SOBRE

Conheça nossa história

Ligia Moreiras Sena - A Cientista Que Virou Mãe

Em 2009, descobri que estava grávida. De um relacionamento recém começado. Eu não sabia nada sobre gestação, parto, amamentação, infância e não achava que pudesse aprender. Então fui em busca de informação que pudesse me fortalecer, me orientar. E, especialmente, que me movesse à reflexão sobre a realidade em que vivem as mulheres que se tornam mães. Eu queria informação fora da caixa. Queria que me respondessem por que criança precisava tomar mamadeira. Por que criança precisava dormir separado de seus pais. Por que eu precisava comprar uma lista infinita de coisas. Por que eu precisaria deixar minha filha tão bebê, ainda amamentada, em uma creche pra poder trabalhar ao invés de contar com uma estrutura social que acolhesse a mãe trabalhadora e seus filhos. Por que crianças “precisavam” ser criadas com tapas, gritos e xingamentos. Por que eu, de Ligia que sou, passaria a ser chamada de “mãezinha”. Por que, apenas por ter me tornado mãe, eu passaria por tanta situação de desigualdade, iniquidade e dificuldade nessa sociedade que ridiculariza mulheres em função da maternidade. E nenhuma resposta afirmativa a qualquer uma dessas perguntas me satisfez. Pelo contrário: a cada resposta afirmativa no sentido de “PORQUE É ASSIM” surgia com ainda mais força em mim a vontade de ajudar a mudar esse cenário de exclusão e iniquidade em que vivem as mulheres mães.

Todas as reflexões que eu ia fazendo pelo caminho, procurava registrar em um blog que chamei de CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Porque era isso mesmo: eu era uma cientista e virei mãe. E me tornei mais mãe que cientista - até porquê comecei a questionar a forma como se faz ciência no mundo de hoje e a representação que se faz das mulheres dentro dela. Sem que eu planejasse, a esse blog foi chegando gente, foi chegando gente, e as mulheres que a ele chegavam passavam, em grande parte, a se identificar com as reflexões. Hoje, são milhares de pessoas, mulheres em sua grande maioria, conectadas a um site que tem como objetivo principal promover a reflexão crítica sobre a realidade das mulheres e da infância, oferecer apoio para o fortalecimento de mulheres mães e, principalmente, produzir informação à margem da mídia tradicional hegemônica, que é machista, desvaloriza mulheres e nos vende como produtos às grandes corporações.

Indignada com a forma como essa mídia tradicional produz informação voltada para o público materno e demais cuidadores da infância, decidi, um dia, mobilizar esforços para valorizar o trabalho de mulheres mães que se dedicavam a produzir informação na mídia não hegemônica. Mulheres que apoiavam outras mulheres por meio de seus escritos, sem receberem qualquer tipo de remuneração e que, exatamente por isso, com o tempo deixavam de escrever para gerar renda, deixando-nos novamente nas mãos da mídia tradicional. Então, em parceria com Nani Feuser, idealizei uma nova forma de produção e financiamento da informação: a PLATAFORMA CIENTISTA QUE VIROU MÃE. A primeira plataforma brasileira de informação produzida exclusivamente por mulheres mães. São jornalistas, cientistas e demais produtoras independentes de conteúdo e, o mais importante, SEM O PATROCÍNIO DAS GRANDES CORPORAÇÕES. Nosso modelo de negócio se baseia no financiamento coletivo de todos os textos produzidos por essas escritoras. Como se fosse uma revista, mas com a grande vantagem de podermos escolher todo o conteúdo que vamos ler, não sermos expostas à publicidade e, o que para mim é o mais relevante: onde ALGUNS financiam informação PARA TODOS. Estamos saindo do paradigma da EXCLUSIVIDADE em direção à INCLUSIVIDADE. Da escassez para a ABUND NCIA. Numa visão colaborativa, solidária e coletivamente responsável.

Essa é a história, em curso, do blog Cientista Que Virou Mãe e de como ele se transformou em uma plataforma colaborativa de produção de informação. E essa transformação não teria ocorrido da maneira tão afetiva como está se não fosse essa moça que apresento abaixo. Minha amiga, minha parceira, companheira na luta contra a opressão às mulheres e agora, também, minha sócia.

Nossa História: Nani

Em 2009 eu era uma aluna de mestrado grávida, apavorada, cheia dúvidas. Não tinha planejado a gravidez e passava 12 horas por dia, 5 vezes por semana, estudando bioquímica e genética de plantas. Resolvi que não poderia mais continuar estudando apenas para suprir as demandas da comunidade científica. Eu precisava me preparar para o grande momento que chegava, uma transformação completa, a maternidade. Fui para a web em busca de informação sobre todo um universo que eu desconhecia completamente, encontrei um blog chamado IntensAmente, escrito por uma também pesquisadora que vivia e entendia o mundo da pós graduação, igualmente grávida, igualmente se deparando com uma diversidade enorme de dilemas, pesquisando e refletindo a maternidade de um modo único, genuíno, que fazia muito sentido para mim, que fazia com que eu sentisse que não estava só.

Eu já tinha minha Lelê nos braços e aquela escritora com quem eu me identificava tanto estava ainda com sua Clara na barriga, prestes a chegar. Mandei um e-mail para ela pedindo que ela não achasse uma loucura uma pessoa que nunca a viu querendo lhe enviar presentes, que eu era uma pessoa do bem e que as reflexões dela me faziam muito bem, que minha filhota já tinha nascido e que como todo bebê perdia roupinhas a todo vapor algumas sem nunca ter usado, e que eu queria com muito carinho que essas roupinhas fossem da Clara. Ela me respondeu prontamente e muito gentil disse que não me achava louca e pelo contrário queria muito que eu participasse do chá de bebê dela. Viajei da cidade vizinha onde eu morava até Florianópolis, nossas famílias se conheceram e ali começou uma grande amizade que sobreviveu a um tanto de doideira que acontece nessa vida da gente.

Com as filhotas já crescidas, brincando na areia ao nosso redor enquanto novamente nos encontrávamos em momentos tão parecidos de grandes mudanças na vida resolvemos que de amigas, parceiras nos tornaríamos também sócias, ali nascia o CQVMuitas!

*Clara até hoje usa roupinhas de Lelê, me enchendo de orgulho e fazendo aproveitar um pouco mais sempre, uma filhota “menorzinha”.