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NÃO HÁ NADA DE DULCE DELIGHT NA DISCRIMINAÇÃO CONTRA AS CRIANÇAS - Um convite a repensar o preconceito e a discriminação

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Aquelas coisas que acontecem vez ou outra. Errado, infelizmente muito errado: aquelas coisas que acontecem todos os dias. Discriminação contra as crianças. Gente defendendo que elas sejam, sim, impedidas de adentrar espaços que não oferecem riscos a elas. A gente fala tanto sobre isso... Tantas organizações e instituições no Brasil e no mundo lutando pelos direitos das crianças, para que sejam tratadas de maneira respeitosa, não violenta, sejam vistas como seres detentores de direitos e, infelizmente, ainda temos que fazer textões para chamar as pessoas que AINDA não refletiram sobre o prejuízo social e cultural imenso dessa discriminação a refletirem sobre o que falam, o que defendem e as portas que abrem para o preconceito. Não tem problema, a gente fala de novo.

Fui chamada por outras ativistas em uma postagem em que uma moça defendia a discriminação contra as crianças praticada por um restaurante. Eu não a conhecia, nunca havia ouvido falar nela e isso se deve à minha total desatualização culinária, não ao fato dela ser uma boa ou má profissional, que fique claro. Eis a postagem:

 

 

Não preciso dizer o quanto me causa mal estar, em pleno século XXI, final de 2016, deste ano que nos presenteia com uma bofetada na cara por dia (a de hoje foi essa aí do link, da qual agora só o Senado poderá nos salvar, o que também é bastante simplório pedir da minha parte...), ler uma postagem como essa. Ainda mais de alguém que tem um grande alcance. Gera mal estar, indignação, tristeza e aquela sensação de “Mas de novo?!”. Pois é. De novo. E é até bem ingênuo que eu me espante porque, afinal, infelizmente ainda não é todo mundo que passou a olhar para a situação das crianças e de seus direitos por outros lados, com outros olhares, de maneira mais empática, como pede a mudança que queremos ver no mundo... A não ser que não queiramos essa mudança tanto assim...

Li alguns comentários nesta postagem original, que alcançou em menos de 3 horas mais de 4 mil curtidas e 120 compartilhamentos. 4 mil pessoas dizendo que tudo bem achar isso legal. Entende como todos temos responsabilidade sobre o teor do conteúdo produzido e as consequências disso? Uma porta aberta para 4 mil pessoas manifestarem seu apoio à discriminação das crianças. Fui percorrendo a página e encontrei essa outra postagem, da mesma autora, feita pouco após a primeira.

 

 

E então vi que, na verdade, não havia maldade ou cinismo ou intenção escusa na manifestação dela, como há em outras produtoras de conteúdo que, deliberadamente, comparam cachorros franceses às crianças brasileiras, por exemplo. Havia extremo desconhecimento de muitos pontos da realidade. Da realidade das mães, das crianças, dos pais, da dinâmica social brasileira. Então, destinei alguns minutos para deixar a ela um comentário que é, na verdade, um convite para que ela possa repensar suas afirmações e perceber como são nocivas. Por reconhecer o quão comum, infelizmente, é a defesa cotidiana da exclusão das crianças, compartilho aqui o comentário - já que ela apagou na sequência - para estender a outras pessoas o convite a repensar esse discurso.

Caso ainda sejam necessários outros argumentos, um dos primeiros textos tornados possíveis pelo esforço coletivo de leitoras e leitores da plataforma Cientista Que Virou Mãe, com o apoio do Instituto Alana, foi justamente sobre esse assunto. Fica o convite à sua leitura também: Proibida a entrada de animais e crianças – O que a naturalização da exclusão das crianças está produzindo na sociedade?

Abaixo, o comentário que deixei na postagem acima e que foi apagada. Com a sincera esperança de que ele sirva como um convite a repensar esse comportamento infelizmente ainda tão comum. E somente após publicá-lo é que eu soube que, de fato, ela não mora no Brasil, embora seja brasileira. O que não a desobriga a pensar na realidade das mulheres do país para o qual destina conteúdo. 

 

"Bem, em primeiro lugar, não pode ser considerada "saudável" uma "discussão" que foi iniciada porque você instigou, apoiou e fortaleceu a exclusão e discriminação de crianças. É o mesmo que fazer um post celebrando que pessoas negras, pessoas idosas, pessoas com deficiência e todos os demais grupos sociais que são historicamente excluídos (como são as crianças) foram impedidas de acessar um espaço que não representa risco potencial a elas e dizer que a discussão que se seguiu foi “RESPEITOSA”. Não tem como ser respeitosa uma discussão que começa com um desrespeito e uma violência imensa.

Em segundo lugar, não adianta desviar o foco do “AS MÃES SE CONDOERAM” para “CADÊ OS PAIS?”. Isso mostra um total desconhecimento da realidade não apenas das mães, mas das mulheres, crianças e pais como um todo. Mostra um desconhecimento do fato de que mais de 80% dos cuidadores de crianças são, na verdade, CUIDADORAS. Mulheres. Portanto, não poderia ser esperado que homens viessem aqui reivindicar o direito que ELES têm de levar as crianças em qualquer lugar. Porque são ELAS quem cuidam.

Um outro ponto é: preocupante mesmo, mas muito preocupante, é o fato de você achar que as mulheres assumem a responsabilidade exclusiva de um filho porque querem. Vou te fazer uma pergunta porque realmente não sei a resposta, já que não conheço seu trabalho: você mora no Brasil? Ou mora na França, a quem enalteceu por proibir a entrada de crianças? Porque se você morar no Brasil, seria muito recomendável conhecer mais e melhor a realidade brasileira. Especialmente a realidade das MULHERES MÃES BRASILEIRAS, sobre quem você se refere. Conhecendo essa realidade, vai entender que assumir a responsabilidade exclusiva de um filho não é, NA IMENSA MAIORIA DOS CASOS, um ato voluntário das mulheres. As mulheres não acordam um belo dia e “Ah, hoje eu vou assumir totalmente o cuidado com os meus filhos porque eu quero, porque sou heroína, porque dou conta e posso”.

Elas simplesmente são sobrecarregadas compulsoriamente por inúmeros mecanismos sociais aliados à ausência paterna. Você foi criada por quem? A maioria das pessoas que conhece foi criada por quem? Se você me responder  “por meu pai” ou “foram criadas por seus pais” saiba que essa é uma situação rara e que isso seria um contexto de imenso privilégio.  Porque aqui no Brasil as cuidadoras são as mulheres – mães, avós, cuidadoras profissionais, educadoras, etc.

Por isso, não adianta você fazer um apelo aparentemente muito empático como “mulheres do meu <3 se cobrem menos, se  permitam mais, podem reclamar, podem tirar folga dos seus filhos” quando isso não tem nada de empático, entende? Porque essas mulheres simplesmente não podem se cobrar menos. Não podem se permitir mais. Não podem tirar folga dos seus filhos porque elas simplesmente não têm com quem contar... E, de fato, talvez a única coisa que elas têm (ainda) é o direito de reclamar.

Pense em como soa antipático, elitista, classista, alienado dizer isso para mulheres brasileiras, ainda que você não seja nada disso (repito, não te conheço, por isso não posso te julgar). Mas é essa a conclusão a que se chega quando se lê seu post anterior – em que você defende a exclusão das crianças – como se isso fosse uma grande coisa, uma coisa bacana, justa e que outros estabelecimentos deveriam seguir.

Outro problema de se fazer esse tipo de afirmação pública é a abertura que você dá para todo tipo de opinião horrível a respeito de crianças. Gente que se sente muito à vontade para dizer que crianças deveriam ser excluídas mesmo. E isso só foi possível PORQUE VOCÊ abriu as portas.

Por que nos chocamos com a exclusão das pessoas negras?

Por que nos chocamos com a exclusão das pessoas com necessidades especiais, quando estas são chamadas de “defeituosas” por um candidato eleito, por exemplo?

Por que nos chocamos com a exclusão de mulheres?

Por que não nos chocarmos com a exclusão das crianças?

Que tipo de mundo você pretende criar e estimular quando acha bacana que estabelecimentos, na contramão de recomendações das melhores e mais influentes organizações internacionais em defesa dos direitos humanos, impede o livre acesso das crianças? Enfim...

Fica aí meu convite para que você reflita novamente sobre sua afirmação. Quem sabe você não repense, não pense por outros lados, não consiga ver, à luz desses argumentos e de tantos outros que eu poderia vir te apresentar aqui, quão mesquinho, cruel e fascista seu comentário foi?

Tem muita gente perguntando se você é mãe. Ou dizendo que você só pode NÃO ser uma. Pois eu digo que você não precisa ser uma mãe pra entender como a defesa da exclusão e discriminação contra as crianças é nociva, cruel, desumana e fere não apenas o Estatuto da Criança e Adolescente, mas também uma série de outras resoluções legais. Se for esta a imagem que você está querendo construir sobre si mesma e seu trabalho, legal, está no caminho. Mas se não for, sempre é tempo de voltar atrás e pensar novamente.

Excluir as crianças é patriarcal, higienista, controlador e demonstra uma grande incapacidade de acolher a diferença. Além de ser crime. Caso queira ler mais a respeito, deixo aqui um texto-convite.  

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).