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OS LIMITES DO CUIDAR - VIOLÊNCIA NÃO É AMOR!

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Estou novamente às voltas com a busca de uma nova creche para meu filho. Ando apreensiva quanto à adaptação dele e foi então que comecei a procurar por pessoas que já tivessem passado por essa experiência. E, nesta busca, ouvi uma história que me fez pensar muito sobre a forma como nos relacionamos com as crianças e como a violência pode ser perversa quando apresentada com a roupa da normalidade.

Eduardo* é um menino que chegou em terras estrangeiras com 1 ano e 10 meses. Muito precoce para sua idade, Eduardo já se comunicava bem, entendendo tudo o que lhe falavam em português e já dominando o uso de diversas palavras. Assim que chegou, começou a frequentar uma creche perto de sua casa. Foi preciso tempo para que se adaptasse não só à escola nova, mas também à língua que ainda não dominava. Com o passar de alguns meses, ele começou a chorar muito para ir à creche e justificava sua angústia pela presença de um jacaré. Seus pais não entendiam o que aquilo poderia significar. Perguntaram na escola se havia algum jacaré de brinquedo ou algo que desse sentido àquilo que ele insistentemente dizia. A escola não soube responder. Foi quando, em meio a uma brincadeira, o pai de Eduardo começou a questioná-lo sobre o que poderia haver na creche que o deixava tão triste. O menino explicou, então, do seu jeito, que não gostava de ser apertado. O pai, segurando os braços de Eduardo, perguntou se o tal aperto ocorria daquele jeito. Ele negou e beliscou o pai:

“- Não pai, é assim!”

Eduardo vinha sendo constantemente beslicado por uma professora toda vez que ele batia em algum coleguinha. Ou seja, a maneira encontrada pela educadora para ensiná-lo que não se deve machucar os outros foi machucando Eduardo! Muito provavelmente, os atos de violência praticados por ele se intensificaram justamente por conta das agressões impingidas pela cuidadora, já que este não era um comportamento que ele tivesse apresentado antes de ingressar nesta escola. Afinal, ensinou-se que a violência é uma forma legítima de se relacionar!

O ato de beliscar era algo tão desconhecido pelo menino até então que ele não conhecia nem a palavra, tampouco o ato em si. Beliscar representava, apenas de forma lúdica, a mordida do jacaré. Era para ser uma brincadeira, mas que, agora, o machucava. O beliscão não era entendido como algo violento e daí a dificuldade de reconhecê-lo como tal e de conseguir explicar isso. Imediatamente, os pais de Eduardo reconheceram o abuso, explicaram isso a ele e o mudaram de escola.

Engana-se quem pensa que essa dificuldade de reconhecimento e comunicação é própria da criança. Não é. Quando a violência veste a roupa da normalidade e é exercida dentro de uma relação de cuidado e, sobretudo, de poder, ver-se violentado é algo assustadoramente difícil.

Como poderia violentar aquele que detém o poder e o conhecimento do cuidado? Prova de que a violência pode passar despercebida entre adultos é a violência obstétrica. Quantos relatos de partos violentos, quantos discursos que defendem que a dor, o desconforto, o horror são provenientes do parto em si e não da forma de assistência? Reconhecer-se violentada durante o trabalho de parto requer muita informação sobre as formas recomendadas de assistência. A desinformação acaba por maquiar aquela violência como algo normal e até normatizado. Subir na barriga da parturiente (manobra de Kristeller), por exemplo, passa a ser procedimento padrão, assim como cortar a sua vagina (episiotomia) sem ao menos lhe perguntar. Procedimentos como esses trazem dor, desconforto e podem implicar em outros procedimentos desnecessários. Mas pela sua normatização, passam a ser vistos como algo inerente ao parto e não como algo violento que nunca deveria pertencer à assistência médica.

A forma mais cruel de violência é quando ela não pode ser nomeada. A violência quando veste a roupa da normalidade pode passar despercebida, embora os seus danos não sejam menores. A diferença é que quando a violência é reconhecida e nomeada tal qual ela realmente é, torna-se possível entendê-la. Contudo, quando não há nomeação, corre-se o risco de que a vítima passe a entender que o desconforto sentido é algo que parte de dentro dela, ou por falha, ou por excesso de sensibilidade, ou mesmo por falta de cognição.

E quando somos violentos com nossos filhos? O que fazemos? Ficamos com a consciência pesada? Confortamo-nos achando que estamos colocando “limites” e que eles o farão uma pessoa melhor? Nem pensamos sobre isso? Desculpamo-nos? Nomeamos isso a eles?

Acredito que amor é uma construção. E as crianças aprendem a amar com seus pais e com aqueles que cuidam dela. Além disso, crianças são seres dependentes e precisam, por sobrevivência, destes cuidados. A relação de poder que se instaura, portanto, entre um adulto e uma criança é algo que dificilmente será revivido ao longo da vida. Talvez nunca mais fiquemos novamente submetidos a alguém para comer, vestir, nos limpar e às vezes até para falar. Esse excesso de poder do qual se investe o cuidador é perigoso: quando ultrapassa o limite do cuidado para a violência passa a ser vislumbrado como uma possibilidade de um caminho fácil no educar, sobretudo em uma sociedade que sobrecarrega a mãe vendo-a como cuidadora exclusiva de seus filhos.

E nem vou entrar no mérito da não violência. É claro que é importante falar sobre métodos não violentos quando pensamos em formas de relacionamento, principalmente com crianças. Evitar a violência é sempre o melhor caminho. Contudo, vejo a agressividade como algo inerente às pessoas. E ela é sempre exteriorizada em diferentes graus. Outrossim, é preciso humanizar as relações. Nós somos falhos enquanto seres humanos, por que então deveria haver perfeição na parentalidade? A agressividade pode surgir seja por problemas mal resolvidos com nós mesmos, seja pela sobrecarga ou pela dificuldade própria do cuidar. Mas, então, o que fazer com ela? Como proceder quando estamos sendo violentos?

Aprender a pedir desculpas.

Porque pedir perdão é, antes de tudo, assumir que se causou sofrimento ou mesmo um desconforto. Assumir-se culpado pelo sofrimento quando se está em uma posição de poder é crucial. Quando a gente se desculpa perante os nossos filhos, estamos dizendo que aquele ato violento em nada se confunde com amor. Que aquilo foi uma falha e que assumimos isso. É evidente que o pedido de desculpa não apaga tampouco isenta o ato violento, mas ele demarca os limites da relação. O pedido de desculpa é um sinal de que algo foi transgredido e que aquilo não deveria ter ocorrido. E, para mim, muito mais perigosa do que a violência em si, é mostrá-la como algo normal e inata ao amor. E bater não é amor, gritar não é amor, ameaçar não é amor, beliscar não é amor. Fazemos isso por incapacidade e não porque amamos. Assumir-se falho, isso sim é prova de amor. Não quero correr o risco de fazer entender que amor e violência andam juntos. Porque estava errado aquele que recitava que amor só é bom se doer. Não, se doer não é amor.

Saber nos reconhecer falhos e conseguir acolher nossos erros é uma parte do processo de humanizar as relações. Gosto de pensar que assumir-se falho perante um filho é também um grande ensinamento no sentido de não se acreditar em idolatria ou não deixar que seja criado qualquer tipo de culto à pessoa que eu sou. Lidar com a imperfeição daquele que é o exemplo auxilia na aceitação dos nossos próprios limites. E me surpreendo sempre com a capacidade de acolhimento que as crianças demonstram quando reconhecemos um erro e lhes pedimos desculpas.

Além disso, apontar a falha legitima o sentimento da criança, visto que é uma mensagem de que a dor, a angústia ou o desconforto têm razão de ser. Porque ela não está errada nem confusa por ficar triste perante uma agressão. Contudo, quando validamos nossa agressão dizendo que fazemos isso por amor ou para educar (ainda que esta justificativa esteja implícita), estamos também dizendo que a criança não pode se sentir mal, que na verdade deveria ficar satisfeita por saber que alguém zela por ela.

A psicanalista Alice Miller analisa como a inteligência emocional de uma pessoa pode ser severamente comprometida quando a repressão dos sentimentos se impõe:

“Isso explica, entre outras coisas, porque a necessidade da repressão das dores na infância produz não só a negação da própria história mas também o sofrimento das crianças em geral, e com isso provoca deficiências relevantes na capacidade de pensar.

(...)

Quando criança, aprendemos a reprimir e a negar sentimentos naturais. Aprendemos a achar que as humilhações e as surras são para o nosso bem e não nos provocam dores. É porque nosso cérebro está equipado com essa falsa informação que educamos nossos filhos com os mesmo métodos, e convencemo-los de que para eles também é bom o que supostamente foi bom para nós.

Por isso milhões de pessoas podem afirmar, com toda a seriedade, que as crianças só se tornam boas e comportadas com o emprego da violência.[1]

Reconhecer o erro é importante em qualquer relação, mas se torna ainda mais imprescindível nas relações de cuidado com crianças, visto que elas ainda não têm repertório para conseguir distinguir os limites do cuidar. Geralmente, quando falhamos com nossos companheiros, amigos e colegas, esse nosso erro é apontado pelo outro. Há uma deixa para que possamos reconhecer a culpa e nos desculpar. Já com a criança nem sempre existe esse apontamento. O grande problema é quando a criança passa a entender a agressão como algo inerente ao cuidado. E a hipossuficiência da criança em relação ao adulto cuidador tende a fazê-la aceitar e naturalizar esta violência sem protesto. Por isso, devemos sempre nos questionar: e se eu fosse meu filho, gostaria também de ser cuidado desta forma?

Neste sentido, levo as palavras da psicanalista Françoise Dolto, que afirma que nós, enquanto pais, temos apenas deveres em relação a nossos filhos. Pois temos o dever do cuidado e de saber limitar e expor quando o extrapolamos:

“Por que parece subversivo dizer que os pais não têm nenhum direito sobre seus filhos? Em relação a estes, eles têm apenas deveres, ao passo que seus filhos em relação a eles têm apenas direitos, até sua maioridade. Por que parece subversivo dizer que todo adulto deve acolher todo ser humano desde seu nascimento como ele próprio gostaria de ser acolhido? Que todo bebê e criança deve, por todo adulto, ser assistido em seu desabrochar físico, sua falta de coordenação e sua impotência física, sua afasia, sua incontinência, sua necessidade de cuidados e de sua segurança com o mesmo respeito que esse adulto desejaria se estivesse na situação dessa criança (e não como ele foi, ou acredita ter sido, ele próprio tratado em sua infância)?”[2]

* O nome foi alterado para preservar a privacidade da criança.

 


[1] MILLER, Alice. A verdade liberta: superando a cegueira emocional. Trad. Inês Antonia Lohbauer; revisão da tradução Eurides Avance de Souza. São Paulo: Martins Fontes, 2004. P. 77 e 80.

[2] DOLTO. Françoise. A causa das crianças. Trad. Ivo Storniolo e Yvone Maria C. T. da Silva. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2005. P. 133

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Lígia Birindelli Amenda

Autora: Lígia Birindelli Amenda

É advogada e mãe do Daniel. Acredita que o papel de mãe tal qual como está posto precisa ser repensado e esvaziado em prol das mulheres e de seus filhos. Segue aprendendo e refletindo sobre feminismo, maternidade, cuidado e infância. E é justamente sobre isso que escreve aqui.

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