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BRINCAR É APRENDER, SIM!

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Eu sou de uma época em que brincar livremente era a única opção das crianças ociosas. Não havia muito mais o que fazer além de inventar as próprias brincadeiras. As brincadeiras giravam em torno de tomar banho em uma piscina de plástico com os primos e passar a tarde passando os dedinhos nas dormideiras que achávamos no quintal. Parecia simples, mas o que eu não sabia era a importância de brincar sem um adulto dirigindo as brincadeiras e sem a intervenção dos eletrônicos. Crianças que brincam espontaneamente adquirem uma alta capacidade de lidar com o desconhecido e superar limites. Elas conseguem também exercitar a criatividade e botar em prática seus pensamentos inventivos. O livre brincar estimula a imaginação, o desenvolvimento da linguagem e a capacidade de resolução de problemas, além de favorecer a prática de atividades físicas e mentais, que podem ser repetidas diversas vezes até que a criança ganhe confiança e domínio. Assim, precisamos garantir o acesso ao livre brincar oferecendo à criança a oportunidade de explorar o ambiente e examinar os materiais disponíveis para a brincadeira, pois brincar é potencialmente uma ótima via de aprendizagem.

É através do brincar que a criança vai estabelecer uma relação cultural e criativa com o seu espaço e com os indivíduos com quem brinca. Além disso, ela vai fazer uma leitura de mundo e desenvolver seus aspectos motores, físicos, emocionais e cognitivos. Freud afirmava que é na brincadeira que a criança consegue distanciar o que é real do que é fantasia e, assim, através desse mecanismo, garantir ao indivíduo a distância da relação com o real, pelo menos enquanto estiver brincando. Logo, a brincadeira extravasa a subjetividade da criança desprendida de qualquer limitação estando conectada à realidade, mas sem o julgamento e o perigo do parecer de qualquer adulto. Brincando, elas estão livres e em paz, prontas para construírem seus mundos, desconstruírem seus medos, lidarem com suas angústias e superarem suas inquietações. É brincando que elas são capazes de derrotar monstros imaginários (e bem reais, até) com ajuda dos amigos, companheiros de grandes batalhas.

ADULTOS TÊM PROBLEMAS COM O BRINCAR...

Após apontar a importância social e criativa do brincar, é preciso ressaltar que o brincar é um problema para os adultos. Mesmo em escolas, há um tempo mínimo para brincar, principalmente quando a criança chega ao Ensino Fundamental, aos 6 anos. São muitas horas nas cadeiras e poucas horas nas brincadeiras. Engana-se quem pensa que muitas horas sobre livros e exercícios formam indivíduos estudiosos e inteligentes. Pelo contrário: estamos vivenciando um momento muito particular em que crianças estão precisando de tratamento para ansiedade, depressão e temos até casos de suicídio infantil. O que mudou nos últimos tempos? As crianças têm brincado menos e saído pouco de casa. Estão presas em suas casas e raramente expostas ao sol, que fornece Vitamina D ao nosso corpo, vitamina que é essencial para os ossos, para o crescimento e - surpresa! - para a luta contra a depressão. Não me parece que estamos no caminho certo. Crianças têm direito a tempo vago, ao ar livre, sem controle contínuo dos pais para terem alguma liberdade, sem excesso de deveres de casa, sem eletrônicos o tempo todo para que fiquem quietas e imóveis.

Os pequenos aprendem falando com outras pessoas, com outras crianças, sozinhas, cantarolando, narrando histórias - não há como mantê-las caladas e esperar que se tornem pessoas criativas, críticas e eloquentes. Crianças que brincam livremente aprendem a pensar e a ouvir o outro e se tornam pessoas modestas e flexíveis, pois, para a brincadeira fluir, são necessárias essas habilidades. Se uma criança não consegue ouvir seus amigos enquanto brinca, ela não conseguirá ser mantida na brincadeira por muito tempo: ou ela aprende a ouvir ou brinca sozinha. Na maioria das vezes, elas aprendem a escutar o outro porque é bom brincar em grupo. É na prática, com os pares, que as crianças descobrem as mais variadas formas de agir, sentir e atuar. A brincadeira não é uma preparação para a vida. Ela é a própria vida.

Infelizmente, o brincar é considerado uma atividade que desorganiza o ambiente, atrapalha e perturba. Os adultos não veem na brincadeira sua importância. É difícil para o adulto reconhecer que ele próprio brinca em sua vida adulta quando, por exemplo, brinca em blocos de Carnaval ou quando se entrega à dança em uma festa. Enquanto isso não for legitimado como brincadeira de adulto, a brincadeira infantil não será valorizada. A brincadeira infantil de faz-de-conta é tão importante quanto o ensaio para uma prova oral de inglês de um adulto. Ambos devem ser considerados importantes e apreciados. O que não podemos fazer é considerar as brincadeiras, que são tão importantes, como atividades infrutíferas e sem relevância. O brincar é um meio de descobrir uma diversidade de saberes em diferentes contextos para vários fins.

AS MUDANÇAS QUE A INFÂNCIA VEM SOFRENDO E SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA

Quando iniciei o texto escrevendo sobre passar os dedos nas dormideiras do quintal, parecia algo como romantizar a própria infância, mas não era romantização. É que a infância mudou bastante dos anos 80 pra cá. A minha relação com a natureza é diferente da relação que os meus filhos têm com ela. Hoje, muitas crianças são capazes de falar sobre o perigo que a natureza corre porque estudam isso na escola, mas não têm a mínima intimidade com a natureza em si. Parece muito com o Mito da Caverna de Platão: estão presas em uma caverna onde são apresentadas a imagens, mas não têm contato com essa realidade. Essa falta de contato e da brincadeira com a natureza não criam uma conexão a ponto de quererem protegê-la e se sentirem parte dela. A natureza, para as crianças de hoje, é mais uma abstração que a própria realidade.

A natureza tem um papel fundamental contra o consumismo. Estando conectado e dentro dela, não é preciso brinquedo específico. Tudo é reinventado. Um galho vira espada. Uma poça se torna uma grande piscina. Pedrinhas podem ser comidinhas que serão cozidas. Folhas são pratos. Tudo ali importa. Nada tem preço. Tudo tem valor. Todo mundo tem tudo. A natureza é aquele mundo que sonhamos para todos, mas que anda pouco frequentado. Precisamos rapidamente voltar ao nosso lugar, onde nos sentimos livres e acolhidos. Para isso, é preciso planejamento, porque já nos acostumamos a não frequentar praças, praias e ruas. Temos medo. Temos preguiça. Sair da zona de conforto é difícil. Precisamos trabalhar dentro de nós todos esses sentimentos e incertezas. Encará-los me parece a única salvação. É preciso anotar na agenda, programar, agendar horário. Nossas crianças vão agradecer nossa volta aos espaços públicos e cheios de verde e passarinhos.

BRINCAR JUNTO À NATUREZA: UM BÁLSAMO

Brincar na natureza pode ser terapêutico para crianças excessivamente cobradas em casa e na escola, crianças que sofrem violência ou que são consideradas desatentas. Ela provoca a criatividade e requer habilidades sensoriais. Na natureza, a criança se reencontra e, lá, pode levar suas confusões da vida real e tentar achar soluções no balanço das ondas; pode tentar enfrentar seu medo numa trilha assustadora; pode se sentir livre observando os pássaros voando alto; pode tentar entender quem ela é nesse mundo sentindo o cheiro do mato molhado. A natureza se apresenta de diversas formas, mas é a criança brincando quem vai dar sentido a todo esse movimento que está ali, pronto para receber qualquer criança que seja, como um papel sem nada escrito: é a criança que vai desenhar e pintar. É naquele espaço, longe do mundo adulto, que ela terá liberdade e privacidade para soltar suas fantasias, sonhos e ideias - sem interferência.

AS CRIANÇAS ESTÃO DESAPRENDENDO A BRINCAR...

Estamos mal acostumando as crianças. Elas estão desaprendendo a brincar. Observem as festas infantis. As crianças da classe média, pelo menos, já estão viciadas em brinquedos e animação. Elas já esperam que tenha lá um adulto comandando as brincadeiras ou, ao menos, um pula-pula para que não precisem pensar muito em como vão brincar. As brincadeiras são sempre guiadas por adultos. Dificilmente inventam as brincadeiras e interagem livremente. Quando a festa é em estabelecimentos de festa com brinquedos eletrônicos, as crianças mal se veem.

Talvez seja a hora de repensarmos as festas, as brincadeiras, a forma como estamos lidando com as crianças e como será o futuro delas, uma vez que estão desaprendendo a se unir em uma festa para inventar as próprias brincadeiras. Estamos interferindo exageradamente em suas brincadeiras de tal forma que já não conseguem mais brincar sem serem guiadas por um adulto.

BRINCAR É O ANTÍDOTO CONTRA O CONSUMISMO

É preciso estarmos atentos: brincadeiras não são “só” brincadeiras. Elas são experiências sociais em que as crianças aprendem a conviver com o outro, a respeitar e ouvir os amigos. Além disso, através da brincadeira, desenvolvem aspectos motores, cognitivos e afetivos e, paralelamente, evoluem na área da criatividade, pois podem ser livres para inventar, criar, descobrir e inovar.

A luta contra o consumismo também é combatida quando as crianças brincam livremente na natureza, pois lá não precisam consumir: a natureza fornece materiais que se tornam brinquedos, facilitando, assim, as brincadeiras.

Quando uma criança brinca, ela aprende e muito! Aprende a escolher, experimentar, imaginar, dominar, movimentar-se, pensar, ser ativo, observar, esperar, comunicar-se, respeitar, conhecer os próprios limites, cooperar, memorizar e entender regras. Enfim, o brincar é um dos principais exercícios na vida de uma criança e faz bem à saúde física e mental. Agora, só falta que os adultos entendam isso.

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Dany Santos

Autora: Dany Santos

Linguista e professora formada pela Universidade Federal Fluminense. Mãe de Caio (14) e Artur (4). Feminista e ativista do parto e da infância livre. Escreve no blog Quartinho da Dany desde 2008. É colunista do Huffpost Brasil. Escreve aqui sobre assuntos relacionados à infância e à maternidade.

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