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"Entrei em um BBB e ninguém me avisou": quais as implicações de estar online e como isso afeta especialmente as mulheres?

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Eu não sei se você já se perguntou para onde vão os dados que espalhamos por aí, a cada vez que nos conectamos às nossas contas de e-mail, em mídias sociais, ou utilizamos um aplicativo, ou assistimos a um vídeo, ou comentamos uma notícia, ou curtimos uma postagem. Muita gente tem se perguntado e refletido sobre o que significa esse grande BBB que a vida contemporânea se transformou e se consolida a cada dia, e eu gostaria de te convidar para pensarmos no que são essas questões, te mostrar algumas curiosidades e fatos e avaliarmos os impactos e quais as implicações que essa vida online traz para nós, enquanto sociedade. Vamos?

Copa do Mundo se aproxima e as varejistas de eletrodomésticos se apressam em anunciar ofertas de TVs. É assim há décadas no Brasil e hoje, com tantas opções de televisões enormes e inteligentes, não seria diferente. Mas você já ouviu falar que Smart TVs estariam registrando informações a partir das salas de estar das/os consumidoras/es? Pois bem, em 2016, a Samsung passou por um imbróglio enorme para explicar sobre uma recomendação que ela mesma fornecia a quem comprasse uma dessas TVs:

Por favor, esteja ciente que, se suas palavras incluírem dados pessoais ou outras informações sensíveis, essa informação estará entre os dados capturados e transmitidos para terceiros pelo uso do reconhecimento de voz”, dizia a marca.

Nunca saberemos se tudo fora um mal entendido ou se os dados realmente são capturados,mas, em 2017, o Wikileaks iniciou uma série de denúncias em que afirma que a CIA vigia lares e pessoas a partir de Smart TVs e smartphones de marcas como Apple, Android, Windows e novamente Samsung, não de modo oficial, mas por meio de dispositivos maliciosos que controlariam esses aparelhos. Ainda em 2016, o jornal britânico The Independent revelou que o Google captura e armazena áudios gravados a partir de smartphones, sem comunicar previamente seus/suas usuários/as; contudo, cada pessoa pode ouvir os registros e excluí-los, caso deseje (caso você queira saber o que o Google andou gravando a partir de seu perfil, basta acessar aqui). No mesmo ano, The Independent também publicou sobre o Facebook compartilhar informações entre plataformas da empresa: Whatsapp e Facebook, mas que, à época, usuários/as poderiam decidir se aceitariam esse compartilhamento ou não. E, para fechar essa primeira parte de tantos casos curiosos noticiados, há o caso da empresa americana iRobot, criadora do robô-aspirador Roomba, e que apresenta uma linha de produtos capazes de mapear residências, identificando características do imóvel, móveis, equipamentos e marcas usadas e, posteriormente, via consentimento de usuárias/os, tais dados seriam compartilhados com interessados.

ARQUITETURA DA PERSUASÃO

Apesar de todas essas notícias, talvez você pense que se trata de um mal necessário de nosso tempo, e não veja nenhum problema na captura e uso de dados pessoais por companhias e instituições. Se você pensou isso - e também se não pensou -, eu queria te apresentar uma pesquisadora muito interessante, chamada Zeynep Tufekci. Ela tem um TED intitulado “Estamos criando uma distopia só para fazer as pessoas clicarem em anúncios”. É uma palestra bastante provocativa - se você quiser pausar a leitura e ir assisti-la, eu aguardo -, e um dos conceitos mais interessantes que ela traz é o que ela chama de arquitetura da persuasão”.

Ela trabalha esse conceito durante o TED e sublinha que ele surge para um propósito muito simples, que é o de direcionar assertivamente a publicidade. Em uma mídia social, as pessoas, espontaneamente, expressam características sobre si, seus gostos e preferências. Pois bem, essas informações tendem a ser agrupadas e classificadas, de modo que, quando um anúncio de uma marca relacionada a alguma dessas características é criado, o Facebook consegue direcionar tal anúncio a pessoas que possuem maior afinidade com essa marca, produto ou conceito. A arquitetura de persuasão surge para uma finalidade muito simples, por assim dizer, mas muito eficaz.

Se você trabalha com publicidade ou comunicação, sabe que os elementos transmissor, mensagem e receptor são a chave da comunicação e, quanto maior a afinidade, maior o sucesso dessa comunicação. Pois bem, Tufekci nos diz que as plataformas de mídias digitais têm se esmerado em fazer isso de modo cada vez mais automatizado e preciso. O início do problema ocorre quando entram novos elementos tecnológicos como a inteligência artificial ou o aprendizado de máquina. Com certeza, você já ouviu alguma vez uma frase do tipo “os algoritmos do Facebook só me mostram tal e tal conteúdo” ou mesmo “os algoritmos do Facebook nunca me mostram postagens de fulano e ciclano”. Bem, se você já ouviu falar sobre isso, então já está experimentando essa tal arquitetura da persuasão que Tufekci alerta. Mas não é só isso.

ALGORITMO: O QUE É ISSO, AFINAL?

E aqui, creio que valha a pena algumas explicações rápidas e básicas sobre algoritmos. Vamos lá. Algoritmos são, a grosso modo, como receitas de bolo. Um algoritmo é um conjunto de passos definidos que, se seguidos ordenadamente, concluem em um resultado específico. Pois bem, há diferentes tipos de algoritmos. Por exemplo, quando você aciona um aplicativo como o Google Maps ou Waze, entram em uso um conjunto de algoritmos específicos que conduzirão você ao seu destino, seja pelo caminho mais rápido, pelo caminho mais curto, pelo caminho mais seguro, e etc. Quer outro exemplo? Quando você está assistindo Netflix ou YouTube e, logo após assistir a um vídeo, há a recomendação para um outro vídeo - em geral de conteúdo semelhante ao que você acabou de ver ou parecido com conteúdos que você tem assistido. Esses algoritmos, chamados de algoritmos de recomendação, também podem ser exemplificados pelas constantes recomendações de páginas para curtir ou pessoas para adicionar como amigas/os no Facebook.

Ok, voltando ao raciocínio da Tufekci: as pesquisas computacionais têm se desenvolvido em larga escala e, com elas, esses algoritmos têm ficado mais elaborados e eficientes. Como por exemplo temos os algoritmos não supervisionados, que recebem esse nome porque são algoritmos complexos e capazes de tomar decisões e aprender com as decisões tomadas. E é disso e de muitas outras coisas que a inteligência artificial e o aprendizado de máquina têm tratado (se você se interessa pelo assunto, tem um documentário muito interessante sobre isso na Netflix, chamado “AlphaGo”, uma inteligência artificial desenvolvida pela DeepMind e comprada pelo Google, que aprendeu a jogar Go, um dos mais complexos jogos de tabuleiro que existem. A IA (inteligência artificial) desafiou os melhores jogadores do mundo, obtendo resultados espetaculares. Aliás, já há uma nova versão do AlphaGo, o Zero, que é capaz de aprender sozinho e, quando ajudado por humanos, tem uma performance pior do que se ele estudasse sozinho).

Pois bem, segundo Tufekci, a entrada dessas tecnologias - que são capazes de processar todos esses dados de um modo jamais visto, sendo capazes de realizar inferências e estimativas sobre indivíduos, grupos e comportamentos em grande escala e com tamanha precisão, operando dentro de plataformas digitais utilizadas em massa por pessoas do mundo todo, 24 horas por dia e sete dias por semana - pode, eventualmente, ocasionar problemas que ainda não conhecemos e, por que não dizer, interferir na sociedade de modo muito mais intenso do que um mero anúncio de publicidade jamais foi capaz. Quando Tufekci gravou esse TED, ainda não tinha vindo à tona o escândalo envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, que esteve em voga no noticiário nas últimas semanas e que traz muitas questões que pesquisadores/as como ela têm apontado.

O ESCÂNDALO DE VAZAMENTO DE DADOS DO FACEBOOK

O que foi esse caso entre Facebook e Cambridge Analytica? Muito resumidamente, trata-se do uso indevido de dados fornecidos pelo Facebook para um aplicativo. Até então, criado como pesquisa acadêmica sobre perfis psicológicos e sociais de pessoas comuns que responderam a um teste na plataforma, ele foi capaz de coletar não apenas os dados de usuárias/os participantes, mas também das redes de contatos dessas pessoas, capturando ao final dados de cerca de 87 milhões de usuárias/os, com grande concentração nos EUA. O maior problema se deu quando esses dados obtidos para essa finalidade específica (um teste sobre personalidade) viraram uma empresa de marketing chamada Cambridge Analytica e toda essa inteligência gerada a partir desses dados foi direcionada para estratégias de campanhas eleitorais e de influenciação política, customizadas ao gosto do freguês, como por exemplo, a eleição de Donald Trump e o Brexit. Agora, repare um detalhe fulcral disso tudo: a forma como foram obtidos os dados. Um reles teste, daqueles que, provavelmente, todas/os nós já respondemos por meio de nossas contas no Facebook ou utilizando os nossos logins de contas no próprio Facebook ou no Gmail, testes aleatórios que eventualmente viralizam nas mídias sociais e todas as pessoas de nossas redes (que o algoritmo nos permite visualizar) parecem estar respondendo.

É importante lembrar, ainda, como se originou todo esse escândalo: por meio de uma reportagem exibida pelo Channel 4 que apresentou os modos espúrios que a Cambridge Analytica e seus líderes utilizavam para influenciar a política e em decisões que afetam toda a sociedade, interferindo no que conhecemos hoje como democracia e no direito à privacidade e à proteção dos dados pessoais. Inclusive, o Facebook admite que cerca de 443 mil perfis de usuárias/os brasileiros foram compartilhados com a Cambridge Analytica (você pode consultar se seu perfil foi compartilhado aqui), e a agência já tinha uma parceria

no Brasil para começar a operar nas eleições presidenciais deste ano. Ainda sobre esse acontecimento que causou uma reviravolta no cenário internacional, vale recordar que o Facebook iniciou uma série de medidas que prometem aumentar a segurança dos dados de usuárias/os. Entre elas uma auditoria em cada aplicativo que funciona abrigado dentro da plataforma (ação inédita até então). Ao mesmo tempo, Mark Zuckerberg foi até o Senado norte-americano e passou cerca de oito horas respondendo à sabatina de cada senador quanto aos dados capturados de usuárias/os. Durante o depoimento, foi questionado, por exemplo, se essas informações são vendidas para terceiros, que medidas estão sendo tomadas, inclusive quanto às fake news e aos recorrentes discursos de ódio e, claro, discutiu-se sobre direito à privacidade e regulação de plataformas midiáticas como o Facebook.

FACEBOOK: INFLUENCIANDO ELEIÇÕES E EMOÇÕES. TWITTER: VIOLENTO PARA AS MULHERES

Esse debate acontece em momento extremamente oportuno. O próprio Facebook tem publicado as medidas que tomará para que haja transparência nas publicidades eleitorais que serão realizadas e seu CEO, Zuckerberg, demonstrou ciência da complexidade das eleições presidenciais no Brasil e na Índia que se darão ainda este ano. É uma resposta que agrada investidores, visto que todo o escândalo se deu a partir do impacto do marketing político e eleitoral, e que causou extremo desconforto em políticos nos EUA e na Europa, causando prejuízos históricos no valor das ações da plataforma. Vale lembrar que em uma época tão sensível às fake news e aos estragos que elas são capazes, as medidas chegam tarde. Porém, dado todo impacto que o escândalo da Cambridge Analytica tem tido, tanto com os depoimentos quanto com as forças externas - como a regulação promovida pela União Europeia por meio do General Data Protection Regulation que entra em vigor a partir de maio -, são esperadas mudanças.

Nesse ponto, chamo atenção para que pensemos sobre o Facebook enquanto empresa de mídia, assim como uma Rede Globo ou uma Folha de São Paulo, com um poder de influência que transcende os limites geográficos e, muitas vezes, às populações de vários países juntos, comparável apenas a outras gigantes como Google e Amazon. E todo esse poderio advém do modo como captura, organiza e trata os dados de quem o utiliza, transformando-os em inteligência a respeito do consumo, da sociedade e dos grupos sociais e fazendo todo esse movimento a portas fechadas, sem que nós, pessoas que geram esses dados, possamos saber ou sequer decidir sobre o quanto estamos dispostas/os a permitir tamanha vigilância. A própria Tufekci cita um experimento realizado pelo Facebook para influenciar pessoas a votarem e que, sozinho, impactou cerca de 100 mil pessoas a mais no pleito eleitoral. Ou um caso ainda mais antigo, igualmente experimental, com mais de meio milhão de indivíduos que o Facebook conseguiu influenciar no humor e nas emoções a partir do que exibia em suas linhas de tempo.

Se resgatarmos a carta da ONU sobre os princípios da Internet, escrita em 2011, que afirma, categoricamente, que privacidade, igualdade, liberdade e segurança são direitos que assistem a toda pessoa no espaço digital, precisamos urgentemente refletir sobre o que as mídias sociais, enquanto empresas midiáticas, têm nos oferecido a esse respeito. Tais princípios não surgem a partir do nada, mas da própria sociedade organizada, do compromisso inalienável com os direitos humanos, com uma sociedade mais justa e igualitária. Para demonstrar a importância que esses princípios têm para a sociedade, na contramão, o Twitter aparece como ambiente extremamente violento para mulheres, em um relatório recente da Anistia Internacional.

O poder da Internet e da conectividade, o barateamento de dispositivos móveis e de computadores e a popularização de seu uso são reflexos da socialização contemporânea, de como o ambiente digital é real e presente na vida de milhões de pessoas em torno do globo. Manifestações mobilizadas a partir das mídias sociais, como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street que gerou ocupações pelo mundo todo, os movimentos sociais que aconteceram no Brasil desde 2013, as mobilizações e campanhas como #EuNãoMereçoSerEstuprada, #MeuAmigoSecreto e, mais recentemente #MariellePresente (que sozinha totalizou mais mensagens que todas as mobilizações anteriores no Brasil, incluindo-se o impeachment), demonstram o poder inigualável que a coletividade possui ao ampliar suas vozes por meio digital, mas também demonstram como é urgente que a sociedade debata quais as implicações que tudo isso traz para a vida offline. Especialmente para minorias políticas, frequentemente mais suscetíveis a crimes e discursos de ódio também no espaço digital.

OS RASTROS DIGITAIS QUE DEIXAMOS E OS MUROS CONSTRUÍDOS À NOSSA VOLTA

Fernanda Bruno, pesquisadora da UFRJ, fala com frequência sobre vigilância digital e nos provoca sobre nossos “rastros digitais”, ou seja, vestígios que nossas participações online deixam, estejamos cientes ou não, e que são utilizados para os mais diversos fins. Como por exemplo, quando o GPS do smartphone fica ligado e o sistema Android, que é do Google, mapeia todos os caminhos percorridos, influenciando nas publicidades que são apresentadas no YouTube durante a exibição de algum vídeo ou fazendo alguma enquete sobre o que a usuária/o achou de algum lugar em que esteve recentemente. A pesquisadora considera como vigilância toda atividade que envolva: observação, geração de conhecimento e intervenção. Desta forma, as mídias sociais se constituem ampla terra fértil para todo tipo de vigilância. A pesquisadora, fortemente calcada nos estudos de Michel Foucault sobre poder, comenta a vigilância contemporânea que se dá estrategicamente baseada em três circuitos legitimadores dessas práticas:

  1. Circuitos de segurança e controle;
  2. Circuitos de visibilidade midiática;
  3. Circuitos de eficácia informacional.

Não faltam exemplos para ilustrar tais práticas e como se sofisticam os circuitos de segurança e controle. Somente neste artigo, foram citados alguns. Ocorre lembrar também o caso recente de que a startup de inteligência artificial mais bem avaliada financeiramente do mundo seja uma baseada em reconhecimento de imagem, e que seu maior cliente seja o governo chinês, que atualmente já está apto a prender um suspeito ainda que ele esteja misturado em uma multidão de 50 mil pessoas. Quanto à visibilidade midiática, devemos pensar também no que representa um algoritmo propositalmente enviesado por nossos gostos, preferências e reações, que organiza as informações que nos exibirá (tal qual o editor/gatekeeper jornalístico) a partir do que ele mesmo interpretou como de nosso interesse e sendo criticamente influenciado pela quantidade de verba publicitária injetada para que ele apareça ali. Não sei se você chegou a ver um tweet que viralizou em que uma moça lastimava não ter conhecido o trabalho de Marielle Franco em vida, apesar de sempre receber notícias por mais irrelevantes que lhe parecessem sobre Bolsonaro.

“Como é que a gente só conheceu essa mulher morta? Que muralha é essa que coloca um Bolsonaro nas conversas dentro da nossa cozinha e não deixa uma Marielle nem passar pelos filtros das nossas redes sociais?”

PODER SIMBÓLICO E AS FAKE NEWS

É tempo para que nos perguntemos que muralha é essa sim. E esse questionamento nos traz o terceiro item: a eficácia informacional. Aqui, rememoro o filósofo francês Pierre Bourdieu quando fala sobre poder simbólico e argumenta que as classes dominantes também deterão o poder simbólico, e farão uso de todo tipo de violência simbólica para impor seus discursos e sua cultura sobre as demais. A existência de um poder simbólico que pretende destruir qualquer discurso que não seja o seu pode ser exemplificada também pelas fake news. Mensagens baseadas em contra-informação, que espalham informações incompletas ou mentirosas e tendem a aumentar a confusão e a dificultar o entendimento sobre algum assunto. Geralmente são propagadas em larga escala, com táticas de guerrilha informacional. Especialmente por meio de plataformas digitais, a partir de fontes duvidosas, as mensagens são transmitidas via aplicativos de bate-papo e mídias sociais e possuem poder de influenciar a opinião pública, sendo ainda capaz de causar estragos à imagem e reputação de pessoas. O caso denunciado pelo laboratório Labic da  UFES, demonstrando como páginas associadas ao MBL foram determinantes na campanha difamatória póstuma de Marielle Franco, serve para ilustrar. A família da vereadora, apoiada por um grupo de mulheres voluntárias, abriu processo judicial para investigar o caso e obteve liminar favorável que exigia mais explicações do Facebook sobre os acontecimentos e a exclusão imediata das publicações difamatórias.

É por isso que marcos como a sabatina do senado americano a Zuckerberg são tão relevantes, ainda que muitas perguntas, comentários e manifestações de congressistas tenham soado despropositadas e que isso revele como a nossa sociedade é muito maior do que nossas bolhas digitais, com pessoas que não são tão íntimas assim de tais práticas, costumes e usos provenientes das mídias digitais e da Internet. Outro marco ainda mais relevante é a regulamentação europeia, o General Data Protection Regulation - GDPR (Regulamento Geral de Proteção de Dados), que promete garantir a proteção de pessoas (físicas e jurídicas) quanto ao processamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados, que entrará em vigor a partir de 25 de maio e será obrigatório para qualquer empresa que trave relação com um cidadão europeu. Essa obrigatoriedade para as empresas afetará diretamente as plataformas digitais, uma vez que elas terão de se adaptar à lei e, por certo, todos as demais usuárias/os, mesmo fora da Europa, serão impactadas/os. Se você tem interesse em saber mais sobre a lei, está sendo ofertado um curso online e gratuito pela plataforma Future Learn, ministrado pelo STeP, grupo de pesquisa da Universidade de Groniguen.

PRIVACIDADE, LIBERDADE, IGUALDADE E SEGURANÇA

Reforço, por fim, a atenção cuidadosa que devemos dar aos princípios da carta da ONU sobre a Internet: privacidade, liberdade, igualdade e segurança - como fundamentos para uma Internet mais livre e plural, menos regulada pelas arbitrariedades do capital ou por interesses não coletivos. E, ainda sobre o direito à privacidade, que é uma pauta muito importante, com muitas opiniões divergentes, devemos olhar criticamente para as opiniões que defendem que não é possível existir privacidade no meio digital, ou que pregam que uma vez que se aceite os termos de uso de uma plataforma ou serviço, deve-se aceitar passivamente todas as imposições, sem qualquer questionamento. Não à toa, o senador republicano John Kennedy disse à Zuckerberg que seu termo de aceite era “uma droga”. Todas/os sabemos como contratos têm sido historicamente construídos para a defesa unilateral de interesses, e que o Direito têm se colocado como terceira parte nesta disputa, capaz de assegurar que a coletividade se sobreponha a interesses individuais. No ambiente digital, esses posicionamentos devem permanecer. Prova disso é que o Ministério Público inglês já considera formalmente que crimes de ódio em ambiente digital devem ser tratados como seriam no mundo offline. Desse modo, denúncias contra “crime de ódio: ofensas com motivação de hostilidade ou preconceito, incluindo racismo, sexismo e homofobia” serão cada vez mais encorajadas. De modo mais tímido, mas não menos importante, a Polícia Federal no Brasil, recentemente, passou a receber denúncias de assédio, abuso e misoginia contra mulheres em ambiente digital e podemos considerar mais um avanço nessa luta por uma Internet menos tóxica.

Para o GDPR, as discussões sobre privacidade e o uso de dados pessoais precisam, sim, se atualizar quanto à contemporaneidade e as novas tecnologias, mas cada pessoa tem direito à proteção de seus dados, visto que a privacidade se liga diretamente com outros direitos, tais como a dignidade, a liberdade e a autonomia. O uso inadequado ou malicioso de dados pessoais pode incorrer em abusos e danos aos indivíduos e à sociedade. Portanto, a responsabilização se dará, independentemente de o ambiente ser digital ou offline. É um desafio posto para nós, em nossa época, mas que precisa ser encarado e pensado, avaliado em todas as suas  conjunturas e especificidades, ainda mais se estivermos pensando em assegurar os direitos humanos de grupos historicamente oprimidos, combatendo a reprodução dessas opressões e desses discursos que visam destruir a diversidade e a pluralidade de vozes e pessoas.

Este artigo é dedicado à memória de Marielle Franco, mulher preta, periférica, bissexual, mãe. Lutadora incansável pelos direitos de minorias, sempre acessível a quem lhe procurava, sempre questionadora, sempre potente e cheia de vida e garra, brutalmente assassinada pelo Estado brasileiro racista e misógino. Sua perda é irreparável e sentida dolorosamente por cada mulher feminista comprometida com a luta antirracista, mas sua memória jamais será esquecida, ao contrário, florescerá!

#MariellePresente
#AndersonPresente

Todos os dias, mais de 1,94 bilhão de pessoas acessam o próprio perfil no Facebook. O número é grande e se combina com as mais de 1,2 bilhão de fotos salvas diariamente em alguma pasta do Google Drive. Ainda sobre fotos, todos os dias, 500 milhões de pessoas interagem pelo Instagram, postando ou comentando nas publicações de amigos. E o que dizer do Twitter, essa mídia social que ressignificou a participação de telespectadores em programas de televisão, criando um fenômeno chamado “segunda tela”, em que pessoas comentam em tempo real sobre as séries, programas esportivos e reality shows que assistem. Sobre o Twitter, são mais de 319 milhões de usuários ativos por mês e os brasileiros têm fama internacional. Aliás, ainda sobre televisão, o YouTube também ressignificou a forma como consumimos conteúdo audiovisual, e não à toa, todos os dias, são assistidos mais de 1 bilhão de horas em vídeos.

 

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Fernanda Alves

Autora: Fernanda Alves

Feminista interseccional, materna e retirante. Graduada em comunicação social e mestranda em informática. Trabalha como cientista de dados para empresas de mídia e varejo, e pesquisa discursos de ódio e violência de gênero e racial nas mídias sociais.

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