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GOURMETIZAÇÃO DA ALIMENTAÇÃO INFANTIL: SAÚDE O CARAMBA! MEU NOME É "CLASSISMO"!

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Sal do himalaia é mais puro. Quinoa e Maca do Peru são mais completas. Azeite extravirgem de coco é o melhor. Legumes, verduras, frutas orgânicos, claro. Grãos? De molho por uma semana, senão “cuidado com o antinutriente que o antinutriente te pega. Te pega daqui, te pega de lá”... Obviamente tudo servido em BLW (leia abaixo o que é isso), no tempo do bebê. Quem pode? Quem tem dinheiro, quem mora em grandes centros urbanos, quem não tem horário rígido de trabalho, quem não limpa sozinha toda esta bagunça. E a mulher. É, sim: a mulher. Conte-me qual é o homem que você conhece que faz as compras (ou planta e colhe) e dá conta de oferecer cinco refeições por dia - completas, variadas, cozidas do zero - em casa, ao seu bebê, sem nenhuma ajuda externa? Não, gata, aqui o recorte de gênero é absolutamente estabelecido. Precisamos pensar mais amplamente na condição das mulheres pra chegar no BLW dos nossos bebês. A gourmetização da alimentação infantil diz respeito às mães, à reprodução da distinção de classe e da branquitude através da cultura alimentar. E, quer saber? Boa parte do que vendem como “o mais saudável” é mito. Dois dedinhos de prosa e a gente vê que não é beeeeeeem assim. A ideia deste texto é, primeiro, demonstrar como a alimentação infantil e a ideia de “saudável” se estrutura em mitos que servem simultaneamente como ferramenta de distinção sócio-política e de lucro.

[MITO N. 1]  Industrializado versus Caseiro = Lugar de mulher é na cozinha

“O trabalho doméstico é dinheiro para o capital, o capital obteve e obtém dinheiro do que nós cozinhamos, sorrimos e transamos. Ao mesmo tempo demonstra que tudo o que temos cozinhado, sorrido e transado ao largo de todos estes anos não é uma coisa que fizemos porque era mais fácil para nós do que para qualquer outra pessoa, fizemos porque não tínhamos nenhuma outra opção. Nossos rostos se distorceram de tanto sorrir, nos atrofiaram os sentimentos de tanto amar e nossa ultrasexualização nos deixou completamente desexualizadas”

(Silvia Federici, Revolución en punto cero. p. 42).

Sabe quando começa? Na hora em que fazemos o teste de gravidez e nos receitam comer ácido fólico, fugir de carne crua e fazer uma refeição a cada três horas. Para a maioria das mulheres, esta é a primeira experiência em termos de: a saúde do bebê depende das tuas escolhas alimentares, hora de pensar nas “escolhas”. Daí começam a aparecer lendas, como a do desejo de grávida que atribui à mulher um estado de loucura cujo resultado se mostrará na criança. Ela teve vontade de comer melancia e o bebê nasceu com uma mancha verde e vermelha nas costas. A responsabilidade das manchas, das malformações e até dos abortos espontâneos é atribuída às mulheres, junto a isso começa a implicação da responsabilidade pelo cuidado alimentar. A Silvia Federici, esta maravilhosa italiana ali de cima, explica longamente porque é importante para o funcionamento do capitalismo atribuir às mulheres o papel da alimentação, do cuidado e do afeto. As revistas, os programas de TV, os blogs, os livros, as pedagogias alimentares nos dizem isso o tempo todo, diretamente ou não.

Vejamos as filosofias alimentares: das mais alternativas às dietas mais midiáticas, a estrutura se repete. Os proponentes são homens e os livros de receitas são das suas senhoras, invariavelmente mulheres que adotam o sobrenome dos maridos: Mishio e Aveline Kushi, Tomio e Bernadette Kikushi, da macrobiótica; Robert e Veronica Atkins, da dieta do Dr. Atkins; Geoffrey Morell e Sally Fallon-Morell, da Weston A. Price. As orientações alimentares não são uma coisa neutra, elas nascem das reflexões que quem as cria têm sobre a vida cotidiana. Por isso é muito importante contextualizar antes de tomar como verdade indispensável na nossa vida. Há que se politizar a comida. Especialmente quando as "nourishing traditions" da Fundação Weston A. Price, que nos dizem para tomar leite cru e cozinhar caldos por 72 horas, têm relações bem próximas com o Partido Republicano e com os mórmons nos EUA.

Não é à toa, também, que a origem de grande parte dos modismos da alimentação infantil seja os Estados Unidos, assim como não é à toa que boa parte do modismo em alimentação infantil tenha este caráter neoconservador. A oposição “comida de verdade” versus “alimentos industrializados” é um bom exemplo de como o caráter patriarcal se reproduz na cultura e na identidade. Criou-se o mito de que do bem é a comida caseira e do mal a industrializada. Então, a comida ideal é a artesanal, aquela que você faz do zero, como os nossos ancestrais. Uma coisa tipo a receita de ketchup de cogumelos na qual o moço aparece, com trajes do séc. XVIII, fazendo a comida na fogueira ao ar livre, ou as dietas paleo, nos orientando a abandonar os grãos.

Toda vez que um texto sobre comida para as crianças vem com aquele papo de “nossas bisavós faziam assim” me vem na cabeça que elas também casavam aos 9-10 anos, com maridos escolhidos pelos pais, que passavam a roupa com ferro à brasa, que suas cozinhas, movidas a lenha e pilão de madeira, eram também seu único lugar durante todo o dia. A expectativa de vida das nossas bisavós era de 40 anos de idade. A do período paleolítico era um pouco mais de 20 anos. Minha gente, tome tento! Não quero viver como vivia a minha bisavó! Por mais maravilhosa que fosse a paçoca de carne seca no pilão da minha avó, felizmente temos o liquidificador hoje em dia. Argumentos não vão faltar, a carne desfiada pela mão do pilão de madeira certamente será mais suave que a aspereza da lâmina do liquidificador. A paçoca do liquidificador não é tão untuosa, as fibras serão destruídas. E daí, caramba?! Experiência idílica a gente pode ter uma vez por ano. Joia. Mas no dia a dia? Incorporar a tecnologia aos cuidados do lar é fundamental para liberar as mulheres da exploração. O mesmo argumento “das raízes”, da tradição - da família e da propriedade, for sure, honey -, fala do longo cozimento. A carne, os grãos, os caldos, as sementes, longas horas em fogo baixíssimo, simulando a brasa. Já que nossas florestas se foram, fogo baixíssimo à base de petróleo. Recurso finito do gás natural ou da eletricidade, amplamente utilizado porque a panela de pressão nos fará perder uns poucos nutrientes, não produzirá um paladar tão complexo, uma textura tão suave. Recurso caro, o petróleo é a raiz de muitos conflitos. Tanta treta no Oriente Médio e na Lava-Jato por causa do petróleo e a gente querendo deixar panelas eternamente no fogão, em nome de quê? E o impacto ambiental, caso a moda pegasse e todos os domicílios no globo terrestre decidissem pela longa cocção de todos os grãos consumidos? Saúde que vem em micronutrientes, saúde que se perde na exploração privada e global dos recursos. Alguém falou em petróleo, poluição e influência dos EUA? Ah, tá.

E tudo por uma imagem mitológica do que é “caseiro”. A quinoa é industrializada, o azeite de coco é industrializado, o WholeFoods é uma cadeia industrial e até as receitas de catchup caseiro das blogueiras mais naturebas começam com  uma lata de polpa ou tomate pelado. E isso não é necessariamente uma coisa ruim ou uma incoerência. Ocorre que é falsa a oposição entre industrializado e caseiro em grandes centros urbanos. Assim como é falsa a ideia de que a comida caseira é saudável e a industrializada é a do demônio. Tudo depende muito das condições de produção e oferta. O alimento hiperprocessado é menos saudável que o alimento menos processado. Mas uma linda alface nascida em terreno árido terá menos nutrientes e, por mais romântico e gostoso que pareça, ter uma hortinha na janela pode deixar suas ervas frescas orgânicas com uma carga de elementos tóxicos mais alta que a do supermercado tradicional. Isso vai depender de muitas coisas que não podemos controlar, como, por exemplo, o que tem na água e no ar que chega até você. O manjericãozinho fresco da minha casa, na segunda maior cidade do país, numa janelinha que recebe restos de canos de escape, dos venenos aéreos que borrifam contra o Aedes, de tudo o que botam na água e mais tudo o que contamina a água num grande edifício (incluindo restos de encanamentos antigos e os resíduos de silicones e colas dos novos), passa longe de uma erva fresca, nativa, recém-colhida no campo. Pra lucrar, o rendimento monopólico vai criando estas marcas de distinção.

Isso não significa que a umeboshi é machista ou que a conserva lacto-fermentada da dona Fallon-Morell não é uma delícia. Mas impor a carga horária para fazer caldos, desqualificar diretamente o alimento barato – “gorduras boas são só a manteiga da vaca biocertificada, R$ 10,00 por 250 g, o azeite de oliva, R$ 15,00 por 500 ml, ou o óleo de coco, R$ 25,00, por 250 g” –, ou propor que as refeições sejam feitas à mesa e que se mastigue um alimento pelo menos 50 vezes, desconsidera diretamente as mulheres pobres e/ou trabalhadoras, a não ser que você considere de boas passar três dias com a boca do fogão ligada, saindo e voltando, e o panelão ali, ligadão. Como é que a pessoa que trabalha vai conseguir botar uma criança sentada e mastigando 50 vezes cada bocadela por 6 vezes num dia? Diz? 

 

[MITO N. 2]  A mãe “comida de verdade” e a “menas-main” = trabalho doméstico, distinção e reprodução cultural da dominação racial

No mundo das mulheres sem condições, a gente faz das tripas coração para tentar oferecer a melhor alimentação possível e se culpa, porque não consegue, né? E se sente diminuída ou é diminuída brutalmente nas redes sociais. A gente nem se dá conta da perversidade por trás disso tudo. Sem nem vermos, a culpabilização já está naturalizada na nossa cabeça e reproduzimos, sem pensar um pouquinho mais que não é incompetência nossa, não. São as dinâmicas de reprodução da distinção de classe e elas estão ali só pra isso, pra estabelecer uma lógica que separe as mães em “mãe que faz comida de verdade” e “menas-main”. Até o uso do irônico termo “menas” já surge num contexto classista e racista.

A gourmetização é uma forma repleta de classismo, machismo e racismo. A “onda” surge como identidade com os grandes restaurantes, aqueles estrelados, caracterizados pela figura de grandes chefs. O ícone máximo é o chef de cuisine. Quem conhece um pouco melhor sabe que chef é mais um trabalhador nas cozinhas. Meio que um capataz, um capitão do mato. Ele é branco o suficiente para lidar diretamente com o dono – e até para tornar-se patrão – mas tem o papel de coordenar os imigrantes, retirantes, refugiados que cotidianamente perdem dedos e ganham bolhas no calorão das cozinhas de restaurante. O chef é homem, é branco, é rico ou aspirante a rico. Sua comida é elaborada, escassa, rara. Uma série de realities reproduzem o fetiche com a profissão de chef. Não tem nenhum reality de assistente de cozinha, isso é para o SENAC, não para a TV. Assim como os mini-chefs são sempre brancos. Diz aí, quantos “Que Marravilha Chefinhos” com criança negra você viu? A transposição para o universo materno-alimentar começou com os livros e logo foi para os blogs e programas de TV. As estrelas maternas são invariavelmente brancas, ou filhas de ministros, com formação nos Estados Unidos e suas muitas convidadas alvas. E não querem ser confundidas com as “domésticas”. Algumas até se denominam chefs, mas usualmente são desmascaradas ou porque não estudaram para isso ou porque jamais comandaram um restaurante comercial, com equipe de cozinha, horários que avançam as noites, finais de semana e feriados. Então usam o termo “culinarista”, que não é o chef, mas também não as iguala às cozinheiras. Culinarista é mais chique. As Ofélias pós-modernas também se referem às suas empregadas domésticas como “minha ajudante”. Aquela mulher não faz o trabalho mais duro ou a maior parte dele numa casa, ela apenas ajuda a outra. Afinal, o central não é trabalhar, o central é mandar. E manda quem paga, pois o central mesmo é o dinheiro.

O mundo da alimentação infantil muito rapidamente se dividiu em guerras entre “ilustradas” e “ignorantes”. As detentoras do saber, que conhecem a fundo nutrição, psicologia, pedagogia, afeto e a língua portuguesa e aquelas que dizem “eu dou gelatina em pó, suco de caixinha e não me tornei menas mãe por isso”. Dar-se ao trabalho coletivo de ajudar estas mulheres que não podem pagar mais que 2 ou 3 reais no lanche ou no óleo que alimenta as crianças a pensarem em opções viáveis pra quê, né? A gente ri do jeito errado delas falarem, a gente usa a hashtag #menas quando acabamos sucumbindo ao pacotinho para os nossos filhos e seguimos adiante, afinal, queremos o melhor para os nossos filhos e o melhor para a saúde é o óleo de coco. Verdade absoluta cristalizada. Se eu falar dos indígenas tremembé e do trabalho escravo na monocultura e extração industrial do coco, alguém vai dizer: “É fácil fazer em casa” e me imagino “oi trepa no coqueiro, tira coco, chip chip, nheco nheco”... Fácil nada! Fazer óleo de coco pra alimentar uma família por um mês só é barato e simples se você mora na zona litorânea quente. De resto, do ponto de vista da exploração do trabalhador, não há nada de melhor no coco. Do ponto de vista alimentar, a quantidade e a saturação são mais relevantes do que a fonte da gordura. Do ponto de vista da qualidade, temos azeite de dendê,  pequi, buriti, babaçu, macaúba, butiá e de uma quantidade enorme de coquinhos e palmeiras de norte a sul, cada um com propriedades nutricionais riquíssimas, pouco estudados, pouco pensados, pouco cuidados e que nunca aparecem nas receitas de comidas legais para crianças. Por que, né, dendê, buriti, comida de preta e de índia, né? Deve fazer mal.

Não é novidade nem exclusividade do mundo materno a propagação de mitos alimentares para camuflar ou naturalizar a distinção de classe. Quase todo mundo conhece o mito da feijoada, que teria sido criada na senzala pelas escravas para aproveitar o feijão e os restos do porco que as senhoras e os senhores davam para elas. Sabe-se que alimento de escravos era água ou caldo com couro e farinha, angu e pirão. O clássico “História da Alimentação no Brasil”, de Câmara Cascudo, deixa bem claro. Sabe-se também que europeus nunca consideraram embutidos, orelhas, pés, entranhas como restos de comida. O paio, o toucinho e a alheira são grandes amores dos portugueses. A mistura de feijão e carnes também não é nada estranha aos europeus, sabemos do cassoulet, do puchero, do cocido madrileño e comemos aos domingos no Rio de Janeiro o cozido português, com feijão branco. Mas gostamos da historinha de que nossa feijoada foi criada nas senzalas. Nos faz sentirmos bem não apenas com a ideia de que o maior prato nacional seja resultado da nossa história escravocrata, mas, também, nos alimenta naturalizar a ideia de que os pobres devem comer os restos dos ricos. Uma breve olhada na página Eu, empregada doméstica ou nos fóruns de discussão maternos sobre a relação entre comida e babás é muito elucidativa neste sentido.

Obviamente, isto também é global, distinguir pobres e ricos é crucial porque, se todos fôssemos iguais, não haveria razão para explicar porque uns têm muito e outros têm pouco. Aos ricos é imprescindível reproduzir refinamento, bons modos, etiqueta, saúde e toda uma série de valores na reprodução da própria elite. A violência simbólica e a dominação se fazem entre as classes a partir de ações sutis, como alimentar crianças. O BLW, defendido como um método no qual a tônica central da introdução alimentar deve ser a criança e não o contexto e as condições materiais da criação dos filhos, pode ser lido como um exercício claro da distinção, no sentido dado por Bourdieu.  Oferecer uma série de alimentos, diversificados e coloridos para que um bebê coma por si e no seu tempo, demanda outros tempos: o de preparar os alimentos, o de acompanhar as refeições para evitar que o bebê enfie a comida no nariz, na orelha ou nos buraquinhos pudendos, o de esperar até que a fofurinha se satisfaça ou o de oferecer novamente mais tarde, caso não seja aquela hora do almoço a hora mais apropriada para a fome do bebezico e, ainda, o tempo de limpar os pratos, a mesa, o teto, o sofá, o chão e tudo mais o que estiver por perto. Quem pode? A mulher que não trabalha fora de casa e a babá ou empregada doméstica. As duas terão que dar conta disso e de mais uma montanha de serviço doméstico. A diferença entre elas é que as babás e empregadas não têm escolhas e seus bebês estão por aí, tomando fórmula açucarada oferecida às pressas por outra mulher explorada, seja avó, seja cuidadora da creche. Vamos imaginar como seria se uma empregada doméstica mãe dissesse para uma patroa: “Olha, eu faço BLW, então agora vou alimentar minha bebezinha e já já eu volto a passar as camisas do seu marido, tá?”. Imaginem a cena de BLW feito pela empregada doméstica na casa da patroa? Impossível, né? Inapropriado, né? Então. Além disso, o próprio nome, em inglês, incorporando uma tradição tão comum às populações originárias. Por que? Por que não chamamos de “comer de capitão” em vez de Baby-Led Weaning? Afinal, misturar o arroz e o feijão com a farinha e fazer bolinhas de comida que as crianças aceitam mais facilmente é um clássico sertanejo brasileiro. Mas a gente nem pensa nisso quando fala BLW, né? Porque a gente quer nossos bebês comendo por si, mas rapidamente a gente quer também que eles sentem à mesa, comam com os talheres corretamente. E a classe média, como está entre uma coisa e outra, assume lados. Na maioria das vezes, quer se distanciar da pobreza. É muito importante se diferenciar do modo de comer dos pobres numa cultura na qual os valores culturais vigentes são os dos ricos. Dominação também se faz pela papinha, ou contra ela.

 

[MITO N. 3]  Goji Berry do Tibete, Quinoa do Peru, Sal do Himalaia = a arte de lucrar

“A arte de lucrar” é o título de um artigo dum cara muito legal chamado David Harvey.  Ele demonstra como a cultura se transformou numa grande mercadoria para as empresas. Nos mercados globalizados, duas ideias andam juntas: a unicidade e a massificação. Ele não estuda a comida, usa o exemplo do vinho para explicar seu ponto de vista. A gente pode adaptar esta lógica para a comida. Para dar lucro de verdade, os produtos alimentares têm de ser massivos. Mas o valor de um produto depende também das construções simbólicas. Aí entra o que Harvey chama de unicidade. Quanto mais única uma mercadoria parecer, mais você poderá cobrar por ela. Ele fala que a noção de terroir e as denominações de origem controlada servem para isso. Não é qualquer presunto, é o presunto de Parma, o vinagre balsâmico de Módena. Isto é tão explorado que gera algumas confusões. O que chamamos de iogurte grego não tem nada a ver com o iogurte comum da Grécia; assim como não existe picanha na Argentina e o estrogonofe que comemos não é russo, é americano. Ou você acha que catchup e mostarda são ingredientes tradicionais dos czares? E a unicidade não diz respeito só ao lugar de origem, diz respeito ao método – azeite prensado a frio – ao exotismo – sopa do ninho feito com a saliva das andorinhas da China (sim, isto existe e custa uns milhares de dólares) – ou às propriedades nutricionais. A maca do Peru e a Goji Berry do Tibete são o novo Ginseng da China ou a umeboshi do Japão. Ingredientes, preparações e técnicas são valorados por suas características únicas e este critério de unicidade serve à globalização. 

A colonização da cultura é parte do processo de globalização neoliberal. A gourmetização e a onda saudável são parte da mesma indústria que produz o milho transgênico: servem para serem replicadas globalmente internacionalizando renda e lucro. É impossível viver num planeta com tanta gente sem usar industrializados na nossa alimentação. Para a quinoa nascer, crescer e ser colhida lá no Peru e chegar aqui no mercadinho natureba do bairro, há uma cadeia produtiva monstruosa operando. E a principal operação de valor que dá a estes produtos milagrosos o critério de unicidade é o mito.

Aí a gente junta o Harvey com outro tipinho bem maneiro, o Roland Barthes, que já dizia que um mito é interessante não apenas pelo que ele revela, mas também pelo que ele deixa encoberto. Para ele, o mito era uma fala ideologizada. Se você disser “sal” significa uma montanha de coisas. Se você disser “sal do Himalaia” é outra coisa: o sal ideal para usar na comida dos bebês, em pequenas quantidades. Ele pode também ser Persa. Usamos Himalaia e Persa como origens exóticas, fantasiamos pureza, sais ricos em minérios, bons nutrientes. Processo de mitificação confere unicidade ao sal rosa ou azul. Dizer que ele foi extraído à mão invisibiliza sua lógica industrial. Se foi extraído à mão é caseiro, né? Mas por que será que o sal extraído manualmente chegou até o mercadinho natureba do bairro tão barato? O que sabemos sobre o trabalho de extração nas minas de sal do Paquistão, da Índia, do Nepal, do Butão, da China, do Irã? Temos uma vaga ideia de que estamos falando de países onde a noção de direitos humanos ainda está em cristalização, mas quando nos vendem um potinho de vidro, com design refinado, descrição gourmetizada e "saudabilizada", ninguém associa Himalaia e Persa ao trabalho escravo, às concessões hereditárias de minas, ao uso indiscriminado de explosivos e até, quem sabe, à Al Qaeda. Sim, Flipper, sabe as minas de difícil acesso que os americanos diziam esconder Bin Laden? Tchã-rã! Pode ter muito a ver com o salzinho lindo rosinha que moemos alegremente na finalização dos nossos pratinhos coloridinhos. Ou quem sabe a riqueza em minerais dele veio da rigorosa desnutrição das mães trabalhadoras nas minas de Lakh? E se a cor rosa do sal do Himalaia vier do sangue humano?

Será que estamos de acordo que o melhor alimento para os nossos filhos pode vir às custas do sangue e da alma de seres humanos trabalhando em condições subumanas?. Pois é, alimentar com consciência também inclui pensar na dor que nossos caprichos podem causar. E, por isso, a gourmetização usa o mito para nos dizer apenas o que querem que chegue aos nossos ouvidos.

A gourmetização também serve para expropriar a cultura alheia. Pergunte às amigas japonesas como elas se sentem em relação ao que se faz por aí como “comida japa”. A expropriação cultural é problema, não apenas do ponto de vista do respeito às culturas, mas também pela intervenção voraz em contextos locais. Seja o grande chef que alega estar promovendo a cultura amazônica divulgando seus ingredientes, mas está, de fato, negociando rios de dinheiro às custas da sabedoria popular deixando apenas migalhas aos produtores locais; o vendedor de queijo de cabra artesanal que compra ao preço que se cobra na roça e vende ao preço da cidade grande; ou a mãe apressada no café da manhã do hotel nordestino, reclamando da demora da baiana em fazer a tapioca; ou, ainda, quando a quinoa é tão exportada que fica cara demais para a população local, assim como ocorreu com o nosso cacau e o nosso café. Pegam a puba, tiram-lhe a força da tradição e renomeiam como “biomassa de mandioca”. Bem assim é a gourmetização. Aguardem, já já vai ter brigadeiro, veluté e bolo de biomassa de mandioca, como se bolo e mingau de puba jamais tivessem existido.

 

[Mito n. 4] Todos os grãos têm que ficar de molho, um prato tem que ter 5 cores: COLONIZAÇÃO DA ALIMENTAÇÃO

É ingênuo acreditar que uma alimentação completa e diversificada não esteja diretamente vinculada às condições de oferta, à sazonalidade e à valorização de ingredientes locais. O Brasil é um país repleto de opções alimentares riquíssimas, a comida regional é sábia. Mas pouquíssimo valorizada em detrimento de valores mitológicos, cheios de regras ditadas, normatizações generalistas que, apesar de se travestirem de cientificidade para embasar seu argumento, camuflam a redução da esfera da cultura alimentar a uma única cultura alimentar. Em se tratando de crianças, isso pode significar o aumento dos problemas de nutrição infantil. Em se tratando da sociedade, isto significa a morte de várias opções alimentares baratas e ricas do ponto de vista nutricional. A neurose imposta às mães em lugar de traduzir-se em melhor qualidade da cultura alimentar está reproduzindo uma monocultura alimentar que é um perigo à diversidade. Se todas as crianças, de norte a sul, estão comendo mamão papaia com granola e iogurte no café da manhã, menos crianças estão comendo umbu-cajá, guariroba, a baixaria do Acre, o quebra torto do Pantanal, o cuscuz de arroz com carne de sol do Piauí, o pãozinho de queijo mineiro, a cuca de uva com queijo da colônia, no Sul. Você já reparou que, não importa onde você esteja, as frutas dos cafés da manhã dos hotéis no Brasil são invariáveis? Melancia, mamão, melão, sempre meio insípidos, pouco importa a época e a região. Esta é uma das razões para o desaparecimento da imensa variedade de milhos que tínhamos no país. Não se acha mais milho preto pra fazer pipoca. A Yoki agradece.

As regras engessantes também matam as técnicas culinárias. Não há nenhuma razão fora a colonização cultural para tratar um grupo inteiro de ingredientes da mesma forma. Aí vem aquela coisa “todos os grãos devem ficar de molho em meio ácido por 24 horas, senão o antinutriente...”. Antinutriente é a nova Cuca. Cuidado com o antinutriente que ele te pega, te pega daqui, te pega de lá uahahahahaha. Uma coisa absoluta e reproduzida em larga escala. Linhaça? De molho! Feijões, todos! Arroz integral, também! Como se o antinutriente fosse o maior ladrão de nutrientes da humanidade. Bota a pipoca de molho e tenta estourar, vá? É claro que demolhar é técnica muito útil para hidratar um grão (e ele cozinhar mais rápido, sem gastar todo o salário em gás ou energia elétrica). Sim, feijões podem causar flatulência e a hidratação ajuda a diminuir este incômodo. Mas da mesma forma que existem distintos tipos de feijões, há pessoas que sofrem para soltar pum e as que não sofrem nadinha de incômodo com gases. Alguns feijões tem maior concentração de fitatos, oxalatos e/ou taninos e outros antinutrientes que a maceração poderia eliminar, melhorando o aproveitamento de alguns nutrientes. Mas, veja, tem azuki, andu verde, fradinho, preto, vermelho, carioquinha, jalo. Deixar feijão fresco de molho é absolutamente desnecessário. O grão de bico é mais interessante que demolhe, grão grande, duro. A lentilha varia. A vermelha e a verde são sem casca, quase nada de fitato e cozinham rapidinho.

Tem uma variedade de artigos científicos que afirmam que a maioria dos antinutrientes são destruídos no cozimento em aberto ou quando são retiradas as cascas. Em especial se falamos de grãos “industrializados”. O arroz integral que compramos usualmente já foi macerado para a retirada da casca, assim como a quinoa. Sem casca e previamente macerado, o argumento científico vai por terra. Aliás, o temido fitato é antinutriente, mas também é anticancerígeno, sabia? As pessoas postam fotos da água do remolho, horrorizadas com o que a fermentação faria dentro da barriga dos nossos bebezinhos. Mas outras acham o máximo consumir iogurtes, kefir, kombuchás e rejuvelac, todos líquidos fermentados. Aliás, o rejuvelac, amplamente propagandeado como um isotônico de alta qualidade, uma fonte incrível de energia, é a água resultante de deixar de molho grãos, em especial trigo, ou folhas, como o repolho. A água do molho do feijão mata, a água do molho do trigo salva ou tudo depende do momento, da necessidade, da estrutura?

A mesma coisa vale para a regra das cores. Um prato de bebê só pode ser completo se ele tiver 5 cores. E a escala cromática é bem básica, não vale vizinhos da escala pantone, não. Se você tiver acordado com um humor Frozen e quiser fazer tudo branquinho, arroz, feijão, purê de inhame, lulas, nabo e repolhinho clarinho, pode não! Se for roxo, com beterraba, batata-doce, polvo, couve flor roxa, milho roxo, então? Ok, brincadeiras à parte, dado que pouquíssima gente acorda com tudo aquilo roxo, e aí, como faz com a alimentação sertaneja brasileira, baseada no carboidrato-carne? Há um vasto território no país no qual não nascem naturalmente os folhosos. O mesmo vale para as frutas em lugares frios. As folhas no supermercado em boa parte do Brasil são um troço raro, miúdo, feioso. O que faz a mãe nessa hora? Compra a rúcula a 5 reais o molhinho fraco, feioso, orgânico que pode ser falsificado? Ou a gente conversa mais sobre a língua de vaca, a chicória, o coentro? O governo e a indústria já agem com a sua lógica: ao leite de caixinha, já cheio de química, adicionam o cálcio que não chega a todo mundo com facilidade. O mesmo vale para o ferro. Toda a discussão sobre fitatos, ferro, carnes orgânicas ignora a riqueza do sarapatel, dos chouriços de sangue, do sarrabulho. O sangue e os miúdos de porco, de bode, de carneiro, de galinhas são baratos, fartos e podem ser mais importantes no combate à anemia do que arranjar beterraba e gastar água, tempo e fogo com um feijão de longuíssimo preparo. E por que valorizar um e não o outro? Voltamos ao classismo.

Além de abalar a nossa autoestima, a reprodução dos valores de elite também ocupa nosso tempo. Enquanto as mulheres estão na cozinha, não estão lutando por seus direitos e pela maior participação dos homens na criação das crianças. Enquanto as mulheres brancas exploram as mulheres negras e indígenas, não estamos juntas discutindo licença-maternidade ampliada. Sem superar as questões de classe, gênero e raça não podemos pensar num mundo saudável para os nossos filhos. A revolução pela alimentação não virá dum lourinho inglês vendido à indústria exploradora de trabalho escravo e comida ultraprocessada. Ela virá da defesa da nossa diversidade cultural, de pensar a alimentação como algo que integre em lugar de excluir. Todas as crianças precisam comer bem e isso se faz com politização, com engajamento público, com problematização do que tentam nos enfiar, literalmente goela abaixo, como o ideal para as nossas crianças. Ideal para quem, cara pálida?

 

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Suzy dos Santos

Autora: Suzy dos Santos

É mãe da Bebela e do Pedro Luna, escreve - quando dá - o blog Bicho Papinha, é professora da Escola e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa PEIC- Políticas e Economia da Informação e da Comunicação. Escreve aqui principalmente sobre mídia, comida e crianças.

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