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O dia em que fui buscar a criança ferida que eu fui...

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Nunca fiz curso algum sobre como educar crianças sem violência. Muito menos algum curso para me tornar “orientadora de pessoas que buscam criar crianças sem violência”. E, no entanto, grande parte das pessoas que me conhecem como a Cientista Que Virou Mãe me conhecem justamente por isso: por minhas reflexões, falas e incentivos à educação sem violência. Escrevi, junto com a neurocientista Andreia Mortensen, o livro “Educar sem violência – Criando filhos sem palmadas” não por sermos “especialistas”, porque não somos, mas por sermos mães e, ambas, termos nos dedicado ativamente a buscar alternativas às práticas educativas opressoras e a quebrar ciclos de violência das quais um dia fizemos parte.

Claro que minha formação como mestre e doutora na área de neurociência contribuíram muito. Durante muitos anos, estudei como o cérebro reage a estímulos aversivos, como o comportamento de medo é estabelecido, como se dá o processo de ansiedade, de depressão, de pânico. Estudei como o estresse intenso altera o cérebro e, por alterá-lo, modifica toda a forma como reagimos, agora e futuramente. Estudei, também, como se dá o processo de aprendizagem, de condicionamento, de reforço (tanto positivo quanto negativo), suas diferenças e semelhanças. Tudo isso me deu uma boa base teórica para entender que as crianças reagem de diferentes formas a diferentes estímulos, formam vínculos saudáveis ou adoecidos em função dos estímulos que recebem, aprendem a fazer coisas gentis ou violentas também em função desses estímulos, e a compreender as relações causais entre violência e problemas emocionais e psíquicos. Mas de ter o conhecimento teórico a conseguir aplicá-lo na prática, no dia a dia, de maneira eficiente, é um longo caminho...

De onde vem, então, essa minha relativa facilidade de compreender as crianças, de entender seus anseios, de escolher formas de agir que incluam a projeção de possíveis dores ou alegrias e de conseguir educar e acolher de maneira não violenta? Do único curso poderosíssimo sobre infância do qual já fui aluna: a minha própria vida.

Quando eu engravidei, um pânico se abateu sobre mim (para além do pânico relacionado a não saber ser mãe, a não saber o que fazer dali por diante, ao próprio contexto em que descobri a gravidez): eu tinha medo de perpetuar a violência. Tinha medo de não conseguir criar minha filha de maneira gentil, compreensiva, empática, baseada no diálogo e no apoio irrestrito. Tinha medo de não conseguir quebrar um ciclo.

Qual ciclo?

O da criança que sofreu muito com a violência contra ela, praticada por alguém que ela amava muito. O ciclo da criança muito ferida que ainda morava em mim. Fiz muitos exercícios de diálogo mental com ela. Fechava os olhos, me transportava para outro momento da vida, encontrava a menininha chorando e com medo e dizia pra ela:

- Oi, eu estou com você. Você não está sozinha. Vim aqui te dar um abraço, te dar um colinho. Você vai arrumar um jeito muito especial de lidar com isso, confie em mim.

Mas sempre que esse diálogo mental terminava e eu adulta partia, ela ainda ficava lá, com o mesmo semblante triste e assustado. Eu nunca recebi um sorriso dela de volta.

Havia algo que eu sabia: eu precisava voltar no tempo e tentar resolver isso, por mim mesma, sem mais ninguém. Como, infelizmente, ainda não conhecemos formas materiais de viajar no tempo, eu sabia que eu mesma precisaria criar o meu próprio buraco de minhoca. Buraco de minhoca é um conceito hipotético da física que, de forma bem simplista, permitiria um atalho no contínuo espaço-tempo. Uma forma de viajar no tempo, vamos dizer assim. E eu sempre acreditei que se eu, de fato, pudesse estar junto com aquela menininha naquele dia tão difícil que marcaria toda sua vida, talvez eu pudesse mudar as coisas. Mas como fazer isso? Eu sabia como. Mas ainda não havia conseguido superar o muro criado para proteger a mim mesma dessa história...

Quando eu era uma garotinha com entre 5 e 6 anos de idade, minha família se mudou para Curitiba. Vivemos cerca de 1 ano lá, em função de uma transferência profissional do meu pai. E foi lá que vivi o episódio de violência que marcou toda a minha vida. Nunca me recuperei do que aconteceu comigo, mesmo que tão novinha, ainda que tivesse acesso a tantas formas de processar o vivido. Era uma dor muito funda, que influenciou minha autoestima, meu amor próprio, a confiança que eu tenho ou deixo de ter nas pessoas, o fato de me sentir pouco amada enquanto criança, produziu sentimentos de desvalor em mim e, sim, quando adolescente tive muitas ideações suicidas por me lembrar daquele dia – essa é a primeira vez que conto isso, 35 anos depois... Jamais me recuperei daquilo, talvez por não compreender como alguém conseguiria fazer algo assim com uma criança. A cena da violência, que durou muito tempo - pelo menos no contínuo de tempo que uma criança é capaz de processar -, esteve sempre presente na minha história, surgindo nos momentos mais surpreendentes, abalando minha confiança e produzindo ódio, um ódio com o qual, por muito tempo, eu não soube lidar mas que, hoje, já compreendo e não existe mais. Por conta do que aconteceu, ir a Curitiba não era uma opção para mim. Recusei inúmeros convites para estar lá. Deixei de ir a congressos e simpósios que eram importantes e que aconteceriam lá. Recusei convites de amigos para visita-los. Não porque eu fosse surtar ou algo assim, nada disso. Eu apenas não queria ter que lidar com a carga emocional. Até que um dia, recebi um convite especial: ir até Curitiba lançar o livro que ajudei a escrever e que falava, justamente, sobre como quebrar o ciclo da violência. Aceitei. Fui a Curitiba. Isso foi há poucos anos... E falei sobre isso às pessoas presentes no evento de lançamento, cerca de 100 pessoas, que aquela era a primeira vez que eu voltava a Curitiba, e que estava voltando justamente para tentar curar aquela menina machucada.

Desde então, voltei a Curitiba pelo menos mais umas 5 ou 6 vezes, todas a trabalho. A mais recente foi na última quinta-feira, 26/04. Participei de uma mesa sobre maternidade e ciência no Encontro Paranaense de Mulheres na Matemática, na UFPR e, à noite, conduzi uma roda de mulheres em busca de dialogar sobre os desafios de ser mulher, mãe e lutar contra a violência. Dormi na cidade, pronta para voltar para casa no dia seguinte. Mas decidi mudar um pouco esse plano... Decidi produzir o meu buraco de minhoca. Não sei se tem a ver com o fato de que vou fazer 40 anos logo mais e estou muito feliz por isso, ou porque me sentia enfim preparada e forte para fazer isso, mas decidi que era hora de promover um buraco no tempo e encontrar a mim mesma aos 5 ou 6 anos.

Digitei no aplicativo do celular o nome da rua em que morei quando criança, naquela cidade. Sim, eu nunca me esqueci do nome da rua, nem do bairro. Mas não sabia qual era o número daquela casa onde tudo aconteceu. Ainda assim, decidi ir. Cheguei à rua. Em 35 anos, muita coisa muda. O bairro foi tomado por prédios, percebi que era muito grande a chance da casa não estar mais lá e, assim, não conseguir encontrá-la. Mas percorri a rua com calma, olhando para os dois lados, buscando sinais na minha memória. A rua é muito longa, atravessa todo o bairro, entrecortada por muitas outras ruas. Eu já estava desanimando, achando que não a encontraria por talvez ter sido transformada em edifício quando, no último quarteirão, quase no final da rua, eu a encontrei.

Estacionei o carro. Fiquei olhando pra ela. Igualzinha à da minha memória. Sem nenhuma alteração. Exceto pelo fato de que eu me lembrava do quintal com o dobro do tamanho, talvez por ser tão pequenina na época. Desci do carro e fui caminhando até lá. E descobri que, sim, eu estava lá todo aquele tempo... Fiquei parada em frente à casa, no exato lugar onde fui deixada sozinha, sem roupa, para que os transeuntes me ridicularizassem. Passei alguns minutos ali, em silêncio. Nada vinha à minha cabeça, um vazio mental se apropriou de mim e o que certamente foram pouquíssimos minutos, se transformou num tempo infindável. Caminhei em frente à casa, olhei a lateral, tudo igual: as janelas dos quartos onde dormíamos, a casa de madeira ao lado exatamente igual há 35 anos. Senti frio, mesmo estando calor. E percebi que era hora de abraçar aquela menina e trazê-la comigo. Disse mentalmente algumas palavras a ela, expliquei que muita coisa havia acontecido em função desse dia, mas que as mais importantes eram:

- uma outra menina, nascida em 2010, seria criada com total amor, respeito e proteção e,

- milhares de pessoas seriam inspiradas e motivadas para criar suas crianças com gentileza.

E isso porque ela havia passado por aquilo. Pedi desculpas por não ter ido antes. E disse o quanto ela era importante pra mim. Cobri seu corpo, peguei-a no colo e a coloquei no carro. Certamente, ter visto uma mulher adulta com os olhos fechados em plena calçada pode ter parecido muito estranho para um possível observador. Mas aquela foi a única maneira que encontrei de produzir o meu buraco de minhoca: contemplar a casa e, depois, fechar os olhos por alguns minutos.

Segui viagem e vim pra casa.

Encontrei minha filha e meu companheiro. Estava com muita saudade deles. Dela especialmente, que estava na casa do pai há dois dias. A primeira coisa que fiz foi abraçá-la muito forte. Conversamos sobre seu dia, seus passeios e logo ela foi brincar. Eu ainda estava elaborando tudo, minha cabeça doía bastante, talvez pela viagem, talvez pelos neurônios se rearranjando frente ao reencontro (vai saber...). Eis que um pouco mais tarde percebo que minha filha havia subido e estava muito quieta. Subi pra ver se estava tudo bem e a porta do seu quarto estava fechada. Bati, ela não respondeu. Abri. Ela estava de bruço, na cama, chorando. Perguntei o que tinha acontecido, ela não respondeu. Deitei na cama ao lado dela, fiz um carinho nas costas, perguntei muito gentilmente o motivo daquele choro, ela se virou e disse: “Você me magoou. Eu estou triste com você”. Muito espantada, perguntei o que eu havia feito que a havia magoado assim, e ela disse: “Você pediu pra eu não ler o que você estava escrevendo no whatsapp”.  Sim, eu estava conversando com minhas irmãs sobre o que havia acontecido à tarde, ela se postou atrás de mim e começou a ler, pedi que não lesse o que eu estava escrevendo, mas não expliquei o motivo, e ela se magoou... Pedi desculpas, disse que jamais queria magoá-la, que eu não sabia que ela tinha se magoado assim. Contei que o que eu estava escrevendo era sobre violência, não era adequado pra ela, que só por isso eu não havia deixado que ela lesse. Mas o choro continuou muito forte, totalmente desproporcional. Peguei-a no colo. Deixei que chorasse. Até que perguntei: “Filha, foi só por isso ou aconteceu mais alguma coisa? Eu quero te ajudar.”. E ela me respondeu: “Foi só isso, mamãe. Eu não sei porque eu senti tanta tristeza agora... Mas você é a melhor mãe do mundo e eu te amo”.

Ficamos daquele jeito, quietinhas, abraçadas, por uns bons minutos.

De alguma forma inexplicável, eu compreendi: aquele sentimento não era dela. Era meu. Meu não de agora. Mas de muito tempo. E estávamos nos preparando para deixá-lo ir embora. Porque a dor que uma menina sente é transgeracional, ela atravessa muitas gerações até que possa partir.

E foi isso o que fizemos hoje.

Nem a mais tecnológica das ciências já foi capaz de explicar esse processo de cura que acontece entre mães e filhas. Mas, sim, ele acontece. Quando menos esperamos, nos vemos fortes e prontas para irmos lá buscar a criança ferida que fomos e aconchegá-la no colo, ainda que ela tome a forma de uma outra criança.

Eu espero que, de alguma forma, eu consiga continuar inspirndo vocês, que me leem, a se fortalecerem para, algum dia, irem lá também resgatar as crianças de vocês que ficaram presas no tempo. De certa forma, é isso o que tenho feito há 7 anos como a Cientista Que Virou Mãe. Que só é capaz de falar sobre educação sem violência porque sabe o que é ser uma criança que não se sente amada. Quebrar ciclos passa por isso também. E, antes que eu me esqueça, agora já posso falar: no último capítulo do livro “Educar Sem Violência”, que eu e Andrea escrevemos, há inúmeros relatos anônimos de mulheres que conseguiram quebrar o ciclo de violência do qual fizeram parte e educar seus filhos sem qualquer vestígio dela. A mulher do último relato: sou eu.

Sigam em frente. Mas não se deixem para trás.

 

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Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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