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PUERPÉRIO: A possibilidade de reencontro consigo mesma

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Você se sentiu insegura quando se descobriu grávida? E quando segurou o bebê pela primeira vez nos braços, achou que não daria conta? A maternidade abala suas estruturas e te faz perguntar o tempo todo: será que estou fazendo as escolhas certas? Se isso também acontece com você, não abafe esse sentimento. Agarre-o com todas as forças e tente entender o motivo dessa ebulição. Não será fácil e é bem provável que seja doloroso, mas o caminho para se descobrir começa a tomar forma.

A maternidade é uma excelente oportunidade para se encontrar consigo mesma. A criança que carregamos nos braços nos convoca a relembrar a criança que fomos e os pais que tivemos. Tornar-se mãe é um convite para olhar para dentro de si e se conhecer.

A insegurança gerada pelo peso social que a maternidade carrega, que nos fragiliza por completo, pode levar a dois grandes movimentos possíveis: abrir-se para as influências externas e se deixar levar pela maternidade convencional ou doutrinária; ou aproveitar o furacão (principalmente aquele que sentimos no puerpério) e encarar de frente o desafio de se descobrir, de se humanizar, saber se perdoar, para finalmente ganhar consciência e construir uma estrutura consistente capaz de suportar a insustentável leveza de ser quem se é.

O bebê está vivenciando o processo de individuação. Se a constituição do eu é feita a partir do outro, o bebê precisa dessa relação com seu cuidador para se construir. Se ser mãe é dar matéria a outro ser, imprescindível que aprendamos a dar matéria a nós mesmas e torná-la consistente, de modo que essa relação não seja destrutiva. E aqui, acredito que caiba a metáfora do leite materno: quanto mais o bebê mama, mas leite é produzido. Quanto mais consistência e consciência temos de nós mesmos, mais podemos ajudar na construção do outro com menos interferência de projeções.

É evidente que nem todas as mães sentem esse chamado e também seria tolice dizer que essa intospecção só é possível com o advento da maternidade. No entanto, se perceber como o principal responsável pela vida de outra pessoa pode ser um acontecimento tão avassalador que seja necessário primeiramente se rever para poder ver o outro. Ou seja, se você ainda não parou sua vida para poder se escutar verdadeiramente, a maternidade pode ser uma grande oportunidade para que isso aconteça.

E friso que me incomoda esse tipo de discurso ser sempre tão direcionado às mães, como se somente elas fossem sensíveis o suficiente para perceber essa convocação. E quem dera isso estivesse adstrito apenas à nossa sensibilidade. Ocorre que o exercício da maternagem é delegado quase que exclusivamente a nós mulheres. E se somos nós as cuidadoras das crianças, seremos nós a sentir o peso dessa responsabilidade. Dito isso, acredito que todo homem que esteja disposto a maternar possa passar também por esse processo de dúvidas, inseguranças e autoconhecimento.

 

O PESO SOCIAL DO SER MÃE versus OUVIR A SI MESMA

Esse peso social do ser mãe começa logo com a descoberta da gravidez. É com o despontar da barriga que começam os pitacos, os comentários invasivos, os conselhos. Mas nada se compara com a chegada do bebê e a súbita sensação de que o que antes era privado, como num passe de mágica, passa a se tornar público.

Andar com um bebê na rua significa atrair inúmeros olhares, além da possibilidade de ser parada para uma conversa despretensiosa com qualquer pessoa. É como se o simples fato de carregar um bebê desse carta branca para que as pessoas lhe dissessem como conduzir sua vida, apontar falhas sem qualquer constrangimento ou iniciar uma conversa sobre a experiência de ter filhos. E conseguir se escutar em meio a um turbilhão de vozes imperativas pode ser urgente, mesmo que muito difícil.

Como se ouvir em meio a um sem fim de conselhos e orientações? Como separar o que é do outro e o que é meu? Cada vez mais penso que grande parte das pessoas possui um bloqueio instintivo que as deixa surdas perante si mesmas. Não ouvir a si implica em dar demasiada importância ao que os outros pensam sobre nós. Acredito que muito desse bloqueio seja causado pelo adultismo que insiste em não dar voz às crianças, criando adultos inseguros sobre sua capacidade de se ouvir e se fazer escutar. Desde cedo somos ensinados a ouvir e repetir, mas não a falar. Desta maneira, aprendemos que é o outro que nos dá valor e lugar no mundo. Ao invés de ajudarmos na construção de um eu autêntico, educamos a fazer com que sujeitos assumam para si o que lhes é projetado ou imposto pelos mais velhos. Não educamos no afã de tornar quem se é, e sim de moldar quem queremos que sejam. Claro que é impossível criar filhos sem projeções e sem lhes ser o exemplo. Contudo, é possível que essa relação não seja sufocante, ou que não negue a autonomia do sujeito.

Crescemos acreditando que nossa opinião não merece ser escutada, que os detentores do saber são os adultos. Além disso, enquanto crianças, temos a devida noção da relação de dependência que temos com os nossos pais e como é vital manter o respeito pela hierarquia que se impõe nessa relação. Não é à toa que vivemos numa cultura de massa, onde saber vender o produto é muito mais importante que sua qualidade. Basta fazer acreditar que aquilo é o melhor ou o certo para que a compra seja garantida. A pergunta: “Será que eu preciso mesmo disto?” dá lugar à afirmação: “Todo mundo compra/usa, então deve ser bom”.

A epidemia de cesáreas eletivas, a pífia média de amamentação exclusiva de 54 dias, a escolarização cada vez mais precoce e a medicalização da infância são exemplos reais de como argumentos sem qualquer fundamento ganham força quando embalados no discurso de que é assim com todo mundo ou sempre foi assim. A loucura é atribuída a qualquer um que ouse confrontar a opinião hegemônica.

Lutar por um parto respeitoso, amamentar exclusivamente ou de forma prolongada, acreditar que o brincar se conjuga com o ensinar e entender o desenvolvimento da criança como processos normais e não patológicos faz surgir uma avalanche de críticas e comentários que nos enchem de dúvida: será mesmo que estou assim tão errada? E não estou querendo colocar a discussão no nível do certo e do errado. Longe de mim querer afirmar que estas escolhas são as certas e as outras são erradas. Tudo é uma questão de contexto. E ter acesso a escolhas presume possuir privilégios. Mas o cerne da questão é conseguir peitar uma sociedade que põe em xeque sua forma de maternar. Como isto é possível se não somos capazes de dar crédito a nós mesmas?

 

AGIR NA CONTRACORRENTE É ASSUMIR INTEGRALMENTE A RESPONSABILIDADE

É fácil optar por algo que corresponda ao anseio da maioria. Caso as coisas não aconteçam como esperado, podemos repartir também a culpa. Quantas mortes por complicações de cesárea acontecem diariamente? E quantas delas viram notícias? E quando um parto domiciliar resulta em morte ou deixa sequelas à criança? Ele certamente será lembrado para todo o sempre. Isto porque a escolha feita na contramão é muito mais responsabilizada do que aquela em que se acompanha a corrente, ainda que a escolha menos usual seja a mais segura.

É como se ao se optar por um caminho diferente da maioria, essa decisão afrontasse diretamente a escolha do outro e, consequentemente, o status quo. É difícil aceitar que uma escolha diferente da nossa não necessariamente diz que estamos errados, ou que nada tem a ver conosco. Parece que qualquer passo que se dá em direção ao um caminho diferente significa uma verdadeira afronta ao caminho que usualmente se escolhe. E não. Não significa! O caminho que trilhamos diz muito sobre quem somos, a história que temos e a escolha que fazemos. Se assumir responsável por suas escolhas, sejam elas hegemônicas ou não, é algo que exige a capacidade de acreditar em si mesmo. Não delegar aos outros decisões que afetem diretamente nossas vidas é conseguir ser rainha/rei da própria vida. Inclusive, a palavra responsabilidade significa ter habilidade de dar uma resposta. Poder responder verdadeiramente pelos nossos atos nos tira da esfera da culpa porque somos capazes de sustentar as consequências de nossas escolhas. Diferentemente de quando tomamos alguma atitude baseada em fatores externos e sem consciência sobre as implicações reais daquilo.

 

E O QUE TUDO ISSO TEM A VER COM A CHEGADA DO BEBÊ E COM O PUERPÉRIO?

Acho muito curioso que essa necessidade de olhar para si apareça exatamente quando é preciso olhar para o outro, já que nossos filhos precisam da gente para sobreviver. Engraçado perceber que lutar pelo o que se acredita só se torna tão importante a partir do momento em que nossas crenças influenciam diretamente a condução de uma vida alheia. Chega a ser um paradoxo começar a se ouvir para dar conta de outro justamente quando éramos tão condicionados a acatar decisões e atitudes majoritárias. É como se, de certa forma, fôssemos movidos a partir do outro. E, reafirmo: fenômeno bem sintomático em uma sociedade adultista, não?

Não estou querendo exaltar a maternidade como um acontecimento transcendental e de transformação única. Todavia, acredito ser importante chamar atenção para essa introspecção que costuma vir acompanhada do puerpério. A maternidade pode ser entendida como um devir: uma possibilidade de vir a se tornar algo.

Contar com uma rede de apoio é fundamental para aproveitar esse momento de luto, em que nos recolhemos dentro de um casulo feito de nós mesmas, tais quais larvas, para dar lugar a livres borboletas. Voar sem sentir o peso da normalidade que nos puxa pra baixo e nos impede de ser quem realmente somos. E para voar é necessário resistência, é ela que torna a borboleta capaz do voo. E é essa busca por saber quem somos que nos dá a resistência necessária para voar. Também não esqueço que falo do alto de vários privilégios. E que poder se autoconhecer demanda muito mais do que um simples querer. Contudo, preciso gritar que os momentos de angústia pelos quais passamos no puerpério precisam ser escutados. Eles são importantes para conectar a criança que fomos com o adulto que somos. E, às vezes, isso que parece apenas uma sensação só precisa de um respaldo para tomar forma. Buscar informação que dê voz aos nossos incômodos nos estrutura. Informação é poder.

Passar por esse processo de autoconhecimento é importante para que nos descubramos mulheres ou homens e não só mães ou pais. Enxergar-se como indivíduo dono de si faz com que o ato de maternar seja apenas mais um dos exercícios que somos capazes de fazer. Desprender-se do peso maternal é também deixar as crianças livres para construírem uma relação de parceria, horizontal e de confiança. Ouvir a si mesmo implica em saber ouvir o outro sem tomar tudo como pessoal. Dar consistência à pessoa que somos torna possível criar filhos diferentes de nós. Porque assim, já não vemos mais ofensa nisso. Porque uma maternagem consciente implica ter consciência sobre si mesmo.

 

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Lígia Birindelli Amenda

Autora: Lígia Birindelli Amenda

É advogada e mãe do Daniel. Acredita que o papel de mãe não deve ser fim e destino de toda mulher. E pensar na mulher para além da mãe, não significa negligenciar o cuidado com as crianças. Para tanto, é preciso entender mulheres e crianças como integrantes da sociedade e não como cidadãos de segunda categoria. Defende, por isso, a autonomia tanto da mulher quanto da criança e a participação de toda a sociedade em atividades de cuidado. Acredita numa sociedade menos sexista e menos adultista. E é justamente sobre isso que escreve aqui.

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