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EMPREENDEDORISMO MATERNO: ESCOLHA OU FALTA DE OPÇÃO?

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A cada dia, mais e mais se fala sobre empreendedorismo feminino. Os discursos das redes sociais e da mídia usualmente tratam a iniciativa empreendedora das mulheres mães como uma tendência inovadora e libertadora, mas será que é isso mesmo?

O empreendedorismo de mulheres não é um fato novo. Sem glamour, as mulheres sempre buscaram formas de geração de renda, mesmo quando teoricamente eram “apenas donas de casa”. De fato, poucas foram as mulheres que puderam se dedicar exclusivamente à família, mesmo quando não estavam engajadas em um trabalho formal. Em algum momento da vida, nossas tias, mães, avós e bisavós vendiam ovos, faziam manicure, depilação e bolos por encomenda, revendiam produtos de beleza, artigos para cozinha, montavam pequenos comércios na garagem de onde moravam, costuravam, lavavam roupas para a vizinhança, cuidavam de crianças no contraturno da escola, faxinavam casas ou inventavam outras formas de complementar a renda familiar.

E “complementação da renda familiar” é um termo que muito foi usado para não melindrar o homem, entendido até recentemente como a “cabeça do casal”. Na prática, muitas destas mulheres tinham rendas maiores ou mais constantes que as de seus companheiros, sem mencionar as muitas e muitas mulheres que chefiam famílias monoparentais.

Durante muito tempo, só dois grupos foram valorizados: quem tinha empresa formalmente constituída ou os que tinham carteira assinada. Então, se há uma novidade nos últimos dez anos com a onda do empreendedorismo é que se tirou da sombra ou do lugar da vergonha as iniciativas informais. Hoje é visto com menos preconceito trabalhar por conta própria, e o que antes era bico, hoje virou uma forma socialmente reconhecida de geração de renda.

RAZÕES PARA EMPREENDER

Vejo muitas mulheres largando suas carreiras assalariadas e buscando empreender após o nascimento dos filhos. Algumas alegam buscar uma vida mais harmônica. Outras dizem não se identificar mais com o estilo de vida que levavam. Há ainda quem diga querer priorizar a maternidade. Mas será que este caminho é, de fato, uma escolha?

O trabalho assalariado deveria ser uma forma de geração de renda que, embora com menores ganhos, traria aos funcionários algumas vantagens: maior previsibilidade de renda, alguns benefícios, garantias sociais através da previdência, horário de trabalho previamente conhecido, menos riscos. Contudo, a precarização paulatina das condições e acordos de trabalho e o aumento do desemprego fez com que as trabalhadoras, novamente, ficassem em situação desfavorável. Com o tempo, jornadas exaustivas, trabalho extra em casa, ausência de benefícios e estabilidade através das contratações informais ou como pessoas jurídicas levaram as trabalhadoras e trabalhadores a uma condição de incerteza grande.

Embora esta perspectiva seja classista, na medida em que para algumas pessoas a precariedade nunca deixou de existir, não podemos deixar de reconhecer e lamentar que, em vez de caminharmos para as garantias universais e para um bem-estar social abrangente, retrocedemos nas poucas conquistas que tivemos. Com o acirramento da competição e com as condições agressivas para a manutenção do emprego, as mulheres, a quem toda a responsabilidade pelo cuidado com os doentes, crianças, casa e demais demandas da família usualmente recaem, são as que mais sentem.

Para muitas, apesar do desgaste, não há a alternativa de largar o trabalho formal mesmo com toda pressão, pois a responsabilidade com o sustento da casa exige risco zero. Para outras, a demanda familiar é tão grande que nenhum trabalho formal é conciliável, uma vez que a flexibilidade é bem pequena e ser autônoma é o único caminho possível. Nestes dois casos, a clareza da falta de opção é total. Seja trabalhando como assalariada, seja buscando alternativas, nada foi escolhido. Nenhum outro caminho se encaixa com a vida.

Mas há um terceiro grupo que aparentemente fez a escolha por empreender, mas será que fez? Será que realmente havia uma vida profissional como funcionária respeitosa e sustentável? Jornada de trabalho cumprida sem horas extras, creche no trabalho, distância razoável de casa? Será que havia quem também cuidasse da criança, uma rede de apoio para os dias em que ela ficasse doente, um companheiro ou companheira presente nas responsabilidades domésticas, creches e escolas com horários compatíveis com a jornada da mãe e cujo calendário fosse compreensível com o fato de que uma trabalhadora se ausenta apenas um mês por ano do trabalho? Se formos avaliar com sinceridade, são poucas as que saem do mercado formal de trabalho como assalariadas apenas por um desejo de realização. É especialmente com este grupo - que aparentemente empreende por opção - que vamos conversar.

SOBRE NEGÓCIOS. CONCEITOS.

Salário é o valor pago a um funcionário. Pró-labore é a remuneração de um sócio da empresa, seu ‘salário’ por trabalhar na gestão do negócio. Lucro é a remuneração do capital investido, é o dinheiro que pode ser distribuído, em todo ou em parte, quando há saldo positivo nas contas da empresa e é independente do envolvimento laboral com o empreendimento. O pró-labore é um valor usualmente fixo que é contado como um custo da empresa, da mesma forma que o aluguel ou o salário dos colaboradores. A pessoa jurídica é uma organização apartada dos sócios, seus recursos e bens são próprios, e não deve haver mistura entre o dinheiro e os compromissos da empresa e de seus donos. O objetivo da empresa é a profissionalização e o lucro, alcançar o patamar onde ela funcione com os sócios somente em sua atividade estratégica, definindo os rumos da empresa sem seu envolvimento no monitoramento ou execução das atividades do negócio. Toda empresa deve dar lucro, ou seja, deve faturar valor excedente aos custos diretos e indiretos e da remuneração dos sócios prevista como pró-labore. Faz parte de uma empresa sadia este excedente que é utilizado como reserva, reinvestimento ou é distribuído aos seus donos anualmente. Uma empresa que consecutivamente não alcança o lucro ou que não consegue amadurecer no decorrer dos anos a ponto de seus sócios cuidarem exclusivamente do estratégico, possui problemas de gestão. Ou seja, a empresa alcança a maturidade quando a ausência dos sócios não implica a interrupção do trabalho e o afastamento dos sócios não implica ausência de renda a eles. Em uma empresa madura a engrenagem funciona, gerando renda e lucros, mesmo quando seus donos estão dedicados a outros projetos ou a suas vidas pessoais.

Considerando estes conceitos, quantas empresas lideradas por mulheres que você conhece alcançam esta maturidade? No meu entorno, muito poucas. Avalio que isso aconteça por várias razões: baixa expectativa com relação ao negócio; pouco conhecimento de gestão; dificuldades concretas em fazer a empresa ganhar corpo e amadurecer.

Usualmente, quem empreende por necessidade tem somente um objetivo: ganhar o dinheiro de hoje. Levar a vida em frente, sobreviver, se virar. Estas são as metas de muitas pessoas que empreendem em um contexto de falta de escolha. Quando é esse nosso objetivo, todo o plano já é traçado somente para este básico. Além disso, a mistura das necessidades pessoais e da empresa tendem a ser bem altas, o que torna o olhar para o negócio como uma extensão de si. Neste contexto, o amadurecimento é raro. Com a alta personificação da empresa na figura da fundadora, não são estabelecidos processos, a equipe não é desenvolvida, tudo fica centralizado e o crescimento, inviável.

Depois, há um outro aspecto do empreendedorismo por necessidade que é o baixo conhecimento de gestão. Para delegar os processos e se desobrigar das atividades operacionais da empresa, é preciso dominar os processos, descrevê-los, ensiná-los e monitorá-los. Em um segundo momento será preciso desenvolver colaboradores para que possam executar a tarefa de monitorar também, de maneira a liberar o sócio para olhar para a estratégia, o mercado, o concorrente e os clientes. Tudo de cima, pensando o futuro. Contudo, chegar até aí exige método e disciplina. Exige também desapego, paciência em ensinar, tempo e recursos financeiros. Sim, porque tudo isso exige tempo e recursos.

Em vários momentos, a pessoa pode se sentir em um beco sem saída: sobrecarregada demais para poder prospectar mais clientes, sobrecarregada demais e sem faturamento suficiente para poder contratar e ensinar alguém. Se não bastassem os desafios intrínsecos de uma empresa, que não são poucos, não podemos esquecer que usualmente esta mulher estará envolvida com uma série de responsabilidades paralelas e invisíveis que envolvem o cuidado de toda a família. A situação pode se tornar muito difícil.

CAMINHOS PARA UM EMPREENDEDORISMO SUSTENTÁVEL

São muitos os pontos de atenção para quem quer fazer a escolha de ter seu próprio negócio ou trabalhar de forma autônoma. É um caminho que exige polivalência: dentro das necessidades que surjam, você não terá condições de escolher aquilo que prefere ou tem mais facilidade; é um caminho que demanda persistência: há altos e baixos e isso faz parte do percurso; é um caminho que exige disciplina: o compromisso é acima de tudo com você mesma; é um caminho que exige saber esperar: as soluções imediatistas usualmente são atalhos para problemas futuros. Por outro lado, pode ser uma caminhada de muita autonomia, criatividade, alinhamento aos seus valores e prioridades, flexibilidade e ganhos bem acima do que seria possível como trabalhadora.

Para quem está considerando começar sua jornada como empreendedora, algumas dicas:

1. NÃO TENTE CONCILIAR A VIDA PROFISSIONAL COM A VIDA PESSOAL SOZINHA

Uma das expectativas no processo de tornar-se profissional liberal ou empresária é conseguir cuidar da casa e família ao mesmo tempo que trabalha. Para o bem de seu bem-estar físico, mental e emocional: não crie esta expectativa para si! Implique seu companheiro, companheira, os pais de seus filhos e demais moradores da casa a compartilhar esta responsabilidade. Busque apoio na comunidade também, faça rodízio com outras mães, peça suporte aos avós, coloque as crianças na creche, simplifique a vida doméstica. Empreender aumenta muito a carga de trabalho, embora a jornada possa ter horário flexível. Cuide de si, do seu sono, do seu descanso e lazer. É a única forma de você fazer isso de uma maneira sustentável, que não vá deixá-la doente, deprimida ou infeliz em pouco tempo. Não esqueça: é trabalho (e mais trabalho do que muitas vezes se faz como funcionária, pois não tem descanso ou limites).

2. BUSQUE O LUCRO 

Um amigo sempre dizia: uma empresa que não dá lucro é hobby. Estude o seu mercado, recorte um público-alvo capaz de pagar um preço que proporcione margem, avalie, dentro das possibilidades de negócios que você tem, qual o mais lucrativo, seja superavitária praticamente desde o início. Conheça seus custos, faça simulações, pesquise bastante. Verifique qual caminho te permitirá ganhos com esforço baixo, em caminhos mais simplificados. Comece pelo simples. Comece pelo mais lucrativo. A intenção de um empresário é maximizar ganhos, não trabalhar demais, nem onerar demais.

3. ENTENDA SUA RELAÇÃO COM O DINHEIRO

Seguir o caminho autônomo exigirá de você precificar o que oferece, vender, reduzir custos, fazer escolhas racionais, separar o faturamento da empresa do seu dinheiro pessoal, adiar gratificações e prazeres. Você é impulsiva? Você se sente confortável em vender? Tem algum problema em lidar com finanças? Tem familiaridade com planilha, cálculo de custos e juros, previsão de receitas? Tendo dinheiro em conta é capaz de deixá-lo quietinho na poupança ou é do tipo que gasta tudo o que entra? Estes são aspectos importantes deste caminho solo que se começa ao empreender. Não haverá mais um departamento de contabilidade ou finanças lidando com as notas fiscais e renegociação com os fornecedores; nem um departamento comercial avaliando a viabilidade de um desconto ou justificando o aumento do preço; não haverá o provisionamento por parte do empregador das suas férias remuneradas ou do décimo terceiro. Tudo isso será atribuição sua. Conhecer seus potenciais e limites na questão financeira é um dos maiores desafios. Neste aspecto, terapia ajuda bastante, sócios com competências complementares e eventualmente um processo de coach.

4. ALIE-SE

Entenda qual o perfil de pessoa que busca as soluções que você oferece. Este perfil de pessoa provavelmente tem outras necessidades em comum. Identificando isso, busque outros fornecedores e procure criar estratégias coletivas de divulgação e venda. Feiras, palestras, encontros de negócios, pacotes de serviço em comum. Os caminhos são muitos, maximize as possibilidades.

5. TENHA PACIÊNCIA 

Um empreendimento leva, em média, três anos para se estabelecer. Os primeiros três anos é um período de aprendizado, sedimentação no mercado, divulgação e investimento. Prepare-se para um período desafiador, de renda incerta e algum solavanco neste começo. Seja tolerante com suas dificuldades, mas procure solução para todas elas. Garanta que seu plano contemple os custos e perdas de tempo inerentes a esta etapa do desenvolvimento da empresa.

6. CUIDE DO FLUXO DE CAIXA

O fluxo de caixa é como o combustível do avião. Se o combustível acabar em pleno voo o avião cai, não importando o quão lindo, moderno, importante ele seja ou próximo do aeroporto ele esteja. Sua empresa precisa de dinheiro em caixa, reserva, para adiantar fornecedores, pagar impostos, aluguel, funcionários, tudo. Se este dinheiro acabar, mesmo que você tenha valores a receber, a bola de neve referente aos juros, multas e problemas decorrentes de falta de pagamentos vai te tirar o sono e, eventualmente, acabar com seu projeto. Quando o assunto é fluxo de caixa, seja conservadora, dê pequenos passos, faça as coisas aos poucos. Não sacrifique seu fluxo de caixa, tenha margem de manobras para fazer frente a uma emergência, a um processo trabalhista, a um calote de cliente. Cuide do seu fluxo de caixa sempre.

7. CUSTOS SÃO COMO CABELOS

Custos são como os cabelos: se não forem aparados de tempos em tempos, só crescem. Há duas formas de aumentar sua lucratividade: aumentando o faturamento e diminuindo custos. Dedicamos muitos esforços em prospectar clientes e vender mais e esquecemos, muitas vezes, de dedicar o mesmo olhar para os custos. O aluguel que você paga está dentro da média do mercado? Você conseguiria estar em um imóvel menor ou mais barato? A conta de celular tem um bom custo benefício? O fornecedor de muito tempo será que continua sendo uma opção barateira? Os processos podem ser enxutos? Revise, revise, revise, sempre. E corte.

RESPIRE E SIGA EM FRENTE 

Em alguns momentos, este trajeto pode parecer demasiadamente difícil, mas em outros você encontrará no caminho solo, no caminho autônomo, empreendedor, a possibilidade de se expressar no mundo de forma muito autêntica. Quando isso acontece, é muito, muito recompensador. Em resumo: não queira assumir coisas demais neste processo, pois o novo empreendimento já vai demandá-la muito; busque ajuda e aprenda o máximo que puder; olho vivo no financeiro; desenvolva sua faceta vendedora; comece pelo simples. Ah, e não menos importante: o lucro e o desenvolvimento da empresa. Desde o primeiro rascunho do seu plano de negócio visualize como você vai tornar seu empreendimento verdadeiramente rentável e profissional para que ele possa ter vida própria em um futuro breve.

 

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Raquel Marques

Autora: Raquel Marques

É mãe do Gabriel e do Bruno, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutoranda em Medicina Preventiva. Escrevo sobre as dores e as delícias de ver dois pequenos humanos crescerem neste mundo, mas às vezes também falo sobre participação política, saúde coletiva e outros assuntos.

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