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Dente que nasce, cocô que fica ácido: como assim? Mãe cientista quer saber

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Nesse texto, conto como encontrei uma possibilidade de resposta para a pergunta:

POR QUE O COCÔ DO BEBÊ FICA ÁCIDO QUANDO ESTÁ NASCENDO DENTINHO, PODENDO CAUSAR ASSADURA?

Em cerca de 4 dias, minha filha desenvolveu uma assadura monstruosa. Assim que começou, nós aumentamos a frequência de troca das fraldas, evitando que ela ficasse exposta ao xixi. Reforçamos o uso do amido de milho (Maisena e afins), que absorve a umidade e não contém fragrância (como os talcos convencionais), que poderiam piorar a irritação. Limpávamos bem a região com água fresca para evitar que ficasse ali qualquer resíduo. E nada era suficiente para reduzir a irritação, que estava deixando a região muito avermelhada.

Ela tem uma pele bem sensível, às vezes aparecem umas dermatites atópicas bem conhecidas minhas e da minha família, então estou sempre cuidando dela, sempre de olho. O melhor para ela (para ela, para  natureza, para todos os outros bebês também) seria eu ter usado desde o começo o diaper free, o elimination communication, ou em outras palavras: ela não deveria ter usado fraldas. Por desconhecimento meu e falta de informação, acabei optando por usar as fraldas descartáveis. Me arrependo... Não tive tempo hábil de me envolver nisso, aprender, realmente me dedicar.

Como de costume, liguei para uma amiga, que me perguntou logo de cara: “Ela está com dentinhos nascendo?”. Como os dois dentinhos superiores da frente - os incisivos centrais, já aprendi - já estão grandinhos, supus que os dos lados deles - incisivos laterais, oi odontologistas! - já estariam a caminho, então respondi que era provável que estivessem nascendo, sim. E aí ela mandou: “Amiga, é normal. Quando os dentinhos estão nascendo, é normal ter muita assadura mesmo”.

Oi?! O dente é na boca, a assadura é na região genital. Como é que é isso, gente?! E ela ainda me disse que não só existe como é bem comum.

Eu e o pai dela nos desdobramos em mais cuidados e nada de conseguir vencer aquela porcaria. Como tínhamos uma consulta marcada com a pediatra homeopata dela, aproveitei pra perguntar sobre isso. E lá vem a resposta: “Pode ficar tranquila! Isso aí é dos dentinhos nascendo - e me mostrou a gengiva toda inchadona dos incisivos laterais chegando... Prescreveu uma pomada e eu comecei o tratamento. E ela foi explícita: pode melhorar em 3 dias ou pode levar até 1 mês, depende do bebê”.

Fiz o tratamento e em poucos dias ela ficou ótimo, amém! Nem com a assadura ela se incomodou ou perdeu o bom humor, mas ter ficado tudo bem tão rápido tranquilizou os pobres corações materno e paterno.

Mas desde que me disseram que o nascimento dos dentes pode causar assaduras, bateu a dúvida: como é possível isso, fisiologicamente falando? E fui atrás de entender melhor essa relação. E em todo lugar, dos sites mais simplórios do mundo internético aos artigos científicos sobre saúde infantil, a única coisa que eu lia era "o nascimento dos dentes deixa as fezes mais ácidas e isso torna frequente o aparecimento de assaduras, as assaduras dos dentes".
Mas isso eu já sabia. Minha dúvida era:

“POR QUE O NASCIMENTO DOS DENTES DEIXA AS FEZES MAIS ÁCIDAS?”

Para uma cientista, o "porque deixa" não é resposta. Fui ler sobre o assunto, procurar uma resposta. E NÃO ENCONTREI! Nenhum artiguinho, nenhum profissional da área, ninguém, nada que explicasse o porquê do nascimento dos dentes deixar as fezes mais ácidas.

Então pensei bastante sobre o assunto e formulei uma hipótese, com os conhecimentos que eu tenho como doutora em Farmacologia e professora de Fisiologia. Não vou testar a hipótese, como pede o método científico, mas ela é bem plausível. Lá vai.

Quando os dentinhos da criança estão nascendo, isso não é um evento isolado. Outras mudanças no organismo dela acontecem. Qual a função dos dentes? É atacar os predadores mas, principalmente, ser uma ferramenta para alimentação, ainda mais no caso da espécie humana, que (esperamos) deixou de atacar os outros a dentadas faz tempo. Ou seja, o surgimento dos dentes simboliza "Oi corpo! Estou ficando pronta para comer de tudo! Logo mais, passarei dos alimentos simples aos mais complexos, tá?".

Se é assim, é provável que o nascimento dos dentes acompanhe uma mudança bem significativa no trato gastrointestinal, no sistema digestório. Para se preparar para receber alimentos mais complexos, situação simbolizada pelo nascimento dos dentes, o estômago começa a produzir mais suco gástrico, que contém, além das enzimas que quebram as proteínas, ácido gástrico, que é o ácido clorídrico. Esse ácido não corrói a parede interna do estômago porque ele produz, também, muco, que protege contra o ataque químico. Num organismo mais preparado, quando o alimento misturado com o ácido passa para o intestino, os demais órgãos do aparelho digestório - pâncreas, fígado, vesícula - vão liberando seus sucos, que neutralizam a acidez. Mas como no bebê tudo está em desenvolvimento, pode ser que essa neutralização não seja tão eficiente quanto deveria. E aí o que sai do estômago, passa pelo intestino e vai ser eliminado como fezes, acaba indo mais ácido também. Nessa fase, para não ter suas paredes atacadas, o intestino também começa a produzir mais muco, que continua a produzir durante toda a vida. É por isso que também é frequente encontrar, nessa fase, muco no cocô, porque o intestino o está produzindo como defesa à nova acidez. Encontrei vários artigos falando sobre como a presença de muco nas fezes, nessa fase da vida da criança, é um evento normal, embora ninguém se aprofunde a explicar o motivo disso.

Lá na frente, quando o aparelho digestório estiver mais acostumado, mais preparado, as fezes não serão mais ácidas, porque a acidez do que sai do estômago vai conseguir ser eficientemente neutralizada pelas coisas que aqueles outros órgãos lá - pâncreas, vesícula e fígado - produzem. E assim, será feita a paz entre os órgãos de boa vontade.

Para felicidade do bumbum.

Essa é uma explicação bastante razoável, ao meu ver.
E pode ajudar outras mães, pais e cuidadores a entenderem porque pode aparecer aquela assadura sem fundamento quando os dentinhos estão chegando.

É. A vida de uma mãe cientista é assim...
A gente vai buscando respostas enquanto vai sendo mãe. Tudo ao mesmo tempo agora.
Agora vou dormir. Que clareou enquanto eu escrevia...

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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