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OS EFEITOS NOCIVOS DA PUNIÇÃO PSICOLÓGICA CONTRA AS CRIANÇAS

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Não entendo! Primeiro, dizem que não pode bater.

E agora, que não pode por de castigo, não pode gritar, ser rude. Afinal de contas, como vou educar? Todo mundo sabe que precisamos ensinar as crianças a serem bem comportadas.

Elas precisam de disciplina!

Muito se fala sobre castigos físicos em crianças. Seus efeitos já têm sido estudados por um bom tempo (1). Vários países implementaram legislações para proibir o uso de castigos corporais e organizações internacionais têm debatido a eliminação dessa prática (2).

Porém, não é incomum que pais e cuidadores considerem castigos psicológicos como uma alternativa plausível para os castigos físicos.

Mas serão os castigos psicológicos realmente uma alternativa para os castigos físicos? Será isso que prega a disciplina positiva?

Humilhar/envergonhar/constranger crianças é um hábito muito antigo. Na Idade Média, o ritual de batismo incluía o exorcismo do demônio do corpo da criança. Alguns padres diziam que, se o bebê chorasse um pouco mais do que era considerado normal, ele estava cometendo um pecado. No século XVII, achava-se que os bebês nasciam cheios de sujeiras de pecados herdados dos pais.

Portanto, é uma antiga tradição culpar a criança pelos inúmeros desafios e dificuldades encontrados pelos pais. Infelizmente, esse jeito de pensar persiste até hoje (embora de modo menos extremo). Por exemplo, é comum taxar uma criança que está tendo um ataque de birra (ou tendo explosões emocionais, como preferimos chamar) de mimada, ou falar que ela está desafiando seus pais, ou acusá-la de só fazer isso para chamar atenção...

Nesse artigo vamos discutir um pouco sobre castigos psicológicos. Discutiremos a vergonha (o que é, quais possíveis efeitos de envergonhar/constranger a criança na tentativa de ensiná-la alguma coisa), e discutiremos um grande estudo epidemiológico sobre traumas de infância e efeitos a longo prazo. Finalmente, discutiremos algumas alternativas mais saudáveis a usar castigos psicológicos na educação.

A vergonha

Nas punições físicas, o fator limitador é a dor: a criança é machucada fisicamente para parar de fazer o que estava fazendo. Já nos castigos psicológicos, o fator limitador é a vergonha/constrangimento ou humilhação que a criança sente.

Ridicularizar, envergonhar, humilhar ou constranger a criança é uma tática poderosa para modificar o seu comportamento. É fácil: é só fazer a criança sentir que não tem valor, não tem poder, não tem amor, ou não tem controle sobre seu ambiente. Então, quando a criança se sente assim, ela rapidamente tentará ganhar a atenção, o amor de seus pais. E quando isso acontecer, voilá! Os pais terão a ilusão de que a tática funcionou! E é por isso que envergonhar as crianças é tão comum.

Os insultos: "Seu menino safado!", "Você está sendo infantil!", "Sua menina mimada!", "Bebê chorão!"

As comparações: "Por que você não pode ser mais assim, ou assado?", "Nenhuma outra criança age como você!", "Seu irmão jamais faria isso, ele é muito melhor que você".

As desmoralizações: "Bons meninos não fazem isso", "Menina ruim!", "Sua estúpida, burra!"

As expectativas de maturidade precoce: "Cresça!", "Pare de se comportar como um bebê!", "Engole esse choro, seja forte", "Meninos grandes não choram", "Grande assim e ainda usa fralda?".

As expectativas baseadas no gênero: "Aja como homem!", "Não seja uma menininha!", "Não está parecendo um menino, mas uma mariquinha!"

As expectativas baseadas em competências: "Você não tem jeito!", "Seu desastrado!" “Tinha que ser o/a fulano/a que fez isso!”

Mensagens de vergonha e humilhação (sejam verbais, ou conseguidas através de desdenhar, ignorar, mostrar desgosto) são significativamente difíceis de apagar. Poucas coisas podem ser mais destrutivas do que comparar um irmão ao outro ou uma criança a outra para ridicularizá-la, para afirmar que suas aptidões são escassas, para apontar falhas e pouca iniciativa. Isso gera sentimentos negativos que podem resultar não apenas em ódio em relação aos pais, mas em sentimentos de inferioridade e outros efeitos a longo prazo.

Quero conversar muito sério aqui: a verdade é que esses sentimentos de desvalorização e depreciação (causados pelos castigos psicológicos) podem causar cicatrizes profundas que podem demorar muito tempo para sarar (isso se um dia sarar). Isso porque as crianças são mais vulneráveis.

Vamos a seguir analisar porque essas atitudes têm potenciais efeitos danosos a curto e longo prazo e não são educativas.

O que é envergonhar?

A vergonha tem como função fazer com que a criança modifique seu comportamento através de sentimentos negativos sobre si mesmas. Geralmente envolve um comentário (direto ou indireto) sobre o que a criança é, fazendo com que ela se sinta mal, inferior. Ou seja, envergonhar dá à criança uma imagem negativa sobre o que ela é, não sobre o que ela fez (seu comportamento). E quando focamos em tratar só o comportamento, rapidamente pensamos em usar castigos ou táticas de envergonhar a criança, para que ela faça o que queremos.

Como pais, tendemos a usar a vergonha quando nos sentimos exaustos, irritados, frustrados, e quando sentimos a necessidade de controlar nossos filhos. Ou seja, atos que envergonham funcionam como válvula de escape para frustação dos pais: envergonhar libera raiva, e faz o envergonhador se sentir melhor - mas só temporariamente.

Embora seres humanos nasçam com a capacidade de sentir vergonha, ninguém nasce envergonhado. A vergonha é uma emoção aprendida, que começa a se manifestar por volta dos 2 anos de idade, quando a criança aprende uma linguagem e percebe sua própria imagem. A propensão de se envergonhar numa situação específica é aprendida, ou seja, sempre que há vergonha, há um envergonhador. Nós aprendemos a nos envergonhar porque alguém que nos é importante nos envergonhou. Mensagens de humilhação são muito mais poderosas se vierem de quem é próximo, de quem amamos, admiramos, e é por isso que o seu uso pelos pais pode ter efeitos muito profundos nas crianças (embora mensagens humilhantes de professores, irmãos e colegas possam também machucar a autoestima da criança).

Se consideramos que as punições verbais ‘funcionam’ porque mudam o comportamento da criança, estamos limitando perigosamente nossa visão da criança ao que conseguimos ver. Só vemos (e tratamos) a ponta do iceberg e ignoramos o interior da criança: as emoções que estão por trás de seu comportamento e o sofrimento causado pela vergonha.

 

Mas não há espaço para a vergonha?

John Bradshaw, em seu livro ‘Healing The Shame That Binds You’ (3) sugere que uma vergonha saudável venha do impacto claro de nossas ações nas nossa relações. Ela não vem de outras pessoas nos chamando de safados ou ruins.

A vergonha pode ter um papel saudável para os que têm maturidade suficiente para serem totalmente responsáveis por suas ações. Por exemplo, adolescentes ou adultos que cometam ofensas não podem ser reabilitados ao menos que sintam uma vergonha genuína por suas ofensas. Então, a vergonha não é sempre indesejável.

O problema é que envergonhar tem sido usado muito frequentemente e inapropriadamente, o que pode ser chamado de vergonha tóxica. Bradshaw diz que a vergonha tóxica é induzida nas crianças em todas as formas de abuso infantil, sendo que o incesto e outras formas de abuso sexual podem causar uma vergonha tóxica particularmente grave.

O custo da vergonha - o que dizem os estudos científicos?

Até bem recentemente, pouca consideração era dada aos possíveis efeitos danosos dos castigos emocionais e verbais, como envergonhar/constranger as crianças. Atualmente, psicólogos e cientistas têm se esforçado para estudar a vergonha em vários aspectos, incluindo como ela afeta as relações pessoais e a sociedade em geral (4).

Um estudo encontrou uma correlação entre agressões verbais e menor autoestima e desenvolvimento escolar em crianças (5). Um estudo recente (6) correlaciona a vergonha com desejo de punição. Os indivíduos que foram envergonhados têm mais chances de serem agressivos e de exibirem comportamentos autodestrutivos (7,8). Outros estudos mostram que a vergonha faz com que as pessoas se fechem para relacionamentos, se isolem, que tentem compensar esses sentimentos profundos com atitudes de superioridade, bullying, autodepreciação, perfecionismo obsessivo, e em alguns casos com comportamentos hostis e de fúria (9). Em casos severos, sentimentos de vergonha obsessivos podem contribuir para desenvolvimento de distúrbios mentais, uma possibilidade até recentemente ignorada. Nesse sentido, pesquisadores estão descobrindo conexões entre uma infância de humilhações e vergonha e condições como depressão (10), ansiedade (11), vício em drogas e comportamentos arriscados (12), distúrbios de personalidade, transtorno de obsessão compulsiva, distúrbios alimentares, fobias e disfunções sexuais (13).

Além disso, castigos verbais que envolvem frequentemente um constrangimento da criança são extremamente frequentes, ocorrendo em quase todas as casas e escolas. Um estudo canadense descobriu que somente 4% das crianças não tinham sido alvos de comentários de vergonha de seus pais, incluindo rejeições, diminuições, terrorismo, críticas destrutivas ou insultos (14). Esse estudo mostra claramente que envergonhar a criança é comum não só em famílias abusivas, como também é aceitável e comum em famílias gente boa.

Vergonha, auto-estima e ciclo vicioso

A imagem que temos de nós mesmos (nossas habilidades, qualidades, nossa natureza) é construída desde a primeira infância, através do que ouvimos sobre nós de quem amamos, de que se importam conosco. Então, as crianças se percebem da maneira que são percebidas pelos pais e cuidadores. Se estão constantemente recebendo mensagens de que são más, não valem nada, são burras; elas acabam correspondendo às expectativas, resultando na internalização da mensagem de que são inerentemente más. Ou seja: a autoestima determina o comportamento da pessoa, de modo que as crianças vão agir conforme se sentem interiormente. Se se sentem mal, se acreditam que são más (porque ouviram isso repetidamente), se comportarão mal. Infelizmente isso pode resultar num ciclo vicioso de humilhações. A criança se comporta mal, então ouve que é má, e corresponde à expectativa, se comportando mal novamente. Esse ciclo pode perpetuar até que os pais mudem de atitude.

Como exemplo, uma menina de 10 anos derruba seu suco e imediatamente começa a respirar ofegante até hiperventilar de tanta ansiedade, e exclama em voz alta: "Eu sou estúpida, muito estúpida!" Claro, essas foram as mesmíssimas palavras que ouviu de seus pais, repetidamente. Como ela vivia com medo do julgamento de seus pais, aprendeu a envergonhar a si mesma do mesmo jeito que foi envergonhada.

No entanto, às vezes, as crianças viram a mesa de forma negativa: elas reclamam que perderam todo o controle sobre suas vidas e acham então outra pessoa para controlar - geralmente alguém menor e mais vulnerável que eles (15, 16).

A vergonha inibe a expressão de todas as emoções - com uma exceção ocasional - da raiva. Pessoas que se sentem envergonhadas tendem a se expressar nos extremos: paralisar e inibir as emoções, ou com explosões de hostilidade e raiva, algumas vão trocando de um extremo a outro (14). Não há uma expressão corporal definida da vergonha, que permite que nos dissipemos dela. E essa é a razão pela qual os efeitos da vergonha duram por um longo tempo.

Vergonha e empatia

Com tudo isso, concluímos que a vergonha tem o poder de controlar o comportamento, mas não ensina empatia. Quando rotulamos uma criança frequentemente de safada ou algo parecido, ela rapidamente se preocupa consigo mesma e com a falha de agradar, aprende a se rotular, mas não aprende nada sobre como se relacionar, sobre como considerar ou compreender os sentimentos dos outros.

Para que a empatia se desenvolva, crianças precisam que nós mostremos como os outros se sentem. Ao chamar crianças de safadas, por exemplo, não indicamos nada à criança sobre como nós nos sentimos em resposta ao seu comportamento. As crianças não conseguem aprender a se importar com os sentimentos dos outros, ou como seu comportamento afeta os outros, enquanto estão pensando: ‘há algo de errado comigo’.

A única base verdadeira para moralidade é um sentimento profundo de empatia para o sentimento dos outros. Empatia não é necessariamente o que motiva o bom comportamento. Somos muito ingênuos de confundir obediência baseada na vergonha com comportamento motivado pela moralidade, e, inclusive, estudos recentes discutem essa questão e propõem que punições (físicas e psicológicas) diminuem a autoestima e enfraquecem as habilidades de resistir a tentações (17, 18).

Na melhor das hipóteses, envergonhar repetidamente leva ao conformismo superficial, baseado em desaprovação de escape e busca por recompensas. A criança aprende a evitar a punição ao se tornar submissa e obediente (e o mesmo é verdadeiro para as crianças submetidas a castigos físicos). Esse jogo de ‘boas maneiras’ não foi necessariamente baseado em respeito real e interpessoal.

O estudo ACE- o impacto dos traumas de infância a longo prazo

Um grande estudo visou entender as associações entre traumas de infância e consequências sociais e saúde a longo prazo. Guarde esse nome, esse é um dos maiores e mais importantes estudos da atualidade sobre o tema (que aliás ainda está em andamento pois ainda há muito o que se compreender), o ACE (Adverse Childhood Effects, em português Efeitos Adversos na Infância).

*Material sobre os estudos ACE (em inglês) pode ser encontrado na referência (19).

 

O estudo é coordenado por colaboradores do CDC, nos EUA, (Centers for Disease Control, o correspondente ao Ministério da Saúde, no Brasil) e o Instituto de pesquisa Kaiser Permanente, com a participação de mais de 17 mil pessoas que responderam a extensos questionários sobre sua saúde emocional e infância.

Os resultados revelam provas chocantes de como traumas na infância têm ligação com riscos à saúde e ao status sócio-econômico. O índice ACE vai de 0-10, e quanto maior seu índice, maior as possibilidades dos eventos mostrados.

O questionário para cálculo do índice ACE é o seguinte:

Antes de completar 18 anos:

1. Um pai/mãe ou cuidador na sua família sempre, ou quase sempre … te xingou, humilhou, insultou, te colocou para baixo? Ou agiu de forma que te pôs medo de ser machucado fisicamente?

Não
Se SIM, conte um ponto.

2. Um pai/mãe ou cuidador da família, frequentemente ou muito frequentemente…empurrou, pegou com força ou arremessou algum objeto em sua direção? Ou já bateu de forma a deixar marcas ou a ter injúrias graves?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

3. Um adulto ou pessoa mais velha 5 anos que você, já… tocou ou acariciou seu corpo de forma sexual? Ou tentou ou de fato teve sexo oral, anal ou vaginal com você?

Não
Se SIM, conte um ponto.

4. Você frequentemente ou muito frequentemente sentiu que … ninguém em sua família o amou ou o considerava importante ou especial? Ou sua família não cuidava de uns aos outros, não se sentia íntimo de um ao outro, e não apoiava um a outro?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

5. Você frequentemente, ou muito frequentemente, sentiu que … não tinha o suficiente para comer, ou tinha que usar roupas sujas, ou não tinha ninguém para lhe proteger? Ou seus pais estavam muito embriagados para tomar conta de você ou te levar ao médico se você precisasse?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

6. Você já perdeu um pai ou mãe biológica através de divórcio, abandono ou outra razão?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

7. Sua mãe ou madrasta: Frequentemente, ou muito frequentemente, era empurrada, pegada a força, chacoalhada, agredida ou tinha objetos arremessados em sua direção? Ou algumas vezes, frequentemente ou muito frequentemente, sofria chutes, mordidas, socos, ou era agredida com objetos? Ou era agredida por alguns minutos sem interrupção ou ameaçada com arma ou faca? (responda de acordo com o que você, quando criança, testemunhou).

Não
Se SIM, conte um ponto. 

8. Você morou com alguém com problemas de álcool ou uso de drogas pesadas?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

9. Algum membro da família tinha depressão ou outro problema mental, ou já tentou se suicidar?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

10. Algum membro da família já foi preso?

Não
Se SIM, conte um ponto. 

Agora some todas suas respostas ‘SIM”, esse é seu índice ACE. Leia mais no link da referência (20) sobre o que significa ter um índice ACE alto. Entre outras possibilidades, a tabela abaixo mostra probabilidades de desenvolver doenças cardíacas, tentar suicídio e outras, entre indivíduos com ACEs altos.

Mas nem tudo está perdido. Além do índice ACE, há o índice de resiliência, importantíssimo e que em alguns aspectos contrabalançaria o ACE (mas conclusões sobre isso ainda estão sendo estudadas). Para calcular o índice de Resiliência, marque a resposta mais acurada para cada questão:

A- Com certeza verdadeiro
B- Provavelmente verdadeiro
C- Não sei ao certo
D- Provavelmente não é verdade
E- Definitivamente não é verdade

1. Acredito que minha mãe me amava quando eu era pequeno/a
2. Acredito que meu pai me amava quando eu era pequeno/a
3. Quando eu era pequeno/a, outras pessoas ajudaram minha mãe e meu pai a cuidar de mim e eles pareciam me amar.
4. Ouvi falar que quando eu era um bebê, alguém na minha família gostava de brincar comigo, e eu gostava também.
5. Quando eu era criança, havia parentes que me faziam sentir melhor se eu estivesse triste, ou preocupado/a.
6. Quando eu era criança, vizinhos ou pais de amigos pareciam gostar de mim.
7. Quando eu era criança, professores, orientadores, figuras de poder ou líderes religiosos sempre me ajudavam.
8. Alguém em minha família se importava com meu desempenho escolar.
9. Minha família, vizinhos, e amigos sempre conversavam sobre melhorar nossas vidas.
10. Tínhamos regras em casa e era esperado que as seguíssemos.
11. Quando me sentia muito mal, quase sempre conseguia encontrar alguém que confiava para conversar.
12. Quando era jovem, pessoas percebiam que eu era capaz de fazer bem as coisas.
13. Eu era independente e bem sucedido/a.
14. Eu acreditava que a vida é o que você faz dela.

Quantos desses 14 fatores de proteção eu tive quando era criança e adolescente ? (Quantos marcou A ou B)

Desses, quantos ainda são verdadeiros agora na vida adulta?

O estudo ACE incluiu e analisou castigos físicos (além dos psicológicos) como parte dos possíveis traumas de infância. O motivo de trazê-lo para essa discussão foi para tentarmos compreender que qualquer punição na infância, o período mais vulnerável de nossa vida, pode ter efeitos deletérios e duradouros.

A essa altura, imagino que o leitor tenha a resposta para a pergunta inicial do texto:

Mas serão os castigos psicológicos realmente uma alternativa para os castigos físicos? Será isso que prega a disciplina positiva?

Após analisar esses estudos, a resposta fica evidente: não, não se troca castigos físicos por psicológicos e fica tudo bem. Isso não acontece.

Vamos agora focar em alternativas para desconstruir a vergonha

Não há dúvida alguma que ser pai e mãe pode ser frustrante, mas não faz sentido presumir que a criança está nos irritando de propósito. Essa maldade imaginada é geralmente que nos impulsiona a envergonhar a criança. Quero encorajar o leitor a perceber que é possível respeitar a criança e orientar limites com empatia, sem que seja preciso humilhar ou envergonhar a criança. Entretanto, isso requer uma mudança fundamental na atitude, começando com uma reavaliação do que achamos que motiva o comportamento da criança.

Entender em vez de envergonhar

É preciso sempre procurar entender o que motiva as crianças a se comportarem mal. Se não fizermos isso e as punirmos psicologicamente, arriscamos negligenciar suas necessidades e arriscamos interromper um processo de aprendizado que é apropriado ao estágio de desenvolvimento.

Alguns exemplos:

  1. Às vezes crianças repetem comportamentos agressivos, repetidamente, e isso pode ser devido a conflitos familiares, bullying na escola, ou competição com irmãos, é preciso investigar as possibilidades com calma.
  2. Crianças choram quando estão machucadas, e elas têm o direito de se expressar. Mesmo que seja duro de ouvir, temos que lembrar que é uma reação normal e saudável e que merece atenção. É trágico ver o quão frequente crianças são humilhadas por chorar.
  3. Crianças geralmente ‘mostram’ suas dores agressivamente, quando eles não sabem outra maneira mais segura de mostrar que estão sofrendo. Ironicamente, o fato de sofrer constrangimento por si só pode ser a causa por trás do comportamento difícil.
  4. Crianças são muito sensíveis às vibrações do ambiente, elas entendem e absorvem as tensões entre os pais e outros membros da família. Às vezes, o mau comportamento pode ser o modo da criança de reagir a essa tensão.
  5. Crianças são menos propensas a fazerem birras (explosões emocionais) se estão satisfeitas recebendo atenção, e sua fome por brincadeiras, descobertas e contato humano prazeroso está satisfeita.
  6. Crianças podem estar rabugentas ou difíceis simplesmente por estarem cansadas. Nesse caso, o que é considerado mau comportamento pode ser uma maneira da criança dizer "Estou no meu limite!" Curiosamente, nós adultos, quando reagimos com insultos verbais, estamos comunicando a mesma coisa.

Ao invés de envergonhar, atacar ou humilhar, podemos educá-las positivamente

Se focarmos em tratar o ser humano ao invés de tratar só o comportamento, seremos capazes de empatizar, ensinar e guiar positivamente para um comportamento melhor. Quando tratadas com o mesmo respeito que adultos, e expostas a adultos que respeitam um ao outro, crianças irão naturalmente desenvolver uma capacidade para comportamento empático, carinho e respeitoso. O que podemos fazer?

Disciplinar com conexão e vínculo. Entenda que crianças calmas, conectadas, absorvem informação muito melhor. Perceba que as punições não são efetivas para uma disciplina com vínculo. É isso que chamamos de disciplina positiva (disciplinar, do verbo ‘guiar’, o que não tem nada a ver com castigar).

Quando estão brincando, seus cérebros estão muito receptivos, ótima oportunidade para ensinar comportamentos apropriados.

Consequências que ensinam, não que humilham. Consequências que são apropriadas e ensinam como resolver problemas são muito mais efetivas a longo prazo. A consequência deve ser relacionada ao comportamento que se tem intenção de ensinar, não a fazer a criança se sentir mal consigo mesma.

Cultivando empatia através da memória. Pais frequentemente fazem com seus filhos o que foi feito com eles. É sabido que a violência se perpetua em ciclos através das gerações (14). Muitos pais percebem que estão perpetuando esse ciclo quando eles começam a envergonhar seus filhos, da mesma maneira que seus pais lhe fizeram. Para mudar, é preciso ter uma profunda empatia com a criança, e isso acontece quando lembramos como nos sentimos quando éramos crianças. Procure ajuda, terapia se for o caso. É importante entender nossos traumas para lidar saudavelmente com nossas crianças, sem envergonhá-las.

Lidando com emoções. Como pais, não é incomum estarmos cansados, frustrados, às vezes quase explodindo. Quando não encontramos modos saudáveis de descarregar frustações, arriscamos fazê-los em nossos próprios filhos. Crianças são crianças, e o fato de que cuidar delas pode ser difícil não é culpa delas, elas não exigem demais porque querem irritar. Há muitas maneiras de redirecionar o excesso de raiva, como gritar num travesseiro, andar, ou conversar com amigos. Toda capacidade de amar é finita, somos humanos. Quando estamos no limite, precisamos de ajuda. Peça ajuda, aceite ajuda, de amigos e da comunidade. Quando dizemos ou fazemos algo que causa constrangimento em nossos filhos, leve isso como sinal de que estamos precisando de mais ajuda.

Deixe que eles se expressem e respeite seus sentimentos. Abrace. Acolha. Use palavras empáticas (sugestão de leitura: referência 21).

Não intervenha a cada impulso, redirecione quando possível. Precisamos lidar com o impulso de intervir nas atividades das crianças, quando achamos que a criança vai se machucar ou um objeto vai quebrar. Ao invés de constranger a criança para evitar esse tipo de situação, podemos oferecer uma atividade alternativa mais saudável. Além disso, agressões ocasionais são parte de um desenvolvimento normal. Crianças são frequentemente envergonhadas e punidas por isso, ao invés de serem orientadas a outras maneiras de canalizar sua agressão natural com segurança.

Dê o exemplo. Dar o exemplo é a ferramenta mais poderosa na educação. As crianças não fazem o que você fala, mas o que você faz. O tipo de respeito que eles mostram aos outros e a eles mesmos é um reflexo do tipo de respeito que foi mostrado a eles- e o respeito que eles testemunharam entre as pessoas importantes em sua vida. Estamos sendo bons exemplos para o tipo de comportamento que queremos que nossos filhos tenham?

Entenda seus estágios de desenvolvimento. Mau comportamento ou estágio de desenvolvimento? Às vezes o que condenamos como mau comportamento é simplesmente uma tentativa da criança de saciar alguma necessidade dela da melhor maneira que ela encontrou. Talvez, ela esteja tentando dominar uma nova habilidade.

A curiosidade incessante das crianças - um alvo frequente para castigos psicológicos - é o que as leva a conhecer e aprender o mundo. Quando as crianças são encorajadas a explorar de modo seguro ao invés de serem castigadas, sua autoestima cresce. Infelizmente, frequentemente chamamos um comportamento supernormal de exploração, que é totalmente apropriado de acordo com a idade, de safadeza, malcriação, simplesmente porque desafia nossa necessidade de ordem, ou porque cria um problema para nós.

No período que se costuma chamar de terrible twos (e pelos próximos anos), crianças estão descobrindo como estabelecer seus próprios limites. Nesse período podem ser egoístas, possessivas, exuberantes, curiosas, impacientes, até hostis. Uma criança de 3 anos que desafia sua mãe porque não quer guardar seus brinquedos – após a mãe ter pedido que ela o fizesse várias vezes - pode estar tentando encontrar uma autoidentidade separada e distinta. Eles estão aprendendo a proclamar sua individualidade, seu senso de motivação. Isso é imperativo para que eles aprendam a se defender, a se sentirem fortes e para resistir a poderosas pressões de grupos mais tarde em suas vidas. Ou seja: crianças pequenas podem ser irritantes. Mas isso não significa necessariamente que estão comportando-se mal. Limites são essenciais, mas se as crianças se sentem envergonhadas por suas tentativas desastradas de adquirir autonomia, elas não podem caminhar para a maturidade e confiança. Em outras palavras: se insistirmos em esmagar sua desobediência, em envergonhá-los até que sejam submissos, estamos lhes ensinando que estabelecer limites para eles mesmos não é permitido.

Outro exemplo do que acontece quando não sabemos os estágios de desenvolvimento: muitas crianças são treinadas para o desfralde muito precocemente, antes de terem de fato o controle voluntário dos esfíncteres. Esse desfralde precoce se torna uma batalha, com crianças sendo envergonhadas e punidas por uma inabilidade natural da idade deles.

Até bebês são considerados mal-educados, quando por exemplo não dormem quando deveriam. Como é possível que um bebê de 5 meses, por exemplo, seja safado por não conseguir adormecer? Embora seja difícil para os pais de bebês que passam por períodos de sono interrompido, não faz sentido algum rotular um bebê de desobediente.

Já avançamos muito sobre nosso entendimento de desenvolvimento infantil nas últimas décadas. Informe-se, estude (veja ótimas indicações de livros na referência 22). Quando temos expectativas reais, diminui-se a chance de encorajar a criança a ter um comportamento precoce para seu estágio de desenvolvimento, causando-lhe constrangimento e humilhação.

E agora?

Muitas pessoas ainda estão convencidas de que bater e humilhar são os únicos antídotos para prevenir comportamentos antissociais em crianças. Quando se fala em deixar essas práticas de lado, muitos interpretam como se estivéssemos sugerindo tirar todo o poder dos pais, ou culpando-os, ou ainda, que sejam permissivos e deixem a criança fazer tudo o que quiser. Mas não! Na verdade, os limites mais efetivos e saudáveis e que resultam em crianças com melhor autoestima são os que são orientados sem violência ou humilhação.

Quando você se propõe a usar esse novo paradigma para orientar limites de forma respeitosa, sem envergonhar ou humilhar, as crianças desenvolvem, gradualmente, uma capacidade de ouvir e compreender os sentimentos dos outros. Crianças criadas sem castigos, com comunicação clara e empática e bons exemplos têm mais chances de fazer as escolhas certas, porque:

1. Serão mais receptivas aos nossos conselhos, até na adolescência!
2. Aprenderão a lidar com suas emoções
3. Terão mais autodisciplina, que foi desenvolvida através de limites orientados com empatia.

Por outro lado, crianças que foram punidas não estão escolhendo aquele limite/comportamento, mas foram forçadas a isso. Então, elas não exercerão uma autodisciplina, assim como aquelas que não tiveram limites (permissivismo). É possível também que a criança que sofreu punições não siga suas orientações quando quem lhe pune não esteja vigiando, ou seja: limites estabelecidos por punição não funcionam.

Essa linha (que chamamos de disciplina positiva) é obviamente mais trabalhosa e demorada, mas é mais saudável e ensina de fato, não só condiciona, pois considera que há um ser humano valioso por trás daquele comportamento.

Mas… Se usarmos disciplina positiva, com muita paciência e empatia, e mesmo assim seu filho ainda não quer cooperar? Oras, isso acontece às vezes! Todas as crianças têm dias em que suas emoções estão à flor da pele (adultos também!). Reconectar, mostrar mais empatia, e mais paciência, às vezes usar um pouco de humor ou até chorar junto com eles... ou até só ficar quieto, respirando e mostrando, com sua presença calma e amorosa, que está lá até a crise passar. E aos poucos conseguiremos ajudar as crianças a lidar com essas emoções e a cooperar, sem ter que fazê-los passar por situações humilhantes ou vexatórias.

Termino esse texto aqui com uma citação do autor do maravilhoso livro ‘Longe da árvore’ (23):

"Quando sentimos vergonha, não conseguimos contar nossas histórias. E as histórias são a fundação de nossa identidade," Andrew Solomon.

Agradecimentos pela revisão e colaboração: Fernanda Mainier Hack

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Referências:

1-            Mortensen, ACK. Apanhado de pesquisas científicas sobre castigos físicos, 2015: https://www.facebook.com/notes/787307108020500

2-            Global Initiative to End All Corporal Punishment of Children: http://www.endcorporalpunishment.org/

3-            Bradshaw, J, Healing the Shame That Binds You, Tantor Media Incorporated, 2014. ISBN 1452623619, 9781452623610.

4-            Armsworth M W, Holaday, M. The Effects of Psychological Trauma on Children and Adolescents. DOI: 10.1002/j.1556-6676. 1993 .tb02276.x. Journal of Counseling & Development. 72 (1): 49–56.

5-            Solomon CR, Serres F. Effects of parental verbal aggression on children's self-esteem and school marks. Child Abuse Negl. 1999. 23(4):339-51. PubMed PMID: 10321771.

6-            Goodwin GP, Gromet DM. Punishment. Wiley Interdiscip Rev Cogn Sci. 2014. 5(5):561-72. doi: 10.1002/wcs.1301. PubMed PMID: 26308745.

7-            Loader P. Such a shame—a consideration of shame and shaming mechanisms in families. Child Abuse Review. 7 (1): 44–57. 1998. DOI: 10.1002/(SICI)1099-0852(199801/02)7:1<44::AID-CAR334>3.0.CO;2-7.

8-            Tangney JP, Wagner P, Fletcher C, Gramzow R. Shamed into anger? The relation of shame and guilt to anger and self-reported aggression. J Pers Soc Psychol. 1992. 62(4):669-75. PubMed PMID: 1583590.

9-            Harper, F W K, Arias, I. The Role of Shame in Predicting Adult Anger and Depressive Symptoms among Victims of Child Psychological Maltreatment. Journal of Family Violence. 2004, 19 (6): 359-367. DOI: 10.1007/s10896-004-0681-x.

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22-          Vários autores, livros sobre maternidade/paternidade: http://cientistaqueviroumae.iluria.com/-livros-maternidade-paternidade-ct-64b78

23-          Solomon, A. Longe da árvore. Companhia das letras, 2013. ISBN 9788535923209

Este texto foi publicado mediante financiamento coletivo de leitoras e leitores e apoio do Instituto Alana.

Andreia Mortensen

Autora: Andreia Mortensen

É bióloga, mestre e doutora em Bioquímica, pós-doutora em Neurociências e Neurobiologia, Professora-pesquisadora na Drexel University College of Medicine na Filadélfia, EUA, mãe do Lucas e Isabella. Escreve aqui sobre criação não violenta de filhos e faz críticas sobre como a mídia divulga informações sobre o sono das crianças e sobre amamentação, baseadas sempre nas mais recentes evidências científicas e com o empoderamento que a maternidade lhe conferiu.

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