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Por mais mulheres na política já! Como podemos tornar isso possível?

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Nós, mulheres, na maior parte das famílias somos as responsáveis pelas crianças, pelos doentes, pelas pessoas com deficiência; nós, mulheres, somos quem tem que gerenciar a escassez e que dependemos de programas sociais; nós, mulheres, estamos mais expostas a diversos tipos de violências e desigualdades, dependemos de serviços públicos que deem conta de promover a equidade e justiça. Contudo, tudo isso se perde por, também, não estarmos nos espaços de poder exigindo que nossas pautas sejam priorizadas. Este é um ano de eleições importantes. Este texto vai falar sobre como eu, você e todas nós, juntas, podemos atuar de maneira a influenciar estas eleições e os programas que serão propostos.

O clima político tem nos arrebatado, distanciado, emocionado, preocupado, mobilizado, cansado. Este é um ano de grandes eleições. E se a política institucional não é tudo e tem grandes problemas, negá-la tampouco nos ajudará. Então precisamos arregaçar as mangas e buscar construir algo mais legítimo e representativo. Para facilitar a conversa, falaremos aqui somente sobre os cargos legislativos que concorrerão este ano: deputada estadual, deputada federal e senadora.

AS MULHERES NA POLÍTICA
Nem é preciso dizer o quanto somos sub-representadas na política institucional. Embora as mulheres sejam muito presentes nos conselhos municipais, em movimentos populares, em organizações sem fins lucrativos, em voluntariados e nas organizações de base, elas não estão presentes em número suficiente nos espaços de maior poder. Esta discrepância é a mesma que vemos em outros ambientes, como dentro das empresas, mas com alguns agravantes. O primeiro é que a política partidária e institucional é um espaço predominantemente masculino, onde os ambientes, reuniões e ações são forjadas na perspectiva masculina, o que impacta profundamente as mulheres. Reuniões noturnas são mais difíceis para nós, que corremos mais riscos na rua; os espaços não amigáveis às crianças nos deixam alheias a estes espaços deliberativos. A situação é tão crítica que foi necessário criar uma cota mínima de 30% de candidatas mulheres, que usualmente é preenchida com “candidatas laranja”, em um contexto onde as mulheres são mais de 50% da população.

As mulheres que ultrapassam estas difíceis barreiras enfrentam um muro altíssimo em seguida: os recursos necessários para fazer uma campanha política.

TINHA UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO...
Uma campanha política é um projeto grandioso. Demanda muito conhecimento, estratégia, voluntárias, veículos, equipamentos para produção de vídeos, computadores e dinheiro para gasolina, gráfica (os santinhos ainda definem o voto de muita gente no dia da eleição), para o salário de algumas poucas pessoas fixas e exclusivamente dedicadas à campanha, pagamento de contador, advogados e outras exigências deste processo.

Isso leva ao fato de que fazer campanhas políticas, hoje, no Brasil, é um projeto bastante caro para um cidadão comum, e impeditivo para a maioria absoluta da população. Além de demandar dedicação quase integral por mais de seis meses, inviável a quem é assalariado, o custo de um voto, da conquista do seu voto em uma campanha, é de aproximadamente 4 reais em investimentos de marketing para que o candidato comece a ter chance de se eleger, chegando a mais de R$ 30,00 em alguns casos. Não faz muito sentido uma candidata, somente pelo interesse em trabalhar pelo coletivo, levar este projeto adiante se não houver um comprometimento de pessoas que lhe deem retaguarda neste processo. O efeito deste fenômeno é que os candidatos eleitos passam a se dividir em dois grupos: um pequeno grupo de líderes legítimos que conseguem se eleger em campanhas praticamente sem recursos, mas com apoio maciço de sua base, e a maioria, representantes que ganharam o pleito pelo marketing e muito dinheiro investido. Qual o interesse de alguns poucos doadores que realizam altas doações para vários candidatos? Por alguma razão “misteriosa” este dinheiro é menos abundante entre as mulheres, negros e grupos com pautas sociais como educação pública de qualidade ou atenção à saúde de qualidade. Você já imagina as consequências…

Essa realidade triste, é sustentada por cada uma de nós. Quantas vezes você votou em alguém com quem já havia trocado algumas palavras? E quantas destas pessoas se elegeram? De quais campanhas já participou? Qual seu engajamento cidadão com as eleições?

Hoje, 30% dos representantes eleitos na Câmara dos Deputados foram financiados por empresas de planos de saúde. Assim fica difícil que eles defendam a saúde pública, gratuita e universal, não é mesmo? No site Doadores de Campanhas é possível verificar a magnitude destes valores e compromissos dos candidatos eleitos com as empresas nas campanhas de 2010 e 2014. Hoje, o financiamento de campanha por pessoa jurídica está proibido, mas de várias maneiras o problema continua: campanha exige muitos recursos.

PROBLEMA JÁ CONHECEMOS. MAS E A SOLUÇÃO?
Queria agora dizer a você que nem tudo está perdido. Apesar de todas as dificuldades, é possível, sim, mudar este cenário político. Para isso é preciso que toda sociedade se engaje na política. E isso começa por você. Seguem aqui algumas dicas para este percurso.

Empodere-se
O primeiro passo é pessoalmente nos politizarmos. Compreender o que são eleições proporcionais; quociente eleitoral; o que significa ficha limpa (de verdade!); como os partidos têm votado e como se posicionam no espectro ideológico; os mecanismos de financiamento de campanha; a importância da diversidade; as responsabilidades da União, Estados e Municípios; o papel do Executivo e do Legislativo; as competências de um deputado, senador, vereador, prefeito, governador e presidente; entre muitas outras coisas. Parece muito, mas depois que inventaram o Google, o Youtube e os podcasts as coisas ficaram bem mais fáceis. Sugiro acompanhar o podcast Anticast pelo Spotify ou o canal de Sabrina Fernandes, Tese Onze, no YouTube.

Aproxime-se do conhecimento mais profundo
Livros e vídeos que falem sobre Teoria Geral do Estado, Direito Constitucional, além da própria Constituição Federal de 1988, são recursos valiosos. Aproxime-se destes temas sem medo. Leia a Constituição (há versões comentadas, inclusive): ali estão as regras centrais do nosso país.

Comprometa-se com o grupo
Assuma, com garra, o compromisso de conversar sobre política e agir pedagogicamente, compartilhando conhecimentos com o máximo de pessoas que puder. Nem todos terão a mesma disposição, tempo e bagagem que você para buscarem, sozinhos, os conhecimentos necessários. É preciso ajudar a todos. Somos co-responsáveis pelo engajamento político de todas as pessoas à nossa volta. Os caminhos para isso são muitos: fazer posts didáticos sobre suas descobertas; compartilhar com todos os materiais interessantes que conhecer; convocar periodicamente os amigos para uma noite de cerveja e política, talvez até com a fala de alguém que saiba mais; conversar muito e com todos; buscar meios de despertar o interesse de quem está próximo a você pelos rumos do país.

Identifique boas candidatas
O modelo democrático que temos parte da premissa de que os cidadãos indicarão pessoas para representá-los no parlamento, defendendo seus interesses e pontos de vista. Apesar disso, nos preocupamos pouco em votar e apoiar quem, de fato, tem uma vivência semelhante à nossa. Só uma mãe trabalhadora sabe, de fato, as dificuldades que as mães trabalhadoras, que andam de transporte público e dependem de creche pública, passam. Só uma pessoa negra consegue compreender, de verdade, o alcance do racismo e as sequelas que ele gera. Só uma pessoa homoafetiva tem sensibilidade para perceber cotidianamente o quanto a sociedade heteronormativa a nega direitos. Neste sentido, um parlamento homogêneo em raça, gênero, vivências, profissões, classe social e idade não tem contraditórios suficientes para avaliar as necessidades e impactos das políticas que aprovam. Falta representatividade para decidir caminhos que contemplem a todos.

É imprescindível que, especialmente no Legislativo, apoiemos pessoas o mais próximas possível de nossa experiência no mundo. E sendo o gênero algo estruturante em nossas vidas, votar em uma mulher é quase imperativo.

Identificada a pessoa, é preciso avaliar o partido onde ela está. Os partidos não são neutros ou irrelevantes, eles fazem um recorte ideológico no mapa político. Além da ideologia, há todo um jogo também: há partidos que exigem que o voto de seus membros nos projetos de lei seja decidido pela liderança; há outros que cobram cargos para seus filiados. Na disputa legislativa é preciso considerar o quociente eleitoral, que faz com que os votos dados a um candidato possam ser aproveitados por outros, seja por ter tido muitos votos, não ter votos suficientes para se eleger ou por afastamento do cargo para o qual foi eleito. Não adianta ser um candidato bom isolado em um partido podre. Procure partidos onde você acredite que os candidatos são, no geral, aceitáveis. Pois não há desfecho mais triste do que eleger uma pessoa que te representa e, com isso, colaborar para que muitos outros dos quais você discorda sejam também eleitos.

Mãos na massa
Uma vez localizada uma candidata boa, filiada a um partido cujos demais candidatos também estejam em sintonia contigo, é hora de se aproximar dessa pessoa. Converse com ela, questione seu projeto para o mandato e comprometa-se com esta candidatura.

Comprometer-se com a candidatura é assumir sua coparticipação e coresponsabilidade neste projeto coletivo, neste esforço de garantir a representação do seu grupo, da sua vivência, dos seus interesses, nos espaços de poder.

ALGUMAS INICIATIVAS VALIOSAS

  • Ofereça seu tempo e talento voluntariamente à campanha;
  • Ajude a promover encontros entre a sua candidata e o grupo profissional, territorial ou de pauta que ela representa. Permita que estas ideias sejam ventiladas mais longe;
  • Identifique influenciadores, jornalistas e pessoas bem relacionadas dentro da sua rede a quem você gostaria de apresentar sua candidata;
  •  Comprometa-se a conseguir 100 votos para esta pessoa. Difícil? Se você acha 100 difícil, imagine milhares! E o segredo para isso não é a imposição, a disputa, o deboche ou o convencimento, mas o compartilhamento de seu processo de decisão, as razões pelas quais você acredita nesta candidatura. Converse ao máximo sobre isso, disponha-se a panfletar, seja proativa. Explique a todos porque esta candidata a representa mais;
  • Cuide da sua candidata nas redes sociais. Conversar de forma gentil com eleitores de outros candidatos oferecendo alternativas, ou levar um outro olhar às críticas feitas à sua candidata nas mídias sociais, é um jeito muito bom de aumentar o alcance da campanha e colaborar na contenção de eventuais crises ou boatos;
  • Doe dinheiro. Não tem jeito: a campanha e o interesse de eleição não é mais apenas da candidata, mas de todas as pessoas a quem ela legitimamente representa. Isso inclui ajudar a sustentar todo este processo. Lembra que cada voto custa cerca de R$ 4? Você pode doar seus recursos ou, se estiver complicado, fazer um bazar, uma festa, uma rifa ou um trabalho com renda revertida para a campanha;
  • Não esqueça da boca de urna! A verdade é que a maioria dos eleitores decidem o candidato na semana da eleição, ou até mesmo no dia! Essa é a hora de intensificar o diálogo com sua família, amigas, vizinhas, parceiras, clientes e todos que cruzarem sua rotina. Uma ligação telefônica, uma mensagem no Whats, um post no seu perfil, uma bandeira na janela, um bottom na roupa, um santinho entregue. É preciso presença nesta reta final para depois comemorar, exausta, o verdadeiro exercício do direito democrático.

A sociedade que queremos começa com a gente. Votar é um direito, mas não contempla o exercício pleno da democracia. Não devemos nos contentar com os candidatos de sempre e escolher os menos ruins. Nós, eu e você, podemos influenciar resultados ou, até mesmo, sermos as candidatas que gostaríamos que existissem. Neste ano, muitas mulheres feministas e ativistas da maternidade concorrerão a deputadas estaduais e federais por todo o país. Mulheres como você, que se afligem com as injustiças, se preocupam com o futuro e que se sentem sobrecarregadas pela vida. Localize-as e as apoie. É possível mudar muita coisa. Some sua força a estes esforços.

Se não você, quem? Se não agora, quando?

 

Raquel Marques

Autora: Raquel Marques

É mãe do Gabriel e do Bruno, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutoranda em Medicina Preventiva. Escrevo sobre as dores e as delícias de ver dois pequenos humanos crescerem neste mundo, mas às vezes também falo sobre participação política, saúde coletiva e outros assuntos.

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