/ PIXELS / / PIXELS /

Artigos

"Não aguento mais a agressividade do meu filho!" - e foi assim que uma mulher me contou que estava sofrendo...

Ranking:

“Eu não sei mais o que fazer” – e ela bate na mesa. – “Não aguento mais a agressividade do meu filho! Não aguento mais!”. E as lágrimas desceram.

Foi assim que uma mãe começou a conversar comigo sobre o comportamento agressivo do seu filho pequeno, ainda no ano passado, ao final de uma roda de conversa sobre um outro tema.  Ela estava bastante abalada e mal conseguia conter as lágrimas. Eu disse que compreendia, que essa situação é realmente muito delicada, porque uma mãe sempre deseja que um filho seja calmo e tranquilo e que isso mexe muito com a gente mesmo.

Ela se sentou, ofereci um copo d'água e começamos a conversar. Ela me contou que estava muito estressada, que vinha passando por uma série de dificuldades e que ver a mudança de comportamento do filho a estava fazendo sofrer muito. Perguntei a ela se eu poderia saber por quais dificuldades ela estava passando e ela abriu seu coração. Uma separação conjugal bastante sofrida, o impacto financeiro que essa situação trouxe a ela, uma mudança abrupta de casa, com a consequente mudança de escola do menino, ela muito abalada emocionalmente, a família sem compreendê-la e sem oferecer apoio, amigos que haviam se afastado por não saberem como lidar com a situação. Então perguntei:

- E como você está com relação a tudo isso?

- Sofrendo muito. Choro todos os dias, estou com dificuldades para dormir, me sinto muito sozinha, muito largada por todos.

- Você tem outros filhos? – perguntei.

- Não, só tenho ele. Nós tentaríamos engravidar novamente esse ano, mas com tudo o que aconteceu a ideia ficou para trás. Ele [o filho] inclusive estava sendo preparado para a chegada de um irmãozinho.

- Entendo. Eu não vou nem perguntar se você tem conseguido descansar, porque sei o que você está passando, também já me separei e sei que descanso é a última das coisas em que pensamos.

- Não, não tenho descansado nada. Mal durmo. Estou exausta. Discuto com todo mundo, minha mãe por mais que queira me ajudar não consegue, discuto com ela também. Enfim, estou tentando voltar à superfície, mas me sinto no fundo do poço.

- Querida, quantos anos você tem? – perguntei.

- 34 – ela me respondeu.

- E está sofrendo desse jeito, com toda razão...

- Sim, estou...

Ela deu um gole na água, limpou as lágrimas. Peguei em suas mãos e disse:

- Se você, com 34 anos, adulta, conseguindo conversar comigo, expor seu sofrimento, está sofrendo assim, consegue imaginar como seu filho está?

Ela mudou a expressão na mesma hora. E continuei:

- E isso não é sua culpa. Ele é parte disso, faz parte da vida dele também. Mudou de casa, mudou de escola, sente dúvidas e insegurança. Mas não sabe dizer, não sabe nomear, não sabe processar. Mas chutar, jogar longe os brinquedos e tentar bater em ti ele sabe, porque agressividade é antes de tudo um comportamento de defesa... Ele está se defendendo de algo que considera aversivo, perigoso... Ele não está doente, nem tem um problema extraordinário, essa mudança de comportamento é totalmente compreensível. Ele está vivendo o que sua família está vivendo. E isso faz parte da vida. Sei que muitas de nós crescem desejando uma família pacífica daquelas que tomam café da manhã vestidos de branco em propaganda de margarina. Mas pensa bem: nenhuma família se veste de branco todos os dias porque suja muito e isso sobrecarrega a mãe. E margarina faz mal à saúde. Crescemos desejando algo que nos é tóxico. E quando a vida nos pega, não sabemos que é absolutamente normal. Eu sei que é desumano exigir de alguém que, no auge do sofrimento, como você está, acolha outra pessoa que também sofre... Mas o sofrimento dele é parte do seu, aumenta o seu. Então é, antes de tudo, uma ajuda mútua.

- O que eu faço? O que você acha que eu devo fazer?

- Fiquem juntos. Fiquem juntos o máximo que você conseguir. Troque a comida que demora pra ser feita por algo mais rápido, ainda que nem tão saudável. Deixa a roupa acumular pra lavar. Esquece o chão sujo por uns dias. Fiquem juntos. Vocês precisam ficar juntos e cuidar um do outro.

Ela nem conseguia falar. Chorava muito. Deixei que chorasse porque sou uma mãe também, sei que poucos lugares e poucas pessoas permitem que a gente chore, porque mãe foi criada no imaginário popular como uma guerreira. E de guerreira não temos nada, ainda que tenhamos que vencer muitas batalhas, às vezes com pouca ou nenhuma munição. Somos mulheres comuns, vivedo e sofrendo o que todo mundo vive e sofre. O que temos é uma única coisa: filhos que nos movem e que funcionam como lastros, impedindo que fiquemos à deriva.

Lastro: essa é a melhor das metáforas sobre maternidade para mim. Ele impede que você flutue à deriva, evitando que seja levado facilmente pelas correntezas. Mas, quando mal calculado, te afunda no escuro do mar sem chance de ser socorrida. Às vezes, sem querer ser... Qual o segredo, então? É sempre reajustar. Tirar pesos excedentes, adicionar segurança. Eliminar o que nos puxa para baixo e evitar o que nos deixaria à deriva. Algo que parece muito com uma coisa chamada EQUILÍBRIO e que me parece ser o objetivo da existência de todo e qualquer ser – ainda que seja tão complexo alcançar...

- Você acha que é só isso? Não acha que estou destruindo a vida dele?

- Não acho. Porque você não está. Você está sofrendo, vocês são ligados, ele sente, ele também está sofrendo, você está ligada a ele, sofre por ele também. Vocês precisam de momentos para sorrir. Sei que a falta de dinheiro é cruel porque nos limita a fazer muitas coisas, mas temos que descobrir alternativas. Giz pra pintar no chão juntos. Revistas pra recortar. Assistir um filme abraçados, dar uma volta a pé de mãozinhas dadas. Arrumar a bagunça juntos. Isso aos poucos vai passar e se vocês conseguirem passar por isso juntos, a chance de naufrágio é menor, o vínculo será maior. Ele não está doente nem você está destruindo a vida dele. Vocês estão atravessando um inferno. Um estadista uma vez disse: “Se você está atravessando um inferno, bem... Continue a atravessar”. O que significa: “Não pare no meio, ou você ficará presa nisso. Continue a andar”.

- Acho que vou assistir Nemo com ele de novo...

Ambas caímos na risada porque entendi a referência dela na mesma hora, vinda da analogia ao que eu havia falado.

- Acho lindo! Acho ótimo! É uma forma muito boa de você falar pra ele que precisam continuar a nadar. E você, minha querida, precisa descansar.

- Não tenho tempo.

- Essa é a sensação que temos. Mas temos tempo. O tempo da TV é o nosso tempo. O tempo das redes sociais é o nosso tempo. O tempo do grupo de WhatsApp é o nosso tempo. Eu diminuí tudo o que podia em momentos críticos e passei a ganhar meia hora, uma hora, que seja, antes de dormir. Que eu usava pra mim. Pra fazer as unhas, pra escrever um desabafo, pra tirar a sobrancelha, o que fosse. Era pra mim. Pra minha mente. Se você ficar doente e de cama terá que arrumar tempo. Pois esse é o momento pra isso: você está sofrendo e sofrer é tão doloroso quanto adoecer, às vezes mais. Crie esse tempo. Negligencie o que não vai sumir se você não estiver lá. Roupa suja e louça na pia, por exemplo, são duas dessas coisas. Se preocupe com você agora.

Nos abraçamos e claro que eu chorei também. Só não sente como se fosse consigo quem nunca passou por isso – e eu também passei. Passei por essa dificuldade que nos faz achar que a próxima onda será a que nos fará não conseguir emergir mais. Mas em meio ao caos, minha filha se manteve em paz, calma e tranquila. E isso também porque eu ajustei o meu lastro, mostrei meu sofrimento e fiz questão de dizer: “Está tudo bem mesmo que estejamos assim. Faz parte da vida. Vou ficar contigo e você vai ficar comigo mesmo que não estejamos bem”. Ensinar aos filhos que é preciso ser feliz o tempo todo e engolir o choro é criar uma geração de crianças que, por acharem que não podem sofrer, sofrem de modo disfuncional, agredindo a si mesmo e aos outros. Já passou da hora de aceitarmos o sofrimento como parte natural – e importantíssima – da vida. Só não sofre quem não sente. E enquanto sentirmos, seremos humanos.

Estou contando essa história porque, além dela ter me inspirado, junto a tantas outras experiências, a criar a oficina “Da Agressão à Educação sem Violência” – e quem já participou dela sabe que trabalhamos muitas questões envolvidas em expansão dos nossos próprios limites, estratégias de redução de gatilhos e redução de expectativas (nossas e de nossos filhos) – reencontrei essa moça querida na semana passada, acidentalmente. Mas ela estava outra. Olhos brilhantes, vestido colorido, mãos dadas com ele, o filho. Me viu, gritou meu nome, pegou o garotinho no colo e veio em minha direção. Não disse nada mesmo após eu ter dito “Oi! Que coisa boa te ver!”. Apenas me abraçou e sorriu. Ao me soltar de seu abraço, me apresentou o filho – que não me deu muita bola porque crianças têm outras prioridades mesmo. E disse: “Filho, ela é a mãe da Clara. Lembra que a mamãe contou?”. Espantei-me. Não sabia que eles conheciam minha filha. Ele me olhou com outros olhos. E sorriu...

- Vocês conhecem a Clara? – perguntei, curiosa.

- Pessoalmente não. Mas eu contei pra ele que a Clara era uma menina que também vivia com os papais separados. E que tocava muitos instrumentos, gostava de ler, de desenhar e passava uma parte do tempo com o papai e uma parte do tempo com a mamãe. E desde então, ele pede pra eu contar as histórias da Clara pra ele antes de dormir. Nos ajudou muito a atravessar aquela fase e a nos reaproximarmos. Né, filho?

Ela se despediu enquanto eu ainda absorvia o impacto daquela informação. Sentei-me num banco ali perto e fiquei uns minutinhos ali, emocionada, chorando. Senti o coração descompassar, minha temperatura aumentou... Pensei que poderia estar havendo algum problema comigo, semelhante a uma questão de saúde que tive que enfrentar no último mês. Até que percebi que não. Que era só sentimento. A gente às vezes se esquece de aceitar que sente. Que às vezes sente muito. E tá tudo bem sentir também. Como vamos ensinar uma geração a ser mais humana e gentil se não ensinarmos que tá tudo bem sentir?

Levantei... E continuei a andar...

**********

Venha conversar pessoalmente e participar das oficinas e rodas de conversa. Veja onde poderemos estar juntos nos próximos dias:

- 25 de abril - ITAJAÍ/SC - Roda de conversa: "Transformando agressividade em educação sem violência". Inscrições aqui: http://bit.ly/EducacaoSemViolenciaItajai

- 27 de abril - FLORIANÓPOLIS/SC - Oficina "Da Agressão à Educação sem Violência". Informações e inscrições pelo WhatsApp: 48 99106 3930

- 04 de maio - CAMPINAS/SP - Oficina "Da Agressão à Educação sem Violência". Informações e inscrições pelo WhatsApp: 19 98102 0880.

- 11 de maio - CAMPO GRANDE/MS -  Oficina "Da Agressão à Educação sem Violência". Inscrições aqui: http://bit.ly/EducacaoSemViolenciaCampoGrande

- 18 de maio - FLORIANÓPOLIS/SC - "MÃES! - Uma roda de conversa", com Samara Felippo e Ligia Moreiras. Inscrições aqui: http://bit.ly/MaesRodadeConversa

- 25 de maio - FLORIANÓPOLIS/SC - Roda de conversa: "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio", no Festival da Educação. Informações aqui

E tem mais! É só acompanhar as divulgações no Instagram e Facebook Cientista Que Virou Mãe. Espero encontrar vocês pessoalmente! 

E se quiser tornar possível uma oficina sobre educação sem violência, maternidade e a vida das mulheres em sua cidade, é só entrar em contato: [email protected]

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

ESTE TEXTO FOI FINANCIADO

Veja o nome de quem contribuiu para que você pudesse ler isso
  • E mais 0 apoiadora(s) que preferem permanecer anônimas

Plataforma CQVM© - 2011-2018