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Quando uma criança de 9 anos sabe muito mais que o Presidente da República

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Há mais de 5 milhões de pessoas passando fome no Brasil atualmente. Gente que não tem o que comer. Gente que não tem o que dar de comer aos filhos. Gente que pede para que a criança beba água ou vá dormir pra parar de sentir fome. Eu, como doutora em saúde coletiva, poderia apontar como fomos de mais de 20 milhões de pessoas desnutridas para menos de 2,5 milhões. Poderia mostrar quais foram as políticas adotadas para contribuir para a reversão desse quadro. Poderia também apontar quais foram os retrocessos políticos dos últimos anos que fizeram esse número duplicar, atingindo novamente um número crítico em 2019, apontado por diferentes organismos internacionais. Mas o que é um organismo internacional que trabalha com dados confiáveis perto de uma gente que acredita em Terra Plana? Não é nada. Mais validade tem o whatsapp enviado pelo tio violento que bate em toda a família dizendo que neste país não há gente passando fome porque afinal, “a gente não vê nenhum magro andando pelas ruas”.

“Não vejo nenhum magro. (...) Ah, pelo amor de Deus, se for pra entrar em detalhe, em filigrana, eu vou embora. Eu não tô vendo nenhum magro aqui, tá certo? Temos problema alimentar no Brasil? Temos, não é culpa minha, vem de trás, estamos tentando resolver”.

Essa foi a frase dita por Jair Bolsonaro, um cidadão com 64 anos que foi eleito presidente da República sem conhecer absolutamente nada da realidade do próprio país. Um sujeito eleito por sete mandatos como deputado federal e que não fez absolutamente nada de positivo pelo povo, apesar de ser fartamente remunerado para isso. Nem lutar contra a corrupção que ele mesmo utilizou como bandeira eleitoreira ele fez – afinal, alguém que luta contra mamata não pratica nepotismo, indicando o próprio filho a um cargo político, certo? Um sujeito que nega a fome que atinge seu próprio povo – enquanto aumenta em 16% os gastos com o cartão corporativo da Presidência da República. Um dinheiro que é do povo.

Eu tenho uma filha.

Ela vai fazer 9 anos em breve, ainda neste mês, três dias depois de mim.

Ela tem sido criada em meio a informações sobre retrocessos políticos, destruição de direitos, fim da aposentadoria, fim de projetos sociais, tentativas de privatização das universidades públicas, retirada de medicamentos fundamentais pelo SUS e todas as mazelas diárias a que temos tentado sobreviver nesta metodologia da Doutrina do Choque que se instalou por estas terras. Mas isso tem feito parte da vida dela não como um pano de fundo. Mas como determinante de sua vida. Afinal de contas, é também o futuro dela que está sendo moído tal qual a carne humana que tais políticas pretendem exterminar. Quando ela pergunta o que está acontecendo, eu não a mando calar a boca assistindo Peppa ou jogando joguinho no celular. Não. Eu explico. Eu conto. Eu detalho. Respeitando sua infância, respeitando a capacidade de compreender as coisas que uma criança de quase 9 anos tem, sendo gentil e sincera, mas explico. E seu pai também. Ambos somos comprometidos com uma educação democrática e emancipatória. Porque olhar humanista e senso de responsabilidade social não surge como vaga de embaixador dada pelo pai. Não. É construída. É semeada. Com amor, com informação, com generosidade, com senso de responsabilidade pelo coletivo, com coerência, acima de tudo. Nós não vamos transformar esse país em um lugar menos terrível para se viver se não aceitarmos que cada vida precisa ser envolvida nesta transformação positiva, sob o risco de criarmos bolsonarinhos – gente totalmente despreparada, ignorante, débil em seus argumentos, que por não saber nada, nada deseja de bom ao seu povo.

“Imagine o mundo que não tem ninguém passando fome. O mundo que não tem pobreza. Pois é, o mundo não é assim. Se você acha que está tudo bem, você se enganou muito. Imagine se fosse com você. Você não acharia que está tudo bem. Porque está acontecendo isso com você, não com outra pessoa. Quando estou vendo uma tempestade, penso naquelas pessoas que estão tomando chuva, que estão com frio. Que não tem uma casa para se proteger, um dinheiro para conseguir necessidades básicas que eles não tem. Muitas pessoas passam por eles e não sentem nada, mas eu pelo menos sinto tristeza e vontade de ajudá-los e abraçá-los. Essas pessoas não tem (e não tiveram) ‘assesço’ a educação. Nesses quatro anos que vão acontecer, essas pessoas não vão ter muita chance se não lutarmos pelo direito a educação de todos. Se eu governasse o país não deixaria essas pessoas morrendo de fome, iria ajudar elas. Se eu governasse esse país, faria abrigos para ajudar essas pessoas a ter um lugar confortável para elas dormirem até conseguirem casas para morar. Se eu governasse esse país faria campanhas para arrecadar dinheiro para essas pessoas. Bom, é isso que eu queria escrever, quanto eu sinto vontade de ajudar essas pessoas pobres.

Ass.: Clara Moreiras”

Ela estava na casa do pai quando fui arrumar o quarto dela. Ao retirar as muitas bagunças que uma criança deixa em cima da cama, encontrei um dos muitos cadernos que ela tem – ela tem muitos, porque desenha, escreve e pinta o tempo todo. Esse caderno que encontrei estava aberto em uma página escrita do início ao fim, que me chamou muito a atenção. “O que será que a interessou a ponto de ter escrito uma página inteirinha?”. Então deixei o pano de limpeza de lado, me sentei e fui ler. E foi esse texto acima – replicado no original abaixo – que encontrei. Ao terminar de lê-lo, eu estava chorando, com a mão direita espalmada sobre o peito, profundamente emocionada. E, por estar como muita brasileira, profundamente abalada por tudo o que tem nos acontecido, deixei-me cair em um choro sentido. Não sou sanitarista à toa, sou por escolha, porque escolhi utilizar os conhecimentos científicos a que tive acesso no privilégio que tive de acessar as melhores universidades públicas para ajudar as mulheres e as crianças do meu país. E me doeu profundamente ver que ela conhece a nossa realidade. Doeu porque eu, como mãe, desejava que ela vivesse em um mundo melhor. Mas doeu ainda mais por saber que nada sobre o qual ela havia escrito com sua escrita simples e objetiva de criança era mentira. Porque embora ela ainda não saiba a grafia correta de “acesso à educação”, ela já o reconhece como fundamental. E o que é um “assesço” à educação escrito por uma garotinha de 9 anos perto de um conje? Não é nada além de lindeza e esforço para expressar a indignação que sente por ver a dor de outras pessoas.

Não me dói saber que ela, tão nova, já sabe de tudo isso. Acho importante que ela saiba.

O que me dói é que eu, que ainda criança e por influência do meu pai já estava envolvida com a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, fundada por Betinho, o Herbert de Souza, irmão do Henfil, que tenho tatuado no braço, não sei como dizer a ela que eles sabem que há pessoas morrendo de fome.

Sim, eles sabem.

Mas que eles não se importam...

O que me dói é ter que explicar, muito em breve, para minha menina, o conceito de necropolítica. Uma política que não mata pessoas por não vê-las. Mata porque esse é o objetivo.

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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