços estão expostos a riscos semelhantes. "

Pois bem, saiu um comunicado de imprensa sobre esse artigo dizendo que a amamentar e compartilhar a cama com bebês são riscos inerentes para SMSI. Isso está correto?

A resposta é tão simples: NÃO. Então toda notícia que sair na mídia implicando isso está incorreta. De fato, o que coloca uma criança em risco de SMSI é o que coloca a respiração e capacidade dos bebês de despertar em risco.

Então, o que coloca a respiração e capacidade de despertar em risco é bem definido: 
·  obstrução respiratória (por exemplo, roupa de cama);
· reinalação de gases expirados (i.e, se tiver algo encobrindo o rosto, como travesseiros);
· estresse térmico por sobreaquecimento (por exemplo, muitos cobertores);
·         vulnerabilidade fisiológica (por exemplo, o sono profundo induzido por ingestão de fórmula (leite artificial).

Os autores parecem estar argumentando que o comportamento dos pais que pode estar associado com o risco de SMSI, e mesmo que a fonte do risco não esteja no comportamento, esse deve ser interrompido

Isso é muito problemático, considerando-se que compartilhar a cama com os filhos é uma prática universal, evoluída, e é preferida por muitos pais. Na verdade, a ausência de cama compartilhada não elimina os riscos de SMSI. A diminuição em taxas de camas compartilhadas, entretanto, está associada com a diminuição em outros comportamentos que protegem contra SMSI, como a amamentação.

Não há dúvidas que um ambiente de cama compartilhada (partilhar a cama e amamentar) pode incluir elementos que comprometam a respiração e a capacidade de despertar dos bebês. E mais importante, sabemos que a amamentação não só não contribui com risco, mas serve para ajudar a reduzir esses riscos. Veja o quadro 2 que mostra que bebês que se alimentam por mamadeira (LA) tem risco maior de SMSI, não importando onde dorme.

O que dizer de partilhar a cama por si só? Os autores nos querem fazer acreditar que compartilhar a cama por si só aumenta o risco de comprometer a respiração e capacidade de despertar dos bebês.
No entanto, eles não conseguem reconhecer ou discutir o fato de que há outros fatores que influenciam a respiração e capacidade de despertar, tais como a cama (características da cama, colchão, cobertores, travesseiros, etc), temperatura e prematuridade (que está correlacionada com o peso ao nascer, mas traz consigo fatores de risco únicos que devem ser considerados).

Dados do Alaska entre 1993 e 2004 foram analisados com a mesma questão do risco de compartilhamento da cama, só que eles também incluiram outros fatores de risco conhecidos, como superfície do sono (e não apenas um sofá, mas o tipo de cama) e dormir com um pessoa que não é o cuidador (Blabey & Gessner , 2009). Além disso, os relatórios do grupo de comparação incluiram todo o contexto, não somente o LOCAL de sono, mas todos hábitos de sono foram analisados. Assim, eles angariaram informações mais precisas sobre o contexto da cama compartilhada das famílias, do que os estudos incluídos na revisão atual de Carpenter e cols. E então o que eles descobriram desse estudo no Alaska? Que das mortes por SMSI que ocorreram em camas compartilhadas, 99% incluíram pelo menos um fator de risco e, portanto, os autores concluem que "cama compartilhada, na ausência de outros fatores de risco não é inerentemente perigosa".

Então, vamos parar de andar em círculos discutindo questões secundárias e nos concentrar na questão primordial: como diminuir o risco de SMSI. Se é isso que queremos, então devemos nos assegurar que crianças estão nas melhores condições possíveis de respirar e com plena capacidade de despertar.

Como fazer isso?

Trabalhando para reduzir riscos para saúde materna e infantil:

·         Reduzindo elementos que contribuem para a vulnerabilidade pré-natal, ou seja, a exposição intra-uterina à fumaça do cigarro, parto prematuro, gravidez estressante, com aumento do cortisol na corrente sanguínea, baixo peso ao nascimento e outros.
·         Reduzindo a vulnerabilidade no período pós- parto, aumentando taxas de amamentação, aumentando a proximidade com a mãe durante o sono para proteger a capacidade do bebê de acordar (já que dormir próximo da mãe facilita que o bebê desperte, devido aos movimentos da mãe durante o sono, e despertares noturnos são protetores contra SMSI), melhorando o contexto para que novos pais apoiem o aleitamento materno, etc. Este tipo de apoio irá diminuir a vulnerabilidade infantil e melhorar a saúde infantil e a capacidade de despertar durante o sono.
·         Dar condições para que a mãe melhore sua dieta durante a gravidez

Trabalhando para melhorar práticas de cuidados noturnos que garantem respiração e capacidade de despertar dos bebês

·         Colocando bebês para dormir de costas, posição que protege a respiração
·         Colocando bebês para dormir em superfícies planas e firmes, sem travesseiros, brinquedos ou cobertores, todos fatores que protegem a respiração e capacidade de despertar
·         Se certificando que o ambiente dorme em temperatura agradável (nem quente, com cobertores, nem frio). Super-aquecimento é fator de risco para SMSI.

Monitorando o ambiente de sono continuamente

·         Mantendo bebês em proximidade com os pais para que se assegurem da respiração do bebê e da capacidade de despertar (que pode estar associada com variáveis não relatadas, como resposta fisiológica imatura).

Apesar de há muito tempo se fazerem esforços para reduzir a taxa de cama compartilhada, muitas famílias adotam essa prática como forma favorita de dormir e cuidar do bebê à noite. Na verdade, em algumas áreas, a taxa de famílias que adotam a cama compartilhada está aumentando. E essa prática resulta em proteção e saúde que beneficiam mães e bebês.

Só que a segurança dos bebês durante a noite é comprometida quando as discussões não focam nas regras de segurança para praticar cama compartilhada, mas se focam só em proibir que se durma em proximidade.
O foco deveria ser na proteção, e para tal discutir os riscos subjacentes seria uma tática muito melhor para reduzir o risco de SMSI, bem como melhorar as condições de saúde no período pós-natal.

Dez variáveis importantes não consideradas no artigo de Carpenter et al.(2013)
1
Os pesquisadores não consideraram se a cama compartilhada foi planejada com antecedência ou não pela família. Uma pesquisa (Venneman, 2009) demostrou  que quando a cama compartilhada é planejada com antecedência não houve aumento no risco de SMSI (versus cama compartilhada não planejada, ‘acidental’).
Este fator então é extremamente importante e foi omitido do estudo.
2
O artigo não levou em consideração se a mãe fumava durante a gravidez, só no período pós-parto. Este é um fator de risco importante que também foi ignorado no estudo.

3
As informações sobre amamentação são muito limitadas - não se analisou diferenças (porcentagem e frequência) entre bebês exclusivamente amamentados x bebês que recebiam fórmula (LA). Essa análise superficial não possibilita tirar conclusões sobre efeitos da amamentação (ou não-amamentação ou amamentação parcial).

4
O artigo analisou apenas "uso de drogas ilegais”. Só que muitas mães usam drogas prescritas por profissionais da saúde no período pós-natal (0-12 semanas após o nascimento) como analgésicos para a cesárea e lesões perineais pós parto normal, que podem ter efeitos sedativos.
Isto não foi considerado, e é um fator de risco importante.
5
Não analisaram prematuridade no artigo. Um fator de risco super importante que foi ignorado.

6
Exaustão dos pais também não foi analisada. Alguns especialistas definem exaustão como menos do que 4-5 horas de sono por noite, enquanto que outros especialistas aconselham que os pais usem seu instinto. Naturalmente que exaustão dos pais tem impacto na qualidade da resposta que os pais darão ao bebê que chora durante a noite.
Este fator de risco não foi analisado.

7
Os pesquisadores não analisaram o efeito da obesidade materna e paterna.
Outro fator de risco importante que foi ignorado.

8
Nenhuma diferenciação foi feita entre o arranjo de UM ou AMBOS pais na cama com o bebê. Tampouco da localização do bebê (entre ambos pais ou do lado da mãe).
É aconselhável que o bebê esteja entre mãe e parede (ou grade de proteção) e NÃO no meio dos pais.
Da mesma forma, não foi analisado se os irmãos mais velhos também estavam presentes na cama.
Ou seja, mais dois fatores de risco ignorados.

9
Os pesquisadores não consideraram o impacto do consumo de álcool pelo pai quando partilhava a cama. Outro fator de risco omitido do artigo.

10
Nenhuma menção foi feita sobre se os pais estavam cientes das regras de segurança para partilhar a cama e como minimizar estes riscos antes de partilhar a cama com seu bebê.


Referências
Blabey, M.H., & Gessner, B.D. (2009). Infant bed-sharing practices and associated risk factors among births and infant deaths in Alaska. Public Health Reports, 124,527 -534.
Carpenter, R., McGarvey, C., Mitchell, E.A., Tappin, D.M., Vennemann, M.M., Smuk, M., Carpenter, J.R. (2013). Bedsharing when parents do not smoke: Is there a risk of SIDS? An individual level analysis of five major case-control studies. British Medical Journal Open, BMJ Open 2013;3:e002299. doi:10.1136/bmjopen-2012-002299
Ford RPK, Taylor BJ, Mitchell EA, et al. Breastfeeding and the risk of sudden infant death syndrome. Int J Epidemiol. 1993;22:885- 890
Horne RS, Parslow PM, Ferens D, Watts AM, Adamson TM. Comparison of evoked arousability in breast and formula fed infants. Arch Dis Child. 2004;89(1):22-25
Horta BL, Bahl R, Martinés JC, et al. Evidence onthe long-term effects of breastfeeding: systematicreview and meta-analyses. Geneva: World Health Organization; 2007:1-57.
Ip S, Chung M, Raman G, et al. Breastfeeding and maternal and infant health outcomes in developed countries. Evid Rep Technol Assess (FullRep). 2007;153:1-186.
Martin RM, Gunnell D, Smith GD. Breastfeeding in infancy and blood pressure in later life: systematic review and meta-analysis. Am JEpidemiol. 2005;161:15-26.
McVea KL, Turner PD, Peppler DK. The role of breastfeeding in sudden infant death syndrome. J Hum Lact. 2000;16:13-20
Mitchell EA, Taylor BJ, Ford RPK, et al. Four modifiable and other major risk factors for cot death: the New Zealand study. J Paediatr Child Health. 1992;28(suppl 1):S3-S8
Mosko S, Richard C, McKenna J. Infant arousals during mother-infant bed sharing: implications for infant sleep and sudden infant death syndrome research. Pediatrics. 1997;100:841- 849
Owen CG, Whincup PH, Gilg JA, et al. Effect of breast feeding in infancy on blood pressure in later life: systematic review and meta-analysis.BMJ. 2003;327:1189-1195.
Owen CG, Whincup PH, Odoki K, Gilg JA, Cook DG. Infant feeding and blood cholesterol: a study in adolescents and a systematic review. Pediatrics. 2002;110:597- 608

Scragg LK, Mitchell EA, Tonkin SL, Hassall IB. Evaluation of the cot death prevention programme in South Auckland. N Z Med J. 1993;106: 8 -10

8 comentários :

  1. Orgulho!!!! Parabens a essas cientistas que viraram maes pela analise completa desse assunto tao controverso!!!
    Obrigada por me incluir nessa construcao! Beijos

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  2. Ola ! Eu compartilhei minha cama com minha primeira filha. Era ótimo pelo motivo da amamentação. O único problema que tive foi que ela se acostumou a dormir comigo. Estou grávida do meu segundo filho e tenho esse receio. O que vocês acham ? Camila Lopes Tavares

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  3. Parabéns...o que dizer?
    Abordagem completa e esclarecedora.
    Compartilhamos a cama aki em casa e nos sentimos inseguros por N motivos, minha filha tem 5 meses. Mas,o texto já me ajudou bastante.

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  4. Eu tenho 3 filhos (9anos, 2,5anos e 9meses) e apesar da casa grande e deles terem o próprio quarto, dormimos no mesmo quarto até hj. É trabalhoso e cansativo, pois a caçula mama a noite, mas é o momento mais familiar do dia. Nesse mundo corrido, onde os pais trabalham, sinto que meus filhos se sentem mais protegidos e amados assim.

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  5. Obrigada por mais esse texto escalrecedor :)
    saudades das discussões no FB tb.

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  6. Olá, eu tenho 2 filhos (Martina, com 5 anos e José, com 2,5 anos). Também me considero uma "cientista que virou mãe" e tento pesquisar e refletir sobre o processo de criação, evitando repetir os comportamentos que considero equivocados na sociedade (afinal, se acreditamos num mundo melhor, temos que começar por uma forma de criação melhor, não é?). Tento mesclar o que leio e pesquiso com meus "instintos", porque também acredito que a maternidade deve ser mais fácil e natural do que se pinta "por aí". Neste ponto da cama compartilhada eu tenho uma experiência um pouco diferente. Os meus dois filhos passaram a dormir no quarto ao lado do meu, com as portas abertas, muito cedo. Sinceramente acredito que esta separação (aconteceu por volta dos 3 meses com ambos) não foi traumática pra eles, pois sempre tentei compensar com muito contato durante o dia, o sono sempre me pareceu tranquilo e as mamadas (no peito) continuaram ocorrendo em livre demanda. Também acredito que ter esse momento da noite só para mim e meu marido foi importante para nós, principalmente quando o nosso segundo bebê era pequeno e nós estávamos realmente muito cansados. Esse era praticamente o único momento em que estávamos a sós. Uma outra vantagem que vejo hoje é o estreito laço entre meus filhos, que compartilham o quarto. O fato de dormirem juntos (e separados de nós), os torna muito companheiros, mesmo nesta idade. É lindo de se ver!
    Mas claro, nosso quarto e nossa cama estão sempre disponíveis. Às vezes um deles, ou os dois, pedem para dormir conosco e deixamos, até comemoramos e curtimos o momento, com muito chamego!
    Enfim, além do bem estar do bebê e da criança, acho muito importante tornarmos a maternidade realmente prazerosa para nós, os pais. Essa deve ser a maior busca, pois assim, com prazer, fazemos tudo com mais paciência, carinho e atenção.

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  7. Olá!! Compartilhei minha cama com meus 3 filhos, até pararem de mamar no peito, com 1 ano e meio, depois ficaram no mesmo quarto até os 3 anos. Todos os 3 filhos, foram bem amamentados, são muito saudáveis e muito apegados com os pais. Hoje o mais velho já tem 18 anos e a mais nova 4. Compartilhar a cama na época da amamentação é mágico e mais eficiente para a mãe. Obrigada pela matéria.

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  8. Olá, sou contra isso (para mim) mas acho interessante ler à respeito.
    Parabéns!

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