/ PIXELS / / PIXELS /

Artigos

Maternidade partilhada: quando não estamos sós

Ranking:

Pouca coisa existe que seja mais desafiadora do que passar por dificuldades e angústias sozinha. Não apenas sozinha de companhia ou presença física, mas especialmente sozinha de apoio e braço dado, sozinha de uma mão que nos pegue e diga:

Vamos lá, nesse trechinho eu vou te puxar e lá na frente a gente inverte”.

Porque bem ao nosso lado existem inúmeras pessoas, uma rede social cheia de contatos, um whatsapp cheio de grupos e opiniões e julgamentos e cobranças. Mas sentir-se sozinha pode acontecer – e de fato acontece – principalmente aí, em meio ao coletivo, quando nos vemos cercadas de pessoas e sozinhas em nossas angústias e dores, especialmente quando o que se valoriza em grande escala é o individualismo, a satisfação dos anseios individuais.

É quando qualquer dificuldade se torna maior. Quando a dor que sentimos se amplifica e se potencializa.

Se é assim com todas as pessoas em suas vidas diárias, é ainda mais forte quando somos mães. Quando temos atrás da porta do banheiro, enquanto fazemos um simples xixi ou escondemos um choro, pezinhos ávidos para entrar e compartilhar de todos os momentos da nossa vida, inclusive aqueles em que tudo o que queremos é estar sozinha, especialmente porque não fomos ensinadas a lidar com nossas próprias dificuldades na frente deles, esses serezinhos pequenos e cheios de potência a quem chamamos de filhos.

Mas se eu aprendi uma coisa nesse curto e profundo caminho como mãe foi que há uma solução para essa solidão. E ela não é comercial.

A solução não é fácil. Mas facilidade não deve ser o objetivo final do que buscamos, posto que toda facilidade esconde profundas armadilhas, algumas letais. A solução é uma só: dividir o caminho. Com quem sabe exatamente o que nós sentimos porque, de certa forma, também é nós.

COMPARTILHAR

O que é compartilhar?

Estamos sendo adestrados para acreditar que é apertar aquele botão das redes sociais em que tornamos algo de conhecimento de outras pessoas, o que também é uma armadilha. Nem sempre compartilhamos verdadeiramente nossas dores. Nem sempre somos acolhidas em nossas solicitações apenas porque as fizemos conhecidas.

Compartilhar é dividir. Fazer parte de algo com alguém. Sentir as dores e as delícias de outra pessoa como se nossas fossem. Afligir-nos porque alguém também está aflito. Partilhar. Repartir. Utilizar um mesmo recurso em rede. É o que nos diz o dicionário...

Palavra que vem do latim e se forma a partir de COM (junto) e PARTÍCULA (parte pequena).

Porque é isso o que somos: partes pequenas de um todo que, por viver míope, pouco se reconhece, se identifica, se aproxima.

COMPARTILHAR com outras mulheres foi a solução que encontrei para me sentir menos só e mais forte, especialmente como mãe. Primeiro, compartilhei informação de maneira, ainda, solitária. E percebi, neste compartilhamento, o fortalecimento de algumas mulheres. Elas, mais fortalecidas, compartilharam por sua vez com outras mulheres. Que se viram motivadas a estender suas mãos a outras. Enquanto eu via mulheres se sentindo apoiadas, decidi compartilhar histórias, e abri meu coração. Falei sobre dores, angústias, bobagens, diversões, descobertas. E ao me abrir como sou, reconheci em mim tantas outras. E tornei-me muitas.

Ao tornar-me muitas e diversas, senti a via contrária: o compartilhamento do íntimo de outras mulheres me transformou. Me trouxe aprendizado, capacidade de crítica, conhecimento sobre o mundo. E, nisso, transformei meu modo de viver, tendo também como objetivo tornar o caminho, pelo menos até onde eu poderia agir, mais seguro e consistente para que uma outra pessoa, no mínimo, pudesse caminhar: minha filha.

Juntas, todas, compartilhamos roupas de criança, que seguem a outras impregnadas de amor e solicitude. Compartilhamos livros, que poupam preciosos centavos quando pouco temos. Compartilhamos dicas de como agir em momentos em que nos sentimos talvez tão inseguras quanto as próprias crianças que esperam que saibamos o que fazer quando nem nós mesmas sabemos. Compartilhamos abraços, café, bombas de extrair leite, slings, cuidados, levar e trazer da escola. Compartilhamos sugestões, alertas, a força que falta em uma e sobra em outra. Compartilhamos berços, brinquedos, advogadas. Compartilhamos notícias, estratégias, articulações. Compartilhamos informação. E assim vamos nos libertando, como dominós que, ao contrário, se levantam consecutivamente.

E nessa roda compartilhada, de amores compartilhados, de dores compartilhadas, transformamos solidão em força. Desamparo em rede. Direitos desrespeitados em ativismo. Ideias em ações. Conflitos em mediação. E seguimos menos sozinhas, mais fortalecidas. Seguimos juntas.

Em um mundo de individualismos, escolhi – escolhemos – seguir pelo caminho contrário. Escolhemos COMPARTILHAR. Quando as pessoas pagam para ser EXCLUSIVAS, para ter o que os outros não têm, nós agimos em propósito oposto. NÓS NOS COMPARTILHAMOS. E compartilhamos a maternidade, as soluções, apoio e carinho.  Não por umas, mas para todas. E é por isso que escolhemos falar, durante todo o mês de fevereiro, sobre COMPARTILHAR A NÓS MESMAS. Sobre como o compartilhamento entre mulheres, entre pessoas que desejam ver o bem comum, tem transformado vidas e histórias que poderiam ser difíceis em caminhos onde, juntas, caminhamos com menos riscos, com mais segurança e, especialmente, menos sozinhas.

Não apenas agora, mas sempre, compartilhe! Roupas, material escolar, livros, fantasias? Sim, tudo isso também. Mas especialmente compartilhe você mesma com uma outra mulher. Compartilhe:

- gentileza a uma mãe

- apoio a uma mulher

-  força a uma puérpera

- amparo a uma lactante

- colo a uma criança

- sustentação a quem se dedica a fazer diferente

Um dia, eu decidi compartilhar minha história, minhas dúvidas, minhas angústias, minhas dores e alegrias. E, nisso, encontrei dezenas de outras mulheres percorrendo um mesmo caminho. Nós nos abraçamos e seguimos. E precisamos que você siga com a gente.

Apoie a gente. Escolha fazer força contrária, junto com a gente. Faça parte dessa história que tem um objetivo único:

COMPARTILHAR MULHERES E SUA FORÇA

Porque é quando nos partilhamos que deixamos de estar sós. Deixamos de ser partículas. E nos tornamos um TODO.

Num mundo de exclusivos, queira que sejamos compartilhadas entre todas – para que se compartilhem também.

Escolha apoiar a plataforma CQVM em Fevereiro, cujo tema é “COMPARTILHAR – Entre mulheres não estamos sós”. Você assina o plano que for possível pra você e, em agradecimento, nós vamos te mandar um presente. Para que você compartilhe com outra pessoa. Veja aqui ao que você tem acesso e o que torna possível.

 

Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

ESTE TEXTO FOI FINANCIADO

Veja o nome de quem contribuiu para que você pudesse ler isso
  • E mais 0 apoiadora(s) que preferem permanecer anônimas

Plataforma CQVM© - 2011-2018