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“Tô gorda, tô magra, tô bonita, tô feia” - A revolução de ensinar as crianças a amar seus corpos

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Inúmeras e rotineiras frases sobre corpos e padrões são ditas com total naturalidade por grande parte das pessoas. Dizemos umas para as outras, ou falamos assim sobre nós mesmas, ou somos alvos desse tipo de comentário, dito por homens e mulheres. Demonstramos nossos julgamentos sobre nós e sobre outras pessoas com mais facilidade do que falamos sobre qualquer outra coisa. Todos os dias. Com naturalidade. Sem perceber que ali, do ladinho, prestando atenção em nós, estão pessoas que nos têm como modelo, aprendendo a ser pessoa, a se comportar como uma pessoa, reproduzindo o que ouvem:

AS CRIANÇAS.

E muitas delas crescem ouvindo isso sistematicamente. E se tornam adolescentes. E depois, adultas. Crescem construindo conceitos e valores sobre outras pessoas e, especialmente, sobre si mesmas e, de maneira ainda mais importante, sobre seus corpos. Façamos agora, portanto, um exercício ativo e empático de troca de lugar. Vamos nos colocar no lugar dessas crianças, meninas e meninos, e vamos ouvir pessoas que amamos dizendo coisa muito comuns. Mas temos que lembrar: somos crianças, não temos filtros precisos, não fazemos críticas precisas, nem ponderamos. Nós ouvimos e aprendemos que é assim que se faz.

O que os adultos dizem:

  • Você tá linda, emagreceu, rejuvenesceu.
     
  • Mas por que você está deixando seus cabelos brancos aparecerem? Você não acha que envelhece?
     
  • Nossa, que horror. Não consigo nem me olhar no espelho e ver esse corpo, chega a me dar nojo.
     
  • Eu alisei meu cabelo durante 10 anos, usei formol, produto com enxofre, fiz de tudo. Ah, eu era linda quando era mais nova, tinha um corpo ótimo, perfeito. Agora tô muito diferente.
     
  • Antes da gravidez eu tinha um corpo legal. Agora tá tudo arruinado.
     
  • Eu tô com essa cara péssima, esse cabelo horrível.
     
  • Preciso emagrecer. Preciso muito emagrecer. Tô horrível, nada me serve, não dá nem pra colocar um biquíni, não tenho coragem.
     
  • Ela tem um rosto lindo, mas é gorda demais.
     
  • Eu comecei essa dieta porque não aguentava mais me ver horrível daquele jeito. Sempre gorda, sempre envergonhada, sempre coberta. Agora me sinto linda e incrível.
     
  • Não vou a um jantar sem maquiagem. Tem que dar uma melhorada na cara, ou vou com essa cara de doente, de cansada?
     
  • Ela é linda, bem branquinha, parece um copo de leite. 
  • Ela ficou gorda, não se cuida, uma mulher tem que se cuidar.

O que as crianças aprendem:

  • Ficar linda é ficar mais magra e parecer mais nova.
     
  • Cabelos brancos não podem aparecer. Cabelo branco é coisa de velho. E não é legal ser velho.
     
  • É possível ter nojo de um corpo quando se olha no espelho. Será que preciso ter nojo do meu?
     
  • Meu cabelo tem cachinhos. Talvez eu precise alisar e usar todas essas coisas.
     
  • Um corpo é lindo quando é mais novo, aí ele é perfeito. Ficar mais velha não é legal, a gente fica diferente, o corpo não fica ótimo.
     
  • Engravidar arruina o corpo. As mulheres ficam arruinadas depois que ficam grávidas.
     
  • Será que a minha cara é péssima? Meu cabelo também é horrível?
     
  • Não dá pra colocar biquíni quando a gente tá gordo. Será que eu também preciso emagrecer pra não ficar horrível e poder usar um biquíni?
     
  • Ser gorda não é ser bonita. Se sou gorda, não sou bonita.
     
  • Minha mãe era gorda e era horrível. Ela é linda agora porque é magra. E eu, como preciso ser?
     
  • Mulheres precisam se maquiar. Sem maquiagem,  ficam com cara de doentes e de cansadas.
     
  • Ser branquinha é ser linda. Mas e eu, que tenho a pele escura?
     
  • Ser gorda é não se cuidar. Uma mulher não pode ser gorda. Se cuidar é ser magra.

As crianças são expostas diariamente a todos esses discursos. Na televisão, na escola, nos outdoors, nos vídeos do Youtube, nas revistas. Mas, também - e acima de tudo - em casa, ditos pelas mães, pelos pais, irmãos e irmãs, avós, tias e tios, amigas e amigos, madrinhas, padrinhos, todo mundo. Sobre todas as pessoas? Sim. Mas especialmente sobre mulheres. E é dessa forma que vão construindo sua própria visão a respeito de seus corpos e dos corpos das pessoas ao seu redor.

EDUCAÇÃO SOBRE O PRÓPRIO CORPO

O corpo não é apenas uma forma material: é talvez o mais forte elemento relacional. É com o corpo que o bebê aprende a sentir, a se expressar, que se sente vivo e cuidado. É com o corpo que nos relacionamos uns com os outros, que aprendemos a dizer coisas sem palavras, que buscamos amar e ser amados. É com ele que sentimos o colo, o tato afetuoso, a proteção afetiva ou, em outro extremo, a violência, o abandono e o descaso.

Porém, embora tão importante, pouca ou nenhuma educação sobre o corpo nós nos dedicamos a ter - e a ofertar - às nossas crianças. Não ensinamos ativamente as crianças a amar, cuidar e proteger seu corpo da mesma forma como ensinamos a proteger e cuidar das suas coisas. Quebrar um brinquedo novo, muitas vezes, gera mais comoção do que sofrer um machucado - talvez porque o comprado tenha sobre si mais fetiche do que uma lesão, que chega a ser até mesmo esperada em uma criança.

É preciso educar as crianças a respeito de seus corpos. Não como meio para um fim - cuidar do corpo para não ficar doente, ou para ser aceito, ou para viver muito. Mas como fim em si mesmo: destinar amor ao corpo porque é ele quem te permite sentir, amar, viver, brincar. E quando falamos de educação sobre o corpo não estamos falando sobre explicar a diferença entre as veias e as artérias ou sobre o que acontece com o bumbum se ele não for lavado. Falamos sobre a importância de nos amar, de ser gentil com a gente mesmo. E isso pode ter um imenso peso protetivo e preventivo para as crianças.

Achamos desnecessário dizer coisas como “ame seu corpo como ele é, ele é um corpo ótimo, um corpo que te permite viver” ou achamos graça quando a garotinha diz que gostaria de ter um cabelo diferente. Mas esquecemos que é preciso, ativamente, ensiná-las a amar, aceitar e cuidar de seus corpos, com gentileza e respeito.

Certa vez, após me ouvir conversando com minha filha, alguém me disse:

- Eu não quero me meter, mas você não acha que trata sua filha de forma adulta demais?

- Você poderia me dar um exemplo do que chama de “tratar de forma adulta”, por favor? - perguntei.

- Eu ouvi você dizendo pra ela que é importante que ela não diga palavras ruins sobre o próprio corpo porque isso é muito agressivo. Acho isso muito adulto, a criança não entende esse tipo de coisa.

As pessoas possuem uma noção muito equivocada do que é ser criança. Ser criança não é ser incapaz de compreender o que se diz com clareza. Ser criança é precisar que os adultos ao redor expliquem de maneira gentil aquilo que de fato vai ser importante para ela. Falar para minha filha sobre a importância de cuidar e amar seu próprio corpo não é tratá-la como adulta, é ensiná-la coisas fundamentais sobre si. A gente percebe a inversão de valores quando se considera “muito adulto para uma criança” ensiná-la sobre amor e respeito ao próprio corpo, mas não se considera “muito adulto para uma criança” perguntar sobre namoradinhos, ou permitir que ela seja exposta a uma cultura que a sexualiza precocemente.

PADRONIZANDO MULHERES DESDE QUE SÃO MENINAS

Eu sempre fui considerada muito chata por algumas pessoas desde que me tornei mãe. Chata, policiadora, excessivamente crítica, exagerada, radical: todas expressões já velhas conhecidas minhas em função da postura que assumi na educação da minha filha, e tudo bem por mim, pode me chamar como quiser, por aqui está dando tudo certo.

Quer um exemplo? Barbie. Minha filha tem 7 anos e eu nunca comprei uma boneca desse tipo pra ela, a única que tem, ganhou de uma amiga. Sim, ela já me pediu uma vez. E naquele momento, tive uma conversa muito amorosa com ela, explicando porquê eu não gostaria de comprar. Não houve drama, nem choro, nem crise, apenas expliquei de modo muito gentil e ela entendeu. Se já brincou com Barbies? Com certeza, e tudo bem por mim, pode brincar. Mas ela está crescendo sabendo que, para a mãe dela, essa não é uma boa opção. Não, eu não odeio a Barbie nem travo uma batalha épica contra ela, jamais, tenho muito mais o que fazer. Mas se eu puder escolher, meu dinheiro não será destinado a esse tipo de brinquedo. Estou dizendo com isso que demonizo pessoas que compram Barbies para suas filhas? De modo algum. Só estou reconhecendo que, como sei que ela terá - como já teve - muito contato com esse tipo de boneca em função da ampla aceitação coletiva, eu prefiro fazer o contraponto, pesar contrariamente na balança e não ser eu a incentivar. Na verdade, o número de bonecas que ela tem é mínimo, muito inferior ao número de brinquedos de outros tipos, como os que incentivam a criatividade, o amor pelos animais, a atividade ao ar livre e a livre interpretação da vida.

Eu realmente prefiro agir assim a mostrar para ela um mini modelo de mulher defendida por tantas pessoas: loira, alta, magérrima, com peitões, cabelos lisos e longos, longilínea e sempre sorridente. Não foi ao acaso a escolha do estereótipo das personagens no filme “Mulheres Perfeitas” (The Stepford Wives, 2004), um filme de comédia que de comédia não tem muito não…

Mas que exagero, é só uma boneca”.

Uma coisa nunca é apenas uma coisa. Há inúmeras mensagens que são passadas às crianças através dos brinquedos. Uma boneca excessivamente magra, que valoriza um ideal de beleza comercial, que não representa a imensa maioria das meninas e das mulheres, serve para um fim - ainda que você não queira aceitar. E isso não é apenas um ponto de vista meu. Há inúmeros estudos que mostram a associação entre brinquedos e idealização da imagem corporal, bem como a associação entre brinquedos e a insatisfação com o próprio corpo ainda na infância.

As pesquisadoras RozaneTriches e Elsa Giugliani, em um trabalho publicado sobre a insatisfação corporal em crianças em idade escolar, chegaram ao assustador número de 63,9% de crianças insatisfeitas com sua imagem corporal, no grupo de crianças que estudaram. E notaram também uma diferença entre meninas e meninos: as meninas desejam ter um corpo menor e mais magro - estereótipo de beleza que permanece até a idade adulta, o do corpo esbelto e magro. Já para os meninos, o ideal de beleza é o da figura robusta, “o fortão”. As autoras citam muitos outros pesquisadores ao discutir essa diferença, mostrando a influência dos bonecos e super-heróis musculosos sobre os meninos, enquanto o ideal de beleza para as meninas seria a boneca Barbie. Ou seja: aquilo que as pessoas defendem tão fervorosamente em nome de uma suposta liberdade de criar os filhos como querem, atacando quem decide seguir no sentido contrário e defendendo brinquedos que não fazem nada além de reproduzir padrões sexistas, é o que está tornando nossas crianças reféns de um corpo ideal, construído para vender. Vender o que? Inúmeras coisas, de produtos a estilos de vida.

Vão no mesmo sentido todos os apelos de consumo em torno de padrões e estereótipos de gênero voltados para crianças, meninas especialmente: cosméticos, maquiagem, sapatos com salto, sutiãs com bojo (esse eu nem consigo acreditar que exista e que as pessoas achem normal). Tudo isso visa a criação e manutenção de um CORPO IDEAL. Que não será alcançado, segundo muitos estudos em todo o mundo, por cerca de 90% das pessoas. Eu, você e nossas filhas e filhos, muito provavelmente.

FRASES QUE PRODUZEM SOFRIMENTO

As frases que abrem esse texto são uma pequena e cruel amostra do que as crianças crescem ouvindo. Não é de se estranhar, portanto, que exista um tão grande número de adolescentes e jovens com transtornos emocionais e alimentares que estejam sofrendo tanto na tentativa de se enquadrar a um padrão comercial sexista e violento.

A pressão por um corpo ideal desde a mais tenra idade faz vítimas e os resultados não demoram a aparecer. Diferentes estudos apontam para o fato de que aos 6 anos, as crianças já começam a manifestar descontentamento com seu próprio corpo, sendo a idade de 7 a 8 anos crucial para a construção ou desconstrução de crenças tóxicas sobre seu corpo e o corpo dos amigos e amigas. Trabalhar diariamente, consciente e ativamente, para a desconstrução de maus hábitos sociais que têm a doutrinação e sequestro do corpo das crianças como alvo é imprescindível e urgente para protegê-las de sofrimentos. Quais sofrimentos? Sofrimentos que podem aparecer já na pré-adolescência, mas que se consolidam na adolescência: baixa autoestima, sintomas depressivos, transtornos alimentares como bulimia ou anorexia, comportamento de autoflagelação, sentimento de não ser amado o suficiente, ou de não ser visto, introspecção e embotamento afetivo, dificuldade para se relacionar com outras pessoas, visão pessimista da vida, comportamento agressivo voltado para os progenitores, desamor a si mesmo que permanece durante toda a vida adulta, entre outros problemas de fundo emocional.

É também por isso, mas não só, que não gosto e não aceito a estereotipização que acontece com a adolescência como “uma fase por si só problemática”, expressa pela banalização do uso da expressão “aborrescência”. Chamamos “aborrescentes” pessoas que, além de toda a mudança física, corporal e emocional que estão vivendo, ainda precisam lidar com toda a carga de tensões psíquicas causada por uma sociedade que padroniza seus corpos. É extremamente cruel chamá-los assim, é ofensivo, é agressivo. Especialmente porque grande parte do sentimento de inadequação que experienciam vem da exigência para que sejam de um jeito específico, e não do jeito como realmente são. É muito fácil culpar os adolescentes ou acusá-los de chatos, problemáticos e enjoados quando não assumimos a responsabilidade que temos ao fazer vista grossa aos inúmeros assédios de todos os tipos que eles viveram enquanto crianças.

E A CULPA, É DE QUEM?

“A culpa é da mãe” talvez seja uma das frases mais ditas de todos os tempos. Numa sociedade patriarcal, é extremamente fácil culpar as mães pelos problemas e dificuldades que as crianças vivem. Mas isso, além de não ser verdadeiro, é um grande álibi para inúmeros outros papéis sociais ausentes - como o pai, por exemplo, ou toda a família.

Você pode me dizer “ah, mas o poder do discurso materno é avassalador”. Laura Gutman escreveu um livro justamente com um título parecido. Ela é uma escritora conhecida por seus livros sobre puerpério e maternidade. Um deles me foi apresentado no  meu próprio puerpério e, em função de explicar algumas coisas que eu realmente vivia, naquele momento gostei. Porém, conforme fui tendo acesso a mais informação, às discussões críticas sobre maternidade, desigualdades e opressões que vivemos, percebi que o que Laura faz é cruel e não embasado: ela culpabiliza mães por praticamente todos os problemas das crianças e dos futuros adultos. E falo de um ponto de vista de muito envolvimento: estive envolvida nos esforços de trazê-la para palestras no Brasil. E meu rompimento com sua forma de pensar - e de culpabilizar mulheres - se deu justamente na última vez em que estive presente, quando a ouvi dizer, sem qualquer dado científico, parcimônia ou responsabilidade social, que “em 95% dos casos, os sofrimentos emocionais das pessoas é responsabilidade das mães e em 3%, é responsabilidade das avós”. Isso, além de ser um dado sem qualquer respaldo, culpabiliza totalmente as mulheres pelos problemas que as pessoas vivem. Sem contar que ignora a questão extremamente grave da ausência paterna. Não tem o meu apoio ou validação alguém que, sem formação sólida e consistente sobre a realidade das mulheres mães, desconsiderando dados sociais e pesquisas atuais, sente-se à vontade para propagar um conceito tão prejudicial como esse.

O fato é que, sim, é muito mais fácil culpar as mães pela busca incessante por um corpo ideal e pelo sofrimento que isso causa desde a infância. E é uma estratégia muito poderosa para que os principais responsáveis saiam ilesos: a mídia e a indústria, a cultural especialmente. Pesquisas realizadas com crianças de diferentes classes sociais indicam que os principais envolvidos na insatisfação corporal das crianças e no desenvolvimento dos problemas que isso acarreta são, primeiramente, a mídia - apoiada pela indústria - e sequencialmente os cuidadores e as pessoas do convívio da criança. E quando se diz “os cuidadores” não estamos falando apenas de mães, mas de toda a família que participa do cuidado com aquela criança. Da avó que enfatiza todos os dias que a criança “precisa” ser assim ou assado, do pai que exige “comportamento de mocinha” ou “comportamento de homenzinho”, dos tios que fazem brincadeiras depreciativas, de todos que participam da transformação daquela criança em um adulto - saudável ou emocionalmente adoecido.

Há influência da mãe na idealização corporal das crianças? Sim, com certeza. Mas não porque mães sejam agentes de demonização que desejam oprimir as crianças a qualquer custo, mas porque mais de 85% das cuidadoras de crianças, pelo menos no Brasil, são mulheres. Há uma reconhecida ausência de participação dos pais e de outros homens da família nos cuidados com as crianças.  Os progenitores, ambos, pai e mãe, exercem grande influência no fato das crianças se sentirem feias, inaceitáveis, inadequadas, não se pode negar. Pais e mães que criticam em demasia os corpos das crianças, e depois dos pré-adolescentes, têm filhos mais propensos a desenvolverem uma péssima autoimagem corporal. Consequentemente, têm filhos mais propensos aos problemas de ordem psíquica já mencionados aqui.

E é óbvio que crianças que são criadas dessa maneira têm maiores chances de se tornaram bullies, ou seja, de assediarem moralmente outras crianças ou jovens pelos corpos que elas têm. Porque quando se aprende que é assim que se age, age-se assim com outras pessoas também.

EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA E O AMOR A QUEM SE É

Neste ponto, é importante mencionar que o estilo de cuidados parentais influencia diretamente a relação das crianças e dos adolescentes com o próprio corpo.

Como sabemos, há diferentes formas de cuidar dos filhos. E também sabemos que a forma de cuidado autoritária, opressora, baseada na imposição dos valores aceitos como corretos pela família, especialmente pelos cuidadores mais próximos, ajuda a construir crianças e jovens mais inseguros e emocionalmente instáveis. São crianças que, acostumadas a serem mandadas, tratadas com rispidez e violência (seja verbal, moral, emocional ou física), acabam se sentindo desvalorizadas e pouco amadas. E essa desvalorização e desamor atinge a esfera da aceitação corporal. É muito mais difícil amar a si mesmo quando, a você, são dirigidas palavras de insatisfação, desagrado e críticas. Você está gorda, precisa parar de comer. Gordinha assim ninguém vai te aceitar. Desse jeito como você se veste e se cuida, nem parece uma menina. Você é preguiçoso, por isso está desse jeito. Você está crescendo, precisa começar a mudar esse corpo. Como você vai arrumar um namoradinho? As meninas não vão gostar de você desleixado assim. Não se pode esperar que uma criança, tendo ouvido isso durante toda a infância, tenha algum tipo de respeito e amor ao próprio corpo…

Quando falamos em educação sem violência, falamos sobre uma forma de cuidado que leva em consideração o amor próprio da criança, o respeito a quem ela é, a ausência de uma hierarquia baseada na idade. Falamos sobre explicar as coisas da vida de maneira empática, não coercitiva, não opressora, pensando em formá-las como pessoas plenas e detentoras de direitos, excluindo qualquer possibilidade de violência. Crianças criadas dessa maneira se desenvolvem mais seguras, confiantes e empáticas, com os outros e consigo mesmas. Por não verem como prática diária a oferta de palavras duras e ofensivas, não destinam tais palavras a si mesmas. Veem-se com gentileza, cuidado e amor. E muitos estudos mostram justamente o efeito protetivo e positivo de um estilo parental de cuidados gentis sobre o amor próprio e a autoestima das crianças e jovens. Desde a década de 80 são publicados estudos que mostram como essas crianças se preocupam menos com padrões e mais com emocionalidades. Para essas crianças, a aparência tem menos peso do que o bem estar: preferem se sentir mais felizes do que mais bonitas, justamente em função da ausência de opressões de diferentes tipos. A explicação para isso encontra apoio também na teoria da vinculação, a qual afirma que crianças com vínculos positivos com seus pais tendem a ser mais seguras e menos preocupadas com aparência, justamente porque apresentam um modelo positivo de si mesmas, menos centradas nas avaliações externas.

GORDOFOBIA E AS CRIANÇAS

Gordofobia é a expressão utilizada para designar aversão às pessoas gordas e representadas todos os dias por sua diminuição moral, intelectual e emocional. É um comportamento tão entranhado na sociedade que uma característica corporal comum - ser gordo - é utilizado como xingamento ou modo de diminuir alguém. Isso é a mais simples expressão de gordofobia. As mais complexas passam por violência física, constrangimento público, humilhação, bullying e discriminação. A gordofobia, muitas vezes, é justificada em termos de ausência de saúde: tenta-se combater o ser gordo utilizando argumentos que apelam para morbidade e baixa qualidade de vida. Mas é preciso deixar de ser hipócrita: essa é apenas uma justificativa que respalda o preconceito das pessoas, um álibi para ser gordofóbico. Como sei disso? Simples. Se todas as pessoas que usam o argumento da saúde de fato se preocupassem com a saúde das pessoas, não teríamos os números estratosféricos de violência que temos, uma vez que a violência é mais prejudicial que a obesidade, com taxas de morbimortalidade ainda maiores.

A gordofobia não surge do nada lá na idade adulta. Ela é construída diariamente no ideário da criança pelas experiências que ela vive, pelos discursos que ouve, pelas propagandas que assiste, pelos brinquedos que tem, pelos modelos que vê. Ela cresce ouvindo que ser gordo é detestável, como podemos esperar que, ao ser adulta, pense o contrário? É preciso muito trabalho íntimo para reformar valores que nos são inculcados desde crianças. Quando crianças são criticadas, ridicularizadas, desprezadas por seus corpos, elas crescem adoecidas emocionalmente e aprendendo a adoecer outras pessoas, afinal o que se aprende na infância ajuda a moldar nosso comportamento futuro.

Então estou dizendo que tudo bem ser uma criança gorda? Sim. Estou dizendo que tudo bem ser uma criança gorda. O que não significa dizer ser uma criança que não tem hábitos saudáveis. Sempre será bom e recomendável uma alimentação justa, equilibrada, saudável, brincar de atividades ao ar livre com os amigos, estar ativo no mundo e na vida, sorrir, ser feliz. Nunca será recomendável entupir as crianças com empacotados, enfarinhados, adocicados, em frente a eletrônicos cada vez mais atrativos e confinados em espaços fechados. Mas uma vez que uma criança habita um corpo, independente de sua vida e seus hábitos, é preciso destinar a esse corpo amor, gentileza e acolhimento. O descaso e o desamor não podem ser justificáveis em nenhuma medida. Até porquê, a criança que precisa de cuidados com o corpo por motivos de saúde é aquela que precisa de ainda mais amor e menos julgamentos para que seja cuidada.

CRIANÇAS NEGRAS: AINDA MAIS AMOR

Sim, acredito que precisamos destinar às crianças negras ainda mais amor e gentileza. E isso por um motivo muito sério: são crianças que podem sofrer apenas por existir, em função da cor da sua pele, da estética do seu cabelo, do grupo étnico racial a que pertence. Vivemos numa sociedade submersa num racismo estrutural, o que significa dizer que o racismo está na estrutura das relações.

Em um texto que escrevi em novembro de 2017, entrevistei Clelia Rosa. Clelia é uma mulher negra, mãe de duas meninas, mestre em Educação e escreve no Coletivo Naná - Maternidade Preta.  Naquela ocasião, Clelia mencionou algo extremamente importante, que replico agora: Cotidianamente, as crianças negras vivenciam situações de embranquecimento, pois todo o material imagético que é apresentado a elas tem como referencial o modelo europeu. Ou seja, crianças negras crescem não vendo a si mesmas representadas, ou sofrendo a terrível pressão de se enquadrar em padrões de outros corpos: peles brancas, cabelos lisos. Isso representa uma forma de violência das mais cruéis com essas crianças, que precisam de ainda mais atenção e cuidado no sentido de fortalecer sua autoestima e se amar e valorizar como se é, em meio a uma sociedade que vem sendo atualmente atacada por ideais fascistas e racistas. Os coletivos de pessoas negras têm trabalhado incansavelmente na desconstrução de padrões que os invisibilizam. É preciso que as pessoas brancas participem ativamente da luta contra o racismo desde a infância, de maneira ativa e comprometida com a promoção da autoaceitação e da autoestima das crianças negras e de seus próprios corpos.

E nesse contexto, não posso deixar de citar Nilma Lino Gomes. Nilma é pedagoga, mineira de Belo Horizonte, e foi a primeira mulher negra à frente de uma Universidade Federal no Brasil, em 2013 (Universidade da Integração Internacional da Lusofosia Afro-Brasileira - UNILAB). Esteve à frente do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, extinto pelo governo ilegítimo de Michel Temer após o Golpe de 2016-2017. Nilma diz, em seu artigo “Educação, identidade negra e formação de professores/as: um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo”:

“Construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que, historicamente, ensina ao negro, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso negar-se a si mesmo, é um desafio enfrentado pelos negros brasileiros”.

É nosso dever, enquanto pessoas que se importam com a infância e com a vida das pessoas no Brasil, contribuir ativamente para a construção de uma identidade negra positiva, e isso desde a infância, apoiando as crianças negras na desafiadora tarefa de amar e aceitar seus corpos em meio a uma sociedade extremamente violenta com elas.

PARA FINALIZAR: PALAVRAS DE AMOR A QUEM SOMOS E AO CORPO QUE HABITAMOS

Você é linda” ou “você é forte” não são, por si sós, palavras de amor. São adjetivos que ressaltam apenas uma aparência física, não podem ser confundidos com amor, valor e reconhecimento de quem se é. Enaltecer crianças por suas aparências significa, justamente, ensiná-las a fazer o mesmo. Estou dizendo que não é legal dizer a uma criança que ela é linda? Não. Estou dizendo que é o mais fácil, mas não o mais importante. Fundamental é ensinar a criança a amar seu corpo e quem se é profundamente. Reconhecer a importância de se aceitar, de não buscar padrões inalcançáveis, de não consumir com esse fim, de valorizar a gentileza, a sinceridade, a honestidade.

Você pode dizer isso todo dia a uma criança. Pode anotar na parede do quarto dela. Pode comprar livros e mais livros infantis que ensinem a importância do amor próprio e de uma boa autoestima. E nada disso vai produzir um bom resultado enquanto, ao redor dela, pessoas a estiverem valorizando ou depreciando pelo corpo que tem. Enquanto, ao redor dela, vivem adultos que não amam a si mesmos, não cuidam de si mesmos, destinam a si mesmos palavras e sentimentos duros, grosseiros, violentos, que não permitem que fossem ditos por nenhuma outra pessoa, mas que são ditos a si mesmos.

Não será possível ensinar as meninas e os meninos a amar e respeitar seus próprios corpos e os das outras pessoas enquanto nós, adultos, não fizermos isso com a gente. É por isso que refletir sobre nosso papel no mundo e em nossas vidas é tão transformador: porque muda não apenas a nós mesmos, mas também as crianças.

Menina pretinha, exótica não é linda
Você não é bonitinha
Você é uma rainha
Devolva minhas bonecas
Quero brincar com elas
Minhas bonecas pretas, que fizeram com elas?
Vou me divertir enquanto sou pequena
Barbie é legal, mas eu prefiro Makena africana
Como história de griô, sou negra e tenho orgulho da minha cor
O meu cabelo é chapado, cê precisar de chapinha
Canto rap por amor, essa é minha linha
Sou criança, sou negra
Também sou resistência
Racismo aqui não, se não gostou paciência


(MC Soffia, que minha filha tanto admira)

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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