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Armandinho: não soltaremos da sua mão

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Ele é um garotinho que nasceu quase junto da minha garotinha. Ele nasceu em 2009, minha garotinha em 2010. Ela e ele compartilham de muitos pensamentos e comportamentos. Ambos são amorosos e justos, conversam com seus amigos sobre as desigualdades e a importância da natureza. São antirrascistas, defendem ideais feministas e de justiça social. Não toleram a violência contra a mulher, contra a criança, contra qualquer ser vivente. Ambos têm tiradas que desconcertam os adultos, não sei se pela precisão de seus olhares ou pela gentileza e pureza da infância com que fazem isso. Ele tem só 9 anos, minha garotinha 8. E me fazem ter esperança num mundo mais amoroso e acolhedor para todos.

Embora ele tenha nascido um ano antes, eu o conheci junto com o nascimento dela. Lembro de tê-lo visto pela primeira vez, ainda no puerpério, e ter dito: “Que a vida me ajude a criar minha filha como esse guri foi criado” ou “Que a vida me permita orientar uma criança para que um dia ela tenha esse tipo de valor”.

Esse garotinho, como a minha garotinha, deixam muitas pessoas desconfortáveis. E isso porque falam com profundidade sobre questões que nos afetam a todos, expõem feridas abertas da sociedade, que são nossas e criadas por nós - e fazem isso com gentileza. E em tempos em que o ódio é mais valorizado que o amor, isso incomoda.

Incomoda que essas crianças falem sobre amor.

Mas... Incomoda a quem?

A quem se beneficia de alguma forma do rancor, do ódio, da agressividade, da violência. Que vendem. Sim, violência vende. Vende falsas e irreais sensações de segurança. A segurança do isolamento, do distanciamento, daquilo que pode ser comprado porém não nutrido. Como se a violência viesse das relações próximas e não das desigualdades e mazelas criadas pela própria sociedade, por nós, com nossas mãos.

Se um dia proibirem minha garotinha de falar, de se expressar, darei a ela um megafone e estarei ao seu lado gritando ainda mais alto. E isso eu aprendi com este ano de 2018.

Um ano extremamente difícil, doloroso, cruel e violento, especialmente para quem se colocou numa das linhas de frente. Enfrentamento vem de “se colocar à frente”, não como prioridade, mas como “dar a cara para que batam nela primeiro antes de que batam em outras”, que foi o que tantas de nós sentimos quando demos um passo à frente quando muitos precisaram recuar. E assim fizemos porque acreditamos no poder transformador das mãos dadas, do fortalecimento mútuo, do protagonismo das mulheres e dos menos favorecidos, das palavras de amor, da reflexão, de transformar privilégios em comprometimento social. Em um ano que muitos calaram – ou foram calados -, nós escolhemos falar em outra instância. Foram sete meses assim. No final, restava um fiapo de mim... Uma mulher cansada, com medo, assustada, triste. Também por isso faz bastante tempo que não escrevo sobre maternidade, infância, não violência. Porque é doloroso fazermos isso quando sentimos a dor da violência sobre nós.

Então, há alguns meses, decidi que falaria menos.

Que estaria menos nos espaços. Que me retiraria de algumas frentes. E assim fiz. Até que ontem, no velório do pai de uma mulher muito querida, que também tem se colocado à frente em tempos em que nos querem atrás, fui confrontada por uma pessoa que sequer conhecia:

“É isso o que eles querem. Que pessoas como você parem de falar. Eles estão conseguindo...”.

Voltei pra casa com esse sabor de velório. Tanta gente querida partindo, tanta coisa boa morrendo.

Hoje, soube que o garotinho de quem falei ali em cima foi impedido de falar nos lugares onde ele sempre falava. Mesmo levando amor e gentileza para tanta gente. Mesmo defendendo ideais de respeito e comunhão. Mesmo sendo o garotinho que eu gostaria de ter criado e não criei por não ter essa habilidade. E vi que minha omissão pode tornar isso possível.

Então, depois de muitos meses, sentei rapidinho pra escrever – que é o que ainda me resta. Apenas para dizer que, assim como faria com minha garotinha caso ela fosse proibida de falar e de se expressar, no que depender de mim darei a esse garotinho um megafone. Para que grite ainda mais alto. Para que chegue a ainda mais pessoas. E isso, aprendi com este ano de 2018.

Clarinha: minha garotinha problematizadora, feita de carne, osso e afeto.

Armandinho: o garotinho problematizador do Alexandre, feito de nanquim, tinta, ideias, amor e sentimento de pertencimento coletivo. Que acaba de ser censurado nos jornais e mídias de Santa Catarina em função da crítica que faz ao ódio, ao retrocesso, à violação de direitos humanos. Alexandre Beck, seu criador, é pai, agrônomo, ilustrador e cartunista. Um cara genial e gentil que eu e minha garotinha temos a honra de conhecer. Que minha garotinha admira como pessoa e como criador desse outro garotinho.

Quando um garotinho como esse – e toda a sua família – for censurado, nós todos falaremos por ele.

Quando houver censura a uma expressão de arte e amor como essa, nós – ainda que machucados e doloridos pelo ano que passou – sairemos de nosso silêncio para dizer:

“NADA INCOMODA MAIS QUEM NÃO FAZ NADA DO QUE ALGUÉM QUE TENTA FAZER ALGUMA COISA”

 

Em 2019, não vamos parar de falar. Mesmo que queiram. E é só isso que quero dizer como mensagem de fim de ano. Não vamos parar.

Armandinho e Alexandre, estamos com vocês. Eu, minha garotinha e todas as dezenas de milhares de pessoas que seguem a plataforma Cientista Que Virou Mãe.

Alexandre e Armandinho, assim como todas e todos nós que desejamos o amor e a justiça social, somos maiores que o Diário Catarinense e toda a mídia apodrecida deste que é o estado mais fascista do país.

E onde, felizmente, nasceram garotinhas e garotinhos especiais que vão lutar pelo amor.

Toda semana, em 2019, a plataforma Cientista Que Virou Mãe irá compartilhar uma tirinha do Armandinho. Não iremos publicar, iremos COMPARTILHAR. Diretamente do perfil do Armandinho. Que é pra que ele continue a crescer forte, amoroso e defensor da vida como sempre foi. Vai lá, curta a página, deixe sua mensagem, converse com ele e com Alexandre. 

Nós não temos medo. Nós temos amor.

Armandinho: ninguém vai soltar da sua mão.

Um bom ano novo a todas e todos nós. Que vivamos em amor, que é de onde tiraremos forças para continuar a criar nossas garotinhas e nossos garotinhos assim.

 

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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